PIRATARIA É CRIME!?! ANÁLISE DA QUESTÃO SOB UM PRISMA PRINCIPIOLÓGICO.

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1 PIRATARIA É CRIME!?! ANÁLISE DA QUESTÃO SOB UM PRISMA PRINCIPIOLÓGICO. THALES PONTES BATISTA Advogado-sócio da Paulo Albuquerque Advogados Associados, especialista em Direito do Consumidor, Direito Imobiliário, Notarial e Registral, membro da Comissão de Defesa do Consumidor da OAB- Ceará. Falar hoje em pirataria é um tema bastante polêmico. Quantas vezes já ouvimos o refrão pirataria é crime. Todavia, a sociedade, em sua grande maioria, aceita tal prática sem maiores restrições. Por que isso ocorre? Bem, temos que a questão, pelo prisma criminal, deve ser tratada, em primeira análise, pelas legislações especiais, mormente o disposto nas leis nºs 9.609/98 e 9.610/98, que tratam sobre propriedade intelectual e direitos autorais, e em último plano, de forma residual e subsidiária, pelo Código Penal. Isso porque, como sabido, em nosso direito as normas especiais, de mesmo valor hierárquico, devem prevalecer sobre as normas gerais. No âmbito civil a questão, pelo mesmo motivo acima exposto, deve inicialmente ser regrada pelo Código de Defesa do Consumidor, e, por fim, pelo Código Civil.

2 Sem adentrar muito nos mandamentos legais específicos, posto que isso já foi objeto de demasiados estudos, por parte de vários doutrinadores e articulistas, iremos aqui verificar a questão mais por um prisma principiológico a partir de nossa Carta Magna, isso porque os Princípios, mormente os constitucionais, devem ser a base, o sustentáculo e ponto de partida, de toda e qualquer norma legal. de Mello: Nesse passo, convém lembrar a lição de Celso Antônio Bandeira Violar um princípio é muito mais grave do que transgredir uma norma. A desatenção ao princípio implica ofensa não apenas a um específico mandamento obrigatório, mas a todo o sistema de comandos. É a mais grave forma de ilegalidade ou inconstitucionalidade, conforme o escalão do princípio atingido, porque representa ingerência contra todo o sistema, subversão de seus valores fundamentais, contumélia irremessível a seu arcabouço lógico e corrosão de sua estrutura mestra 1. No mesmo sentido Ricardo Cunha Chimenti: Os princípios traduzem os valores fundamentais da sociedade sobre determinada matéria e têm valor superior àquele dado às regras 2 Seguindo esse norte, o legislador pátrio não só protegeu a propriedade, no presente caso, intelectual, como recepcionou o princípio do enriquecimento ilícito. Assim, não pode haver o decréscimo do patrimônio de uma pessoa em decorrência de qualquer relação que seja, sem que haja, por outro lado, um acréscimo no 1 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. 5ª ed. São Paulo, Malheiros, 1994, pg CHIMENTI, Ricardo Cunha. Direito Tributário Vol 16 Coleção Sinopses Jurídicas. 6ª ed. São Paulo, Saraiva, 2003, p.22.

3 patrimônio da outra parte negociante, uma vez que a atividade comercial indevida em tela é tida como bilateral e onerosa e, assim sendo, composta por prestações sinalagmáticas. Assim, para trazer maiores subsídios à questão, cumpre transcrever, na íntegra, acompanhado de breves comentários, o disposto nos arts. 3º ao 5º da Lei de Introdução ao Código Civil, Decreto-Lei 4657/42, isto porque rico de conceitos relacionados ao conteúdo e funções, aplicação, integração e interpretação das normas jurídicas, usando para isso de princípios, analogia, costumes e noções de equidade. Art. 3o Ninguém se escusa de cumprir a lei, alegando que não a conhece. Comentário: Este é um princípio geral do direito, consagrado como princípio da publicidade. Justamente por ele existe a vacatio legis. Sabe-se que seria impossível que um cidadão conhecesse todas as leis, mas se assim não o fosse a lei não cumpriria o seu requisito de imperatividade perante a sociedade, necessário à sua efetiva aplicação. A lei é pública e todos têm acesso a ela, de tal maneira que é impossível a alegação de ignorância, isto já é de comezinha sabença. Art. 4o Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais de direito. Comentário: Analogia, costumes e princípios gerais de direito fontes formais de direito - são maneiras de preencher as lacunas da lei. Na analogia se utiliza de uma norma que regula uma situação

4 semelhante àquela sem norma que a regule. Costumes são reiterados hábitos sociais, tidos como corretos. E princípios gerais de direito são as bases norteadoras dos doutrinadores e juristas. Art. 5o Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum. Comentário: O Direito surgiu com o escopo de regular a vida em sociedade. Não teria sentido que os fins sociais não fossem o objetivo máximo da aplicação da lei. Entende-se como exigências do bem comum, tudo aquilo que for o mais benéfico para toda a sociedade, até mesmo porque o interesse da coletividade será sempre mais importante que os direitos individuais. Assim cabe-nos primeiramente questionar se as normas hoje existentes são suficientes para regular o assunto de forma satisfatória ou se estamos diante de matéria lacunosa, dada as várias formas e intensidades com que a pirataria pode se manifestar no seio da sociedade. Havendo tais lacunas, como visto acima, a integração, interpretação e aplicação de tais normas, deverá se dar com base, dentre outros, em princípios e costumes. Partindo desse raciocínio lógico outra pergunta surgiria. Nossos costumes e princípios hoje existentes, mormente os ligados à harmonia e paz social, livre iniciativa do trabalho, valorização do ser humano, dignidade da pessoa humana, boa-fé e bons costumes, dentre outros amplamente defendidos na Constituição Federal, e nas

5 normas infraconstitucionais, sobretudo as pós-constituição, como é o caso do novo código civil, são, dentro de uma interpretação sistemática, contrários ou favoráveis à prática da conduta aqui estudada. A partir dessa resposta teríamos que repensar a legislação hoje existente para uma melhor adequação ao verdadeiro clamor social. Enfim, a razão de toda essa tese argumentativa é saber realmente o que espera a sociedade, pois não seria a primeira vez que costumes revogariam uma norma jurídica. A título de exemplo basta citarmos aqui o recente caso, noticiado largamente na mídia, onde a própria comitiva presidencial de nosso país assistiu tranquilamente a uma filme pirata a bordo do jatinho do governo. ISTO POSTO, temos que a questão da pirataria deve ser vista como um verdadeiro fenômeno social, onde os costumes, princípios constitucionais, mormente os ligados à área econômica e aos direitos e garantias individuais dos cidadãos, podem estar se sobrepondo a normas infraconstitucionais, em sua maioria, a bem da verdade, em vigor, mas sem eficácia jurídica, portanto sem a eficiência delas esperada, o que pode vir a representar até mesmo uma revogação tácita dos ditos dispositivos. Muito se fala sobre o que estaria por trás dessa atividade comercial dita irregular. Drogas, crimes de maior porte, armas, enfim, o que tem realmente comprovado acerca de tudo isso.

6 Sabe-se que em um país como o nosso, pobre e bastante populoso, muitas vezes a informalidade é o único meio de sobrevivência de grande parte dos brasileiros, pois como sabido, falta emprego para a população, sobretudo os menos qualificados e favorecidos. Além de tudo isso, vendo pelo prisma do consumidor, há uma enorme discrepância, entre os preços praticados no mercado formal e o praticado no chamado mercado informal. Por que isso ocorre? Como fica a situação do consumidor menos favorecido economicamente? Como fazer os bens de produção chegar ate esse consumidor? Os preços hoje praticados não seriam uma forma de exclusão social? Quem pode hoje realmente ir a uma casa de cinema e comer sua pipoca com refrigerante? Os chamados camelôs vivem constantemente sendo perseguidos. O mesmo acontece com os sacoleiros. O que se dizer então de donos de restaurantes muito conhecidos da população que transmitem livremente jogos em telões prejudicando a renda nos estádios, muitas vezes sem qualquer autorização para tal prática; e os donos de rentosas barracas de praia, exercendo atividade econômica deveras lucrativa em espaços públicos privilegiados (sobre o tema ver Ilegalidade das barracas de praia no Estado do Ceará, no link e as lojas de grife, com sede em shoppings centers, vendendo produtos cuja peça, muitas vezes, já é comprada com o processo produtivo já totalmente finalizado, apenas se inserindo na dita peça dada marca tão cobiçada pelos consumidores; e as inúmeras operações que são realizadas, via internet, todos os dias, envolvendo bens sem

7 procedência, dentre outros inúmeros exemplos que poderíamos ficar aqui exaustivamente citando. Todavia o que se quer aqui colocar é por que a questão não é tratada de uma forma macro, vendo realmente o problema como deveria ser visto. Por que apenas os mais infortunados são perseguidos no exercício dessa atividade dita ilegal. Só se fala nos CD s, DVD s e aparelhos eletrônicos piratas, vendidos geralmente em locais mais populares. O problema é bem maior e requer um estudo bem mais apurado e responsável do tema por parte das autoridades responsáveis, com dados verdadeiramente estatísticos e científicos da situação. Não se que olvidar que tal prática traz sim sérios prejuízos aos profissionais de cada um dos ramos envolvidos, sabe-se que há também prejuízo ao Fisco com o não pagamento dos tributos. TODAVIA, QUE SE DEIXE BEM CLARO, QUE NÃO SE QUER AQUI, DE MANEIRA ALGUMA, FAZER UMA APOLOGIA AO CRIME, O QUE SABEMOS, TAMBÉM É CRIME, PELO CONTRÁRIO, ATÉ MESMO PORQUE CITADAS GRANDE PARTE DAS NORMAS QUE ENVOLVEM O TEMA, MAS APENAS DESPERTAR A CONSCIÊNCIA DAS AUTORIDADES E DA SOCIEDADE COMO UM TODO, EM SEUS MAIS VARIADOS SEGMENTOS, PARA REPENSAR A SITUAÇÃO, MAS COM UMA VISÃO NOVA, CRÍTICA E RESPONSÁVEL DO PROBLEMA, SEM DISCRIMINAÇÕES E PERSEGUIÇÕES, SEM SOLUÇÕES PALIATIVAS, MAS SIM VENDO O PROBLEMA POR VÁRIOS PRISMAS, INCLUSIVE O SOCIAL, PARA SE BUSCAR SOLUÇÕES MAIS CONCRETAS E EFETIVAS. NÃO SEJAMOS HIPÓCRITAS, ENFRENTEMOS O PROBLEMA DE FRENTE. TALVEZ FOSSE O CASO DE SE FAZER TODA UMA

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