ANO 4 N.17 SALVADOR/BA SET, 2006 ISSN:

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1 Relações Públicas e Meio Ambiente: reflexões interdisciplinares por um desenvolvimento sustentável das organizações na perspectiva da responsabilidade socioambiental Marcello Chamusca Estudante de Relações Públicas Márcia Carvalhal Estudante de Relações Públicas INTRODUÇÃO O mundo contemporâneo traz na sua nova configuração grandes paradoxos, em que, de um lado avançam as tecnologias digitais com todas as suas especificidades, transformando radicalmente a forma do consumo de informações e a conseqüente relação do homem com o meio ambiente, e de outro, se busca na essência da natureza, em ambientes nada tecnológicos, inspiração para o desenvolvimento de modelos de gestão e controle da produção, que permitam a identificação de níveis que uma sociedade pode impactar os ecossistemas, sem maiores prejuízos ao meio ambiente. Apresentação e Justificativa Chegamos em um momento que não há mais como negligenciar as questões ligadas ao meio ambiente, sendo ingênuos o suficiente para imaginar que em um curto período de tempo podemos alterar o que a natureza levou bilhões de anos para construir, e mais do que isso, acreditar que as nossas alterações não afetarão significativamente o sistema ambiental e não poderão como conseqüência trazer grandes malefícios (DIEGUES, 1994). Por outro lado, sabemos que o fator econômico é predominante na sociedade contemporânea e que não há como retroceder, fugindo da alta competitividade imposta pelas novas configurações de um mundo cada vez mais tecnológico e informacional. Neste cenário, as relações públicas e a comunicação surgem como uma grande ferramenta educativa e de conscientização tanto dos gestores organizacionais quanto dos públicos destas organizações (a sociedade), da importância do desenvolvimento sustentável, no que diz respeito a exploração dos recursos naturais nos seus processos produtivos, uma vez que as relações públicas têm a função da mediação de interesses, visando a qualidade das 1

2 relações estabelecidas entre as organizações e seus diversos públicos (DENCKER; KUNSCH, 1996). A gestão da comunicação estabelecida pelas relações públicas neste processo, se dá a partir do monitoramento de instrumentos de comunicação, sobretudo os de caráter educativo, e da implementação de programas que tenham como foco a informação e a conscientização social da necessidade de preservar para melhor aproveitar os benefícios advindos dos recursos naturais esgotáveis e escassos do nosso meio ambiente, lembrando que meio ambiente é tudo que está à nossa volta, conforme define o Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais: um conjunto de fatores naturais, sociais e culturais que envolvem um indivíduo e com os quais ele interage, influenciando e sendo influenciado por eles. Neste contexto, percebemos que o relações públicas pode atuar como um gestor da informação, utilizando os recursos tecnológicos disponíveis que, em tese, estariam no contexto social simbolicamente em oposição às questões ecológicas, a favor do meio ambiente, visto que pode se apropriar das suas potencialidades de transmissão de informações em larga escala e em tempo real para a difusão de campanhas dirigidas aos mais diversos públicos sobre a importância da preservação do meio ambiente em que vivemos e do desenvolvimento sustentável como forma de garantir um futuro melhor. Agindo assim, o relações públicas estaria subvertendo aquilo que entendemos como a ordem natural que a tecnologia vem para fazer a natureza sucumbir e utilizando os avanços tecnológicos em favor do meio ambiente, através dos meios digitais de comunicação, promovendo a educação ambiental e a consciência ecológica. Objetivos Neste sentido, a nossa pesquisa teve como objetivo principal o levantamento de possibilidades de aplicação de técnicas de relações públicas em apoio aos sistemas de gestão e controle ambiental de empresas públicas e privadas, no sentido de tornarem seus processos menos impactantes ao meio ambiente sem precisar abrir mão da produtividade e do crescimento econômico. Tivemos ainda como objetivos de pesquisa: (1) identificar o uso de instrumentos de comunicação por parte das organizações com propósito de educar e conscientizar seus públicos a viverem em harmonia com o meio ambiente, para respeitá-lo, preservá-lo e serem multiplicadores de uma consciência ecológica para as futuras gerações; (2) analisar as 2

3 estratégias de relacionamento da organização com diversos públicos, que visem o seu desenvolvimento sustentável, tendo como foco o meio ambiente, seja em programas de recuperação ou conservação de ecossistemas existentes em seu entorno; e (3) levantar métodos ou processos que visem a formação da imagem institucional e/ou corporativa das organizações, inserindo-as na perspectiva da responsabilidade socioambiental e de organizações com a postura ecologicamente corretas. Relevância do trabalho Acreditamos que a relevância da nossa pesquisa encontra-se na necessidade cada vez maior que a sociedade contemporânea possui de vislumbrar possibilidades que lhe permita avanços significativos na consciência ecológica da sociedade produtiva, uma vez que ao produzir, a depender do processo instituído pra se chegar a essa produção, a sociedade pode estar decretando a sua própria destruição, a médio e longo prazos, se não houver a consciência da necessidade de preservação dos ecossistemas, visto que estes formam um grande sistema no qual estamos inseridos e que para funcionar precisa de todas as peças da engrenagem funcionando perfeitamente, sob pena de comprometer toda a estrutura da vida no nosso planeta. Neste sentido, levantar as forma que as relações públicas a partir da implementação de projetos, programas e instrumentos de comunicação e de relacionamento podem servir como uma ferramenta social de conscientização e educar esta sociedade para a cidadania, levando as organizações a assumirem uma postura socioambiental responsável e os indivíduos a consciência dos seus direitos e deveres para com o meio ambiente, enquanto cidadãos e, em última análise, responsáveis pela vida do seu planeta. INOVAÇÃO, CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA E OS AVANÇOS TÉCNICO- CIENTÍFICOS OBTIDOS O fato da pesquisa ter sido realizada por uma equipe interdisciplinar composta por um biólogo, uma socióloga-jornalista e dois estudantes de relações públicas, e ter tido um enfoque na área de relações públicas, nos permitiu um nível de aprofundamento, do ponto de vista da comunicação, que nos levou a sugerir no nosso relatório de pesquisa, a necessidade da implementação de um núcleo de apoio tecnológico gerido pelo Estado, com o apoio da iniciativa privada, para capacitar profissionais que atuam na área de comunicação e educação 3

4 ambiental em organismos públicos e privados inseridos no Estado da Bahia, que pudesse direcioná-los à possibilidades concretas de utilizações diversas dos novos recursos tecnológicos aplicados na preservação do meio ambiente e no desenvolvimento produtivo sustentável, nas áreas comerciais, industriais e prestação de serviços. Entendemos que esta idéia transcende o caráter meramente inovador e adquire status de ação estratégica, na medida que permitirá ao Estado da Bahia avançar nos processos comunicacionais voltados a preservação do meio-ambiente, potencializando o desenvolvimento econômico das organizações locais, permitindo a elas performances privilegiadas de retorno de imagem junto à opinião pública nacional e internacional. O núcleo de apoio poderia prestar uma assessoria qualificada na área de comunicação e educação ambiental para essas organizações, visando o seu desenvolvimento sustentável na perspectiva da responsabilidade socioambiental. Característica da pesquisa e metodologia utilizada O universo pesquisado foi de 4 empresas privadas e 4 empresas públicas de Salvador e Região Metropolitana do Estado da Bahia. Destas, entrevistamos 100% dos profissionais de comunicação e relações públicas, 100% dos líderes ambientalistas e comunitários, além de 100 pessoas das comunidades do seu entorno. Utilizamos o método de pesquisa qualitativa e para a obtenção dos dados que nos permitiram uma melhor análise e compreensão do recorte da realidade pesquisada, durante o seu desenvolvimento, foram cumpridas as seguintes etapas: a) Primeira etapa: contato com o corpo administrativo, superintendentes, diretores, gerentes e funcionários das organizações sondadas, explicando as necessidades da pesquisa e pedindo apoio para viabilizar a sua realização; reconhecimento das estruturas administrativas e físicas dos departamentos de comunicação das organizações sondadas; reconhecimento das comunidades envolvidas e identificação de líderes ambientalistas destas comunidades; observação direta da aplicação das estratégias comunicacionais voltadas a educação e a conscientização ecológica pelos profissionais de comunicação das 4

5 organizações sondadas, para identificar e analisar o uso dos instrumentos e a significação deles para os seus sujeitos; observação direta da vida cotidiana das comunidades para analisar como recebem e como interpretam as informações relacionadas a educação ambiental advindas dessas organizações; reconhecimento das atividades relacionadas com a comunicação ambiental desenvolvidas pelas organizações sondadas; registros dos dados colhidos em um pré-relatório de reconhecimento. A fase de reconhecimento foi realizada através de observação de campo, com registros escritos e gravações em K-7, transcritas para um pré-relatório e arquivadas para consulta posterior. b) Segunda etapa: pesquisa documental; histórico das comunidades; histórico das organizações sondadas; plantas e imagens das comunidades do entorno das organizações sondadas; organograma dos departamentos de comunicação e/ou relações públicas das organizações sondadas; consulta à legislação em vigor, pertinente ao assunto, junto a órgãos governamentais nas esferas municipais, estaduais e federais. c) Terceira etapa: pesquisa empírica, através de técnicas privativas de relações públicas, entrevistas semi-estruturadas e aplicação de questionários; entrevistas semi-estruturadas com os diretores de comunicação e relações públicas das organizações; entrevistas semi-estruturadas com líderes ambientalistas e/ou comunitários; entrevistas semi-estruturadas com profissionais de comunicação e relações públicas das organizações; 5

6 Para todas as entrevistas foi necessário um contato inicial e um pedido de permissão dirigido ao entrevistado, para que concedesse a entrevista e permitisse gravá-la. d) Quarta etapa: compilação dos dados coletados; análise, interpretação e sistematização dos dados produzidos; comparativo com as hipóteses/pressupostos testados; e) Quinta etapa: redação do relatório de resultados; conclusão e revisão final do texto do relatório final. O cumprimento destas etapas nos permitiu um grande aprofundamento no tema pesquisado e alguns avanços técnico-científicos, na medida que conseguimos a articulação da teoria com a prática de relações públicas voltadas para o meio ambiente e a comunicação e educação ambiental. Avanços técnico-científicos É importante salientar que quando as teorias são aplicadas e estas se consolidam em processos, permite-se um maior entendimento das teorias que, por sua vez, se consolida, a partir da verificação empírica do seu construto. No caso específico das relações públicas voltadas a educação e a conscientização ecológica, essas articulações se deram a partir da verificação prática da funcionalidade dos instrumentos de comunicação implementados pelas organizações sondadas e dos conteúdos teóricos levantados sobre funções destes instrumentos. O acompanhamento do processo da comunicação para a educação ambiental, desde o seu planejamento até a sua implementação, possibilitou uma maior clareza no entendimento das tentativas teóricas desenvolvidas no campo da comunicação e das relações públicas para esse fim, bem como nos permitiu a reflexão sobre os processos estabelecidos e a formulação de propostas e sugestões de novas formas de se trabalhar a educação ambiental por meio de 6

7 instrumentos de comunicação e relacionamento, conforme veremos no item reprodutibilidade das idéias sustentáveis. Entretanto, é importante neste momento, para entendermos melhor os avanços alcançados, descrevermos os resultados da nossa pesquisa, bem como as análises principais que fizemos desses resultados, conforme segue. RESULTADOS OBTIDOS Após três meses de pesquisa, que envolveram várias técnicas, conforme descrevemos no item anterior tabulamos os resultados a partir de três categorias principais de análise que, por sua vez, estão alinhadas com os nossos objetivos de pesquisa. A saber: (1) identificação do uso de instrumentos de comunicação por parte das organizações com propósito de educar e conscientizar seus públicos a viverem em harmonia com o meio ambiente, para respeitá-lo, preservá-lo e serem multiplicadores de uma consciência ecológica para as futuras gerações; (2) análise das estratégias de relacionamento da organização com diversos públicos, que visem o seu desenvolvimento sustentável, tendo como foco o meio ambiente, seja em programas de recuperação ou conservação de ecossistemas existentes em seu entorno; e (3) levantamento de métodos ou processos que visem a formação da imagem institucional e/ou corporativa das organizações, inserindo-as na perspectiva da responsabilidade socioambiental e de organizações ecologicamente corretas. Quanto ao uso dos instrumentos de comunicação com fins ambientais levantamos os dados contidos na tabela a seguir: INSTRUMENTO Placas de sinalização Informativos impressos Vídeo-informativo Murais UTILIZAÇÃO Para sinalizar áreas de preservação e dar outras informações relativas ao meio ambiente. Para informar funcionários e comunidade sobre os projetos da organização e outras questões voltadas ao meio ambiente. Para informar funcionários e comunidade sobre os projetos da organização e outras questões voltadas ao meio ambiente. Para expor fotografias de intervenções da organização no meio ambiente. Reuniões e encontros Para informar e debater questões voltadas aos projetos da organização relacionados ao meio ambiente. Tabela 1. Uso dos instrumentos de comunicação pelas organizações com fins ambientais 7

8 Os tipos de instrumentos e os usos que as organizações têm feito deles para fins ambientais, nos remetem a idéia de que os meios digitais e todo o seu potencial comunicativo têm sido subutilizados no que diz respeito aos processos de educação e conscientização socioambiental no ambiente corporativo baiano. Observamos nos nossos levantamentos que a grande maioria dos profissionais que trabalham com comunicação e educação ambiental nas organizações baianas possuem formação na área das ciências biológicas, ou seja, são equipes inteiras formadas apenas por biólogos, quando o ideal seria que entre os profissionais que formam essas equipes de trabalho existissem profissionais da área de comunicação, bem como profissionais especialistas em educação para darem suporte técnico aos projetos. A falta de clareza sobre o potencial dos instrumentos de comunicação em geral, sobretudo os meios digitais, bem como sobre as aplicações metodológicas de uma pedagogia aplicada às práticas educacionais são algo patente entre os profissionais das equipes sondadas, uma vez que não estão familiarizados com esses elementos e sonegam e negligenciam pontos importantes à eficiência e eficácia dos programas estabelecidos. Percebemos que com os recursos disponibilizados atualmente para esses fins, sobretudo os recursos governamentais, que no caso da Bahia têm sido significativos, os planos executados pelas organizações baianas poderiam chegar a resultados muito mais relevantes se os instrumentos de comunicação fossem mais bem utilizados e potencializados nas suas especificidades, o que não acontece hoje, porque, na grande maioria das organizações, os instrumentos de comunicação são gestados por profissionais que não são da área de comunicação. Já na segunda categoria de análise, aquela que diz respeito à análise das estratégias de relacionamento da organização com seus públicos, visando o desenvolvimento sustentável, a partir de programas de recuperação ou conservação de ecossistemas existentes em seu entorno, levantamos as seguintes características: (1) de fato há uma clara preocupação da maioria das organizações quanto o seu desenvolvimento sustentável do ponto de vista da exploração dos recursos naturais. Isso acontece, na maioria das vezes, não por altruísmo do capital, mas porque se chegou a noção de que quem tem mais a perder com a escassez dos recursos naturais (que, na prática, são os insumos dessas organizações) são as próprias organizações, uma vez que 8

9 quanto mais escassos eles são, mais caros se tornam e os seus produtos e serviços menos competitivos ficam. (2) as estratégias (quanto ao aspecto comunicacional) utilizadas nessas empresas, entretanto, em geral, se restringem a comunicação instrumental, mais especificamente a comunicação visual. Muito pouco se pensa estrategicamente a comunicação neste campo. Muito pouco também se pratica relações públicas de forma estratégica, apesar de percebermos que, mesmo sem a utilização de técnicas adequadas e da consciência de que estavam praticando relações públicas, algumas ações pontuais são estabelecidas e, em alguns casos, com um razoável sucesso. (3) as comunidades do entorno das organizações sondadas, em geral, não têm uma participação mais direta nos projetos de recuperação/conservação de ecossistemas desenvolvidos por essas organizações. Nem nas decisões, nem na execução das ações mitigadoras ou antecipadoras adotadas, o que a nosso ver é um equívoco muito grande, uma vez que a participação direta da comunidade neste processo poderia potencializar as ações, visto que ela ao se sentir contemplada pelo projeto, ou seja, se sentir parte do projeto, poderia se transformar em parceira da organização, tanto na execução das tarefas projetadas, quanto assumindo o papel de agentes multiplicadores das idéias centrais do projeto que, por sua vez, poderiam ser transmitidas a partir da junção de técnicas da educação e da comunicação para potencializar a aprendizagem dos envolvidos. As características das estratégias das organizações sondadas no que diz respeito a ações voltadas ao meio ambiente, assim como o levantamento dos instrumentos de comunicação utilizados para tal, também nos remete a idéia já comentada de que a implementação de um núcleo de apoio tecnológico gerido pelo Estado, com o apoio da iniciativa privada, para capacitar profissionais que atuam na área de comunicação e educação ambiental em organismos públicos e privados inseridos no Estado da Bahia, certamente poderia trazer grandes benefícios ao contexto ambiental local, uma vez que ao se criar algo dessa natureza estaria se fomentando o desenvolvimento de modelos de gestão e controle da produção, que permitissem as nossas organizações, independentes do setor que atuem, se desenvolverem dentro de uma perspectiva socioambiental responsável e principalmente de forma sustentável do ponto de vista ecológico. 9

10 Na terceira e última categoria de análise, aquela que diz respeito ao levantamento de métodos ou processos que visem a formação da imagem institucional e/ou corporativa das organizações, inserindo-as na perspectiva da responsabilidade socioambiental e de organizações ecologicamente corretas, levantamos alguns dados que podem nos dar pistas importantes de como avançar neste âmbito, a partir da reflexão sobre as ações que as organizações sondadas desenvolvem e o retorno de imagem que obtêm. Vale salientar que esse retorno de imagem é mensurado através de métodos e técnicas específicas existentes, de cunho subjetivo, uma vez que não há como precisar algo de natureza intangível como a imagem percebida da opinião pública a respeito de uma organização. A mais conhecida e utilizada técnica para essa mensuração é, sem dúvida, a sondagem de opinião, em que são levantados e analisados dados emitidos pela opinião pública e se tenta definir qual a imagem institucional percebida daquela organização. Chegar a essa imagem, contudo, não se considera uma tarefa fácil, pois, ela encontra-se num elo perdido de uma realidade fragmentada em três dimensões: (1) a dimensão da imagem que a organização imagina que tem; (2) a dimensão da imagem que ela gostaria de ter; e (3) a dimensão da imagem que ela realmente tem, ou seja, a que a opinião pública realmente percebe. Vale ressaltar que, por mais incrível que pareça, a última, geralmente, não corresponde com nenhuma das duas anteriores. Para um melhor entendimento do conceito de imagem é importante observar que: A imagem é resultante de todas as experiências, impressões, posições e sentimentos que as pessoas apresentam em relação a uma mesma empresa, a um produto, a uma personalidade. Assim, pode-se falar em imagem positiva, quando ocorrem processos que atualizam altos níveis de empatia/simpatia entre as pessoas/públicos e o político, a personalidade, a empresa ou a instituição (BALDISSERA, 2003, p.5). Quando falamos de imagem institucional, portanto, estamos nos referindo ao que Baldissera chama de imagem-conceito, uma espécie de aura pública (boa ou má fama), caracterizada por ser tênue, provisória e fugaz, imbricadas em permanente semiose. Achamos importante estabelecermos conceitualmente o uso do termo imagem no nosso trabalho, uma vez que, segundo Perez e Bairon (2002, pp ), o mundo das imagens se divide em dois domínios: (1) imagens como representações visuais: desenhos, pinturas, 10

11 gravuras, fotografias e as imagens cinematográficas, televisivas, holo e infográficas (tangível); (2) imagens como representações mentais: visões, fantasias, imaginações, esquemas e modelos (intangível). Assim, quando dizemos que utilizaremos para designar o termo imagem a noção de imagem-conceito de Baldissera vale observar que: A imagem conceito é sempre uma construção mental, realizada pelos sujeitos em relação com o entorno e consigo mesmos, tendo como base a comparação e a valorização (juízo de valor). Não se trata, portanto, de referenciar o que pode ser visto, mas de julgar as pessoas, os comportamentos, os desempenhos, as idéias, as administrações (públicas e privadas) e as empresas, dentre outras coisas. Para isso, a pessoa/público associa, compara, sobrepõe, hierarquiza as informações que recebe/acessa, oficiais ou não, com os seus saberes prévios, isto é, com as condições de produção a partir do lugar que cada indivíduo/público assume no sistema sócio-cultural portanto seu lugar político, psíquico, econômico, religioso, etc. Atualizam-se as apreciações coletivas (BALDISSERA, 2003, p. 6). Para a imagem de uma organização se consolidar, entretanto, é necessário que, seus esforços estejam voltados à adequação estratégica dos objetivos e metas organizacionais às expectativas, necessidades e desejos dos seus públicos. Na pesquisa empírica realizada, duas das organizações sondadas desenvolvem programas que têm a pretensão de fortalecer a sua imagem institucional, a partir da divulgação interna e externa das ações consideradas de responsabilidade socioambiental que realizam. A divulgação é feita por meio de instrumentos de comunicação tradicionais, como jornais e informativos impressos dirigidos aos funcionários, fornecedores, clientes e a comunidade na qual estas organizações estão inseridas. A retórica destes instrumentos tradicionais, no entanto, não são mais suficientes para suprir as necessidades de comunicação de uma organização na atualidade, pois os públicos contemporâneos requerem muito mais que as versões oficiais das informações divulgadas pela direção da organização para a construção de uma imagem pública favorável, sobretudo, quando se trata de ações consideradas de responsabilidade socioambientais, uma vez que esses públicos querem poder interagir com as informações, verificar a sua veracidade e atestar com seus próprios olhos se o que está sendo divulgado corresponde com a verdade. É preciso que se perceba que, conforme observa Jambeiro, hoje: O direito à informação significa não só o direito do cidadão ser informado, mas também o direito do cidadão informar e o direito das entidades da sociedade civil se expressarem e tornarem efetivamente públicas suas idéias e opiniões. Isto implica afirmar a pluralidade de meios e a pluralidade do 11

12 acesso aos meios como uma das características inerentes à sociedade democrática (JAMBEIRO, 2003, p.226). Em consonância com Jambeiro (2003), Peruzzo acrescenta que: As liberdades de informação e expressão postas em questão na atualidade não dizem respeito apenas ao acesso da pessoa à informação como receptor, nem apenas no direito de expressar-se por quaisquer meios o que soa vago, mas de assegurar o direito de acesso do cidadão e de suas organizações coletivas aos meios de comunicação social na condição de emissores produtores e difusores - de conteúdos. Trata-se pois de democratizar o poder de comunicar (PERUZZO, 2004, p.8). Assim, percebemos mais uma vez que há uma carência real de um núcleo de apoio tecnológico para capacitar profissionais que atuam na área de comunicação e educação ambiental em organismos públicos e privados do Estado da Bahia para fomentar o desenvolvimento das nossas organizações tanto do ponto de vista produtivo como já comentamos, quanto sob a perspectiva da gestão da imagem socioambiental responsável das empresas que se enquadram no perfil responsável e que têm buscado junto com o Poder Público, o desenvolvimento sustentável para a Bahia. REPRODUTIBILIDADE DAS IDÉIAS SUSTENTÁVEIS Nesta comunicação de pesquisa fizemos questão de explicitar, em todo o momento, os métodos utilizados, e mais do que isso, o percurso metodológico para a obtenção dos dados da nossa pesquisa. Isso porque não queríamos perder em nenhum momento a perspectiva de reprodutibilidade das idéias centrais deste estudo e as possibilidades de sua fácil disseminação, caso houvesse interesse de qualquer grupo de se apropriar dos conceitos por nós empreendidos para chegarmos aos resultados obtidos e relatados. Inclusive, preservamos os nomes das organizações sondadas exatamente para não limitar a multiplicação e aplicação do estudo para outras organizações, situações e localidades, por questões como concorrência e diversas outras razões de mercado. Além dos métodos explícitos (reproduzíveis), tentamos formular algumas propostas e sugestões de novas formas de se trabalhar a educação ambiental por meio de instrumentos de comunicação e relacionamento. As nossas propostas se voltaram para as potencialidades das tecnologias digitais, uma vez que na pesquisa que realizamos os dados levantados mostram que estes são instrumentos 12

13 subutilizados pela maioria das organizações quando o assunto é comunicação e educação ambiental. Algumas das propostas e sugestões do nosso projeto são: Para os públicos internos: dar um uso adequado a intranet para esse fim, fazendo deste instrumento não apenas um meio de divulgação daquilo que já está projetado, mas solicitar dos funcionários o seu envolvimento e a sua participação na construção dos projetos voltados ao meio ambiente. Exs: em uma campanha publicitária que a organização vá fazer sobre a sua consciência socioambiental, antes de veicular na mídia, veicular primeiramente na Intranet, solicitando dos funcionários a sua opinião sobre aquela campanha e incentivando-os a participar com sugestões e idéias para melhorar a campanha. realizar um concurso interno para premiar idéias de funcionários que possam melhorar os processos produtivos da organização, com o mínimo de impacto ao meio ambiente. abrir para a comunidade interna os projetos voltados ao meio ambiente antes de serem executados para que os funcionários possam se sentir parte de cada projeto realizado pela organização em favor do meio ambiente e difundir através do boca-a-boca a seriedade da organização e do projeto em si. enfim, utilizar o que há de melhor nesta ferramenta: a hipermídia (a união de todas as mídias em uma vídeo, áudio, texto, etc.) e a interatividade (permite altos níveis de participação e envolvimento). Para os públicos mistos: o uso adequado da Extranet: pode-se utilizar este instrumento para envolver os fornecedores, familiares de funcionários, empresas terceirizadas, dentre outros 13

14 públicos, nos projetos ambientais, não só divulgando as diretrizes desses projetos, mas sobretudo tornando-os parceiros, estreitando os laços que os unem, qualificando as relações. para os públicos externos: o uso adequado da Internet: utilizar o website da organização para envolver a sociedade, solicitando a sua participação com: 1. realização de enquetes sobre intervenções da organização no meio ambiente; 2. divulgação dos projetos ligados a preservação do meio ambiente sempre com links que estimulem uma participação ativa do cidadão; 3. oferta de descontos especiais em produtos ou serviços para as pessoas que participarem com idéias e sugestões que possam melhorar a gestão da organização nos processos que envolvam o impacto ao meio ambiente; utilizar o correio eletrônico para se relacionar com os públicos: 1. divulgar versões digitais dos informativos dos projetos relacionados ao meio ambiente, requerendo a sua participação; 2. promover uma lista de discussão sobre o tema, para que possam emergir dos discursos situações ou idéias que potencializem os projetos voltados ao meio ambiente. O uso adequado do celular: Utilizar torpedos para a relação com os públicos: 1. enviar imagens de intervenções da organização em preservação ao meio ambiente; 2. enviar mensagens estimulando a participação nos projetos, indicando as promoções, enquetes, etc. que estão disponíveis na internet. É preciso dizer que a nossa pesquisa contempla muitas sugestões de ações para o uso das tecnologias digitais em apoio aos projetos de preservação do meio ambiente, gestão organizacional e desenvolvimento sustentável, distribuídas por três diferentes categorias. Para 14

15 esta compilação, no entanto, escolhemos aquelas que estão voltadas a busca pela interatividade dos públicos das organizações e da participação e envolvimento popular, pois acreditamos que esta é a tônica que devemos adotar de agora em diante, lavando em consideração as características da sociedade contemporânea. Assim, por acreditar que as tecnologias digitais podem ser utilizadas de forma muito proveitosa para a difusão de idéias e projetos que envolvam o meio ambiente, uma vez exploradas suas potencialidades e direcionadas para esse fim, pensamos que não será mais possível abrir mão dos recursos e tecnologias disponíveis quando o assunto for a preservação do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. É preciso mobilização. E a mobilização desejada, só será possível com o apoio das tecnologias digitais, uma vez que a cada dia a sociedade se formata a luz destas tecnologias e se torna cada vez mais participativa. Hoje a sociedade não quer apenas receber a informação, mas intervir na sua realidade e ajudar a construí-la. Neste sentido, se a nossa busca é pela mobilização em torno das questões que envolvem a preservação e o impacto ao meio ambiente, cabe a nós usar a comunicação e a educação para um futuro melhor. Um futuro em que todos possam acreditar verdadeiramente que vivemos na sociedade do conhecimento e da consciência socioambiental. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BALDISSERA, Rudimar. Imagem-conceito: a indomável orgia dos significados. Trabalho apresentado no XXVI Intercom, Belo Horizonte/MG, setembro de DENCKER, Ada de Freitas Maneti & KUNSCH, Margaria M. Krohling. (org) Comunicação e meio ambiente. São Paulo, Intercom, DIEGUES, Antonio Carlos Sant Ana. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo, NUPAUB/USP, PEREZ, Clotilde; BAIRON, Sérgio. Comunicação & Marketing. São Paulo: Futura, JAMBEIRO, Othon. Reflexões sobre Políticas e Estratégias Sociais de Informação, Cultura e Comunicação, em Tempos Digitais. In: PERUZZO, Cicília; ALMEIDA, Fernando (orgs). Comunicação para a cidadania. São Paulo: Intercom; Salvador: UNEB, PERUZZO, Cicília. Direito à comunicação comunitária, participação popular e cidadania. In: OLIVEIRA, Maria José da Costa (org). Comunicação Pública. Campinas: Alínea,

16 BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR BURSZTYN, Marcel (org). Para pensar o desenvolvimento sustentável. São Paulo, Editora Brasiliense, CRESPO, Samyra & LEITÃO, Pedro. O que o brasileiro pensa da ecologia. Rio de Janeiro, MAST/CNPq, HOGAN, Daniel Joseph & VIEIRA, Paulo Freire (org). Dilemas socioambientais e desenvolvimento sustentável. 2 a ed.. Campinas, Editora da Unicamp, LAYRARGUES, Philippe Pomier. A cortina de fumaça. O discurso empresarial verde e a ideologia da racionalidade econômica. São Paulo, Annablume, LEFF, Enrique. Epistemologia Ambiental. São Paulo, Cortez Editora, OTTMAN, Jacquelyn A. Marketing verde. São Paulo, Makron Books, RAMOS, Luís Fernando Angerami. Meio ambiente e meios de comunicação. São Paulo, Annablume/Fapesp, RIBEIRO, Maurício Andrés. Ecologizar. Pensando o ambiente humano. Belo Horizonte, Rona Editora,

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