Os Grêmios Literários de uma instituição escolar de Juiz de Fora no início do século XX: Discursos higiênicos e eugênicos produzidos por alunos.

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1 Os Grêmios Literários de uma instituição escolar de Juiz de Fora no início do século XX: Discursos higiênicos e eugênicos produzidos por alunos. Resumo Autoria: DELMONTE, Priscila Villela O presente trabalho, parte integrante da dissertação de mestrado que encontra-se em andamento, intitulada Os Grêmios literários de uma escola protestante do início do século XX em Juiz de Fora: instituições dentro de uma instituição, insere-se no âmbito da história das práticas educativas, tendo como foco as associações de alunos que existiram no interior de uma escola confessional na cidade de Juiz de Fora, o Instituto Metodista Granbery. Sabendo-se que tais práticas estiveram presentes em diversas instituições escolares da época, pretende-se através do caso específico do Instituto Granbery entender o que foram essas agremiações, espaços de socialização e afirmação de grupos. Denominado inicialmente como Clubes Literários, e posteriormente como Grêmios Literários, estas instituições analisadas, mostram-se através dos documentos existentes, como associações de alunos com assembléias semanais que, dentre outras atividades a que se propunham, tinham o intuito de discutir questões políticas, literárias e morais da época. Pretende-se aqui, analisar os primeiros anos de funcionamento destas práticas ( ), discutindo os objetivos de sua implantação, os instrumentos aos quais se destinavam bem como a participação dos alunos como agentes de produção de discursos no interior de uma instituição do início do século XX. Para tal faz-se necessário explicitar como se dava o funcionamento dessas discussões: nas assembléias eram instituídas teses em formas de perguntas a serem debatidas. Em seguida elegiam-se dois alunos para debaterem cada tese, dos quais um defenderia o sim e outro o não. Na assembléia subseqüente, (geralmente após uma semana) os eleitos se enfrentavam numa espécie de tribuna e após a exposição dos argumentos de ambos, os demais alunos presentes votavam em um vencedor, o que poderíamos entender como um espaço de regulação coletiva. Em meio à diversas questões possíveis de analises sobre os temas discutidos no interior dessas instituições, neste artigo, pretende-se selecionar alguns dos títulos das teses que perpassam as questões do pensamento médico higienista e da eugenia, que faziam-se presente à sociedade da época, para uma análise mais detalhada. Ao longo do século XIX até meados do século XX a Higiene constituiu-se como uma ciência capaz de resolver os problemas de ordem social, apoiada nos argumentos científicos e na legitimação do campo médico sob proteção do governo, tanto imperial como republicano. Os higienistas tinham como projeto, organizar o estado nacional e regenerar o povo brasileiro através da educação. Dentre algumas das teses discutidas pelos alunos, em que esse pensamento é evidenciado, encontramos A utilidade da vacina é evidente? (1908); O meio influi sobre a civilização de um povo? (1909) Qual o maior benfeitor da humanidade: o médico ou o professor? (1909); A raça amarela suplantará a raça branca? (1911); Qual o melhor elemento como emigrante: o Italiano ou o Japonês? (1912); Os seres perfeitos precedem aos imperfeitos? (1912). Entendendo que as instituições escolares foram fortemente utilizadas tanto como meio de difusão como meio de aplicação do higienismo e da eugenia, a análise dessas teses debatidas pelos alunos, permitem-nos entender como esse pensamento, de uma determinada sociedade em um determinado tempo, apareciam no meio escolar, especificamente através das atividades desenvolvidas pelos alunos.

2 Os Grêmios Literários de uma instituição escolar de Juiz de Fora no início do século XX: Discursos higiênicos e eugênicos produzidos por alunos. Trabalho Completo Autoria: DELMONTE, Priscila Villela Este trabalho insere-se no âmbito da história das práticas educativas, tendo como foco as associações de alunos que existiram no interior de uma escola confessional, protestante, na cidade de Juiz de Fora, o Instituto Metodista Granbery. Denominados originalmente como Clubes Literários e posteriormente como Grêmios Literários, as instituições foco desta pesquisa, mostraram-se através dos documentos analisados, como associações de alunos organizadas como instituições próprias, com regimentos; atas de fundação; sistema de contribuição; assembléias semanais; sistema de multas para os que não comparecessem; biblioteca própria, sendo esta desvinculada da biblioteca do colégio Granbery; entre outros. Nas reuniões ou assembléias realizadas semanalmente, diversos assuntos eram tratados e algumas solenidades eram seguidas, como a parte literal com leitura de poesias e contos. Porém, o acontecimento que mais mobilizava os alunos eram as discussões de teses que eram elaboradas em forma de perguntas. Como exemplo: A queda da bastilha foi um prelúdio da liberdade? 1 Em caso de guerra o amor a pátria é preferível ao da família? 2. O procedimento adotado para tal atividade constava da seguinte seqüência: Em uma assembléia eram definidas as teses a serem debatidas nas assembléias subsequentes, eram sorteados dois alunos para cada tese, um apresentaria a defesa do sim e outro a defesa do não, fazendo com que os sorteados tivessem alguns dias para pesquisar e preparar seus discursos. Muitas teses giravam em torno de temas polêmicos como a educação da mulher, o castigo e a educação da criança, a utilidade da vacina, etc. Após o embate entre os argumentos do sim e do não pelos alunos sorteados, os demais associados votavam para escolherem um vencedor, os argumentos do sim ou os argumentos do não. O que poderíamos entender como um espaço de regulação coletiva. Presente em outras instituições educacionais do período, como o Colégio Dom Pedro II no Rio de Janeiro, o Pelotense na cidade de Pelotas 3 e mesmo em outras instituições da cidade de Juiz de Fora, a hipótese a que a pesquisa de mestrado sobre o qual se desenvolve o trabalho sobre essas instituições se fundamenta é que tais associações foram apropriadas pela direção da escola e usadas junto aos alunos para inculcarem ideais religiosos, políticos e outros, através de meios brandos e persuasivos 4. No entanto, o que este trabalho pretende discutir é a influência do pensamento médico-higiênico e da eugenia em algumas das teses discutidas pelos alunos. 1 Livro de atas do Grêmio literário Coelho Neto 06 de junho de livro de atas do Grêmio literário Coelho Neto 18 de julho de Ver AMARAL, Giana Lange. Tese de mestrado UFRGS, Gatos Pelados x Galinhas Gordas: Desdobramentos da educação laica e da educação católica na cidade de Pelotas ( ). 4 Termos utilizados pelo reitor do colégio o Granbery junto a igreja mantenedora nos Estados Unidos em correspondência a esta.livro de Atas, n1 16/01/1910 p. 72.

3 Subsidiado pelos escritos de Foucault, a historiografia da educação tem atentado para os discursos científicos, religiosos, políticos e outros que subjaziam as práticas pedagógicas em dados períodos. Ao longo do século XIX até meados do século XX a Higiene constituiu-se como uma ciência capaz de resolver os problemas de ordem social, apoiada nos argumentos científicos e na legitimação do campo médico sob proteção do governo, tanto imperial quanto republicano. Os higienistas tinham como projeto, organizar o estado nacional e regenerar o povo brasileiro através da educação. Esta era vista como a arte de correção da deformação 5. De acordo com Gondra: pensar as representações que o pensamento médico procurou instituir acerca da educação escolar, as fronteiras disciplinares se embaralham em nome de uma ciência que se auto-representava como ciência-mãe (GONDRA, José. 2004). Em nome da ciência o discurso médico tinha como objeto não somente a regulamentação da estrutura física escolar tais como tamanho de janelas para iluminação adequada, forma das carteiras e espaço entre elas, como também métodos e práticas dentre os quais, tempo de estudo e de descanso, exercícios físicos para regenerar o corpo, alimentação e tratamentos da excreta 6, bem como o aspecto moral a ser desenvolvido no interior das escolas. As discussões sobre a eugenia emergiram no Brasil associando-se diretamente às preocupações nacionais quanto ao estado de saúde, saneamento, higiene e da situação racial da população. Imbricado ao discurso sanitarista higiênico, a eugenia tinha como objeto os estudos sobre a regeneração racial. Estes estudos faziam parte de um entusiasmo generalizado pela ciência como sinal de modernidade cultural", e tinha como objetivo justificar as desigualdades sociais e de explicar o atraso e o progresso dos povos (CHAGAS, 2006). A fim de extirpar uma imagem européia desenvolvida do Brasil Imperial de povo doente, degenerado e mestiço a influência do pensamento médico, ou sanitarista, juntamente com os discursos eugênicos, vieram atender ao ideal educacional republicano de formação de uma nova nação, e seu alcance e influência surtiu forte efeito no desenvolvimento das práticas escolares do período. De acordo com CHAGAS: a pedagogia cientifica (...) era enquadrar o indivíduo no tipo e ler nos corpos sinais que uma ciência determinista constituía como índices de normalidade, anormalidade ou degeneração. Era classificar o tipo segundo divisões inscritas na natureza, que repartiam e hierarquizavam a humanidade. E era operar com parâmetros postos pelas teorias raciais que, desde finais do século anterior, vinham-se constituindo na linguagem principal dos intelectuais brasileiros, no seu afã de 5 CARVALHO, Marta Maria Chagas de. Quando a história da educação é a história da disciplina e da higienização das pessoas. In História Social da Infância no Brasil. FREITAS, Marcos Cezar de (org). 6ª edição. Ed. Cortez, pág Resíduos corporais. GONDRA, José Ed.UERJ

4 pensar as possibilidades de progresso para o país e legitimar as hierarquias sociais. 7 (grifo do autor) Partindo para a analise do contexto micro, especificamente do objeto desta pesquisa, os discursos dos alunos no interior das associações de alunos do Colégio Granbery, no recorte dado de 1908 à 1912, primeiros anos de funcionamento das associações, percebemos a influência destes pensamentos nas teses abaixo, que foram, entre outras, selecionadas: A utilidade da vacina é evidente? - tese nº 07 (1908); Qual a raça mais forte, a Germânica ou a latina? tese nº 57 (1909); O meio influi sobre a civilização de um povo? tese nº 62 (1909); Qual o maior benfeitor da humanidade: o médico ou o professor? tese nº68 (1909); É o gênio hereditário? tese nº 115 (1911) A raça amarela suplantará a raça branca? tese nº 131 (1911); Os seres perfeitos precedem aos imperfeitos? tese nº 112 (1912); Os exercícios físicos trazem em conseqüência o atrofiamento do cérebro? tese nº 142 (1912); Qual o melhor elemento como emigrante: o Italiano ou o Japonês? tese nº149 (1912). 8 Percebemos que as questões raciais e hereditárias, foco dos discursos eugênicos do período, apareciam em diversos momentos com conotações de melhor e pior, mais fortes e mais fracos, precedem e antecedem, bem como as questões sanitaristas do higienismo sobre vacina, meio ambiente ( tese 62), e exercícios físicos. Evocando-se a hipótese já citada, que é mais amplamente tratada no trabalho de mestrado em desenvolvimento, que estas instituições, ou associações de alunos foram utilizadas como instrumento de doutrinação de diversos ideais tais como religiosos e políticos, percebemos a influência das regulamentações dos higienistas no que diz respeito ao aspecto moral a ser desenvolvido nos alunos. A idéia de que as discussões de teses nas tribunas realizadas nas assembléias é um meio de propagação de ideais é abordada na própria tribuna através da tese nº 85 de 1910: Qual o melhor meio de expandir uma idéia: a imprensa ou a tribuna? Convencidas do poder da ciência em estabelecer uma nova ordem (e progresso), a elite brasileira entendia que a eugenia e o higienismo poderiam desempenhar um papel importante no sentido de auxiliar a regeneração nacional, orientando o Brasil a seguir o trilho do progresso e do "concerto das nações civilizadas". Sendo o colégio Granbery uma instituição educacional particular destinada aos filhos da elite industrial que se desenvolvia na cidade de Juiz de Fora no período 9, e que tinha como principal público os próximos atores das decisões políticas do país 10 este, foi utilizado para disseminação de tais ideais, como verificamos nas teses discutidas no interior dos Grêmios Literários. 7 Idem nota 4, pág Livro de atas de reunião do Grêmio Literário Coelho Neto, nº 1. Arquivo Histórico Museu do Granbery. 9 Ver Yazbeck, Dalva Carolina de Menezes 10 MESQUIDA, Peri. A Hegemonia Norte- Americana e Educação Protestante no Brasil. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo, Ed.da UFJF/EDITEO, 1994.

5 BIBLIOGRAFIA: - AMARAL, Giana Lange. Tese de mestrado UFRGS, Gatos Pelados x Galinhas Gordas: Desdobramentos da educação laica e da educação católica na cidade de Pelotas ( ). -ALMEIDA, Vasni de. O metodismo e a ordem social Republicana, in: REVER Revista de Estudos da Religião. PUC São Paulo. CARVALHO, Marta Maria Chagas de. Quando a história da educação é a história da disciplina e da higienização das pessoas. In História Social da Infância no Brasil. FREITAS, Marcos Cezar de (org). 6ª edição. Ed. Cortez, FOUCAULT, Michel. A arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, GONDRA, José. Artes de Civilizar: Medicina, Higiene e Educação Escolar na Corte Imperial.Rio de Janeiro. Ed. UERJ MESQUIDA, Peri. A Hegemonia Norte- Americana e Educação Protestante no Brasil. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo, Ed.da UFJF/EDITEO, YAZBECK, Dalva Carolina de Menezes (Lola). As Origens da Universidade Federal de Juiz de Fora. Editora UFJF, 1999.

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