2 COMO E QUANDO SURGIU GUARATIBA?

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1 2 COMO E QUANDO SURGIU GUARATIBA? Em 1555 os franceses entraram na Baía de Guanabara e se ocuparam de algumas ilhas no intuito de ali fundar o que eles chamavam de França Antarctica. Em 1560, pela primeira vez, foram atacados pelos portugueses e sofreram uma dolorosa derrota, mas foram insistentes e continuaram nos arredores da Baía. Logo, para combater esta invasão, foi preciso que Mem de Sá, Governador Geral do Brasil na época, chamasse seu sobrinho, Estácio de Sá, para povoar o Rio de Janeiro. Em 1563, preocupado com as constantes lutas contra tamoios e franceses, Mem de Sá escreveu uma carta ao poderoso Manuel Veloso Espinha, que na época residia na Capitania de Ilhéus, pedindo ajuda para expulsar os invasores. Homem influente, dinâmico e possuidor de muitos bens, aqui chegou com sua mulher, filhos, seus escravos, sua própria nau, arcando com todas as despesas necessárias e permanecendo aqui para o resto da vida. Em sua embarcação viria também Estácio de Sá e assim os dois iriam combater a disputa de terras ocasionadas por outros povos. Terminadas as guerras, contra os tamoios e franceses, transferiu-se para a Capitania de São Vicente, constituindo família na Villa de Santos. A região de Guaratiba começou a ser habitada a partir de março de 1579 quando Manoel Velloso pediu a Capitania de São Vicente, doação de uma data de terras de sesmarias (terras que eram distribuídas pelo Rei de Portugal, na época Cardeal Don Henrique, aos colonos), ao norte da Ilha chamada Marambaia da Barra (atualmente Restinga da Marambaia). A sesmaria doada media três léguas de costa, que vão do Rio Guandu a Barra de Guaratiba e seis léguas de sertão, da orla marítima para o interior. Alegou que o merecimento das terras devia-se aos serviços prestados na própria Capitania de São Vicente e a qualidade de sua pessoa. E foi em 5 de marco de 1579, que a Coroa Portuguesa doou essas terras solicitadas.

2 Assim que chegou para assumir a posse da terra, teve uma enorme surpresa com a forte reação dos índios, os Tupinambás, que não se mostravam amigos dos novos donos de suas terras. Em Guaratiba, predominavam os tupinambás, que habitaram a zona costeira do Rio de Janeiro até, aproximadamente, Com a conquista de nossas terras pelos portugueses, os índios foram obrigados a fugir para o interior para conseguir escapar. Quando a caravela se aproximou da costa, perceberam a presença de muitos índios. Através de gestos os tripulantes conseguiram se comunicar, entendendo a linguagem deles. Notaram um enorme bando de garças, pássaro típico da região, e perceberam que elas eram veneradas pelos indígenas como um verdadeiro símbolo. Apontavam para elas e a todo o momento gritavam Tiba-Tiba, que na língua tupi significa local de grande quantidade; abundância. Com a presença de tantos índios Manoel Veloso viu-se obrigado a se afastar e tentar ancorar em outro local, distante dos índios. Posteriormente, voltaria mais preparado, munido de vários presentes, objetos coloridos, brinquedos, para conseguir agradá-los e conviver pacificamente com eles. Em sua embarcação vieram também alguns índios civilizados auxiliando também na comunicação. Ao desembarcar no porto, Manuel Veloso trazia em mente um nome para batizar a terra tão desejada. Primeiramente desembarcaram os índios civilizados com os presentes e todos repetiam com gracejo as palavras GUARÁ e TIBA, apontando para as garças, agradando assim os homens da selva. Houve troca de presentes. Aos poucos os índios foram aceitando a civilização, e Manuel Veloso foi conquistando Guaratiba e gerando descendentes. Casado com a filha de Brás Cubas, Jerônima

3 Cubas, teve dois filhos, Jerônimo Veloso Cubas e Manuel Veloso Espinha filho. Com toda a sua família passou a administrar engenhos de produção e exportação de açúcar e aguardente. Guaratiba foi uma das primeiras freguesias a ser fundada, após a fundação da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, dada a sua situação litorânea privilegiada. Possuindo um terreno fértil, produzia muito açúcar, tornando-se o local central de abastecimento, contribuindo assim para o amplo desenvolvimento do primeiro reinado. Segundo artigo publicado no Jornal ZONA OESTE Campo Grande de 1983 e escrito por Rivadávia Pinto, famoso historiador da região, a freguesia de Guaratiba, após a morte de seu fundador Manuel Veloso Espinha, teve sua historia continuada pelos seus legítimos herdeiros; Jerônimo Veloso Cubas e Manuel Veloso Espinha Filho. A administração desta freguesia cabia somente a eles. Contudo, as dificuldades da época para suprir todas as necessidades da freguesia eram grandes. A exploração dos recursos naturais da região necessitava de melhor transporte, maior número de mão-de-obra escrava, principalmente, e descentralização administrativa confiável. Sem esses recursos, toda essa porção de terra ficaria à mercê de aventureiros exploradores. Com a morte do pai, Jerônimo e Manuel dividiram amigavelmente esta vasta freguesia. A parte que coube a Manuel Veloso Espinha Filho ia do Rio Piraquê até a Barra de Guaratiba; e a que coube a Jerônimo Veloso Cubas vai do mesmo rio para o norte, até o marco dos padres jesuítas, localizado na Ilha de Guaraqueçaba. Caso algum deles quisesse pescar no Rio Piraquê, deveria avisar com antecedência o dia e a hora. Foi um acordo de grande importância para um novo comércio que surgia, a pesca como fonte de renda. Antes de 1628 a pesca não existia propriamente como fonte de renda.

4 À esquerda a Ilha de Guaraqueçaba. À direita o marco divisório entre as terras dos jesuítas e a Fazenda da Pedra, na Ilha de Guaraqueçaba. Acervo Rivadávia Pinto. Manuel Veloso de Espinha chegou a ocupar o importante cargo de oficial da Câmara da Cidade do Rio de Janeiro, no ano de 1584, segundo Elysio de Oliveira Belchior, no livro Conquistadores e Povoadores do Rio de Janeiro. O livro também se refere aos dois filhos do fundador de Guaratiba Manuel Veloso de Espinha Filho, senhor dos engenhos, agricultor da região, provedor da Santa Casa de Misericórdia, de 1646 a 1648, e Jerônimo Veloso Cubas, que ocupou as terras vizinhas à Fazenda Santa Cruz, administrada pelos jesuítas. Desde 1596, os jesuítas já se encontravam em Santa Cruz. Doações vindas de várias famílias aumentavam a extensão de suas terras, que na época se estendiam desde o oceano até as encostas da Serra do Mar. Desenvolviam agricultura e criavam gado chegando a atingir o total de cabeças e se tornando a maior fazenda nas proximidades do Rio de Janeiro. Em contato com os padres jesuítas os irmãos resolveram vender parte de suas terras à Companhia de Jesus suprindo parte do dinheiro gasto pelo pai durante o tempo em que manteve sozinho toda Freguesia de Guaratiba.

5 A divisão de terras entre os irmãos e a venda de parte desta sesmaria aos jesuítas facilitaram o desenvolvimento de cada área, oferecendo melhores condições de trabalho. O progresso de Guaratiba ia aos poucos, se acentuando. Jerônimo Veloso Cubas, casado com Beatriz Álvares Gaga não teve filhos nem herdeiros forçados para doar as terras após a morte, por isso doou tudo o que tinha à Província Carmelita Napolinense (os padres do Carmo), para que construísse uma Hermida em louvor a Nossa Senhora do Desterro. Em 1629, um pouco antes de morrer, Jerônimo construiu a Igreja de Nossa Senhora do Desterro, que ainda hoje pode ser vista em Pedra de Guaratiba. É a terceira igreja mais antiga da cidade do Rio de Janeiro e tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional e Estadual. Seus corpos foram enterrados no interior da capela, como foi solicitado. A respeito da construção da Igrejinha, há uma lenda narrada por Eduardo Marques Peixoto, no volume III, da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de 1939, que justifica a construção da capela. Uma índia cega e doente vivia com o casal Jerônimo e Beatriz. Passeando próximo a praia, em companhia do casal, a índia se separou deles e foi para a beira do mar. Ali teve a aparição de Nossa Senhora. Disse ela que se Jerônimo e Beatriz construíssem uma igreja em honra de Nossa Senhora do Desterro, no local de uma plantação de cravos, ela ficaria totalmente curada. Contando a história para seus senhores, eles resolveram construí-la. Finalizada a construção, a índia ficou completamente curada. Com a imagem de Nossa Senhora do Desterro no altar-mor, foi colocado entre suas mãos um pendão com três cravos que permaneceram vivos durante muitos anos.

6 Seguindo o exemplo do irmão, Manuel, casado com Isabel e com herdeiros legítimos, mandou que se construísse também uma primitiva capela reverenciando São Salvador do Mundo em 1676, próximo ao Porto de Guaratiba, em Barra de Guaratiba. Hoje, no mesmo local encontra-se a Igreja de Nossa Senhora das Dores. Igreja de Nossa Senhora das Dores da Barra de Guaratiba. Acervo Rivadávia Pinto

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