ANO IV - N? 10 - JANEIRO/94 HA CONTRA FOME DANIA OLHARE. Pág. 5 NICAR AB AIND. g. 46 TEATRO ASSA A RUA. Pág. 40

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1 ANO IV - N? 10 - JANEIRO/94 HA CONTRA FOME DANIA OLHARE Pág. 5 NICAR AB AIND g. 46 TEATRO ASSA A RUA Pág. 40

2 IMPRENSA ALTERNATIVA Faça sua assinatura "TEMPO E PRESENÇA" uma publicação do CEDI Centro Ecumênico de Documentação e Informação. Rua Santo Amaro, 129. CEP Rio de Janeiro-RJ Fone: (021) End. Leia e assine "FÊMEA", uma publicação do Centro Feminista de Estudos e Assessoria Projeto Direitos da Mulher na Lei e na Vida. CLN 111- Bloco C - Sala CEP Fone: (061) Assine "TEORIA E DEBATE", uma publicação trimestral do Partido dos Trabalhadores. Rua Conselheiro Nébias, CEP São Paulo-SP Fone: (011) Faça sua assinatura ''REVISTA PROPOSTA'', uma publicação anual da Fase 4 números. Rua das Palmeiras, 90 - CEP Botafogo - Rio de Janeiro - RJ. Fone: (021) ?J*os COMPROMISSO COM A ÉTICA E A JUSTIÇA SOCIAL

3 T^^õf f cmnpqp Instituto Universidade Popular Av. Senador Lemos, 557 Telégrafo Fone: (091) Fax: (091) Cx. Postal 1098 CEP Belém-Pará-Brasll COLETIVO DE EDUCADORES Aldalice Otterloo (Diretora Geral) Cristina Alcântara (Coord. Serviços c Demandas) Elias Araújo (Dir. Administrativo-Financeiro) Francisco Cetrulo Neto (Coord. Teologia) Jandir Santin (Coord. Formação de Formadores) João Cláudio Arroyo (Coord. Editoração c Comunicação) Olinda Charone (Coord. Arte-Educação) Rosa Marga Rothe (Coord. Teologia) CONSELHO DE REPRESENTANTES CUT, CBB, FETAGRI, CPB, IECLB, IPAR, Igreja Anglicana, SDDH, FASE, CIPES, Centro 19 de Julho, CAMPOS, CPT, NAEA, Proex/UFPA. República do Pequeno Vendedor Igreja Metodista e CEDENPA. «ira Revista CUÍRA é uma publiação quadrimestral do Instituto Universidade Popular, de caráter formativo, que busca o debate teórico e político sobre as questões de interesse dos movimentos sociais propondo-se como instrumento de ligação entre a prática e a teoria dos militantes que lutam por uma sociedade democrática, sem explorações, opressões, injustiças e discriminações. As matérias assinadas não representam necessariamente as posições da entidade. Este número foi confeccionado sob o patrocínio de Campo Limpo Edição: João Cláudio Arroyo Fotos: Arq. Unipop/Créditos Diagramação: Paulo Corrêa Composto e impresso na Graficentro CEJUP Trav. Rui Barbosa, 726 Fone: (091) Fax: (091) Telex (91) 2852 CEP Bclém-Pará SUMARIO C i. 0? FEVim Editorial 4 Cartas & Notas 6 Modernidade & Cidadania Hipertexto Chega à Educação Popular 9 Olavo Gomes Pereira Lincoln John Campos Ribeiro Ecologia Faor: Papel e Tarefas pós Conferência 12 Carlos Bordalo Conjuntura Olhares sobre 94: Corrupção, CPIs e Eleições 15 Frente da Cidadania Privatização Educação Popular Considerações sobre a Metodologia de um Encontro 22 Francisco Cetrulo Neto A Pedagogia da Simplicidade para o Sec XXI 28 Cornelis Joannes Van Der Poel Maria Salete Van Der Poel Guerra à Fome Solução da Cidadania 30 João Cláudio Arroyo Edna Nunes Teologia e Política O Movimento Social e a Ética 37 Dario Schâffer Cultura Quando o Teatro Assalta a Rua 40 Grupo de Teatro da UNIPOP Entrevista Retrato da Luta: Airton Faleiros 42 Internacional Nicarágua: A Brasa que Ainda Fumega 46 Jandir Santin Ética e Humor 49

4 ampiros do orçamento e tubarões das empreiteiras sugam e devoram a sobrevivência de 32 milhões de brasileiros, a paz das centenas de gangues de rua que apavoradas aterrorizam as cidades, o lar das milhares de crianças abandonadas, a pureza das milhares de meninas prostituídas pela miséria humana, o saber de mais de 30 milhões de analfabetos, a terra de mais de 12 milhões de lavradores sem-terra e a fertilidade de milhões milhões de braços e mentes brasileiras. Porém, enxergar, que antes já era muito, ora é pouco, muito pouco. Não basta mais saber, é preciso fazer, tentar. Campanha das Diretas em 84, Eleições presidenciais de 89, Impeachment de Collor, CPI do PC, CPI do Orçamento, e a inédita m bilizaçâo solidária em torno da Campanha Co tra a Fome. Esta história confirma a vitalidade da democracia e a viabilidade de nossa Cidadania. Nenhum outro regime seria capaz de tanto. Mas, ainda falta o toque da criação. O momento fascinante da transformação. Inéfante mágico que, ao contrário do que os magos querem nos fazer crer, brotam em processo, no dia-a-dia de nossas próprias mãos. Brotam, irresistíveis por tantas tentativas, insurgindo-se como a semente contra a terra que lhe pesa. A revolução do broto em busca de luz.

5 Nota Grito da cidadania em Belém inaugura a 2. a fase da campanha contra a fome, a miséria e pela vida no Pará Sede da UNIPOP: local das reuniões do Comitê Cidadania o último dia 17 de novembro realizou-se em Belém o I Grito da Cidadania, uma manifestação que reuniu mais de mil e quinhentas pessoas, principalmente das comunidades dos bairros periféricos e mais pobres da cidades, das centenas de invasões e baixadas. O evento foi organizado pelo Comitê Cidadania, tendo à frente entidades como FASE, CBB, Fórum Metropolitano de Reforma Urbana, CNBB, OAB, Conferência dos Religiosos do Brasil CRB, CUT, Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua, Movimento dos Homossexuais de Belém MHB, Movimento das Mulheres do Campo e da Cidade MMCC e UNI- POP, tendo como objetivo inaugurar a 2? fase da Campanha da Ação da Cidadania Contra a Fome,.a Miséria e Pela Vida que consiste na busca de reformas estruturais do estado e da economia com vistas a inversão das prioridades locais, estaduais e nacionais de modo que o flagelo da fome, da miséria e da vio- Cuíra 6

6 Nota lência seja atacado, de fato, nas suas raízes. As entidades da Sociedade Civil que tomam parte da Ação Cidadania em Belém do Pará definiram que este primeiro Grito da Ação Cidadania deveria especialmente envolver aqueles que são excluídos da sociedade, que normalmente não participam de sindicatos, associações, centros comunitários, partidos, etc, porém que estão aprendendo uma nova experiência de organização a partir da campanha contra a fome. Foi definido também que o Grito da Cidadania procuraria reunir todos os movimentos da sociedade civil e suas propostas. De fato, a manifestação, mesmo e infelizmente sem a participação expressiva de estudantes, sindicalistas e suas entidades, alcançou seus objetivos. Como registrou um jornal local, O Liberal, as caras pintadas dos "teens" foram substituídas pelos rostos cansados de posseiros. Ou seja, apesar das imensas dificuldades de transporte, já que a maioria não tem dinheiro para sair de casa, o povo saiu às ruas não apenas para fazer reivindicações localizadas, porém para apresentar propostas de democratização do estado, transparência na aplicação de recursos e, principalmente, gestão da sociedade civil. Antes e durante o evento uma comissão das entidades organizadoras apresentou à Prefeitura Municipal e ao Governo do Estado um documento contendo as reivindicações propostas relativas à: i) Democratização das Políticas Públicas e Participação da Sociedade Civil; ii) Direitos de Cidadania; iii) Linhas de incenti- vo e apoio à atividades geradoras de empregos, renda 'e alimentos e iv) Infra-estrutura Urbana e Serviços. Tais propostas surgiram de diversos fóruns e encontros de entidades, destacando-se às contribuições da CBB, do Fórum Metropolitano de Reforma Urbana, do Fórum da Amazônia Oriental, do Grito dos Povos da Amazônia e da 2? Semana Social da CNBB. Na Prefeitura Municipal, o Vice-Prefeito Aldebaro Klautau comprometeu-se em tratar o documento em reunião de um fórum do Secretariado Municipal que reúne-se semanalmente para tratar de assuntos relativos à campanha contra a fome. Ficando acertado que no dia 9 de dezembro apresentaria ao Comitê Cidadania uma resposta global às reivindicações e propostas apresentadas. Enquanto isso negociações deverão ser realizadas com cada secretaria, inclusive em torno de estudo técnicos relativos à Saúde, Educação, Saneamento, Transportes, Regionalização Administrativa, alternativas de produção de alimentos e comercialização popular e geração de empregos. No governo do Estado a entrega do documento foi feita a SEPLAN (Secretaria de Planejamento), na presença dos representantes das Secretarias da Agricultura, Saúde, Trabalho e da Ação Social. As negociações com cada Secretaria deverão ser iniciadas a partir do dia 22 de novembro, inclusive com o detalhamento das propostas e estudos técnicos. Uma nova reunião ampliada entre o Comitê Cidadania e as Secretarias do Governo estadual ficou marcada para o dia 13 de dezembro/93. Segundo os organizadores esta inauguração da 2. a fase da Campanha contra a fome e a miséria é muito importante por buscar alternativas de médio e longo prazo para a solução do problema, porém com ela inicia-se também um logo e difícil processo de negociações para a implementação de reformas estruturais que, certamente, enfrentarão muitas resistências, que só serão vencidas pela pressão da mobilização e organização popular. Não se pode esperar que a conquista e o exercício da cidadania nas condições do Brasil e da Amazônia sejam fáceis, mas o caminho está aberto e já estamos avançando. Cuíra 7

7 Nota Cuíra 8 Exposição do Arquivo Cultural Lucélia Santos Espaço Cultural Lucélia Santos expõe na UNIPOP O ator Guilherme Beze realizou no período de 27 a 30 de novembro no Instituto Universidade Popular UNIPOP, a exposição do Arquivo Cultural Lucélia Santos "A Atriz, a Mulher". Nesta exposição foram mostrados vários trabalhos de Lucélia Santos através de fotos, vídeos, quadros fotográficos, recortes de revistas e jornais. O arquivo Cultural Lucélia Santos vem sendo desenvolvido desde 1984, mostrando fotos de novelas populares como "A Escrava Izaura", até a última peça em que atuou, "Ajuda-me a Lembrar". Guilherme diz que não sabe porque Lucélia Santos, e não outras atrizes mais famosas como Fernanda Montenegro. O que se sabe segundo ele, "foi O que é aquilo lá no céu? Um pássaro? Um avião? Ora, claro, o super-homem? Não. Apenas o Dario, Roswita e os meninos indo para a Suíça. Flutuando na leveza de uma fantástica vontade de viver. Meio cigana, meio dessa gente do mar, uma história em cada porto. Construindo a alegria, a solidariedade e uma cidadania que contraria Roberto da Matta quando diz que "comícios, festas e discursos a parte -, o que ninguém quer ser efetivamente no Brasil é cidadão, porque ninguém é de ferro". Mesmo sem ser de ferro, Dario, Roswita, são cidadãos do mundo o que importa é construir o ser humano onde quer que esteja ou seja. Porém, em cada porto também fica uma saudade, profunda, principalmente naqueles que não sonham com super-homens, mas que admiram essa coisa contraditória, frágil e apaixonante que é ser gente. Um grande beijo de seus amigos da UNIPOP. que aconteceu uma paixão, desde criança, e que vem se fortalecendo até hoje". Na exposição foram apresentadas cenas de filmes contracenados pela atriz, como "Bonitinha, Mas Ordinária"; entrevistas do programa "Cara a Cara", apresentado pela jornalista Marília Gabriela. Além disso, foram mostradas fotos de Lucélia atuando no seu primeiro trabalho de teatro, "Sonhos de Uma Noite de Verão", que representava o espírito da Floresta, "PUCK" e a inesquecível minisérie "Ciranda- Cirandinha". Por tradição todas as pessoas que foram prestigiar a exposição saíram perfumados com a fragância Vereda Tropical, nome da novela onde a atriz participou como personagem principal". Dario Schaffer, diretor geral da UNIPOP de 1987 a 1993

8 Modernidade & Cidadania Hipertexto chega à Educação Popular demldade só faz sentido se rimar com cidadania. Este é o pensamento centrai da união entre a Unipop e a Compinfo para o desenvoivimento noiogia hipermídia para a produção de s eletrônicos interativos, em computador, que tanto sirvam de instrumento Ulitfco nos cursos da Unipop quanto de veículos dei sociaiização de conteúdos e da própria cuitura da informática. Olavo Gomes Pereira e " Lincoln John Campos Ribeiro m. Ti mfwêêêr 0Cooperativa Mista de Profissionais de Informática COMPINFO teve sua origem a partir da UNIV Inteligência Artificial Ltda, que por sua vez tinha por meta o desenvolvimento de programas computacionais do tipo grande escala, ou seja, programas que podem ser usados em diversas áreas do saber ou por diferentes profissionais. Nesta linha a UNIV-IA desenvolveu o editor de texto CANDIRU e uma versão para impressoras braile usado por deficientes visuais; em seguida colocou no mercado o HIPER-ACESSO: um Ambiente Hipertexto, primeiro hipertexto totalmente nacional. Recentemente a empresa UNIV-IA mudou sua estrutura de limitada para cooperativa resultando na UNIV Soluções Inteligentes, cuja razão social é Cooperativa Mista de Profissionais de Informática. Atualmente a COMPINFO agrega diversos profissionais ligados a área de informática, os quais tem participação conforme regimento das cooperativas. A COMPINFO permanece com a mesma linha de ação da UNIV-IA, Cuíra 9

9 Modernidade & Cidadania pois entende que o ganho quantitativo e qualitivo para a região Amazônica poderá.ser obtido através do investimento em produção de software que é a parte inteligente do computador, a parte máquina é conhecida como hardware. O software é um produto industrializado de alto valor agregado, ao se produzir software também se estará formando mão de obra especializada e conseqüentemente isto poderá trazer a melhoria da qualidade de vida na região, além do mais, software não traz degradação ao meio ambiente. A parceria foi um ponto forte da UNIV-IA que realizou trabalhos com instituições como o Centro de Estudos e Práticos de Educação Popular-CEPEPO, Museu Paraense Emílio Goeldi-MPEG, Processamento de Dados do Estado do Pará-PRODEPA e etc. De modo análogo a COMPIN- FO vem realizando com o Instituto Universidade Popular - UNIPOP o projeto Hipermídia, que começou em julho de 1993 e tem duração prevista de três anos. Este projeto visa a capacitação de integrantes da UNIPOP na arte de fazer documentos eletrônicos, sendo que o principal uso destes documentos é nos cursos promovidos pela UNIPOP. Tecnologias relacionadas a Documentação Eletrônica Está ocorrendo no Brasil uma invasão de pacotes multimídia interativos, onde se desenvolvem programas em que o usuário não precisa ter conhecimentos básicos de informática para manipular o computador. Em revistas como Byte Brasil, PC Magazine Brasil e Exame Informática ficamos maravilhados com as facilidades que a multimídia in- terativa pode trazer ao nosso cotidiano, ao agregar em uma única plataforma as potencialidades da mídia audio-visual e a interatividade propiciada pelo computador. Entretanto, a real potencialidade não pode ser obtida simplesmente com o apertar de um botão. Ou será que queremos apenas apertar botões? Certamente que não, a natureza humana é criativa ela quer mais. Este algo mais não é obtido da noite para o dia. O elemento computador está trazendo um novo modelo de consumo àqueles que produzem conhecimento, diferente do tradicional que distancia o produto do seu criador e atribui toda a habilidade e criatividade ao produtor da manufatura. Este novo modelo traz toda a potencialidade de produção ao produtor de conhecimento, dando-lhe ferramentas para confeccionar seu produto ao seu bel prazer. A exemplo do material impresso, antes, para se produzir um livro era necessário uma quantidade imensa de profissionais envolvidos no processo gráfico. Hoje, o autor do livro pode enviar para gráfica o material já editorado com suas preferências tipográficas, ilustrações, notas de roda-pé e etc. A apelação do marketing ao promover as facilidades da multimídia interativa deixam o consumidor tradicional, aquele que usa serviços de terceiros, afoito para agarrar firme nesta onda: "Eu posso produzir clips multimídia"? Certamente que sim, todos podemos. Aos poucos ele vai tomando consciência que não basta apenas ter uma plataforma multimídia com uma infinidade de recursos para se produzir algo de qualidade, é necessário ter conhecimento so- bre aspectos cognitivos, didáticos, de programação visual, lingüística e outros relacionados. Porém, esses não são motivos para desistir. Como obter novas perspectivas? A solução está na história: a multimídia em si é antiga, o termo significa muitos meios ou múltiplas mídias, podemos dizer que não existe praticamente um ser humano que não teve contato com multimídia. O cinema, a televisão, uma palestra com transparência são considerados multimídia, pois agregam mais de uma mídia; o rádio, o jornal impresso são exemplos monomídia. A diferença está no computador que além de apresentar o elemento novo da interatividade, tem o potencial de agregar mídias já aprimoradas culturalmente. Um dos passos para a solução desta problemática é aprender com as mídias que estão fragmentadas. Cogita-se que tão cedo não haverá uma massificação de multimídia interativa. Primeiro Cuíra 10

10 Modernidade & Cidadania porque o custo de uma plataforma multimídia é alto, segundo porque é necessário cultura. Recai no velho problema: quem veio primeiro, o ovo ou a galinha? Só se tem cultura em multimídia interativa se houver uma utilização, como não se pode utilizar, não se tem cultura. Mas por outro lado é constatado que os preços de plataformas de computadores tem caído vertiginosamente, isto é um ponto positivo, pelo menos nos EUA, já se tem um computador instalado para cada colarinho branco. Mas estamos no Brasil, será que isto também ocorrerá aqui? Evidentemente que sim, depende de cultura e investimento referência à outras informações, sem uma necessária linearidade. Inicialmente a tecnologia hipertexto operava basicamente com texto em computadores de grande porte. Recentemente começou a manipular, em microcomputadores, também imagens gráficas digitalizadas. Sua evolução caminha para o manuseio de áudio e imagens de vídeo a que é dado a denominação de hipermídia. A tecnologia hipertexto permite a produção de títulos em diversas áreas do saber, semelhante a multimídia. Entretanto, ela não depende de plataformas avançadas e nem armazena seus títulos em CD- í ( A tecnologia hipermídia traz toda a potencialidade de produção ao produtor de conhecimento J J em informática. E o grande investimento em informática está em recursos humanos de utilização de software e hardware, não basta apenas a máquina, sem os programas, eles não funcionam sozinhos. Hipertexto-Hipermídia O motivo pelo qual se abordou a multimídia interativa está na íntima relação com a tecnologia hipertexto. Esta é bem mais antiga, reuniu ao longo dos anos diversas características de outras tecnologias como: banco de dados, editor de texto, transmisão de dados etc. A tecnologia hipertexto reside no fato de uma informação poder fazer ROM, ela utiliza o armazenamento em discos magnéticos acessíveis os disquetes em qualquer máquina IBM-PC. Uma produção de títulos hipertexto envolve passos análogos a produção de títulos multimídia, o que se verifica é a total ausência a nível mundial de uma sistematização de produção, sabese apenas que cuidados multidisciplinares (cognição, aprendizagem, comunicação visual, e etc.) devem ser levados em consideração nos projetos. A realidade é de autores de títulos hipertexto e/ou multimídia que seguem uma heurística e fazem do cotidiano a sua sistematização intelectual. Através da capacitação de um grupo multidisciplinar, a UNIPOP abre uma perspectiva ampla de utilização da informática nos seus cursos de formação. Através deste grupo será possível realizar uma sistematização da produção de títulos hipertextos e propiciar a distribuição a nível nacional, a qual é justificada por já se ter um parque considerável de plataformas de computadores adequados a esta tecnologia entre as ONG's e demais entidades populares. Deste modo se estará formando cultura e por outro lado a sistematização abre a possibilidade de enfrentar as tecnologias multimídia e hipermídia com mais autoridade e direcionar seus usos para fins úteis à sociedade. A UNIPOP, ONG que já vem atuando no Pará há mais de 6 anos, tem como uma de suas preocupações básicas a formação de recursos humanos, condição necessária para o desenvolvimento da região e fortalecimento da sociedade civil como um todo, torna-se uma parceria perfeita para o projeto Hipermídia que possui nos seus princípios fundamentais a formação de pessoal capacitado a trabalhar com a tecnologia dando possibilidade aos mesmos de direcionar as aplicações aprendidas para os objetivos fins da UNIPOP. A UNIPOP tem como slogan "Saber é Poder", o que concordamos plenamente, pois sabendo usar uma tecnologia pode-se criticála, aperfeiçoá-la e democratizá-la tornando-a um instrumento de cidadania. Autor»»: Olavo Gomes Pereira» Uncoln John Campo» Ribeiro são engenheiros eletrônicos especializados em Informática, Integrantes da COMPINFO. Cuíra 11

11 Ecologia E Fórum da Amazônia Oriental realizou em junho passado a I Conferência da Sociedade Civil Organizada, com o tema: Meio Ambiente e Desenvolvimento, Combate a fome e miséria na Amazônia. A Conferência significou o marco principal da primeira etapa de construção do Fórum. Reuniu 98 organizações nâo-governamentais que atuam na Amazônia Oriental, numa das mais expressivas reuniões deste caráter já realizada a nível nacional. A busca da "unidade na diversidade" esteve presente nos dias de debates, onde o empenho de todos era o de buscar respostas alternativas ao modelo concentrador, excludente e depredador de desenvolvimento dominante no cenário amazônico, sistematizando propostas afirmativas e democratização das políticas públicas na região. A Conferência decidiu pela criação definitiva do Fórum da Amazônia Oriental FAOR, como espaço de articulação entre redes, fórunes e comisão, interessados em somar esforços na luta por um desenvolvimento com conservação ambiental. A estrutura do Fórum ficou assim constituída: 1) A Conferência: realizase de dois em dois anos e representa o órgão máximo do Fórum; 2) Um Conselho de representantes: constituído por re- Faor: papel e tarefas pós conferência Carlos Bordalo Muitos projetos estratégicos alternativos estão em gestão no Brasil, no entanto muito poucos são os que compreendem a dimensão da regionalidade em um país de dimensões continentais como o nosso. O FAOR se coloca como interlocutor fundamental para reivindicar à Amazônia o tratamento correto a sua especificidade, sem o que qualquer projeto, por mais progressista que seja, reeditará o colonialismo de sempre. presentantes de Fóruns, Redes e Comissão com atuação na Amazônia Oriental; 3) Uma Executiva: formada por oito entidades nãogovernamentais com atribuições de encaminhar as deliberações da Conferência e coordenar o Fórum. As entidades eleitas para o primeiro mandato que se estende até junho de 1995 são as seguintes: FASE-Amazônia UNIPOP IDA CUT SOPREM CEENPA Central de Movimentos Populares GEX. Os resultados globais da Conferência estão sistematizados em dois tipos de relatórios, um visual e outro escrito a disposição dos interessados na secretaria do Fórum na rua Bernal do Couto, 1329, fone e FAX O FAOR e suas tarefas na atual conjuntura O primeiro grande desafio, o de consolidar o Fórum, condição essencial para materializarmos a expressiva vontade manifesta de "unidade na diversidade". As demandas a serem enfrentadas para a qualificação de nossa capacidade propositiva e de disputa política por um "desenvolvimento com conservação ambiental" na Amazônia, só pode ser alcançada se formos capazes de somar esforços. A pujança dos Fóruns, Redes e Comissão enfrentando setorialmente problemáticas específicas e diferenciadas, aponta para a necessária "costura" do tecido social organizado, evitando-se a pulverização de esforços e a sobreposição de ações. Oxigenar o debate acerca de linhas políticas, econômicas, tecnológicas e metodológicas que fundamentem nossas lutas, aproximem os diferentes atores sem interferir nas identidades próprias dos mesmos, que busquem Cuíra 12

12 Ecologia sentido estratégico e fortalecimento da capacidade coletiva na disputa de hegemonia na sociedade pró políticas públicas orientadas pelo interesse das maiorias excluídas do processo e dos frutos do desenvolvimento econômico e social na Amazônia, um desafio difícil porém essencial. O papel estratégico a ser desempenhado pelo Fórum da Amazônia Oriental diante da atual correlação de forças, o de servir como espaço priviligiado, onde se processe a nossa concepção de desenvolvimento, oferecendo oportunidades de expressão de idéias, trabalhos alternativos. ( (A luta pelo desenvolvimento com conservação ambiental precisa ser assumida como causa pelos milhões de excluídos. Não podemos mais falar só para os 'organizados \ J ) formação de quadros da sociedade civil capacitados ao enfrentamento em patamar superior crítico-propósito quanto a problemática do desenvolvimento. Oportunizar a ampliação de significados micros que estejam se processando, sinali- zando com alternativas de ruptura com os padrões técnico-científicos e financeiros hegemônicos que por conta própria estão impossibilitados de expressar-se, servindo ao conjunto das entidades como canal aberto e plural para o debate de divergências, Cuíra 13

13 Ecologia OanM Sorrio onde se processa uma nova cultura política alicerçada no combate aos corporativismos, na construção do consenso progressivo enquanto modalidade principal de nossos métodos de decisão e planejamento. Tendo como pano de fundo orientador, a democracia como valor universal e uma metodologia participativa na construção de novas relações entre as pessoas, as instituições e da sociedade com o Estado. Apontando para a quebra do autoritarismo centralizador na elaboração e condução das políticas públicas e a desprivatização do Estado em todos os níveis. O acúmulo prolongado de forças que perseguimos, exige o envolvimento de parcelas cada vez maiores e conscientes das massas amazônidas nas lutas por transformações estruturais na Amazônia. A luta pelo "Desenvolvimento com Conservação Ambiental" precisa ser assumida como causa pelos milhões de excluídos. Não podemos mais falar só para os organizadores, é urgente libertar o imaginário popular amazônida da prisão ideológica das elites, nos diferenciando de suas formas de relação com a população e isto só será possível se popularizarmos a luta ambiental, se oferecermos informações ao alcance de todos, se alimentarmos o debate de forma per- manente e disputarmos a batalha da informação, possibilitando amplo acesso ao conhecimento, permitindo a participação da população nas definições sobre os destinos de todos. A projeção de valores novos no trato da esfera pública, a valorização dos segmentos historicamente marginalizados, a defesa dos povos indígenas, dos mananciais ameaçados, dos recursos naturais em geral, as Reformas Agrária e Urbana, o combate sem trégua a violência urbana e rural perpetradas contra grupos e populações indefesas, o' desmascaramento das versões fabricadas por grupos econômicos e políticos poderosos, não podem mais prescindir de qualificada batalha da informação em nível adequado aos exigidos pelos padrões atuais da comunicação de massa. A concretização de um jornal do FAOR passo imprescindível no estágio atual de acumulação de forças dos setores democráticos e populares, além de ação ofensiva na disputa de horários nas rádios e na mídia em geral. A executiva convoca todos os interessados neste debate a participação ativa na construção deste espaço que é de todos nós interessados na vida, na democracia, na satisfação material e espiritual dos homens e mulheres de nossa terra. Tal perspectiva histórica deve estar relacionada, integrada com o processo nacional, não nos iludamos que seja possível tal perspectiva se concretizar só na Amazônia, estamos compelidos a inserir nossa especificidade na amplitude da nação brasileira, na pluralidade e diversidade das regiões, no sonho por uma prática de todos e para todos. Autor: Carlos Borda/o ó coordenador da FASE Amazônia «coordenador executivo do fórum da Amazônia Orientai (FAOR) Cuíra 14

14 Conjuntura OLHARES SOBRE 94 m recente Conferência Nacional, realizada em Brasília sobre Projetos Estratégicos Alternativos para o Brasil o professor Marco Aurélio Garcia, que vem coordenando os passos políticos de Lula, mereceu um significativo elogio, por sua lucidez, do jornalista Gilberto Dimenstein, que foi o moderador daquela palestra. Marco Aurélio, representando o pensamento da cúpula do PT, avaliou primeiro que, ao contrário do que muitos petistas pensam, a eleição presidencial ainda não está ganha e esta deverá ser uma das mais difíceis e acirradas da história do país. Muito mais dura que a de 89, inclusive. Contudo, o elogio de Dimenstein foi provocado principalmente pelo segundo ponto avaliado por Marco Aurélio, quando este afirmou que ainda mais difícil que vencer estas eleições, será governar. E Marco explicou dizendo que "sofreremos um brutal ataque da direita, obviamente por ter os seus interesses contrariados e, sofreremos também com a intolerância de boa parte das esquerdas que, por não terem a paciência necessária, passarão a exigir soluções imediatas para problemas seculares do país". Realmente os elogios do jornalista fazem justiça. O cenário que se compõe desde que Lula apareceu como único candidato, já anunciava que os grupos de direita se articulariam em dois níveis, um para desgastar o candidato da esquerda e, outro, para tentar buscar um no- me que tenha condições de superar Lula nas urnas. Quanto ao desgaste de Lula, o próprio Gilberto Dimenstein, que é membro do Conselho Editorial do jornal Folha de São Paulo, tratou de alertar que os "ataques sofridos pelo PT até aqui são flores perto do que vem por aí". Dias depois, o próprio Dimenstein, em sua coluna diária, tratou de desancar uma série de acusações contra o partido de Lula aproveitando a onda de suspeitas gerada pela CPI da CUT merecendo por isso um processo por calúnia movido pela assessoria jurídica do Partido dos Trabalhadores. De fato, é possível prever que chumbo muito mais grosso que este da CPI da CUT criada em represália às investigações do caso Pau Brasil que envolve Maluf está vindo por aí. E, para reforçar esta preocupação, não é demais lembrar que mais importante do que os fatos é a versão dos fatos. E, neste momento em que o país Cuíra 15

15 Conjuntura passa por essa febre de denúncias de corrupção em que mesmo antes de apuradas o julgamento popular condena o réu, inclusive com o auxílio das esquerdas, uma campanha razoavelmente articulada pode causar estragos consideráveis na candidatura Lula no processo eleitoral. Quanto ao candidato das elites, tanto não se pode pensar em um nome que ocupe o espaço próprio criado por Maluf, substituindoo, quanto supor que as elites não seriam capazes de esvaziar, o tanto quanto possível, a candidatura Maluf para se rearticular em torno de um nome com perfil mais de centro como Antônio Brito, Jaime Lerner, Ciro Gomes ou até Sarney, fazendo de qualquer um destes o seu candidato prioritário. Mas o cenário de 94, tende a ser muito mais complexo do que a mera análise da disputa presidencial. O fato desta ser uma eleição geral que definirá uma nova correlação de forças desde o nível dos parlamentos estaduais até a presidência da república passando pela eleição de dois terços do senado, dos deputados federais e particularmente dos governadores faz com que a tarefa de compreender a dinâmica do jogo eleitoral de 94 seja infinitamente mais difícil do que a de 89, quando a eleição para presidente foi solteira. Se é correto supor que haverá uma tendência de elevar a motivação do eleitor às preocupações em torno das questões nacionais em função da eleição para presidente, também não podemos desconhecer que as eleições para os governos dos estados tenderá levar as preocupações do eleitorado para problemas mais localizados, isto reforçado pelas eleições parlamentares tanto dos deputados estaduais, quanto dos federais e até, dos senadores. Já que os candidatos a estes cargos servirão de correia de transmissão dos seus candidatos a governador. Resta saber quem vencerá a disputa nacionalizar x paroquializar as eleições de 94, ou quem terá mais competência para trabalhar com estas duas dimensões da batalha. O certo é que os candidatos a governador terão um papel de destaque no processo. Portanto, a política de alianças a nível dos estados é tão importante quanto aquela que se estabelecer a nível nacional. E, ainda, como ponderou o professor Marco Aurélio Garcia, também Secretário de Relações Internacionais do PT, a inédita e consolidada viabilidade política e eleitoral de um candidato de caráter democrático e popular no Brasil, propõe que já entre na pauta de preocupações dos militantes progressistas democráticos do país a questão do "Day After" aludindo ao filme que discute o dia seguinte de uma 3. a Grande Guerra Nuclear e, que estas discussões sejam seriamente refletidas à altura das responsabilidades nacionais e continentais que esses militantes passam a assumir diante desta probabilidade histórica. A ingenuidade de amplos setores da militância de esquerda, tanto tem sido capaz de mobilizar estas pessoas na luta, pelo seu caráter romântico, quanto pode fazer crer que Lula na presidência é a vitória definitiva do socialismo, para uns, ou o paraíso redentor, para outros. Porém, existe ainda coisa pior, que poderá causar grandes prejuízos a um governo democrático vindo dos movimentos populares, o corporativismo. Aí não se trata mais de ingenuidade, mas, do que é muito mais perigoso, a reprodução cultural do comportamento ético das elites. Ou seja, a determinação em resolver problemas corporativos, particulares, por sobre os interesses do conjunto da sociedade. O problema é que sem que a militância entenda minimamente a complexidade do que está em jogo, corre-se o risco de vermos grupos que hoje, aguerridamente, fazem a campanha Lula, com três ou seis meses de governo, passarem a se sentir traídos e daí à oposição. Isto para não falar nos grupos fisiológicos que contaminam todos os partidos que se aproximam do poder. É preciso aprender muito com os sandinistas e a experiência da FSLN na Nicarágua (VIDE a seção Internacional). Este complexo cenário que envolve as eleições de 94, merece muitos olhares, começaremos aqui com três da última oficina "Como Fazer Análise de Conjuntura" realizada pela UNIPOP. Se você quiser participar, prepare o seu artigo em até 5 laudas (20 linhas x 60 toques) e mande para nós. A próxima CUÍRA sairá em março de Cuíra 16

16 Conjutura Corrupção, CPIs e Eleições Elias Araújo s escândalos envolvendo políticos e empresários em negócios espúrios não são privativos do Brasil, pelo contrário, atingem em maior ou menor grau também as nações do dito "Primeiro Mundo", a exemplo do Japão e da Itália. O fenômeno da corrupção indica, assim, que não se relaciona propriamente ao "caráter de um povo", porém à natureza das relações entre poder econômico e poder político, entre interesses privados e o Estado, aqui entendido como a instituição máxima e soberana de uma ou várias nações, que em princípio e por princípio deveria ser pública. Situar a corrupção como fenômeno, ou seja, como manifestação de determinadas relações entre o público e o privado é importante para que não sejamos tentados a explicá-la com frases preconceituosas do tipo: "O Brasil não é um país sério" ou "O Brasil não tem jeito" que, na verdade são apenas o reversos da moeda de outros tempos e outras situações em que se afirmava o "Brasil Potência", "Deus é Brasileiro", etc e revelam apenas a arrogância de igno- ((O que faz a diferença 4 que na Itália e no Japão os empresários e políticos, mesmo corruptos, parecem ter mais dignidade: renunciam, se entregam ou se suicidam ) y rantes que se recusam a pensar. Aos orgulhosos da ignorância, aos que pensam que sabem tudo porque pensam que a realidade sempre confirma o que aprenderam a repetir de pessimismo, não resta nem o consolo de que a corrupção é brasileira. As corrupções são tristemente comuns em todo o mundo. Onde quer que exista poder econômico e não existam mecanismos concretos de participação e fiscalização da sociedade civil no estado, há um espaço aberto para a corrupção. A diferença, portanto, não está exatamente na corrupção de cada país, porém na atitude que seus cidadãos adotam. No Japão dos últimos dez anos, vários primeirosministros e líderes partidários caíram por terem sido flagrados em casos de suborno e malversação de recursos públicos e até por casos fora do casamento. Com eles foram presos também seus comparsas empresários, normalmente empreiteiros, industriais, independentemente da magnitude de seus patrimônios. Na Itália, as investigações sobre a máfia terminaram por deflagrar a operação "Mãos Limpas" que vem investigando, indiciando e prendendo antigos e importantes políticos, bem como Cuíra 17

17 Conjuntura grandes empresários, inclusive dirigentes de multinacionais. Tanto no Japão quanto na Itália os sistemas político e jurídico estão sendo reformados de modo a garantir o combate a corrupção, punitiva e preventivamente. Por outro lado, os sistemas partidários centristas tradicionais que vinham governando esses países desde o imediato pós-guerra vêm sofrendo expressivos revezes eleitorais. No Japão, o PLD (Partido Liberal Democrático) perdeu sua maioria no governo. Na Itália, as recentes eleições sepultaram de vez a Democracia Cristã e seu aliado Partido Socialista. Há novamente uma paralisação entre direita e esquerda, com vantagem para o único partido nacional, o PDS (Partido Democrático delia Sinistra), ex-pci (Partido Comunista Italiano), capaz de deter o avanço dos separatistas do Norte da Itália (Lombardia) e dos neo-fascistas. No Brasil, os partidos da ordem burguesa, de direita e centro, que vêm se revezando no poder, também têm alguns de seus principais líderes envolvidos em casos de corrupção e fisiologismo, como atestam as CPIs "do PC" e "do Orçamento". Como sempre, os corruptores são grandes empresários, empreiteiros, prestadores de "serviços", enfim, o poder econômico. O que faz diferença é que na Itália e Japão oç empresários e políticos, mesmo corruptos, parecem ter mais dignidade: renunciam, se entregam à Justiça ou se suicidam! No Brasil eles confundem o seu fim com o fim das instituições e do país e querem afundar o Brasil junto. A CPI da CUT, por exemplo, tem este sentido. Com um caráter puramente de represália política pois só foi articulada depois da denúncia que envolveu Paulo Maluf no caso Pau Brasil, ela visa basicamente atingir o único partido com chances eleitorais em 94 e que não foi envolvido nos escândalos das CPIs "do PC" e "do Orçamento": o PT. O que não for possível detectar, provar, será inventado. Com elas os principais partidos da ordem, PMDB, PPR (ex-pds) e PFL, esperam alcançar os seguintes objetivos: 1) Zerar tudo ao nível da lama: ou seja, afirmar e provar que todos são corruptos e, assim, forçar um acordo pelo qual seriam punidos apenas alguns envolvidos nos casos mais escandalosos; 2) A partir da vala comum da lama, reduzir a disputa e os debates em torno das eleições para deputados, senadores e presidente em 94 entre os mais corruptos e menos corruptos; entre o corrupto competente e o corrupto incompetente; entre o corrupto graduado e o não graduado etc; 3) Enfraquecer as posições da CUT, do PT e da esquerda na Revisão Constitucional, de modo a concluir a toque de caixa não uma simples revisão, porém refazer mesmo a Constituição, despojando-a completamente das conquistas sociais e de soberania, antes que os representantes dos partidos da ordem corram o risco de serem rejeitados pelo voto popular. Quem quiser que se deixe enganar... Apesar da corrupção e de suas manobras, podemos concluir entretanto que o nosso país "tem jeito", que, em princípio, não somos nem piores nem melhores do que outros povos e que tudo depende muito da atitude que assumirmos, individual e coletivamente, perante os fatos e a vida. Podemos constatar e ficar lamentando; podemos querer encontrar apenas um ou dois bodes expiatórios ou ainda podemos investigar a fundo e ir a raiz dos nossos problemas, enfrentando-os com radicalidade. Mas só pode escolher quem tem condições e disposição para encarar, para ver e querer, de fato mudar a si e ao Brasil. Autor: Elias de Paula Araújo ó Diretor Admlnlstratlvo-Flnancelro da UNIPOP Cuíra 18

18 Conjuntura PRIVATIZAÇÃO nicialmente, antes de entrarmos na questão da privatização das estatais brasileiras, vale evidenciar as diferenças existentes no processo de implementação da estatização nas economias de primeiro e terceiro mundos. Em relação às economias do primeiro mundo o processo de estatização, se deu, principalmente, porque os Estados estabeleceram como do processo de estatização dessas economias, que agora, tentando reverter a situação querem a saída da interferência do Estado na economia. O novo cenário do capitalismo mundial aposta para uma política neoliberal, onde a privatização representa um papel de suma importância para saída da atual crise estrutural que passa o capitalis- ((O modelo de privatização implantado no 3. mundo não leva em consideração as peculiaridades, locais e os interesses da sociedade civil nas questões sociais, econômicas e políticas ) ) objetivo o bem-estar social, em função das demandas político-sociais do início do século. Já, no terceiro mundo, especificamente no Brasil, a estatização se deu porque os governos perseguiram objetivos desenvolvimentistas puramente econômicos e financeiros ampliando dessa maneira a participação do Estado na economia. Há de se perceber bem a diferença da implementação mo no mundo contemporâneo moderno. Muito tem se falado sobre privatização, mas "o que é" e "o que significa", a grande maioria das pessoas não sabe. Privatização é a retirada do controle do Estado da economia. Onde as ações das empresas (antes) estatais passa para a iniciativa privada. A mídia vem realizando violenta campanha contra as empresas estatais com intuito de desacreditá-las perante a opinião pública, evidenciando o setor público como insuficiente e responsável pelo endividamento interno e externo. O modelo de privatização implantado na Europa, principalmente na Inglaterra, teve como conseqüência um retrocesso econômico e social que a deslocou do 5. para o 6. lugar no ranking das nações capitalistas, depois de tirar do Estado o controle em setores produtivos e sua influência nas políticas industriais. Com isso, houve queda em vários ramos da produção e o encarecimento de preços e tarifas dos serviços sociais como luz, água, transporte etc. O custo social dessa política de privatização foi muito elevado, provocando o desemprego em massa, recessão e deterioração de serviços sociais, como saúde, educação e habitação. Mas a privatização também possui outra face, na Itália a política de privatização deu-se de forma mais racional que na Inglaterra, pois os setores privatizados foram os considerados não estratégicos para a economia, como por exemplo, o automobilístico e o têxtil. O modelo de privatização implantado na Inglaterra vem sendo absorvido nos países do 3. mundo, que carentes de recursos, não levam em consideração as peculiaridades locais e os interesses do conjunto da sociedade civil nas questões social, econômica e política. Cuíra 19

19 Conjuntura Cabe analisar a quem interessa esse processo indiscriminado de privatização das estatais brasileiras. A implementação desse processo no Brasil foi uma das bandeiras do governo Collor, embora já latente nos governos anteriores. Tomando, no governo Itamar, grande avanço. Da forma como vem se dando, esse processo atende apenas aos interesses de grupos empresariais nacionais e internacionais. O patrimônio público está sendo vendido a preço aviltante sem nenhuma racionalidade. Nesse sentido é necessário discutir o significado da política de privatização herdada do governo Collor e seus possíveis desdobramentos. A privatização não representa um mal em si. Deve ser feita sim, mas de maneira criteriosa e lógica, a um preço justo e em moeda realmente válida, resguardando setores estratégicos da economia, como por exemplo, o setor elétrico, telecomunicações, químico e tecnologia de ponta. Mas, para que isso venha a acontecer é necessário que toda sociedade esteja esclarecida e organizada a nível nacional de forma a barrar o modelo que está sendo adotado para que não venha sofrer maiores conseqüências, principalmente, no aspecto social. Equipe: Fátima Nascimento, Lúcia Costa e Luís Fernando dos Urbanítárlos, com Sllvanete, Silvia e Rose Mary. 'Texto apresentado como trabalho de conclusão da Oficina de Conjuntura da UNIPOP. Outubro de Política de Alianças para 94 FRENTE DA CIDADANIA 0 nosso passado histórico e a difícil situação por que passa o Brasil deve ser motivo de uma profunda reflexão para todos os brasileiros, especialmente para os que compõem os agentes políticos e os que buscam uma sociedade justa, plural e participativa. Pois, apesar dos setores progressistas no Brasil terem avançado significativamente do ponto de vista quantitativo, parecenos que qualitativamente não ocorreu o mesmo, com algumas exceções, é claro! Os últimos acontecimentos no Brasil como o Impeachemant do Collor, caso Rabelo, caso Mutran, CPI da corrupção... tem servido para amadurecer um pouco mais a consciência política do povo brasileiro. Os dados nos mostram a realidade brasileira que deve ser motivo de análise: um país com mais de 150 milhões de habitantes, que já foi a oitava Potência Econômica do mundo e que possui uma produção de grãos de 80 a 90 milhões de toneladas segundo o Min. da Agricultura, uma das maiores do planeta. Mas, que apesar disso possui 32 milhões de pessoas passando fome, 28 milhões de analfabetos, uma concentração de renda que faz com que 53,2% do PIB fique com apenas 10% da população, e que 50,0% da população fique com 10% do PIB, 30% do congresso representam os interesses de 90% da população enquanto que 70% representam os 10% que compõe as elites e uma inflação mensal na faixa de 35%. A história nos mostra também um pouco dos nossos erros, das nossas deficiências. E portanto, ao analizarmos o momento atual somos levados a ter uma idéia de como será o futuro se as coisas não mudarem seus rumos. O povo brasileiro não tem o costume de participar das decisões políticas de seu país e isso contribuiu em muito para que a classe dominante assumisse o poder do país até hoje, através de seus partidos e organizações. Todavia, nos últimos anos a classe trabalhadora tem avançado bastante em relação ao exercício da cidadania. Através dos sindicatos, associações de bairro etc, Cuíra 20

20 Conjutura uma boa parcela dos brasileiros tem procurado mudar este estado de coisa. A mudança é lenta, gradativa, mas perceptível, expressa-se em alguns partidos que através de parlamentares, governadores, prefeitos etc, tentam mudar a forma de fazer política neste país para um modelo que atenda mais. aos anseios da maioria. A eleição presidencial de 1989, nos mostrou este avanço. Pois os setores progressistas por pouco não fizeram o Presidente da República. Em 1990, os progressistas avançaram ainda mais graças ao entendimento destes partidos. Isto foi constatado principalmente quando foi feita a coligação Frente Popular Novo Pará, que chegou ao seguinte resultado: 3 deputados federais e 8 deputados estaduais, além de quase eleger um senador e do volume que teve a campanha majoritária, cifras absolutamente inéditas para os progressistas paraenses. Porém, como se fosse ironia do destino, em 1992, nas eleições municipais, principalmente na capital, estes partidos se dispersaram regredindo ou estagnando. E o que é pior, criou-se um clima de desentendimento que está dificultando e muito uma possível rearticulação da aliança de Aqui no Pará, como no resto do Brasil, devemos, mais do que nunca, pensar nos interesses da população, aparar as arestas e pensar no Brasil. Não devemos, por conta de divergências, botar em risco esta chance que tem o povo brasileiro de eleger Luís Inácio Lula da Silva presidente, confirmando o que todas as pesquisas apontam. Não devemos esquecer que as eleições 94 serão bem diferentes de 89, pois as de 89 partidos, que mesmo com diferenças entre si, estejam sensibilizados com os problemas do Brasil e queiram encontrar uma saída para a crise. A aliança deve se dar em torno de um projeto que seja viável para o País e que seja amplamente discutido pelos componentes desta aliança que por sua vez deve discutir com seus representados. Dessa maneira estaremos levando em conta, principalmente, a <<Aqui no Pará, como no resto do Brasil, devemos, mais do que nunca, pensar nos interesses da população, aparar as arestas e pensar no Brasil yy foram apenas para presidente e 94 será além de presidente, para governador, senador, deputado federal e estadual. Portanto, é preciso que ao nos dispormos a fazer uma aliança para 94, deixemos de lado o sectarismo e as divergências internas e pensemos mais no Brasil como um todo. Pois o que está em jogo é a vida de milhões de brasileiros. É necessário então, que unamos todos os setores e cidadania do povo brasileiro. Porque, sem dúvida nenhuma, a falta desta é a principal causa do caos em que se encontra o Brasil. E deixamos aqui nossa sugestão para o nome desta coligação: Frente da Cidadania. Equipe: Zeca, Lucilia, Jorge e Antõnla. * Texto produzido como exercido da oficina "Como fazer Análise de Conjuntura", promovida pela UNIPOP. Cuíra 21

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