Turismo nas Fazendas Imperiais do Vale do Paraíba Fluminense

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1 UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO ADALGISO SILVA SILVEIRA Turismo nas Fazendas Imperiais do Vale do Paraíba Fluminense Tese de doutorado apresentada ao Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo no Programa de Pós- Graduação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, como requisito para a obtenção do título de Doutor, na área de Concentração em Ciências da Comunicação da linha de Pesquisa em Turismo e Lazer. Orientador: Prof. Doutor Mário Jorge PIRES São Paulo 2007

2 TURISMO NAS FAZENDAS IMPERIAIS DO VALE DO PARAÍBA FLUMINENSE Área de concentração em Ciências da Comunicação Linha de Pesquisa em Turismo e Lazer Aprovado em / / Profº Dr. Mário Jorge Pires Presidente da Banca Banca Examinadora: Profº Dr. (a) Profº Dr. (a) Profº Dr. (a) Profº Dr. (a) São Paulo 2007

3 À minha avó Dona Isaura, que no auge dos seus 97 anos, lúcida e inteligente é inspiração para a vida. Aos meus Irmãos e Sobrinhos que sirva como exemplo de perseverança na busca do caminho do bem e da vitória pela vida. À Verônica, pela sua fé inabalável em Deus, pela paciência e a confiança na vitória. Ao meu pai, homem desprovido de qualquer sentimento de vaidade e prepotência. À minha mãe Dona Maria, a dor da saudade eterna, presente em espírito e sempre irradiando a esperança de dias melhores. In Memoriam À Evelyn Pasquale, pelo pioneirismo de uma idéia bem-sucedida. In Memoriam

4 formalidades. Este é um momento muito especial, pois não são apenas palavras para cumprir Todos aqueles que nos ajudaram e nos apoiaram são dignos não apenas de agradecimentos, mas de reconhecimento pelo que representaram e representam nesta caminhada de afirmação e esperança, para se chegar a algum lugar, que sempre foi não só um sonho, mas uma opção de vida. Este trabalho é resultado da colaboração e do desprendimento de todos que aqui citaremos, aos quais seremos eternamente gratos. A Mário Jorge, muito mais que um orientador, um conselheiro, um amigo, uma pessoa de um caráter raro nos tempos atuais, a quem devo a consolidação da carreira acadêmica. Aos professores, com os quais amenizei a insegurança e as dúvidas, fruto da inexperiência, Profª Olga, Profª Míriam, Prof. Reinaldo, Prof. René, vistos como um espelho em todos esses anos. A todos os proprietários das Fazendas pesquisadas, pela acolhida e as informações determinantes para o desfecho da pesquisa. Em especial ao pessoal da Fazenda Ponte Alta, Roberto e sua equipe do Sarau Imperial. Ao Sr. João Reis da Fazenda União, Sra. Magid da Fazenda São João da Prosperidade, Sr. Paulo da Fazenda Florença, Sra. Aparecida Pentagna da Fazenda Pau D alho, Sr. Celso da Fazenda São Paulo, Sra. Marta Brito da Fazenda do Secretário, Sra. Simone da Fazenda Mulungu Vermelho, Sra. Lílian da Fazenda Cachoeira Mato Dentro, Sr. Rubens da Fazenda Galo Vermelho, Sra. Ana da Fazenda da Taquara, ao Pe. Geraldo da Fazenda Santo Antonio do Paiol, Sr. Arturo da Fazenda Santo Antônio, Sta.

5 Cecília da Fazenda Santa Cecília, Sra. Tatiana da Fazenda São João da Barra, Sra. Débora da Fazenda Campos Elízeos. Ao Instituto PRESERVALE, na pessoa da Sra. Sônia Mattos, proprietária da Fazenda Vista Alegre, sempre prestativa e incentivadora deste trabalho. Paraíba A Sra. Nilza Rozemberg profunda conhecedora do turismo nas fazendas do Vale do Ao historiador Paulo Lamego e esposa pelo apoio e incentivo À Cristina, uma colega, uma parceira, uma irmã de coração, pelo apoio e incentivo. À Paula, amiga dos tempos iniciais, sempre presente para apoiar. Aos alunos do Curso de Turismo da UNIRIO, na pesquisa de campo. Aos alunos da primeira turma de Turismo da Cásper, emanadores de uma energia sempre positiva, À Carolina Teixeira Fazendinha, criativa e sempre disposta a colaborar. A Bárbara, sempre disposta a colaborar. informações. Aos funcionários do Depto de Pós da ECA, pelos esclarecimentos e presteza nas À Mary da Secretaria do CRP / ECA, pela ajuda no Curriculum Lattes. A todos os colegas e amigos de outras áreas, a tantos outros não citados, não propositalmente, mas que estão na minha lembrança para sempre. A todos, o privilégio em conhecê-los e tê-los no nosso universo de vida. A minha eterna gratidão.

6 Este estudo realizado com base em fontes primárias e secundárias está embasado no trabalho de campo que consiste em entrevistas e observações in loco. Consiste em analisar as Fazendas Imperiais no Vale do Paraíba Fluminense para a implementação da atividade turística. Trata do elemento histórico e da cultura material como valor capaz de alavancar o turismo, tendo como sustentáculo a história cotidiana da região do Vale do Café, no período da cafeicultura durante o século XIX. Revela resultados abrangentes para a consolidação de um novo pólo turístico regional tendo as fazendas imperiais como fator motivador da destinação. Palavras-chave: Turismo no Espaço Rural. Turismo Rural. Turismo Histórico Cultural. Interpretação patrimonial.

7 This study done with basis on primary and secondary sources is based on the fieldwork that consists on interviews and observations in loco. It consists on analyzing the Imperial Farms in the Vale do Paraíba in Rio de Janeiro in order for the implementation of tourist activity. It is about the historical element and the material culture with value enough to promote tourism, having as basis the daily life story of the Vale do Café region, in the period of coffee growing during the 19 th century. It reveals inclusive results for the consolidation of a new tourist regional pole having the imperial farms as a motivating factor of the destination. Keywords: Tourism in the Rural Space. Rural Tourism. Cultural Historic Tourism. Patrimonial Interpretation.

8 Gráfico 1: Data de fundação Gráfico 2: Área territorial da fazenda Gráfico 3: Atividade produtiva de origem Gráfico 4: Sede atual é a mesma desde a fundação Gráfico 5: Mobiliário é o mesmo desde a fundação Gráfico 6: Motivo para adquirir a fazenda Gráfico 7: proprietários herdeiros Gráfico 8: Estado de conservação da casa ao adquiri-la Gráfico 9: Realizou alguma obra de restauração na casa Gráfico 10: O que mudou na casa sede Gráfico 11: A quanto tempo está sob a direção dos atuais proprietários Gráfico 12: Atividade produtiva na atualidade Gráfico 13: Atividade produtiva principal Gráfico 14: A forma de administração da propriedade na atualidade Gráfico 15: Forma de escoamento da produção Gráfico 16: Ano de início da atividade do turismo Gráfico 17: A decisão de implantar o turismo Gráfico 18: O início da atividade, teve apoio de órgãos e de profissionais de Turismo Gráfico 19: Para as reformas obteve algum tipo de financiamento, público ou privado Gráfico 20: Serviços oferecidos por fazendas Gráfico 21: Porque trabalha com hospedagem e visitação Gráfico 22: Porque não trabalha com hospedagem Gráfico 23: Quais as vantagens de trabalhar só com visitação Gráfico 24 :O que é oferecido ao hóspede durante a estadia Gráfico 25: Principal atrativo da fazenda Gráfico 26: O que mais desperta o interesse do visitante da fazenda Gráfico 27: Período da Alta temporada Gráfico 28: Período da baixa temporada Gráfico 29: Já recebeu turista estrangeiro Gráfico 30: O turista estrangeiro tem interesse específico Gráfico 31: Estando no Brasil de onde vêm o turista estrangeiro para a região Gráfico 32: País com maior presença de turistas estrangeiros na região Gráfico 33: Período do ano mais procurado Gráfico 34: Perfil do turista estrangeiro Gráfico 35: Como chega até às fazendas Gráfico 36: Tempo de permanência na fazenda Gráfico 37: Como ficam sabendo das fazendas Gráfico 38: As agências são responsáveis pela vinda da maioria dos turistas? Gráfico 39: De onde são as agências que trabalham com as fazendas Gráfico 40: Sem a participação das agências, o número de visitantes seria o mesmo

9 Tabela 1: Data de fundação Tabela 2: Área territorial da fazenda Tabela 3: Atividade produtiva de origem Tabela 4: Sede atual é a mesma desde a fundação Tabela 5: Mobiliário é o mesmo desde a fundação Tabela 6: Motivo para adquirir a fazenda Tabela 7: proprietários herdeiros Tabela 8: Estado de conservação da casa ao adquiri-la Tabela 9: Realizou alguma obra de restauração na casa Tabela 10: O que mudou na casa sede Tabela 11:A quanto tempo está sob a direção dos atuais proprietários Tabela 12: Atividade produtiva na atualidade Tabela 13: Atividade produtiva principal Tabela 14: A forma de administração da propriedade na atualidade Tabela 15: Forma de escoamento da produção Tabela 16: Ano de início da atividade do turismo Tabela 17: A decisão de implantar o turismo Tabela 18: O início da atividade, teve apoio de órgãos e de profissionais de Turismo Tabela 19: Para as reformas obteve algum tipo de financiamento, público ou privado Tabela 20: Serviços oferecidos por fazendas Tabela 21: Porque trabalha com hospedagem e visitação Tabela 22: Porque não trabalha com hospedagem Tabela 23: Quais as vantagens de trabalhar só com visitação Tabela 24 : O que é oferecido ao hóspede durante a estadia Tabela 25: Principal atrativo da fazenda Tabela 26: O que mais desperta o interesse do visitante da fazenda Tabela 27: Período da Alta temporada Tabela 28: Período da baixa temporada Tabela 29: Já recebeu turista estrangeiro Tabela 30: O turista estrangeiro tem interesse específico Tabela 31: Estando no Brasil de onde vêm o turista estrangeiro para a região Tabela 32: País com maior presença de turistas estrangeiros na região Tabela 33: Período do ano mais procurado Tabela 34: Perfil do turista estrangeiro Tabela 35: Como chega até às fazendas Tabela 36: Tempo de permanência na fazenda Tabela 37: Como ficam sabendo das fazendas Tabela 38: As agências são responsáveis pela vinda da maioria dos turistas? Tabela 39: De onde são as agências que trabalham com as fazendas Tabela 40: Sem a participação das agências, o número de visitantes seria o mesmo

10 1 INTRODUÇÃO APRESENTAÇÃO DO ESTUDO O café chega às terras fluminenses Do apogeu à decadência O destino das fazendas Surgem os Palacetes rurais Do abandono à restauração o turismo como salvação? As fazendas e o turismo - programação e atratividade PROBLEMA DE PESQUISA A ORIGEM E A PROPAGAÇÃO DA RUBIÁCEA PELO MUNDO E A MONOCULTURA CAFEEIRA NO VALE DO PARAÍBA FLUMINENSE A descoberta para o consumo humano A entrada e a disseminação da rubiácea no Brasil A Coroa Portuguesa ignora o café O primeiro fazendeiro de café do Brasil O Café ocupa as terras do Vale do Paraíba Fluminense: A formação das Fazendas, uma nova configuração ao Vale do Paraíba Fluminense O surgimento de uma fazenda CONCEITOS, MODALIDADES, CATEGORIAS ESPAÇO, E TURISMO Espaço O significado do Espaço Espaço Turístico Espaço Rural Espaço cultural Modalidades turísticas no Espaço Rural Turismo no Espaço Rural Turismo em áreas rurais e turismo no meio rural Turismo Rural Turismo Alternativo As fazendas Imperiais do Vale do Café Fluminense descrição histórica e implantação da atividade turística Fazenda Cachoeira Mato Dentro Vassouras RJ...52

11 3.3.2 Fazenda Florença Valença (Conservatória) RJ Fazenda Santo Antonio do Paiol Valença RJ Fazenda União Rio das Flores RJ Fazenda Campos Elízeos Rio das Flores RJ Fazenda da Taquara Barra do Piraí RJ Fazenda do Secretário Vassouras RJ Fazenda Mulungu Vermelho Vassouras RJ Fazenda Ponte Alta Barra do Piraí RJ Fazenda do Arvoredo Barra do Piraí RJ Fazenda Chacrinha Valença RJ Fazenda São Paulo Valença RJ Fazenda Pau D alho Valença RJ Fazenda Cachoeira Grande Vassouras RJ Fazenda São Fernando Vassouras RJ Fazenda Santo Antonio Rio das Flores RJ Fazenda Santa Cecília Miguel Pereira RJ Fazenda São João da Barra Miguel Pereira RJ Fazenda do Paraíso Valença RJ Fazenda São João da Prosperidade Barra do Piraí RJ Fazenda Vista Alegre Valença RJ Fazenda Galo Vermelho Vassouras RJ CLASSIFICAÇÃO DAS FAZENDAS POR CATEGORIA E SERVIÇOS PESQUISA DE CAMPO CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS APÊNDICE ANEXOS...155

12 10 1 INTRODUÇÃO Patrimônio e história, independente da dimensão populacional ou territorial, representam o passado de um povo, de uma sociedade ou de uma comunidade. Seus remanescentes materiais, simbolizam hábitos, costumes e culturas passadas, funcionando como ponto de referência e reflexões de experiências vividas, para as gerações do presente e futuras. O Vale do Paraíba Fluminense, é a região onde a lavoura do café atingiu índices máximos de produção e valorização, para, em curto espaço de tempo, se transformar no maior produto de exportação do Brasil. Com esta monocultura, fez acumular fortunas que proporcionaram a construção de residências no espaço rural, monumentais para a época. A força do dinheiro e a presença européia nos hábitos de consumo daquela sociedade do oitocentos, influenciada que foi, por modelos importados, fez surgir, em função da riqueza, mas impulsionados pelo desejo da ostentação, e a necessidade de mostrar padrão de vida, centenas de casas rurais, verdadeiros palacetes, erguidos em meio à mata, da então intocada Floresta de Mata Atlântica da Província do Rio de Janeiro. Passados um século e meio, em média, da sua existência, esses palacetes rurais, representam hoje, a memória material de uma história de contrastes e paradoxo entre a riqueza, o glamour e a decadência, retratados na sua arquitetura imponente, composta por um cenário em que se confundem, um misto de obras de arte e objetos de decoração, o que de melhor existia para a época, integrados com ferramentas de trabalho e castigo, do sistema escravista. As conjunturas econômicas, sociais e políticas, pelas quais o país enfrentou, ao longo dos dois últimos séculos, atingiram também a região do Vale Fluminense e contribuíram para que as fazendas, formadas no período de valorização do café, passassem por diversas fases, de

13 apogeu à decadência a ponto de um grande número terem desaparecido, não apenas pela ação do tempo, mas também, por fatores de ordem familiar e econômica 11 Esse conjunto de propriedades históricas, de características marcantes, e imponente arquitetura, complementado por rica decoração com objetos de época, fez com que os atuais proprietários percebessem serem essas residências um recurso para o turismo. Ao optarem pelo turismo, respeitando as suas limitações como recurso turístico, seus proprietários assim o fizeram, com um único objetivo, resgatar a história do café, do Vale do Paraíba Fluminense, dando oportunidade, para que as pessoas conheçam a vida dos personagens dessa história que transformou o país. Observadas as novas modalidades de Turismo no Espaço Rural, as Fazendas Imperiais do Vale do Café Fluminense, palacetes rurais, abertos para visitação, também funcionam como meios de hospedagem. Com base nesse patrimônio, concentrado em uma única região, a idéia de desenvolver esse estudo, nasceu de uma série de fatores influenciadores, para a decisão por sua realização. Primeiramente, a opção pelo tema, é resultante da experiência com a Dissertação de Mestrado, realizada na mesma região, sobre um estudo que indiretamente, está ligado à tese de doutorado. O tema de Mestrado, Ambientação de Base Histórica: ferramenta de incremento do turismo o exemplo de Vassouras RJ. Tinha como proposta conhecer as técnicas de interpretação do patrimônio, estudar o perfil do público e o potencial atrativo do evento, Chá Imperial, como ferramenta de revitalização de museus e casas históricas. O desenvolvimento desse estudo, é resultado da Dissertação de Mestrado, pesquisa feita a partir da experiência pioneira do Museu Casa da Hera de Vassouras no Estado do Rio de Janeiro, com educação patrimonial no ano de Na época foi apresentado nas

14 dependências do museu, O Chá Imperial que retratava parte do cotidiano da história dos Barões do Café. 12 A partir daquela data, o Chá Imperial se transformou numa experiência com Ambientação de Base Histórica. Os resultados de público serviram de modelo para outras experiências, como o Sarau Histórico da Fazenda Ponte Alta, apresentado como a principal atração da fazenda. A partir dos anos noventa, o crescimento do turismo no Brasil despertou a região do Vale do Café para uma nova realidade. A região passa a trabalhar com a possibilidade de incrementar uma nova função às antigas casas sedes das fazendas de café. Na perspectiva de descrever o tipo de turismo praticado nas Fazendas Imperiais do Vale do Paraíba Fluminense, a pesquisa avalia a forma como cada propriedade se preparou para iniciar na atividade. Na tentativa de conhecer essa modalidade de turismo, única no Brasil concentrada numa mesma região, e com os mesmos recursos, optou-se em trabalhar como amostragem, todas as fazendas associadas ao Instituto Preservale, organização não governamental que nasceu com a missão de preservar aquele patrimônio e também o meio ambiente da região. Para conhecer os recursos utilizados, todas as vinte e duas propriedades foram visitadas, seguindo um critério único para coletar dados. Em cada propriedade foram feitas visitas internas e externas, acompanhadas de entrevista com cada proprietário e, concluindo essa etapa do trabalho de campo, as edificações foram fotografadas interna e externamente, sendo esse material usado como elemento de verificação do turismo praticado individualmente e no conjunto geral, em todas as fazendas. Diante do exposto, a natureza do tema, e a delimitação dos objetivos que conferissem a probabilidade das hipóteses, levaram a estruturar o texto em três capítulos: natureza do tema; fundamentação teórica e a pesquisa de campo.

15 13 No Primeiro capítulo é apresentada a história do café, a descoberta para o consumo humano e a propagação da planta pelo mundo: Até sua chegada no Brasil, as regiões por onde foi cultivado, e a implantação no Sudeste, onde surgiu, provavelmente, o primeiro fazendeiro de café. Anos depois, o café ocupou as terras fluminenses na região do Vale do Paraíba. A formação das fazendas foi do apogeu à decadência até chegar aos dias atuais a um novo uso que foi a opção pelo turismo a partir do final do século XX e início do século XXI. O Segundo capítulo destinado a tratar do referencial teórico, apresenta o espaço enquanto território onde acontece o fenômeno do turismo em todas as suas modalidades, fator determinante do tipo de espaço consumido. Neste mesmo capítulo, o estudo traz para a discussão, o Turismo no Espaço Rural, o Turismo Rural e o Turismo Alternativo, este último para tentar definir o que se considera como alternativo hoje no turismo. O objeto de estudo, as fazendas, como elemento de fomento do turismo da região do Vale do Café, neste capítulo é feito uma descrição de cada propriedade e a forma como desenvolve o turismo. O Terceiro capítulo, apresenta a pesquisa de campo, acompanhada de entrevistas com os proprietários das fazendas. Para melhor ilustrar os resultados da compilação, tabelas e gráficos foram confeccionados, para aferir a coleta dos dados. Todos interpretados para a análise do resultado final. Como fechamento do trabalho, as conclusões a que se chegou com este estudo, deixam evidentes a perspectiva do turismo no Vale do Café Fluminense, constatando ser esse tipo de turismo implementado no Espaço Rural, da região, de características inteiramente diferenciadas ao Turismo Rural, até então praticado no Brasil.

16 14 Quanto à justificativa deste estudo, a sua realização, é oportuna por se tratar de um tema que no turismo, necessita de mais pesquisas, que contribuam para definir as diversas modalidades implantadas no espaço rural. Justifica-se a metodologia e o método aplicados, na realização do estudo, por ser o que ofereceu melhores condições ao trabalho de campo, e o mais apropriado às características do objeto de estudo. 1.1 APRESENTAÇÃO DO ESTUDO O uso do café para o consumo humano provavelmente, se deu na Etiópia no século XV, nesta época não se sabia a sua utilidade, permanecendo a planta naquele território do século XV ao século XVII. No século XVII, chega à Europa, possivelmente trazido por um Holandês, se espalhando por todo o continente, nesse mesmo período. Os primeiros países onde se registraram sua propagação foram Holanda, Inglaterra e França. No século XVIII, através das colônias britânicas, o café chega à América, nas Antilhas e na Guiana Francesa. Na segunda metade do século XVIII, o café entra no Brasil, pelo Pará, e logo se espalha por toda a Região Norte. Na Amazônia, o café foi plantado por Índios e Padres Jesuítas. No Nordeste, o cafezeiro se propagou por todas as províncias, embora se tenha conhecimento que na Província da Bahia, no século XVIII já produzia e exportava. A planta chegou ao Centro Oeste nas províncias de Mato Grosso e Goiás, para fixar com intensidade na Região Sudeste, nas províncias do Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de

17 Janeiro e São Paulo. Sendo que nas duas primeiras províncias, não tem impulso na sua produção. 15 Sua epopéia, aconteceu nas províncias do Rio de Janeiro e São Paulo. Ainda nas últimas décadas do século XVIII, a colônia cultivava como produto principal, o fumo, o açúcar e outras drogas do Sertão. Embora o café já estivesse disseminado por toda a colônia. A Coroa Portuguesa não reconhecia essa nova planta. Insistia em ignorá-la. Autoridades da Coroa, padres, bispos, botânicos, todos conhecedores e estudiosos da floresta tropical, por motivos políticos, insistiam em ignorar o café no Brasil. Portugal que dominava o comércio do açúcar, via seus estoques diminuírem. Assim, era iminente a perda do monopólio do mercado para a Holanda, Inglaterra e França. O café chega às terras do novo mundo, em um momento onde a conjuntura internacional era desfavorável à Coroa, esta que se abastecia do açúcar, do ouro e de outros produtos agrícolas da colônia. Para impedir o cultivo da planta, o governo português incentivava a produção do açúcar e outras culturas. Na colônia, os movimentos pró - independência, eram cada vez mais fortes e eclodiam em diversas partes. De Norte a Sul, já se falava nesta nova planta chegada das Antilhas. Seus resultados como bebida despertava o interesse da população, em todas as partes O café chega às terras fluminenses De planta de jardim, à monocultura produtiva, se espalha desde a capital até as regiões serranas. As primeiras plantações foram constatadas na região onde hoje é o bairro da Tijuca e a floresta do mesmo nome.

18 16 O café tomou rumos Serra acima até Petrópolis, mas não se adaptou ao clima. As geadas não favoreciam a propagação da cultura do cafeeiro. Volta para a Baixada Fluminense, na região de Santa Cruz, para novamente, subir a serra em direção às margens do Paraíba. No ano de 1790 provavelmente Rezende teria recebido as primeiras mudas. A partir dali, logo a planta se espalha nas terras fluminenses, por toda a região do Rio Paraíba. Após Rezende, a próxima área a receber o café seria a região de Vassouras. Naquele município o café se propagaria por toda a redondeza. Estava formada a região do Vale do Café. Vassouras chegou a receber o título de A capital do café do Brasil, a Terra dos Barões. Região desabitada, com floresta exuberante, terras férteis e disponíveis, tudo favorecia para a implantação da cultura do café. As famílias mineiras, Os desbravadores da região, formaram as primeiras fazendas no Vale do café. O ouro já não mais oferecia perspectivas de lucro. Os pioneiros enfrentaram as maiores dificuldades. Desafiavam os índios, colocavam em risco a própria vida. Tudo em busca de um novo eldorado. A riqueza com o café. Nasceu uma nova cultura, em meio a um conflito político, econômico e social. Os interesses da coroa, a crise do açúcar, e a mão de - obra escrava. A aventura na adversidade e a falta de técnica. Assim, começou o cultivo de café no Vale do Paraíba Fluminense. Florestas tombavam fugazmente, sem nenhuma preocupação com o meio ambiente. Eram os chamados Fazendeiros do deserto como dizia Euclides da Cunha. A produção aumentava a cada dia. Novas fazendas eram formadas com rapidez. As terras das Sesmarias, agora tinham novos donos. Tudo para o Café. A província fluminense era o novo centro do poder. Os barões se aproximavam da Corte, muda-se o destino de uma nação e a vida de uma sociedade.

19 17 Dos braços escravos constrói-se impérios, acumula-se fortunas, cria-se estilo de vida. Riqueza, Luxo, poder, glamour. É tudo muito fugaz. Tudo parecia eterno. A vida como um conto de fadas. Nada transparecia que o fim estava próximo Do apogeu à decadência Na primeira metade do século XIX, cerca de duzentas fazendas, ou quem sabe mais, foram formadas. A cada dia as exportações aumentavam, novas cidades surgiam, assim como novas fortunas. O progresso chega. A aristocracia rural constituída, goza do luxo e glamour, internacional. Essas conquistas eram às custas de mãos humanas, um futuro obscuro, com a mesma intensidade, se aproxima. As intempéries do tempo e a agressão à natureza, têm um custo. Chega a década de 1870, o começo do fim. Com os fazendeiros endividados com os bancos, mão de obra cara, prestes a acabar a escravatura, o mercado internacional em baixa, o solo esgotado e a hipoteca das fazendas, era o fim de uma época que parecia eterna. No final do século XIX, os cafezais desapareceram, mas o clarão da floresta permaneceu. Com o fim da escravidão,os barões estão falidos. É a decadência O destino das fazendas A primeira fase a possibilidade de fazer fortunas. Nesta etapa, da valorização da monocultura do café, a perspectiva do enriquecimento levou os antigos exploradores do ouro e plantadores da cana de açúcar a migrarem para o Vale Fluminense.

20 18 Homens com muita terra e pouca visão de futuro, usavam a mão de obra escrava, desmatava a floresta para cultivar o café. Sem técnica e sem preocupação com o ambiente, a floresta vinha morro abaixo e a erosão levava os nutrientes do solo. A segunda fase - as evidências da crise. Passadas poucas décadas do aparecimento e a euforia com o café, como novo horizonte de riqueza, as evidências da crise começam a surgir. Mas isso não impede que os barões levem uma vida com esbanjamento de dinheiro Surgem os Palacetes rurais As chamadas Casas Antigas, residências simples de trabalho, no estilo mineiro não duraria muito tempo. Os pioneiros migrantes da zona do ouro mineiro, tinham muito dinheiro e seus filhos, os futuros barões estudavam na Europa. A volta ao Brasil aqui chegando, com uma nova mentalidade, implementavam reformas nas antigas sedes das fazendas. Muitas foram demolidas para reconstrução, outras reformadas, alterando totalmente a edificação original. O luxo determinava o estilo de vida dos Barões. Jóias, louças, prataria, tudo era importado A partir da década de 1860, período em que já havia uma aristocracia rural consolidada, nesta fase, a Europa era o sonho de consumo. Tudo era importado do bom e do melhor. Havia um verdadeiro esbanjamento de dinheiro, e um gosto pelo luxo e a ostentação. Os Barões do café, agora uma outra geração originária dos pioneiros, conquistavam e cortejavam o Poder. A Corte torna-se mais íntima e se transforma numa referência para os novos padrões de vida.

21 19 O futuro obscuro Em meio a tanta ostentação, rondam os problemas que levariam em curto espaço de tempo à falência, os barões do café. A mentalidade conservadora e a falta de visão de futuro, não os fazem perceber que as dificuldades seriam praticamente insuperáveis. O café já não era mais o eldorado para a fortuna. A produção diminuía, faltava mão de obra para a colheita, o Brasil enfrentava forte concorrência internacional com o café de outros países. Surgem os atravessadores a alternativa era recorrer aos bancos, empréstimos eram feitos, colocando a propriedade como garantia do negócio. Os custos da produção tornaram-se altos, a produção não cobria as despesas. Uma vez vencidos os empréstimos a única solução era hipotecar as terras. A terceira fase novos donos. No início do século XX, a realidade do Vale é outra. O café definitivamente já não é lucrativo. As propriedades passam para novas mãos, (herdeiros e proprietários). Muda de donos, muda a atividade produtiva, agora é a vez da pecuária leiteira. Os casarões luxuosos são ocupados para outros fins. Cassinos, hotéis, outros continuam com a atividade agrícola, mas sem a mesma importância. O século XX é marcado por conflitos de herança envolvendo as famílias herdeiras dessas fazendas. Há uma indefinição da atividade produtiva, os testamentos reduzem drasticamente a área territorial. A falta de recursos financeiros aliado às questões de herança, fez com que, muitas dessas fazendas, hoje, restassem apenas as ruínas ou desaparecessem. Embora o tempo tenha se encarregado de manter erguida parte dessas obras primas da arquitetura rural brasileira. A partir da década de 1950 houve uma valorização da história. Assim, começou esse movimento de compras de fazendas. Os novos proprietários da época, nem sempre eram de famílias ricas, mais já eram considerados novos ricos. Parte deles, eram herdeiros dos

22 fundadores. São os mesmos os responsáveis por novas reformas, que acabaram, por falta de material, ou de técnicos especializados, tendo de alterar a originalidade dos casarões. 20 A quarta fase - de mãos em mãos. - as fazendas entram em uma nova fase a partir da década de Desse período em diante, as propriedades que no século XIX, pertenceram a uma classe de novos ricos Os Barões do Café, agora voltam para as mãos de uma nova elite, sem nenhuma ligação com as famílias fundadoras, nem com o latifúndio cafeeiro. Com algumas exceções, todas as fazendas do período da cafeicultura no Vale Fluminense não pertencem a famílias de herdeiros dos fundadores e pioneiros. Nos tempos atuais - possuir uma propriedade rural é um desejo de consumo, uma realização pessoal com o simbolismo da volta ao passado. O campo é novamente objeto de desejo de uma elite econômica com alto poder aquisitivo, ligada ao mundo empresarial, à política e outros setores econômicos Do abandono à restauração o turismo como salvação? As fazendas, com uma atividade produtiva definida, mas, não tão rentável como no passado, do período do café, com um custo de manutenção alto, vêem no turismo uma alternativa complementar de renda, embora o resgate da história da região torna-se um elemento decisivo para essa nova atividade. Essa nova fase, de abertura para o público, iniciase nos anos oitenta em algumas propriedades, mas, só a partir dos anos noventa é que a atividade veio a se consolidar. A abertura para a visitação pública trata-se de uma iniciativa dos proprietários, de valorização do patrimônio, através do acesso do público. A idéia de resgatar a história do café

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