AS PROFISSÕES DE CONTADOR, ECONOMISTA E ADMINISTRADOR: O QUE FAZEM E ONDE TRABALHAM

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1 1 AS PROFISSÕES DE CONTADOR, ECONOMISTA E ADMINISTRADOR: O QUE FAZEM E ONDE TRABALHAM De acordo com uma pesquisa realizada em Brasília, conforme consta em reportagem publicada pelo jornalista Luis Bissigo, de Zero Hora, a maioria dos jovens tem poucos elementos para responder coerentemente a respeito do motivo pelo qual escolheram o curso superior que freqüentam. Dentre os 3,5 mil jovens ouvidos, 93% sabem apenas o nome do curso que escolheram, sem ter qualquer informação a respeito do currículo da faculdade e das características da profissão (Zero Hora, Caderno de Vestibular, 25 de março de 1998, p.4). Nas áreas da Contabilidade, Economia e Administração profissões que trabalham de forma direta na organização e no desenvolvimento das Pessoas Jurídicas 1, ainda hoje, a situação não é diferente. Se perguntássemos aos estudantes dessas áreas qual a função social da profissão que escolheram, eles certamente teriam dificuldades para responder. Por isso é que se diz que os alunos escolhem seus cursos mais pelo status que detêm as profissões perante a sociedade do que pela natureza das obrigações que devem cumprir junto a ela quando do desenvolvimento de suas atividades profissionais. A Contabilidade, a Economia e a Administração são campos profissionais autônomos, regulados por leis próprias. No entanto, cada um complementa os demais. São profissões que fazem parte do sistema monetário, ou seja, são profissões encarregadas de zelar pelas riquezas das Pessoas Jurídicas. Cada 1 Diz-se que as profissões de Contador, Economista e Administrador atuam nas Pessoas Jurídicas porque todas as atividades que não sejam o trabalho só podem ser exercidas por Pessoas Jurídicas. Porém, nada impede que uma Pessoa Física contrate esses profissionais para auxiliá-la na gestão de seu patrimônio monetário.

2 Salézio Dagostim profissão possui suas próprias funções e responsabilidades, e seu campo de atuação está previsto em lei, para que uma não invada o campo das outras. Assim como o exercício da Contabilidade pressupõe, por parte do Contador, conhecimentos de Administração e Economia, o Administrador precisa dispor de conhecimentos de Contabilidade e Economia. O mesmo vale também para o Economista com relação à Administração e à Contabilidade. Do contrário, nenhuma destas profissões estaria completa. É um caso de afinidade entre as disciplinas, que se ligam por elos de complementaridade para o desenvolvimento das profissões. A Contabilidade, a Economia e a Administração são partes que formam um conjunto de conhecimentos aplicáveis às Pessoas Jurídicas. Dessa forma, seria inadmissível a um Administrador ou Economista desconhecer os aspectos gerais da Contabilidade, já que é a própria Contabilidade que dá vida às Pessoas Jurídicas a Contabilidade dá corpo e forma às Pessoas Jurídicas, que são representadas pelas demonstrações contábeis para que se possa examiná-las e lhes aplicar as medidas corretivas necessárias para que tenham vida longa e saudável. As obrigações profissionais (assim como os direitos dos profissionais), ou seja, a função de cada profissão, estão estabelecidas em lei. Diz a Constituição Federal, no inciso XVI de seu artigo 22: Art. 22. Compete privativamente à União legislar sobre: XVI (...) condições para o exercício das profissões; Assim, cabe ao Congresso Nacional a tarefa de especificar os requisitos necessários ao exercício das diversas profissões. As leis que criaram as profissões de Contador, Economista e Administrador estabeleceram os afazeres dos membros de cada uma dessas profissões. 1.1 LEGISLAÇÃO DAS PROFISSÕES CONTADOR O Decreto-lei 9.295, de , que dispõe sobre o exercício da profissão contábil, assim se manifestou a respeito de suas atividades: 16

3 Fundamentos de Escrituração e Elaboração das Demonstrações Contábeis Art. 25. São considerados trabalhos técnicos de contabilidade: a) organização e execução de serviços de contabilidade em geral; b) escrituração de livros de contabilidade obrigatórios, bem como de todos os necessários no conjunto da organização contábil e levantamento dos respectivos balanços e demonstrações; c) perícias judiciais ou extrajudiciais, revisão de balanços e de contas em geral, verificação de haveres, revisão permanente ou periódica de escritas, regulações judiciais ou extrajudiciais de avarias grossas ou comuns, assistência aos Conselhos Fiscais das sociedades anônimas e quaisquer outras atribuições de natureza técnica conferidas por lei aos profissionais de contabilidade. Art. 26. Salvo direitos adquiridos [...], as atribuições definidas na alínea c do artigo anterior são privativas dos contadores diplomados. [Grifo nosso]. Constata-se, pelo Decreto-Lei 9.295/46, que a Contabilidade desempenha uma dupla função: a função de registrar e informar (função técnica contábil) e a de analisar e diagnosticar problemas (função acadêmica). A função técnica está definida nas alíneas a e b do artigo 25 do Decreto- Lei 9.295/46. Ela corresponde à organização e à execução da Contabilidade em geral e à escrituração dos livros de Contabilidade obrigatórios, bem como de todos os demais livros necessários no conjunto da organização contábil e levantamento dos respectivos balanços e demonstrações. Essas atividades compreendem aquelas referentes aos departamentos de escrituração contábil, de escrituração fiscal e de pessoal. Nessa situação, o Contador é o responsável pela escrituração de todos os livros que compõem o conjunto dos documentos que viabilizam o levantamento e a oficialização do balanço patrimonial, do demonstrativo de resultado econômico e de todas as demais demonstrações contábeis. Ou seja, na função técnica, o Contador transforma os acontecimentos monetários (operações expressas em dinheiro) em informações contábeis, registrando-as nos livros diário e razão, além de outros exigidos por lei, para, através desses registros, elaborar as demonstrações contábeis e, a partir dessas demonstrações, dar conhecimento à sociedade da situação patrimonial, econômica e financeira da Pessoa Jurídica. É no desempenho dessa função que a Contabilidade dá vida às Pessoas 17

4 Salézio Dagostim Jurídicas, criando o seu corpo, para que elas possam se comunicar com o mundo, viabilizando, assim, os seus negócios. O corpo da Pessoa Jurídica é representado pelas demonstrações contábeis. Considerando que todas as Pessoas Jurídicas, que hoje no Brasil totalizam aproximadamente 6 milhões, necessitam levantar as suas demonstrações contábeis para se integrarem com as demais Pessoas Jurídicas e com a sociedade, e, considerando que a elaboração das demonstrações contábeis é a aplicação das normas legais definidas e de procedimentos já consagrados pela Ciência Contábil, o Estado criou um profissional com menor conhecimento que o Contador, que é o Técnico em Contabilidade, para compartilhar com aquele na realização dessa função técnica. Por isso é que a função técnica da Contabilidade consiste nos registros e na elaboração das demonstrações contábeis. A segunda função, a função acadêmica, diz respeito à análise e revisão dos elementos monetários que formam as Pessoas Jurídicas. Ela visa oferecer à sociedade, através de uma metodologia científica, segurança quanto à correção ou não das informações contábeis apresentadas, orientando-a para que a Pessoa Jurídica opere com segurança. Essa atividade está prevista na alínea c do artigo 25 do Decreto-Lei 9.295/46, que estabelece que as perícias judiciais ou extrajudiciais, as revisões de balanços e de contas em geral, verificações de haveres, revisões permanentes ou periódicas de escritas, regulações judiciais ou extrajudiciais de avarias grossas ou comuns, a prestação de assistência a conselhos fiscais de sociedades anônimas e quaisquer outras atribuições de natureza técnica conferidas por lei aos profissionais da Contabilidade são funções privativas do Contador. Essas funções são privativas do Contador porque são especulativo-científicas e porque seu estudo se inicia a partir das informações contábeis elaboradas pelo uso de normas legais e daquelas estatuídas pela própria Ciência Contábil. O Contador, portanto, desenvolve as suas funções processando os fatos monetários, registrando-os de forma a possibilitar, além da armazenagem de informações e da extração de demonstrativos patrimoniais, econômicos e financeiros, o estudo dos elementos que, pela ação do homem e da natureza, afetam o patrimônio monetário das Pessoas Jurídicas, detectando os problemas e recomendando as soluções. A Contabilidade 18

5 Fundamentos de Escrituração e Elaboração das Demonstrações Contábeis gera informações contábeis, as quais são estudadas pelos Contadores para o diagnóstico e as recomendações necessárias para que a Pessoa Jurídica tenha vida longa. 19

6 Salézio Dagostim Observa-se, portanto, que a função acadêmica da Contabilidade tem início a partir das demonstrações contábeis, enquanto a função técnica é concluída com a elaboração desses documentos. Observa-se, ainda, que, ao exercer a função técnica, o profissional não pode inovar: ele executa suas funções de acordo com aquilo que foi estabelecido pelas leis e pela Ciência Contábil. O que lhe é possível, isso sim, é aplicar novas tecnologias para facilitar a execução de suas atividades. No desenvolvimento das funções acadêmicas, por outro lado, o profissional pode tirar as suas próprias conclusões, pois o objetivo dessa função é elaborar opiniões e sugerir procedimentos que visem proteger o patrimônio monetário da Pessoa Jurídica. É importante que se diga que patrimônio monetário é um conjunto de coisas mensuráveis em dinheiro que a Pessoa Jurídica possui, representadas pelos bens e direitos, assim como as origens dessas coisas, representadas pelas obrigações, bem como pelas despesas e receitas que formam o sistema econômico ECONOMISTA Quanto aos Economistas, o Decreto nº , de , que regulou a Lei nº 1.411, de , a qual dispõe sobre o exercício da Economia, assim estabeleceu: Art. 3º. A atividade profissional privativa do economista exercita-se, liberalmente ou não, por estudos, pesquisas, análises, relatórios, pareceres, perícias, arbitragens, laudos, esquemas ou certificados sobre os assuntos compreendidos no seu campo profissional, inclusive por meio de planejamento, implantação, orientação, supervisão ou assistência dos trabalhos relativos às atividades econômicas ou financeiras, em empreendimentos públicos, privados ou mistos, ou por quaisquer outros meios que objetivem, técnica ou cientificamente, o aumento ou a conservação do rendimento econômico. [Grifos nossos]. Dessa forma, segundo a definição da lei, ao Economista cabe aplicar seus conhecimentos com o objetivo de, técnica ou cientificamente, aumentar ou conservar o rendimento econômico das Pessoas Jurídicas, visando suprir as necessidades atuais e futuras. 20

7 Fundamentos de Escrituração e Elaboração das Demonstrações Contábeis Detectar os problemas nas Pessoas Jurídicas (função do contador) não é o bastante. É necessário, também, que exista um profissional que se ocupe com a manutenção e o aumento das riquezas dessas pessoas. Por isso, o legislador criou o profissional Economista. Assim, os Economistas estudam os reflexos que determinada ação irá provocar no futuro sobre os procedimentos adotados hoje. Os Economistas, portanto, têm por objetivo, em suma, estudar e elaborar políticas para que as ações tomadas hoje sejam benéficas para a sociedade como um todo no aumento ou manutenção do rendimento econômico. Numa definição um tanto grosseira mas nem por isso menos próxima da verdade, diríamos que o Economista é um futurólogo dos acontecimentos econômicos, que visa ao aumento ou à conservação do rendimento produtivo pelo ato que a Administração toma hoje e cujas conseqüências serão geradas amanhã ADMINISTRADOR Quanto aos Administradores, por sua vez, o legislador assim se manifestou sobre os afazeres desta categoria, quando aprovou a Lei nº 4.769, de : Art. 2º. A atividade profissional de Técnico de Administração 2 será exercida, como profissão liberal ou não (vetado), mediante: a) pareceres, relatórios, planos, projetos, arbitragens, laudos, assessoria em geral, chefia intermediária, direção superior; b) pesquisas, estudos, análise, interpretação, planejamento, implantação, coordenação e controle dos trabalhos nos campos da administração (vetado), como administração e seleção de pessoal, organização e métodos, orçamentos, administração de material, administração financeira, relações públicas, administração mercadológica, administração de produção, relações industriais, bem como outros campos em que esses se desdobrem ou aos quais sejam conexos; c) (vetado). 2 Pela Lei n , de , a denominação de Técnico de Administração foi alterada para Administrador. 21

8 Salézio Dagostim Observa-se que, no final do artigo 2º, entre as palavras não e mediante, encontra-se a expressão vetado. Antes do veto presidencial, constava, naquele local, a expressão em caráter privativo. Portanto, o artigo 2º da Lei nº 4.769/65 estava assim redigido: Art. 2º. A atividade profissional de Técnico de Administração será exercida, como profissão liberal ou não, em caráter privativo, mediante: A expressão em caráter privativo foi vetada pelo Presidente da República H. Castello Branco, cuja justificativa do veto foi fundamentada nos seguintes termos, conforme Mensagem n. 388/65, publicada no DOU, Seção I, de : Veto da expressão em caráter privativo O veto a essas expressões é indispensável, uma vez que, entre os trabalhos enumerados como características da atividade profissional dos técnicos de administração, mencionam-se algumas que já são legalmente exercidas por outras categorias profissionais, como a dos engenheiros, economistas e contadores. Por esta razão, as atividades desenvolvidas pelos Administradores não são atividades privativas. Isso quer dizer que outros profissionais portadores de outros diplomas de nível superior e habilitações podem executá-las. Da mesma forma, a alínea c do projeto original foi vetado. Nessa alínea estavam contidas as seguintes atividades: c) todos os projetos, pesquisas e análises, delimitados pela atividade profissional dos técnicos de administração, feitos por empresas públicas de economia mista ou privada, com o fim de adquirir financiamentos de órgãos governamentais, deverão ser de responsabilidade dos técnicos de administração. As razões desse veto, também fundamentadas na Mensagem 388/ 65, dizem o seguinte: 22

9 Fundamentos de Escrituração e Elaboração das Demonstrações Contábeis Veto integral da alínea c Impõe-se o veto integral à alínea c do art. 2º, pois é inaceitável tornarse de exclusiva responsabilidade dos técnicos de administração os projetos, pesquisas e análises feitos por empresas públicas de economia mista ou privada, com o fim de adquirir financiamento de órgãos governamentais. Para a elaboração de tais projetos, é indispensável e primordial a participação de outros técnicos: engenheiros, economistas, contadores, estatísticos, etc., sendo a participação do técnico de administração bastante limitada, no caso. Embora o Administrador não exerça uma atividade privativa, não podemos negar o quanto ele é importante para as Pessoas Jurídicas. A existência de profissionais graduados é indispensável para a gestão e o desenvolvimento das atividades dessas pessoas. As funções do Administrador são, conforme os autores dessa área costumam definir, desenvolvidas através da aplicação de conhecimentos específicos visando extrair os melhores resultados dos recursos que lhe são colocados à disposição: natureza, capital e trabalho. Por isso, diz-se que cabe ao Administrador, no exercício de suas funções, aplicar as melhores técnicas para extrair o melhor resultado a partir daquilo que lhe é colocado à disposição. Se, por exemplo, o trabalho é feito objeto de sua competência, ele deve examinar adequadamente os fatores humanos para adotar procedimentos visando o melhor desempenho possível. Ao Administrador cabe, com os dados recebidos, adotar técnicas para um melhor desempenho e, conseqüentemente, um melhor resultado. Assim, por exemplo, o Contador, ao analisar a Pessoa Jurídica, constata que ela está com problema de capital de giro. Para solucionar o problema, é recomendada uma reestruturação no departamento de compras e vendas. Para executar esta função, a empresa usa dos conhecimentos do Administrador. Portanto, cabe ao Administrador resolver o problema da Pessoa Jurídica e, para isso, ele estuda os recursos de que a empresa dispõe, para deles extrair o melhor desempenho, atingindo, assim, o objetivo que é o de solucionar a questão proposta. Logo, o Contador constata o problema na Pessoa Jurídica e o Administrador executa sua função na busca da solução. 23

10 Salézio Dagostim 1.2 CONCLUSÃO Portanto, detectar os problemas nas Pessoas Jurídicas (função acadêmica do Contador), dar soluções para esses problemas (função do Administrador) e buscar a conservação ou o aumento do rendimento econômico (função do Economista) são funções atribuídas a disciplinas de caráter científico autônomas e distintas entre si, com objetos e princípios diferenciados, não tendo uma interferência no campo de atuação das demais, cada qual desenvolvendo suas próprias funções. As ciências determinam o seu objeto de estudo, destacando-o dos demais fenômenos da natureza, ou, no caso, da sociedade, ao mesmo tempo em que, através dele, determinam e configuram a si próprias, demarcando sólidas fronteiras. Em suma, pode-se afirmar que: CONTADOR: Estuda os elementos monetários que compõem o patrimônio das Pessoas Jurídicas, detectando os problemas e recomendando as soluções. ADMINISTRADOR: Estuda os recursos de que dispõem as Pessoas Jurídicas (capital, natureza e trabalho), para melhor aproveitá-los na solução de seus problemas e assim atingir os objetivos traçados. ECONOMISTA: Estuda e elabora políticas com o objetivo de manter ou aumentar o rendimento econômico das Pessoas Jurídicas. O sucesso do sistema de produção de bens e serviços se dará pelo funcionamento harmônico e integrado das profissões de Contador, Economista e Administrador. 24

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