CONSIDERAÇÕES SOBRE O CASAMENTO CLERICAL

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1 Introdução CONSIDERAÇÕES SOBRE O CASAMENTO CLERICAL Rev. Pe. Rodson Ricardo Souza do nascimento. Comunidade Anglicana da Natividade, Natal/RN Como o sacerdote anglicano sente as conseqüências de viver num país em que se associa automaticamente o sacerdócio ao celibato? Que relação existe entre matrimônio e sacerdócio? Qual o lugar de sua esposa no seu ministério? São estas algumas das questões que pretendo discutir neste artigo. 1. Padres casados no Cristianismo O casamento clerical parece ter sido o modelo predominante nos primeiros discípulos. É consenso, que pelo menos alguns dos apóstolos eram casados (ou tinham sido casados antes do ministério). O caso mais famoso é de São Pedro que teve sua sogra curada por Cristo (Mt 8, 14, Mc1, 29-34; Lc 4, 38-41). São Paulo estabelece o casamento monogâmico como requisito importante para a ordenação ministerial (1 Tm 3,2). (Este texto tem sido interpretado pela Tradição como uma proibição ao segundo casamento de ministros ordenados. Esta é a visão normativa da Igreja da Inglaterra e da maioria das igrejas anglicanas ortodoxas). A maioria dos católicos romanos ignora que aos sacerdotes e bispos não era proibido o matrimônio durante os primeiros dez séculos da vida cristã. Além de São Pedro, outros seis papas viveram em matrimônio. Entre os bispos destaca-se São Gregório de Nissa, reconhecido como um dos mais importantes teólogos da Igreja. Até o Concilio de Elvira, que o proibiu no ano 306, um sacerdote podia inclusive dormir com sua esposa na noite anterior a celebrar a missa. No Oriente está situação permaneceu praticamente estável para os diáconos e padres. Na Igreja da Inglaterra o casamento clerical sempre foi motivo de debates. Uma das primeiras tentativas de imposição do celibato aos padres fracassou no Concílio de Niceia, no ano 325. A Igreja só proibiu o casamento depois da ordenação. Ao que tudo indica, porém, nem mesmo essa cláusula foi respeitada rigorosamente, já que vários clérigos do período viviam com suas companheiras e resistiram à nova regra. No século IV, por exemplo, bispos como Gregório de Nazianzo ( ) e Gregório de Nissa ( ) eram casados, e 39 dos papas tiveram esposas e filhos, que chegaram, em alguns casos, a suceder os pais. A situação começou a mudar em especial no Ocidente, após o século IV com a ascensão de vários monges a cargos de importância na hierarquia eclesiástica. Num contexto de degradação moral os monges passaram a serem vistos como modelos de pureza e santidade. O matrimônio passou a ser desprezado, ou no máximo, tolerado. Isso explica a multiplicação das decisões papais, concílios e sínodos de bispos em defesa da obrigatoriedade do celibato mostra que a força política desse grupo, praticante da renúncia aos prazeres mundanos, alterou bastante a estrutura de poder da Igreja. Os monges eram missionários, cultos, determinados e respeitados. Foi graças a eles que o celibato tornou-se obrigatório no Ocidente. Finalmente em 1073, Gregório VII (1020-

2 1085) impôs o celibato. Definiu-se que o matrimônio dos sacerdotes era herético, porque os distraía do serviço ao Senhor e contrariava o exemplo de Cristo. A história da Igreja, no Ocidente e no Oriente, tem experimentado diferentes práticas a este respeito. A questão dos padres casados no Oriente foi liquidada firmemente no século VII. Já no Ocidente a questão do celibato sacerdotal foi motivo de um debate contínuo e só veio a ser insistiu em torno do século XI, precisamente no Segundo Concílio de Latrão, em Em 1123 o Primeiro Concilio da Latrão decretou a invalidade do matrimônio dos clérigos. Dezesseis anos mais tarde, o segundo Concilio de Letrão confirmou a decisão. Quando o Concilio de Trento fixou a excelência do celibato sobre o matrimônio, fez doutrina das palavras com que São Gregorio Magno (604+) havia condenado o desejo sexual durante seu papado, no século VI. Oriente e Ocidente tinham agora uma visível diferença de estrutura e espiritualidade. Gregório VII que emprestou seu nome à chamada Reforma gregoriana. Esse movimento intensificou a crítica à incontinência dos religiosos e passou a valorizar um clero inteiramente voltado à sua tarefa, sem relações familiares que pudessem afastá-lo dos interesses espirituais ou levá-lo a usurpar bens da Igreja para benefício de seus parentes. Em vários países, como Alemanha, França, Espanha e Inglaterra, essas decisões foram mal recebidas pelos clérigos locais, e o casamento dos padres persistiu. Na Inglaterra a existência de padres casados é documentada até a invasão normanda, em 1066, quando a regra canônica do celibato obrigatório começou a ser executada. O debate reapareceu com a Reforma Protestante do Século XVI. 2. Padres casados no Anglicanismo O anglicanismo admite o casamento clerical, ou seja, a prática de permitir que o seu clero (aqueles que já foram ordenados) seja casado. Esta prática é admitida pela ortodoxia oriental, pelas igrejas católicas independentes e pelas igrejas protestantes. Uma das primeiras coisas que ocorreram na Reforma foi a abolição do celibato sacerdotal. Martinho Lutero tinha sido padre e monge agostiniano. Ele se casou com uma ex-freira cisterciense, Catarina de Bora ( ), e constituiu uma família com seis filhos. Lutero soube unir muito bem vida matrimonial e ministério e seu exemplo tornou-se comum. O futuro Arcebispo de Cantuária, Thomas Cranmer ( ), secretamente contrabandeou sua esposa para Inglaterra, mesmo antes da Reforma acontecer. Mas o problema estava longe de ser resolvido. O rei, Henrique VIII ( ), seguia a visão romana neste sentido e manteve a proibição do celibato clerical nos seus Seis Artigos de Religião, lançados pouco tempo depois da ruptura com Roma. Esta situação continuou até que os artigos fossem revogados durante o reinado do jovem Eduardo VI ( ) em 1547, abrindo assim o caminho para que o clero anglicano pudesse se casar oficialmente. Apesar disto é notório que a rainha Elizabeth I ( ), considerada a verdadeira criadora do anglicanismo moderno, era contrária ao casamento dos bispos. Hoje a maioria do clero é casado, incluindo os bispos. Existem padres e bispos celibatários e monges, é claro, mas eles são relativamente raros. No anglicanismo o matrimônio pode ser adquirido antes ou depois da ordenação sacerdotal. Na prática geralmente acontece antes. Na Igreja da Inglaterra o segundo casamento de padres é combatido e o de bispos terminantemente proibido. Esta é também a posição das igrejas ortodoxas.

3 2. A esposa do presbítero Neste contexto uma questão central tem sido a questão do lugar da esposa no ministério ordenado. Existe uma diferença de perspectiva entre anglo-católicos e protestantes e liberais sobre este tema. Com a maior participação da mulher no mercado de trabalho e o surgimento da ideologia feminista as tensões entre pastores e suas esposas tem aumentado. Cresce um movimento nestas igrejas para ver o ministério como uma profissão ou escolha individual do homem. É comum se ouvir a frase: Não sou pastora, sou esposa de pastor significando que, embora na Igreja, ambos terão profissões e projetos de vida bem diferentes. Em outros casos acontece o oposto e a mulher do pastor torna-se pastora e passa a tratar a Igreja como uma extensão de sua casa. Nosso desafio é mantermos a via média. Às vezes penso se a falta de veneração pela Mãe de Deus no protestantismo não contribui para esta confusão entre ministério e poder que acompanha a tensão sobre o papel das mulheres e das mulheres que são casadas com ministros. Acredito que a correta veneração à Mãe de Deus abre o coração para o correto lugar da mulher na Igreja A experiência da ortodoxia oriental Talvez devamos começar observando como isto vem sendo trabalhado pela ortodoxia durante 2000 anos. Na Igreja Ortodoxa a esposa de um padre tem um título especial. Em grego, ela é chamada, Presvytera (a forma feminina de presbítero ). Em russo, ela é chamada Matushka, que é um diminutivo da palavra para a mãe. Ela é, portanto, Nossa amada mãe ou mãezinha. Outros idiomas ortodoxos têm títulos semelhantes que significam a mesma coisa: A mulher do padre deve ser a mãe da paróquia. O título de presbytera é encontrada entre os antigos escritos cristãos, e teve vários usos diferentes. Algumas vezes é também aplicado a uma diaconisa que ajudou um padre em diferentes tarefas. Na Igreja primitiva, uma diaconisa era uma mulher cristã, geralmente viúva, que ofereceu seu serviço ou diaconia ( serviço em grego) para a Igreja. Seus deveres incluía manter a ordem na igreja e ajudar em determinadas cerimônias como vestir as mulheres adultas após o Santo Batismo. Elas também participavam da visitação aos doentes. No entanto, o uso mais comum deste título era para a esposa de um sacerdote. Na Igreja Ortodoxa Grega, este é o uso atual do título de presbytera. Algo muito parecido acontece em algumas paróquias anglo-católicas. A esposa do padre é chamada de reverenda (literalmente aquela que merece ser honrada ). Isto porque a família do padre é a primeira família da paróquia e serve de modelo para toda a comunidade. Isto exige uma grande responsabilidade e capacidade da esposa. Isto também lembra aos sacerdotes que antes de Edificar a casa de Deus, nós precisamos edificar a nossa. Nada mais valioso para um padre e sua comunidade do que ver sua família servindo ao Senhor, isso não tem preço, requer tempo e disponibilidade do casal a quem Deus tem confiado isso. O Apóstolo Paulo, em 1 Timóteo 5,8, ensina que se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o pagão.

4 O padre em primeiro lugar, precisa edificar a sua casa e a esposa precisa entender o chamado do marido. Creio que quando Deus chama o esposo para o ministério ele chama igualmente sua esposa. Deus não chama apenas o sacerdote solteiro, Ele chama toda a família. Então a esposa tem o mesmo chamado do marido, o mesmo coração, mas tem funções diferentes. A esposa de um presbítero não tem a obrigação de revestir-se das atribuições próprias do ministério. O equilíbrio de ações, a coerência e a capacidade de discernir vão lhe dar a visão e o limite do território de sua participação na obra. Mas, se é verdade que a esposa de um padre não é ordenada para realizar funções sacerdotais ela o é para o compartilhar do seu ministério. Por isto ela é considerada profundamente importante na vida de uma paróquia. Assim, como em uma família existe um pai e uma mãe, a presbytera não é apenas uma ajudante. Até certo ponto, como o padre é um pai espiritual em uma congregação, assim sua esposa torna-se uma mãe espiritual, em especial para as mais jovens. E como numa família comum, estes papéis se expressam de diferentes maneiras. Sou padre casado. Casei antes de ser ordenado ao presbitério. Ao longo dos anos do meu ministério, eu tomei poucas decisões importantes que não fossem antes o produto de muita conversa e reflexão com a minha esposa. Afinal de contas, as decisões no meu ministério também terão conseqüências em sua vida. Por isto sua opinião é importante. Ela não só conhece a paróquia, mas me conhece, e pode apontar meus erros com muito mais eficácia que qualquer outro. 3. Matrimônio e Ordem Dois eventos na vida da esposa de um sacerdote anglicano se destacam: o dia do casamento e o dia da ordenação do marido. Estes dois acontecimentos eclesiais formam os vínculos sacramentais entre o sacerdote e sua esposa, entre o sacramento do matrimônio e o sacramento da ordem. Primeiro, com o sacramento do matrimônio, o casal faz um compromisso conjunto para a vida inteira. Um se subordina ao outro no Amor de Cristo: No entanto, no Senhor mulher não é independente do homem, nem o homem da mulher (1 Cor 11:11). Eles também fazer um compromisso incondicional para servir a Deus por toda a vida. Por isto se tornam sacramento para o mundo: sinal visível do amor de Cristo e da Igreja (Ef 5, ). Em segundo lugar, com o Sacramento da Ordem, o presbítero está pronto para servir a Deus. A sua esposa está presente para compartilhar seu ministério depois de sua ordenação. Lembro que foi minha esposa quem recebeu minha primeira benção sacerdotal. No anglicanismo é necessário o consentimento da esposa do futuro padre e da sua participação para que aconteça a sua ordenação como presbítero. Assim, a esposa do sacerdote desempenha um papel importante na ordenação de seu marido. Em primeiro lugar, ela deve consentir por escrito que ela está disposta para o seu marido a ser ordenado. Como "uma só carne" com seu marido através do Sacramento do Matrimônio, ela participa de espírito em sua ordenação. Embora seja ele que esteja sendo ordenado ela estará lá também. Ambos estão respondendo ao chamado de Cristo. Quando o Bispo e os presbíteros imporem as mãos sobre a cabeça de seu marido o Espírito Santo derramará sua graça sobre ele e uma faísca tocará sua esposa neste momento. Após a ordenação, o sacerdote poderá oferecer o Santo

5 sacrifício eucarístico. Que maravilhosa bênção para uma mulher sentir e receber a Sagrada Comunhão das mãos do meu esposo! Como descrito acima, o sacerdote e sua esposa são duplamente abençoados pelos dois sacramentos do matrimônio e Ordem. A partir de então, eles estão unidos. É realmente verdade que a esposa do sacerdote é parte da sua batina, parafraseando um ditado grego ortodoxo. A partir de então uma difícil jornada espiritual começa. O sacerdote e sua esposa têm de estarem preparados para estes desafios. Devem confiar e apoiarem-se mutuamente, andarem de mãos dadas pela pela estrada estreita, tendo o Espírito Santo como seu guia. São Cirilo, um santo do II Século, descreveu a mesa eucarística em um ícone: a mão de um homem toca o pão, e uma mulher está em pé ao seu lado, orando. Eles representam Cristo e da Igreja. Este ícone pode simbolizar também um padre casado e sua esposa depois de sua ordenação.com profundo amor mútuo por Deus e pelo próximo, o casal compartilha a importante responsabilidade de servir a Deus e Seu povo. A compreensão destes vínculos sacramentais pode ajudar os casais do nosso clero a vive em tempos difíceis. Mas, às vezes, as esposas dos padres esquecem que elas são casados com sacerdotes. Ou eles esquecem que elas fizeram um compromisso, primeiro a Deus e segundo a seus maridos, para compartilhar o serviço ministerial. Quando as coisas se tornam difíceis, as mulheres de alguns padres sentem que é impossível continuar em seu casamento ou partilhar o ministério do marido. É preciso ter paciência e fé. Dias difíceis são como um mar agitado, mas as águas tempestuosas acabarão por acalmar. É preciso crer na eficácia dos sacramentos. Porque Deus faz parte dos vínculos sacramentais que uniram o sacerdote e sua esposa, Deus enviará o Espírito Santo para darlhes sabedoria e força para superar as dificuldades. Vivemos tempos difíceis de secularização, promiscuidade e ateísmo. Os casais clericais não estão imunes a isto. Deus permite que as coisas aconteçam em nossas vidas por razões que só ele conhece. Tudo o que precisamos fazer é rezar e dizer: Que a vontade seja feita. 4. Desafios contemporâneos para padres casados 4.1. Questões culturais Não é fácil ser mulher de padre. Em primeiro lugar é preciso lutar contra os preconceitos arraigados na cultura popular que vêem a mulher do padre como um má influencia em sua vida espiritual. Isto é mais comum em paróquias do interior onde a comunidade é oriunda do catolicismo romano. A primeira coisa a fazer é enfrentar o problema de frente. Expor claramente a posição anglicana sobre isto e envolver a família na dinâmica da igreja. O que não podemos fazer é fingir que somos romanos e escondermos nossas esposas e filhos. Infelizmente conheci alguns anglicanos que usaram esta tática profundamente equivocada Vocações tardias A realidade dos casais clericais é sempre rica e diversa. Certas mulheres enfrentam desafios especiais na decisão de compartilhar o ministério de seus maridos. Em alguns casos, os maridos podem ter escolhido seguir o chamado ao sacerdócio mais tarde na vida. Tais vocações tardias são importantes para a Igreja, mas não são livres de problemas.

6 Como foram pegadas de surpresa essas mulheres enfrentam grandes mudanças emocionais em sua vida conjugal e familiar estabelecidas. Isto, muitas vezes, significa mudanças em sua rotina, em sua carreira, que irá afetar o casal emocional e financeiramente. Em outros casos, as mulheres de padres ficam preocupadas porque elas não sabem o que esperar em uma paróquia. Muitas são de temperamento reservado ou explosivo. Tudo isto deve ser analisado e acompanhado pastoralmente pelo bispo. Para enfrentar esses desafios especiais, um pai espiritual pode guiá-los e ajudá-los a entender a vontade de Deus em cada momento. O casal deverá ter alguém com quem possa confidenciar suas dificuldades. A direção espiritual permanece sendo a primeira e melhor forma de terapia Diferentes níveis de compromisso com o ministério O perfil da mulher de um padre mudou muito nos últimos anos. Atualmente a esposa do sacerdote tem muitas opções com respeito a quanto tempo e energia ela comprometerá como o ministério do marido. Ela pode ser uma mãe em tempo integral ou dona de casa. Ela pode trabalhar tempo integral ou parcial fora de casa. Ela pode ser um membro voluntário de várias comissões e projetos da igreja. Ela poderá ser qualificada para um envolvimento pleno na vida da Igreja. Ou ela pode combinar um ou vários destes perfis acima. O importante é que ela esteja comprometida e tenha clareza do que significa ser esposa de um padre anglicano. A esposa do sacerdote deve avaliar seus próprios talentos, habilidades e interesses, e agir em conformidade com eles. É preciso evitar comparações e cobranças desnecessárias. Ela deverá escolher o que a faz feliz e o que funciona melhor para ela e seu marido. Não importa a forma que ela como ela escolheu para compartilhar o ministério de seu marido: o importante é que ela seja feliz com sua decisão. Outro aspecto importante são os filhos. Como casal cristão a primeira prioridade é garantir amor, segurança e disciplina aos seus filhos. É preciso que ambos tenham um tempo para a família que Deus lhes deu. É preciso investir tempo na educação das crianças. Ensiná-los, responder às suas perguntas, e o mais importante, rezar com eles. A Igreja deve ser uma continuação do que vivem em suas casas. Isto, certamente, é a parte mais importante e difícil de um casal clerical Formação e planejamento É preciso formar às futuras gerações. Para algumas esposas de padres anglicanos sua situação tem sido um peso quase insuportável, chegando algumas a adoecerem, sofrendo de males como depressão, gastrite etc. O motivo dessas enfermidades, com frequência, é que as mulheres nem sempre se preparam para casar, muito menos para se casarem com sacerdotes. Estão despreparadas para enfrentar a dinâmica eclesiástica com suas cobranças sem muitos esclarecimentos. E por isto muitos casamentos fracassam. Como disse Jim Rohn: Ninguém planeja fracassar. As pessoas fracassam por não planejar. Ela deve ter clareza sobre suas futuras responsabilidades como mulher de um clérigo. Isto não significa que ela deve perder é a sua identidade de mulher. Muitas vezes ela é apresentada sem ter seu nome próprio citado, mas como esposa do padre fulano de tal. Nestas ocasiões, é importante que seu cônjuge, sem agressão, faça uma nova apresentação citando o nome próprio dela. Afinal, antes desta função, ela já era uma pessoa criada à

7 imagem e semelhança de Deus, e amada por Ele: à Sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou (Gn 1.27). Algo que não deve faltar na vida de uma esposa de padre é uma agenda bem dividida para os seus compromissos pessoais (hora devocional, academia, arrumar cabelos, fazer unhas, caminhar, fazer terapia), familiares (tempo com o esposo para orar, conversar, sair com os filhos, ensinar tarefas, namorar) e eclesiásticos (preparar palestras, reuniões, ensaios, visitações). Cada uma deve fazer sua agenda conforme as necessidades assumidas livre e espontaneamente, para que assim não se sinta esgotado física e emocionalmente. Sem este controle a vida familiar pode ser engolida pela vida eclesiástica o que em longo prazo trará problemas para o casal e a Igreja. 5. Espiritualidade do casal Outro desafio é manter a espiritualidade familiar. Muitas vezes o padre cuida tanto dos filhos dos outros que esquece os da sua casa. O casal está sempre em estado de construção. Espiritualidade significa viver segundo o Espírito. O Espírito é centro de todo Ministério Ordenado. Espiritualidade conjugal é aprender, do Espírito, como viver conjugado, unido, é para ser vivida na carne, situada no tempo e no espaço, é concreta, dinâmica. É uma espiritualidade encarnada, uma graça que santifica o casal não apesar da vida conjugal, mas por meio dela. A vida conjugal torna-se instrumento e meio de vivência e expressão da espiritualidade. Segundo as Escrituras o amor conjugal precisa ser anúncio explícito do amor apaixonado de Deus pela humanidade. Não existe nenhum amor mais intenso e profundo do que o amor conjugal. O envolvimento amoroso de um casal é o mais pleno que existe, pois implica corpo, alma, coração, sentimentos, emoções, sangue e sonhos. Por outro lado a falta de uma espiritualidade conjugal tornou-se um dos grandes assassinos do amor. Sem a força do Alto, ninguém persevera no amor. Sem a força do Alto ninguém passa da paixão ao amor. Sem a força do Alto é impossível achar sentido para a vida conjugal. Para o padre casado a espiritualidade é garantia de uma relação pessoal com Jesus Cristo, Mestre e Profeta, Sacerdote e Pastor. É nele que encontramos as raízes mais profundas de nossa vocação ao Ministério como experiência do Deus salvador. Foi ele que nos escolheu e amou, chamando-nos à santidade, ou seja, a identificar-nos progressivamente com Ele, conhecendo-o em profundidade. No nosso caso, como sacerdotes anglicanos, como Ministro de Cristo e numa dupla dimensão, ou seja, naquela pastoral, onde manifesta a caridade de Cristo, Bom Pastor que cuida de suas ovelhas, e naquela familiar, onde, com sua esposa e filhos, por meio do Matrimônio, revela o Mistério da relação entre Cristo e sua Igreja (cf. Ef 5,32). A vivência desta dupla dimensão espiritual aprofunda o sentido de Deus na vida, ajuda a responder ao Seu chamado e descobrir o sentido das opções de Jesus, com quem, no Ministério Ordenado, nos identificamos, no amor e na santidade. A espiritualidade no ministério conduz àquela caridade que nos ensina, como Jesus, a buscar as pessoas e, na santidade, viver uma espiritualidade de comunhão. Nesse sentido, a devoção à Virgem Maria nos ajuda a entender em profundidade, a partir do seu sim à vontade de Deus, a beleza e a importância do Mistério da Encarnação em nosso Ministério Ordenado. E aqui se evidencia a dimensão da caridade, já que esta requer

8 uma verdadeira encarnação que exige de nós, Ministros Ordenados, um amplo conhecimento da sociedade concreta em que estamos e uma atenção peculiar aos problemas atuais do mundo e da Igreja. Que Deus nos abençoe.

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