O DESAFIO DA GESTÃO AMBIENTAL EM MEIOS DE HOSPEDAGEM: PERSPECTIVAS PARA O INCENTIVO A EDIFICAÇÕES SUSTENTÁVEIS DE TURISMO NO BRASIL

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1 O DESAFIO DA GESTÃO AMBIENTAL EM MEIOS DE HOSPEDAGEM: PERSPECTIVAS PARA O INCENTIVO A EDIFICAÇÕES SUSTENTÁVEIS DE TURISMO NO BRASIL Clara Carvalho de Lemos (1) (1) Programa de Pós-Graduação em Ciências da Engenharia Ambiental da Escolha de Engenharia de São Carlos - EESC Universidade de São Paulo, Brasil RESUMO No Brasil, o setor hoteleiro vem experimentando um momento de intensos investimentos. Muitos desses empreendimentos, porém, têm a tendência de se localizar em locais dotados de grande beleza cênica, rica biodiversidade, e, naturalmente, grande sensibilidade ao desenvolvimento intenso. Por isso, em qualquer lugar em que se ocorra, o desenvolvimento turístico deve levar em conta os impactos das edificações sobre o arranjo territorial. O que se constata, porém, é que, em muitos casos, a gestão ambiental e os princípios da arquitetura sustentável não estão incorporados ao planejamento e concepção dessas edificações. O presente estudo, portanto, analisou o papel que os programas de certificação ambiental têm desempenhado no incentivo à gestão ambiental em meios de hospedagem e na concepção de edificações mais sustentáveis no país. Concluiu-se que ainda existe uma série de desafios para o que Brasil incorpore essas normas de forma mais abrangente. Esses desafios estão relacionados, principalmente, com o comportamento dos consumidores, o nível de responsabilidade e consciência ambiental de investidores e do meio empresarial, o alto custo que os processos de certificação acarretam para pequenos e médios empreendimentos, a falta de incentivo por parte do poder público e algumas falhas e imperfeições das normas de certificação ambiental. Palavras-chave: turismo, meios de hospedagem, gestão ambiental, edificações sustentáveis, certificação. ABSTRACT In Brazil, the accommodation sector is facing a moment of increasing investments. Many of the hotels, however, have the tendency of being located in places or regions of great scenic beauty, rich biodiversity, and, of course, high sensitivity from intense development. Therefore, in any place where it occurs, the tourism development must take in account the impacts of its constructions on the territorial arrangement. What this paper highlights, however, is that, in many cases, environmental management and sustainable architecture principles are not incorporated into the planning and conception of these constructions. The present study analyzed the role that the environmental certification programs have played in the insertion of environmental management and more sustainable construction principles in the accommodation sector in Brazil. It was concluded that it still remains some challenges for the Brazilian hotels to broadly incorporate these self regulation standards. These challenges are related, mainly, to the behavior of consumers, the level of responsibility and environmental commitment of investors of the private sector, the high cost of the certification and accreditation processes for medium and small enterprises, the lack of encouragement initiatives from the public sector and some imperfections related to the existing environmental certification process. Keywords: tourism, accommodation sector, environmental management, sustainable construction, certification

2 1 INTRODUÇÃO Em muitos destinos em que a natureza e todas as qualidades a ela associadas são o principal atrativo, o turismo pode estimular a conservação das áreas naturais como forma de atrair mais turistas, divisas, empregos etc. A natureza intocada, vista como um bom negócio, geralmente é defendida por aqueles que dela dependem economicamente. Por outro lado, a demanda crescente pelo turismo com base no encontro com a natureza pode acarretar sérios problemas ao equilíbrio ecológico das áreas naturais. Mal controlado, o fluxo turístico e as atividades receptivas associadas pode resultar em impactos negativos significativos nas zonas costeiras, manguezais, florestas úmidas e tantos outros ecossistemas. Esses impactos estão relacionados à transformação das áreas naturais para construção de equipamentos e infra-estrutura, algumas vezes em excesso; impactos visuais; aumento da produção de resíduos; poluição sonora e atmosférica dos veículos e demais meios de transporte; danos à fauna e à flora; comprometimento das reservas de água; excessivo consumo energético, dentre outros. Assim, de incentivador da proteção da natureza, o turismo pode passar a ser seu grande inimigo. Por outro lado, as modificações negativas no meio ambiente natural põem em risco a sustentabilidade da atividade turística. No Brasil, os números mostram uma forte tendência de crescimento e investimento, o que evidencia a necessidade de avaliação e ponderação dessas questões relacionadas aos impactos negativos da atividade. Os bancos públicos federais, gestores dos programas oficiais de financiamento para o turismo, desembolsaram, somente no período de janeiro a junho de 2006, um total de R$ 1,1 bilhão. Houve um incremento de 4,3% no volume de recursos direcionados às atividades turísticas, em projetos de investimentos para ampliação, modernização e instalação de empreendimentos turísticos e operações de capital de giro. De 2003 a junho de 2006, os bancos desembolsaram para o setor um total de R$ 5,6 bilhões (MINISTÉRIO DO TURISMO, 2006). O nível de investimento da iniciativa privada também continua alto. Em outubro de 2006 nada menos que 188 hotéis, com capacidade para mais de 5 mil habitações, estavam em construção no país, somando assim investimentos de R$ 3,5 bilhões (HOTÉIS, 2006). O setor hoteleiro, portanto, ganha destaque nesse cenário de intensos investimentos. Por outro lado, várias situações de conflitos entre esse setor e o meio ambiente já puderam ser observadas no Brasil. É certo que, dentre as atividades econômicas que se utilizam dos recursos naturais o setor hoteleiro não é das mais impactantes, muito menos a culpada única pelos inúmeros exemplos de agressões ao meio ambiente. É preciso, todavia, reconhecer que esse setor nem sempre é a indústria sem chaminés propagada por tantos. Um exemplo disso são as políticas de incentivo ao turismo no litoral norte da Bahia e sua influência no desmatamento de áreas de restinga, dunas e mata atlântica da região. Com apoio do poder público local as áreas de proteção estão passando por constantes mudanças em seu zoneamento com o intuito de facilitar a construção de mais empreendimentos hoteleiros. Estudos do Ministério do Meio Ambiente concluíram ainda que, o aumento do desmatamento em nome do desenvolvimento turístico no local não está resultando em ofertas de emprego e nem melhorando o índice de desenvolvimento humano dos municípios afetados (BELÉM, 2006). Um outro exemplo pode ser visto em Florianópolis, no Estado de Santa Catarina, onde há pelo menos 30 anos o avanço imobiliário, conseqüência do aumento do turismo, vem provocando a degradação contínua das dunas e restingas, além de comprometer o lençol freático e a balneabilidade das praias e trazerem problemas graves como o aumento da geração de resíduos e a poluição (MARTORANO, 2006). Em outras atividades econômicas o valor paisagístico, a beleza cênica, a proximidade com áreas selvagens não é fator condicionante, ao contrário do turismo, que necessita da proximidade desses

3 fatores para a viabilidade do empreendimento, o que pode induzir uma série de conseqüências negativas. Por isso, em qualquer lugar em que se dá o desenvolvimento turístico deve-se considerar o impacto dos espaços construtivos da infra-estrutura turística e de apoio que virão atender o fluxo de visitantes. Assim, tendo em vista essa relação tão próxima e dependente que existe entre o meio de hospedagem e o meio natural, evidencia-se aqui a importância de incorporação de princípios da gestão ambiental por parte desses empreendimentos, desde o momento inicial da sua concepção, até a construção propriamente dita e a sua operação e funcionamento. Várias iniciativas ou normas, sejam elas de caráter voluntário ou mandatório, estão em vigor atualmente, com o intuito de garantir ou estimular a inserção da gestão ambiental em empresas e atividades de turismo. O aparecimento dessas normas foi resultado de algumas tendências mundiais. A primeira foi a crescente mobilização e conscientização dos governos e da sociedade civil quanto à urgência de se rever o modo de produção mundial que punha em risco a qualidade ambiental do Planeta. A outra foi a necessidade de se impor certos padrões mínimos de segurança e gestão, por parte do poder público, e a popularização das normas internacionais, especialmente aquelas criadas pela International Organization for Standardization ISO, que recebem crescentes adesões por parte do empresariado. Nos dias atuais, portanto, é muito comum, especialmente no setor do turismo, que os representantes da iniciativa privada defendam a criação de normas voluntárias, ou seja, a auto-regulamentação, feita por intermédio de códigos de conduta, esquemas de certificação e credenciamento e regulamentos próprios, como métodos preventivos de conflitos entre a atividade e as questões ambientais. Essa atitude pró ativa da indústria em relação aos seus conflitos ambientais é sempre a solução preferida pela própria indústria, em vez da submissão a regulamentações e outras medidas de controle por parte do Estado. Tendo em vista essa tendência do setor empresarial em todo o mundo, o presente estudo versa sua análise sobre o setor hoteleiro e a influência que os esquemas de normas voluntárias e certificações ambientais têm sobre o planejamento e concepção de edificações e até que ponto essas iniciativas estão contribuindo para a incorporação de princípios da arquitetura sustentável, garantindo sistemas construtivos de meios de hospedagem mais harmoniosos com o meio natural circundante. 2 OBJETIVO E METODOLOGIA O presente estudo tem como objetivo a análise do papel que os programas de certificação ambiental têm desempenhado no incentivo à gestão ambiental em meios de hospedagem e na concepção de edificações mais sustentáveis no País. Para tanto, buscou-se levantar, através de uma revisão bibliográfica, o arcabouço teórico e prático referente aos seis principais programas de certificação ambiental para meios de hospedagem, dentre eles dois brasileiros, analisando especificamente a existência de normas referentes a sistemas construtivos e de que forma elas podem realmente contribuir para a disseminação de princípios da arquitetura sustentável no Brasil e no mundo. 3 ARQUITETURA E EDIFICAÇÕES PARA A SUSTENTABILIDADE Ao tratar de arquitetura e edificações para a sustentabilidade é essencial abordar a própria questão conceitual e prática referente à sustentabilidade. Inicialmente esse é um conceito que surge como uma alternativa às teorias e modelos tradicionais de desenvolvimento. Leff (2002) defende uma reorientação das práticas produtivas para o alcance do desenvolvimento sustentável já que a crise ambiental de hoje problematiza os paradigmas da atualidade e demanda novas metodologias capazes de orientar uma reconstrução. O autor acredita que, para isso, se fazem necessários novos instrumentos econômicos, jurídicos e técnicos, como os métodos de avaliação de impacto ambiental, indicadores e padrões de qualidade ambiental e procedimentos legais em defesa

4 dos valores e dos direitos ambientais. A arquitetura, assim como as demais áreas de atuação do homem capazes de provocar mudanças no meio ambiente, não está de fora dessa discussão. Assim, os responsáveis por projetos arquitetônicos também são cobrados a tomar posições de agentes transformadores dos modos de produção, de forma que assumam seu papel na busca por um desenvolvimento ambientalmente mais responsável. Nesse contexto, Gonçalves e Duarte (2006) destacam os princípios da arquitetura bioclimática, que ganhou importância dentro do conceito de sustentabilidade. Isso se deu pela estreita relação entre o conforto ambiental e o consumo de energia, que está presente na utilização dos sistemas de condicionamento ambiental artificial e de iluminação artificial. Atualmente, no entanto, esse tema vem influenciando também abordagens de projeto na arquitetura, extrapolando as questões de conforto ambiental, e abrangendo também ações relacionadas a recursos para a construção e a operação do edifício, como materiais, energia e água, com especial atenção na formulação de propostas de menor impacto ambiental (GONÇALVES e DUARTE, 2006). Apesar, portanto, da energia figurar como elemento central nas discussões e práticas de arquitetura sustentável, há que se reconhecer também a abrangência que o tema acolhe, tendo em vista as diversas estratégias sustentáveis disponíveis para concepção e construção de edifícios. 4 GESTÃO AMBIENTAL E CERTIFICAÇÃO NA HOTELARIA Como já afirmado, alguns setores da atividade turística buscam, desde os anos 1980, outras formas de se relacionar com o meio ambiente, levando a sério as questões ambientais e a idéia do turismo sustentável. Dentre esses, o setor hoteleiro é o que mostra mais ações para o desenvolvimento de operações propícias ao meio ambiente (SWARBROOKE, 2000). Uma iniciativa pioneira ocorreu em 1992 quando um grupo de empresários de 12 empreendimentos multinacionais do setor hoteleiro criou uma organização sem fins lucrativos chamada International Hotels Environment Initiative IHEI. Essa organização busca, desde então, a promoção de melhores práticas ambientais para hotéis do mundo todo. Esse esforço é concretizado por intermédio de algumas iniciativas, tendo destaque a criação de um banco de dados, de benchmarking ambiental, para incentivar hotéis a melhorar seu desempenho ambiental, além de uma publicação intitulada Greenhotelier, também voltada para a disseminação de práticas ambientais na hotelaria. Partindo também do setor privado do turismo, foi elaborada a Agenda 21 para a Indústria de Viagens e Turismo, baseada na Agenda 21 Global. Esse documento é uma espécie de plano de ação do setor para o século XXI. Participaram da sua elaboração três organizações internacionais, o World Travel and Tourism Council (WTTC), a Organização Mundial do Turismo (OMT) e a Earth Council. Foi também uma iniciativa do WTTC que deu origem, em 1999, a um dos principais e mais abrangentes programas de certificação para o turismo, o chamado Green Globe 21. No mesmo ano o WTTC transferiu a gestão do programa para uma fundação sem fins lucrativos. Há também um conselho internacional formado por organizações ambientalistas, representantes da indústria e outras organizações multilaterais e não governamentais, responsável por elaborar sugestões para o programa Green Globe 21. O fato de os programas de certificação ambiental, como as normas da ISO, serem pouco viáveis para empresas de pequeno e médio porte, tendo em vista os altos custos envolvidos no processo, fez com que muitos grupos empresariais de turismo preferissem desenvolver seus próprios programas de certificação, adaptados à realidade desse setor (FONT, 2002). Desde então, o mundo presenciou um rápido crescimento e popularização de selos e programas diversos de certificação ambiental para o turismo. Na opinião de Salvati (2001), os programas de certificação têm por objetivo orientar o consumidor na escolha de produtos com diferencial ambiental e social, bem como motivar empresas a atingir, com responsabilidade, a eficiência na qualidade de produtos e serviços, na segurança do trabalho e na mitigação do impacto ambiental, entre outras atitudes, mediante o cumprimento de padrões e normas pré-estabelecidos

5 Assim, seja ele nacional ou internacional, o selo de certificação ambiental é, principalmente, um mecanismo de marketing, um componente que auxilia a escolha por parte do consumidor. Ainda segundo Salvati (2001) esses selos, associados a determinado empreendimento, demonstram suas credenciais ambientais e sociais que, teoricamente, permitem aos consumidores identificar companhias responsáveis. Já existe, atualmente, uma grande variedade de esquemas de certificação. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em relatório publicado em 1998, já relatava a existência de 28 programas de certificação ambiental para o turismo, divididos em cinco categorias de abrangência: internacionais, regionais, nacionais e sub-nacionais (BUCKLEY, 2002). Mais recentemente, em pesquisa encomendada pelo WWF - Reino Unido, Synergy (2000) confirmou a proliferação de programas de certificação no mundo, e estimou em cerca de uma centena as iniciativas existentes naquele ano. Font (2002) também confirmou a existência de mais de uma centena de selos ambientais para o turismo, meios de hospedagem e ecoturismo, fenômeno que deu início principalmente nos anos de 1980 e se intensificou a partir dos anos de Muitos, porém, se sobrepõem em termo de setores e área de abrangência compreendida. É possível que esse quadro tenha sofrido mudanças nos últimos anos, alguns novos esquemas de certificação surgiram, uns poucos se consolidaram na sua região de atuação, outros não vingaram. O que se constata, entretanto, é que, tendo em vista as preocupações da população com o meio ambiente e a ameaça de leis cada vez mais rigorosas, os empresários do setor se vêem forçados a tomar posições mais cautelosas e procurar formas de mostrar aos seus consumidores e à população em geral que estão tomando uma posição mais pró ativa em relação ao meio ambiente. 4.1 Programas de certificação e edificações sustentáveis A principal constatação que se faz dos inúmeros programas de certificação ambiental em turismo, existentes atualmente, é que eles podem diferir-se um dos outros de maneira considerável. Essas diferenças dizem respeito, principalmente, à área de abrangência (mundial, regional, nacional, local), às unidades passíveis de serem avaliadas (destinos, agências, operadoras, meios de hospedagem, condutores e guias, atrativos etc.), ao sistema de avaliação (por processo ou desempenho), aos requisitos para uso do selo ou logomarca e às formas de credenciamento e certificação. Para esta pesquisa, foram analisados os programas de certificação que possuem normas ou requisitos específicos para meios de hospedagem. Optou-se por apresentar algumas normas internacionais, ou seja, os dois programas de maior reconhecimento internacional (Green Globe 21 e Ecotel), pelas perspectivas que existem desses programas serem adotados por hotéis brasileiros, ou serem incorporados por programas brasileiros de certificação. Além disso, foram analisados os programas nacionais de certificação da Austrália (NEAP) e da Costa Rica (STC), por serem nações com forte tradição e reconhecimento na área de gestão do turismo e que podem trazer importantes contribuições para experiências nacionais. As duas experiências mais conhecidas de certificação para meios de hospedagem do Brasil também estão incluídas na análise. A seguir, cada um desses programas é relacionado e os principais requisitos previstos nas normas para padrões construtivos de meios de hospedagem são apresentados, de acordo com Certificación para la Sostenibilidad Turística (2007), Ecotel Certification (2007), Ecotourism Australia (2003), Green Globe 21 (2004, 2006) Instituto de Hospitalidade (2004), Roteiros de Charme (2007)

6 Green Globe 21 Abrangência: Mundial Possui várias normas, dentre elas, uma exclusiva para meios de hospedagem, que prevê um monitoramento contínuo de alguns indicadores de consumo de água, energia, produção de resíduos e efluentes, utilização de produtos químicos etc. É um processo chamado de benchmarking, que não trata diretamente de aspectos construtivos e está mais relacionado às ações operacionais do hotel. A norma de ecoturismo (International Ecotourism Standard), por outro lado, tem uma seção que trata especificamente da infra-estrutura dos empreendimentos, ou seja, estabelece normas para que os projetos arquitetônicos e paisagísticos estejam de acordo e respeitem as características ambientais da região, provocando o menor impacto ambiental possível, por meio da seleção adequada da localização do empreendimento, dos materiais utilizados, atentando para a destinação adequada dos resíduos etc. Ecotel Abrangência: Mundial Apesar de estabelecer requisitos para comprometimento por parte do hotel em gestão ambiental, gestão de resíduos sólidos, eficiência energética, conservação da água e envolvimento da comunidade afetada, o programa não trata diretamente de ações para concepção de edifícios que levem em consideração a arquitetura sustentável. Nature and Ecotourism Accreditation Program (NEAP) / Austrália Abrangência: Nacional Estabelece uma série de requisitos para estudos locacionais de todas as atividades relacionadas ao empreendimento, considerando impacto mínimo ao meio ambiente, direito de propriedade e outros planos estratégicos, zoneamento etc. Tem uma seção específica para métodos e materiais construtivos. Dá ênfase à utilização de materiais reciclados e renováveis, que devem ser maioria no projeto e de procedência local, quando possível, além do equilíbrio com a paisagem e respeito à topografia natural e às características culturais da região. Considera também minimização de distúrbios à flora, fauna e solo, e destinação de resíduos adequada. Certificación para la Sostenibilidad Turística / Costa Rica Abrangência: Nacional Recomenda algumas práticas de proteção ao entorno físico e biológico do hotel, como controle de emissões e efluentes, proteção às áreas verdes, flora e fauna do entorno, controle do consumo de água e energia por meio de investimentos tecnológicos, manejo adequado dos resíduos etc. Não menciona diretamente aspectos relacionados ao projeto arquitetônico e ao impacto da edificação. As recomendações para mudanças da infra-estrutura física dizem respeito a tecnologias de controle de consumo

7 Programa de Certificação em turismo sustentável / Brasil Abrangência: Nacional Possui um item que trata exclusivamente da arquitetura e dos impactos da construção do empreendimento. Estabelece uma série de requisitos referentes à paisagem, impermeabilização do solo, danos à vegetação e à vida silvestre, erosão, resíduos da construção, volumetria, impacto visual etc. Um dos itens estabelece que Convém que se utilizem materiais de construção disponíveis na região originados de fontes sustentáveis, se considere o uso das técnicas tradicionais, se evite usar materiais de construção com grande impacto ambiental e se procure tomar medidas de compensação ambiental para os materiais usados no empreendimento. Roteiros de Charme / Brasil Abrangência: Nacional Estabelece um Código de Ética e de Conduta Ambiental. O Código prevê a necessidade de o empreendimento identificar e reduzir o impacto ambiental, no planejamento de novos projetos e construções, visando à preservação do cenário, fauna, flora e cultura locais. Além disso, sugere ações de eficiência energética e diminuição do consumo de água, geração de resíduos etc. 5 ANÁLISE CRÍTICA O que se constata, à primeira vista, ao analisar os requisitos para padrões construtivos das normas de certificação para meios de hospedagem, é que elas se assemelham muito, com algumas diferenças em termos de detalhamento, sugestões e requisitos. De maneira geral, no entanto, essas normas tratam, principalmente, de requisitos para: seleção de materiais (disponíveis na região, reaproveitados, evitar aqueles de grande impacto ambiental etc); utilização de técnicas tradicionais; tecnologias de minimização do consumo de água e energia; harmonia paisagística; conservação de áreas naturais e menor distúrbio possível ao entorno e; destinação adequada aos resíduos da construção. Pode-se afirmar que, no geral, as normas tratam de padrões construtivos e tecnológicos de forma um pouco superficial e até carregada de subjetividade. Isso porque ao afirmar que os projetos arquitetônicos e paisagísticos devem respeitar as características ambientais da região, ocasionar mínimo distúrbio à fauna e flora da região, manter a harmonia paisagística ou evitar materiais de grande impacto ambiental, as normas entram em questões extremamente vagas e subjetivas a ponto de ser difícil de avaliar, em termos práticos, a concordância ou não de um empreendimento em relação a esses requisitos. Convém destacar também a ênfase que alguns dos programas assentam; especialmente o da Costa Rica, Roteiros de Charme e o Ecotel; em incentivos a investimento em tecnologias de minimização de água e energia, fazendo pouca ou nenhuma menção à incorporação de outras estratégias da arquitetura sustentável no momento de concepção e construção dos empreendimentos, como a seleção adequada de materiais, destinação correta dos resíduos da construção, utilização de técnicas tradicionais etc. Outra questão se refere ao momento de adesão desses empreendimentos às normas de certificação

8 Alguns requisitos, especialmente aqueles que tratam de escolhas locacionais, conservação das áreas verdes, respeito à topografia e às características culturais da região e harmonia paisagística, são adequados, principalmente, se incorporados desde o momento inicial de concepção do projeto, o que muitas vezes não ocorre. É muito mais freqüente o meio de hospedagem buscar a implantação de sistemas de gestão ou a certificação ambiental quando ele já está em operação ou já atingiu certa estabilidade operacional e comercial. Até porque a disseminação de melhores práticas ambientais é um fenômeno recente. Por isso, muitos empreendimentos teriam que passar por reformas estruturais para se adequar a algumas exigências das normas, o que acarretaria um ônus que muitos hotéis de médio ou pequeno porte não conseguem arcar. Seria necessário, portanto, que a preocupação, por parte do empresariado em relação aos impactos ambientais do empreendimento fosse realidade presente desde o momento inicial de concepção e planejamento do meio de hospedagem, especialmente no que diz respeito a estudos locacionais e a estratégias tecnológicas e construtivas de mínimo impacto. Essas ações, por outro lado, só serão colocadas em prática no momento em que o setor empresarial apresentar alto nível de comprometimento com as conseqüências ambientais de suas decisões. Além disso, o comportamento dos turistas e consumidores em geral também é capaz de influenciar a postura de empresários e investidores. O comportamento do consumidor em relação a produtos e serviços turísticos ditos ecológicos, convém evidenciar, é um assunto pouco explorado e que merece pesquisas, já que muitas das iniciativas aqui relatadas têm como objetivo desenvolver uma imagem positiva desses hotéis junto aos consumidores, originando fidelidade. É questionável a premissa de que, certificados, esses empreendimentos passariam a ter preferência por parte dos turistas brasileiros, já que existem vários outros fatores que influenciam a decisão e o poder de compra como preço, características do destino, qualidade dos serviços etc. O alto custo que um processo de certificação acarreta para o empreendimento pode, inclusive, resultar em um aumento dos custos operacionais do hotel, o que influencia no preço final pago pelo hóspede. Ainda é pouco conhecido até que ponto, na prática, o turista brasileiro está disposto a pagar mais caro por um hotel com ações ambientalmente positivas. Além disso, não se sabe se o turista, com sua postura hedonista, ocuparia seus momentos de prazer e diversão com preocupações em relação ao impacto ambiental que o hotel em que está hospedado possa causar. Salvati (2001) chama a atenção para o fato de que, no Brasil, os consumidores provenientes de grandes centros urbanos ainda não apresentam real consciência de que o produto turístico gera maior demanda de consumo nos destinos, principalmente de recursos naturais sensíveis a altas cargas turísticas, afetando seu equilibro e a sua própria capacidade de atração. Por fim, é importante destacar que a disseminação de melhores práticas para edificações mais sustentáveis depende, sem dúvidas, de um esforço conjunto entre o setor empresarial, o Poder público e as organizações da sociedade civil. Isso porque a imposição de normas e regulamentos, por parte do Poder público, nem sempre é bem recebida pelo setor empresarial. É muito comum, especialmente no setor do turismo, que os representantes da iniciativa privada defendam a auto-regulamentação, feita por intermédio de códigos de conduta, esquemas de certificação e regulamentos próprios, como métodos preventivos de conflitos entre a atividade e as questões ambientais. Essa atitude ativa da indústria em relação aos seus conflitos ambientais é sempre a solução preferida pela própria indústria, em vez da submissão a regulamentações e outras medidas de controle por parte do Estado. Por outro lado, a atuação do Estado pode ser decisiva para evitar que o desenvolvimento turístico implique prejuízos significativos à qualidade ambiental local, bem como a participação da sociedade, por meio de mecanismos que estimulem a discussão pública a respeito dos impactos que esse setor pode causar em certos destinos. Ações e discussões conjuntas a respeito dessas normas podem ser extremamente benéficas. Se o meio empresarial defende a auto-regulamentação, os governos também podem desempenhar um papel

9 importante nesse meio por intermédio de ações de incentivo e fomento à adoção de práticas e estratégias para edificações mais sustentáveis. Da mesma forma, a participação ativa da sociedade nessas discussões também pode oferecer valiosas contribuições na tentativa de incorporar valores da sociedade nas normas ambientais, bem como estimular o consumo consciente. 6 CONCLUSÃO O setor do turismo, assim como qualquer outra atividade econômica, necessita não apenas identificar formas de desenvolvimento menos impactantes ao meio natural, mas, principalmente, garantir que certos princípios, que levem em consideração melhores práticas ambientais, sejam incorporados, de forma abrangente e integral, na concepção de novos empreendimentos. Mesmo que no Brasil não existam ainda padrões, normas ou esquemas de certificação que tratam exclusivamente de Arquitetura Sustentável, é possível que outros modelos e experiências desenvolvidos e incentivados por outros setores, especialmente o turismo, possam desempenhar importante papel na disseminação de boas práticas para edificações sustentáveis. O presente trabalho identificou algumas normas de certificação ambiental para meios de hospedagem, que abrangem diferentes regiões do mundo, inclusive o Brasil, e que podem representar um passo inicial para incorporação de certas práticas construtivas menos impactantes. A pesquisa, no entanto, evidenciou a necessidade de incorporação de estratégias de mínimo impacto em todas as fases do empreendimento, desde o momento inicial da sua concepção, até a construção propriamente dita e a sua operação e funcionamento, o que nem sempre ocorre na prática, mesmo com a existência dessas normas ambientais. Outras falhas e imperfeições foram identificadas nas normas ambientais para meios de hospedagem, especialmente no que se refere ao nível de subjetividade e imprecisão que elas carregam. É possível que as normas de certificação ambiental para meios de hospedagem aqui apresentadas estimulem a adoção de princípios da arquitetura sustentável por parte do setor hoteleiro. Por outro lado, para hotéis já em operação, a adaptação às normas pode demandar significativo aporte de recursos que muitos empreendimentos de pequeno e médio porte não estão em condições de arcar. Além disso, restam dúvidas quanto ao comportamento, por parte do mercado consumidor brasileiro, em resposta a essas iniciativas de certificação ambiental, ou seja, até que ponto os turistas brasileiros estão dispostos a tomar decisões de consumo baseadas no comportamento positivo dos hotéis em relação ao controle ambiental de seus impactos. Por fim, destaca-se a necessidade de se buscar iniciativas que estimulem a cooperação entre o setor empresarial, participando das decisões e criação das normas além da adesão ampla; o Poder público, com ações de fomentos e incentivo; e a sociedade civil, na participação das discussões e nas decisões de consumo mais conscientes. 7 REFERÊNCIAS ECOTEL CERTIFICATION. Disponível em: <http://www.concepthospitality.com/ecotel/ecotel.htm>. Acesso em 14 jan BELÉM, L. Leis ambientais são desrespeitadas: no estado da Bahia, a instalação de hotéis e loteamentos vem sendo feita em areas que são protegidas. A Tarde, Salvador, Disponível em: <http://www3.atarde.com.br/cidades/interna.jsp?xsl=noticia.xsl&xml=noticia/2006/03/27/ xml>. Acesso em: 5 jan BUCKLEY, R. Tourism Ecolabels. In: Annals of Tourism Research, New York, v. 29, n. 1, p , CERTIFICACIÓN PARA LA SOSTENIBILIDAD TURÍSTICA. Disponível em: < Acesso em 23 fev

10 FONT, X. Environmental certification in tourism and hospitality: progress, process and prospects. In: Tourism Management, London, v. 23, n. 3, p , Jun GONÇALVES, J. C. S.; DUARTE, D. H. S. Arquitetura sustentável: uma integração entre ambiente, projeto e tecnologia em experiências de pesquisa, prática e ensino. In: Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 6, n. 4, p , out./dez GREEN GLOBE 21. International ecotourism standard. Ecotourism Australia and The Cooperative Research Centre, 2004, 18 p.. Sector benchmarking indicators for accommodation. Earth Check, 2006, 18 p. HOTÉIS se multiplicam. Isto é Dinheiro, São Paulo, Disponível em:<http://www.terra.com.br/istoedinheiro/especiais/turismo/hoteis_multiplicam.htm>. Acesso em: 22 out INSTITUTO DE HOSPITALIDADE. Norma nacional para meios de hospedagem requisitos para a sustentabilidade. Salvador, 2004, 28 p. LEFF, H. Epistemologia ambiental. 2.ed. Tradução de Sandra Valenzuela. São Paulo: Cortez, 2002, 240 p. MARTORANO, F. Areia de risco. O Eco, Rio de Janeiro, Disponível em: <http://arruda.rits.org.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.navigationservlet?publicationcode= 6&pageCode=67&textCode=15566>. Acesso em: 17 dez MINISTÉRIO DO TURISMO. Disponível em: <http://institucional. turismo.gov.br/mintur/parser/imprensa/noticias/item.cfm?id=acc8c81b-b8c6-b97f- 4C73CB1DC777904>. Acesso em: 14 set ECOTOURISM AUSTRALIA. Nature and ecotourism accreditation program. Third Edition. Brisbane: Ecotourism Australia, 2003, 174 p. ROTEIROS DE CHARME. Disponível em: <http://www.roteirosdecharme.com.br/meioambiente.php>. Acesso em: 14 jan SALVATI, S. S. (org.). Certificação em ecoturismo: lições mundiais e recomendações para o Brasil. Brasília, WWF Brasil, 2001, 80 p. SWARBROOKE, J. Turismo sustentável: conceitos e impacto ambiental, vol. 1. Tradução de Margarete Dias Pulido. São Paulo: Aleph, 2000, 140 p. SYNERGY. Tourism certification: an analysis of Green Globe 21 and other tourism certification programmes. London: WWF-UK, 2000, 68 p

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