CRESCIMENTO ECONÔMICO DA RÚSSIA, MÉXICO E BRASIL 1

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1 CRESCIMENTO ECONÔMICO DA RÚSSIA, MÉXICO E BRASIL 1 SOUZA, Nali de Jesus. Desenvolvimento Econômico. 5 a ed. São Paulo: Atlas, CRESCIMENTO ECONÔMICO DA RÚSSIA A Federação Russa, reunindo 89 regiões, surgiu após a dissolução da União Soviética em dezembro de 1991, a quem sucedeu como potência nuclear e membro do Conselho de Segurança da ONU. Ela possuía 147 milhões de habitantes em 1999; a parte européia concentra 80% da população e a maioria das cidades; seu vasto território de 17,1 milhões de km 2 é composto por imensas planícies inabitáveis na Ásia (Sibéria), mas com imensas reservas de carvão, petróleo e gás natural. Nesse mesmo ano, seu PNB atingiu US$ 332,5 bilhões, constituindo a 16ª economia do mundo. Seu PNB per capita de 1999, igual a US$ 2.227, no entanto, colocava esse país na 98ª posição no contexto mundial. No plano político, o principal problema decorre de resistência da Chechênia ao domínio russo. 2 A civilização russa originou-se no século 9 a.c. com migrações vindas da Ásia e Europa, sobretudo normandos, turcos e gregos. Por sua posição geográfica, essa região não fez parte do império romano, mas recebeu influência diversa. Alemães e poloneses difundiram o catolicismo na região, influenciado a formação da língua russa. No século 12, a região foi invadida pelos mongóis chefiados por Genghis Khan, cuja ocupação durou de 1237 ao fim do século 15. Eles governaram do Báltico ao mar da China, estabelecendo uma administração bem organizada, com cobrança de impostos. No seio da dominação mongol surgiram três centros de poder: Galícia, Novgorod e Moscou, que acabou se impondo política e economicamente sobre os demais centros, por sua posição geográfica (Mirador, 1995, p ). No reino de Pedro I, o Grande ( ), modernizou-se a Moscóvia, a futura Rússia. Para imitar as ações de soberanos ocidentais, ele cercou-se de conselheiros estrangeiros e centralizou a administração; protegeu artesãos, técnicos e construtores; fundou São Petersburgo, para onde transferiu a capital; mandou traduzir livros e copiar os anais conservados nos mosteiros; ordenou a construção do canal ligando Moscou a São Petersburgo. Em 1700, ele declarou guerra à Suécia e invadiu a Livônia, Estônia e o delta do Neva. Ao estabelecer a paz com a Suécia, em 1721, foi reconhecido o direito da Rússia sobre as regiões invadidas. A partir de então estava aberta importante janela para o restante da Europa. Catarina II ( ) conquistou grande prestígio ao corresponder-se com os enciclopedistas franceses e com reis europeus. Ela protegeu os pensadores e as artes. Aproveitou o seu carisma 1 Este texto constitui um anexo ao Capítulo 12 do livro Desenvolvimento Econômico (Souza, 2005). 2 Esse país, de maioria muçulmana, declarou-se independente em 1991, provocando a guerra da Chechênia, com mais de 100 mil mortes. Com a derrota, os chechenos vêm realizando atentados a bomba (300 mortos em 2003); em 2004 uma escola foi invadida, resultando na morte de 646 pessoas, entre elas 227 crianças.

2 para realizar reformas políticas e administrativas. Prosseguiu a expansão externa, absorvendo grande parte da Ucrânia, a Bielorrússia e parte da Polônia; em 1783 anexou a Criméia. Foi a era do absolutismo esclarecido: construíram-se hospitais e orfanatos; foi criada a academia de literatura e lingüística; foi incentivada a educação e a assimilação da cultura ocidental (Mirador, 1995, p ). Alexandre I ( ) expulsou Napoleão e Nicolau II ( ) foi destronado pela Revolução Bolchevique. As idéias e Marx e Engels haviam penetrado na Rússia no final do século 19. Em 1896, 30 mil operários de São Petersburgo entraram em greve e em 1898 surgiu o Partido Social-Democrático dos Trabalhadores Russos. A derrota russa diante dos japoneses, em 1895, favoreceu os revolucionários, que intensificaram a sua ação até A situação econômica era crítica no fim da Primeira Guerra Mundial: inflação alta e escassez de mão-de-obra na indústria e agricultura. A Revolução ocorreu em 1917, surgindo a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), que abrangia as repúblicas da Rússia, Ucrânia, Bielorússia e Transcaucásia (Mirador, 1995, p ) A Revolução Soviética Entre 1900 e 1917, a economia russa se encontrava em uma situação intermediária entre as economias atrasadas e as regiões de alto desenvolvimento industrial. Em alguns setores, a indústria russa era bastante moderna e se caracterizava por alta concentração da produção, propriedade e controle. Havia poucas zonas industriais, destacando-se os distritos de Leningrado e Moscou. Assim, menos de 15% da população vivia nas cidades, e menos de 10% trabalhava na indústria. A maioria das fábricas existentes era importada e financiada com capital estrangeiro. Certo número de trabalhadores, o pessoal administrativo e de nível técnico, bem como os executivos, era estrangeiro. O sistema ferroviário era o mais atrasado da Europa ocidental. O setor externo era muito dependente do o- cidente, principalmente do mercado alemão. Mais de 50% das exportações russas eram constituídas por cereais e produtos alimentícios, principalmente trigo, e 36% correspondiam a matérias-primas e produtos semimanufaturados. Pelo lado das importações, 1/3 era de produtos manufaturados e 50% do total compunham-se de algodão, lã, seda e metais ferrosos (Dobb, 1972, p. 44). A produtividade da agricultura era baixa, o que contribuía para o reduzido nível de vida na Rússia, uma vez que 80% da população vivia desse setor. A proporção de terra cultivada era relativamente pequena, correspondendo a 25% da área total do país. A densidade demográfica era grande se comparada com a dos EUA. Embora as terras russas fossem bastante férteis, o rendimento da agricultura russa era baixo pelo emprego de técnicas agrícolas inadequadas e baixa intensidade de capital. Diante das dificuldades, o produtor rural buscava uma ocupação adicional, assalariando-se ou montando em casa um artesanato. Desse modo, a escassez de alimentos era cada vez maior e não atendia às necessidades da população. Durante o ano de 1917, produziram-se movimentos sociais intensos demandando reforma agrária. Houve muitos casos de destruição e violência. 3 Os soviéticos reconheceram a independência da Finlândia em , mas não cederam a da Ucrânia. A URSS possuía um território de 22,4 milhões de km 2. 2

3 Os trabalhadores do setor industrial, de sua parte, desejavam melhores salários e redução da jornada de trabalho para oito horas. Assim, com o novo governo, o bloco proletário-camponês passou a apoiar o regime comunista. Tendo chegado ao poder, um dos primeiros atos de Lênin foi abolir o direito dos proprietários de terra, sem qualquer compensação. A partir desse momento, todo cidadão passou a ter o direito de trabalhar em uma parcela de terra por tempo indeterminado. A intenção foi repartir a terra, mantendo uma parcela considerável nas mãos do Estado, a fim de criar empresasmodelo estatais. Contudo, a quantidade de terras em mãos dos camponeses passou de 70% para 96% do total da área agriculturável. A produção agrícola ficou sob controle quase completo dos pequenos camponeses (Dobb, 1972, p. 86). O novo regime soviético não previa a transição imediata para uma economia socialista. Desejava-se primeiro consolidar o poder político e evitar a desintegração econômica por uma possível greve de capitais que o governo pretendia dominar. Assim, as primeiras medidas visaram ao controle da indústria, para que ela continuasse se expandindo. Pretendia-se implantar um capitalismo dirigido, controlado por normas de caráter econômico. Durante o Governo Lênin ( ), outras medidas importantes foram a nacionalização das indústrias e dos bancos estrangeiros, assim como o pagamento de reparações de guerra à Alemanha. A oposição, liderada por bolcheviques e czaristas, se uniu, iniciando a resistência militar contra o novo governo, formando os russos brancos. Em socorro aos brancos, desembarcaram no país tropas francesas, inglesas, japonesas e norte-americanas, desencadeando uma guerra civil que perdurou de 1917 a O exército vermelho bolchevique saiu vitorioso, mas arruinou a economia russa. A situação econômica era desesperadora em 1921; em relação a 1913, a produção agrícola havia caído 2/3 e a indústria quase 90%; cerca de 5 milhões de pessoas morreram de fome. As minas de carvão estavam paralisadas e as estradas de ferro destruídas. A circulação interna de mercadorias havia praticamente cessado. A população de Moscou reduziu-se de 2 milhões em 1918, para 1,2 milhão em 1921 (Niveau, 1969, p. 456). Lênin instituiu o capitalismo de estado através da Nova Política Econômica (NEP), envolvendo o planejamento estatal da economia, combinando princípios socialistas com elementos capitalistas. A NEP estimulava a pequena manufatura privada e o livre comércio, cabendo ao Estado cerca de 10% da produção camponesa. O restante dirigia-se livremente ao mercado, estimulando a produtividade e a normalização do abastecimento. Entendia-se que a implantação do regime socialista exigia o fortalecimento prévio da economia com algumas medidas capitalistas. Assim, o governo liberou o comércio interno e autorizou grande número de empresas industriais nacionalizadas a competirem livremente no mercado, mas manteve o monopólio do comércio externo. Entre 1922 e 1924, a produção soviética quadruplicou e a agricultura começou a se recuperar dos efeitos da grande seca e da guerra civil. Lênin morreu em , no momento em que a prosperidade da nova burguesia (rural e urbana) começava a inquietar o governo comunista. Nesse ano, as potências ocidentais reconheceram o governo comunista soviético. Stalin sucedeu a Lênin (1924/1953) e em 1928 foi adotado o primeiro plano qüinqüenal, elaborado pela Gosplan. 4 Intensificou-se a coletivização da economia 4 Comissão Estatal de Planejamento criada em 1921 para garantir o plano de eletrificação. Em 1928, a Gosplan passou a ser responsável pela elaboração e execução do planejamento centralizado soviético. 3

4 soviética: em 1926, 20% da produção industrial provinha do setor privado, quantia que se reduziu para 5,6% em 1930 e para 0,5% em 1932, quando se proibiu o comércio privado (Niveau, 1969, p. 465). 1.2 Planos qüinqüenais soviéticos Stalin centralizou o poder e eliminou a oposição; através do planejamento, ele deu prioridade à indústria pesada. O primeiro plano (1928/1932) concentrou seus esforços na supressão da propriedade individual e no aumento da produção. A produção agrícola e o comércio diminuíram, assim como os salários reais. Os objetivos do plano não foram alcançados. O segundo plano (1933/1937) caracterizou-se por uma planificação mais homogênea dos vários setores da economia, mas manteve a prioridade da produção de bens de capital. Desta vez, maior demanda de matérias-primas aumentou a produção agrícola, o emprego e a renda. O terceiro plano (1938/1942) foi perturbado pela Segunda Guerra Mundial. A produção industrial de armamentos superou a produção de bens para o atendimento da população. No quarto plano (1946/1950) procurou-se recuperar a economia. A partir de 1947 observou-se grande melhoria na agricultura e a produção do conjunto da indústria elevou-se para 90% do nível de antes da guerra, sendo ultrapassado em Os soviéticos recusaram a ajuda do Plano Marshall, iniciando-se a Guerra Fria, com a concentração dos investimentos na indústria pesada, armamentos e energia nuclear (Niveau, 1969, p. 471). O quinto plano qüinqüenal (1951/1955) tinha como principais traços um ritmo de incremento da produção industrial de 72% e a diminuição das desigualdades entre as taxas de crescimento dos principais departamentos da indústria, produtora de bens de capital e de consumo. Durante os primeiros anos da década de 1950, a situação da agricultura havia piorado bastante. Esse foi um dos motivos que levaram o plano a centrar-se na agricultura. O sexto plano (1956/1960) não se diferenciou muito do anterior. O crescimento total da produção industrial foi estabelecido em 65%. Em geral, os objetivos foram alcançados, mas a produção de bens de consumo ficou abaixo da média geral. Esse plano foi substituído no final de 1958 por um novo plano de sete anos, para o período de 1959/1965. O crescimento anual projetado para a indústria foi de 8,6%. A renda nacional deveria aumentar durante o período entre 62 e 65% (Dobb, 1972, p. 315). 5 Após a morte de Stálin, em 1953, assumiu o poder Nikita Kruschev, que governou até 1964, quando foi destituído por membros da burocracia stalinista. Kruschev buscou certa abertura da economia, ao defender maior intercâmbio político-econômico com o bloco ocidental. Assim, condenou o centralismo administrativo, a burocracia e a repressão stalinista. Defendeu a dinamização socialista e o estímulo à produção de bens de consumo, buscado elevar o padrão de vida da população. No plano externo, ele buscou uma aproximação com os EUA, sendo o primeiro dirigente soviético a visitar esse país, em Esse fato levou a China a romper relações com a União Soviética, em Essa aproximação, no entanto, foi interrompida quando os soviéticos passaram a tutelar Cuba. 5 Em 1955, a produção industrial soviética equivalia a 23% da produção industrial americana, contra 14% em Observa-se que o crescimento econômico foi bastante intenso, graças ao planejamento estatal (Niveau, 1969, p. 481). 4

5 Com a destituição de Kruschev, em 1964, assumiu Leonid Brejnev, que retomou o centralismo administrativo, contrariando a abertura política promovida pelo governo anterior. Renasceram as disputas com os países capitalistas, motivando a corrida armamentista. Nesse período, consolidou-se o crescente atraso tecnológico e econômico soviético frente às economias capitalistas mais desenvolvidas. Nesses 18 anos de poder, Brejnev sufocou qualquer abertura com o Ocidente, embora o Presidente Richard Nixon (1968/1974) houvesse tentado uma aproximação. Com a invasão soviética do Afeganistão em 1979, as conversações acerca da limitação das armas nucleares foram mais uma vez interrompidas. Para os soviéticos essa limitação era fundamental, porque não suportavam mais os crescentes gastos militares. A economia de guerra drenava capitais e mão-de-obra mais qualificada, o que prejudicava o desenvolvimento dos demais setores econômicos. Além disso, a partir dos anos de 1970 passou a influir negativamente na economia e na opinião pública soviética a questão agrícola. Na década de 1980, a agricultura absorveu mais de um quarto dos investimentos totais do país, ao mesmo tempo em que apresentava produtividade muito baixa. 1.3 O Governo Gorbatchev e a desintegração da URSS Brejnev faleceu em 1982 e Mikhail Gorbatchev assumiu o governo da União Soviética em Suas principais realizações foram a glasnost e a perestroika. A glasnost foi a uma política de abertura política, econômica e cultural, com transparência das questões soviéticas, visando ao combate da corrupção e da ineficiência na administração. A perestroika foi o plano de reestruturação do sistema político e econômico da União Soviética. Assim, Gorbatchev retirou os excessivos controles da economia, fruto do rígido planejamento estatal, e simplificou a estrutura administrativa do país. 6 Em 1989, houve a primeira eleição livre para o Congresso; em 1990, reorganizou-se os partidos políticos, pondo fim ao partido único. Em 1991 foi aprovado um programa para a volta da economia de mercado, com a liberalização dos preços, privatização de empresas e estímulo ao comércio exterior. Em 1991, Gorbatchev sufocou um golpe de Estado, com o apoio da população. A tentativa de golpe de Estado abriu as portas para o movimento de independência das repúblicas que compunham a União Soviética, dando início à desintegração. Surgiu a Comunidade de Estados Independentes, composta pela Rússia, Ucrânia a Bielorússia. Em 1992, a União Soviética foi extinta; Gorbatchev renunciou e transferiu ao presidente da Rússia, Bóris Yeltsin o comando do arsenal nuclear. Em termos econômicos, a Rússia é a parte mais importante da ex-união Soviética; em 1990, ela mantinha cerca de 62% do potencial produtivo do antigo bloco. A partir das privatizações, as mudanças tornaram-se visíveis em todos os setores econômicos. No início, houve queda da produção industrial, mas a economia conseguiu recuperar-se rapidamente. O seu grande trunfo é a grande riqueza de recursos minerais de praticamente todos os tipos, que atendem às necessidades internas e permitem a exportação. Petróleo, gás e carvão constituem 71% das reservas totais dos recursos minerais, seguindo-se os metais ferrosos, não ferrosos e metais raros com 13%. Com a retomada do crescimento industrial e o ressurgimento da economia de mercado, a renda da população mais do que 6 Ver o Capítulo 4, seção 4.3 (Conclusão). 5

6 duplicou, estimulando a expansão dos investimentos. Os indicadores econômicos mostram, em 2002, que a economia ultrapassou os níveis anteriores à crise de 1998 e a Rússia voltou a amortizar normalmente as suas dívidas (http://users.linkexpress.com.br/embrus/economic.htm). O aumento dos preços internacionais do petróleo aumentou o volume de divisas para a Rússia, permitindo-lhe o pagamento da dívida externa, sem necessidade de reestruturação e de recorrer a novos empréstimos externos. Esse país é o segundo maior exportador de petróleo, depois da Arábia Saudita. A recuperação econômica e a transformação política valeram à Rússia a entrada no G-8. 7 Internamente, a maior parte do orçamento para 2003 foi reservada para investimentos na educação, seguindo-se investimentos nas áreas de segurança, saúde, transportes e infra-estruturas. Os aportes financeiros do governo para a maioria dos setores econômicos estão sendo reduzidos gradualmente, ficando estes sujeitos aos mecanismos do mercado (energia, indústria, agricultura, construção civil, auto-estradas, comunicações e informática). Em 2002, o PIB russo cresceu 4% e foram colhidas 85 milhões de toneladas de grãos; as reservas externas aumentaram 30%, chegando a US$ 47,7 bilhões, e a dívida externa reduziu-se para US$ 120 bilhões, ou 40% do PIB. A taxa de desemprego é de 7,5%, o que representa 5,4 milhões de desempregados. 8 Em 2003, o PIB russo cresceu 4,5%, devendo aumentar para 6% entre 2005/2006 se os preços internacionais do petróleo estiverem acima de US$ 21,5 por barril e se for crescente o afluxo de capitais estrangeiros (US$ 12,9 bilhões em 2002) 9. Assim, a expectativa é a de que o PIB russo duplique até 2010 (http://consrio.narod.ru/br/artigos/ economika/17/htm. 2 - CRESCIMENTO ECONÔMICO DO MÉXICO A economia mexicana, com um PNB de US$ 429 (1999), é a segunda maior da América Latina, depois do Brasil. O México possui um território de 1958 km 2 e uma população de 97 milhões de habitantes (1999). A proximidade com os EUA torna esse país seu principal parceiro comercial. O comércio externo passou a comandar o crescimento econômico do país depois que ele passou a formar o NAFTA, 10 juntamente com os EUA e o Canadá. Antes da chegada dos espanhóis, a região onde hoje fica o México era ocupada pelos maias, toltecas e astecas, civilizações muito antigas. Os maias eram uma civilização agrícola que remonta ao século 15 a.c.; eles ergueram pirâmides e criaram um calendário. A atual cidade do México foi fundada em 1325 pelos astecas, consolidando um poderoso império. Entre 1519 e 1521 a civilização asteca, no reinado de Montezuma II, foi destruída por Hermán Cortés. Em 1526, os maias foram dominados e o México passou a integrar o Vice-Reino da Nova Espanha. A extração e a exportação de prata formavam a base econômica da colônia. A corrupção e o autoritarismo da Metrópole levaram à 7 Grupo dos países mais desenvolvidos do mundo: EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Japão, Itália e Canadá, que inclui agora a Rússia, principalmente por seu poder bélico. 8 Em outubro de 2002, a população russa era de 145,1 milhões de pessoas. 9 Em setembro de 2004, o preço do petróleo ultrapassou US$ 50 por barril. 10 NAFTA é a sigla de North American Free Trade Agreement. 6

7 Independência Mexicana em 1821, com Agustín de Iturbide aclamando-se imperador. A República Mexicana foi proclamada em Entre 1836, o México sofreu a independência do Texas, que foi anexado pelos EUA em Isso provocou guerra entre os dois países (1846/1848). Com a derrota, o México perdeu os territórios da Alta Califórnia, Novo México, Utah, Nevada, Arizona e oeste do Colorado. A promulgação de uma constituição liberal em 1857 lançou o país em uma guerra civil (1858/1861), vencida pelos liberais, em detrimento dos conservadores. O presidente Benito Juárez recusou pagar a dívida externa e o país foi invadido pela Inglaterra, Espanha e França. Os franceses, ao invadirem a capital, coroaram o austríaco Maximiliano de Habsburgo imperador do México. A monarquia, no entanto, foi derrubada em Depois de alguns anos, emergiu a ditadura de Porfírio Díaz. A economia conheceu alguma estabilidade entre 1878 e 1910, quando cresceram as exportações agrícolas e minerais. Havia terras férteis em abundância, assim como mão-de-obra e recursos minerais subutilizados. Os mercados mundiais estavam em expansão. O que limitava a produção interna era a escassez de divisas para a importação de bens de capital. Isso foi contornado, em parte, pelo aumento da inversão estrangeira no período e pelo aporte de capacidade empresarial. O setor agrícola de exportação cresceu acima de 5%. A taxa de crescimento do PIB passou de 0,5% entre 1877/1900 para 2,2% entre 1900/1910 (Reynolds, 1973, p. 41). 2.1 A Revolução Mexicana Em 1910, o candidato à sucessão de Porfirio Díaz, Francisco Madero, foi derrotado por fraude nas eleições presidenciais. A reação em apoio a Madero deu origem à Revolução Mexicana. Rebeldes e camponeses chefiados por Pascual Orozco, Pancho Villa e Emiliano Zapata venceram as forças federais e colocaram Madero no poder. Porém, os revolucionários que exigiam reforma agrária depuseram Madero em 1913, quando se instaurou uma ditadura. Seguiu-se uma sucessão de conflitos, culminando com as eleições presidenciais de Os setores mineiros e petroleiros, protegidos por exércitos privados, ficaram isolados dos conflitos armados. Entre 1901 e 1920, eles cresceram a uma taxa média anual de 5,6%, contra 2,5% para o PIB, 1,7% para a indústria e apenas 0,1% para o setor agrícola (Reynolds, 1973, p. 45). A indústria e a agricultura, dependentes do mercado nacional, ficaram prejudicados pela turbulência interna. Nesse período revolucionário, desorganizouse a economia mexicana. A moeda foi muito desvalorizada e o sistema bancário praticamente desapareceu. As ferrovias ficaram destruídas e o sistema de comunicações tornou-se muito precário. O México somente voltou à normalidade em 1920, mas ainda não havia clima para investimentos. O governo procurou no exterior novos mercados e novas fontes de financiamento, o que estimulou a economia nos anos seguintes. No entanto, a recuperação econômica foi prejudicada seriamente com a depressão mundial de 1929, que derrubou o nível de renda e de emprego. O período de 1925 a 1934 foi de transição e de consolidação de uma economia mista, tendo de um lado a iniciativa privada e, de outro, forte controle governamental. O Banco do México tornou-se o órgão financeiro central e único banco de emissão. O governo criou um banco agrícola para financiar a agropecuária 7

8 com juros mais baixos. Foram instituídos bancos de fomento para financiar obras públicas de alto custo e menor rentabilidade. O Estado tornou-se responsável pelo controle dos recursos naturais não renováveis. Nos anos de 1930, a economia iniciou uma recuperação gradual da Grande Depressão, sob a liderança da indústria petrolífera e da agricultura comercial. Isso foi o resultado de diversas reformas estruturais, como nacionalização e melhoria das ferrovias, intensificação da reforma agrária e nacionalização da indústria petrolífera (extração, refino, comercialização e petroquímica). Nesse período, a indústria cresceu 4,3% ao ano, a agricultura 2,7% e a produção mineira e petrolífera 1,9%. Em 1940, o PIB atingiu o nível de 1925 (Reynolds, 1973, p. 51). Na década de 1940, com a Segunda Guerra Mundial, o México foi obrigado a buscar a autosuficiência em vários setores, o que acelerou a industrialização. Ao terminar a Guerra, o país continuou voluntariamente o processo de substituição de importações, com fortes financiamentos governamentais. A iniciativa privada, amparada pelo governo, assumiu a liderança do desenvolvimento. Nos anos de 1940 o PIB cresceu a uma taxa média anual de 6,7%, contra 2,8% para o crescimento populacional, com a renda per capita crescendo 3,9%. A taxa de crescimento anual da produção foi de 8,1% para indústria, 5,8% para agricultura e 2,5% para os setores de extrativa mineral e petrolífero (Reynolds, 1973, p. 55). Esse crescimento foi impulsionado pelas exportações, devido ao aumento da demanda mundial. Os efeitos multiplicadores das exportações se repercutiram no setor de mercado interno. Ao mesmo tempo, o Governo restringia importações de bens de consumo e incentivava as importações de bens de capital, que eram pagas com as divisas acumuladas durante a Guerra. 2.2 O crescimento econômico mexicano entre 1950/1970 O aparato protecionista criado em 1947 tinha como finalidade economizar divisas. Na década de 1950, o esquema avançou para vários produtos. Com o tempo, isto levou a uma política explícita de industrialização baseada na substituição de importações. Para que a política tivesse êxito, o governo estabeleceu subsídios e implantou infra-estruturas. Até a metade dos anos 1950, o câmbio valorizado impedia o funcionamento eficaz da substituição de importações. Mais tarde, a moeda desvalorizou-se e a redução de importações fortaleceu as indústrias nacionais. Medidas fiscais eliminaram as expectativas inflacionárias e o aumento da inversão privada elevou o crescimento econômico. Nos anos de 1950, o PIB cresceu 6,1% e a renda per capita 3%. Já na década de 1960 essas taxas subiram, respectivamente, para 7,1% e 4,1%. As forças de crescimento da economia mexicana continuavam apresentando um caráter endógeno, tanto do lado da oferta como do lado da demanda. A produção aumentou mais para o mercado interno do que para a exportação, em função do dinamismo de crescimento da renda interna. No início dos anos 1960, estudos apontavam a necessidade de se abrir a economia. No entanto, o crescimento continuava fundamentado no mercado interno; resultou aumento do déficit público e da dívida externa. A economia procurou aprofundar a substituição de insumos e bens de capital (produtos químicos, derivados de petróleo, borracha e plástico). Na década de 1960, a economia continuou mantendo alta taxa de crescimento do emprego e da renda, com baixa inflação. A produção manufatureira liderou o crescimento econômico, com uma taxa mé- 8

9 dia anual de 7,3% nos anos 1950 e de 8,1% nos anos 1960 (Reynolds, 1973, p. 60). 2.3 O período do desenvolvimento compartilhado (1970/1980) Na década de 1970 houve a última tentativa de revitalização do Estado populista; o aumento dos gastos públicos e dos preços do petróleo elevou a taxa de crescimento da economia mexicana, entre 1971/1981, para 6,7% ao ano, em média. O setor agropecuário continuou perdendo importância na produção nacional. As importações aumentaram para 9,7% do PIB, enquanto as exportações atingiram 7,7%. A balança comercial deteriorou-se e a inflação aumentou, levando à abertura econômica dos estados fronteiriços para o comércio e inversão estrangeira; isso representou uma ruptura do México com o modelo de substituição de importações. A nova liberalização significou a adoção do programa das indústrias maquiladoras, que desde a década de 1960 haviam estimulado o desenvolvimento da manufatura para exportação. Contudo, a economia não era competitiva, pois o câmbio havia se valorizado 50% entre 1970/1975. O financiamento do gasto do governo elevou a dívida pública. Em meados dos anos 1970 a deterioração do crescimento econômico e as deficiências estruturais, tanto do setor industrial quanto do agrícola, se vinculavam à crise financeira e à deterioração do balanço de pagamentos. O déficit fiscal, a sobrevalorização do peso, a inflação e a fuga de capitais pelas importações deram início a uma prolongada crise. O descobrimento de petróleo na baía de Campeche alimentou as falsas esperanças do populismo (http:/mx.geocities.com/gunnm_dream/ desarrollo_ compartido.html). 2.4 As crises do período 1980/1995 A desvalorização do dólar norte-americano afetou a economia mundial a partir de Mais tarde, os problemas monetários decorrentes e a desregulamentação financeira em todo o mundo multiplicaram os movimentos de capitais. A crise mexicana do período 1980/1995 começou com a desvalorização de 1976, no contexto mundial de reestruturação do sistema monetário com a passagem de taxas de câmbio fixas para flutuantes. Em 1982, a crise foi provocada pela queda dos preços do petróleo e pela explosão da crise da dívida externa que envolveu 40 países. A moratória mexicana de agosto de 1982 desencadeou a crise da dívida na América Latina, gerando queda contínua do PIB na década perdida, principalmente no Brasil. Em 1987, as bolsas de valores de todo o mundo tiveram uma queda de 30 a 40%; e, em 1994, houve novas desvalorizações desencadeadas pelo efeito tequila. A crise iniciada em 1982 gerou recessão entre 1982/1987 (-0,5%), com crescimento moderado de 3,1% em 1989/1994 (contra 8,6% entre 1970/1981). A relação dívida externa/pib subiu de quase 36% em 1977, para 62% em 1983 e 78% em 1987 (75% em 1994). A origem da crise da dívida nos anos de 1980 resultou do aumento desproporcional dos juros pela concentração da dívida com vencimentos de curto prazo e com taxas variáveis. O investimento/pib, estável nos anos de 1970 em 18,5%, chegou a 26,4% em 1981, para declinar para 5,5% em 1983 (www.azc.vam.mx/publicaciones /etp/num9/a4.htm). 9

10 2.5 O período pós-1995 O Tratado do NAFTA foi assinado em 1993, gerando impactos mais significativos sobre o comércio externo a partir de Com o NAFTA e as reformas econômicas de 1995, aumentaram os investimentos externos diretos. A economia mexicana atingiu um crescimento de 6% (1996/1997) e de 6,9% em 2000, com inflação em baixa (52% em 1995, para 19% em 1998). Os fatores do crescimento econômico foram as exportações manufaturadas e a reativação do consumo privado interno. As exportações subiram de US$ 21,9 bilhões em 1986 para US$ 95,6 bilhões em 1996 e para US$ 160 bilhões em As importações, por seu turno, cresceram de US$ 88,8 em 1996 para US$ 168,1 em Houve uma quebra estrutural na corrente de comércio do México após a implantação do NAFTA (Banco Central do México). A renda real per capita mexicana cresceu 4,1% entre 1996/2000, após ter caído 8,3% em 1995 (Moraes, 2001, p. 57). O que diferencia o México das demais economias latino-americanas são suas exportações aos EUA, o que lhe permitiu recuperar seu dinamismo em poucos anos após a crise. 11 Apesar da excessiva volatilidade dos mercados financeiros internacionais, as taxas de juros nominais e reais têm-se reduzido consideravelmente e a taxa de câmbio tem apresentado relativa estabilidade. O fortalecimento da economia mexicana e sua menor vulnerabilidade a choques externos permitiram retomar a confiança da comunidade financeira internacional (www.feneri.org.br/eneri2003 /refposter002.pdf). Ao longo de 2001, a economia mexicana esteve influenciada por um cenário internacional adverso. Em particular, a desaceleração da atividade econômica dos EUA foi muito maior do que a antecipada no início do ano. Todos os setores orientados para exportação sofreram grandes contrações na produção. Em conseqüência, o ritmo de crescimento da economia mexicana diminuiu drasticamente em 2001 (o PIB caiu 1,6% e a produção industrial 4,7%). A política monetária restritiva abateu o crescimento dos preços. A inflação foi de 4,4%, inferior à taxa de 6,5% projetada pelo Banco do México. O menor dinamismo da economia mundial inibiu as exportações mexicanas (-4,8%), resultando um déficit comercial 21,6% superior ao do ano anterior. Em 2002 a economia mexicana mostrou sinais de recuperação, com aumento das exportações, redução do déficit comercial e criação de empregos, com inflação sob controle (www.mexico.org.br/economia/economex2001_ es.pdf). A proximidade geográfica com os EUA permitiu que o NAFTA exercesse considerável efeito sobre a economia mexicana, cujo PIB cresceu de US$ 332,4 bilhões em 1996, para US$ 574,5 bilhões em 2000 (ele havia caído de US$ 420,8 em 1994 para US$ 286,1 em 1995) (Moraes, 2001, p. 58). Sem dúvida, a ajuda americana na crise de 1994 e a presença do NAFTA foram cruciais para a retomada do desenvolvimento do México. Inúmeras empresas americanas, japonesas e coreanas instalaram filiais no México para aproveitar a mão-de-obra mais barata, a fim de montar componentes importados dos EUA. Mais recentemente, no entanto, a concorrência da China está provocando a saída de empresas maquiladoras japonesas e coreanas. Entre janeiro de 2001 e junho de 2002, o Mé- 11 A composição das exportações mexicanas mostra sua total dependência aos EUA: 90% do total exportado destinam-se a esse país. Assim, toda recessão ocorrida nos EUA exerce um impacto direto na economia mexicana, principalmente na indústria e construção civil. 10

11 xico teria perdeu 600 de suas montadoras e 250 mil empregos, o equivalente a 15% da força de trabalho das maquiladoras. Salários mais altos no México e insumos industriais mais baratos e eletricidade gratuita na China não seriam os únicos fatores: seria preciso assinalar também a falta de segurança no México, com vários seqüestros de executivos estrangeiros e roubos de cargas que viraram rotina (Revista Sem Fronteiras, edição de 2002, 3 - CRESCIMENTO ECONÔMICO DO BRASIL O Brasil passou a ter crescimento econômico mais efetivo com o surgimento do café como base exportadora mais dinâmica; a introdução do trabalho assalariado nessa cultura e a promoção de imigração alemã e italiana no fim do século 19 também foi um fator importante para gerar mercado interno e torná-lo receptivo aos efeitos de encadeamento provenientes das exportações. Assim, o primeiro surto industrial no Brasil ocorreu nos anos de 1890, em virtude da expansão do crédito à agricultura, da criação de bancos de emissão de moeda e do aumento das tarifas sobre as importações, cobradas em ouro. A expansão dos meios de pagamentos e o encarecimento das importações criaram um clima de euforia, com o surgimento de novas empresas, provocando a Crise do Encilhamento, em 1891, com inflação e déficits no balanço de pagamentos. No início do século 20, o governo adotou um programa de estabilização que saneou a economia. Após, iniciou-se um programa de melhoria de portos e de construção de ferrovias visando à exportação. Através da política cambial o governo mantinha a renda do setor cafeeiro, para estimular a produção de café. Porém, ao vender moeda estrangeira no mercado, para favorecer os exportadores, o governo retirava dinheiro de circulação, provocando recessão. O encarecimento das importações e a escassez de divisas restringiam as importações (Vilela e Suzigan, 1973, p. 42). 3.1 Choques externos e o protecionismo, 1929/1945 O grande crescimento das exportações de café nos anos de 1920 proporcionou a importação de bens de capital para a indústria. O índice de quantum dessas importações subiu de 108 em 1920 para 209 em 1925; em 1929 ele caiu para 185. A queda da bolsa de Nova Iorque nesse ano derrubou os preços do café e esse índice atingiu 29 em 1932, ano em que a economia brasileira recuperou o nível de 1929; o referido índice chegou a 100 em 1939 e a 176 em As aquisições de café pelo governo, para ser queimado, ajudaram a manter o nível de renda. Entre 1920/1938, a economia brasileira duplicou de tamanho e entre 1940/1945 a indústria brasileira cresceu 36% e o conjunto da economia 20,7% (Villela e Suzigan, 1973, p. 431 e 437). A interrupção das importações pela Segunda Guerra Mundial reduziu a capacidade ociosa da indústria, gerando novo surto industrial; acumularam-se reservas para importações posteriores, o que favoreceu a acumulação de capital. Entre 1947 e 1951, a indústria cresceu 46%, aumentando a sua participação no produto, que passou de 21% para 25%. Em 1920, havia apenas 300 mil trabalhadores 11

12 na indústria, com a têxtil gerando 28,6% do produto industrial total. Em 1940, as indústrias mais importantes eram as de produtos alimentares (22,9% do total), têxtil (22,7%) e a química/farmacêutica. Em 1950, a metalurgia produzia 7,4% do total da indústria e a mecânica 2,2% (Baer, 1975, p. 13 e 60). A Revolução de 1930, com a tomada do poder por Getúlio Vargas, foi muito importante para a industrialização brasileira, pois correspondeu à emancipação política da classe industrial, contra a hegemonia agrário-exportadora, enfraquecida pela crise de Criou-se uma legislação trabalhista moderna (salário mínimo, oito horas de trabalho, férias anuais remuneradas, direito de sindicalização). O objetivo foi disciplinar os salários e assegurar a oferta de trabalho para a indústria, estimulando, assim, as emigrações do campo para as cidades, no momento em que havia praticamente cessado as emigrações internacionais. O Relatório Niemeyer de 1931, encomendado pelo governo, apontou a monocultura de exportação como o principal problema da economia brasileira; ele sugeriu que o país diversificasse a agricultura de exportação, para financiar importações de bens de capital. 12 Os economistas do governo reconheciam que o país era muito dependente das importações de bens de consumo e vulnerável às oscilações das exportações de café. Desse modo, o país precisava substituir importações por produção interna, através do estabelecimento de um sistema de proteção tarifária e de licenciamento de importações, o que foi implantado em Essas substituições vinham-se realizando desde 1930, o que explica o crescimento de 17% para a indústria entre 1935 e Contudo, a industrialização necessitava da expansão do mercado interno. Nesse sentido, em 1937 foram eliminadas as tarifas de exportação e importação entre os Estados, representando um passo importante na integração espacial da economia nacional. Outro importante diagnóstico sobre a economia brasileira foi o da Missão Cooke (1942/1943), formada por técnicos dos EUA. O seu relatório apontou a deficiência dos transportes e da distribuição de combustíveis, o baixo nível dos investimentos industriais, a falta de treinamento técnico e as restrições ao capital estrangeiro. Ela recomendou a implantação da siderurgia e de indústrias de madeira e papel (Baer, 1975, p. 27). Inspirado nesse relatório, Roberto Simonsen idealizou, em 1945, o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) e a Companhia Siderúrgica Nacional, que começou a funcionar em Volta Redonda em O principal efeito da Missão Cooke foi o Plano Salte (saúde, alimentação, transportes e energia), que só funcionou em 1950, por problemas de financiamento. Outros diagnósticos parciais sobre a economia brasileira foram os da Missão Abbink em 1948 e da Comissão Mista Brasil-EUA entre 1951 e A equipe brasileira dessa comissão foi a mesma que estruturou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e que elaborou o Plano de Metas (1956/1961) do governo Kubitschek. 3.2 Crescimento do Brasil entre 1945/1962 Entre 1947 e 1953, o governo adotou um sistema de licenciamento de importações, em virtude 12 A política do New Deal dos EUA exerceu grande influência no Brasil, interrompendo a política livre cambista vigente até

13 da escassez de divisas. As importações de remédios, inseticidas e fertilizantes eram livres, enquanto eram prioritárias as importações de combustíveis, alimentos básicos, cimento, papel, equipamento tipográfico e máquinas. O repatriamento de capitais ficava limitado a 20% de seu montante e os juros a 8% do capital registrado. A partir de 1953 e até 1957, passou a vigorar o sistema de taxas múltiplas de câmbio. As importações foram classificadas em cinco categorias, de acordo com a sua importância havia uma taxa de câmbio específica. As exportações e as importações essenciais, como petróleo e seus derivados, não participavam dos leilões de câmbio e se realizavam à taxa oficial, com um pequeno ágio. O sistema proporcionou rápida substituição de importações, porque encarecia o preço dos produtos concorrentes, sem elevar o custo de matérias-primas e bens de capital importados (Baer, 1975, p. 43 e 46). A indústria cresceu 8,3% nesse período, chegando a 16,2% em 1958 e a 11,9% em 1959, durante o Plano de Metas (Langoni, 1976, p. 24). Este plano abrangia cinco setores, com um total de 30 metas: a) energia (43,4% dos recursos planejados); b) transportes (29,6%); c) alimentação (3,2%): d) indústrias de base (20,4%); e) educação (3,4%). A nova capital (Brasília), a meta-síntese, foi construída em um tempo recorde e consumiu cerca de 2,3% do PNB (Lafer, 1975, p. 48). Seguindo as idéias de Hirschman (1974) e de Perroux (1977), procurou-se maximizar os efeitos de encadeamento dos investimentos, concentrando-os em setores-chave, ou pontos de germinação (como siderurgia, metais não ferrosos e a indústria automobilística). Da mesma forma, as novas indústrias foram concentradas na Região Sudeste, onde havia uma infra-estrutura inicial, fornecendo economias externas para as novas atividades. Outra idéia foi a de ponto de estrangulamento, devido à existência de demanda insatisfeita por rigidez de oferta. Isso explica as metas relativas aos transportes rodoviários, reaparelhamento das ferrovias e energia elétrica. Como resultado, a economia brasileira cresceu 6,2% ao ano entre 1951/1956 e 7,8% entre 1957/1962. Neste período, houve intensa substituição de importações, com substancial afluxo de capitais externos. 13 Aumentou substancialmente a produção de aço (1,4 milhão de t, para 2,7 milhões), energia elétrica (2,8 milhões de kw, para 5,8 milhões) e de automóveis (31 mil montados para 200 mil fabricados). O Brasil tornou-se auto-suficiente na produção de cimento e as rodovias pavimentadas triplicaram em extensão (Baer, 1975, p. 57). A Lei de Tarifas de 1957 mudou o caráter do sistema cambial brasileiro, cujo objetivo deixou de ser simples instrumento de ajuste do balanço de pagamentos para tornar-se elemento ativo da industrialização do país. Embora essa lei aumentasse as tarifas em 60, 80 a 150%, determinadas indústrias podiam importar equipamentos e matérias-primas ao câmbio de custo. Essa lei complementava a Instrução 113 da SUMOC, 14 de 1955, que permitia a 13 Nem sempre as novas fábricas implantadas nesse período substituíam importações, como a construção naval, com importações insignificantes. Durante o Plano de Metas, a industrialização brasileira seguiu também a estratégia do crescimento desequilibrado de Hirschman. 14 Superintendência da Moeda e do Crédito, transformada em 1965 no Banco Central do Brasil. A Instrução nº 113 da SUMOC, que favoreceu o ingresso do capital estrangeiro no Brasil, e a política cambial de 1957, completaram-se com a lei dos similares nacionais, outro importante instrumento para a industrialização brasileira do final dos anos de Essa lei foi importante para que os investidores estrangeiros passassem da importação para a montagem e desta para a fabricação completa. As firmas multinacionais aderiam ao novo sistema, não apenas para obterem os incentivos, mas, sobretudo, para não ficarem de fora do mercado (Gordon e Grommers, apud Baer, 1975, p. 51). 13

14 importação de bens de capital sem cobertura cambial (Baer, 1975, p. 49). 3.3 Estabilização e crescimento entre 1962 e 1974 Como resultado da nova política industrial, o crescimento da indústria aumentou para 10,3% entre 1957 e O crescimento econômico reduziu-se no início da década de 1960 pelo aumento da inflação e da instabilidade política do país, que diminuiu o afluxo de capital estrangeiro. A política econômica ficou vacilante diante da demanda dos trabalhadores por maiores salários e dos empresários por facilidades creditícias. A instabilidade econômica e a agitação política levaram ao golpe militar de O novo regime estabeleceu um Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG), com o objetivo de conter a inflação, mediante a redução do déficit público, dos salários e do crédito. Os subsídios às importações de petróleo e do trigo foram eliminados; iniciou-se um processo de correção dos preços públicos defasados, denominado de inflação corretiva. Modernizou-se o sistema financeiro, com a criação do Banco Central e do Banco Nacional de Habitação. Incentivaram-se as exportações, com a eliminação dos impostos, concessão de crédito e desburocratização. Para atrair o capital estrangeiro, procurou-se criar um clima de confiança e de credibilidade na condução da política econômica. Os investimentos estrangeiros, que se reduziram para US$ 86 milhões em 1964, depois de ter alcançado uma média anual de US$ 123,1 milhões entre 1956 e 1962, voltou a subir em 1965, atingindo US$ 322 em 1969 e US$ 1,45 bilhão em Com a queda da inflação de 91,9% ao ano, em 1964, para 25% em 1967, o aumento do afluxo de capitais estrangeiros, as reformas realizadas e o aproveitamento da capacidade ociosa, a taxa de crescimento do produto elevou-se para 9%, entre 1968/1970, e para 11%, entre 1971/1973 (Langoni, 1976, p. 24). Um dos fatores do crescimento industrial desse período foi o aumento da capacidade de importar, explicado por maior afluxo de capitais externos e pela adoção de uma política cambial mais flexível, com minidesvalorizações periódicas, a partir de As exportações passaram de US$ 1,4 bilhão em 1964, para US$ 2,3 bilhões em 1971 e US$ 8 bilhões em Nesse período, as exportações de produtos manufaturados desempenharam um papel relevante, ao viabilizarem novas importações de bens de capital e ao exercerem impactos importantes no setor de mercado interno. A composição das exportações mudou substancialmente: os produtos primários caíram de 81% das exportações totais em 1951, para 68% em Os produtos industrializados subiram de 18% das exportações totais em 1961, para 30% em 1973 (Langoni, 1976, p. 61). 3.4 Crescimento econômico após 1974 O aumento do déficit da balança comercial de US$ 241 milhões em 1972, para US$ 4,7 bilhões em 1974, levou o Brasil a adotar uma solução definitiva para a crise do petróleo, por meio da substituição de importações de insumos básicos, como produtos petroquímicos, celulose, metais não ferrosos etc., com a utilização de fontes externas de financiamento (Castro e Souza, 1985, p. 34). Desse modo, o II Plano Nacional de Desenvolvimento, 1975/1979 (II PND) buscou substituir importações e 14

15 abrir novas possibilidades de exportação, principalmente de manufaturados. Os ganhos de divisas com a substituição de importações montaram a US$ 2,7 bilhões em 1981 e a US$ 7,4 bilhões em Essas substituições ajudaram a gerar superávites no balanço de pagamentos nos anos de 1980, que chegaram a US$ 13 bilhões em 1984 (Castro e Souza, 1985, p. 14 e 58). Entre 1974 e 1980, o Brasil manteve a taxa histórica de crescimento da economia de 7% ao ano, apesar do crescimento negativo do produto em 1981 (-1,6%) e em 1983 (-3,2%). Nesse mesmo período, a indústria de bens de capital expandiu-se mais do que a média da economia (8,5% ao ano). A estrutura produtiva nacional modificou-se substancialmente; entre 1971 e 1983, reduziram-se em relação ao total as importações de bens de consumo (11% para 5,2%) e de bens de capital (38,2% para 16,2%). Cresceram as importações de combustíveis, apesar da substituição (11,6% para 55,8%). Desse modo, a dívida externa total de longo prazo expandiu-se de US$ 5,1 bilhões em 1970 (12% do PNB), para US$ 102,7 bilhões em 1988 (30% do PNB). Em função do modelo, a taxa de crescimento anual das exportações reduziu-se de 22,1% entre 1970/1980, para 4,5% entre 1980/1990, aumentando para 8,2% entre 1990/ Ajuste externo, 1983/1993 O superávit comercial de 1970 foi substituído por sucessivos déficits em decorrência dos choques dos preços do petróleo de 1973 e Até 1980, as exportações não conseguiram acompanhar o ritmo das importações, apesar de crescerem rapidamente (25,9% entre 1970/1975 e 18,4% entre 1975/1980). Após 1974, desacelerou-se o crescimento das importações, fruto das substituições de importações do II PND e de restrições quantitativas. Contudo, o déficit comercial atingiu US$ 3,5 bilhões em 1975 e US$ 2,8 bilhões em Diante disso, o governo tomou medidas enérgicas para reduzir o déficit comercial, que nos anos de 1970 atingiu a cifra de US$ 17,4 bilhões (Tabela 1). Em função da política de contenção das importações, o superávit comercial atingiu US$ 12,5 bilhões em 1985 e US$ 10,8 bilhões em Nos anos de 1980, o país acumulou US$ 99,8 bilhões de saldos comerciais (US$ 107,5 bilhões entre 1970/2000). Esses saldos proporcionaram o ajuste externo da economia brasileira até 1990/1993; porém, eles foram obtidos com a compressão das importações, tendo em vista as limitações para um crescimento ainda maior das exportações, a crise do petróleo e a elevação das taxas de juros internacionais. 15 Na década de 1980, apesar dos superávites da balança comercial, o crescimento das exportações foi mais lento e bastante irregular, reduzindo-se em alguns anos. Isso pode ser explicado pelas próprias restrições às importações de insumos industriais e de bens de capital e pela valorização cambial. Além disso, o crescimento das exportações e da renda interna eleva as importações. Em segundo lugar, há a escassez de recursos para crédito aos exportadores. O comércio internacional, sendo uma via de duas mãos, é interdependente: os países precisam de divisas ou crédito para importar produ- 15 Os críticos temiam que a compressão extrema das importações, incluindo bens de capital e insumos indispensáveis à indústria, prejudicasse o parque produtivo nacional (Arida, 1983). Implantada a estratégia do ajuste externo, as importações se reduziram de US$ 23 bilhões em 1980 a um mínimo de US$ 13,2 bilhões em

16 tos brasileiros. As dificuldades para o aumento das exportações decorrem também das descontinuidades da política econômica, em relação ao setor exportador, das modificações do poder de compra interno da moeda e das alterações dos preços relativos, que viabilizam ou entravam as exportações em determinados períodos. Tabela 1 Balança comercial do Brasil, 1970/2003, em US$ milhões. Ano Exportações Importações Saldo / / / / / / Fontes: Exportações brasileiras: SISCOMEX e SECEX; Importações brasileiras: SISCOMEX e MF/SRF. Na ausência de uma política favorável e contínua às exportações, os surtos exportadores ocorrem quando a demanda interna se retrai pela concentração de renda, ou quando existe oferta excessiva no sistema. As empresas são impelidas a se lançarem nos mercados externos. Essa abertura é circunstancial e as firmas voltam ao mercado interno tão logo o poder de compra da população se recupera ou os preços relativos se modificam. A ausência de incentivos sistemáticos às exportações contribui para explicar as flutuações das exportações, aumentando o grau de vulnerabilidade da economia aos choques externos. Em 1986, o Plano Cruzado elevou o poder de compra da população e congelou a taxa de câmbio; com isso, as exportações se reduziram, porque as empresas deslocaram vendas do mercado externo para o mercado interno. O saldo da balança comercial reduziu-se, mas voltou a subir, chegando a US$ 10,8 bilhões em Porém, com abertura econômica implementada no Governo Collor e a valorização cambial do Plano Real, o déficit comercial voltou, atingindo US$ 3,2 bilhões em Esse déficit continuou na primeira fase do Real, com o aprofundamento da abertura comercial. A recuperação da balança comercial retornou com a crise externa de 1998/1999, que desvalorizou a 16

17 moeda e estimulou as exportações. O déficit comercial externo reduziu-se para US$ 0,7 bilhão em Nos anos seguintes, com a elevação da taxa de câmbio, mantida flutuante, os superávits na balança comercial cresceram sistematicamente, chegando a US$ 24,8 bilhões em Anos Tabela 2 Dívida externa total líquida e PIB do Brasil, 1986/2003 (US$ milhões e %). Dívida externa total líquida PIB Dívida/PIB Taxas reais de crescimento PIB indústria agricultura ,5 11,7-8, ,3 6,9 8, ,2 2,0 4, ,4 6,6 2, ,3 1,6 8, ,9 2,4 17, ,2 0,3 16,9 Fontes: Relatórios do Banco Central do Brasil; Confederação Nacional da Agricultura e Indicadores Rurais. O resultado do ajuste externo pode ser visto pelo exame da evolução da dívida externa total líquida (Tabela 2). Essa dívida, igual a US$ 111,2 bilhões em 1986, subiu para US$ 171,1 em Nesse período, ela cresceu mais lentamente e reduziu-se em alguns anos. Após 1998, com a desvalorização cambial, aumentaram os saldos comerciais e o volume das reservas internacionais, reduzindo a dívida externa total líquida para US$ 151,2 bilhões em O coeficiente da dívida líquida/pib se reduziu de 43 em 1986, para um mínimo de 23 em 1995, voltando a atingir 36 em Ajuste interno, 1994/1996 Entre 1986 e 1994, o Brasil tentou, sem sucesso, proceder ao ajuste interno da economia. As oscilações da taxa de crescimento do PIB nesse período refletem as dificuldades para a estabilização; a inflação anual atingiu 1.764,8% em 1989 e 2.708,5% em 1993 (IGP-DI da FGV/RJ). Em fevereiro de 1986, o Plano Cruzado congelou preços, salários, tarifas e o câmbio, o que estimulou as importações e comprimiu as exportações, exaurindo as reservas cambiais. A eliminação da correção monetária reduziu as taxas de juros e estimulou o consumo em detrimento da poupança. Após o descongelamento, em 1987, a inflação voltou, atingindo 25% ao mês. 16 Nesse plano, como nos demais planos heterodoxos, foi dada ênfase exclusiva em seus aspectos inerciais, sem atacar as causas fundamentais da inflação: o déficit público e a expansão dos meios de pagamentos. Além disso, os juros baixos estimulavam a demanda agregada, pressionando os preços. O Plano Bresser, adotado em junho de 1987, congelou preços e salários por três meses, com descongelamento gradual. O aumento das expectativas em relação a novos congelamentos acelerou a 16 Confiando em inflação zero, o gverno prometeu aos trabalhadores o gatilho salarial: os salários aumentariam toda a vez que a inflação atingisse 20% ao mês. Essa prática gerou hiperinflação nos anos seguintes. 17

18 taxa inflacionária de 8% ao mês em setembro de 1977, para 20,3% em abril de 1988 (IGP-DI). A inflação mensal de 36,6% em janeiro de 1989 levou ao lançamento do terceiro plano heterodoxo do Governo Sarney. O Plano Verão, em janeiro de 1989, praticou igualmente o congelamento de preços, salários e de tarifas públicas, após ter reajustado os preços dos combustíveis e da energia elétrica. A inflação chegou a quase 81,3% ao mês nas vésperas da posse do novo governo e da edição do Plano Collor (março de 1990), que confiscou dois terços da poupança privada nacional, além de congelar preços e salários. Adotou-se câmbio flutuante e o comércio externo foi desburocratizado. No início de 1991, as finanças públicas encontravam-se equilibradas e as reservas internacionais em crescimento; porém, o PIB apresentava crescimento negativo de 4,3%, e com a produção industrial caindo 8,2%; havia mais de um milhão de desempregados e uma inflação de 20% ao mês. Em fevereiro de 1991 foi lançado o Plano Collor 2, que procurou acabar com a indexação da economia (fim da correção monetária e de alguns fundos de curto prazo responsáveis pela especulação financeira). As tarifas públicas foram reajustadas antes do congelamento dos preços por um curto período de tempo, em que passaram a ser monitorados pelas câmaras setoriais. No domínio da competitividade industrial, o Plano procurou desenvolver novas indústrias, nos ramos de química fina, informática, biotecnologia, mecânica de precisão e novos materiais. Procurou abrir a economia às importações, a fim de aumentar a concorrência interna e induzir os demais setores a melhorar sua eficiência e qualidade segundo os padrões internacionais. Esse plano reduziu a inflação para 6,5% em maio de 1991, mas a partir de outubro ela ultrapassou 25% ao mês. Em 1992, a economia voltou a apresentar crescimento negativo (-0,8%), com a indústria reduzindo sua atividade em 3,2%. Porém, em 1993 o PIB cresceu 4,2%, apesar da elevada taxa anual de inflação, graças ao desempenho da indústria (6,9%). No último ano do governo Itamar Franco (1994), o Ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso e sua equipe econômica encontraram condições mais favoráveis para implementação de um novo plano de estabilização, uma vez que a economia estava em crescimento, com desindexação em marcha e reservas cambiais de US$ 40 bilhões (junho de 1994). O Plano Real continha três etapas até sua aplicação. A primeira foi a instituição do Fundo Social de Emergência, composto por cerca de US$ 15 bilhões, destinado a cobrir despesas até o fim de 1995, sem a necessidade de emissão de moeda. A segunda consistiu na criação da Unidade Real de Valor (URV), em março de Tratava-se de um indexador, equivalente a um dólar, em torno do qual flutuavam livremente os preços em cruzeiros. Esse mecanismo foi fundamental para ajustar os preços relativos e gerar confiança na nova moeda. A terceira etapa consistiu na transformação da URV na nova moeda, o real, em julho de 1994, quando a inflação atingia 24,7% ao mês. Para acabar com a indexação, o Plano Real proibiu os repasses da inflação passada para os preços de um período inferior a um ano. Para equilibrar as contas públicas, o governo privatizou a maioria das empresas estatais e procurou realizar a reforma tributária, administrativa e da previdência social, entre outras. Sem congelamentos, a inflação reduziu-se para 3,3% ao mês em agosto, chegando a 0,57% em dezembro e a 0,4% em maio de Em outubro de 1996, o Índice de Preços ao Consumidor da FIPE/USP foi de 0,58%, constituindo um dos mais baixos índices inflacionários do Brasil 18

19 dos últimos 40 anos. Além do equilíbrio orçamentário, o elemento fundamental do plano foi a âncora cambial, instrumento pelo qual a nova moeda flutuava em torno do dólar, dentro de uma faixa tolerada. Para manter a taxa de câmbio dentro dessa faixa, o Banco Central comprava e vendia dólares no mercado. Entre julho de 1994 e fins de 1998, a taxa de câmbio não acompanhou a elevação de preços (em torno de pouco mais de 1% ao mês), contendo as exportações e aumentando as importações, o que elevou o déficit da balança comercial de US$ 3,2 bilhões em 1995, para cerca de US$ 6,6 bilhões em Medidas foram, entretanto, adotadas para estimular as exportações, como isenção de impostos, ampliação do crédito e estímulos ao aumento de competitividade. Desde sua implementação, o Plano Real enfrentou quatro problemas principais, a exemplo de outros planos de estabilização: aumento do consumo, crise bancária, crise externa e aumento dos gastos públicos. O consumo cresceu com o aumento do poder de compra da população, em decorrência da estabilização dos preços. Taxas de juros elevadas contêm a demanda, mas aumentam os gastos públicos. A crise bancária foi contornada, com relação a alguns bancos, com a criação do Programa de Reestruturação do Sistema Financeiro Nacional (PROER), constituído com recursos dos depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central do Brasil. O problema da crise externa nos anos de 1990 resultou na fixação da taxa de câmbio em termos nominais, o que reduziu a competitividade externa das exportações e barateou as importações. Entre julho/94 a março/96, a taxa de câmbio real valorizou-se 19,9% considerando-se o IPC-FIPE. No entanto, essa valorização foi de apenas 1,15%, ao se levar em conta os ganhos de produtividade da economia brasileira no período (Portugal e Galvão, 1996, p. 104). Os déficits da balança comercial brasileira na década de 1990 foram contrabalançados pelo ingresso de capitais externos, com destaque para os investimentos diretos, estimulados pelas altas taxas de juros. As reservas internacionais subiram de US$ 10 bilhões em 1990, para US$ 60,1 bilhões em 1996, valores que se reduziram para US$ 49,3 bilhões em Em 1990, os investimentos estrangeiros diretos haviam atingido apenas US$ 989 milhões; após o Plano Real, com a nova política econômica do governo, que estabilizou a economia e reduziu os riscos dos negócios, esses investimentos chegaram a US$ 10,8 bilhões em 1996 e a US$ 33,8 bilhões em Com a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder, em outubro de 2002, a incerteza dos investidores aumentou e os investimentos estrangeiros se reduziram para US$ 16,6 nesse mesmo ano e para US$ 10,1 em 2003 (BCB- Séries Temporais). O novo governo, no entanto, manteve a política econômica do governo anterior, com os juros para segurar a inflação. A taxa básica de juros (SELIC) subiu de 19,2% em 2002 para 23,4% em 2003 (acumulado do ano); com isso, a inflação reduziu-se de 12,5% em 2002, para 9,3% em 2003 e 5,2% em maio de Com a elevação da taxa básica de juros (SELIC), para conter a inflação, aumentam os gastos do governo com o serviço da dívida pública. Assim, torna-se necessário produzir superávits primários para cobrir essas despesas. O superávit do Tesouro Nacional, igual a R$ 1,4 bilhão em 1994, transformou-se em déficit de R$ 4 bilhões em 1995 e de R$ 9,1 bilhões em As causas básicas do 17 A taxa de inflação atingiu apenas 1,7% ao ano em 1998 (IPCA); com a crise externa e a desvalorização cambial decorrente, ela subiu para 8,9% em 1999, reduziu-se para 6% em 2000 e voltou a subir para 7,7% em 2001 (BCB). 19

20 crescimento do déficit foi o aumento da dívida pública mobiliária e dos gastos com o funcionalismo federal. 18 Em 1997, o Tesouro Nacional passou a apresentar superávit de R$ 5,2 bilhões, valor que se elevou para R$ 35,3 bilhões em 2001 e para R$ 65,9 bilhões em A contenção dos gastos públicos para gerar superávit primário a fim de pagar a dívida pública, diminuir o consumo e as importações reduz o crescimento econômico. A desaceleração da economia gera capacidade ociosa e desemprego. No primeiro trimestre de 1996, o grau de ociosidade da indústria foi de 25%, quando o emprego industrial encontrava-se 27,3% inferior ao nível de Como as vendas reais subiram 3,7% nesse período, conclui-se que aumentou a produtividade com desemprego tecnológico. Com efeito, a produtividade da indústria paulista passou de 100 em 1989 para 129 em 1995 (Boletim do Banco Central, junho/96, p. 63). No fim de 1989 e início de 1990, o governo brasileiro havia adotado um programa para aumentar a produtividade da indústria nacional, através de financiamentos e de maior abertura às importações. Foram facilitadas as importações de máquinas e equipamentos, bem como de insumos mais baratos. O desemprego na indústria cresceu pela concorrência das importações e pela modernização tecnológica. No entanto, no final da década de 1990 as exportações aumentaram, gerando superávits comerciais, devido à desvalorização cambial. Tabela 3 Estrutura das exportações brasileiras, 1993/1998 (US$ milhões). Grupos dos produtos exportados Valor % Valor % Valor % 1. Produtos primários (valor) , , ,5 1.1 Café , , ,0 1.2 Soja , , ,3 1.3 Suco de laranja 826 2, , ,5 1.4 Minérios de ferro e outros , , ,8 1.5 Carnes , , ,1 1.6 Demais produtos primários , , ,8 2. Produtos industrializados , , ,5 2.1 Material de transporte e componentes , , ,9 2.2 Produtos metalúrgicos , , ,6 2.3 Produtos químicos , , ,2 2.4 Máquinas e instrumentos mecânicos , , ,3 2.5 Papel e celulose , , ,9 2.6 Equipamentos elétricos e eletrônicos , , ,3 2.7 Calçados e produtos de couro , , ,8 2.8 Madeiras e manufaturas 841 2, , ,2 2.9 Produtos têxteis , , , Demais produtos industrializados , , ,2 3. Total das exportações , , ,0 Fonte: Boletim do Banco Central, maio de 1998 e maio de Transformação estrutural Nas últimas décadas, a estrutura das exportações brasileiras mudou substancialmente. Em 1970, 86% das exportações do país eram compostas por produtos primários e semimanufaturados e somen- 18 O déficit agravou-se com a isonomia salarial concedida em 1994, no último mês do governo Itamar Franco. 19 Incluindo-se a Previdência Social, tradicionalmente deficitária, e o Banco Central, formando o conjunto do Governo Central, esse superávit se reduz para R$ 21,7 bilhões e R$ 39,3 bilhões nos anos referidos (1,8 e 2,6% do PIB). 20

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