O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO E A MOBILIDADE DO CAMPO PARA A CIDADE EM BELO CAMPO/BA

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1 O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO E A MOBILIDADE DO CAMPO PARA A CIDADE EM BELO CAMPO/BA Silmara Oliveira Moreira 1 Graduanda em Geografia/UESB, Bolsista da UESB Resumo: O objetivo deste artigo é discutir como se desenvolveu o processo de urbanização, pensando em suas influências na cidade de Belo Campo/BA, especificamente, diante das relações campo-cidade que nela se estabelecem. Como as transformações no espaço da cidade são cada vez mais intensas, sobretudo, em uma pequena cidade, entender como se deu seu processo de urbanização ajuda a compreender melhor como, ao longo da história, vários atores e sujeitos contribuíram para a sua configuração espacial. Atualmente, o processo de urbanização, dentro de uma lógica capitalista, não se orienta apenas e exclusivamente pelo modelo de industrialização, mesmo que esse tenha fortemente influenciado as relações socioespaciais ao longo da história. Assim, nota-se que a configuração do pequeno espaço urbano de Belo Campo, nas últimas décadas, é um produto direto, dentre outros aspectos, da mobilidade do camponês no sentido campo-cidade, como resultado, sobretudo, da ausência de políticas que mantenham o trabalhador rural no campo. Palavras-chave: Urbanização, Pequenas cidades, Mobilidade, Campo Introdução O processo de urbanização, que se intensificou a partir da Primeira Revolução Industrial, trouxe grandes transformações para as cidades de todo o mundo. No Brasil, essas modificações, que começam a ser mais visíveis, especificamente, em meados do século XX, acarretaram na alteração de algumas cidades, no surgimento de outras novas e em modificações profundas no campo. Na Bahia, passaram a existir muitas cidades nesse momento, face à emancipação política de vários municípios. Outro fato importante nesse período foi a migração de um grande contingente de pessoas tanto das pequenas cidades, quanto do campo para a Região Sudeste do Brasil, à procura de emprego, principalmente para o Estado de São Paulo, onde se concentrava a maior parte das indústrias nacionais. 1 Membro do Grupo de Pesquisa: Urbanização e produção de cidades na Bahia, coordenado pelo Prof. Dr. Janio Santos.

2 No município de Belo campo, é possível observar que o campo possui intensa relação com a cidade, principalmente, no que diz respeito às relações de trabalho. Diante disso, fez se necessário entender quais foram as condições históricas que conduziram a mobilidade do trabalho, no sentido da saída do homem do campo em relação à cidade de Belo Campo, partindo do pressuposto de que grande parte da população urbana veio da zona rural do próprio município. A migração do camponês para a cidade trouxe uma nova dinâmica para o espaço urbano, acima de tudo, decorreu em uma grande mudança na vida dessas pessoas. Acredita-se que muitas delas, mesmo morando na cidade, ainda estabelecem relações de trabalho com o campo, e que esse não foi completamente tirado delas. Por outro lado, pretende-se compreender, também, como que esse camponês, ao chegar à cidade, se territorializou, pois é importante saber as condições de vida desse sujeito no espaço da cidade para entender como se dá a sua espacialização. Finalmente, pretende-se considerar qual a relação estabelecida entre a reprodução da vida do camponês em uma pequena cidade, pensando no processo de produção do espaço urbano, por considerar relevante identificar as relações de trabalho que o camponês estabelece, enquanto morador da cidade, com o campo a fim de compreender em que medida suas relações com o campo influenciam no urbano, enquanto modo vida. Urbanização e a mobilidade do campo para a cidade A urbanização é um processo e a forma como esse acontece está intimamente ligada com o modo de produção vigente, às diversas escalas geográficas de análise e aos interesses dos diferentes sujeitos. O processo de urbanização, aliado a industrialização, fez com que a população das cidades viesse a crescer progressivamente. Ao analisar esse processo, Sposito afirma que:

3 [...] a urbanização é um processo de longa duração, que se inicia com o aparecimento das primeiras cidades e que se revela a partir de diferentes modos de produção, sob diversas formas; expressa e ampara a existência de uma divisão social do trabalho. (SPOSITO, 2004) A urbanização influencia diretamente na divisão social do trabalho, nesse contexto, enquanto forma mais ampla, insere uma nova lógica nas relações da sociedade. Esse processo que, por hora, é complexo deve ser analisado diante da conexão do tempo com o espaço, entre diferentes ritmos temporais de análise e diferentes escalas (SPOSITO, 2004). No Brasil, esse processo se iniciou durante as décadas de 1940 e 1960, e foi modificado pelo crescimento da industrialização que atraiu grande contingente de pessoas para a cidade. Por outro lado, segue uma lógica hegemônica em diversas escalas, vinculada à lógica do modo de produção capitalista. Todavia, isso também esteve relacionado ao fato de que boa parte dessas pessoas foi expulsa do campo, seja em função da modernização da agricultura, seja pela ausência de políticas voltadas para manter o pequeno produtor rural, aspecto apontado por Santos (2009). Esse contexto estabeleceu uma nova lógica nas relações que ocorrem nos espaços urbanos. Assim, por exemplo, as cidades baianas, nessa perspectiva, também passaram por modificações em sua dinâmica, enquanto locais onde se estabeleceram novas demandas do capital, o que provocou transformações no cotidiano e na própria organização do espaço intra-urbano. Por outro lado, a divisão territorial, técnica e social do trabalho marcam a relação entre o campo e a cidade, sendo que ao longo da história ao campo coube produzir para a manutenção da cidade. A partir do final do século XVIII, todavia, o campo, que antes era responsável pelo setor de produção somente agrícola, passou a fazer parte também de outros setores da economia, como o setor terciário que, cada vez, mais é notado nesse espaço. Ademais, nessa relação campo-cidade, a presença do camponês é também cada vez mais notada na cidade: ou seja, a luta do campo é vencida na cidade.

4 A mobilidade do trabalho que, segundo Gaudemar, consiste num processo cujo fim é disponibilizar [...] os homens, os seus corpos e seus espaços de vida [para contínua] valorização do capital (GAUDEMAR, 1977, apud SILVA, 2008, p. 29) marca essa saída do homem do campo em direção à cidade, seja devido à expropriação dos meios de produção no contexto da urbanização, ou mesmo por não conseguir sobreviver do trabalho desempenhado no campo. Algumas considerações a respeito das pequenas cidades Pensar a urbanização em uma pequena cidade consiste em pensar numa maneira diferenciada de entender as suas implicações enquanto processo num campo pouco explorado e até mesmo conhecido pela maioria dos pesquisadores. No Brasil, segundo o IBGE, todo distrito sede de município é considerado cidade. Nesse sentido, é importante salientar que cada país tem a sua classificação. Apesar da idéia de cidade estar quase sempre vinculada com os grandes centros, locais caracterizados por grande concentração demográfica, convém colocar que somente pelos dados demográficos não é possível entender o urbano, uma vez que é necessária a análise de outros fatores socioespaciais para se chegar a uma noção do que constitui o urbano em determinado local. A definição de cidade como grande aglomeração não contempla a dinâmica das pequenas cidades. Segundo Barcelar: [...] alguns estudiosos do urbano estabelecem critérios rigorosos para caracterizar um determinado assentamento humano como cidade e assim relegam cidades menores a um limbo conceitual e até mesmo modificam suas características de conceituação ao afirmarem serem as pequenas cidades, não-cidades. (BARCELAR, 2003, p.03)

5 Há uma grande divergência na conceituação e na denominação de pequena cidade, uma vez que órgãos se diferem quanto à classificação. Todavia, é importante salientar que mesmo as pequenas cidades carregam em si um conteúdo urbano, nas relações que se tecem, sejam elas de ordem econômica, ou nas relações sociais. Ainda segundo Barcelar, De modo abrangente, podemos admitir que a cidade é a materialização do urbano. A cidade se materializa enquanto espaço urbanizado. Enquanto que o urbano é a relação, os processos político-sociais inerentes ao desenvolvimento da urbanização do território, da região ou do país. Portanto, de forma singular a cidade seria a materialização das ações humanas, enquanto o urbano seria inerente ao processo de transformação de uma sociedade, lugar ou espaço em formas urbanas, que não se atém apenas à cidade, mas a forma de vida de um grupo social. O urbano é a representação de um modelo de vida, a cidade a materialização deste modelo. (BACELAR, 2003, p. 2) É importante compreender, no entanto, que o ritmo com que esse urbano se verifica na cidade pequena é diferenciado das médias e grandes cidades, e esse é um caminho de discussão ainda pouco explorado empiricamente, sobretudo, no caso das cidades baianas. A relação campo-cidade em Belo Campo A cidade de Belo Campo está localizada no Território de Identidade de Vitória da Conquista, no sudeste da Bahia, mais precisamente no nordeste brasileiro. O município limita-se com os municípios de Tremedal, Candido Sales, Caraíbas e Vitória da Conquista (Figura 1). No município de Belo Campo, observa-se que houve um aumento significativo, nas últimas décadas, da população da cidade, e que essa passou, em 1940, ainda enquanto uma vila, de 367 habitantes, para 8.082, em 2000 tendo sido emancipado durante a década de Belo Campo não possui como diretriz econômica a industrialização, portanto, não segue uma lógica urbana mais intensa, mesmo tendo sido influenciada por essa mesma dinâmica.

6 46 Estado da Bahia Figura 01: Município de Belo Campo Localização na Bahia, Localização da Bahia no Brasil 13 Território de Identidade Vitória da Conquista 18 Fonte: IBGE/SEI Elaboração: Silmara Oliveira Moreira Belo Campo Base Cartográfica IBGE Malha Municipal, ,4 18,8 km

7 Se, em seus primeiros anos de emancipação, contava com a maior parte de sua população morando na zona rural, com o decorrer dos anos, aumentou significativamente sua população urbana, sendo que a população rural manteve-se. Grande parte dos habitantes da cidade veio da zona rural do município. Segundo dados do IBGE, em 2000, a população era de habitantes vivendo no campo e 8.082, na cidade. Mesmo com maior parte da população vivendo no campo, a Taxa de Urbanização no município vem crescendo progressivamente, enquanto que a Taxa de Ruralização diminui. (Gráfico 01). Essa população que migrou do campo para a cidade, em sua grande maioria, chegou à sede de Belo Campo em busca de melhorias nas suas condições de vida. O município de Belo Campo está localizado na região do semi-árido baiano e as pessoas que nele residem, principalmente na zona rural, enfrentam grandes problemas com a escassez de água durante o período da seca, já que a economia do município está voltada basicamente para a agricultura. Entendese, porém, que o fator climático não é determinante para esse movimento migratório, pois pessoas com recursos financeiros disponíveis conseguem sobre medida continuar vivendo no campo.

8 O poder público governamental, nas escalas municipal, estadual e federal, é responsável de maneira direta por esse processo de migração, pois são quase inexistentes as políticas públicas voltadas para manter esse camponês no campo, principalmente, no que diz respeito ao oferecimento de suporte à produção agrícola, atividade que garante a sua sobrevivência. Por outro lado, essa saída do camponês em direção à cidade também está ligada à ideologia que se propaga: a de que a cidade é melhor para se viver, a idéia da cidade como sinônimo de desenvolvimento social e econômico, algo construído ideologicamente, sobretudo, no Brasil que objetivava industrializar-se, enquanto o campo foi concebido como o lugar do atraso. Em Belo Campo, o camponês, ao chegar à cidade, se deparou com novas formas de vida, e se instalou, normalmente, nos bairros periféricos, mais afastados do Centro, onde consegue comprar sua casa a um preço mais acessível, porque as áreas centrais das pequenas cidades são as mais valorizadas. Assim, já é possível observar a formação de bairros como Alvorada, Nova Cidade e Morro com grande parte dos habitantes que vieram do campo. Esse camponês, no entanto, não muda sua condição de trabalhador camponês. Devido às suas próprias condições materiais de existência, ocupam-se de trabalhos precarizados e, geralmente, mal remunerados. Normalmente, as mulheres se encarregam de trabalhar como empregadas domésticas, ganhando baixíssimos salários, e os homens como ajudante na construção civil, prestadores de pequenos serviços, dentre outros, isso quando encontra algum trabalho, num contexto de sérios problemas, face à reestruturação produtiva do capital. Nessas condições, mesmo morando na cidade de Belo Campo, percebese que essas pessoas ainda possuem fortes relações de trabalho com o campo, devido ao fato de que muitos camponeses se vêem obrigados a sair todos os dias de sua residência para trabalhar na zona rural do município, a fim de garantir a sobrevivência sua e de sua família. Por outro lado, essa é a sua própria história, já que, mesmo vivendo na cidade, a sua condição como camponês é mantida.

9 Considerações finais Atualmente, o processo de urbanização, dentro de uma lógica capitalista, não se orienta apenas e exclusivamente pelo modelo de industrialização, mesmo que esse tenha fortemente influenciado as relações socioespaciais ao longo da história. Assim, nota-se que a configuração dos pequenos espaços urbanos é produto direto, dentre outros aspectos, da mobilidade do camponês no sentido campo-cidade. Nessa ótica, discutir essa questão contribui para um melhor embasamento teórico sobre as pequenas cidades, que se relaciona diretamente com o fortalecimento de novas abordagens empíricas. São poucas as pesquisas realizadas sobre as pequenas cidades baianas, e a maioria dos pesquisadores que abordam essa temática tende a aplicar modelos de investigação das grandes ou médias cidades. O Grupo de Pesquisa Urbanização e produção das pequenas e médias cidades da Bahia, ao qual esta pesquisa está associada, vem desenvolvendo seu trabalho a fim de reunir mais informações e buscar cada vez aprofundar no entendimento a respeito da dinâmica dessas pequenas cidades. Percebe-se que a cidade carece de estudos que ajudem a melhor compreender a dinâmica de sua urbanização, particularizada na intenção de trazer um maior aprofundamento sobre as relações existentes entre o campo e a cidade em Belo Campo. As profundas mudanças pelas quais passaram a cidade de Belo Campo seguem uma lógica inerente ao processo de urbanização, que provocou e ainda provoca grandes transformações nos espaços urbanos. Enquanto cidade pequena, Belo Campo possui uma dinâmica diferente quanto as suas relações, econômicas e sociais que são marcadas por uma intensa mobilidade do trabalho do campo, em direção à cidade. Esse fato é constatado pelo grande número de pessoas que saíram do campo para morar na cidade. É importante destacar que as ações do poder público governamental, nas suas várias escalas (municipal, estadual e federal), quanto ao não oferecimento de políticas públicas voltados para o homem do campo, tem contribuído de maneira significante na configuração socioespacial da cidade de Belo Campo e na própria mobilidade do trabalhador do campo, sobretudo, num

10 momento em que a crise do capital se instala, ou seja, do processo de reestruturação produtiva. Convém entender, portanto que as condições de vida do trabalhador camponês na cidade são de grande dificuldade econômica. Sua relação com o campo é marcada pelo trabalho e muitos desses trabalhadores camponeses que vivem na cidade afirmam que se no campo existissem boas condições para a sua sobrevivência não haveriam saído do mesmo. Referências BACELAR, Winston Kleiber de Almeida. As dualidades das pequenas cidades: as cidades com menos de habitantes do cerrado triangulino. In: Anais do II Simpósio Regional de Geografia: perspectivas para o cerrado no século XXI, Uberlândia, IBGE, Censo Demográfico. Rio de Janeiro: IBGE, 1940, 1950 e IBGE, Censo Demográfico, 1970, 1980, 1991 e Disponível em: <http://www.ibge.gov.br>, acesso em agosto e setembro de LOPES, D. M. F. Cidades pequenas são urbanas? O urbano possível. In: Bahia Análise e Dados. Salvador, SEI, v. 19, n. 2, p , jul/set MOURA, R. A cidade em transformação: processos, conceitos e novos conteúdos.in: Bahia Análise e Dados. Salvador, SEI, v. 19, n. 2, p , jul/set SANTOS, Janio. Urbanização e produção de cidades na Bahia: reflexões sobre os processos de estruturação e reestruturação urbana. In: Bahia Análise e Dados: Salvador: v.19, n.2, p , jul./set SILVA, Izildo C. A. da. A mobilidade do trabalho sobre o impacto da reestruturação produtiva: estudo das tendências migratórias em Santo André p. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, Disponível em: acesso em marco de SPOSITO, M. E. B. O chão em pedaços: urbanização, economia e cidades no Estado de São Paulo f. Tese (Livre Docência)-Unesp, Presidente Prudente, 2004.

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