ESPAÇO RURAL ALIMENTOS PARA OS BRASILEIROS E PARA O MUNDO

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1 ESPAÇO RURAL ALIMENTOS PARA OS BRASILEIROS E PARA O MUNDO

2 Introdução O modelo de desenvolvimento rural nos últimos tempos, baseado na modernização agrícola conservou muitas das características históricas e aprofundou o processo de mudanças no padrão tecnológico dos sistemas produtivos agropecuários. Na ocupação adequada do solo rural permanece a questão fundiária mais importante para o desenvolvimento do país, sob a ótica não apenas do Brasil, mas também de toda a América Latina, cuja economia está estruturada fortemente na produção agropecuária. Também é importante destacar que o Brasil dispõe de recursos diferenciados frente ao panorama mundial. O País dispõe de terra, água, energia solar e tecnologias avançadas em matéria de agroecossistema tropical. Muitas das melhores terras agrícolas do mundo e no Brasil estão sendo hoje destinadas a usos não agrícolas como consequência das leis do mercado. A diminuição do uso da área agrícola disponível compromete a segurança alimentar, sem falar na deterioração das relações sociais e no agravamento dos conflitos. O foco de atenção na questão agrária deve abranger todos os aspectos da atividade rural. Por exemplo: agricultura em geral, agricultura familiar, segurança e soberania alimentar e nutricional, biotecnologia, agrobiodiversidade, sociobiodiversidade, entre outros. A questão do agronegócio é um tema sobre o qual deve ser promovido um grande debate para definição clara quanto aos contornos político-institucionais necessários e indispensáveis. A questão ambiental, mesmo sendo transversal a muitos setores, é muito significativa também neste setor. A agricultura familiar é uma questão central para a agricultura no Brasil por várias razões: a) ocupa parcela importante da área total utilizada pela agricultura; b) abrange mais de 80% dos estabelecimentos rurais do país; c) responde por parcela significativa do valor bruto da produção agropecuária; d) absorve cerca de 3/4 da população ocupada pela agricultura; e) é a fonte principal para produtos de consumo massivo da população brasileira: mandioca, feijão, milho, leite, suínos, aves e ovos. Esses são números que falam por si mesmos, sendo supérfluo enfatizar que os investimentos públicos devem ser orientados para o setor na proporção que ele exige, tanto com vistas ao desenvolvimento tecnológico como quanto aos arranjos institucionais adequados e a multifuncionalidade do espaço rural. Tudo está a indicar que o Brasil necessita de uma transformação profunda na estrutura agrária, no sentido de abrir enormes espaços de manobra para a pro- ESPAÇO RURAL ALIMENTOS PARA OS BRASILEIROS E PARA O MUNDO 93

3 dução de alimentos, não com prioridade para a exportação de commodities, mas para suprir a mesa dos brasileiros. Essa reforma não apenas agrária stricto sensu -, também será um extraordinário fator de geração de empregos e um indutor do retorno dos ex-agricultores ao campo, aqueles que hoje aumentam o número de pobres e miseráveis nas metrópoles. Importante ressaltar que hoje, existem vários programas federais, tais como: 1. Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar PRONAF, para custeio e investimento, cujos recursos aplicados evoluíram de 2,4 bilhões na safra 2002/03, para 16 bilhões de reais na safra 2010/11. Hoje, são mais de 2 milhões de contratos, com cerca de reais de financiamento médio por família; 2. Assistência Técnica e Extensão Rural Ater, voltado à modernização da agricultura, este programa sofreu um verdadeiro desmonte na década de 90. Retomado no atual Governo, o Ater evoluiu de 46 milhões em 2002 para 626 milhões de reais em 2010, somando 2,2 bilhões de reais nos últimos 8 anos, ressalte-se, a metade para as regiões Norte e Nordeste. 3. Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel PNPB, lançado em 2004, tem como estratégias a qualidade do produto, a garantia de suprimento, a diversificação das matérias-primas, a inclusão social e o fortalecimento das potencialidades regionais; o número de unidades industriais produtoras de biodiesel que possuem o Selo Combustível Social era de 31 em 2008; em 2009, as compras alcançaram mais de 600 milhões de reais, proporcionando uma receita média anual de 9 mil reais por agricultor; 4. Seguro Agrícola Familiar SEAF, criado em 2004 com a finalidade de proteger cerca de 40 culturas, equivalendo a 90% do PRONAF; o SEAF socorreu cerca de 500 mil agricultores, com o dispêndio de 4,8 bilhões de reais, nos últimos 6 anos; 5. Programa Nacional de Aquisição de Alimentos PAA, programa interministerial criado em 2003 no âmbito do Fome Zero, representa uma garantia de mercado para a agricultura familiar; de 2003 a 2009, a aplicação de recursos no PAA somou 2,7 bilhões, beneficiando 764 mil famílias como fornecedores; 6. Programa Nacional de Crédito Fundiário PNCF, criado em 2003, destinou mais de 2 bilhões de reais ao financiamento da compra de terra por trabalhadores rurais, beneficiando mais de 77 mil agricultores familiares, até Plano Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural PNATER, regulamentado pela Lei /09, exigindo do próximo Governo a refundição do SISBRATER 94 ESPAÇO RURAL ALIMENTOS PARA OS BRASILEIROS E PARA O MUNDO

4 Sistema Brasileiro de Ater, e a construção de um programa de REATER Residência Acadêmica em Assistência Técnica e Extensão Rural, com recursos Federais. Os outros programas são: Programa de Subvenção ao Seguro Rural; Programa de Garantia de Preços Mínimos; Programa de Fortalecimento e Crescimento da Embrapa (PAC Embrapa); Programa de Agricultura Orgânica, com atendimento em 2010 de cerca de 40 mil produtores e recursos estimados em R$ 3 milhões; Defesa sanitária e fitossanitária; Sistema Agropecuário de Produção Integrada (SAPI); Programa de Crédito Rural, a oferta de crédito para a agricultura comercial, safra 2009/2010 alcançou montante de R$ 92,5 bilhões, sendo R$ 66,2 bilhões para custeio e comercialização, R$ 14 bilhões em investimentos e R$ 12,3 bilhões em linhas especiais de crédito; Programa de Capitalização das Cooperativas de Produção Agropecuária (Procap-Agro); Programa Manejo e Uso Sustentável da Agrobiodiversidade; Sistema Nacional de Sementes e Mudas; Sistema Nacional de Proteção de Cultivares; Plano Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural PNATER, regulamentado pela Lei /09, exigindo do próximo governo a refundição do SISBRATER Sistema Brasileiro de Ater, e a construção de um programa de REATER Residência Acadêmica em Assistência Técnica e Extensão Rural, com recursos Federais; Programa Nacional de Alimentação Escolar PNAE, que prevê a compra de produtos da agricultura familiar, que tem sua execução comprometida por falta de agentes de Ater em todo o Brasil. O agronegócio brasileiro O agronegócio brasileiro é, sem dúvida, de suma importância para a geração de divisas e para o desenvolvimento da sociedade e um dos principais responsáveis pelo saldo positivo da balança comercial brasileira. Quanto a este último aspecto, o superávit produzido pela produção agrícola atingiu a cifra de 49,7 bilhões de dólares. Naquele ano, as exportações brasileiras colocaram o Brasil como principal fornecedor nos seguintes itens, com as respectivas porcentagens de participação no total mundial: suco de laranja, com 81%; carne de frango, com 35%; açúcar, com 33%; café, com 30%; tabaco, com 27%; ESPAÇO RURAL ALIMENTOS PARA OS BRASILEIROS E PARA O MUNDO 95

5 carne bovina, com 24%; e etanol, com 13%. Além disso, a produção nacional de grãos cresceu mais de 105% na última década e meia. O Agronegócio Brasileiro representava em 2007, segundo a Organização Mundial do Comércio, 6,0% do comércio mundial de exportações, enquanto somando todas as exportações brasileiras, o país atingia 1,6% do total mundial. O crescimento das exportações do Agronegócio Florestal segundo o MDIC aumentou de 1997 a 2006 em 200,50%; o setor Sucro-Alcooleiro, em 2.270,10%; e o Agronegócio de Carnes (bovinos, suínos e aves) em 2.017,10%. No mesmo período, a importação de fertilizantes e matérias primas 71,80%. Segundo a Confederação Nacional da Agricultura, em 2009, a cada R$ 21,7 milhões de acréscimo do PIB o Agronegócio gera mais de 1000 empregos. As novas rotas de escoamento dos corredores norte são: Cuiabá-Porto Velho, Cuiabá-Santarém, Rondonópolis-Belém, Goiânia-Belém, Carajás-São Luís. A produção de soja e farelo em 2007 escoou-se para exportação de Paranaguá (9957t), Santos (7107t), Vitória (3426t), São Francisco-SC (2538t), Rio Grande (7264t), São Luís (1505t), Porto Velho (2850t), Itacoatiara (2014t) e Santarém (836t). A crise financeira mundial de 2009 causou uma exacerbação da demanda, crise de liquidez e financeira, queda de preços e mercados, busca da economia real e a recuperação seletiva por prioridades. No Brasil, os reflexos internos foram a queda de liquidez, queda do mercado interno, aumento do desemprego, queda nos preços, redução nos preços da exportações, redução das exportações de manufaturas, queda da arrecadação tributária e endividamento da população. Diante da crise, as ações internacionais observadas, por meio do G-20, foram: preservação dos mecanismos financeiros com apoio ao comércio internacional; economia energética com socorro às economias mais frágeis; e a sustentabilidade ambiental. As principais economias se concentraram no socorro a setores críticos com investimentos em infraestrutura, no aumento da competividade com protecionismo implícito e na economia energética com redução de desperdícios. Para a superação completa da crise é preciso que o país conduza o foco ao aumento da produtividade; melhore a segurança jurídico/político/institucional; promova redução na tributação de investimentos; elimine as reservas de mer- 96 ESPAÇO RURAL ALIMENTOS PARA OS BRASILEIROS E PARA O MUNDO

6 cado; libere os investimentos privados com melhoria na regulação e dedução dos custos logísticos com investimentos em infraestrutura e racionalização de procedimentos. Os pontos favoráveis ao Brasil podem ser considerados: equilíbrio energético, autossuficiência alimentar, minerais estratégicos, exportador de alimentos e energia automotiva e produtos florestais. Princípios, diretrizes e propostas Garantia da função social da terra; Assistência técnica e extensão rural devem ser promovidas prioritariamente por organismos governamentais; Defender a verticalização da produção agropecuária brasileira, como estratégia de garantia de agregação de valor à matéria-prima; Prioridade para a produção de alimentos para o consumo do povo brasileiro; Exportação de produtos agropastoris com prévio beneficiamento e com valores agregados à produção; A tecnologia deve estar igualmente disponível, de forma adaptada, tanto nas grandes quanto nas pequenas e médias propriedades; Os resultados dos ganhos de produtividade devem ser compartilhados com os respectivos trabalhadores; Equilíbrio no incentivo e no desenvolvimento sustentado de produtos, sem priorizar setores apenas porque estão dando maiores lucros e contribuem mais para o balanço de exportações; Utilização racional e ecologicamente adequada dos sistemas agroflorestais, com especial atenção aos biomas regionais; Diversidade, a partir do reconhecimento de que o Brasil rural representa um patrimônio específico, com diferentes segmentos sociais, uma variedade imensa de biomas e ecossistemas, de forma a aproveitar as potencialidades dessa diversidade; Encarar a reforma agrária como algo mais que um instrumento de distribuição da propriedade da terra, com investimento para o bem estar da família rural, estruturação do processo produtivo e organização da cadeia produtiva para minimizar os riscos na comercialização agrícola; Assegurar a soberania alimentar, através de políticas participativas; ESPAÇO RURAL ALIMENTOS PARA OS BRASILEIROS E PARA O MUNDO 97

7 Promover a agricultura familiar por meio de métodos agroecológicos, que respeitem o uso tradicional da terra e permitam independência maior dos agricultores (as) com respeito a fatores externos; Fomentar visando ao aumento da produtividade, buscando sempre a preservação das condições ambientais buscando: o financiamento público total pré-colheitas; o fortalecimento do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária; Assegurar relações salariais adequadas e justas aos trabalhadores e acabar com o trabalho escravo; Fomento para a implantação de sistemas produtivos integrados agropecuários sustentados, com tecnologias adaptadas à estrutura do agricultor; Valorização e monetarização dos serviços ambientais gerados na agropecuária com foco no agroecossistema; Apoio na estruturação das cadeias produtivas, principalmente no envolvimento dos agricultores familiares e nos produtos da sociobiodiversidade; Estruturação na infraestrutura e logística de distribuição e comercialização da safra brasileira; Fomento à pesquisa em agroecologia e em sistemas integrados de produção agropecuária; Fomento à pesquisa agro-silvo-pastoril visando ao aumento da produtividade e ao desenvolvimento sustentável. Referências CONDRAF Política de Desenvolvimento do Brasil Rural Fevereiro de FAYET LUIZ ANTONIO Agronegócio Brasileiro Oportunidades e Desafios Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado Federal Audiência Pública Abril / CRUVINEL, PAULO Agronegócio e Oportunidades para o Brasil Nota Técnica produzida para o Projeto Cresce Brasil, da FNE ESPAÇO RURAL ALIMENTOS PARA OS BRASILEIROS E PARA O MUNDO

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