Uma faceta do problema de abastecimento de água na cidade de São Paulo: o (sub)aproveitamento da produção hídrica do rio Aricanduva.

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1 Marcia Regina Fracaro dos Santos Geógrafa DG/FFLCH/USP Uma faceta do problema de abastecimento de água na cidade de São Paulo: o (sub)aproveitamento da produção hídrica do rio Aricanduva. INTRODUÇÃO Este artigo é o início de uma pesquisa maior cujo objetivo é discutir sobre a viabilidade da utilização de rios de pequeno e médio porte para abastecimento e, diante do resultado desta discussão, eventualmente propor sua utilização. O tema surgiu das recorrentes crises ou ameaças de crise no abastecimento de água dos grandes centros urbanos e de algumas dúvidas quanto ao termo falta de água. Inúmeras campanhas falam da importância da água, mas contraditoriamente temos um importante afluente do rio Tiete visivelmente sendo usado para carrear esgotos. Esta percepção visual levou ao questionamento: Por que não utilizamos o potencial hídrico da cidade de São Paulo para o abastecimento da própria cidade? Com este tema em mente optamos por analisar o Rio Aricanduva, um dos afluentes da margem esquerda do rio Tiete e que tem toda a sua extensão dentro do município de São Paulo. Para essa discussão será necessário um considerável levantamento de dados sobre vazão e níveis de poluição do Rio Aricanduva, bem como dados sobre a demanda por água na cidade de São Paulo. Ao longo do planejamento desta pesquisa percebemos que também será necessária uma série de pesquisas associadas, tais como: histórico da captação de água para abastecimento da cidade de São Paulo e a consolidação de dados sobre processos de despoluição, tratamento e distribuição de água. Acreditamos que desta forma a discussão da viabilidade estará bem embasada. A pesquisa está no estágio inicial de captação de dados, definição dos objetivos específicos e levantamento bibliográfico. Neste artigo objetivamos especificamente iniciar a caracterização da área e fazer um histórico sucinto do abastecimento público de água na cidade de São Paulo.

2 Trabalharemos com leitura de clássicos da Geografia, principalmente no tocante à cidade de São Paulo, textos de História e documentos oficiais do Governo do Estado e da Prefeitura de São Paulo. Compilaremos esses dados em texto e em adaptação de mapas pré-existentes. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA A bacia do Rio Aricanduva localiza-se totalmente dentro dos limites do município de São Paulo, que é uma cidade possuidora de números impressionantes: maior centro urbano do país, km² de área e mais de 11 milhões de habitantes (IBGE, 2010). Também impressionante é a rapidez de seu desenvolvimento: tais números vêm de uma história relativamente curta ao considerarmos que São Paulo teve modesto crescimento em seus primeiros três séculos de existência. A Vila quinhentista fundada em 1554 tornou-se capital da província de São Paulo. No entanto, até o recenciamento de 1872, indicou pouco mais de habitantes que pouco ultrapassavam os limites da colina histórica da fundação situada entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú. Basicamente, por mais de trezentos anos a cidade pouco expandiu sua zona urbana. (AZEVEDO, 1945). Reprodução mapa Três Séculos de Crescimento AZEVEDO, 1945 p.21.

3 Ainda em fins do século XIX esse quadro muda radicalmente: o recenseamento de 1890 registra habitantes, ou seja, a população mais que duplicou em menos de 20 anos e o avanço da mancha urbana acompanhou esse crescimento. O rio Aricanduva deságua na margem esquerda do rio Tietê ainda longe do centro da cidade (cerca de 10km do ponto zero Praça da Sé) e pertenceu por longo tempo ao subúrbio rural. Suas nascentes situam-se nos pontos mais altos a leste da cidade. Dos rios cujas bacias estão totalmente inseridas no município, o Rio Aricanduva é o maior, contando com uma bacia de 100,3 km 2 (manual drenagem sp) e aproximadamente 26km de extensão. Em termos geológicos, a bacia do Rio Aricanduva está inserida principalmente em dois grandes compartimentos: Bacia Sedimentar de São Paulo (Terciário); e no Cinturão Orogênico do Atlântico Sul, seguindo orientação SSE-NNW. De nascente à foz desenvolve-se entre as cotas 905m e 720m. Apresenta três formações geomorfológicas principais: as Planícies aluviais e Terraços, as Colinas e Patamares ligados principalmente à Bacia Sedimentar de São Paulo, constituídos em sua maior parte por sedimentos do quaternário e os Maciços, Serras e Morros que fazem parte dos Planaltos e Serras do Atlântico Leste Sudeste (SANTOS, 2007, no prelo). Seu médio curso foi incorporado ao tecido urbano de forma mais efetiva nas primeiras décadas do século XX (DÉLI, 2005). Na atualidade, exceto por trechos em

4 suas nascentes, apresenta-se altamente antropizado e alterado (retificações, canalizações e piscinões de contenção de cheias). O Rio empresta seu nome à importante avenida que acompanha cerca de 2/3 de sua extensão e é uma das principais vias de acesso ao Leste da Cidade de São Paulo: a Av. Aricanduva. SITUAÇÃO DA ÁGUA NA CIDADE DE SÃO PAULO A localização da Vila de São Paulo, na colina entre os Rios Tamanduateí e Anhangabaú trazia vantagens estratégicas muito provavelmente percebidas pelos fundadores jesuítas, principalmente no tocante à defesa. A proximidade com os dois rios auxiliava no abastecimento da diminuta população colonial 120 casas habitadas por brancos em (MONBEIG, 1954). Mesmo que lentamente, em seus primeiros séculos a população da cidade aumenta e demanda por alguma forma de abastecimento. Porém somente em 1744 é construído o primeiro chafariz, abastecido pelo Anhangabaú pelo sistema de telhas invertidas. Ainda ao fim desse século foram criados tanques que, além de insuficientes, não apresentavam cuidados sanitários (FONSECA, VILAR ). Ao longo desse século registram-se várias fontes de água, no entanto a qualidade era muito variável. A situação agrava-se, em meados de século XIX o clamor popular exige atitudes, e, após algumas tentativas, o poder público concede à iniciativa privada a exploração de um sistema de captação e distribuição de água. É criada a Cia Cantareira de Águas e Esgotos em 1877 que em 1882 inicia o abastecimento da cidade com águas da Cantareira graças a obras grandes e importantes: construção de reservatórios para as águas dos mananciais da Serra da Cantareira com capacidade de 50 milhões de litros; construção do reservatório da Consolação e de uma adutora de 30 centímetros de diâmetro, interligando os reservatórios (Dossiê Institucional, 2008). Em dez anos o abastecimento não é mais suficiente. A Cia Cantareira entra em crise a tal ponto que o governo do Estado de São Paulo a encampa e cria a Repartição de Água e Esgotos da Capital, anulando o contrato que previa 70 anos de concessão à Cia Cantareira.

5 O Dossiê Institucional Empresas de Saneamento em São Paulo aponta em sua introdução as: Empresas que foram responsáveis pela gestão do saneamento em São Paulo e seu tempo de existência: 1. Companhia Cantareira de Água e Esgotos ( ); 2. Repartição de Água e Esgotos da Capital RAE ( ); 3. Departamento de Água e Esgotos da Capital DAE (autarquia) ( ); 4. Superintendência de Águas e Esgotos da Capital Saec ( ); 5. Companhia Metropolitana de Águas de São Paulo Comasp ( ); 6. Companhia Metropolitana de Saneamento de São Paulo Sanesp ( ); 7. Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo Sabesp (1973- atual). (Dossiê Institucional, 2008). Com a criação da RAE entra-se em outra forma de abastecimento: os chafarizes públicos são destruídos e há basicamente dois mananciais de abastecimento: o Cantareira abastecendo o reservatório Consolação e os bairros altos e o Rio Tietê abastecendo os bairros operários. (FONSECA, VILAR ). As demais empresas responsáveis pela gestão de saneamento são todas estatais de diferentes formatos jurídicos, sendo a elevação ao nível de autarquia (DAE) um atendimento de demandas dos próprios dirigentes da antiga RAE por uma maior autonomia administrativa e financeira. É possível traçar uma linha evolutiva dessas empresas, o que não está no escopo deste trabalho, mas é relevante citar que a atual Sabesp é empresa de capital aberto, cujo maior acionista é o Estado de São Paulo e suas ações são negociadas nas Bolsas de Valores de São Paulo (desde 1997) e Nova Iorque (desde 2002). As empresas de saneamento investiram em diversos momentos na intensificação da captação de águas da Cantareira e são criados outros pontos de captação. Na atualidade o Sistema Integrado Metropolitano de São Paulo conta com 8 unidades de produção, sendo as três maiores: Cantareira, Alto Tietê e Guarapiranga (ANA, 2014).

6 Embora a cidade de São Paulo não tenha mais características industriais tão marcantes, participa das Unidades de Gerenciamento de Recursos Hídricos (UGRHI) que mais demandam água para o setor industrial. Por conta da concentração populacional, também tem alta demanda em uso urbano e apenas não participa de forma significativa no uso agrícola. Desta forma fica bem relacionada a demanda com as características econômicas da área metropolitana de São Paulo. (São Paulo Estado, 2013). No ano de 2014 ocorre crise no sistema Cantareira que bate seguidos recordes de baixa em seus reservatórios. A Sabesp faz grandes campanhas inclusive com desconto para consumidores econômicos. Há sérias críticas ao gerenciamento da Sabesp que é acusada de descuido com a rede de abastecimento e de negligência por não aumentar os pontos de captação. Até o momento da redação deste artigo, a possibilidade de rodízio de abastecimento não foi totalmente descartada. Destaca-se, neste levantamento inicial de dados, que as iniciativas levadas a termo pelas empresas responsáveis pelo abastecimento público da cidade de São Paulo e posteriormente de toda a Região Metropolitana, ao longo de mais de 130 anos segue a mesma lógica: buscar nascentes limpas, afastando-se cada vez mais da área de consumo. CONSIDERAÇÕES FINAIS O Rio Aricanduva é tributário do Tietê, enquadrando-se na UGRHI 06-Alto Tietê (AT), a qual vem apresentando a pior qualidade de água, sendo a única UGRHI a apresentar, em alguns pontos de monitoramento, a qualidade péssima (São Paulo Estado, 2013). As nascentes do rio Aricanduva não são citadas no índice de qualidade da água bruta para fins de abastecimento público, pois não é utilizada para tal fim, ao mesmo tempo em que seu índice de estado trófico é medido somente em seu ponto de deságüe. (São Paulo Estado, 2013). Neste estágio preliminar de nossa pesquisa depreendemos considerando os piscinões, a ausência de controle de qualidade de água bruta e a existência de controle de estado trófico somente de sua foz que os dados que encontramos de qualidade estão

7 estritamente relacionados à contenção de inundações, sem citações quanto ao aproveitamento de suas águas. Acreditamos que além das iniciativas de busca de captação de água, as empresas de saneamento devam reconsiderar sua lógica, considerando novas possibilidades, eventualmente mais próximas da área de consumo. BIBLIOGRAFIA AZEVEDO, A. E. Subúrbios Orientais de São Paulo. Tese (Concurso à Cadeira de Geografia) - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo, DÉLI, F. R. O Povoamento e a circulação no vale do Aricanduva, da colonização ao início da urbanização: momento da fragmentação do espaço numa porção da zona leste paulistana. GEOUSP - Espaço e Tempo, São Paulo, nº 18, p , Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Censo Disponível em: <http://cidades.ibge.gov.br>. Acesso em 12 jun MONBEIG, P. Aspectos Geográficos do Crescimento da Cidade de São Paulo. In: Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, nº 16 mar Boletim Paulista de Geografia, São Paulo, nº 81, p , jul., SANTOS, Marcia Regina Fracaro. Análise da Fragilidade dos ambientes Naturais e Antropizados no Distrito do Iguatemi São Paulo SP Trabalho de Graduação Individual (Graduação em Geografia) Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, 2007 (no prelo). FONSECA, F. P.; VILAR D. D. De Gota em Gota. Revista de História da Biblioteca Nacional, ed. 102, mar., Disponível em: <http://www.revistadehistoria.com.br>. Acesso em 12 jun Empresas de Saneamento em São Paulo. Dossiê Institucional, Espaço das águas, Fundação Patrimônio Histórico da Energia e Saneamento, Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo Sabesp. São Paulo, Set., Agência Nacional de Águas (ANA), Atlas Brasil Abastecimento Urbano de Água. Disponível em: <http://atlas.ana.gov.br>. Acesso em: 09 jun São Paulo (Estado). Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos. Coordenadoria de Recursos Hídricos. Plano Estadual de Recursos Hídricos (PERH): 2012/2015. São Paulo, Vols. I e II, 2013.

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