Bernardete Isabel Zanchetti Orientador: profª Drª. Carmem Craidy

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1 1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM EDUCAÇÃO PROFISSIONAL TÉCNICA DE NÍVEL MÉDIO INTEGRADA A EDUCAÇÃO BÁSICA NA MODALIDADE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS A IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO PRISIONAL E AS PRÁXIS DOS DOCENTES DO NEEJACP DO PRESÍDIO ESTADUAL DE BENTO GONÇALVES Bernardete Isabel Zanchetti Orientador: profª Drª. Carmem Craidy Bento Gonçalves 2009

2 2 FICHA CATALOGRÁFICA Z27i Zanchetti, Bernadete Isabel A importância da educação prisional e o práxis dos docentes do NEEJACP do Presídio Estadual de Bento Gonçalves / Bernadete Isabel Zanchetti ; orientadora Carmem Craidy. Bento Gonçalves, f. Trabalho de conclusão (Especialização) Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação. Curso de Especialização em Educação Profissional integrada à Educação Básica na Modalidade Educação de Jovens e Adultos, 2009, Porto Alegre, BR-RS. 1. Educação. 2. Educação de Jovens e Adultos. 3. EJA. 4. EJA Presídios. 5. Educação Presos. 6. NEEJACP Presídio Regional de Bento Gonçalves. I. Craidy, Carmem. II. Título CDU CIP-Brasil. Dados Internacionais de Catalogação na Publicação. (Jaqueline Trombin Bibliotecária responsável - CRB10/979)

3 3 LISTA DE SIGLAS EJA Educação de Jovens e Adultos NEEJACP Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos e Cultura Popular LEP Lei de Execução Penal SUSEPE Superintendência de Serviços Penitenciários LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional CRE Coordenadoria Regional de Educação

4 4 INTRODUÇÃO Vivemos em uma sociedade materialista, capitalista que exclui e marginaliza os que são menos favorecidos contribuindo para que esses indivíduos acabem em presídios. Lembrando que a educação é um direito de todos e dever do Estado, esta deve ser promovida e incentivada, como condição da democracia. Segundo o parecer CNE/CEB n 11/2000, a EJA (Educação de Jovens e Adultos) é compreendida como uma dívida social não reparada para os que não tiveram acesso e nem domínio da escrita e leitura como bens sociais na escola ou fora dela. Dados estatísticos da SUSEPE de novembro de 2008, comprovam que 68,3% dos apenados no Rio Grande do Sul não têm ensino fundamental completo. Mas dentro desse contexto, como educar os apenados? Será que vale a pena educar criminosos? Até que ponto a educação escolar pode contribuir para a reabilitação de um presidiário? Educadores prisionais tem-se feito estas indagações e sentem-se indignados com o descaso dos órgãos responsáveis pela educação no âmbito prisional. A mesma se apresenta como um problema social grave que está longe de encontrar um equacionamento adequado. A lei de execução penal deixa claro que o preso tem direito à escolarização, trabalho e formação profissionalizante. Esta lei defende e protege o presidiário. A gravidade do problema pode ser constatada na própria estrutura física das prisões que não prevê espaço para estas atividades. A realidade do presídio de Bento Gonçalves é de que os presos estão abalroados nas celas, pois o espaço destinado a 8 presidiários aloja em média 17, mais que o dobro, o que resulta em situações agravantes e humilhantes como a de dois presos dividirem o mesmo leito ou dormirem no chão. De acordo com uma entrevista dada pelo diretor do presídio, o Senhor Luciano Bitencourt, confirma-se a superlotação. Temos 302 detentos, as celas tem 8 leitos. Eles dormem no chão ou na posição de valete (os pés de um ficam ao lado da cabeça do companheiro e vice-versa). O ambiente prisional por si só já é bem deprimente, ainda mais acrescido com estas situações desumanas contribui para a baixa auto estima dos presos.

5 5 Já a escola deste presídio, é um espaço onde as tensões são aliviadas, o que justifica sua existência e seu papel na ressocialização do preso, pois os apenados que tem acesso à educação terão mais probabilidades de acesso ao mercado de trabalho. É na escola que o preso passa a sentir-se mais sujeito do que objeto, é onde pode sentir-se mais livre, pois é na escola que ele tem a liberdade de falar o que pensa, de expressar suas idéias e se revelar verdadeiramente um ser humano. Segundo BRANDÃO (2005,p.8) As idéias transformam as pessoas e as pessoas transformam o mundo. Todo o conhecimento e experiências adquiridas em sala de aula são bagagens que podem transformar paulatinamente o presidiário. Este artigo tem como fonte além da bibliografia especializada, a palavra de 35 detentos do presídio estadual de Bento Gonçalves que freqüentam a escola no presídio e responderam um questionário que foi elaborado e aplicado pela pesquisadora. Essa pesquisa foi desenvolvida em quatro momentos: no primeiro momento este estudo teve um enfoque teórico onde foram consultados alguns autores que certamente auxiliaram na compreensão do contexto educacional prisional, como Freire (1983,1995,2004,2005), Gadotti (1993), Sykes (1999), entre outros. No segundo momento estivemos entrevistando uma educadora que iniciou as atividades educacionais no presídio estadual de Bento Gonçalves. No terceiro momento aplicamos um questionário ao público alvo: os alunos da NEEJACP no presídio estadual de Bento Gonçalves. Quarto e último momento, analisamos os dados coletados por meio do questionário e procuramos relacioná-los com as teorias estudadas, visando concluir o nosso trabalho. Palavras-Chave: EJA, Presídios, Educação, Preso

6 6 BREVE HISTÓRICO Na metade da década de 80, teve início no presídio estadual de Bento Gonçalves, o funcionamento de um subnúcleo da EJA, (Educação de Jovens e Adultos) ligado ao núcleo central localizado na Escola Estadual de Ensino Fundamental General Bento Gonçalves da Silva já existente no município de Bento Gonçalves.

7 7 Segundo o depoimento da professora Irdes Baruffi, o atendimento era feito uma vez por semana aos detentos. O material era entregue a eles nas celas pelos agentes penitenciários. Os presos resolviam as atividades que eram em módulos, devolviam aos agentes e esses repassavam para a professora corrigi-las. Assim era feito uma auto aprendizagem para aqueles que iriam prestar o exame supletivo. É importante salientar que os presos não mantinham contato nem comunicação oral, direta com a professora, tudo era por bilhetes e através dos agentes penitenciários. Com a promulgação da nova constituição brasileira de 1988, o secretário de justiça do Estado do Rio Grande do Sul da época, Bernardo de Souza, teve a iniciativa de montar uma escola dentro do presídio que serviria de experiência e de modelo para todo o estado. Na mesma época, o diretor do presídio, Paulo Tadeu Rocca Souza, iniciou um processo de implantação do núcleo junto à 16ª CRE do município de Bento Gonçalves e deuse assim o desligamento do núcleo central acima referido. É importante ressaltar, que esse desligamento não foi nada pacífico, havendo muitos conflitos entre secretários de justiça e de educação que resultaram em graves pressões sobre as professoras e as pessoas comprometidas com a educação dos presidiários, o que foi uma manifestação do preconceito e descompromisso das autoridades com a educação prisional. No início da década de 90, foi implantado o núcleo NEEJACP, que é o núcleo atual do presídio de Bento Gonçalves, o qual iniciou com duas salas de aula e uma biblioteca, esta montada e organizada por uma professora com formação freireana e marxista, Irdes Baruffi, que atuou como educadora no mesmo e que tinha por objetivo desenvolver e adaptar os conteúdos à realidade brasileira e a realidade específica destes alunos. Segundo esta professora, não se tratava de ensinar conteúdos cartilhados, isto é, o conhecimento científico e que buscasse a promoção dos presos em níveis sucessivos de conhecimento, mas sim através da educação humanizar com um relacionamento pedagógico que atingisse não só o preso, a família, como também o próprio sistema prisional, isto é, direção e agentes penitenciários. Apenas duas profissionais em educação deram início às atividades prisionais; uma em alfabetização e a professora Irdes em ensino aprendizagem para as séries iniciais. Os primeiros contatos com os presos não foram nada animadores, pois eles não falavam,

8 8 andavam cabisbaixos, não erguiam o olhar para o educador, caminhavam com as mãos atrás das costas. Os agentes quando se dirigiam a eles não os chamavam pelo nome, eram ditos como assassino, bandido, marginal, ladrão, etc. Quebradas todas essas barreiras, e graças à coragem dessa educadora iniciaram-se as atividades, os trabalhos de humanização e projetos de higiene. Havia mais um obstáculo a ser vencido; a diretora do núcleo era contra esse modelo freirano/marxista e fazia tudo o que podia para prejudicar e barrar o bom desempenho das aulas. Inclusive entrava nas salas de aula rasgava cartazes e trabalhos que estavam expostos e que tinham sido elaborados pelos próprios presos. Ridicularizava as professoras e induzia os detentos contra as mesmas, mas nos momentos em que os trabalhos e ou detentos eram elogiados, por outrem, quem levava os méritos era a diretora da escola. Com o passar do tempo e a persistência, as professoras foram ganhando espaço e crédito junto aos detentos e a direção do presídio. Pode-se observar nos primeiros tempos de núcleo da EJA, que havia mudanças visíveis no detento que participava das aulas; na conduta, no respeito e esse contagiava os seus companheiros de cela, quanto a hábitos de higiene e relações humanas. Houve grande progresso no aprendizado, na humanização (inclusive dos agentes), na limpeza, na higiene, etc. Aprenderam o que é a democracia e a reivindicar seus direitos e melhorias nas celas; tanto que quando preciso eles mesmos faziam as reivindicações para o diretor do presídio. Houve um aprendizado. Deu certo e sendo a primeira experiência, influenciou outras escolas no presídio do estado e mesmo no Brasil. Formou-se o núcleo de supletivo de ensino presencial para NEEJACP, e a única diferença entre o ensino do supletivo e a escola é que esta podia fazer a avaliação dos alunos com certificação da própria escola. Ocorria que os educadores tinham receio em avaliar e resistiram à avaliação, uns por medo de propina e pela corrupção que poderia se instalar ali para a aquisição de certificados e outra por não terem como avaliar os presos devido à alta rotatividade no presídio.

9 9 ATUALIDADE / MARCO TEÓRICO Atualmente o NEEJACP do presídio estadual de Bento Gonçalves conta com quatro salas de aula, uma biblioteca e uma sala de artesanato, um corpo docente de doze profissionais de educação e uma nova diretora também com formação freireana, a qual apóia e trabalha juntamente com o corpo docente montando e executando projetos que visam melhoria de vida

10 10 aos detentos quando em liberdade.o corpo discente é composto por 115 alunos, sendo que 95 alunos freqüentam as salas de aula e 20 o artesanato. O papel da educação no cárcere deve ser de re-educar os criminosos e auxilia-los a ter uma visão mais ampla de mundo, a buscar outras formas de inserção na sociedade, pois observamos que os detentos que tem acesso à escola estão mais acessíveis ao mercado de trabalho, e mais aptos ao convívio externo. É através do ensino que os encarcerados tem a oportunidade de se humanizarem e se transformar. Ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo. As pessoas se educam entre si, mediatizadas pelo mundo. (FREIRE,1995) A educação é transformadora quando se quer transformar. O ensino aprendizagem se faz com o professor por que ele é mediador. O ambiente prisional vai muito além do espaço físico, sala de aula, pois este espaço educativo nem sempre é suficientemente valorizado. Pode eventualmente o ambiente prisional favorecer aprendizagens corrosivas à índole do indivíduo, como: a repressão, ameaças, maus tratos, brigas, furtos, drogas, etc. A sociedade dos encarcerados não é só fisicamente comprimida, mas também psicologicamente, visto que eles vivem em uma intimidade forçada, na qual o comportamento de cada homem está sujeito tanto à inspeção constante dos colegas cativos quanto à vigilância dos administradores. A prisão subjuga o detento ao comando de uma estrutura autoritária de uma rígida rotina. Os presos não podem andar com os braços soltos ao lado do corpo, são obrigados a andar de braços cruzados e quando cruzarem por qualquer pessoa nos corredores da galeria, devem parar, virar de frente para a parede e esperar a pessoa passar e só depois seguir para onde estava se direcionando. O aprisionado sofre uma deterioração de sua identidade, e lhe é forjada uma nova. Isso implica na desadaptação dos padrões convencionais e adaptação aos novos impostos pela instituição. Não existe um código, e sim a cautela, que é imprescindível ao convívio. Em suas ações cotidianas, ele sabe a quem deve obedecer; vê, ouve e tem conhecimento do que acontece, mas tem consciência de que às vezes é melhor não expressar verbalmente seu pensar.

11 11 Para proteger-se, o indivíduo assume posturas e discursos que dele se esperam, driblando valores e normas, usando máscaras, resistindo silenciosamente, buscando o confronto para sobreviver. Seus depoimentos expressam conformismo e resistência, que são a maneira que encontram para sobreviver às imposições do sistema (Teixeira, 1988, p. 183). Vale lembrar que a máscara e a duplicidade são meios de proteção contra todas as formas absolutizáveis. A máscara oferece um refúgio bastante seguro: permite o existir e propicia, fazendo como todo o mundo faz, o esconder-se. A educação pode e deve contribuir para a formação de jovens e adultos, homens e mulheres justos e competentes, cidadãos autônomos e capazes de agir em sociedade de forma positiva. Deve preocupar-se com indivíduos preparando-os a assumir seu papel no trabalho e na sociedade. Quando se fala em ensino, se fala em relações de sujeito para sujeito, de sujeito com a vida, de formação básica e de formação tecnológica. O ser humano é relação, constrói-se na relação com o outro e com o mundo e só se diferencia e se assemelha no espaço relacional. As características pessoais são construídas na história interacional de cada um e tomam sentido em relações situadas e contextualizadas. (ROSSETTI, 2004,p.124.) A educação é um direito fundamental de todos, homens e mulheres, de todas as raças, de todas as idades, no mundo todo; cada ser humano, criança, jovem ou adulto, deve ter condições de aproveitar as oportunidades educativas voltadas para satisfazer suas necessidades básicas de aprendizagem, independentemente do meio em que se encontram. Nesse sentido, no cenário atual existem iniciativas e projetos que visam garantir esse direito aos presos. Educação para todos não significa qualidade. Um ensino burocrático, conteudista poderá oferecer uma boa base de conhecimentos, mas não levará a redução da criminalidade, talvez até ajude a sofisticá-los. O problema é complexo, não se pode dizer que investindo em educação nos presídios necessariamente vai diminuir a violência nas ruas. Mas a instrução prisional pode contribuir

12 12 para as pessoas se desenvolverem e buscarem alternativas para a sua reinserção na sociedade. Como ensinar? O que ensinar aos que estão atrás das grades? Quem ensina quem? O educador deve ter sensibilidade e crer no ser humano e em sua capacidade de regeneração, compreendendo-o como um ser inacabado, que tem potencialidade e vivência a serem consideradas segundo a dialética freireana, e ao pensar na educação do homem preso, não se pode deixar de considerar que o homem é inacabado, incompleto, que se constitui ao longo de sua existência e que tem a vocação de ser mais, o poder de fazer e refazer, criar e recriar. (Freire,1983;p.81). Conhecer um pouco do seu cotidiano, seus sonhos, seus engajamentos culturais, sociais e políticos, nos aproxima cada vez mais deles e nosso olhar antes restrito vai se transformando em um novo olhar, mais rico e interessante, pois o papel do educador prisional é o de olhar a pessoa marcada por suas ações impensadas, com um olhar respeitoso, um olhar diferenciado. De acordo com Freire: Não é possível respeito aos educandos, à sua dignidade, a seu ser formando-se, à sua identidade fazendo-se, se não se levam em consideração as condições em que eles vem existindo, se não se reconhece a importância dos conhecimentos de experiência feito com que chegam à escola (FREIRE,2004,p.64). Somente quando o preso sente a amizade sincera do educador, destas que não exige retorno, é que se inicia o processo de autoconfiança, é aqui que se dá à dialógica, revitalizando os seus próprios valores. Os educadores deverão estar atentos às falhas dos presos e procurar interferir e orientá-los sempre que necessário, mostrando a importância das mudanças de comportamento para conquistar, lutar e ter direito a dignidade. Além das competências previstas em nossa proposta pedagógica devemos enfatizar valores, respeito, limites, responsabilidade, reflexão, auto-avaliação, capacidade de mudança, permitindo assim que o educando acredite e persista na possibilidade de mudança e persistência em seus objetivos, buscando assim a reestruturação social. Nesse sentido Freire afirma: Se estivesse claro para nós que foi aprendendo que aprendemos ser possível ensinar, teríamos entendido com facilidade a importância das experiências informais nas ruas, nas praças, no trabalho,nas salas de aula das escolas, nos pátios dos recreios, em que variados gestos de alunos, de pessoal administrativo,de pessoal docente se cruzam cheios de significação. (FREIRE,1995,p.50)

13 13 É de suma importância salientar que os educadores prisionais devem ser qualificados, com uma formação específica, especializada, para melhor atuar e conviver com os apenados, pois não podemos esquecer que são seres humanos fragilizados, marginalizados e que estão entre as grades por uma questão de exclusão da sociedade. Para Gadotti (1993,p.136) A ternura não deve morrer jamais no educador. É o sentimento que não deve morrer nunca, pois se entende que esse sentimento é que fomenta o educador a ultrapassar todos os obstáculos do sistema educacional. Ainda que Freire não tenha trabalhado diretamente com educadores prisionais, nos deixou uma forte base teórica, de práxis epistemológica que tem colaborado para dar sustento ao nosso trabalho. Segundo Freire (1995,p.96)...a melhor afirmação para definir o alcance da prática educativa em face dos limites a que se submete é a seguinte: não podendo tudo, a prática educativa pode alguma coisa. Uma das práxis pedagógicas mais satisfatórias nos presídios é lidar com os presos com amor, com delicadeza, agindo com naturalidade, mas com sinceridade, elogiando-os quando for oportuno, procurando dialogar sempre que sentirem a necessidade e estimulá-los com palavras otimistas de modo que possam sentir-se valorizados. De acordo com Gadotti: A característica fundamental da pedagogia do educador em presídios é a contradição, é saber lidar com conflitos, com riscos. Cabe a ele questionar de que maneira a educação escolar pode contribuir para a prisão e o preso, para tornar a vida melhor e para contribuir com o processo de desprisionalização e de formação do homem preso. (1993, p.128) Nesse sentido acreditamos que o conhecimento é trazido pelo afetivo, o preso aprende bem o que lhe causa interesse, numa atmosfera de aula que lhe pareça segura, com um professor que sabe criar afinidades. A transmissão de conhecimento e, consequentemente, a aprendizagem acontece simultaneamente com a compreensão e valorização das pessoas envolvidas no processo educativo, pois deve haver um entrelaçamento entre educação e vida. Os baixos índices de educação da população encarcerada apontam para o grau de marginalização e exclusão a que está submetida.a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Lei Federal n 9.393/96, Título V Capitulo II - Da Educação de Jovens e Adultos

14 14 Artigo 37, expressa: A educação de jovens e adultos EJA será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria. 1º Os sistemas de ensino asseguram o direito ao estudo. Na lei nº /1984, Seção IV Capitulo II - Da LEP, artigo 17, diz: A assistência educacional compreenderá a instrução escolar e a formação profissional do preso e do interno. Artigo 18. O ensino de 1º grau será obrigatório, integrando-se no sistema escolar da unidade. A educação é direito dos presidiários e condição para a sua inclusão social. A EJA e a educação profissional são modalidades regulares adequadas à educação em prisões e não se confundem com cursos aligeirados ou mais simples. Temos o direito de ser iguais sempre que a desigualdade nos inferioriza e temos o direito de ser diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza. (Boaventura de Souza Santos). mos um questionário que foi respondido por 35 presos que freqüentam a escola no Com o objetivo de levantar a visão dos presos sobre a escola, aplica presídio. Estes alunos fizeram questão de participar e alguns de se identificar na folha de respostas. Os sujeitos vêem a escola de diferentes modos, mas sua freqüência justifica desde o desejo de aprender, de passatempo, a ocupação da mente, pela remição, etc. Após a aplicação do questionário e analisando as respostas dadas pelos alunos, chegamos à conclusão de que mesmo não tendo consciência da função histórica da escola e de seu papel na construção da cidadania, ao frequentá-la, eles aprendem a acatar as regras visando buscar alternativas possíveis para abreviar sua estada neste ambiente prisional ou conseguir benefícios que lhes possibilitam o regime semi-aberto. De um modo geral esses foram os resultados que obtivemos no questionário aplicado aos detentos. Perguntado aos detentos se estavam gostando da nova oportunidade de freqüentar a escola, a maioria deles respondeu que sim, pois é onde tem a oportunidade de melhorar de vida: Sim, porque abriu novas oportunidades no mercado de trabalho e quanto mais aprendo menos penso em coisas erradas. O estudo é muito importante para crescermos com pessoa e ter mais chances e perspectivas de uma vida melhor.

15 15 Acreditam que a escola os manterá atualizados e informados em relação às mudanças que ocorrem fora da prisão: A escola serve para aprimorar meus conhecimentos e para um futuro melhor.. A escola além de ser ocupação, proporciona-lhes a possibilidade de se relacionarem com o mundo externo: O mercado de trabalho hoje em dia exige conhecimento e o estudo foi a melhor opção. Ali, eles têm contato com práticas e opiniões externas às do mundo prisional". Aqui estudando assim passa o tempo mais depressa aqui eu estudo, trabalho, faço artesanato e jogo bola. Uma das questões feitas aos presos, nos surpreendeu com a resposta obtida, pois ao questionar qual o motivo que os têm levado a freqüentar a escola no presídio, dos 35 entrevistados, apenas 5 responderam que era para obterem a remição: Para sair da cela e ganhar a remição. A prática da remição pelo ensino, embora não prevista na LEP, já é adotada há tempos, com sucesso, à base de um dia de pena por dezoito horas de estudo.os demais presos apontam a escola como um espaço onde se sentem mais livres, onde tem a oportunidade de aprender e conversar com os colegas de todos os pavilhões e com os professores em quem confiam: Eu gosto de ir pra aula pra sair da cela e estar com os professores. Apontam à sala de aula como local onde sentem maior segurança. Gadotti afirma neste sentido (1999,p.62) que educar é libertar. A única força que estimula um preso é a liberdade; ela pesa grande força de pensar. Dentro da prisão, a palavra e o diálogo continuam sendo a principal chave para a liberdade: O estudo me ajuda para quando eu sair conseguir ter oportunidade melhor. Os objetivos da escola são mais concretos e reais, pois uns querem aprender a ler, escrever, calcular, outros buscam aperfeiçoar, aprofundar e ampliar conhecimentos: Eu adorei voltar a estudar pois com essa oportunidade pude concluir o ensino médio e pretendo fazer vestibular para entrar na faculdade. Outros tem sede de vida e curiosidade em saber o que acontece fora dos muros da prisão,mas de acordo com Mello (1987, p. 78)...é ensinando a ler, escrever, calcular, falar, e transmitindo conhecimentos básicos do mundo físico e social,

16 16 que a educação escolar poderá ser útil às camadas populares. O crime financia seus sonhos depois cobra um alto preço. Pensamento escrito por um aluno da T4. Mas a escola prisional guarda especificidades que a diferenciam de outros espaços. A sociedade dos cativos mantém expectativas em relação à instituição escolar enquanto à aquisição de conhecimentos e ao preparo para o convívio social. A educação serve para melhorar os índices de escolaridade e auxilia na escolha de projeto de vida. A escolarização do preso deve adequar-se às suas características, necessidades e formas de ser. Concordamos com Santos (2002,p.105) quando este afirma que, faz parte do imaginário dos detentos a expectativa de ter acesso aos conhecimentos acumulados, via escola, e isso não sofre variação se essa instituição está dentro ou fora da prisão. Consideramos então, que a educação no presídio estará sempre preocupada com a promoção humana, procurando tornar o homem cada vez mais capaz de conhecer os elementos de sua situação para intervir nela. Pensar em ensino escolar na prisão significa, nesse sentido, refletir sobre sua contribuição para a vida dos encarcerados, por meio da aprendizagem participativa e da convivência fundamentada na valorização e do crescimento do outro e de si mesmo. Significa, ainda pensar numa escola capaz de fazer do preso um homem [...] informado e participante do mundo em que vive, adquirindo consciência crítica que favorece a capacidade de questionar e problematizar o mundo, condição necessária para a práxis social transformadora.(mello,1987, p.90) O caminho se faz caminhando, dizia Freire (2005), pois o espaço escolar, é um lugar onde vivem experiências numa situação de interação,em que existe a possibilidade de respeito mútuo, de troca de cooperação,de resgate da dignidade humana, o que contribui para que a pena possa ser vivida de um modo mais humano. Nesse sentido questionamos: Há uma metodologia especifica, para que os docentes possam transmitir conhecimento a seus alunos encarcerados? Qual metodologia devemos aplicar? Em se tratando de um contexto diferenciado pode-se afirmar que não há uma metodologia específica ou um receituário, pois na prisão a cada dia surge uma nova realidade, diferenciada nas salas de aula; são presos que vão para o externo (trabalhar fora da prisão), outros estão chegando, outros

17 17 doentes...mas cabe ao educador traçar sua práxis, e usar toda sua ternura, sensibilidade e criatividade para fisgar o preso e despertar seu interesse nas aulas. Mas será que vale a pena investir em prisioneiros? Pensamos que sim, pois é nesse espaço que o professor pode colocar suas intenções de transformação, de mudar atitudes, capacidades e idéias. A escola é um meio de oportunizar a socialização, na medida em que oferece ao aluno outras possibilidades referenciais de construção de sua identidade e de resgate da cidadania perdida. Temos que acreditar na ressocialização dos presidiários, caso contrário o nosso trabalho como educadores junto a eles não terá nenhuma valia. Somos do tamanho daquilo que pensamos, portanto precisamos ser gigantescos, porque somos referenciais e deixamos marcas profundas que acompanharão nossos educandos, querendo ou não nos tornamos responsáveis por aqueles que educamos. Se nós, profissionais da educação prisional, que temos acesso direto com nossos presos não fizermos a diferença, quem fará? A lei e a justiça são lentas, e devem permanecer assim, pois os criminosos são presos para que a sociedade possa livrar-se deles. Os criminosos são colocados na prisão não para punição, mas como punição. (Sykes,1999). Sabemos que na prática não existe a reeducação como almejamos, porque a principal preocupação do sistema penitenciário ao receber um indivíduo condenado não é a sua reeducação, mas sim a privação de sua liberdade. Também é importante ressaltar que o preso aproveita, ou acaba aproveitando a oportunidade para se educar, já que não o fez lá fora. E que sempre vale a pena investir na recuperação do ser humano, mesmo que isso exija um trabalho árduo e persistente ao educador. Conforme o sociólogo Salla (1999, p. 67) [...] por mais que a prisão seja incapaz de ressocializar, um grande número de detentos deixa o sistema penitenciário e abandona a marginalidade porque teve a oportunidade de estudar. Além da socialização de um saber sistematizado, a educação no sistema penitenciário tem a tarefa de ressocializar o indivíduo do ponto de vista social, moral e ético. Diz Fragoso

18 18 (1996,p.291) Escopo da pena é aqui, a ressocialização do condenado, ou seja, a finalidade de reincorporá-lo à sociedade. Concluímos que a privação da liberdade única exclusivamente não favorece a ressocialização. Mas a educação prisional favorece a reintegração do indivíduo na sociedade? Precisamos desenvolver programas educacionais no sistema penitenciário que visem alfabetizar e construir a cidadania dos presos. A conscientização, deve ser uma das práxis para a transformação do mundo dos presos, pois através da ação-reflexão é que formaremos novos cidadãos.cabe ao poder público e a sociedade em geral se preocuparem e se comprometerem com a educação. Também é fundamental que não esqueçamos de que necessitamos investir em propostas políticas que viabilizem o retorno do preso à sociedade, visto que as atuais estão um tanto ultrapassadas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Vocação de Educar algumas palavras sobre o exercício do trabalhador da educação. Mimeo, 2005.

19 19 FRAGOSO, Heleno Cláudio. A Nova Parte Geral. 10ª Edição. Rio de Janeiro: Forense, FREIRE, Paulo. Política e educação. São Paulo: Cortez, Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, Pedagogia da Autonomia. 30ª ed. São Paulo: Paz e Terra, & HORTON, Myles. O caminho se faz caminhando conversas sobre educação e mudança social. 3ª ed. Petrópolis: Vozes, GADOTTI, M. Palestra de encerramento. In: Maida, M. J. D. (Org.) Presídios e educação. São Paulo: Funap, pp MELLO, G. N. Educação escolar- paixão, pensamento e prática. São Paulo: Cortez, ROSSETTI, Clotilde Ferreira. Redesignificações e o estudo do desenvolvimento humano. Porto alegre: Artmed, SANTOS, S. A educação escolar no sistema prisional sob a ótica dos detentos. São Paulo SYKES, G. M. The society of captives: a study of a maximum security prison. New Jersey: Princeton University Press, TEIXEIRA, M. C. S. Sócio-antropologia do cotidiano e educação. Rio de Janeiro: Imago, BIBLIOGRAFIAS CONSULTADAS ALVES, Ivonete Aparecida. Formação de Formadores em Presídios. São Paulo. Funap, 2007.(Não publicado)

20 20 BREITMAN, Miriam I. Rodrigues. Mulheres, crimes e prisão: o significado da ação pedagógica em uma instituição carcerária feminina. Porto Alegre,1989. CAMARGO, Antonio Luis Chaves. Sistemas de Penas, Dogmática Jurídico Penal e Política Criminal. São Paulo: Cultura Paulista, CAPELLER, Wanda. O Direito pelo avesso: análise do conceito de ressocialização. Temas IMESC, Soc. Dir. Saúde, São Paulo, DEMO, Pedro. Violência Social Prenúncios de uma avalanche. Revista do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, Min. Justiça/Brasília, v.1, n. 3, p. 9-33, FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir histórias da violência nas prisões. 18ª ed. Petrópolis: Vozes,1998. FURTER,Pierre.Educação e Vida.Petrópolis.Vozes GOFFMAN, Erving. Manicômios, prisões e conventos.são Paulo: Editora Perspectiva, GRAMSCI, Antonio. Selections from prision Notebooks. New York: International Publishers, LEMGRUBER, Julita. Nem todo criminoso precisa ir para cadeia: a prisão só serve para quem ameaça a sociedade. Revista Super Interessante, Edição Especial: Segurança. São Paulo:Editora Abril, pp MORAES, Pedro R. Bode. A retórica e a prática da ressocialização em instituições prisionais. Curitiba: Grupos de Estudos da Violência UFPR, ROMÃO, José Eustáquio. Avaliação dialógica desafios e perspectivas. 6ª ed. São Paulo: Cortez: Instituto Paulo Freire, THOMPSON, Augusto. A Questão da Penitenciária. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1980.

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