O USO DE PROJETOS PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS

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1 O USO DE PROJETOS PARA O ENSINO DE CIÊNCIAS Andreza Olivieri Lopes Carmignolli1 UNESP Eva Poliana Carlindo2 UNESP Grupo de Trabalho Didática: Teorias, Metodologias e Práticas Agência Financiadora: não contou com financiamento Resumo O relato de experiência sobre O uso de projetos para o ensino de Ciências tem como objetivo mostrar como os projetos contribuem para a aquisição do conhecimento científico pelos alunos dos anos iniciais do ensino fundamental; e analisar como isso está presente na prática pedagógica dos professores. Diante disso, é possível observar como é construído o processo de ensino e aprendizagem de ciências e que intervenções são realizadas pelos professores no contexto escolar para que os alunos adquiram uma postura crítica e participativa diante das mudanças ocorridas na sociedade (BIZZO, 1998). O componente curricular de Ciências proporciona ao aluno pensar o mundo por meio da relação estabelecida na interação e reflexão dos conhecimentos adquiridos com as diferentes atividades práticas realizadas, tendo como ponto de partida aproximar os alunos do saber científico, levando-os a pensar sobre os fenômenos naturais e o uso das tecnologias em seu cotidiano, tendo como ponto de partida o conhecimento adquirido pela comunidade científica. O projeto desenvolvido teve como meta, a partir da análise das avaliações internas e externas, aumentar em 25% (vinte e cinco por cento) dos alunos que assimilam o conteúdo de Ciências sem a experimentação prática para cerca de 80% (oitenta por cento), de forma a oferecer um ensino significativo e de qualidade por meio de diferentes recursos pedagógicos e tecnológicos. Os Parâmetros Curriculares Nacionais orientam que no trabalho com o conteúdo de Ciências é necessário que seja enfatizado os três principais blocos no processo de ensino-aprendizagem: conceitos, procedimentos e atitudes garantindo que as experiências práticas são um dos melhores meios de integrar e explorá-los de forma articulada, onde a aprendizagem de procedimentos torna-se inerente ao processo de ensino-aprendizagem. Palavras-chave: Ensino de Ciências. Projeto. Prática Pedagógica. 1 Graduada em Pedagogia pela Faculdade de Ciências e Letras da UNESP Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho. Professora da rede estadual de ensino de Araraquara. Membro do Grupo de Estudos Bourdianos. 2 Doutora em Educação Escolar pela Faculdade de Ciências e Letras da UNESP Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho. ISSN

2 17212 Introdução O projeto O ensino de Ciências através da experimentação é resultado de uma pesquisa já realizada no ano de dois mil e treze sobre a prática de ensino da disciplina de Ciências de um grupo de professores que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental que teve como principal objetivo identificar na prática docente diferentes formas e estratégias utilizadas para o ensino da referida disciplina. O ensino de Ciências através da experimentação foi desenvolvido dentro do componente curricular de Ciências Físicas e Biológicas no período de agosto de 2014 a novembro de 2014, em uma escola pública estadual de uma cidade do interior paulista, que oferece Ensino Fundamental em Regime de Progressão Continuada de Ciclo I de Alfabetização 1º ao 3º anos e Ciclo II Intermediário, do 4º ao 5º anos com aulas regulares no período matutino e à tarde. O objetivo da equipe escolar é oferecer um ensino de qualidade que leve o educando a desenvolver sua competência leitora, escritora e apropriar-se do conhecimento matemático de forma plena e consistente permitindo a este prosseguir em seus estudos. A clientela desta escola é constituída por crianças de 05 a 10 anos, em sua maioria com bom desempenho escolar, envolvida com diferentes estratégias de ensino, como projetos, pesquisas, estudo e tarefas escolares. As famílias, em sua maior parte são constituídas por pessoas de baixa renda, formada por comerciários, industriários, funcionários públicos, autônomos (prestação de serviços), domésticas, etc. e em relação ao nível de escolarização dos pais, é possível afirmar que a maioria possui o Ensino Médio completo. Para a realização desse projeto a escola precisou fazer adesão em um dos programas da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo (SEE/SP), denominado Implementação de Projetos Descentralizados nas Unidades Escolares dos Anos Iniciais, Finais e de Ensino Médio (PRODESC), que tem por finalidade subsidiar as ações pedagógicas por meio de projetos nas diferentes áreas de conhecimento. Na PRODESC os projetos são cadastrados em uma ferramenta digital especialmente desenvolvida para essa finalidade pela Rede do Saber 3. A partir do site, estão disponíveis todas as informações necessárias e os links de acesso às diferentes etapas de cadastramento, desenvolvimento e finalização do projeto. Para 3 Rede do Saber é uma plataforma digital que transmite videoconferências com a finalidade de orientar e capacitar professores e servidores da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo.

3 17213 cadastro, a Unidade Escolar deverá usar o código institucional da escola (CIE), acrescido das letras ESC para acessar e preencher o formulário eletrônico. Objetivos Identificar como são trabalhados os conteúdos curriculares de Ciências Físicas e Biológicas nos anos iniciais do ensino fundamental do primeiro ao quinto ano, através da utilização de diferentes recursos materiais como: livro didático e paradidático, jogos e apostilas de programas de ensino disponíveis na escola. Analisar como os professores organizam as atividades práticas com a finalidade de levar os alunos a utilizarem seus conhecimentos prévios na construção de novos saberes. Tendo como documento norteador as Orientações Curriculares do Estado de São Paulo de Ciências Naturais e Ciências Humanas que apontam que o trabalho com esse componente curricular deve auxiliar no aprendizado da leitura e escrita por meio da utilização de textos científicos e questões ambientais relacionadas ao cotidiano dos alunos. Nesse sentido, os professores da rede estadual de ensino de São Paulo, contam com as expectativas de aprendizagens dos anos iniciais do ensino fundamental do 1º(primeiro) ao 5º(quinto) ano dos diferentes componentes curriculares que tem como finalidade nortear todo o trabalho do processo de ensino ao longo da trajetória escolar. Material e métodos O trabalho foi desenvolvido em seis turmas do ensino fundamental dos anos iniciais, sendo quatro turmas de quarto ano e duas turmas de quinto ano. Tendo como referência os documentos e matrizes curriculares do estado de São Paulo, foram levantados que tipos de materiais didáticos pedagógicos a escola possui e como são utilizados pelos professores em suas práticas cotidianas. A partir da análise dos planos de ensino, procedimentos avaliativos e conhecimentos adquiridos pelos alunos o trabalho foi estruturado da seguinte maneira: Definição do tema; Estabelecimento do conjunto de conteúdos necessários para que o aluno trabalhe o problema a ser investigado; Alinhamento de objetivos a alcançar; Seleção de atividades; Critérios de avaliação.

4 17214 As atividades práticas realizadas, durante a execução do projeto, foram de estados físicos da água, movimentos de translação e rotação, confecção do terrário e elaboração do herbário, onde foi possível acompanhar as atividades desde o planejamento pelo professor até a prática da sala de aula verificando o conhecimento adquirido pelo aluno ao final de cada atividade. Uma das atividades práticas que mais despertou o interesse da turma foi à confecção do terrário que se iniciou após os alunos terem estudado o ciclo da água e seus estados físicos. Mas tudo partiu da pergunta de um aluno: Como é que as plantas crescem em um aquário? e movidos pelo instinto investigativo foram até a coordenadora para perguntarem se a escola possuía um aquário ou qualquer outro recipiente para utilizarem na aula de Ciências e com a resposta de que a escola nunca teve aquário e também não havia sido solicitado nos materiais que seriam adquiridos com os recursos do PRODESC decidiram em uma roda de conversa que essa era uma questão interessante que gostariam de estudar. Mas não parou por aí, pois a professora lançou a pergunta se alguém saberia dizer o que de fato significava a atividade que pretendiam desenvolver e o que eles poderiam aprender? Então um dos alunos respondeu: que já havia ouvido falar e que o aquário com plantas chamava terrário e que ele só sabia que dava para acompanhar o crescimento das plantas e as relações entre elas e as formigas que faziam parte de um terrário. O passo seguinte foi fazer uma lista dos materiais necessários para a confecção do terrário e a decisão de que lugar iria ficar, já que a escola não possui um laboratório. Então foi decidido que o terrário iria ficar no pátio da escola para que todos os alunos pudessem observá-lo, mas essa idéia não deu muito certo devido à curiosidade de alguns alunos em tocar no plástico que vedava o terrário e acabar perfurando-o o que de certa forma iria interromper o equilíbrio entre os seres daquele ambiente. Sendo assim, o terrário retornou para a porta da sala de aula e os alunos que queriam observá-lo iriam até lá. A atividade realizada abordou conteúdos de diferentes tipos de solo, composição do ar, importância da água, diversidade de plantas, o papel da fotossíntese e principalmente a interação dos organismos de um ecossistema. No decorrer da atividade foi possível perceber a importância das atividades práticas para a construção do conhecimento científico, pois proporciona aos alunos levantar hipóteses, realizar julgamentos por meio de uma postura crítica.

5 17215 O herbário também despertou o interesse e a participação dos alunos, pois observaram folhas com diferentes formas, cores e tamanhos e após a secagem foi organizado um varal na sala com as folhas das diversas plantas que haviam coletado. E o resultado de todas essas práticas realizadas além de garantir um aprendizado prazeroso aos alunos teve o envolvimento dos pais que perceberam o quanto foi significativo o ensino por meio de atividades práticas, o que podemos observar pelo excerto de uma carta enviada para a professora de uma mãe: Tudo está se transformando em um grande aprendizado, porque as crianças são curiosas e tem um olhar observador e aprendem de verdade. Fundamentação teórica O ensino do componente curricular de Ciências Físicas e Biológicas vem passando por mudanças que vão desde alterações na legislação educacional, formação de professores, concepções sobre o processo de ensino-aprendizagem até a elaboração de materiais didáticos. A partir da década de 60 as principais alterações e aprimoramentos legais educacionais estão pautados na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) e foram marcadas pelas leis: Lei Nº 4024/61, Lei Nº 5692/71 e Lei Nº 9394/96. A seguir apresentamos alguns pontos fundamentais em relação ao ensino de Ciências e o período histórico do país. Lei Nº 4024/61: O conhecimento científico era neutro e inquestionável; apesar do cenário educacional estar passando por um momento de renovação, o ensino pautava-se na memorização de questionários e avaliações e o professor tinha o papel de transmitir os conhecimentos acumulados pela humanidade. Lei Nº 5692/71: Na década de 70 o ensino de Ciências passou a ser denominado como Ciências e Programa de Saúde aparecendo na grade curricular de todas as séries do 1º grau. Nesse período o ensino acompanha o processo de industrialização e as propostas de ensino tinham como finalidade acompanhar o desenvolvimento tecnológico do período. Sendo assim, o ensino de Ciências tem como objetivo levar o aluno a identificar problemas com base em observações para chegar a possíveis soluções por suas

6 17216 próprias conclusões. Lei Nº 9394/96: A Lei Nº 9394/96 traz como obrigatoriedade a abrangência do conhecimento do mundo físico e natural, tendo o ensino de Ciências como objetivo levar o aluno a compreender as mudanças do ambiente e atuar como cidadão participativo onde o professor tem o papel de conduzir a aprendizagem do aluno pautando-se por concepções construtivistas. Dessa forma, a história do ensino de Ciências mostra que o levantamento das mudanças educacionais está relacionado com as condições sociais, políticas e econômicas do país que contribuíram para a qualidade da educação brasileira através da formação de professores preocupados com o ensino de Ciências no Brasil, participação das universidades na produção de material didático e mudança dos métodos de ensino (ZANCUL, 2004). Atualmente podemos observar que os projetos de ensino é um dos recursos didáticos utilizados como ferramenta para auxiliar o processo de aprendizagem dos diferentes componentes curriculares. É um facilitador na construção do conhecimento por partir de situações concretas do cotidiano dos alunos. No contexto escolar, os projetos têm como finalidade proporcionar a construção da aprendizagem por meio da participação ativa dos professores e alunos num processo mútuo de troca de informações e experiências onde ambos estão inseridos no processo de aquisição do conhecimento de maneira significativa e prazerosa Leite (2007). Resultados e discussão O projeto contou com a participação de toda comunidade escolar, conforme pode ser observado na Tabela 1. Tabela 1 Número de pessoas envolvidas Pessoas envolvidas no projeto Número de participantes Direção 01 Professor coordenador 01 Professor 06 Alunos 180 Alunas do PIBID/Unesp 07 TOTAL 195 Fonte: Plano Gestão da Escola

7 17217 As atividades realizadas tiveram o envolvimento dos alunos, que colaboraram com materiais para o seu desenvolvimento. Foram realizadas várias atividades práticas envolvendo diferentes conceitos: estados físicos da água (fusão), translação, movimentação do ar, degradação do solo (erosão), vegetais (herbário), entre outras, conforme mostra as Figuras 1 e 2. Durante a realização do projeto foram observados alguns aspectos positivos, entre os quais se destacam o trabalho com temas transversais por meio do levantamento dos conhecimentos prévios dos alunos para a utilização na abordagem de diversos temas do cotidiano, o que ocorreu pela troca de ideias e atividades práticas; melhor compreensão dos conteúdos trabalhados; uso de diferentes recursos tecnológicos e pedagógicos na mediação. Mas também foram observados aspectos negativos, como a chegada tardia do Planetário (material utilizado para o trabalho de dia/noite, fases da lua, estações do ano, movimentos de translação e rotação) solicitado no projeto e a falta da utilização de atividades práticas para o ensino de Ciências pelos demais professores da escola, o que provocou falta de envolvimento de toda equipe escolar. Outro ponto importante foi o procedimento para a aquisição desses materiais, os quais precisavam fazer parte da Bolsa Eletrônica de Compras do Estado de São Paulo (BEC) para poderem ser adquiridos; e grande parte dos materiais disponíveis nesse meio não atendia os anos iniciais. Figura 1 Herbário montado pelos alunos do 4º ano A Fonte: Material coletado pelos autores

8 17218 Figura 2 Terrário montado pelos alunos do 4º ano A Fonte: Material coletado pelos autores Considerações Finais A prática pedagógica por meio de projetos envolve alunos e professores no processo de ensino-aprendizagem, através dos recursos disponíveis e das finalidades didáticas estabelecidas nesse contexto; cabendo a escola preparar o aluno para o convívio atuante na sociedade por meio das relações estabelecidas dentro desse espaço. O projeto O ensino de ciências através da experimentação conseguiu trabalhar com os três principais blocos do processo ensino aprendizagem: conceitos, procedimentos e atitudes. As experiências práticas desenvolvidas com os alunos despertaram a curiosidade dos mesmos, enquanto orientou a argumentação no confronto das hipóteses de ensino. Para a realização dessas atividades também foram utilizados recursos materiais disponíveis na escola, trazidos pelos alunos, professora e doados para a escola, como o aquário que foi utilizado na montagem do terrário. Oportunizar experiências como essas é importante para o processo de ensinoaprendizagem no sentido de enriquecer a base de conhecimento que o educando traz de sua realidade. Nesse processo, a troca de experiência é de extrema importância tanto para professores quanto para alunos: parte-se daquilo que lhe é conhecido para ir além; difundir conceitos, experimentar e comprovar, ou não, hipóteses. A partir do desenvolvimento de projeto em instituições escolares estamos propiciando e, ao mesmo tempo, oportunizando o enriquecimento do arcabouço teórico que é de domínio do aluno e aprimorando

9 17219 conhecimentos angariados pelo professor tendo em vista seu aperfeiçoamento profissional com busca por novas informações mediante o avanço científico. Desse modo, o uso de projeto em sala constitui-se como um importante meio, estratégia, de possibilitar aos educandos a aprendizagem de vários e múltiplos conteúdos, os quais de forma variada são aprendidos de modo significativos, a partir de situações cotidianas. REFERÊNCIAS BIZZO, N. Ciências: fácil ou difícil. São Paulo: Ática, BRASIL. Lei 4.024, de 20 de dezembro de Fixa as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: Lei 5.692, de 11 de agosto de Fixa Diretrizes e Bases para o ensino de 1 e 2º graus, e dá outras providências. Brasília, DF: Lei 9.394, de 20 de dezembro de Fixa Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, DF: 1996 LEITE, L. H. A. Pedagogia de projetos e projetos de trabalho. Presença Pedagógica, v. 73, p , SÃO PAULO. Governo do Estado. Secretaria da Educação. Coordenadoria de Gestão da Educação Básica. Orientações curriculares do estado de São Paulo: ciências naturais e ciências humanas. São Paulo: CGEB/SEE, ZANCUL, M. C. S. Ciências no ensino fundamental. In: DEMONTE, A. et al. Pedagogia cidadã: cadernos de formação: Ciências e Saúde. São Paulo: UNESP, Pró-Reitoria de Graduação, 2004.

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