MENINGITES. Manuela Doroana



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Transcrição:

MENINGITES Manuela Doroana

MENINGITES Processos inflamatórios com atingimento das meninges Etiologia infecciosa: Meningites bacterianas, víricas, fúngicas, por protozoários... Etiologia não infecciosa: M. tóxicas por medicamentos ( antibióticos, AINE, alopurinol, azatioprina, carbamazepina, ranitidina...); D Bechet, Polimiosites, AR, Esclerose múltipla,lupus, Sarcoidose, Vasculites, Tumores do SNC, Linfomas e Leucemias, Meningite carcinomatosa...

Caracterização das meningites Consoante o aspecto macroscópico do líquor Meningites piogénicas ou purulentas (água de sabão ) Meningites linfocitárias ou de líquor claro (transparente ) Regra geral existe uma relação entre o agente infeccioso que é a causa do aparecimento da meningite e a forma de apresentação.

Etiologia das Meningites M. PURULENTAS Pneumococcus Meningococcus Haemophilus influenzae tipo b Listeria monocitogenes Gram ( Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa...) M. LINFOCITÁRIAS ENTEROVÍRUS: ECHO, COXSACHIEVÍRUS HERPESVIRUS: VEB,CMV,VHS I, VHS II, VHZ, VIH V. CORIOMENINGITE LIN. V. SARAMPO; V. PAROTIDITE BRUCELOSE( Brucella sp ) FEBRE ESCARONODULAR( R. Conorii) SÍFILIS ( treponema pallidum) D. LYME ( Borrelia burgdorferi ) LEPTOSPIROSE (Leptospira spp) TUBERCULOSE CRYPTOCOCCOS NEOFORMANS

MENINGITES PURULENTAS Patogenia 1-via sanguínea (nasofaringe meninges) 2-contiguidade (s. parameningea ) 3-inoculação directa (fístulas ) Presença de polisacáridos capsulares

MENINGITES PURULENTAS Patologia Exsudado purulento no espaço subaracnoideu Encefalite Toxinas libertadas pelas bactérias e pelos leucócitos Alterações vasculares

Condições para mortalidade Conhecimento da fisiopatologia da meningite Reconhecimento da presença de uma meningite Determinação rápida da sua etiologia Início imediato da terapêutica adequada Medidas preventivas mortalidade : pneumococo- 20-30% meningococo 10%

Elementos de orientação para a etiologia das M. purulentas Meningococo Inverno Epidemia Jovens Púrpura e ou petéquias Viagens recentes (África e Ásia) Défice do complemento Pneumococo Alcoolismo Esplenectomia Drepanocitose Inf. Pulmonares Otites; sinusites Mastoidites TC Imunosupressão

Elementos de orientação para a etiologia das M. purulentas Listeria Gravidez Crianças Idosos Imunodepressão Corticoterapia Líquor pouco alt. H. influenzae Conjuntivite Otites Idade < 5anos

CLÍNICA das M. Purulentas Sintomatologia: febre+ cefaleias+ vómitos. Início SÚBITO (PI-2/3 DIAS ) Sinais: sinais meníngeos+ ( rigidez da nuca, Kernig+ Brudzinsky+) alterações do comportamento; prostração; confusão mental; coma; sinais neurológicos focais Petéquias e ou equimoses Portas de entrada: alt. na orofaringe, sinusite,otite, pneumonia, traumatismo craneano

Sindrome meníngeo Urgência médica Realização de punção lombar ( suspeita de meningite, início súbito com febre ) TAC craneo encefálica sem contraste se houver suspeita de h. meníngea ( início súbito em regra sem febre )

PUNÇÃO LOMBAR Doente: sentado na borda da cama ou decúbito lateral em posição de cão de espingarda Médico: material perto do local de actuação; contentor de material contaminado; execução da técnica com calma Conteúdo: quantidade de liquor suficiente para análise; agulha de médio calibre; evitar punções traumáticas d.d de liquor hemorrágico: H. meníngea ruptura de aneurisma M. tuberculosa Punção traumática

Diagnóstico nas M. Purulentas P. Lombar: ex. macroscópico aspecto- turvo cor- água de sabão pressão aumentada exame citoquímico ex. bacteriológico Pandy +; directo: Gram proteinas cultural glicose céls pred.pmn

Punção lombar

Exames complementares Hemograma+ Plaquetas ( leucocitose c/ neutrofilia ) Estudo da coagulação Ionograma ( desidratação ) Ureia Glicémia ( hipoglicémias ) Proteina C reactiva (positiva ) Hemocultura em aero-vital Testes de aglutinação de latex (Ag capsulares) Radiograma torax TAC craneo- encefálica

M meningocócica

Sinais de gravidade Petéquias Hipotensão Coma Alterações da deglutição Sinais focais neurológicos Patologia subjacente: cirrose, patologia cardíaca, diabetes

Terapêutica empírica Exame directo Coccus gram+ ceftriaxona / cefotaxime+vancomicina Coccus gram - Penicilina G Bacilos gram + ampicilina+ aminoglicosideo Bacilos gram - cefalosporina largo espectro+ aminog. Idade :< 3 meses- ceftazidime+ vamcomicina 3-60 anos- ceftriaxona / cefotaxime+ vancomicina > 60 anos- ceftriaxona+ ampicilina+ vancomicina D. Associadas ALT na I. Celular: ceftazidime / cefepime +ampicilina neurocirurgia ou TCE : ceftazidime+ vancomicina.

TERAPÊUTICA M. PURULENTAS Pneumococo- ceftriaxone Meningococo - penicilina G Haemophilus influenzae - ampicilina Listeria - ampicilina+ gentamicina Enterobacteriaceas- ceftriaxone+ gentamicina Pseudomonas aeruginosa - ceftazidime / cefepime+ gentamicina

Profilaxias M. Meningocócicas Contacto muito próximo do doente Microrganismo é frágil fora de um organismo Rifampicina 600mg (2 dias ) Ciprofloxacina 500 mg dose única Ceftriaxone 250mg (i.m) (ex: grávidas) M. Pneumocócicas Não há transmissão inter-humana Não é necessária profilaxia

M. Linfocitárias víricas Patologia Ingestão ou inalação do vírus Replicação viral no tecido linfóide e no intestino Virémia SNC

M. linfocitárias víricas Clínica Início súbito de cefaleias +febre Meningismo: rigidez da nuca Kernig e Brudzinsky - Mal estar com náuseas e vómitos Rash por vezes: petéquias (enterovírus ) V. parotídite: tumefacção das parótidas (50%) Por vezes quadro ~ M. purulentas

M. linfocitárias víricas Diagnóstico P. lombar: exam macroscópico: límpido Pressão > ou N exame citoquímico Pandy- negativo Proteínas- normais Glicose-normal cél. > LINF. Serologia PCR dos vírus no líquor

M. Linfocitárias víricas Evolução Regra geral é benigna Terapêutica Sintomática M. herpéticas: aciclovir- 10 mg/k de 8/8h (10 dias )

Meningites no contexto da infecção VIH Meningite da primoinfecção Meningite tuberculosa Sífilis Meningite criptocócica Meningoencefalites a toxoplasma Meningoencefalites herpéticas (HVS)

Meningite tuberculosa Patogenia Disseminação hematógenea- meninges Tuberculoma latente no cérebro,nas meninges Foco de osteomielite- reactivação virulência estado imunitário

Meningite tuberculosa Patologia Formação de caseum a cobrir os hemisférios Fenómenos de isquémia Fenómenos de enfarte( + na base ) Edema Arterites Hidrocefalia (alt. na circulação do líquor )

Elementos de orientação para o diagnóstico de meningite tuberculosa Raça Imnodepressão História indolente Antecedentes de tuberculose pessoais ou familiares Radiograma do torax com sequelas de TB

Meningite tuberculosa -clínica Início insidioso Fase prodrómica: irritabilidade; alt. Personalidade,apatia, depressão,anorexia (2-3 semanas ) Febre Confusão mental S. meníngeos S. focais ( paralesias dos n. craneanos: motor ocular comum, facial e auditivo Hemiparesias Afasia Convulsões

M.tuberculosa-diagnóstico P. lombar: aspecto- límpido ou xant. Ex. bacteriológico: ex. citoquímico Hemograma- s/ leucocitose Vs aumentada Proteína C reactiva + Radiograma torax Pandy +++ Cloretos Proteínas Cultural- Lowenstein + Glicose Céls (LINF) Ex. directo- coloração Ziehl-Neelsen Exame dos fundos oculares. T. coroídeus. Atrofia do nervo óptico. Edema. TAC craneo encefálica- tuberculomas, hidrocefalia ADA no líquor PCR no líquor

M. tuberculosa- terapêutica INH (5-10mg /k /dia) RMP (10 mg/k /dia) PZM ( 1500 mg /dia ) EM (1200 mg /dia ) + corticoterapia 1 mg /k /dia

M. criptocócica Elementos de orientação: imunodepressão, corticoterapia, linfomas Clínica: por vezes fruste P. lombar; líquor limpido Pandy neg ou + Proteínas Glicose céls (LINF) Exame directo- tinta da china Exame micológico Ag criptocócicos no liquor - 97% sensibilidade Ag criptocócicos no sangue -90 % sensibilidade Terapêutica: Anfotericina;fluconazol.

Sífilis Características de uma M. linfocitária VDRL no líquor + Terapêutica : penicilina G (ev)