RELATOR : DESEMBARGADOR FEDERAL GUILHERME COUTO DE CASTRO APELANTE : CAIXA ECONOMICA FEDERAL - CEF ADVOGADO : ANDRE LUIS CARDOSO E OUTROS APELADO : HUMBERTO PACHECO DE ANDRADE E CONJUGE ADVOGADO : DENIZE PERES MENDES CAMPOS DA SILVA E OUTRO ORIGEM : QUARTA VARA FEDERAL DE NITERÓI (9902077595) RELATÓRIO Trata-se de apelação cível interposta pela CEF contra sentença que julgou parcialmente procedente o pedido de revisão de contrato de mútuo hipotecário firmado no âmbito do SFH, para determinar o recalculo das prestações mensais e demais acessórios de acordo com o PES, observando-se a taxa anual de juros de 8,8390%, bem como a atualização do saldo devedor pelo INPC, após a dedução da parcela mensal. Nas razões de apelo, sustenta a CEF, em síntese que, por serem as prestações mensais reajustadas de acordo com os índices salariais do mutuário, não teria a sentença, nesse aspecto, dissentido da peça de bloqueio. Ressalta que a aplicação da TR é necessária para manter a correção monetária da dívida e o equilíbrio do sistema, não afrontando, assim, o ato jurídico perfeito e o direito adquirido. Se insurge contra a inversão na ordem de amortização e defende a atualização do valor do seguro pela TR. Em contra-razões (fls. 197/199), os Autores pugnam pela manutenção da sentença, argumentando, em síntese, que a TR, utilizada pelo mercado financeiro, não reflete a variação da moeda, mas sim, taxas de juros. Alegam que deve (...) ocorrer uma inversão, ou seja: primeiro, diminui do saldo devedor o valor pago pelos Devedores, para depois corrigir o saldo devedor remanescente pelo INPC.. O Ministério Público Federal opinou pelo parcial provimento do recurso às fls. 204/211. É o relatório. 1
lvs VOTO A d. sentença, data venia, merece ser reformada. Com efeito, inexiste qualquer ilegalidade na utilização da TR no reajustamento do saldo devedor. Na verdade, o Supremo Tribunal Federal apenas considerou inconstitucional a pretendida aplicação retroativa da Lei nº 8.177/91. Os Tribunais referendam a prática atacada: (...) SFH. (...) APLICAÇÃO DA TR. (...) 5. É possível a utilização da TR no cálculo da correção monetária do saldo devedor de contratos firmados no âmbito do SFH, desde que previsto o reajuste com base nos mesmos índices aplicados aos saldos das cadernetas de poupança. (...) (STJ; REsp nº 920.944/RS; Rel.: Min. Castro Meira; Órg. julg.: Segunda Turma; Pub.: DJ de 27/08/2007, p. 213) SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO - (...) - TR (...) 1. Ficou pactuado entre a CEF e o mutuário, que o reajuste dar-se-ia mediante a aplicação dos índices, ou das contas vinculadas ao FGTS, ou dos depósitos em caderneta de poupança Com isso, em nada fere o contrato a adoção da TR (Taxa Referencial) como índice apto a corrigir monetariamente seus valores. 2. Se a remuneração da poupança se dá pela TR, o mesmo deve acontecer com o saldo devedor, embora o reajuste do encargo mensal possa seguir outro critério, como o plano de equivalência salarial. (...) (TRF da 2ª Região; Apelação Cível nº 2003.50.01.000061-3/ES; Rel.: Des. Poul Erik Dyrlund; Órg. julg.: Oitava Turma Especializada; Pub.: DJU de 27/02/2007, p. 302/303) 2
O contrato em questão prevê (cf. cláusula oitava fl. 28) que o saldo devedor será atualizado, mensalmente, mediante a utilização de coeficiente de remuneração básica aplicável aos depósitos de poupança. E, sendo certo que a caderneta de poupança está sujeita à TR, não há qualquer inconstitucionalidade ou ilegalidade que autorize a substituição da TR pelo INPC. Aliás, o Superior Tribunal de Justiça é pacífico em admitir o uso da TR, inclusive na atualização de saldo devedor de contrato firmado no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação antes da Lei n. 8.177/91 é possível quando o contrato o preveja ou haja pacto de utilização do mesmo índice aplicável à caderneta de poupança (AgRg no Ag 916642/SP, 4ª Turma, rel. João Otávio de Noronha, DJ 05.05.2008, p. 1.). Nesse mesmo sentido: AgRg no REsp 1005486/RS, 1ª Turma, rel. Min. Francisco Falcão, DJ 05.05.2008, p. 1; AgRg no AgRg no REsp 937435/DF, 3ª Turma, rel. Min. Nancy Andrighi, DJ 10.03.2008, p. 1. De igual forma, a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça firmouse na orientação de ser legítimo o procedimento de reajuste do saldo devedor do mútuo hipotecário antes da respectiva amortização evitando-se prejuízo por parte de quem concedeu o mútuo caso não houvesse recomposição do valor real do saldo devedor (RESP 874988, 1ª Turma, rel. Min. Denise Arruda, DJ 10/04/2008, p. 1; AGRESP 903743, 4ª Turma, rel. Min. Massami Uyeda, DJ 17/03/2008, p. 1; AGRESP 1007302, 3ª Turma, rel. Min. Nancy Andrighi, DJ 17/03/2008, p. 1; AGA 901806, 4ª Turma, rel. Min. João Otávio de Noronha, DJ 11/02/2008, p. 1; AGRESP 963675, 3ª Turma, rel. Min. Humberto Gomes de Barros, DJ 17/12/2007, p. 170). E, ainda, nesta Corte: AC426455, 8ª T. Esp., unân., Rel. Des. Fed. Poul Erik Dyrlund, DJ17.12.2007; AC 424867, 7 a T. Esp., unân., Rel. Juiz Federal convocado, Luiz Paulo da Silva Araújo Filho, 17.09.2008; AC 392655, unân., Rel. Juiz Federal convocado José Antônio Lisboa Neiva, 6ª T. Esp., 26.09.2008; 7ª T. Esp., unân., Rel. Des. Fed. Sérgio Schwaitzer, DJU 08/08/2007; AC 393502/RJ, 8ª T. Esp., unân., Rel. Des. Fed. Raldenio Bonifácio Costa, DJU 10/08/2007. Por fim, no que concerne ao seguro, cumpre assinalar que os mutuários assumiram a obrigação de pagar o prêmio do seguro contratado (cf. cláusula 3
vigésima terceira - fl. 29/v). Ademais, não há ilegalidade na estipulação, não havendo que se falar em venda casada, ante a peculiaridade do seguro contratado. Também não há qualquer indício de que a CEF tenha desrespeitado o contrato ou as normas estabelecidas pela SUSEP, seja na fixação do valor base de cálculo, seja nos reajustes posteriores. Em suma, os pedidos da inicial (fls. 18) não têm amparo, e a sentença, por outro lado, está centrada em arcabouço genérico, em boa parte alheios aos pedidos, que devem ser interpretados estritamente (art. 293 do C.P.C.). Em face do exposto, voto no sentido de dar provimento ao apelo da CEF, para reformar a sentença e julgar improcedente o pedido dos Autores. Inverto o ônus sucumbencial, para condenar os Autores nas custas processuais e honorários advocatícios, os quais arbitro em 10% (dez por cento) sobre o valor atualizado da causa, pro rata. É como voto. lvs EMENTA SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO. PES/CP. ATUALIZAÇÃO DO SALDO DEVEDOR E DO SEGURO PELA TR. POSSIBILIDADE 1. É possível o uso da TR na atualização do saldo devedor dos contratos regidos pelo SFH, ainda quando anteriores à Lei nº 8.177/91, deste que haja previsão em contrato da utilização do índice aplicável à caderneta de poupança. Precedentes do STJ. 2. É legítimo o procedimento de reajuste do saldo devedor do mútuo hipotecário antes da respectiva amortização. Precedentes do STJ. 3. Não há qualquer indício de que a CEF tenha desrespeitado o contrato de seguro ou as normas estabelecidas pela SUSEP, seja na fixação do valor base de cálculo, seja nos reajustes posteriores. 4. Apelação da CEF provida. ACÓRDÃO 4
Vistos, relatados e discutidos estes autos, decide a 6ª Turma Especializada do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, por unanimidade, na forma do voto do Relator, dar provimento à apelação da CEF. Rio de Janeiro, 14 de setembro de 2009. 5