EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA: FORMAÇÃO DE EDUCADORES PARA UMA PEDAGOGIA MULTILETRADA

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Transcrição:

EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA: FORMAÇÃO DE EDUCADORES PARA UMA PEDAGOGIA MULTILETRADA DISTANCE EDUCATION: TEACHER DEVELOPMENT FOR A PEDAGOGY OF MULTILITERACIES Solange Maria Sanches Gervai (Universidade Paulista Unip e PUCSP sgervai@uol.com.br ) Resumo: Este estudo, apoiado em pesquisas de Rojo (2012), Lemke (2010), Luke (2006), Signorini & Cavalcanti (2010) e Kress (2006), entre outros, preocupa-se em discutir como a Educação a Distância pode contribuir para o desenvolvimento de letramentos mais amplos. A proposta deste trabalho é analisar o curso Teachers Links PUCSP/COGEAE, em plataforma virtual (Moodle), do qual sou professora. O curso visa o aperfeiçoamento de professores de inglês, com foco em reflexão crítica do professor sobre ensino e aprendizagem de línguas. As análises, de um dos módulos do curso, buscaram averiguar de que modo estamos contribuindo para uma formação que leve em conta as novas tecnologias de comunicação e interação para os multiletramentos. Para análise dos dados desta pesquisa, foram utilizadas as categorias de multiletramentos, propostas por Rojo (2012). A análise apontou que o curso contribui para o desenvolvimento de multiletramentos, apesar de não ter sido desenhado com essa preocupação e aponta para a necessidade de reanálise do material didático utilizado no curso, para o desenvolvimento de uma maior conscientização dos professores para a questão de letramentos mais amplos e uso de tecnologias em suas ações pedagógicas. Palavras-chave: multiletramentos, tecnologias, formação de professor. Abstract: This study, supported by researches of Rojo (2012), Lemke (2010), Luke (2006), Signorini & Cavalcanti (2010) and Kress (2006), among others, is concerned to discuss how distance education can help the development of "broader literacies". The purpose of this study is to analyze the course Teachers' Links - PUCSP / COGEAE run in virtual platform (Moodle), of which I am a teacher. The course aims at the improvement of English teachers, focusing on critical reflection on teacher education and language learning. The analysis of one of the course modules, sought to find out how we are contributing to an education that takes into account the new technologies of communication and interaction for multiliteracies. For data analysis of this research, we used the categories of multiliteracies proposed by Rojo (2012). The analysis pointed out that the course contributes to the development of multiliteracies, despite not having been designed with this concern and points to the need for re-examination of the teaching materials used in the course, to develop greater awareness of teachers to the question of "wider literacies" and the use of technology in teachers teaching practices. Keywords: multiliteracies, technology, teacher development. 1

1. Introdução Como já apontado no resumo deste trabalho, esta pesquisa está voltada para contribuir com uma reflexão sobre o conceito de multiletramentos e sobre como a Educação a Distância pode auxiliar para o desenvolvimento de letramentos mais amplos. Se paramos para pensar sobre a questão do conceito de letramento, podemos dizer que a impressão da escrita permitiu o letramento de massa e, de certa forma, privilegiou o texto escrito no contexto acadêmico/escolar. Com o advento das TIC, observamos uma abertura para um mundo globalizado e uma invasão de novas formas de comunicação, mediadas por muitas linguagens, que vão além da costumeira linguagem verbal. Com isso, uma preocupação com o ensino/aprendizagem de novos letramentos passou a fazer parte das preocupações dos estudiosos da área. Vários pesquisadores, entre eles Rojo (2012), Lemke (2010), Luke (2006), Signorini & Cavalcanti (2010), Kress (2006) e Soares (2002), entre outros, começaram a descrever e questionar os desafios da multiplicidade cultural do mundo contemporâneo, permeado de textos que se constituem por meio de uma multiplicidade de linguagens (fotos, vídeos e gráficos, linguagem verbal oral ou escrita e sonoridades), veiculados por diversos meios. Para esses autores, a multimodalidade ou multiplicidade de linguagens, como denomina Rojo (2012, p. 27), exige multiletramentos, capacidades e práticas de compreensão e produção de cada uma delas para fazer significar. Como professora, atuando há muitos anos na modalidade de ensino a distância, sinto que, com o advento da globalização, torna-se necessário um trabalho mais amplo e intensificado para a inclusão da diversidade cultural e linguística em cursos oferecidos nesses novos ambientes. Por isso, acredito que, na questão dos novos letramentos, o ensino a distância possa contribuir muito, pois possibilita uma abertura para diferentes tipos de pessoas e vejo que as tecnologias cooperam no sentido de permitir múltiplas linguagens e diversos pontos de vista. O virtual é por definição uma esfera aberta para a diversidade de identidades sociais, que estão presentes em um mundo como o nosso; informatizado e globalizado. Por essa razão, vejo como fundamental tentar entender os desafios dos novos letramentos possibilitados por cursos na modalidade a distância. O estudo foi feito em um curso para professores de língua estrangeira, oferecido pela PUC/COGEAE, totalmente a distância, em plataforma virtual (Moodle), da qual sou professora e designer há vários anos. O curso em questão é um Programa de Formação Contínua de Professores de Inglês, ativo desde 1999, na modalidade a distância, para docentes de todo o Estado de São Paulo. O Teachers Links: Reflexão e Desenvolvimento para Professores de Inglês é um curso de aperfeiçoamento da PUC-SP e tem 60 vagas oferecidas gratuitamente, a cada semestre, financiadas pela Cultura Inglesa. A pesquisa tem como objetivo geral possibilitar o desenvolvimento de uma percepção da necessidade de se trabalhar multiletramentos na esfera da educação a distância e como objetivo específico buscar caminhos para conhecer o trabalho que desenvolvemos com nossos alunos/professores, tentando identificar se os objetivos de aprendizagem favorecem um trabalho para os multiletramentos, tentando responder as seguintes perguntas de pesquisa: 1) Como promovemos a interação? 2

2) Nossas ações no curso são fronteiriças de linguagens, mídias e culturas? Como? 3) Possibilitamos a quebra das relações de poder estabelecidas, em especial; com as relações de propriedade (das máquinas, das ferramentas, das ideias, dos textos verbais ou não-verbais? Como? 2. Uma proposta de pedagogia dos multiletramentos Rojo (2012) apresenta uma proposta de pedagogia dos multiletramentos que envolve uma prática situada, baseada, inicialmente, em ações que fazem parte das culturas dos alunos. Enfatiza a possibilidade do florecimento do culturalmente diverso e emergente, destacando as diferenças culturais e o conhecimento do aluno. Nesse caminho, acredito que as análises de nossas ações, como professores, que atuam no contexto da educação a distância, poderiam nos levar à discussão de novos textos, não para disciplinar os usos das tecnologias, mas para transformar os hábitos institucionais de ensinar e aprender por meio de uma reflexão conjunta entre professores e pesquisadores. Assim, como afirma Daley (2010), estamos diante do desafio de entender as características e funções desses novos textos multimidiáticos e multimodais, para pensar nas nossas práticas pedagógicas de leitura/escrita que, sabemos, muitas vezes, restritas e insuficientes mesmo para a era do impresso. Nesse sentido, vejo como necessário promover pesquisa exploratória e de campo, voltada para as práticas situadas, que possam considerar as necessidades locais, usando as tecnologias para promover o processo de apropriação das mídias atuais, fazendo uso delas, analisando o mundo, acessando informação, interpretando e organizando o conhecimento para comunicarmos aos outros o que queremos. Assim, seguindo essa perspectiva, penso que as novas tecnologias podem afetar a educação e a elaboração de materiais didáticos, mas não vejo como simples essa relação. A ligação entre tecnologia e pedagogia multiletrada, envolve muitos elementos que precisam ser considerados e avaliados, como: aspectos de mediação com letramentos diversos; desenhos de curso; formas de avaliação e estilos de ensino e aprendizagem. 3. Contextualizando o problema A ideia de multiletramento abarca um procedimento de trabalho diferente do letramento escolar que atualmente vemos nas escolas. Parte do princípio que o professor fomente um tipo de formação que inclua a aprendizagem de textos com condições estruturais que incluam as linguagens verbais e não-verbais, com o desenvolvimento de proficiência em novas tecnologias que requerem habilidades que vão muito além das práticas escritas e faladas. E nesse contexto como fica a questão no contexto da Ead? Estamos preparados para formar alunos letrados dentro desses novos formatos? No Brasil, de acordo com Belloni (2003, 2002) e Barreto (2003), entre outros, muitas universidades, formadoras de professores, incorporaram as tecnologias para incentivar atividades de auto-aprendizagem, com programas que, em geral, negam a discussão do uso do espaço digital, ressaltando apenas a relação entre equipamentos e usuários. Assim, uma 3

consequência dessas práticas acaba sendo a falta de parâmetros que auxiliem o professor ou formador de professores a se preparar para usar os novos recursos tecnológicos de modo que privilegiem interações entre participantes e trabalho colaborativo, com o incentivo do desenvolvimento de práticas de letramentos mais diversificadas. Santaella (1992) ressalta que seria importante entender o contexto em que o professor está inserido e dar espaço para se compreender suas crenças quando levados a trabalhar com novas ferramentas, e trabalhar com os professores a partir dessas crenças. Ação que raramente acontece, pois como as pesquisas apontam, os professores, na maioria das vezes, são levados a utilizar novas ferramentas e novas propostas de ensino sem que ocorra um trabalho de conscientização, daí a resistência e a contínua utilização das tecnologias para se fazer o mesmo de sempre. Portanto, esse é um elemento que me impulsiona a fazer o trabalho de análise do curso em que atuo, pois acredito ser primordial mexer com nossas crenças para fomentar novas ações. Nesse sentido, parece necessário promover pesquisas voltadas para as práticas situadas, que remetam a projetos pedagógicos que se proponham a incluir a cultura do aluno, os gêneros e designs disponíveis para incorporar novas práticas de letramentos. Novamente, sem usar as tecnologias para limitar e regular os processos de aprendizagem, mas, como Jonassen (1999) aponta, para oportunizar o processo de apropriação das mídias e fazer uso delas, analisando o mundo, acessando informação, interpretando e organizando o conhecimento para comunicarmos aos outros o que queremos por meio de ações multiletradas. 4. Como funcionam os multiletramentos? Rojo (2012) afirma que os estudos são unânimes em apontar algumas características importantes: a) são colaborativos; b) fraturam e transgridem as relações de poder estabelecidas, em especial as relações de propriedade (das máquinas, das ferramentas, das ideias, dos textos (verbais ou não); c) são híbridos, fronteiriços, mestiços (de linguagens, modos, mídias e culturas); d) são interativos, em vários níveis (na interface, nas ferramentas, nos espaços em rede dos hipertextos e ferramentas, nas redes sociais.). Para Rojo, uma das características dos novos textos é que são interativos, em vários níveis. Diferentemente das mídias anteriores, por exemplo, a mídia digital; por sua natureza, permite que o usuário interaja em muitos níveis. Essa característica faz com que as máquinas sejam cada vez mais colaborativas. As novas ferramentas de comunicação mais que permitir interação, permitem promoção de colaboração. A partir dessas qualificações, passei a pensar: como funcionam os multiletramentos no Teachers Links? A seguir, apresento o curso e os procedimentos de recorte para dar início à análise. 4

5. O contexto da análise: o curso O Teachers Links da PUCSP/COGEAE é um curso de aperfeiçoamento com 270 horas, divididas em três módulos não sequenciais de 90 horas cada. O curso é dirigido a professores de inglês, que visam desenvolvimento profissional, acadêmico e pessoal, com foco em reflexão crítica sobre o papel do professor no ensino/aprendizagem e de sua capacidade de planejar e organizar a ação docente. O curso é totalmente a distância, em plataforma virtual (Moodle) e busca desenvolver autonomia dos participantes para que planejem aulas dentro de uma programação adequada aos objetivos dos alunos de Língua Inglesa em seus diferentes contextos de aprendizagem. 5.1. Módulo escolhido para observação e análise inicial O Desenvolvimento Profissional e a Sala de Aula: Reflexão Sobre Novos Caminhos foi o módulo escolhido para análise. Oferece a seguinte proposta para os professores/alunos: a) refletir sobre a sua trajetória para se abrir para outras possibilidades na sua vida profissional; b) entrar em contato com professores de outros países para ampliar a percepção a respeito de diferentes contextos de atuação, como o trabalho em institutos de idioma, escolas regulares e/ou projetos sociais; c) desenvolver práticas de leitura e escrita em inglês, em ambiente digital, por meio da navegação e do uso de ferramentas síncronas e assíncronas, ligadas à produção de textos individuais e conjuntos, com vistas à otimização das possibilidades de formação e manutenção de comunidades de aprendizagem. 5.2 Proposta de análise dos dados Buscando observar se promovíamos uma pedagogia para o desenvolvimento de multiletramentos, decidi usar as categorias de Rojo (2012) por meio da análise da materialidade discursiva dos textos produzidos nas propostas de atividades do curso. Busquei olhar uma atividade, de uma unidade do curso, como um universo inicial para a reflexão, visando responder às seguintes questões: 1) Como as atividades promovem a interação? 2) São fronteiriças de linguagens, mídias e culturas? Como? 3) Possibilitam a quebra das relações de poder estabelecidas, em especial as relações de propriedade das máquinas, das ferramentas, das ideias, dos textos verbais ou não? Como? 5.3 Um recorte dos dados de análise 5

O recorte feito foi o de uma atividade de uma unidade de trabalho do curso. A atividade da Unidade 1 Atividade 2 encontra-se no anexo 1, no final do artigo. Não está formatada como no original, mas serve para se ter uma referência mais completa da atividade em inglês. A parte que analisei para este estudo é uma proposta de atividade feita para convidar o aluno a ler um texto em espanhol para poder praticar e discutir o uso de diferentes estratégias de leitura. Antes de ler o texto, os alunos são convidados a entrar em um link sobre o uso de inglês para propósitos específicos. Depois, o aluno é convidado a ler um texto sobre leitura estratégica e interagir com os colegas em um fórum de discussão para falar sobre o assunto. Após a leitura os alunos voltam ao fórum para compartilhar experiências, apontando como fizeram a leitura e quais estratégias usaram. Olhando essas atividades, passei a buscar respostas para: 1) como promoviam interação e com quem; 2) se eram atividades fronteiriças de linguagens, mídias e culturas; 3) se possibilitavam a quebra das relações de poder estabelecidas. 6. Considerações Finais Nesse universo, com um olhar ainda exploratório, guiado pelas categorias de Rojo (2012), pude perceber que o curso tem fortes indícios de promoção de multiletramentos, se pensarmos nas possibilidades que abrimos para a interação com os pares do curso e fora dele. Por exemplo, os alunos/professores tiveram que participar da atividade de um fórum em que puderam conversar sobre as estratégias de leitura que usaram e falar sobre a experiência de ler um texto em uma língua não conhecida deles. Puderam também escrever para o jornalista, autor do texto, saindo, assim, das fronteiras do curso. Nesse sentido, percebi que a atividade possibilitava também a fratura e transgressão das relações de poder estabelecidas, pois a interação com o jornalista não era uma atividade proposta pelo curso e nem pensada ou imaginada como possível por nós, autoras do material. Portanto, pude perceber que os alunos/professores tomaram atitudes que sentiram como possíveis nesse contexto e possibilitadas pelo meio utilizado. Ao se comunicarem com o jornalista, alguns até utilizando o espanhol, romperam, de certo modo, com a nossa relação de poder. Além disso, é possível perceber que a atividade geral apresenta várias linguagens, apoiando-se em mídias diversificadas como textos e hipertextos com imagens, mas, fica evidente que essa atividade ainda apresenta a predominância da linguagem verbal escrita. Também é visível a promoção de interatividade com ferramentas diversas, como o computador, a internet, os fóruns e links. O curso abre a possibilidade de culturas diferentes se aproximarem, como no caso, o texto lido em espanhol, que é de um jornal de outro país e os alunos são levados a ler via link para o jornal. Apesar de saber que o curso foi desenhado sem a preocupação de discutir a questão dos multiletramentos, pois essa não era uma prerrogativa do momento e nem objetivo do curso, pode ser um ambiente com atividades que promovam multiletramentos. Dado importante, porque nem todos os professores são nativos digitais e muitos aprendem a usar as diversas linguagens e mídias no próprio curso. 6

Essas reflexões podem ser elementos interessantes para a continuidade desta pesquisa e para a revisão do material do curso, haja vista que podemos aproveitar para incluir essas questões como parte integrante da formação do professor. Referências Bibliográficas BARRETO, Raquel G. As Políticas de Formação de Professores: Novas Tecnologias e Educação a Distância. In: BARRETO, R.G (Org.) Tecnologias Educacionais e Educação a Distância: avaliando políticas e práticas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Quartet, 2003. cap. I, p. 10-53. BELLONI, Maria Luiza. (org). A formação na sociedade do espetáculo. São Paulo: Loyola, 2002. BELLONI, Maria Luiza. A Integração das Tecnologias de Informação e Comunicação aos Processos Educacionais. In: BARRETO, R.G (Org.) Tecnologias Educacionais e Educação a Distância: avaliando políticas e práticas. 2ª ed. Rio de Janeiro: Quartet, 2003. Parte I: As Políticas e as Práticas. p. 54 73. COPE, Bill, KALANTZIS, Mary (Orgs.) Multiliteracies: Literacy Learning and the Design of Social Futures. New York: Routledge, 2006. COPE, Bill, KALANTZIS Mary. Multiliteracies: New Literacies, New Learning. Pedagogies: An International Journal, Vol.4, 2009, pp.164-195. COPE, Bill, KALANTZIS Mary. On Transformations: Reflections on the Work of, and Working with, Gunther Kress. In: KRESS, Gunther Multimodality and Social Semiosis: Communication, Meaning- Making and Learning in the Work of Gunther Kress. London: Routledge, p. 16-32. DAYLE, Elisabeth. Expandindo o conceito de Letramento. In: Trabalhos em Linguística Aplicada. Campinas: IEL Unicamp, Jul/Dez 2010. Vol 49(2). Tradução de Solange M. S. Gervai. JONASSEN, David. H. Designing constructivist learning environments. In C. M. Reigeluth (Ed.), Instructional-design theories and models: A new paradigm of instructional theory (Vol. II, pp. 215-39). Mahwah, New Jersey: Lawrence Erlbaum, 1999. KRESS, Gunther. Multimidality. In: COPE, B., KALANTZIS, M (Orgs.) Multiliteracies Literacy Learning and the Design of Social Futures. New York: Routledge, 2006. LEMKE, John. Letramentos metamidiáticos: transformando significados e mídias. In: Trabalhos em Linguística Aplicada. Campinas: IEL Unicamp, Jul/Dez 2010. Vol 49(2). LUKE, C. Cyber-Schooling and Technological Change: Multiliteracies for new times. In: Cope, B., Kalantzis, M (Orgs.) Multiliteracies Literacy Learning and the Design of Social Futures. New York: Routledge, 2006. ROJO, Roxane. H. R. Pedagogia dos Multiletramentos. Diversidade cultural e linguagens na escola. In: ROJO, R. H. R. & MOURA, E. (Orgs). Multiletramentos na escola. São Paulo: Parábola Editorial, 2012. ROJO, Roxane. H. R. Gêneros Discursivos do Círculo de Bakhtin e Multiletramentos. In: ROJO, R. H. R. (Org) Escola conectada: os multiletramentos e as TICS. São Paulo: Parábola Editorial, 2013. SANTAELLA, Lúcia. Cultura das mídias. São Paulo: Razão Social, 1992. SIGNORINI, Ines. e CAVALCANTI, Marilda. C. Língua, linguagem e mediação Tecnológica. In: Trabalhos em Linguística Aplicada. Campinas: IEL Unicamp, Jul/Dez 2010. Vol 49(2): 511-524. 7