TÍTULO DO PROGRAMA NASCER Série: Lendas da Ciência SINOPSE DO PROGRAMA O filósofo Michel Serres conduz o documentário ao mundo grego dos séculos 5 e 6 antes de Cristo, para mostrar o momento que ele considera o nascimento da Ciência. Quando homens como Platão, Pitágoras, Tales, Heráclito e outros, começaram a discutir e a organizar o conhecimento. A partir desse belo documentário, o professor de Filosofia mostra como essa organização surgiu da necessidade de ensinar aos mais jovens, ou seja, surgiu para a Educação. CONSULTOR José Auri Cunha FILOSOFIA TÍTULO DO PROJETO O Nascimento do LOGOS da Ciência e da Filosofia
MATERIAL NECESSÁRIO PARA REALIZAÇÃO DA ATIVIDADE: - Computador (com conexão à Internet). PRINCIPAIS CONCEITOS QUE SERÃO TRABALHADOS - LOGOS; - MYTHOS; - Paidéia; - Physis; - Natureza; - Ciência; - Filosofia. DESCRIÇÃO DA ATIVIDADE 1. Primeiramente o documentário deve ser exibido e discutido, para que atividades focadas nele sejam solicitadas. Talvez seja necessário ser visto mais de uma vez. O primeiro contato visa trazer à tona o tema principal o nascimento do LOGOS. Os outros contatos com o vídeo, pretendem desenvolver temas secundários, como a influência da Geometria e da Aritmética no nascimento do pensamento científico-filosófico, ou a influência da Música e da percepção da harmonia em toda a sensibilidade do homem grego. Só assim o professor poderá mostrar que a ideia de Kosmos, para os gregos, não corresponde apenas à ideia de um Todo, mas de um Todo Perfeitamente Harmônico. Daí se originará o ideal de Beleza, o qual será o principal valor grego, base da Ética e da Filosofia. 2. O filme é muito denso e as exposições dos comentadores são muito acadêmicas. Será normal, portanto, que alguns alunos não se sintam motivados desde o início. Assim, o professor deverá, antes de exibir o documentário, propor alguma atividade de motivação que seja significativa. Sugerimos a proposta de um debate sobre como poderá ter havido a ruptura entre as explicações míticas e as explicações científicas acerca do surgimento do
universo. A principal explicação mítica da nossa tradição judaico-cristão está na Bíblia, e revela que o universo foi criado por ato soberano da vontade de Deus onipotente e eterno. Outro debate-desafio poderia ser: se o universo teve uma origem determinada, havia tempo antes do nascimento do universo. Ou seja: quanto tempo o tempo tem? (Pergunta infantil há uma música infanto-juvenil que pode ser tocada/cantada.) Outro desafio: pesquisar sobre o Big Bang, como teoria científica mais aceita sobre a origem do universo. Atiçar a curiosidade dos alunos perguntando: o que havia antes do Big Bang? 3. Após estes desafios basta escolher um deles, conforme o momento do curso, o professor poderá fazer uma introdução ao tema principal, dizendo que tudo tem uma história, o universo tem uma história, e a história sobre a origem do universo também tem uma história. É então apresentado o filme e as atividades propostas pelo entrevistado do programa. 4. O eixo temático da breve estimulação feita pelo entrevistado foi apresentar o contexto histórico do nascimento do LOGOS na Grécia Antiga (séc. VI e V a.c.): a) A história da origem da Ciência e da Filosofia tem uma história e um contexto histórico determinado. Tudo começou na Grécia Antiga por volta dos séculos VI e V a.c.. b) Pretende-se compreender um dos acontecimentos mais importantes da história da humanidade: o nascimento do LOGOS contraposto ao MYTHOS. Logos, significando a palavra que descreve as relações e proporções que regem os processos e as mudanças no mundo. Mythos, significando a palavra que narra a origem de todas as coisas e as interveniências do sobrenatural sobre a ordem natural do que acontece. c) A educação do homem grego, a Paideia, é baseada nas grandes narrativas atribuídas ao poeta sagrado Homero, especialmente em A Ilíada e Odisséia. Tais narrativas narram aventuras guerreiras e épicas gregas, e têm como protagonista o maior herói grego, Ulisses, modelo de cidadão para todos os gregos. Mais do que isto, essas narrativas são também um compêndio de todos os
conhecimentos e técnicas gregas disponíveis até então: Astronomia, Geometria, Medicina, Matemática, Música. d) O povo grego viajava pelo Mediterrâneo e conhecia outras culturas, especialmente a cultura egípcia, que para eles tinha importância semelhante à dos gregos para os ocidentais. As viagens de Ulisses eram, em verdade, um compêndio de todas as grandes viagens e aventuras dos heróis gregos, formando um currículo da cultura grega. 5. Nesse contexto histórico de gregos guerreiros e viajantes, conhecendo outras culturas e colocando sua própria cultura no centro do mundo, herdeira do que havia de melhor em todas as outras, surgem os primeiros conhecimentos de Geometria, aprendidos com os egípcios, segundo o historiador grego Heródoto. Para justificar a cobrança de impostos, os faraós mandavam medir as terras férteis às margens do Nilo. Quando este as alagava, as terras eram reduzidas e os impostos seriam menores, precisando haver instrumentos de medição. Daí para a Astronomia foi um passo. Tales, considerado o primeiro filósofo grego, leva esta ideia de LOGOS ( proporção entre duas coisas ), usada na relação entre medidas geométricas e astronômicas, para aplicação na compreensão dos fenômenos do universo. O principal fenômeno que intrigava os gregos era a razão de haver mudanças e transformações, como as estações do ano, nascimento, vida e morte. Tales propõe a primeira tese filosófica: tudo muda de modo semelhante ao ciclo de transformação da água. A mesma ideia de Tales é utilizada por São João, autor de um dos Evangelhos de Cristo: No princípio era o Logos significando que Deus é para seu Filho, assim como seu Filho é para o Homem. É a mesma ideia de proporção, base de toda a Matemática, tomada como linguagem da Ciência, a partir de então. 6. Essa ideia de LOGOS torna-se uma ferramenta poderosa para as atividades argumentativas, pois utilizará analogias entre metáforas e ideias, podendo fazer relações entre conceitos. Estas relações serão a base da predicação universal ( todo homem é mortal relacionar o conceito de homem com o conceito de mortal ), dando origem à Lógica aristotélica. O raciocínio lógico se difere do narrativo, porque o raciocínio lógico pode operar com significados abstratos, enquanto o narrativo precisa trabalhar com significados concretos (consultar textos de leitura complementar anexos I e II).
RESUMO DA ATIVIDADE 1. Assistir ao filme, com a preparação prévia de boas perguntas temáticas. 2. Pontuar o contexto histórico do nascimento do LOGOS entre os gregos do século VI e V a.c.. 3. Pontuar a relação do LOGOS com a ideia de PROPORÇÃO matemática e com a ideia de NÚMEROS FRACIONÁRIOS (ou racionais). 4. Pontuar a força do LOGOS como ferramenta investigativa e descritiva dos fenômenos em geral, mostrando que dessa força surgem os mais poderosos mecanismos da Matemática, da Ciência e da Filosofia. COMO AVALIAR ESSE TRABALHO? Essa atividade poderá ser avaliada por meio de: a) Resumo e comentário do filme. b) Discussão sobre a força da ideia de LOGOS (analogia, proporção, relação lógica) para tornar a Matemática a linguagem da Ciência. c) Discussão sobre como o LOGOS deslocou a crença nas explicações dos Mitos, dando origem a um modelo de explicações argumentativas, ao invés de explicações narrativas. EM QUAL ANO OU ANOS DO ENSINO MÉDIO SERIA MELHOR APLICAR ESSE TRABALHO? Em qualquer dos anos letivos em que se estude o nascimento da Filosofia, ou o nascimento da Ciência, ambos ancorados no nascimento do LOGOS, na Grécia Antiga. Em geral, o momento
apropriado para a compreensão desses conceitos seria a partir do segundo semestre do primeiro ano, preferencialmente no segundo ano do Ensino Médio. PALAVRAS-CHAVE - LOGOS; - Ciência; - Filosofia; - Paidéia; - Physis; - Filósofos da Physis (Pitágoras, Tales, Heráclito). SUGESTÕES DE LEITURAS CUNHA, J. A. Iniciação à investigação filosófica; Um convite ao filosofar. Campinas, Alínea, 2009. (Capítulos 2 e 4). SEVERINO, Emanuele. A filosofia antiga. Lisboa, Edições 70, 1986. PETERS, F.E. Termos filosóficos gregos; Um léxico histórico. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1976. ANEXOS Anexo I Como surgiram os primeiros termos filosóficos? O que os filósofos fizeram à linguagem? Em princípio, não fizeram nada, visto não saberem, felizmente talvez, que eram filósofos, e assim continuaram a usar as palavras na sua acepção comum da língua cotidiana grega, a qual, na realidade,
tendia a ter sentidos bastante concretos e familiares: o quente e o bom eram alguma coisa bem conhecida. As grandes alterações terminológicas introduzidas pelos filósofos e uma análise de seu emprego sugere que se efetuaram apenas gradualmente estavam relacionadas com as descobertas da incorporeidade, isto é, do que chamou-se depois a essência das coisas, e da predicação universal por exemplo, todo homem é mortal. Ou, dito em termos mais triviais, com a consciência de que havia coisas e coisas. (...) O obstinado caráter concreto da linguagem, consagrado por uma tradição épica que se deleitava no físico, nunca desapareceu por completo. Os seus efeitos posteriores mais óbvios podem ver-se, provavelmente, no persistente hábito grego de filosofar por meio de metáforas. Tal como o geômetra podia oferecer uma prova geral por construção de uma figura particular, assim também o filósofo se sentia totalmente satisfeito com a substituição da análise pela analogia. A linguagem começou, no entanto, a mudar. Elementos pré-filosóficos como Eros e Khronos (dos quais o mito já se tinha apropriado para seus próprios fins), ou physis e arché, desenvolveram novas conotações. O concreto cedeu lugar ao abstrato. (...) Os poderes combinatórios da linguagem são mobilizados para descrever as novas complexidades, e eis que aparece um verdadeiro tesouro comum em termos abstratos para identificar processos recém delimitados. Extraído de PETERS, F.E. Termos filosóficos gregos; Um léxico histórico. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1976, p. 8. Anexo II Há diferença entre Physis e Natureza? Se nos limitarmos à definição aristotélica de física onde physis é exatamente a realidade em devir, então traduzir physis por natureza é perfeitamente legítimo, porque no termo latino natura ressoa antes de mais nada o verbo nascer nasço, sou gerado. Desta maneira a Natureza é precisamente o reino dos seres que nascem (e, portanto, morrem), ou seja, daquilo que precisamente está em devir. Mas quando os primeiros filósofos pronunciaram a palavra physis, eles não a sentem como indicando simplesmente essa parte do Todo que é o mundo em devir. Até porque é a própria palavra a revelar um sentido mais originário, e que serve de fundamento àquele que está presente em Aristóteles. (...) Ao nascer, a filosofia é também o aparecimento de uma nova linguagem. Se bem que essa nova linguagem fale com velhas palavras da língua grega e, sobretudo, com aquelas que parecem
mais disponíveis para serem ditas de uma maneira nova. Já por si só, a velha palavra physis significa ser e luz, isto é, o ser no seu iluminar-se, no seu mostrar-se à luz. Quando os primeiros filósofos chamam de physis àquilo que pensam, não se referem a uma parte ou aspecto do ser, mas sim ao próprio ser, na medida em que este é o Todo que envolve todas as partes e todos os aspectos. Ao dirigir-se à physis, isto é, ao Todo que se mostra, a filosofia consegue ver o Todo no seu ser, livre dos véus sagrados do Mito, livre dos traços alterados por este velamento sobrenatural que ele confere ao rosto do Todo. Para a filosofia, libertar o Todo do Mito significa que o Todo não é aquilo que fica depois de suscitado pela força inventiva do Mito, mas sim aquilo que por si só é capaz de se mostrar e impor-se, precisamente porque consegue manter manifesto e presente, independente de qualquer vontade interveniente. E o Todo não mostra conter aquilo que o Mito conta (as Teogonias e as vicissitudes dos deuses e das relações com os homens). Antes, mostra o céu estrelado e a Terra e o ar e a água dos mares e dos rios, as ações e os movimentos dos povos, e tantas outras coisas mais, perante as quais o filósofo se encontra e as quais se propõe a penetrar e compreender. Extraído de SEVERINO, Emanuele, A filosofia antiga. Lisboa, Edições 70, 1986, p. 24.