Experiências com o baricentro

Documentos relacionados
V = 12 A = 18 F = = 2 V=8 A=12 F= = 2

PREPARATÓRIO PROFMAT/ AULA 8 Geometria

Professor Alexandre Assis. Lista de exercícios de Geometria

Se os tubos opostos forem de mesmo comprimento, teremos as várias possibilidades de paralelogramos, incluindo o retângulo.

MATEMÁTICA. Geometria Espacial

Geometria Espacial PRISMA RETO DE BASE TRIANGULAR (OU PRISMA TRIANGULAR)

Qual é a posição do Centro de Massa de um corpo de material homogêneo que possui um eixo de simetria

Figura 1. Duas partículas de diferentes massas perfeitamente apoiadas pelo bastão = (1)

Aula 1. Exercício 1: Exercício 2:

SOLUCÃO DAS ATIVIDADES COM VARETAS

Exercícios sobre Estudo dos Polígonos

Triângulos DEFINIÇÃO ELEMENTOS

Geometria Plana - Aula 05

DESENHO TÉCNICO ( AULA 02)

» Teorema (CROSSBAR) Seja ABC um triângulo e seja X um ponto em seu interior. Então todo raio AX corta o lado BC.

Áreas parte 1. Rodrigo Lucio Silva Isabelle Araújo

MATEMÁTICA APLICADA À AGRIMENSURA PROF. JORGE WILSON

INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO NORTE. Professor: João Carmo

MATEMÁTICA PLANEJAMENTO 4º BIMESTRE º B - 11 Anos

Apostila de Matemática II 3º bimestre/2016. Professora : Cristiane Fernandes

A PAVIMENTAÇÃO DO PLANO

Triângulos e quadriláteros - o triângulo, formado por três segmentos (3 lados); - o quadrilátero, formado por quatro segmentos (4 lados).

Agora vamos rever alguns conceitos básicos. da Geometria, estudados ao longo do Telecurso Observe a figura abaixo e resolva a seguinte questão:

Triângulos classificação

O mercado se manteve equilibrado. O malabarista perdeu o equilíbrio e caiu. Minha vida anda meio desequilibrada.

Distância entre dois pontos, média e mediana

Polígonos PROFESSOR RANILDO LOPES 11.1

Poliedross. ANOTAÇÕES EM AULA Capítulo 23 Poliedros 1.5 CONEXÕES COM A MATEMÁTICA

Oficina Geoplano. As atividades apresentadas têm o objetivo de desenvolver as seguintes habilidades:

Primeiramente é importante destacar um aspecto referente a definições, nomenclatura e classificações.

Conceitos e Controvérsias

Ângulos, Triângulos e Quadriláteros. Prof Carlos

Material Teórico - Módulo de Geometria Espacial 2 - Volumes e Áreas de Prismas e Pirâmides. Terceiro Ano - Médio

Exercício 1) Uma praça circular tem 200 m de raio. Quantos metros de grade serão necessários para cerca-la?

Geometria plana. Índice. Polígonos. Triângulos. Congruência de triângulos. Semelhança de triângulos. Relações métricas no triângulo retângulo

GEOMETRIA. Esse quadradinho no ângulo O significa que é um ângulo reto e sua medida equivale a 90 graus.

Teorema de Pitágoras

Geometria plana. Índice. Polígonos. Triângulos. Congruência de triângulos. Semelhança de triângulos. Relações métricas no triângulo retângulo

ATIVIDADES COM GEOPLANO ISOMÉTRICO

Geometria Euclidiana Plana

b) Quando o visor mostrava, girou-se um dos discos C ou U de uma unidade e o número de controle não se alterou. Qual passou a ser o número do visor?

Matemática GEOMETRIA PLANA. Professor Dudan

Geometria Euclidiana Plana

Apostila de Geometria Descritiva. Anderson Mayrink da Cunha GGM - IME - UFF

A respeito da soma dos ângulos internos e da soma dos ângulos externos de um quadrilátero, temos os seguintes resultados:

ESCOLA SECUNDÁRIA DE ALBERTO SAMPAIO. 1- Ângulos Definição: Chama-se ângulo à porção de plano limitada por duas semirretas com a mesma origem.

A origem das fórmulas das áreas de Figuras Planas

U. E. PROF. EDGAR TITO - Turma: 2º ano A Prof. Ranildo Lopes Obrigado pela preferência de nossa ESCOLA!

Quantos cones cabem em um cilindro?

d) Por dois pontos distintos passa uma única reta

ATIVIDADE 2 ATIVIDADE 5

Coordenadas Cartesianas

REBATIMENTOS 3- OS REBATIMENTOS E A MUDANÇA DE DIEDROS DE PROJECÇÃO

O quadrado e outros quadriláteros

Aula 6 Polígonos. Objetivos. Introduzir o conceito de polígono. Estabelecer alguns resultados sobre paralelogramos.

Associamos a esse paralelepípedo um número real, chamado volume, e definido por. V par = a b c.

3) O ponto P(a, 2) é equidistante dos pontos A(3, 1) e B(2, 4). Calcular a abscissa a do ponto P.

CURSO DE MATEMÁTICA BÁSICA PROGRAMA DE EDUCAÇÃO TUTORIAL CENTRO DE ENGENHARIA DA MOBILIDADE

MESTRADO PROFISSIONAL EM ENSINO DA MATEMÁTICA DA PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO LIETH MARIA MAZIERO

Geometria Analítica I

Aula 31.1 Conteúdo: Fundamentos da Geometria: Ponto, Reta e Plano. FORTALECENDO SABERES CONTEÚDO E HABILIDADES DINÂMICA LOCAL INTERATIVA MATEMÁTICA

MÓDULO INICIAL RESOLUÇÃO DE PROBLEMAS

Duração: 90 minutos (3 valores) Sabe-se que a b. Atendendo à gura, calcule a medida do ângulo D indicado.

Lista de exercícios de Geometria Espacial 2017 Prof. Diego. Assunto 1 Geometria Espacial de Posição

MINI-CURSO Geometria Espacial com o GeoGebra Profa. Maria Alice Gravina Instituto de Matemática da UFRGS

DESENHO GEOMÉTRICO Matemática - Unioeste Definição 1. Poligonal é uma figura formada por uma sequência de pontos (vértices)

O origami no ensino da Matemática

A reta numérica. Praciano-Pereira, T

2) Na figura abaixo, sabe se que RS // DE e que AE = 42 cm. Nessas condições, determine as medidas x e y indicadas.

(A) 30 (B) 6 (C) 200 (D) 80 (E) 20 (A) 6 (B) 10 (C) 15 (D) 8 (E) 2 (A) 15 (B) 2 (C) 6 (D) 27 (E) 4 (A) 3 (B) 2 (C) 6 (D) 27 (E) 4

MATEMÁTICA. O aluno achou interessante e continuou a escrever, até a décima linha. Somando os números dessa linha, ele encontrou:

Questão 1 Determine a medida da mediana relativa ao lado AC do triângulo de vértices A( 2,4), B(1,1) e C(6,3).

Prof..: Rogério de Souza Lima. Questão 1 Uma chapa de alumínio com 1,3 m2 de área será totalmente recortada em pedaços, cada um deles com 25 cm2

Lista 3 com respostas

Nome N. Turma. Geometria (8º Ano Revisões) Compilação de Exercícios do Banco de Itens

MATEMÁTICA MÓDULO 16 CONE E CILINDRO. Professor Haroldo Filho

Módulo Unidades de Medidas de Comprimentos e Áreas. Exercícios Diversos de Áreas de Figuras. 6 ano/e.f.

MATEMÁTICA SEM FRONTEIRAS PROVA-ENSAIO 2011 RESOLUÇÃO

Pirâmides: Neste momento, continuaremos a estudar a geometria espacial dos sólidos geométricos, enfatizando agora as pirâmides.

1 Geometria Analítica Plana

C D U controle Posição inicial C gira para C gira para U gira para U gira para

Aula Exemplos e aplicações - continuação. Exemplo 8. Nesta aula continuamos com mais exemplos e aplicações dos conceitos vistos.

Grupo de exercícios I.2 - Geometria plana- Professor Xanchão

GEOMETRIA PLANA. Segmentos congruentes: Dois segmentos ou ângulos são congruentes quando têm as mesmas medidas.

5. Desenhos geométricos

Formação Continuada em MATEMÁTICA Fundação CECIERJ/Consócio CEDERJ Matemática 9º Ano 4º Bimestre/2013 Plano de Trabalho

1. Área do triângulo

POLÍGONOS TRIÂNGULOS E QUADRILÁTEROS

Equilátero Isósceles Escaleno

MATEMÁTICA ENSINO FUNDAMENTAL

ATIVIDADES COM VARETAS

Exemplo Aplicando a proporcionalidade existente no Teorema de Tales, determine o valor dos segmentos AB e BC na ilustração a seguir:

Geometria. Nome: N.ª: Ano: Turma: POLÍGONOS = POLI (muitos) + GONOS (ângulos)

Exercícios Obrigatórios

Pontos correspondentes: A e D, B e E, C e F; Segmentos correspondentes: AB e DE, BC e EF, AC e DF.

Transcrição:

ARTEFATOS Experiências com o baricentro Deborah Raphael IME - USP No acervo da Matemateca do Instituto de Matemática e Estatística da USP, temos várias peças que exploram o centro de massa, do ponto de vista físico e matemático. Algumas experiências são muito fáceis de serem reproduzidas em sala de aula e o material necessário é mínimo. Sugerimos aqui atividades a serem realizadas quando o professor estiver apresentando o baricentro de um triângulo. A proposta é motivar o aluno, mostrando várias propriedades físicas para então explorar a matemática envolvida. Os conceitos A palavra de origem grega baricentro (barus = peso) designa inicialmente o centro dos pesos. Arquimedes foi o primeiro a estudar o baricentro de dois pontos de massas m 1 e m 2. Definimos aqui o baricentro como o ponto O tal que moa+ m OB=. 1 2 0 Em Matemática essa noção foi generalizada para um sistema com n pontos e também para o caso de o número de pontos ser infinito (uma curva, uma superfície, um sólido, etc.). A idéia de fazer a média das massas ponderadas é a mesma; na generalização, uma integral substitui a somatória e uma função densidade substitui a massa de cada ponto. O baricentro assim definido é também chamado centro de massa. Observamos que o que é usualmente designado por centro de gravidade não é o mesmo que centro de massa. Na definição de centro de gravidade leva-se em consideração o campo gravitacional em cada ponto. Se o campo for constante, o centro de massa coincide com o centro de gravidade. REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA 63, 2007 33

Imaginamos que as atividades a seguir serão desenvolvidas no planeta Terra e com objetos muito pequenos em relação às dimensões do planeta. Assim, é muito sensato supor o campo gravitacional constante, permitindo a identificação entre centro de massa e centro de gravidade. Atividade Material necessário Caixas de papelão (grosso), régua, tesoura, barbante, um prego na parede, uma chave de fenda. Descrição da atividade 1. O problema a ser apresentado é o de encontrar o centro de massa de figuras planas (polígonos). Pode-se começar com uma régua (retangular), desafiando os alunos a equilibrarem a régua na ponta de um dedo e explicando que o ponto onde se coloca o dedo é o centro de massa. Como achar esse ponto numa placa poligonal qualquer? 2. Os alunos, divididos em grupos, devem cortar as placas de papelão. Várias figuras serão cortadas no papelão; sugerimos, para cada grupo, ao menos um retângulo, triângulos variados (ao menos um isósceles e um escaleno), um polígono irregular de quatro ou cinco lados. As figuras não devem ter menos que 200 centímetros quadrados. É interessante que os grupos tenham figuras diferentes, sobretudo o polígono irregular. 3. São propostas duas maneiras de achar o centro de massa de uma placa, usando propriedades físicas. i) Pendurando a placa em um prego, o centro de massa está na reta perpendicular ao solo que passa pelo prego. Fazendo um pequeno furo perto da borda da figura plana, pode-se pendurá-la no prego (ela deve ficar solta, girando livremente em torno do prego). Amarra-se em seguida um peso ao barbante (um fio de prumo). Fazendo uma argolinha na ponta livre do barbante e pendurando no prego, o barbante fica esticado em frente à placa. O centro de massa está na reta indicada pelo barbante (marcar na figura essa reta). 34 SOCIEDADE BRASILEIRA DE MATEMÁTICA

Fazendo outro furinho na figura e repetindo o procedimento, encontramos outra reta. O centro de massa é a intersecção das duas retas. ii) A placa fica em equilíbrio sobre uma reta se o centro de massa da placa estiver sobre a reta. Pode-se utilizar um batente de janela ou uma ripa de madeira ou ainda um perfil de metal: a idéia é ter uma régua em cima da qual vamos equilibrar a placa (a face na qual a placa se equilibra deve ter não mais que 3 mm). Colocando a placa sobre a régua, o equilíbrio é alcançado quando o centro de massa da placa estiver sobre a reta. Traçamos na placa a reta e repetimos o procedimento buscando outra reta. A intersecção das duas retas novamente é o centro de massa. 4. Cada grupo escolhe uma placa, determina o centro de massa e o marca. Faz também outras marcas (usando cores diferentes) para confundir a outra equipe. As placas são trocadas e o objetivo é descobrir qual das marcas está sobre o centro de massa. Para isso sugerimos utilizar duas propriedades físicas. a) Se fizermos a placa girar sobre a mesa, ela sempre tenta girar em torno do seu centro de massa. b) Fazendo um furo na marca onde deve estar o centro de massa e inserindo a chave de fenda no furo, seguramos a chave e giramos a placa (mantendo a placa perpendicular ao solo). Se o furo estiver realmente no centro de massa, a placa gira livremente, sem solavanco (colocando a chave fora do centro de massa e fazendo girar, dá para sentir a diferença). Um desafio interessante é pedir aos alunos que construam uma placa cujo centro de massa esteja fora da figura. Num primeiro momento podem achar isso impossível. Formatos como lua crescente ou um bumerangue têm essa propriedade. Tendo feito essas experiências, é mais fácil entender por que o baricentro é importante. Fica mais claro que esse ponto é fundamental no estudo do equilíbrio e do movimento. É natural que os matemáticos tentem determiná-lo! REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA 63, 2007 35

Explorando a Matemática Neste ponto é interessante introduzir a definição do baricentro de um triângulo. Estamos procurando um ponto no qual o triângulo fique equilibrado. Dado um triângulo ABC qualquer, traçamos a mediana relativa ao lado AB pelo ponto médio O. Repare que todo segmento paralelo ao lado AB é cortado pela mediana em duas partes iguais e, portanto, o centro de massa de cada um desses segmentos está na mediana. Pensando no triângulo como a união desses segmentos, esperamos que o centro de massa do triângulo também esteja nessa mediana. O mesmo raciocínio se aplica a todas as medianas e, portanto, parece razoável definir o baricentro do triângulo como sendo o encontro das medianas. Os alunos podem agora tomar uma placa triangular, marcar o encontro das medianas e repetir os experimentos para verificar que, de fato, sempre encontramos o mesmo ponto. Será que, sabendo achar o baricentro de um triângulo, é possível determinar o baricentro de qualquer polígono? A resposta é sim e há vários procedimentos possíveis. Vamos começar com um polígono irregular de quatro lados. Será que o centro de massa estará no encontro das diagonais? Experimentando com as placas, os alunos percebem que isso nem sempre é verdade. Então, como proceder? Temos duas sugestões que podem ser exploradas. 1) Traçando uma das diagonais obtemos dois triângulos e, como já se sabe achar o baricentro de um triângulo, achamos os dois baricentros: B 1 e. E agora? Traçamos uma reta ligando os dois baricentros. O baricentro do polígono deve estar nessa reta. Dá para perceber isso usando o experimento ii) cada um dos triângulos pode ser equilibrado sobre essa reta; logo, juntando os dois triângulos, o equilíbrio se mantém. 36 SOCIEDADE BRASILEIRA DE MATEMÁTICA

Encontramos então uma reta na qual está o centro de massa. Se repetirmos o procedimento utilizando a outra diagonal, encontramos outra reta na qual está o centro de massa. A intersecção das retas é o centro de massa. 2) Este segundo procedimento envolve cálculo de áreas e proporções. Novamente X vamos tomar um polígono irregular de 4 lados, XYZW, e dividi-lo em dois triângulos Y B T 1 (XYW) e T 2 (YWZ) com baricentros 1 C B 1 e, respectivamente. Já sabemos que o segmento B 1 contém o centro de massa C. Além disso, temos também: W Z Área T 1 x B 1 C = Área T 2 x C. Calculando as áreas dos triângulos, obtemos o centro de massa do polígono. Ambos os procedimentos podem ser generalizados para polígonos com qualquer número de lados. Por exemplo, no caso de um pentágono, ligando dois vértices não adjacentes, obtemos um triângulo e um quadrilátero. Encontramos os centros de massa de cada um desses polígonos e procedemos de forma análoga ao descrito anteriormente em 1) e 2). A autora Deborah Raphael faz parte do grupo de professores responsáveis pela Matemateca/IME/USP http://matemateca.incubadora.fapesp.br matemateca@ime.usp.br REVISTA DO PROFESSOR DE MATEMÁTICA 63, 2007 37