GENEROS TEXTUAIS E O LIVRO DIDÁTICO: DESAFIOS DO TRABALHO

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Transcrição:

GENEROS TEXTUAIS E O LIVRO DIDÁTICO: DESAFIOS DO TRABALHO Fernanda Félix da Costa Batista 1 INTRODUÇÃO O trabalho com gêneros textuais é um grande desafio que a escola tenta vencer, para isso os livros didáticos tem dado forte contribuição. Através da análise de livros didáticos, este artigo tenta mostrar como estão sendo trabalhados os gêneros textuais no ensino fundamental. Com isso, tentou-se comparar o que a teoria orienta sobre o trabalho com gêneros textuais e o que realmente está sendo trabalhado, tentou-se mostrar também como a exploração do gênero, o trabalho com a interpretação do mesmo e produção por parte dos alunos está sendo orientada no livro didático. GÊNEROS TEXTUAIS Antes do trabalho com gêneros textuais é necessário saber qual a sua importância para o ensino, na verdade, o que deu subsídio para que eles fossem inseridos na sala de aula foi o fato de os professores trabalharem com os tipos de textos sem uma estrutura real de apoio, neste caso os gêneros textuais dão suporte para a explicação dos tipos de texto e colabora para um trabalho mais efetivo. Enquanto o conceito de texto parece já ter um consenso entre os estudiosos, as discussões sobre os gêneros textuais ainda não chegaram a uma conclusão, afirma-se que há uma vasta produção textual, consequentemente grande número de gêneros e classifica-los apenas como narrativo, descritivo ou dissertativo é insuficiente, tendo em vista que um mesmo texto pode conter características dos três tipos textuais. Para dar suporte conceitual ao presente trabalho faz-se necessário conceituar o que se entende por tipo e por gênero textual. Há dois tipos de estudos que respondem a essa questão, os estudos voltados para os textos e os estudos 1 Universidade Estadual da Paraíba Fernanda_p1@hotmail.com

voltados para o discurso, aqui o enfoque dado será para os estudos voltados para o texto, que entendem tipo de texto como, [...] um construto teórico que pode determinar formas básicas e globais para a construção de um texto (Marcuschi,2000), podendo ser narrativo, descritivo, argumentativo, explicativo e conversacional. (Marcuschi, 2000 apud Bezerra 2005). Por essa definição é possível observar que os tipos de texto diferem da visão tradicional e são acrescentados outros tipos, o que colabora para a inserção de outros gêneros, por estes entende-se que são, [...] as inúmeras realizações empíricas de texto carta, telefonema, conversa, palestra, aula, curriculum vitae, monografia, recibo, relatório, ofício, romance, editorial, notícia, telegrama, resumo, ata, etc. Bezerra (2005, p.39). Pelo conceito de gênero fica entendido que é o que popularmente se diz o suporte onde o tipo textual está inserido. Os gêneros até onde apontam os estudos são divididos em jornalísticos e literários, Bezerra (2005) mostrou acima uma variedade de gêneros jornalísticos, mas em uma sala de aula o professor deve mostrar a diversidade e trabalha-las proporcionalmente. Quando se fala em gêneros textuais o ensino praticado nas escolas mostram principalmente a estrutura e os usos de cada um. O que é indicado pelos PCN s (Parâmetros Curriculares Nacionais) é que o ensino deve ser trabalhado pelo eixo USO => REFLEXÃO => USO, com esta prática o ensino passa a centrar-se no texto, colaborando para que os escritores/leitores saibam identificar os gêneros e seus objetivos. Segundo Bezerra (2005) os livros didáticos tem trabalhado a partir de temas sociais, o que é considerado positivo, tendo em vista o grande número de gêneros que podem ser explorados. Os livros mais antigos optam por trabalhar de forma que exista um texto base, mais amplo, e outros pequenos textos, os chamados textos complementares. Atualmente os livros didáticos buscam trabalhar com textos narrativos, literários ou não literários, principalmente entre o 6º e o 9º ano do ensino fundamental, até porque os textos trabalhados de 1º ao 5º ano são fragmentos de crônicas ou contos, para que o aluno não canse da leitura. Trabalhar um texto fragmentado tem seu lado positivo, se forem trabalhados adequadamente, alguns livros optam por trabalhar um conto, por exemplo, fragmentado em vários capítulos,

o que colabora para despertar no aluno a curiosidade e o desejo de saber da história por completo, o que não deve acontecer é o livro didático trazer um texto fragmentado que não tenha muita relevância e seja trabalhado sem o interesse de aguçar a curiosidade do leitor. Os principais autores que tem seus textos que são fragmentados no livro didático são, por exemplo, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, Ruth Rocha, Cecília Meireles entre outros. A problemática em torno do uso de gêneros pelo livro didático é que em muitas vezes o número de gêneros é grande, mas o trabalho com eles não deixa muito aprendizado no aluno. Sobre isso Bezerra afirma, [...] percebemos a preocupação dos autores de livros didáticos em favorecer ao aluno o contato com um número diversificado de texto que circulam na sociedade, o que é positivo, mas sem um estudo aprofundado, de modo que se distinga tipo de gênero e se considerem os usos efetivos de cada gênero. Bezerra (2005, p. 42). Assim, o que importa verdadeiramente não é a quantidade de gêneros que o livro apresenta, mas a qualidade do estudo que deles será feita, que deve ser capaz de proporcionar ao aluno produzir e interpreta-lo em qualquer situação. O que é lamentável, mas muito frequente no livro didático é o seguinte exemplo de uso, As questões apresentadas pelos autores do LDP como propostas de estudo do poema se referem ao aspecto técnico, formal do texto (verso ou prosa) e à extração de informações objetivas do texto, numa perspectiva de decodificação, à procura de informações objetivas (animais desconhecidos, palavras desconhecidas), mas não fazem referência ao poema em si (ritmo, música, literariedade), nem ao valor da poesia na sociedade. Bezerra (2005, p.43). O exemplo acima citado mostra claramente o acontece frequentemente com o trabalho com gênero no livro didático, que passa a ser um pretexto para trabalhar vocabulário ou outro aspecto da língua, o que não está errado, mas antes disso é necessário trabalhar com o gênero em si, suas características, funções enfim. Para que parte da dificuldade do trabalho com gênero fosse resolvida seria interessante que os professores trabalhassem não apenas as três tipologias textuais tradicionais, narração, descrição e dissertação, mas tratando também de outros gêneros a partir deles, não apenas textuais, mas também orais, visto que o gênero é apenas o ponto de partida para outros diversos caminhos.

Faz-se necessário, que a escolha do livro didático seja um momento de reflexão e muito cuidado, até porque muito do que a escola exige do aluno não tem relação com a vida social dele, o que dificulta muito sua aprendizagem. Assim o momento da escolha do livro pode determinar à negativa ou positiva aprendizagem da leitura, escrita e análise linguística. Resultados e discussão Primeiramente o livro de Bogatto (2005) apresenta o gênero letra de música, acima do gênero há uma breve discrição de como foi produzida a música. O problema obviamente não está no gênero escolhido, mas na forma como o trabalho com ele é feito posteriormente, o livro pede uma atividade oral, que em nada tem haver com o gênero, apenas algumas expressões utilizadas pelo autor da musica. A segunda proposta é uma atividade escrita que da mesma forma, não explora o gênero apenas os sentidos presentes nos termos, etc. Seguindo ainda no mesmo capítulo há o gênero Crônica, a atividade que o segue é escrita e denominada Interpretação do texto, assim como na atividade anterior não há forma de exploração do gênero apenas o sentido por ele transmitido. O mesmo ocorre com todo o capítulo, com os gêneros crônicas, como a foto que também é mostrada, mas o problema é que não há um trabalho efetivo, que ao menos mostre as características e usos do gênero, a presença dele no livro é apenas para servir de pretexto para outras atividades. Com o livro de Cereja e Magalhães (2012) por ser mais recente e ainda está em uso nas escolas, espera-se que não aconteça o mesmo que o anterior. O capítulo 1 do livro apresenta dois gêneros, uma Crônica jornalística e uma notícia, o trabalho efetuado depois da leitura do gênero não difere do livro anterior, os textos apresentados estão fragmentados, mas isso é uma questão que o livro não explica, não trata de nenhuma forma. O estudo do texto pede apenas a chamada compreensão e interpretação, as questões são de subjetivas e não exigem muito do conhecimento linguístico do aluno. Há uma atividade chamada Linguagem dos textos Semântica dos verbos, na verdade não trabalha com a linguagem do texto como deveria ser, é apenas mais uma forma de trabalhar a gramática e a semântica da palavra. Por fim do capítulo há uma reportagem em que depois são apresentadas algumas características dos gêneros, mas nada que esteja adequado ao que se espera.

REFERENCIAS BORGATTO, Ana Maria Triconi. Unidade I: Escolhas de linguagem e efeitos de sentido. In: Tudo é linguagem. São Paulo: Ática, 2006. (P.19-50) CEREJA, William Roberto; MAGALHÃES, Thereza Cochar. Valores. In: Português Linguagens. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2012. 256 p. DIONISIO, Angela Paiva; BEZERRA, Maria Auxiliadora. O livro didático de português: múltiplos olhares. 3. ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2005. 158 p. Parâmetros curriculares nacionais: língua portuguesa/ Ministério da Educação. Secretária da Educação Fundamental. 3ed. Brasília: A Secretaria, 2001.