1 DÉCIMA TERCEIRA CÂMARA CÍVEL AGRAVO LEGAL EM AGRAVO DE INSTRUMENTO Nº 0009707-02.2014.8.19.0000 AGRAVANTE: MUNICÍPIO DE NITERÓI AGRAVADO: LUCAS MARQUES CAVALCANTI RELATOR: DES. GABRIEL ZEFIRO AGRAVO LEGAL QUE ALVEA DECISÃO DO RELATOR QUE NEGOU SEGUIMENTO AO RECURSO DE AGRAVO DE INSTRUMENTO. DECISÃO PROLATADA DENTRO DA PRERROGATIVA CONFERIDA AO RELATOR NO CAPUT DO ART. 557 DO CPC. AUSÊNCIA DE ABUSO, EXCESSO OU DESVIO DE PODER. RECURSO CONHECIDO E DESPROVIDO. ACÓRDÃO VISTOS, relatados e discutidos estes autos de Agravo Legal em Agravo de Instrumento nº 0009707-02.2014.8.19.0000, em que é agravante MUNICÍPIO DE NITERÓI e agravado LUCAS MARQUES CAVALCANTI. ACORDAM, por unanimidade de votos, os Desembargadores que compõem a Décima Terceira Câmara Cível do Tribunal de ustiça do Estado do Rio de aneiro, em conhecer e negar provimento ao recurso, nos termos do voto do relator.
2 RELATÓRIO Insurge-se o agravante contra a decisão do relator que negou seguimento ao recurso de agravo de instrumento, porquanto manifestamente improcedente. O recurso de agravo legal persegue a reversão da decisão com a renovação das teses apresentadas no agravo de instrumento, no sentido de que a decisão agravada que deferiu o pedido de antecipação de tutela se mostrou incorreta e merece ser revista. Aduz que não se aplica o artigo 557 do CPC ao caso em julgamento; que não restou demonstrada a hipossuficiência e econômica; que o Município de Niterói não pode figurar no polo passivo da demanda; que os requisitos autorizadores da antecipação de tutela não foram preenchidos e que não foi trazido laudo médico da rede pública de saúde, o que se faz necessário. É o breve relatório. VOTO O recorrente busca, em sede de agravo de instrumento, a reversão da decisão que deferiu o pedido de antecipação de tutela para que o Município de Niterói forneça os medicamentos pleiteados pelo agravado. A decisão foi mantida, tendo a ementa o seguinte teor: AGRAVO DE INSTRUMENTO. REMÉDIOS. PRELAZIA DO DIREITO À VIDA. MUNICÍPIO COMO PARTE LEGÍTIMA PARA FIGURAR NA LIDE. HIPOSSUFICIÊNCIA DA PARTE, EMBORA NÃO DEMONSTRADA À EXASUTÃO, DEVE SER CONSIDERADA EM SEDE DE ANTECIPAÇÃO DE TUTELA (COMPROMETIMENTO DE CERCA DE 2/3 DOS RENDIMENTOS). PRELAZIA DA DIGNIDADE HUMANA. PROTEÇÃO À CRIANÇA. SEUS GASTOS DEVEM SER PRESUMIDOS. NECESSIDADE DE MEDICAÇÕES. LAUDO DE MÉDICO PARTICULAR. POSSIBILIDADE. RECURSO A QUE SE NEGA SEGUIMENTO, PORQUANTO MANIFESTAMENTE IMPROCEDENTES, NOS TERMOS DO ART. 557, CAPUT, DO CPC.
3 O agravo legal é tempestivo e estão satisfeitos os demais requisitos de admissibilidade. Entretanto, o recurso não apresenta qualquer fundamento capaz de modificar o julgado, configurando clara pretensão de rediscutir matéria que já foi corretamente apreciada dentro da prerrogativa conferida ao Relator. Nos termos do artigo 557 do CPC, o Relator pode decidir monocraticamente e negar seguimento ao recurso quando manifestamente improcedente, em homenagem ao princípio da celeridade processual. Frise-se que o foco dessa nova sistemática é justamente desafogar as pautas nos tribunais, deixando para a sessão de julgamento os recursos e ações em que realmente haja necessidade de decisão colegiada, o que não é o caso dos autos. Destarte, a regra descrita no artigo supracitado foi fielmente observada, ao contrário do que defende o agravante. Com efeito, a matéria debatida nos autos já é conhecida dos Tribunais, sendo incontroversa a presença dos requisitos autorizadores da antecipação dos efeitos da tutela no caso em apreço. A responsabilidade do ente municipal acerca do fornecimento dos medicamentos necessários a garantir o direito à vida do agravado vem sendo corriqueiramente reconhecida neste Tribunal de ustiça e encontra amparo constitucional no artigo 196. Cumpre ressaltar, ainda, que a Lei 8.080/90 normatizou as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes, de forma a não deixar lacunas na aplicação da norma constitucional em apreço.
No inciso II do artigo 5º estabelece a supracitada lei como seu objetivo a assistência às pessoas por intermédio da promoção e recuperação da saúde, com a realização integrada de ações assistenciais. No artigo 6º, inciso I, letra d, estipula que se encontram incluída no campo de atuação do Sistema Único de Saúde a assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica. A única interpretação possível destes dispositivos é a de que os entes integrantes do SUS têm o dever de fornecer medicamentos aos necessitados. 4 Desta forma, em nada afeta a legitimidade do ente municipal o fato de ter criado por Decreto uma Fundação para gerir a sua obrigação constitucional. Diga-se, ainda, que não há na legislação limitação ao direito postulado pelo agravado. Com efeito, inexiste vinculação entre o direito a obter medicamentos do ente público ao estado de hipossuficiência econômica, como quer fazer crer o agravante. Como consequência, ele tem direito ao recebimento de medicamentos. Ademais, conforme bem asseverado na decisão atacada, cujos fundamentos aqui são confirmados, embora não demonstrados explicitamente, os gastos presumidos com infante, compras de mercado, lazer, esportes, entre outros considerados em sede de cognição rarefeita incutem no espírito deste órgão julgador a necessidade de manutenção da liminar. A irresignação agravante em relação à necessidade de laudo médico da rede pública, também não encontra guarida na presente hipótese. A exigência mostra-se desnecessária, tendo em vista a ausência de regra nesse sentido. Ademais, o receituário prescrito por médico particular goza da mesma idoneidade daquele prescrito por profissional da rede pública. Eventual suspeita de fraude ou desqualificação do profissional deve ser comprovada.
No que toca à irresignação quanto ao prazo para o cumprimento da medida, nada há a alterar. Tratando-se da urgência do bem a ser entregue, o prazo se mostrou adequado. 5 Assim, tratando-se de recurso manifestamente improcedente, como amplamente demonstrado às fls.58/61, correta a decisão monocrática que lhe negou seguimento. Isto posto, voto no sentido de conhecer e negar provimento ao recurso. Rio, 17 de setembro de 2.014. RELATOR DES. GABRIEL DE OLIVEIRA ZEFIRO