Pichação : um vértice psicanalítico. 1 Waldemar Zusman Há comportamentos humanos de fácil compreensão, como o das crianças que choram quando abandonadas, ou o das que riem quando afagadas ou presenteadas. Mas há comportamentos estranhos, dos quais não se apreende o sentido imediato, sem esforço. São atividades aparentemente gratuitas, intrigantes pela persistência e nocivas quanto à sua significação social. Nem mesmo quem as pratica sabe explicar, de maneira convincente, a razão de ser daquele comportamento insólito, a um só tempo lúdico e compulsivo. A pichação, de que tanto se fala e muito se pratica, agora, é uma destas condutas. Pode-se lançar mão de múltiplas teorias para penetrar o âmago deste pequeno mistério. Há quem veja na pichação a pressão insopitável de uma atividade artística mal direcionada. Em algumas cidades, poucas, já se tenta, municiar os pichadores de tintas e pincéis, trazendo-os para a luz do dia, com o pleno consentimento de todos, e a entusiasmada participação da população citadina, para a execução de murais, que transformam a pichação numa experiência estética de qualidade duvidosa. E mesmo que não fosse duvidosa, e se de boa qualidade pudesse ser, pichação, é que já não mais seria.
Imaginar que toda pichação é o primeiro passo de uma atividade artística incontida ou mal direcionada, ainda não nos conduz ao âmago da investigação a que nos propusemos e representaria um compromisso viciado de aduzir finalidades estéticas e sociais a um fenômeno mal compreendido em suas origens. Há quem pretenda conferir ao muro pichado o estatuto de cidadania dos outdoors, valendo-se da semelhança de que ambos ocupam espaços externos e se destinam a veicular mensagens aos transeuntes, ainda que com diferentes finalidades. Nada passa mais por cima das diferenças básicas entre arte e pichação do que esta proposição pseudo tranquilizadora. Seria o mesmo que dizer que as execuções de um tribunal marcial não passam de um exercício de tiro ao alvo, já que têm alguma coisa em comum. Mais próximo da verdade está o fato de que a pichação é uma subversão, um ato de desobediência civil, que é praticado à noite, em surdina, cuidando de não ser pego pela polícia. Praticam-na, especialmente adolescentes, numa faixa que vai dos 12 aos 18 anos, em média. Ainda assim este entendimento é pobre porque não tematiza a atividade central da pichação, limita-se a descrever alguns de seus pré-requisitos básicos, mas não elucida a dinâmica central que lhe dá origem. 2
Levando em conta os parâmetros básicos assinalados: a excursão noturna, a atividade sorrateira e transgressora do pichador, o caráter compulsivo, do ato e o desafio à autoridade policial, percebe-se que tudo na pichação procede de fatos e fenômenos noturnos da vida emocional do adolescente, que disfarçadamente transbordam. Nascem no seu mundo interno e se deslocam para o mundo externo, para as paredes nuas e limpas, recém caiadas, ou recém pintadas, como um corpo de mulher que antes de dormir tomasse o seu banho e preparasse a nudez da pele para os rituais do amor. Em sua mente o adolescente sabe a quem se destina toda aquela superfície cutânea, ( de sua mãe) limpa e lisa como a fachada recém pintada de um prédio, cuja beleza admira e ama. Mais tarde, depois que todos se deitam, o adolescente, despossuido do objeto de amor de seus sonhos e desejos, não consegue conciliar o sono. Algumas vezes a masturbação noturna vem em seu socorro e traz o alívio provisório indispensável. Quando não, o recurso é lançar mão de uma atuação, um comportamento compulsivo, que se acompanha de uma esperança de maior realização que as fantasias masturbatórias, que se confundem com os sonhos. Na transposição do plano onírico para o campo das atuações, do mundo interno para o externo, da fantasia 3
para o gesto, o corpo banhado da mãe se transfigura em parede nua e recém pintada, e o pênis do pichador vai ficar substituído pelo tubo de spray, que todo garoto aprendeu a manejar quando usava o seu pênis para desenhar no chão ou na parede, com o xixi, idênticas garatujas, único tipo de letra que o jato contínuo permite. Cada pichador deixa gravada na pele limpa daquela parede, o seu próprio nome, bordado pelo jato urinário que lhe faculta o seu pênis de spray. É um ato de posse, deslocado. Aquela mulher lhe pertence, como o gado pertence a quem grava em seu couro, a ferro e fogo, suas iniciais. Tudo tem que ser rápido e secreto, antes que (o pai acorde) a polícia o surpreenda. A pichação se inscreve dentro dos amplos limites abarcados pelo Complexo de Édipo. É uma de suas variantes, uma de suas modalidades transicionais, que termina por se esgotar com o amadurecimento emocional, quando o adolescente consegue superar sua paixão incestuosa. A figura paterna também não escapa das pichações. Elas se exercem contra os bustos de praças públicas, que também levam a sua dose de spray noturno e amanhecem recobertos daquele xixi de piche, que os desfigura. O ritual da pichação tem de se repetir todas as noites. É um vício, dizem os pichadores, que agora já se reúnem em gangs, ou galeras, como já é mais atual falar. Mas a 4
atuação gregária dos pichadores não lhes dá maior uniformidade intrínseca. Cada um segue assinando o seu nome, tomando posse da figura de seus sonhos pessoais. Desde os tempos bíblicos a isto se chama de vicio solitário. E segue sendo um hábito solitário ainda que feito por muitos, ao mesmo tempo e na mesma parede. 5 Waldemar Zusman é presidente do Grupo de Estudos Psicanalíticos RIO 3. e-mail : zusman@openlink.com.br