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Transcrição:

TRIBUNAL MARÍTIMO PROCESSO Nº 21.874/06 ACÓRDÃO Canoa sem nome. Naufrágio de embarcação a remo com exposição a risco da referida embarcação e das vidas e fazendas de bordo, provocando a morte de uma passageira por afogamento. Perda de estabilidade da embarcação provocada pelo balanço devido a movimentação de passageiros a bordo, aliada ao mau estado de conservação da referida embarcação. Imprudência e negligência. Condenação. Vistos, relatados e discutidos os presentes autos. Trata-se de analisar o naufrágio de Canoa sem nome, de propriedade da Sra. Carlecy Rocha Marcos, quando, cerca de 2h do dia 07/07/2005, encontrava-se navegando no rio Paraíba do Sul, próximo à ilha Prainha-Ipanema, Município de São Fidelis, RJ, provocando a morte por afogamento da jovem de 19 anos, Ana Lourdes Alves Pereira. Dos depoimentos colhidos e documentos acostados extrai-se que a canoa sem nome, com 4,90 metros de comprimento, fazia uma pequena travessia no rio Paraíba do Sul, conduzida por Francis Adyel Ribeiro de Souza, quando emborcou lançando todos os passageiros e seu condutor na água, tendo como conseqüência a morte por afogamento de uma das passageiras; que a bordo encontravam-se três passageiros, Felix de Souza, com 21 anos de idade, Paulo Augusto Lopes dos Santos, com 28 anos de idade e mais a jovem vítima fatal; que a canoa a remo é de propriedade de Carlecy Rocha Marcos, sendo que o seu filho Rafael Rocha Marcos, de 19 anos, era o responsável pela embarcação por ocasião do acidente; que o acidente ocorreu durante período noturno, com muita cerração e forte correnteza no rio; que na embarcação acidentada não existia material de salvatagem; que o grupo encontrava-se na ilha denominada Prainha-Ipanema desde o início da tarde do dia 06/07/2005, aproximadamente às 14h, para comemoração de um aniversário e todos ingeriram bebidas alcoólicas desde este horário; que durante a comemoração, mas já durante a madrugada do dia 07/07, o grupo decidiu ir para outra prainha localizada na margem esquerda do rio Paraíba do Sul, oposta ao local em que se encontravam, razão pela qual chamaram Rafael para realizar a travessia; que foram realizadas duas travessias sem problemas, até que, antes da terceira pernada, o Rafael deixou a condução da canoa entregando-a às seguintes pessoas, Paulo, vulgo Paulinho Português, Felix, Francis e Ana Lourdes; e que no decorrer dessa travessia ocorreu o balanço da canoa, causando o 1/7

emborcamento desta com a conseqüente queda de seus passageiros na água, vindo a causar a morte por afogamento de Ana Lourdes, pois esta não sabia nadar. Em seu depoimento, Francis Adyel Ribeiro de Souza, condutor da canoa no momento do acidente, declarou que estava na popa do barco remando em direção à ilha, na condição de condutor, tendo o Sr. Felix a sua frente e a vítima no meio da embarcação ao lado do Sr. Paulo Augusto; que ocorreu o balanço do barco para a direita, provocando entrada de grande quantidade de água no barco, todos os presentes ficaram apavorados, com isto se movimentaram para o lado esquerdo, provocando, assim, o emborcamento da embarcação e a conseqüente queda de todos os componentes na água; e que o barco balançou para a direita, sendo que o Sr. Paulo Augusto encontrava-se sentado no lado direito, provocando assim o acidente, pois o mesmo estava já bem alterado, virtude consumo de bebida alcoólica. Em seu depoimento, Rafael Rocha Marcos, responsável pela canoa acidentada, declarou que o estado de conservação da embarcação era bom; que não presenciou o acidente; que durante o evento o depoente era o responsável pela canoa; e que a embarcação era movida a remo e tinha 4,9 metros de comprimento. Em seu depoimento, Paulo Augusto Lopes dos Santos, passageiro a bordo da canoa durante o acidente, declarou que no momento do acidente não sabia exatamente quem se encontrava na embarcação, virtude ao estado alcoólico de todos os presentes, sendo informado com exatidão após o depoimento na delegacia de polícia civil no decorrer do dia 07/07; que presenciou o acidente, sendo que devido à marola do rio, o barco balançava causando agitação da vítima; que acredita que com a preocupação do remador do barco não virar, pediu à vítima para se acalmar, sendo inútil a sua solicitação, vindo assim, o barco a virar com ajuda da correnteza do rio; que o barco estava infiltrando água e em condições precárias, causando com isso maior nervosismo nos passageiros; que de maneira nenhuma foi o causador do acidente, virtude no momento o clima estava muito frio e o depoente com os documentos no bolso, além da correnteza ser muito forte e o capacete da moto estava na mão do próprio depoente; e que as pessoas não faziam uso de coletes salva-vidas. Laudo de exame pericial, ilustrado com fotos, descreve a seqüência dos acontecimentos, aponta o péssimo estado de conservação da canoa e conclui que a causa determinante foi a inobservância de precauções de segurança no uso de material de salvatagem, provocando o emborcamento da embarcação não inscrita e a falta de habilitação em categoria específica na condução da embarcação em tela. Documentação de praxe anexada, destacando-se a Certidão de Óbito de fls. 75. 2/7

No inquérito foram ouvidas sete testemunhas. No relatório, o encarregado do inquérito concluiu que o fator humano contribuiu para o acidente, uma vez que os envolvidos no acidente estavam ingerindo bebidas alcoólicas desde o dia anterior e a Sra. Ana Lourdes Alves Pereira, vítima fatal, não sabendo nadar veio a falecer por afogamento; que o fator material contribuiu para o acidente, pela ausência de coletes salva-vidas e o mau estado de conservação da embarcação; e que o fator operacional contribuiu, pelo deslocamento dos presentes na canoa para o bordo oposto por onde entrou a água, causando a perda de estabilidade da mesma e o descontrole do condutor Sr. Francis, levando, assim, a canoa ao emborcamento. Apontou como responsáveis diretos pelo acidente Francis Adyel Ribeiro de Souza, condutor da canoa, por ter sido imprudente, já que não tomou as providências para que os passageiros utilizassem os equipamentos de segurança necessários, sendo o principal o colete salva-vidas e Ana Lourdes Alves Pereira, vítima fatal, ao se encontrar com estado psicológico alterado, devido ao consumo de bebidas alcoólicas e ao desequilibrar-se na embarcação fazendo com que a mesma tombasse para boreste, provocando, assim, a entrada da água no interior da canoa e fazendo com que os demais passageiros se deslocassem para o bordo oposto, resultando no emborcamento da embarcação por bombordo, cabendo ressaltar que a vítima não sabia nadar e não cooperou com os demais para realizar o seu salvamento, desaparecendo no rio. Apontou como responsável indireto Rafael Rocha Marcos, responsável pela canoa, por ter sido negligente ao permitir a saída da embarcação sem que os presentes utilizassem os equipamentos de segurança necessários, sendo o principal, o colete salva-vidas. Notificações formalizadas. Defesas prévias juntadas. A D. Procuradoria ofereceu representação contra Francis Adyel Ribeiro de Souza, condutor da embarcação, com fulcro no art. 14, letra a (naufrágio) e contra Rafael Rocha Marcos, responsável pela embarcação, com fulcro no art.15, letra e (todos os fatos colocar em risco vidas humanas e a embarcação), ambos da Lei 2.180/54, sustentando, em resumo, que de acordo com o Laudo Pericial o estado de conservação da canoa era péssimo e não deveria ser empregada para a atividade e serviço que executava; que a NORMAM 02, item 0205, letra d dispensa de inscrição as embarcações miúdas sem propulsão, razão pela qual não se pode concordar com a informação dos peritos de que a embarcação não era inscrita; que da mesma forma não se pode acolher a imputação de culpa ao condutor por ser inabilitado, uma vez que a NORMAM 03, item 0205, dispensa de habilitação o condutor de embarcações miúdas sem propulsão utilizadas para recreio ou prática de esporte; que aos 3/7

fatores contribuintes apontados pela perícia acrescenta o operacional, uma vez que o rapaz que conduzia a canoa a remo não possuía experiência nesta atividade, além de encontrar-se alcoolizado; que examinando a prova testemunhal, dela se extrai, do depoimento de Paulo Augusto Lopes dos Santos, passageiro da canoa quando do acidente, às fls. 41 a 43, que todos os presentes a bordo encontravam-se em estado alcoólico e que, em razão das marolas do rio que balançavam o barco, a Ana Lourdes agitou-se e deu início a entrada de água por um dos bordos, levando a canoa a emborcar; e que o primeiro representado assume, em seu depoimento de fls. 44 a 46, que era o condutor da canoa e de suas declarações percebe-se que, em razão de sua inexperiência, não soube navegar enfrentando as marolas da forma como ensina a boa marinharia, isto é, cortando-a com uma das bochechas da embarcação, ao contrário, deixou que a canoa desse um dos bordos para as marolas, proporcionando o embarque de água, em razão da fragilidade da canoa, do peso de 4 pessoas movimentando-se a bordo, todas alegres em razão da longa comemoração regada a bebida alcoólica, causando, desta forma, a perda de estabilidade da frágil canoa, impossível de ser controlada por condutor totalmente inexperiente. Prossegue, a PEM, sustentando que, diante do exposto e das provas compiladas nos autos, representa contra: Francis Adyel Ribeiro de Souza, condutor da canoa e não possuidor de experiência nesta atividade, por sua conduta imprudente, ao assumir a condução da embarcação sem ter conhecimentos de como navegá-la em segurança e em evidente estado de embriagues; e Rafael Rocha Marcos, responsável pela canoa por imprudência ao entregá-la para ser conduzida por uma pessoa que não tinha conhecimento de como manejar uma canoa a remo e que se encontrava visivelmente em estado de embriagues e por negligência, de vez que a canoa, sob sua responsabilidade, não possuía sequer uma bóia salva-vidas, além de encontrar-se em péssimo estado de conservação. Recebida a representação e citados, os representados foram regularmente defendidos. A defesa de Francis Adyel Ribeiro de Souza e Rafael Rocha Marcos, por I. advogado constituído, em peça única, alega, em resumo, que não são verdadeiros os fatos narrados e que tampouco praticaram o delito descrito na representação; que deve-se destacar de imediato que os depoimentos prestados em fase policial não relatam a verdade dos fatos, uma vez que ocorreram logo em seguida ao acidente, quando os depoentes encontravam-se todos nervosos e com comportamentos alterado, inclusive alguns alcoolizados, sem, 4/7

portanto, capacidade de raciocínio e coordenação na narrativa dos fatos; que, com relação ao segundo representado, Rafael, embora a embarcação pertencesse à sua mãe, não era o seu responsável no momento dos fatos, uma vez que estava dormindo por ocasião do acidente, e havia transferido a guarda e responsabilidade da embarcação para o primeiro representado, Francis; que deve-se destacar ainda que, ao contrario do que consta da representação, o representado Francis tem experiência no manejo do barco, uma vez que está habituado a utilizar este meio de transporte para uso próprio, tendo inclusive, no dia dos fatos, guiado o barco até o local onde estavam; que ocorreu que o representado Rafael encontrava-se dormindo, quando foi avisado pelo representado Francis que este último iria utilizar-se do barco para fazer uma pequena travessia, para ir até a margem do rio cuidar de assuntos pessoais, com o que concordou aquele; que chegando à margem como pretendia, e quando já retornava, lhe foi solicitado que desse carona aos passageiros citados na representação, tendo este julgado possível tal favor, já que iria retornar para o local de origem (ilha) e o transporte não era considerado de risco; que o acidente ocorreu por uma fatalidade totalmente imprevisível, daquelas que não se pode evitar, como ocasionalmente acontece e das quais se tem noticias na história recente e antiga; que deve-se destacar o fato de tratar-se de um pequeno barco artesanal, e que os representados, todos jovens menores de 21 anos de idade, são trabalhadores e de bons antecedentes, não exercem a atividade de transporte de passageiros de nenhuma espécie e muito menos fazem de tal atividade meio de vida, e foram vítimas de uma trágica fatalidade quando ambos, prestavam favores, e que no momento não tinham motivos nem conhecimentos bastantes para negar tal pedido; que, ademais, compareceram aos atos do processo voluntariamente e prestaram todas as informações que lhes foram solicitadas; e que, assim sendo, pedem e esperam o acolhimento da presente defesa, a fim de que seja julgada improcedente a presente ação, com a conseqüente absolvição das penas previstas nos dispositivos legais mencionados, uma vez que não praticaram os fatos descritos na representação. Na instrução, nenhuma prova foi produzida. Em alegações finais, nada foi acrescentado. Decide-se. De tudo o que consta nos presentes autos, conclui-se que a natureza e extensão do acidente e fato da navegação sob análise, tipificado no art.14, letra a, e no art.15, letra e, da Lei nº 2.180/54, ficaram caracterizadas como naufrágio de embarcação a remo com exposição a risco da referida embarcação e das vidas e fazendas de bordo, provocando a morte de uma passageira por afogamento. 5/7

A causa determinante foi a perda de estabilidade da embarcação provocada pelo balanço devido a movimentação de passageiros a bordo, aliada ao mau estado de conservação da referida embarcação. Analisando-se os autos, verifica-se que embora existam evidências de que os passageiros e o condutor da canoa acidentada tenham consumido bebida alcoólica, fato este citado pelo encarregado do inquérito às fls. 83 no item 7, que diz: Cabe ressaltar que todas as pessoas presentes neste evento vinham fazendo uso de bebidas alcoólicas desde o dia anterior até o acidente..., não restou devidamente comprovado através de exame técnico de alcoolemia que o condutor estivesse em estado de embriaguez. Entretanto, o condutor da canoa foi imprudente ao aceitar conduzir a embarcação com passageiros em travessia durante a madrugada, sem coletes salva-vidas, ou sequer bóia salva-vidas, e com a canoa em estado precário de manutenção, conforme verificado pelo Laudo de Exame Pericial, onde constam, às fls. 15 a 20, fotos que comprovam o péssimo estado de conservação da embarcação acidentada, não existindo nos autos nenhuma informação que comprove a experiência do condutor, conforme alegado em sua defesa, em condução de embarcação deste tipo. Quanto ao representado Rafael Rocha Marcos, responsável pela canoa, foi imprudente ao disponibilizá-la para ser conduzida por Francis Adyel Ribeiro de Souza, pessoa que não tinha conhecimento de como manejar uma canoa a remo, que sabidamente é bastante sensível aos movimentos dos passageiros. E mais, foi negligente ao permitir que fossem transportados passageiros, em canoa sob sua responsabilidade, sem coletes salva-vidas ou sequer uma bóia salva-vidas, além de utilizar-se de canoa que se encontrava em péssimo estado de conservação, assumindo um risco que logo se materializou. Pelo exposto, deve-se considerar procedente a fundamentação da PEM, julgando o acidente da navegação como decorrente de imprudência, condenando Francis Adyel Ribeiro de Souza e julgando o fato da navegação como decorrente de imprudência e negligência, condenando Rafael Rocha Marcos. Assim, ACORDAM os Juízes do Tribunal Marítimo, por unanimidade: a) quanto à natureza e extensão do acidente e fato: naufrágio de embarcação a remo com exposição a risco da referida embarcação e das vidas e fazendas de bordo, provocando a morte de uma passageira por afogamento; b) quanto à causa determinante: perda de estabilidade da embarcação provocada pelo balanço devido a movimentação de passageiros a bordo, aliada ao mau estado de conservação da referida embarcação; c) decisão: julgar o acidente da 6/7

navegação previsto no art. 14, letra a da Lei 2.180/54, como decorrente de imprudência, condenando Francis Adyel Ribeiro de Souza à pena de multa de R$ 200,00 (Duzentos reais) e julgar o fato da navegação previsto no art. 15, letra e, da supracitada Lei, como decorrente de imprudência e negligência, condenando Rafael Rocha Marcos à pena de multa de R$ 300,00 (Trezentos reais).custas proporcionais. P.C.R. Rio de Janeiro, RJ, em 17 de outubro de 2006. SERGIO CEZAR BOKEL Juiz-Relator LUIZ AUGUSTO CORREIA Vice-Almirante Juiz-Presidente 7/7