PARÂMETROS DE QUALIDADE PARA A ANÁLISE DE PROGRAMAS TELEVISIVOS DE ÂMBITO CULTURAL: UMA PROPOSTA TEÓRICO- METODOLÓGICA Gabriela Borges



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PARÂMETROS DE QUALIDADE PARA A ANÁLISE DE PROGRAMAS TELEVISIVOS DE ÂMBITO CULTURAL: UMA PROPOSTA TEÓRICO- METODOLÓGICA Gabriela Borges Resumo O artigo apresenta os aspectos teórico-metodológicos de um estudo que discute a qualidade na análise dos programas do segundo canal da TV pública portuguesa, a A2:. A metodologia foi elaborada a partir da definição de parâmetros de qualidade, que permitem uma análise dos planos da expressão, do conteúdo e da mensagem audiovisual dos programas 2010 e Biosfera. Palavras-chave: televisão, qualidade, serviço público, magazine cultural, RTP2 PARÂMETROS DE CALIDAD PARA UN ANÁLISIS DE LOS PROGRAMAS TELEVISIVOS DE ÂMBITO CULTURAL: UNA PROPUESTA TEÓRICO- METODOLÓGICA Resumen El artículo presenta los aspectos teórico-metodológicos de un estudio que discute la cuestión de la calidad en el análisis de los programas del segundo canal de la televisión pública portuguesa, la A2:. La metodologia ha sido elaborada a partir de la definición de parámetros de calidad, que permiten un análisis de los planos de la expresión, del contenido y del mensaje audiovisual de los programas 2010 e Biosfera. Palabras-clave: televisión, calidad, servicio público, magazine cultural, RTP2 QUALITY PARAMETERS FOR THE ANALISYS OF TV PROGRAMS IN THE CULTURAL SPHERE : A THEORETICAL AND METHODOLOGICAL APPROACH Abstract This paper presents theoretical and methodological aspects of a study that discusses quality in the analysis of the Portuguese public service TV channel A 2:. The methodology was based on the definition of quality parameters, which allow analysing form, content and audiovisual message of the following programmes: 2010 and Biosfera. Keywords: television, quality, public service, cultural magazine, RTP2 Introdução A qualidade é um conceito que tem sido bastante discutido nos estudos televisivos, principalmente no que diz respeito aos canais de serviço público. Este artigo problematiza a questão da qualidade e elabora uma metodologia de estudo a partir da definição de parâmetros e indicadores de qualidade a serem usados na análise de programas de televisão. Para isso, apresenta alguns resultados parciais da investigação de pós-doutoramento sobre o segundo canal da televisão pública portuguesa, a A:2, que está sendo desenvolvida no Ciccoma (Centro de Investigação em Ciências da Comunicação e Artes) da Universidade do Algarve. A definição do conceito de qualidade é bastante controversa. Alguns autores defendem a sua necessidade e outros a desconsideram. Raboy (1996, 266), considera que a qualidade não é um atributo objectivo que pode ser aplicado Pesquisadora e Professora de estética e linguagens audiovisuais. Publicitária pela UFMG, Mestre e Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, com estágios de investigação na Universidade Autónoma de Barcelona e no Trinity College Dublin. Atualmente realiza pósdoutoramento na Universidade do Algarve, Portugal, onde também leciona como professora convidada. E-mail: ga.borges@uol.com.br Gabriela Borges 173

à radiodifusão, da mesma maneira que Rosengren et al (apud RABOY, 1996, 266) argumentam que a qualidade não pode ser alcançada como algo objectivo porque é uma relação entre uma característica e um conjunto de valores. Por outro lado, numa investigação realizada para o canal japonês NHK, Ishikawa e Muramatsu (1996,199) afirmam que é possível estabelecer denominadores comuns a fim de determinar os padrões valorativos relevantes no exercício das funções que se espera que a radiodifusão desempenhe numa sociedade democrática. No sentido proposto por Ishikawa e Muramatsu, este estudo considera que a qualidade pode ser discutida a partir de indicadores valorativos definidos de acordo com as funções que se espera que o serviço público de televisão desempenhe num contexto político, econômico e social específico. Sendo assim, o estudo do caso do segundo canal da televisão portuguesa, a A:2, permite que se discuta os discursos e as práticas de qualidade a partir de uma análise mais aprofundada dos programas que veicula e da sua consequente produção de sentido. Por outro lado, espera-se que este estudo colabore com as discussões sobre o papel desempenhado pelas televisões públicas, que apresentam um discurso fundamentado na preocupação com a qualidade e que veiculam programas com uma forte componente cultural e formativa. Este artigo contextualiza a actuação da televisão pública portuguesa, em especial o serviço fornecido pelo segundo canal e apresenta os aspectos teóricometodológicos que foram elaborados para discutir as questões de qualidade em relação aos programas da A:2. Para isso, foram consideradas as funções do serviço público, conforme discutidas por Tresseras (2001, 25-6), as obrigações que constam na legislação portuguesa referente ao serviço público e em especial ao segundo canal, que por sua vez se traduziram na missão do canal. A partir destes pressupostos foram definidos os parâmetros de qualidade para a área de actuação dos programas culturais e elaborado um modelo de análise que conta com os planos da expressão e do conteúdo e a mensagem audiovisual. Neste momento, será apresentada a análise de dois programas em formato de magazine cultural que são exibidos durante a semana no horário das 19 horas, o 2010, que aborda o tema da investigação, da ciência e da tecnologia e o Biosfera, que aborda questões relacionadas com o meio ambiente. As funções do serviço público O primeiro pressuposto teórico que foi utilizado para a elaboração do modelo de análise dos programas da A2: refere-se às funções que se espera que o serviço público de televisão desempenhe numa sociedade democrática. Este projecto de pesquisa usou como referência teórica as seguintes funções propostas Gabriela Borges 174

no estudo La definición del model del servei public, do Conselho de Audiovisual da Catalunha (TRESSERAS, 2001, 25-6): 1. Função de preservação das garantias democráticas: assegurar a livre expressão e confrontação de ideias, promover o debate plural sobre questões de interesse público. 2. Função informativa: garantir o respeito à independência profissional e ao pluralismo. 3. Função cultural: relativa à informação e à promoção das artes como área do conhecimento humano, cuja difusão deve ser assumida como um compromisso do serviço público de comunicação. 4. Função educativa: relativa à necessidade de considerar o uso do audiovisual com fins educativos, tanto no que diz respeito à educação permanente quanto ao apoio a todos os níveis do sistema educativo. 5. Função de divulgação: relativa à necessidade de socializar o conhecimento científico e técnico a fim de garantir a igualdade de oportunidades na sociedade. 6. Função social: relativa à oferta de programas de interesse social, favoráveis ao bem-estar das pessoas. 7. Função política: estímulo à participação dos cidadãos na vida política. Garantia de acesso a uma informação plural e diversa que permita ao cidadão formar uma opinião equilibrada como membro de uma sociedade democrática. Fomentar a credibilidade das instituições governamentais e o respeito pelo sistema democrático. Garantir a liberdade de expressão das minorias e dos discursos não hegemónicos. 8. Função interrelacional: colocar em contacto diversos sectores profissionais, sociais, culturais e políticos que habitualmente não se inter-relacionam. Cumprir assim a função de praça pública, ou seja, de local de encontro entre vários sectores sociais. 9. Função identitária: relativa à criação de espaços audiovisuais para a projecção de identidades culturais e linguísticas, criando sinergias para a produção, programação e distribuição entre diversas regiões. 10. Função de mobilização dos valores: difusão de valores positivos pela televisão, ao serem definidas formas de intervenção positiva da televisão na sociedade. 11. Função de equilíbrio territorial: necessidade de garantir uma cobertura nacional que represente diferentes grupos e minorias étnicas Gabriela Borges 175

e sociais. 12. Função de estímulo à interactividade: facilitar a todos os cidadãos o acesso à administração e aos serviços de carácter público. 13. Função de estímulo à participação sociocultural: contribuir para a produção de valores agregados na formação de mentalidades e no estímulo ao exercício da cidadania. Pinto (2005,49-6) ressalta que a orientação para a cidadania deve ser o critério que organiza o serviço público de televisão, pois este não se concretiza sem a participação activa dos cidadãos. O autor sugere que esta não se efectiva apenas na produção de conteúdos, mas também na co-responsabilização, interacção, aconselhamento e avaliação, seja por intermédio da acção individual, da dimensão associativa, das instâncias governamentais de regulamentação ou da acção das instituições educativas, escolares ou não, que podem contribuir para a literacia mediática. 14. Função de estímulo à diversidade: contribuir para a veiculação de uma pluralidade de perspectivas e pontos de vista, géneros, sujeitos representados, temas e formatos. Num primeiro momento, a enumeração destas funções permite criar um quadro teórico de referência que, de certa forma, estabelece as linhas orientadoras daquilo que seria esperado do serviço público a ser prestado pela televisão. As obrigações legislativas O segundo pressuposto teórico que foi utilizado na elaboração deste estudo está relacionado com as obrigações legislativas do concessionário do serviço público de televisão português. O 47 Artigo da Lei da Televisão 1 de 22 de Agosto de 2003 define as obrigações do concessionário, que são destacadas a seguir: (...) assegurar uma programação de qualidade, equilibrada e diversificada que contribua para a formação cultural e cívica dos telespectadores, promovendo o pluralismo politico, religioso, social e cultural, e o acesso de todos os telespectadores à informação, à cultura, à educação e ao entretenimento de qualidade. (...) Fornecer uma programação pluralista e que tenha em conta os interesses das minorias e a promoção da diversidade cultural. Proporcionar uma informação rigorosa, independente e pluralista. Garantir a cobertura noticiosa dos principais acontecimentos nacionais e internacionais. Garantir a produção e transmissão de programas destinados ao público jovem e infantil, educativos e de entretenimento, contribuindo para a sua formação. A Lei da Televisão refere-se ainda ao operador que explorar o serviço de 1 Disponível em <http://www.ics.pt/verfs.php?fscod=619&lang=pt>. Acesso em: 10 out. 2006. Gabriela Borges 176

programas com concessão especial, nomeadamente a A 2:, ao qual incumbe as seguintes obrigações: Promover a emissão de programas em língua portuguesa e reservar à produção portuguesa uma percentagem considerável do seu tempo de emissão, dentro dos horários de maior audiência. Garantir a transmissão de programas de carácter cultural, educativo e informativo para públicos específicos. Para corroborar com estas obrigações, o Contrato de Concessão Especial de Serviço Público 2 de 17 de Novembro de 2003 define que esta concessão deve assegurar a abertura à sociedade civil, oferecer uma programação complementar ao serviço de programas generalista, com base num modelo centrado na divulgação do conhecimento. Deve reforçar, pela diferença, os princípios da universalidade, da coesão e da proximidade do serviço público. Oferecer uma programação criativa e variada de divulgação do saber, da informação e das artes e espectáculos, promovendo o desenvolvimento da compreensão da sociedade e das instituições e o melhor conhecimento das civilizações e da sua história, da defesa e do ambiente e das minorias e da divulgação do papel das confissões religisoas na sociedade. Deve ainda oferecer uma programação de qualidade direccionada para as múltiplas necessidades dos diversos públicos específicos e, em particular, para os públicos mais jovens, para as minorias e para os cidadãos com dificuldades acrescidas de comunicação ou mobilidade. Sendo assim, as obrigações definidas na Lei da Televisão e no Contrato de Concessão Especial de Serviço Público ofereceram uma ampla gama de elementos que nortearam, de modo geral, a programação do segundo canal da televisão pública. A A2 No Contrato de Concessão Especial de Serviço Público a RTP2 foi substituída pela A 2: com uma concessão por um período de oito anos. Na fase inicial, a A 2: seria gerida pelo operador público de televisão, que garantia a emissão, os recursos humanos necessários à coordenação e operação e disponibilizava aos parceiros o acesso à sua capacidade de produção. O modelo definido apresentava uma gestão econômico-financeira autônoma em busca de auto-sustentação, cujo orçamento global foi estimado em 50% do orçamento dedicado ao canal RTP2. O objectivo do progressivo desenvolvimento deste modelo era a autonomização completa, traduzida na assunção total de responsabilidades pelo conjunto dos parceiros e na posterior atribuição da licença. 2 Disponível em <www.ics.pt/ficheiros/legisl/cce_sprtp.pdf>. Acesso em: 28 jun. 2006. Gabriela Borges 177

A concessão especial tinha por objecto um serviço de programas com enfoque nos conteúdos de âmbito educativo, cultural, infantil e social. Para esse efeito foram definidas áreas de intervenção e parceiros institucionais que garantissem uma programação de qualidade dirigida a públicos segmentados abrangendo as áreas da cultura, ciência, investigação, inovação, ação social, desporto, confissões religiosas, produção independente, cinema português apoiado pelo ICAM, ambiente e defesa do consumidor e experimentalismo audiovisual. Em outubro de 2003 o segundo canal da televisão pública foi entregue às entidades da sociedade civil com uma nova imagem capitaneada pelo nome A 2:. O modelo adotado enfatizou o carácter mini-generalista, informativo e cultural, cujo objetivo era facilitar o acesso ao conhecimento por meio de uma programação de qualidade que respondesse às necessidades de públicos específicos, particularmente os jovens, as minorias e os cidadãos com dificuldades de comunicação ou mobilidade. Com isso, a grade de programação contou com uma renovação de 76% do seu tempo de emissão a fim de atingir um público mais alargado do que aquele tradicionalmente atingido pela RTP2. A participação da sociedade civil na A 2: efectuou-se através da parceria com diversas instituições e produtoras independentes. Os parceiros participaram principalmente nos programas dos formatos Contentor 3 Cidadania e Contentor Familiar e as produtoras independentes ficaram responsáveis pela produção da maioria dos programas nacionais e dos documentários. Esta abertura à sociedade possibilitou o acesso do público aos valores, às temáticas e às realidades que, em geral, não encontram cobertura na mídia e disponibilizou uma nova oferta de programas para públicos novos e variados. Em termos de estratégias de comunicação 4, os conceitos definidos para serem transmitidos com a criação da nova imagem foram os seguintes: Abertura a Novos Canais, Experimentalismo nos Formatos, Representação das Minorias e Pequenos Segmentos, Didatismo na Atuação Social, Pluralidade de Conteúdos e Sentidos, Multiplicidade de Intervenientes, Ecletismo e Abrangência, Ousadia no Conceito, Inovação na Identidade, Construção de uma Diferença, Capitalização da A 2: como Marca, Abertura do Acesso de Novos Segmentos da Sociedade. Parâmetros de qualidade da área cultural A partir dos pressupostos teóricos mencionados acima, são elaborados os parâmetros de qualidade para uma das áreas de actuação do canal, a área 3 O formato preferencial criado para evitar a fragmentação da grade. Cada contentor foi dividido em duas partes de 30 minutos dedicadas a um tema específico. Cada tema seria apresentado por um filme sobre o tema, seguido de um debate ou conversa informal com convidados sugeridos, preferencialmente, pelos parceiros. 4 Disponível em <www.dois.tv/images/anova2.pdf>. Acesso em 10 out. 2006. Gabriela Borges 178

cultural. A área cultural pode abranger uma série de temas e abordagens tanto de cunho informativo quanto de construção de valores e comportamentos. No sentido de permitir a elaboração de um modelo de análise semiótica dos programas de televisão, os parâmetros de qualidade da área cultural foram definidos para os planos da expressão, do conteúdo e da mensagem audiovisual. Plano da Expressão A análise do Plano da Expressão pretende caracterizar os elementos estéticos do programa e está organizada nos seguintes códigos: Visuais (câmara, iluminação, cenário, actuação do elenco, guarda-roupa e maquilhagem, qualidade técnica da imagem), Sonoros (tipos de áudio, qualidade técnica do áudio), Sintácticos (edição, ritmo do programa) e Gráficos (genérico inicial, grafismos, oráculos, rodapés, genéricos finais). Os parâmetros de qualidade da área cultural relativos ao plano da expressão abrangem os seguintes aspectos: a. Produção de sentido a partir dos elementos estéticos. b. Uso dos recursos técnicos (áudio, vídeo, edição, grafismo). c. Actuação dos pivots, personagens, apresentadores, entrevistados. Plano do Conteúdo A análise do Plano do Conteúdo tem o intuito de refletir sobre a qualidade dos conteúdos veiculados nos programas e apresenta vinte e dois indicadores de qualidade para serem avaliados numa escala de 1 a 4 (fraco, razoável, bom e muito bom). Estes foram elaborados a partir dos parâmetros de qualidade da área cultural relativos ao plano do conteúdo, que abrangem os seguintes aspectos: a. Democratização do acesso à arte e ao conhecimento por meio da cultura Promoção de debate de ideias nas áreas da cultura e das artes. Importância da cultura na manutenção de um laço social entre comunidades de uma mesma nacionalidade, assim como de diferentes nacionalidades. Crítica de comportamentos e reflexões sobre a actualidade. Pluralidade de conteúdos e de produções de sentidos. Diversificação dos temas para atingir públicos segmentados com interesses específicos. povo. b. Papel cultural a ser desempenhado pela televisão pública Fomento e promoção da identidade cultural de um Gabriela Borges 179

Promoção dos sentimentos cívicos e estímulo à construção da cidadania. Elaboração de programas que divulgam narrativas úteis no sentido apresentado por Mepham (1990). Fixação dos gostos e valores estéticos. Promoção de uma cultura que não apresente apenas um carácter de natureza mais popular, mas que ao mesmo tempo também não seja elitista. Implicações pedagógicas. c. Cumprimento das funções de estímulo à participação sociocultural, interactividade e diversidade; de mobilização de valores; de equilíbrio territorial; de preservação das garantias democráticas; informativa e interrelacional. Sendo assim, os vinte e dois indicadores de qualidade do conteúdo propostos são os seguintes: Relevância: refere-se à a escolha e ao tratamento dos temas e dos pontos de vista, assim como avalia se apresenta informações a respeito de de obras artísticas, assim como de trabalhos e projectos culturais que estão a ser desenvolvidos a nível nacional e internacional. Estímulo ao pensamento, Estímulo ao debate de ideias e Apresentação de desafios: refere-se à apresentação de propostas que sejam, por natureza, polémicas, contraditórias e férteis no sentido em que farão os telespectadores reflectirem sobre aquilo que assistem num programa de carácter cultural na televisão. Ampliação do horizonte do público: refere-se à apresentação de temas e trabalhos que são pouco conhecidos e que podem contribuir para ampliar o repertório cultural do público. Promoção da consciencialização política e/ou social dos cidadãos: analisada na escolha e abordagem dos temas, contribuindo para a construção de valores éticos. Estímulo à participação cívica: refere-se aos contributos da educação para a cidadania que podem estar presentes na forma em que os temas são abordados. Diversidade: tanto em relação aos temas escolhidos quanto aos diferentes sujeitos representados nos programas de carácter cultural. Nível de informação: refere-se à relação existente entre entretenimento e informação, sendo aferido o grau de informação dos assuntos abordados. Entretenimento: refere-se à relação existente entre entretenimento e informação, sendo aferido em que medida o programa entretém o público. Gabriela Borges 180

Recurso às fontes: refere-se à pesquisa e incorporação de diferentes fontes jornalísticas e de outras naturezas, como históricas por exemplo, na abordagem dos temas. Seriedade: na escolha e abordagem dos temas e na escolha dos convidados. Objectividade: apresentação imparcial dos factos e não dramatização da notícia. Subjectividade: forte presença e/ou interferência do ponto de vista individual do apresentador/pivot ou convidados. Precisão: exposição directa e fidedigna dos temas. Oportunidade: escolha e abordagem de temas e escolha de convidados relevantes para uma dada conjuntura nacional e internacional. Interesse público: escolha e abordagem de temas que prestem um serviço público. Produção de sentido: instrumentos oferecidos pelo programa que agregam valor ao ser produzida uma certa significação por parte do público. Credibilidade: veiculação de informações fiáveis e fidedignas. Promoção da identificação do espectador: mecanismos utilizados pelo programa para que o espectador se identifique com as narrativas veiculadas. Adequação em relação ao público: em que medida as informações transmitidas são adequadas ao público alvo do programa. Exatidão dos factos narrados: os programas constróem narrativas fidedignas a partir de factos concretos. Não há dramatização da informação. Se, por um lado, os indicadores do Plano do Conteúdo discutem a qualidade em relação aos temas e às escolhas de convidados dos programas, por outro lado, os indicadores da Mensagem Audiovisual atuam no sentido de refletir sobre os dados obtidos na análise do Plano da Expressão em conjunto com o Plano do Conteúdo. Para isso, a definição do formato e dos principais aspectos técnico-expressivos são tão importantes quando os indicadores de qualidade do conteúdo, pois a mensagem audiovisual engloba os dois aspectos. Mensagem Audiovisual A análise da Mensagem Audiovisual apresenta onze indicadores de qualidade a serem avaliados na mesma escala de 1 a 4 (fraco, razoável, bom e muito bom). Os parâmetros de qualidade da área cultural relativos à mensagem auiovisual abrangem os seguintes aspectos: a. Inovação da linguagem audiovisual. b. Ousadia em termos de formato para a veiculação da mensagem. c. Criatividade e originalidade do formato. Gabriela Borges 181

d. Eficácia na transmissão da proposta comunicativa do programa. Os indicadores de qualidade da mensagem audiovisual são os seguintes: Inovação/Experimentação: em que medida o programa apresenta um formato diferenciado e idéias novas que surpreendam o público. Originalidade/Criatividade: em termos do formato e da apresentação e abordagem dos temas. Qualidade artística: da proposta do programa, presente nos códigos visuais, sonoros, sintácticos e gráficos. Apelo à curiosidade: a proposta do programa apela aos sentidos visuais e auditivos, assim como aos processos cognitivos de significação dos espectadores. Apresentação de uma estrutura organizada: em termos de temas e de rubricas. Clareza da proposta: exposição audiovisual clara dos objectivos do programa. Eficácia da transmissão da mensagem: em que medida a mensagem é transmitida de uma forma que seja facilmente compreendida pelo público. Tratamento válido do assunto: forma de abordagem dos temas e pessoas convidadas a participar do programa. Redundância: repetição dos temas, das escolha dos convidados, das abordagens e das imagens. Comunicação com o público: a proposta do programa consegue comunicarse efectivamente com o público. Solicitação da participação activa do público: os mecanismos usados para estimular a participação activa do público. Sendo assim, a proposta deste artigo no próximo tópico refere-se à aplicação deste arcabouço teórico, que originou um modelo de análise, na discussão sobre a qualidade de dois programas da A2:, o 2010 e o Biosfera. A análise dos programas Os dois programas a serem analisados apresentam algumas características comuns que possibilitaram esta reflexão conjunta. Os programas 2010 e Biosfera apresentam o formato de magazine cultural conduzido por um apresentador que introduz as reportagens, algumas rubricas fixas e as entrevistas. Ocupam o horário das 19h na terça e na quarta-feira, respectivamente 5. Estes abordam questões de extrema relevância na actualidade e agregam valor ao cenário audiovisual português, constituindo claramente um programa de serviço público. 5 De facto, o horário das 19h é ocupado por um magazine cultural diferente de terça à sexta-feira. Além do 2010 e Biosfera, na quinta-feira exibe o programa Iniciativa, sobre formação e emprego e na sexta-feira o programa Reclame, sobre os direitos do consumidores. Gabriela Borges 182

2010: 2010 é um magazine cultural que informa os cidadãos sobre os resultados das investigações conduzidas em Portugal assim como as implicações da ciência e da tecnologia na vida quotidiana. Tem o intuito de contribuir para a construção da sociedade da informação e do conhecimento. É apresentado pelo renomado jornalista Vasco Matos Trigo. Emitido às terças-feiras às 19h. É uma produção da Agência Portuguesa de Imagens (Apimagens) coordenada pelo jornalista Bruno Barrocas de Jesus. No Plano da Expressão, a vinheta de abertura consta de uma animação gráfica em tons de azul, em que aparece um cubo translúcido iluminado e as palavras ciência e tecnologia em branco. Finaliza com o nome do programa. O cenário divide-se em duas zonas. A primeira consiste numa mesa branca, apetrechada com um portátil, onde se encontra o apresentador e um ecrã ao fundo que emite imagens gráficas em tons de azul, assim como o nome e o e-mail do programa. A segunda zona tem uma mesa transparente com duas cadeiras vermelhas em forma de cubos, onde o apresentador assume o papel de entrevistador e recebe um convidado. Todo o espaço circundante é construído em tons de azul e branco. O apresentador, Vasco Matos Trigo, apresenta o magazine de ciências e tecnologias, e segue-se o primeiro tema a ser abordado no programa, que é seguido pela reportagem. Todas as reportagens são introduzidas pelo apresentador, que entrevista um convidado no estúdio em cada emissão. As rubricas do programa são Memória, que emite reportagens que já foram exibidas nos onze anos de existência do programa e Jogos, em que o jornalista Jorge Vieira apresenta as novidades do mundo dos videojogos e jogos online. E ainda apresenta mensalmente a rubrica Um livro por mês. Assim como o programa Biosfera, o 2010 grava todas reportagens in loco e apresenta entrevistas com os especialistas em cada um dos temas abordados no programa. Em geral, o programa aborda entre quatro e seis temas por emissão, todos introduzidos pelo apresentador. No Plano do Conteúdo, os temas abordados nos programas de Julho de 2006 foram os seguintes: no dia 4 de julho, a investigação marinha realizada pela Universidade do Algarve; a nova tabela portuguesa dos alimentos; as actividades do centro de investigação Centimfe a respeito da criação de bases de dados para a interligação das pequenas e médias empresas da indústria de plásticos, as actividades da indústria de moldes portuguesa; uma investigação sobre fertilidade dos solos realizada pela Universidade de Lisboa e de Évora e o novo site do INPI para registro de patentes portuguesas. Em 11 de julho os temas foram a gestão e Gabriela Borges 183

a otimização de recursos hídricos abordados na Jornada de Recursos Hídricos; as Cidades do Futuro imaginadas por alunos do 2º e 3º ciclo de escolas portuguesas; a febre da carraça investigada pelo Instituto Dr. Ricardo Jorge e a apresentação da WikiCity por António Câmara da empresa YDreams na conferência A Ciência e a Cidade na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa. No dia 18 de julho, destacam-se os seguintes temas: os vencedores dos prémios de inovação ambiental em Portugal; o uso do simulador on-line de consumo de água da EPAL; a apresentação de um guia prático de recursos humanos da Universidade de Aveiro para o desenvolvimento de competências pessoais e sociais na sociedade contemporânea; um trabalho de investigação sobre as festas trance do Instituto de Ciências Sociais/Universidade de Lisboa e a exposição de Trilobites Gigantes no Museu Arqueológico de Lisboa. Em 25 de julho, os temas foram o novo serviço médico à distância do Hospital Santa Marta (Armed) em parceria com a empresa Vodafone; o projecto de investigação que visa a criação de uma energia alternativa às fosseis; a rede de investigação na área da biodiversidade que reúne vários investigadores e instituições (Inbio); Investigação sobre os odores e as propriedades medicinais das plantas e equipa nacional do jogo Fifa 2006 no campeonato do mundo. Os indicadores do Plano do Contéudo a serem destacados nas emissões de julho de 2006 são a relevância, no que diz respeito à importância de dar a conhecer os temas da investigação que se realiza no país; a diversidade de temas abordados; a ampliação do horizonte da audiência, o estímulo ao pensamento e ao debate de idéias, no sentido em que as reportagens e as entrevistas do programa estimulam os telespectadores a reflectirem sobre aquilo que assistem na televisão; providenciando informações úteis e interessantes que, se não fosse num programa como o 2010, muito provavelmente poucas pessoas teriam acesso. Pode-se destacar ainda o alto nível da informação transmitida que é elaborada com um imenso recurso às fontes, assim como a seriedade da abordagem e o cumprimento do serviço público ao veicular assuntos de interesse público. Em relação à Mensagem Audiovisual, o programa não apresenta nenhuma inovação nem se mostra criativo no que diz respeito ao formato, mas é um magazine cultural bem realizado, que cumpre com os requisitos mínimos deste formato, como a variedade de temas e de sujeitos entrevistados. O programa apresenta uma proposta clara, com o objectivo de dar a conhecer a pesquisa nacional e, apesar de não ser inovador, apresenta a estrutura de introdução ao tema pelo apresentador, seguida de reportagem e entrevistas elucidativas, portanto uma estrutura organizada que ainda conta com duas rubricas fixas, Memória e Jogos. Entretanto, este é inovador no panorama português no que diz respeito à temática que aborda, porque não há nenhum outro programa da Gabriela Borges 184

televisão aberta que trata dos mesmos temas e, além disso, está há onze anos no ar. É possível afirmar que apela à curiosidade do telespectador, uma vez que veicula um tipo de informação que não está acessível à maioria dos portugueses, porque são processos e resultados de pesquisas realizadas nas universidades e nos centros de investigação do país. Além disso, a mensagem é transmitida de forma eficaz, sendo que a equipe de produção trabalha os temas complexos a fim de facilitar o entendimento do telespectador. E por fim, constata-se que é dado um tratamento válido ao tema das ciências e tecnologias pelo segundo canal da televisão pública portuguesa. Biosfera Biosfera é um magazine cultural que aborda os mais variados temas relacionados com as questões ambientais que afectam a sociedade contemporânea. Emitido às quartas-feiras às 19h. É produzido pela produtora Farol de Ideias com a coordenação de Arminda Sousa Deusdado e a consultoria editorial do ambientalista Bernardino Guimarães. Em termos do Plano da Expressão, a vinheta de abertura apresenta uma sequência de imagens da natureza (animais, plantas, paisagens, entre outras) sobrepostas por animações gráficas. Surge frequentemente a palavra biosfera e são também apresentados os elementos principais que a compõem: terra, ar, fogo e água. As cores são vivas, predominando o azul, o amarelo e o vermelho. A apresentadora, Maria Grego, introduz os principais temas das reportagens e entrevistas. O programa apresenta sempre uma reportagem principal, que é realizada in loco e conta com várias entrevistas e duas ou três reportagens mais curtas. As rubricas apresentadas em todos os programas são as seguintes: BI (Bilhete de Identidade), que apresenta os dados de uma espécie vegetal ou animal, Bio_net, com dicas de páginas na Internet, Bionotícias com as notícias da agenda ambiental da semana e Índice sobre a qualidade do ar, vento e humidade relativa e precipitação no país, assim como a Agenda da semana, em que são informadas as conferências, os seminários e workshops sobre o tema do meio ambiente. A rubrica Natureza na Cultura é veiculada quinzenalmente e apresenta uma reportagem que relaciona a natureza com a cultura. Um traço característico do programa é a gravação de reportagens e entrevistas in loco, com contextualização por meio de uma voz off, sendo as perguntas omitidas. O slogan do programa é A companhia mais verde da televisão. Outro ponto a destacar é o recurso aos gráficos e imagens produzidos por computador, que facilitam a compreensão, assim como aos elementos da edição não linear, como a divisão do Gabriela Borges 185

ecrã em diversas partes, que tornam mais didática e dinâmica a explicação de conceitos complexos. Em termos do Plano do Conteúdo, os temas abordados nas reportagens do programa no mês de abril de 2007 foram as seguintes: no dia 4 de abril, a extinção do lince ibérico em Portugal, a morte de golfinhos vítimas da pesca predatória e os cuidados de saúde e alimentação durante a menopausa. Em 11 de abril, foram abordados o percurso percorrido pela sucata radioativa em Portugal, a medicina integrada, o uso de energia renovável num clube de surf da Austrália. Em 18 de abril, as ameaças na área da saúde em decorrência das mudanças ambientais, processo de clonagem de plantas in vitro para combater a perda de biodiversidade realizado pela Universidade de Coimbra e o estudo realizado sobre a capacidade regenerativa do peixe zebra na Austrália. E, em 25 de abril, o aprisionamento de dióxido de carbono realizado por um projecto de investigação europeu desenvolvido pela Agencia Internacional de Energia, a melhoria da qualidade do ar e a produção de energia hídrica por uma comunidade no Quênia. No mesmo mês, a rubrica Bilhete de Identidade apresentou as seguintes espécies: a tabúa larga no dia 4 de abril, a acácia de espigas no dia 11, a suricata no dia 18 e o cedro branco no dia 25. A rubrica Natureza na cultura, que não é exibida todas as semanas, mas apenas de 15 em 15 dias, apresentou no dia 11 de abril a comemoração do centenário de nascimento do escritor transmontano Miguel Torga, cujo pseudónimo continha o nome de uma planta silvestre, a torga e no dia 25 o escritor António Reis apresenta a praia do Molhe na costa portuguesa. É importante ressaltar ainda que em todas as emissões há sempre uma reportagem que aborda boas práticas ambientais em algum país do mundo, o que pode ser visto como uma forma de incentivo à implementação de boas práticas em relação ao ambiente em Portugal. No que diz respeito aos indicadores de qualidade do conteúdo, é possível destacar a relevância e a seriedade na selecção e abordagem dos temas e na escolha dos convidados, a diversidade não apenas de temas, mas também de pontos de vistas, a precisão e a exatidão dos factos narrados, uma vez que é possível detectar a pesquisa e o recurso às fontes, que dá credibilidade à forma como os assuntos são tratados, assim como a procura de um ponto de vista objetivo na exposição dos temas. Na análise da Mensagem Audiovisual, destacam-se os seguintes indicadores: a originalidade do formato e da abordagem da questão ambiental no contexto televisivo português, a qualidade artística da proposta do programa, presente nos códigos visuais, sonoros, sintácticos e gráficos, a apresentação de uma estrutura organizada, em que todos os programas apresentam as mesmas rubricas, a clareza da proposta audiovisual e dos objectivos do programa. Além da Gabriela Borges 186

transmissão eficaz da mensagem, que pode ser facilmente compreendida pelo público e a pertinência do tratamento do assunto, isto é, a forma como os temas são abordados e as pessoas são convidadas a participar do programa. Considerações finais Como é possível perceber, o estudo sobre a questão da qualidade em televisão é bastante complexo pelo facto de haver muitas variáveis intervenientes, porém, e talvez por esta razão, é muito importante que seja realizado. Este trabalho não pretende encontrar respostas prontas nem apresentar resultados fixos, mas sim contribuir para a discussão sobre os aspectos teóricometodológicos que devem ser levados em consideração na análise de programas de televisão. Neste sentido, o estudo do caso do segundo canal da TV pública portuguesa mostra-se bastante enriquecedor, porque este fornece os elementos para a discussão da qualidade tanto em termos legislativos quanto institucionais. A metodologia de análise proposta está a ser aplicada na análise de mais de 20 programas da A2: e foi elaborada no sentido de discutir as relações entre o discurso e a prática do canal, porém, considera-se que pode ser útil na discussão mais geral sobre a qualidade em televisão, assim como pode servir de referência para outros estudos sobre a análise de programas de televisão. Para finalizar, é importante ressaltar que este artigo apresentou resultados parciais do pós-doutoramento intitulado A 2: em cena: estudo de parâmetros de qualidade para a análise de programas que está a ser desenvolvido no Ciccoma (Centro de Investigação em Ciências da Comunicação e Artes) da Universidade do Algarve com o financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior de Portugal. Referências A2:. Site oficial (2006). Disponível em <www.dois.tv/images/anova2.pdf>. Acesso em: 10 out. 2006. BORGES, Gabriela (2007). Programação infanto-juvenil de qualidade: o caso da RTP2 de Portugal. E-Compós. Dossiê Estudos Televisivos, n. 8, p. 1-20, abr. 2007. Disponível em http://boston.braslink.com/compos.org.br/ecompos/adm/documentos/ecompos08_abril2007_gabrielaborges.pdf> Acesso em: 15 nov. 2007. -----------------. Discursos de qualidade: a programação da A2: Portuguesa. In: BORGES, Gabriela e REIA-BAPTISTA, Vítor (eds.) Discursos e práticas de qualidade na televisão. Lisboa: Livros Horizonte, Ciccoma, no prelo. ISHIKAWA, Sakae e MURAMATSU, Yasuko (1996). Why measure diversity? In: ISHIKAWA, Sakae (ed.) Quality assessment of television, Luton: University Luton Press, p.199-202. MEPHAM, John (1990). The Ethics of quality in television. In: MULGAN, Geoff (ed.). The Question of quality. Londres: British Film Institute, p. 56-72. Gabriela Borges 187

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