0 nascimento da filosofia



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0 nascimento da filosofia f Zenão Clazomena Atenas Sarros Mileto Platão 0 Rodes Cítio Sócrates Filósofos da Grécia Antiga CRRANEo Tales Anaximandro Anaximenes 8 Panécio Posidónio Período pré-socrático Período clássico Período helenístico 180 km Fonte : Enciclopédia do Estudante. História da filosofia: da Antiguidade aos pensadores do século XXI. v. XII. Bernadete Siqueira Abrão [et al.]. São Paulo: Moderna, 2008. p. 17. Consulte o mapa dos principais filósofos gregos e identifique aqueles que correspondem ao período pré-socrático. Observe em que região põnia ou Magna Grécia) e em que cidade eles se estabeleceram. Em seguida veja como os filósofos do período clássico (Sócrates, Platão ) se fixam em Atenas. Embora Aristóteles tenha nascido em Estagira, cidade da Macedônia, foi em Atenas que fundou sua escola. Localize também os filósofos do helenismo, que se deslocam da Grécia continental e se espalham pelas ilhas. Situando no tempo Neste capítulo veremos o processo pelo qual se deu a passagem da consciência mítica para a consciência filosófica na civilização grega. Vejamos de início um quadro que abrange desde os períodos míticos até o século II a.c.

1 PARA SABER MAIS Periodização da história da Grécia Antiga Civilização micênica (sécs. XX a XII a.c.). Desenvolveu-se desde o início do segundo milênio a.c.tem esse nome pela importãncia da cidade de Micenas, de onde, por volta de 1250 a.c., partiram Agamêmnon, Aquiles e Ulisses para sitiar e conquistar Troia. Tempos homéricos (sécs. XII a VIII a.c.). Na transição de u m mundo essencialmente rural, os senhores enriquecidos formaram a aristocracia proprietária de terras, que fez recrudescero sistema escravista. Nesse período teria vivido Homero (séc. IX ou VIII a.c.). Período arcaico (sécs. VIII a VI a.c.). Com a formação das cidades-estados (póleis), ocorreram grandes alterações sociais e políticas, bem como o desenvolvimento do comércio e a expansão da colonização grega. No início desse período teria vivido Hesíodo. No final do século VII e durante o século VI a.c. surgiram os primeiros filósofos. Período clássico (sécs. V e IV a.c.). Auge da civilização grega; na política, o apogeu da democracia ateniense; desenvolvimento das artes, literatura e filosofia; época em que viveram os sofistas e os filósofos Sócrates, Platão e Aristóteles. Período helenístico (sécs. III e II a.c.). Decadência política, domínio macedõnico e conquista da Grécia pelos romanos; culturalmente, significativa influência das civilizações orientais; florescimento das filosofias estoicas e epicuristas. Uma nova ordem humana Costuma-se dizer que os primeiros filósofos foram gregos e surgiram no período arcaico, nas colônias gregas. Embora reconheçamos a importância de sábios que viveram na mesma época em outros lugares, suas doutrinas ainda estavam mais vinculadas à religião do que propriamente à reflexão filosófica. ++ PARA SABER MAIS Os sábios que viveram no Oriente no século VI a.c., a mesma época em que a filosofia surgiu na Grécia, foram: Confúcio e LaoTsé na China; Gautama Buda na Índia;Zaratustra na Pérsia. Alguns autores chamaram de "milagre grego" a passagem da mentalidade mítica para o pensamento crítico racional e filosófico, destacando o caráter repentino e único desse processo. Outros estudiosos, no entanto, criticam essa visão simplista e afirmam que a filosofia na Grécia não é fruto de um salto, do "milagre" realizado por um povo privilegiado, mas é a culminação do processo gestado ao longo dos tempos. Por enquanto, fiquemos com alguns fatos do período arcaico que ajudaram a alterar a visão mítica predominante e contribuíram para o surgimento do filósofo: a invenção da escrita e da moeda; a lei escrita; a fundação da pólis (cidade-estado). A invencão da escrita A consciência mítica predomina em culturas de tradição oral, quando ainda não há escrita. Mesmo após seu surgimento, a escrita reserva-se aos privilegiados, aos sacerdotes e aos reis, e geralmente mantém o caráter mágico: entre os antigos egípcios, por exemplo, a palavra hieróglifo significa literalmente "sinal divino". Na Grécia, já existira uma escrita no período micênico, mas restrita aos escribas que exerciam funções administrativas de interesse da aristocracia palaciana. Com a violenta invasão dórica, no século XII a.c., a escrita desapareceu junto com a civilização micênica, para ressurgir apenas no final do século IX ou VIII a.c., por influência dos fenícios. Em seu ressurgimento, a escrita assumiu função diferente. Suficientemente desligada da influência religiosa, passou a ser utilizada para formas mais democráticas de exercício do poder. Enquanto os rituais religiosos eram cheios de fórmulas mágicas, termos fixos e inquestionados, os escritos passaram a ser divulgados em praça pública, sujeitos à discussão e à crítica. Isso não significa que a escrita se tornasse acessível a todos, muito pelo contrário, já que a maioria da população era constituída de analfabetos. 0 que está em destaque é a dessacralização da escrita, ou seja, seu desligamento do sagrado. A escrita gera nova idade mental porque a postura de quem escreve é diferente daquela de quem apenas fala. Como a escrita fixa a palavra para além de quem a proferiu, exige maior rigor e clareza, o que estimula o espírito crítico. Além disso, a retomada posterior do que foi escrito - não só por contemporaneos, mas por outras gerações - abre os horizontes do pensamento e proporciona o distanciamento do vivido e o confronto das ideias. Portanto, a escrita surge como possibilidade maior de abstração, de uma reflexão aprimorada que tenderá a modificar a própria estrutura do pensamento. O nascimento da filosofia Capítulo 3

0 surgimento da moeda Na época da aristocracia rural, de riqueza baseada em terras e rebanhos, a economia era pré-monetária. Os objetos usados para troca vinham carregados de simbologia afetiva e sagrada. As relações sociais, impregnadas de caráter sobrenatural, eram fortemente marcadas pela posição social de pessoas consideradas superiores, devido à origem divina de seus ancestrais. Entre os séculos VIII e VI a.c., deu-se o desenvolvimento do comércio marítimo, decorrente da expansão do mundo grego, com a colonização da Magna Grécia (atual sul da Itália e Sicília) e da Jônia (hoje litoral da Turquia). 0 enriquecimento dos comerciantes acelerou a substituição de valores aristocráticos por valores da nova classe em ascensão. A moeda, inventada na Lídia - região da atual Turquia -, apareceu na Grécia por volta do século VII a.c., vindo facilitar os negócios e impulsionar o comércio. Com o recurso da moeda, os produtos que antes se restringiam ao seu valor de uso passaram a ter valor de troca, isto é, transformaram-se em mercadoria. Emitida e garantida pela pólis, a moeda fazia reverter seus benefícios para a própria comunidade. Dois lados de uma moeda grega encontrada em Atenas, c. 44o a.c. Nessa moeda grega, vemos a deusa Atena e a coruja, símbolo da sabedoria. Por consequência, a coruja passou a representar também a filosofia. Além desse efeito político de democratização de um valor, a moeda sobrepunha aos símbolos sagrados e afetivos o caráter racional de sua concepção: a moeda representa uma convenção humana, noção abstrata de valor que estabelece a medida comum entre valores diferentes. Nesse sentido, a invenção da moeda desempenha papel revolucionário, por vincular-se ao nascimento do pensamento racional crítico. A lei escrita Antes de tratarmos da transformação da pólis é preciso destacar a importância de legisladores como Drácon (séc. VII a.c.), Sólon e Clístenes (séc. VI a.c.), que sinalizaram uma nova era: a justiça, até então dependente da interpretação da vontade divina ou da arbitrariedade dos reis, tornou-se codificada numa legislação escrita. Regra comum a todos, norma racional, sujeita à discussão e à modificação, a lei escrita passou a encarnar uma dimensão propriamente humana. As reformas da legislação de Clístenes fundaram a pólis sobre nova base: a antiga organização tribal foi abolida e estabeleceram-se relações que não mais dependiam da consanguinidade, mas eram determinadas por uma organização administrativa. Essas modificações expressam o ideal igualitário que preparava a democracia nascente, já que a unificação do corpo social aboliu a hierarquia fundada no poder aristocrático das famílias, que se assentava na submissão e no domínio. Segundo Jean-Pierre Vernant, helenista e pensador francês, os que compõem a cidade, por mais diferentes que sejam por sua origem, sua classe, sua função, aparecem de uma certa maneira 'semelhantes' uns aos outros". Se de início a igualdade existia apenas entre os guerreiros, "essa imagem do mundo humano encontrará no século VI sua expressão rigorosa num conceito, o de isonomia: igual participação de todos os cidadãos no exercício do poder.' A pólis buscava garantir a isonomia, do mesmo modo que a isegoria, a igualdade do direito da palavra na assembleia. U ETIMOLOGIA Isonomia. Do grego isos,"igual",enomos, "lei"(igualdade de direitos perante a lei no regime democrático). Isegoria. Do grego isos,"igual",e agoreuo,"discursar em público". 6JPARA REFLETIR Poderíamos dizer que ainda hoje a isonomia e a isegoria são princípios extensivos a todos os cidadãos em nosso país? VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. 2. ed. São Paulo: Difel, 1977. p. 42. Unidade 1 Descobrindo a filosofia

0 cidadão da pólis Para Vernant, o nascimento da pólis (por volta dos sécs. VIII e VII a.c.) é um acontecimento decisivo que "marca um começo, uma verdadeira invenção", por ter provocado grandes alterações na vida social e nas relações humanas. A originalidade da pólis é que ela estava centralizada na ágora (praça pública), espaço onde se debatiam os problemas de interesse comum. Separavam-se na pólis o domínio público e o privado: isso significava que ao ideal de valor de sangue, restrito a grupos privilegiados em função do nascimento ou fortuna, se sobrepunha a justa distribuição dos direitos dos cidadãos como representantes dos interesses da cidade. Desse modo era elaborado o novo ideal de justiça, pelo qual todo cidadão tinha direito ao poder. A noção de justiça assumia caráter político, e não apenas moral, ou seja, não dizia respeito apenas ao indivíduo e aos interesses da tradição familiar, mas à sua atuação na comunidade. A pólis se fez pela autonomia da palavra, não mais a palavra mágica dos mitos, palavra dada pelos deuses e, portanto, comum a todos, mas a palavra humana do conflito, da discussão, da argumentação. Expressar-se por meio do debate fez nascer a política, que permite ao indivíduo tecer seu destino na praça pública. Da instauração da ordem humana surgiu o cidadão da pólis, figura inexistente no mundo da comunidade tribal e das aristocracias rurais. A consolidação da democracia Embora os regimes oligárquicos não tenham sido extirpados, em muitas póleis consolidaram-se os ideais democráticos. Entre elas, Atenas é um modelo clássico. 0 apogeu da democracia ateniense ocorreu no século V a.c., quando Péricles governava. Os cidadãos livres, ricos ou pobres, tinham acesso à assembleia. Tratava-se da democracia direta, em que não eram escolhidos representantes, mas cada cidadão participava ele mesmo das decisões de interesse comum. No entanto, quando falamos em democracia ateniense, é bom lembrar que a maior parte da população se achava excluída do processo político, tais como os escravos e os estrangeiros (metecos), mesmo que estes fossem prósperos comerciantes. Aliás, quanto mais se desenvolvia a ideia de cidadania, com a consolidação da democracia, a escravidão representava ainda mais um contraponto indispensável, já que ao escravo eram reservadas as tarefas dos trabalhos manuais e das atividades diárias de sobrevivência. É difícil fazer o cálculo demográfico de Atenas, mas no decorrer do século V a.c. a população variou entre meio milhão a 250 mil habitantes, dos quais a maioria era constituída por escravos. Excluídos os estrangeiros, as mulheres e as crianças, restavam apenas entre 10 a 14% de cidadãos propriamente ditos capacitados para participar das discussões na ágora e decidir por todos Apesar disso, o que vale enfatizar é a mutação do ideal político e uma concepção inovadora de poder, a democracia. 0 hábito da discussão pública, na ágora, estimulava o pensamento racional, argumentativo, mais distanciado das tradições míticas. O século de Péricles. Phillipp von Foltz,1853. Na ágora ateniense, logo abaixo da acrópole, o povo se reúne para a assembleia em que os oradores discutem os destinos da cidade. J Os primeiros filósofos A grande aventura intelectual dos gregos não começou propriamente na Grécia continental, mas nas colônias da Jônia e da Magna Grécia, onde florescia o comércio. Os primeiros filósofos viveram por volta dos séculos VII e VI a.c. e, mais tarde, foram classificados como pré-socráticos, quando a divisão da filosofia grega centralizou-se na figura de Sócrates. Assembleia. Em grego se diz agord, local de reunião para decidir assuntos comuns. Designa também a praça principal das póleis, local onde se instalava o mercado. be- O nascimento da filosofia Capítulo 3

Os escritos dos filósofos pré-socráticos desapareceram com o tempo, e só nos restam alguns fragmentos ou referências de filósofos posteriores. Sabemos que geralmente escreviam em prosa, abandonando a forma poética característica das epopeias, dos relatos míticos. PARA SABER MAIS Períodos da filosofia grega Pré-socrático (séc. VII e VI a.c.). Os primeiros filósofos ocupavam-se com questões cosmológicas, iniciando a separação entre a filosofia e o pensamento mítico. Sócrático ou clássico (séc. V e IV a.c.). Ênfase nas questões antropológicas e maior sistematização do pensamento. Desse período fazem parte os sofistas, o próprio Sócrates, seu discípulo Platão e Aristóteles, discípulo de Platão. Pós-socrático (séc. III e II a.c.). Durante o helenismo, preponderou o interesse pela física e pela ética. Surgiram as correntes filosóficas do estoicismo (Zenão de Citio), do hedonismo (Epicuro) e do ceticismo (Pirro de Élida). PARA SABER MAIS Entre os primeiros filósofos, Pitágoras foi o que pela primeira vez usou a palavra filosofia e ainda hoje é estudado em cursos de geometria. Você conhece o teorema sobre a hipotenusa e os catetos do triãngulo retângulo? 0 princípio de todas as coisas Os primeiros pensadores centraram a atenção na natureza e elaboraram diversas concepções de cosmologia. Note que dizemos cosmologia, conceito que se contrapõe à cosmogonia de Hesíodo. Enquanto no período mítico a cosmogonia relata o princípio como origem no tempo (o nascimento dos deuses), as cosmologias dos pré-socráticos procuram a racionalidade constitutiva do Universo. Todos eles procuram explicar como, diante da mudança (do devir), podemos encontrar a estabilidade; como, diante do múltiplo, descobrimos o uno. Ao perguntarem como seria possível emergir o cosmo do caos - ou seja, como da confusão inicial surge o mundo ordenado -, os pré-socráticos buscam o princípio (em grego, a arkhé) de todas as coisas, entendido não como aquilo que antecede no tempo, mas como fundamento do ser. Buscar a arkhé é explicar qual é o elemento constitutivo de todas as coisas. As respostas dos filósofos à questão do fundamento das coisas, da unidade que pode explicar a multiplicidade, são as mais variadas. Vejamos algumas delas: Para Tales de Mileto (640-c.548 a.c.), astrônomo, matemático e primeiro filósofo, a arkhé é a água; De acordo com Pitágoras (séc. VI a.c), filósofo e matemático, o número é a essência de tudo; todo o cosmo é harmonia, porque é ordenado pelos números. PITAGORAS Monocórdio de Pitágoras em ilustração sem data. 0 monocórdio - como o nome diz - é um instrumento de uma corda só. Nele, Pitágoras fez experiências para mostrar que a música se expressa em linguagem matemática. Ao calcular os intervalos entre os diferentes pontos pressionados na corda, descobriu a relação entre as notas musicais e as proporções no seu comprimento. Faça uma pesquisa para explicar com mais detalhes quais foram as proporções estabelecidas por Pitágoras no seu experimento. Se necessário, consulte alguém que conheça teoria musical, matemática ou ainda física. Para Anaximandro (610-547 a.c.), o fundamento dos seres é uma matéria indeterminada, ilimitada (ápeiron, em grego), que daria origem a todos os seres materiais. Para Anaxímenes (588-524 a.c.), é o ar, que pela rarefação e condensação faz nascer e transformar todas as coisas. Parmênides de Eleia (c.544-450 a.c.) e Heráclito de Éfeso (sécs. VI-V a.c.) desenvolveram teorias que entraram em conflito e instigaram os filósofos do período clássico (como veremos no capítulo 13, `A busca da verdade" ). Enquanto para Parmênides o ser real é imóvel, imutável e Unidade 1 Descobrindo a filosofia

A teoria dos quatro elementos - terra, água, ar e fogo - faz parte da tradição de vários povos antigos. A que foi elaborada por Empédocles tornou-se a mais conhecida e aceita na cultura ocidental até o século XVIII, quando o cientista Lavoisier contestou sua validade. Homem na balanço dos quatro elementos. Autor desconhecido, 1532. o movimento é uma ilusão, para Heráclito tudo flui e tudo o que é fixo é ilusão: "não nos banhamos duas vezes no mesmo rio". Anaxágoras (499-428 a.c.), nascido em Clazômena, mudou-se para Atenas, onde foi mestre de Péricles. Sustentava que as "sementes" de todas as coisas foram ordenadas por um princípio inteligente, uma Inteligência cósmica (Naus, em grego). Os quatro elementos, terra, água, ar e fogo, constituem a teoria de Empédocles (483-430 a.c.). Os filósofos Leucipo (séc. V a.c.) e Demócrito (c.460-c.370 a.c.) são atomistas, por considerarem o elemento primordial constituído por átomos, partículas indivisíveis. Como para eles também a alma era formada por átomos, estamos diante de uma concepção materialista e determinista. Mito e filosofia : continuidade e ruptura Já podemos observar a diferença entre o pensamento mítico e a filosofia nascente: a cosmologia racional distingue-se da cosmogonia mítica de Hesíodo. Para estudiosos como o inglês Francis Mcdonald Cornford, no entanto, apesar das diferenças o pensamento filosófico nascente ainda apresentava vinculações com o mito. Examinando os textos dos filósofos jônicos, Cornford descobriu neles a mesma estrutura de pensamento existente no relato mítico: os jônios afirmavam que, de um estado inicial de indistinção, separam-se pares opostos (quente e frio, seco e úmido), que vão gerar os seres naturais (o céu de fogo, o ar frio, a terra seca, o mar úmido). Para eles, a ordem do mundo deriva de forças opostas que se equilibram reciprocamente, e a união dos opostos explica os fenômenos meteóricos, as estações do ano, o nascimento e a morte de tudo o que vive. Ora, para Cornford, essa explicação racional se assemelha aos relatos de Hesíodo na Teogonia, segundo os quais Gaia gera sozinha, por segregação, o Céu e o Mar; depois, da união de Gaia com o Urano resulta a geração dos deuses. Embora em parte concorde com o fato de que a filosofia deriva do mito, em Mito e pensamento entre os gregos Vernant contrapõe-se a Cornford ao destacar o novo, "aquilo que faz precisamente com que a filosofia deixe de ser mito para se tornar filosofia". Nesse sentido, existe uma ruptura entre mito e filosofia. Enquanto o mito é uma narrativa cujo conteúdo não se questiona, a filosofia problematiza e, portanto, convida à discussão. No mito a inteligibilidade é dada, na filosofia ela é procurada. A filosofia rejeita o sobrenatural, a interferência de agentes divinos na explicação dos fenômenos. Ainda mais: a filosofia busca a coerência interna, a definição rigorosa dos conceitos; organiza-se em doutrina e surge, portanto, como pensamento abstrato. O nascimento da filosofia Capítulo 3

Leia o texto de Nietzsche sobre Tales de Mileto e responda às questões. Tales, o primeiro filósofo "A filosofia grega parece começar com uma ideia absurda, com a proposição: a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério? Sim, e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz sem imagem e fabulação; enfim, em terceiro lugar, porque nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido o pensamento: 'Tudo é um'. A razão citada em primeiro lugar deixa Tales ainda em comunidade com os religiosos e supersticiosos, a segunda o tira dessa sociedade e no-lo mostra como investigador da natureza, mas, em virtude da terceira, Tales se torna o primeiro filósofo grego. Se tivesse dito: `Da água provém a terra', teríamos apenas uma hipótese científica, falsa, mas dificilmente refutável. Mas ele foi além do científico. Ao expor essa representação da unidade através da hipótese da água, Tales não superou o estágio inferior das noções físicas da época, mas, no máximo, saltou sobre ele, As parcas e desordenadas observações de natureza empírica que Tales havia feito sobre a presença e as transformações da água ou, mais exatamente, do úmido, seriam o que menos permitiria ou mesmo aconselharia tão monstruosa generalização; o que o impeliu a esta foi um postulado metafísico, uma crença que tem sua origem em uma intuição mística e que encontramos em todos os filósofos, ao lado dos esforços sempre renovados para exprimi-la melhor - a proposição: 'Tudo é um'. [...] Quando Tales diz: 'Tudo é água', o homem [...] pressente a solução última das coisas e vence, com esse pressentimento, o acanhamento dos graus inferiores do conhecimento." NIETZSCHE, Friedrich. A filosofia na época trágica dos gregos, 3. p. 16. Em: Os pré-socráticos. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Coleção os Pensadores). QUEM É? Tales de Mileto (64o-c.548 a.c.), de origem fenícia, viveu em Mileto, na Jônia. É considerado o primeiro filósofo e um dos Sete Sábios da Grécia. Foi também matemático: enquanto os egípcios conheciam uma geometria prática, Tales transformou esse saber empírico em conhecimento científico. É atribuído a ele o teorema de Tales (dois triângulos são iguais quando possuem um lado igual Tales de Mileto, imagem de c.i866, autor desconhecido. compreendido entre dois ângulos iguais), e teria calculado a altura de uma pirâmide comparando a sombra dela com sua própria sombra. Como astrônomo, teria previsto um eclipse solar. Talvez porter viajado muito e conhecido as cheias do Nilo, intuiu que a água deveria sero princípio de tudo, por estar ligada à vida, à germinação, mas também à corrupção e à putrefação. Por considerar a água um "deus inteligente", conclui que "todas as coisas estão cheias de deuses". Como não restou nada do que escreveu - se é que escreveu -, nem todos os relatos a seu respeito são confiáveis. Metafísica. Campo da filosofia que trata do "ser enquanto ser", isto é, do ser independentemente de suas determinações particulares, do ser absoluto e dos primeiros princípios. Consultar também o Vocabulário, no final do livro. Questões Identifique no trecho selecionado as três razões destacadas por Nietzsche segundo as quais podemos levar a sério a reflexão de Tales de Mileto sobre a água como princípio de tudo. Em que sentido a reflexão de Tales é filosófica e, portanto, se distingue do mito e da ciência?