3ª VARA DO TRABALHO DE SÃO JOSÉ - SC TERMO DE AUDIÊNCIA RTOrd 0003346-50.2011.5.12.0054 Aos 13 dias do mês de abril do ano de dois mil e doze, às 17h58min, na sala de audiências da, por ordem da Exma. Juíza Miriam Maria D Agostini, foram colocados para julgamento os autos do processo entre Manoel Campos Goulart Filho, Autor, e Gerdau Aços Longos S/A, Ré. Ausentes as partes. Submetido o presente feito à apreciação, foi proferida a seguinte: S E N T E N Ç A 1 RELATÓRIO Trata-se de Ação Trabalhista ajuizada por Manoel Campos Goulart Filho em face de Gerdau Aços Longos S/A, pelos fatos e fundamentos alegados na petição inicial para pleitear os títulos lá enumerados. Atribuiu à causa o valor de R$ 23.000,00 e anexou instrumento de mandato e documentos. Citada a Ré, ambas as partes compareceram na audiência inicial. Inexitosa a conciliação, a Ré apresentou contestação escrita, com documentos, dos quais se manifestou o Autor. Na audiência em prosseguimento, ambas as partes não compareceram, estando presentes somente os respectivos procuradores. Em face do que foram cominados os efeitos da confissão ficta às partes. Razões finais, remissivas. Conciliação final rejeitada. É o breve relatório. 2 MÉRITO 2.1 DAS HORAS EXTRAS Postula o Autor a condenação da Ré no pagamento de horas extras, assim consideradas as laboradas além da oitava hora diária e da quadragésima quarta semanal, destacando na petição inicial diversos horários em que teria laborado de forma extraordinária. Acrescenta que com relação às horas noturnas deverá ser observada a redução prevista no art. 73, 1º, CLT bem como ser acrescido o respectivo adicional de 25%. Ainda, postula o pagamento dos intervalos intra e interjornadas sonegados. A Ré juntou os cartões-ponto do Autor. Ocorre que a ambas as partes foram aplicados os efeitos processuais da RTOrd 0003346-50.2011.5.12.0054 - Sentença - p. 1
confissão ficta. Nessa situação, comungo do entendimento de Mauro Schiavi (in Manual de Direito Processual do Trabalho, 5ª ed., São Paulo: LTr, 2012, p. 507): Se reclamante e preposto não comparecerem, o efeito será a aplicação da confissão ficta a ambos. Como ambos foram confessos, a doutrina fixou o entendimento no sentido de que o processo deve ser solucionado à luz das regras de distribuição do ônus da prova fixadas nos arts. 818, da CLT, e 333, do CPC. 1 Assim, passo a analisar as questões com base no ônus da prova. Os cartões-ponto juntados aos autos, na sua grande maioria, anotação britânica dos horários de entrada e saída. Apenas em alguns dias houve anotação de horas extras, o que, por si só, não tem o condão de validá-los. Nessa senda, atraio o enunciado no item III da Súmula 338 do TST: Os cartões de ponto que demonstram horários de entrada e saída uniformes são inválidos como meio de prova, invertendo-se o ônus da prova, relativo às horas extras, que passa a ser do empregador, prevalecendo a jornada da inicial se dele não se desincumbir. Reputo, pois, inválidos os cartões-ponto juntados pela Ré como meio de prova da jornada de trabalho do Autor. E como ela não produziu mais nenhuma prova nos autos acerca da jornada de trabalho do Autor, reputo que o módulo de trabalho é o descrito na petição inicial, porquanto não se desincumbiu do seu ônus probatório. Logo, condeno a Ré no pagamento das horas laboradas além da oitava hora diária e da quadragésima quarta hora semanal, de forma não cumulativa (para evitar o bis in idem), como extras, com os adicionais previstos nos instrumentos de negociação coletiva juntados aos autos, sendo que para o labor em domingos e feriados, o adicional é de 100%. Reflexos em repouso semanal remunerado, aviso-prévio, décimo terceiro salário, férias com um terço e FGTS com o adicional de 40%. Também condeno a Ré no pagamento do adicional noturno convencional (25%), considerando a redução da hora noturna, para o labor prestado no período das 22h00min às 5h00min do dia seguinte. Reflexos em repouso semanal remunerado, avisoprévio, décimo terceiro salário, férias com um terço e FGTS com o adicional de 40%. Ainda, condeno a Ré no pagamento do tempo não usufruído a título de intervalo interjornadas, com o adicional de 50%, na forma da OJ 355, SDI-1, TST. Reflexos em repouso semanal remunerado, aviso-prévio, décimo terceiro salário, férias com um terço e FGTS com o adicional de 40%. 1 Nesse sentido, destaca-se a seguinte ementa: EMENTA. CONFISSÃO FICTA AUSÊNCIA DE AMBAS AS PARTES NA AUDIÊNCIA DE PROSSEGUIMENTO CONSEQUÊNCIA. Quando os litigantes não comparecerem em audiência, onde deveriam prestar depoimento, a incidência conjunta da ficta confessio se anula, de forma que a análise seguinte haverá que recair no encargo probatório atribuído a cada qual (TRT 3ª Região Proc. RO n. 6.017/94 2ª T. Juiz Sebastião Geraldo de Oliveira MG: 1.7.94). RTOrd 0003346-50.2011.5.12.0054 - Sentença - p. 2
Condeno a Ré no pagamento de uma hora a título de intervalo intrajornada, na forma da OJ 307, SDI-1, TST, com o adicional de 50%, porquanto o Autor não usufruía do intervalo mínimo intrajornada de uma hora. Reflexos em repouso semanal remunerado, aviso-prévio, décimo terceiro salário, férias com um terço e FGTS com o adicional de 40%, na forma da OJ 354, SDI-1, TST. Determino a dedução, mês a mês, das horas extras (independentemente do adicional utilizado) e seus reflexos já pagos durante o período imprescrito, conforme lançamentos realizados nos contracheques e folhas financeiras juntadas aos autos. Friso que não comungo do entendimento enunciado na OJ 415 da SDI-1, TST. Deixo de aplicar o enunciado na Súmula 85 do TST, porquanto a invalidade dos cartões-ponto não autoriza que deles seja extraída a existência de compensação de horas, ainda mais quando os horários nele lançados são, em sua maioria, britânicos. Friso que a Súmula 349 do TST foi cancelada. Ainda, também não há falar em desconto de dez minutos das horas extras, na forma da Súmula 366 do TST, porquanto a redação completa dessa Súmula é a seguinte: Não serão descontadas nem computadas como jornada extraordinária as variações de horário do registro de ponto não excedentes de cinco minutos, observado o limite máximo de dez minutos diários. Se ultrapassado esse limite, será considerada como extra a totalidade do tempo que exceder a jornada normal. (sublinhou-se). E como no caso do Autor o período de horas extras ultrapassou o limite de dez minutos diários, não há falar em desconsideração desse tempo. 2.2 DAS MULTAS CONVENCIONAIS Condeno a Ré no pagamento da multa convencional previstas nos instrumentos de negociação coletiva juntados aos autos e aplicáveis durante a vigência do contrato de trabalho mantido com o Autor, por violação das cláusulas referentes a horas extras e jornada noturna. 2.3 DOS BENEFÍCIOS DA JUSTIÇA GRATUITA Com supedâneo nas disposições contidas no art. 1º da Lei nº 1.060/50 c/c art. 1º da Lei nº 7.115/83 e art. 790, 3º, CLT, e diante da declaração de hipossuficiência juntada aos autos, concedo os benefícios da justiça gratuita ao Autor. 2.4 DOS HONORÁRIOS ASSISTENCIAIS Presentes os pressupostos de sua admissibilidade nesta Justiça, ao teor do art. 14 da Lei n. 5.584/70 e da Súmula 219, I, TST, condeno a Ré no pagamento de honorários assistenciais, ora arbitrados em 5% (art. 14, caput, Lei Federal n. 5.584/70 c/c art. 11, 1º, Lei Federal n. 1.060/50) sobre o valor líquido da condenação (OJ 348, SDI-1. RTOrd 0003346-50.2011.5.12.0054 - Sentença - p. 3
TST), em favor do Sindicato assistente. 3 DISPOSITIVO Ante o expendido, julgo PARCIALMENTE PROCEDENTES os pedidos formulados por MANOEL CAMPOS GOULART FILHO em face de GERDAU AÇOS LONGOS S/A na Ação Trabalhista RTOrd 0003346-50.2011.5.12.0054, para, nos termos da fundamentação: 1) condenar a Ré no pagamento: α) das horas extras, intervalos intrajornada e interjornadas, com reflexos e deduções, nos termos expostos no item 2.1; β) das multas convencionais, nos termos expostos no item 2.2; χ) dos honorários assistenciais, no importe de 5% sobre o valor líquido da condenação, em favor do Sindicato assistente item 2.4; 2) conceder os benefícios da justiça gratuita ao Autor; e 3) julgar improcedentes os demais pedidos analisados na fundamentação. Todas as verbas da condenação têm natureza salarial, com exceção das multas convencionais e reflexos em férias proporcionais acrescidas de um terço e FGTS com o adicional de 40%. Os valores devidos serão apurados em regular liquidação de sentença. Correção monetária (Súmula 381, TST), descontos do IRPF (Art. 12-A, Lei n. 7.713/88, regulamentado pela IN RFB 1.127/2011, não devendo incidir sobre os juros, conforme OJ 400, SDI-1, TST) e contribuições previdenciárias (Súmula 368, TST, OJ 363, SDI-1, TST, devendo ser observado para efeito de fato gerador e aplicação de juros e multa, o disposto no art. 43, 2º e 3º da Lei 8.212/91, ficando excluídas dos cálculos as contribuições sociais devidas a terceiros, as quais não abrangem as do SAT, na forma da OJ 414 da SDI-1, TST) tudo na forma da lei. Os juros são os moratórios, contados da data do ajuizamento da ação (apenas sobre o crédito trabalhista e não sobre as contribuições previdenciárias e a retenção do imposto sobre a renda), no importe de 1% ao mês, pro rata die (Súmula 200, TST e art. 883 da CLT). O FGTS com o adicional de 40% serão corrigidos pelos mesmos índices trabalhistas (OJ 302, SDI-1, TST). RTOrd 0003346-50.2011.5.12.0054 - Sentença - p. 4
Valor provisório arbitrado à condenação: R$ 6.000,00. Custas de R$ 120,00, ao encargo da Ré. Intimem-se as partes. Dispensa-se a intimação da União, porquanto o valor das contribuições previdenciárias devidas nesses autos não ultrapassam R$ 10.000,00, nos termos da Portaria n. 435, de 8/9/2011. Nada mais. MIRIAM MARIA D AGOSTINI Juíza do Trabalho RTOrd 0003346-50.2011.5.12.0054 - Sentença - p. 5