ANÁLISE DE MOVIMENTO
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- Oswaldo Cruz Gorjão
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1 capítulo 1 ANÁLISE DE MOVIMENTO Aspectos neurofisiológicos O treinamento de força é atualmente uma das modalidades de atividade física mais praticadas pela população em geral. Crianças, jovens, adultos e idosos, de ambos os sexos, estão engajados em programas de treinamento de força com fins estéticos ou preventivos e, em número mais reduzido, mas ainda assim representativo, com o objetivo de melhorar o desempenho esportivo. A manipulação das variáveis agudas relacionadas ao treinamento de força, entre as quais a seleção e a ordem dos exercícios, a intensidade e o volume da carga, a freqüência de treino e o intervalo entre os exercícios e as séries (Kraemer e Ratames, 2004), constitui um dos principais aspectos a ser controlado para o êxito do programa. A seleção dos exercícios executados em equipamentos ou com pesos livres é, em princípio, baseada na análise detalhada do(s) movimento(s) articular(es) e da musculatura envolvida. No entanto, a parcela de contribuição de cada músculo para a realização dos diferentes exercícios não é clara e objetivamente conhecida, o que torna a análise de movimentos globais ainda mais subjetiva e capaz de comprometer a elaboração adequada de um programa de treino (Matheson e cols., 2001). Portanto, a identificação da cadeia cinética nos diferentes exercícios é essencial para a organização e prescrição adequada do processo de treino. Uma vez controlado esse aspecto, o equilíbrio articular, a postura corporal, o desempenho motor específico e até mesmo objetivos estéticos, entre outros, ficam mais resguardados. Em relação à análise qualitativa da participação muscular em movimentos específicos, há pelo menos seis métodos utilizados: A partir da análise dos pontos de inserção do músculo e da direção das suas fibras, determinar a relação mecânica exercida sobre o esqueleto e o conseqüente movimento articular. Esse sistema constitui-se em uma análise teórica. A partir da dissecação do cadáver, tracionar o músculo e observar os movimentos executados. Estimular eletricamente um músculo e observar os movimentos realizados. Em indivíduos que perderam a função de determinados músculos, estudar a influência na força, na postura e nos movimentos resultantes. Essas técnicas são de aplicação limitada in vivo e, principalmente, as três primeiras não possibilitam determinar as ações musculares sinérgicas. Além das técnicas mencionadas, há duas técnicas de análise das ações musculares aplicadas in vivo: Determinar a função muscular por meio da palpação dos músculos durante a execução do movimento, procurando identificar quais são os músculos envolvidos.
2 12 capítulo 1 Analisar a ativação muscular mediante a captação do estímulo elétrico enviado pelo sistema nervoso, o qual gera a contração do músculo. Essa técnica é denominada eletromiografia (EMG). Entre as técnicas citadas, a EMG é a mais aceita na comunidade científica para a análise da função muscular. A EMG será utilizada como forma de ilustração da ativação muscular nos capítulos a seguir. É importante o entendimento técnico do sinal eletromiográfico. O músculo esquelético é formado por fibras musculares agrupadas em unidades motoras (UM), compostas por fibras com características semelhantes e inervadas pelo mesmo neurônio motor. A contração muscular é proveniente da ativação de várias UM, e a intensidade dessa contração depende do número de UM acionadas e da freqüência dos impulsos elétricos enviados para cada uma delas. O sinal elétrico que se propaga pelas unidades motoras diante de uma contração muscular é captado e representado graficamente pela EMG, permitindo, dessa forma, identificar os músculos ativados durante um determinado exercício e representando, ainda que de forma indireta, a intensidade da contração muscular. Sobre esse aspecto, cabe salientar que, apesar da existência de vários estudos que correlacionam o trabalho mecânico muscular e a EMG, não é consenso na literatura a relação linear entre EMG e força muscular. Alguns estudos apontam para o fato de a linearidade ocorrer com maior intensidade em contrações isométricas, o que não acontece sob contrações dinâmicas. Entre as variáveis que podem afetar a linearidade estão incluídas: a morfologia do músculo avaliado composição de fibras lentas e rápidas e ângulo de penação dessas fibras ; a preparação e a colocação dos eletrodos na pele; o comprimento muscular; a velocidade e o tempo de execução do movimento; a fadiga muscular; as condições de treinamento dos sujeitos submetidos à técnica, bem como as características mecânicas da carga externa. A captação do sinal EMG pode ser realizada de duas formas: através de eletrodos de superfície ou de eletrodos de profundidade (agulha ou fio). Limitação importante dos eletrodos de profundidade é o fato de a técnica ser invasiva, restringindo-se mais a estudos de natureza clínica. A maioria das pesquisas envolvendo EMG é realizada com eletrodos de superfície. Apenas os músculos superficiais são monitorados. Com isso, a análise da participação muscular nos diferentes exercícios, utilizando essa técnica, é apenas parcial. Isso porque os músculos profundos envolvidos no movimento não podem ser monitorados. Entre os fatores que interferem no sinal EMG já citados anteriormente, a carga externa e o comprimento muscular exercem um papel importante. Este último afeta o sinal em função da participação dos componentes elásticos do músculo na contração muscular e da possibilidade de menor ou maior ligação entre as proteínas contráteis. Quanto maior o alongamento muscular, maior a contribuição do componente elástico e menor a contribuição das pontes cruzadas protéicas. A EMG não capta o trabalho mecânico produzido pelo componente elástico. A relação que se estabelece é outra: à medida que aumenta a participação desse componente e diminui a participação das pontes cruzadas, o sinal EMG diminui. Por outro lado, quanto maior o encurtamento muscular, maior é a sobreposição de pontes cruzadas e, portanto, maior é a dificuldade de produção de trabalho mecânico. Torna-se necessário o recrutamento de maior número de UM. Conseqüentemente, observa-se maior magnitude do sinal EMG.
3 análise de movimento 13 No que se refere à carga externa dos equipamentos, a sobrecarga imposta aos músculos provoca a ativação de maior número de UM e também aumenta a freqüência de disparo dos estímulos elétricos, elevando a amplitude do sinal EMG. Da mesma forma, a sobrecarga estimula a ativação não só de músculos considerados motores primários em certos movimentos, mas também a ativação dos músculos de ação secundária para os mesmos movimentos. Portanto, a sobrecarga modifica a sinergia muscular na maioria dos movimentos. Outro aspecto importante a ser ressaltado em relação à EMG é a impossibilidade de comparação de sinais EMGs de músculos diferentes, observada pela diferença na área de secção transversa muscular, na composição e no ângulo de penação das fibras desses músculos. A única possibilidade aceita para essa comparação é pela normalização do sinal EMG, ou seja, a partir da mensuração de seu sinal máximo em cada músculo e posterior relativização do sinal avaliado em determinado movimento. Após esse breve esclarecimento sobre a EMG, passamos a descrever a forma como a EMG foi utilizada com fins ilustrativos no decorrer dos próximos capítulos. A captação do sinal EMG foi realizada com um mesmo sujeito nos diferentes exercícios ou nas diferentes variações do mesmo exercício. Os eletrodos de superfície foram posicionados sobre o ventre muscular e não foram retirados do local até que as coletas necessárias para comparação desse músculo nos diferentes exercícios fossem concluídas. A relação entre a representação gráfica da EMG e a carga externa foi observada para efeito de algumas considerações apresentadas, tendo sido, para tanto, controlados a padronização na preparação e na colocação dos eletrodos, o tempo de realização dos movimentos, o comprimento muscular inicial, bem como a carga externa. Esta última foi estabelecida através do teste de uma repetição máxima (1 RM), que, segundo Knutgen e Kraemer (1987), é a máxima carga movimentada com técnica adequada e em toda a amplitude do movimento específico. Nas situações em que se procurou comparar a ativação muscular entre as variações do mesmo exercício, a aquisição dos sinais foi realizada com a carga máxima (1 RM) desses exercícios e com o mesmo tempo de execução padronizado em seis segundos (divididos igualmente entre as fases concêntrica e excêntrica). A quantificação do sinal EMG foi realizada por meio do procedimento root mean square (RMS), que mede o comportamento do sinal elétrico registrado em um tempo específico, que, nesse caso, foi de seis segundos. Serão mencionadas no texto as situações em que a aquisição do sinal não seguiu esse padrão. O valor RMS foi utilizado por ser um dos aspectos analisados na EMG que se relaciona com a intensidade de ativação muscular. Aspectos biomecânicos Alguns aspectos da biomecânica manifestam-se de forma muito característica no treinamento de força. Um dos principais diz respeito aos sistemas de alavancas, representados tanto em segmentos corporais como em equipamentos. Para melhor compreender algumas questões discutidas na apresentação e na análise dos exercícios, é necessário uma exposição prévia da organização e dos princípios desses sistemas de alavancas.
4 14 capítulo 1 Definição Alavanca é um sistema constituído por uma haste rígida que gira ao redor de um eixo. F P F R Componentes Componentes primários Forças que atuam sobre a alavanca Eixo de rotação (ponto fixo ou eixo de giro) A denominação das forças normalmente varia conforme o objetivo de aplicação da alavanca, podendo ser denominadas de força 1, força 2 ou força A e força B, e assim consecutivamente. No caso do corpo humano, as forças normalmente são chamadas de força potente (força exercida pelo músculo) e força resistente (força que resiste ao movimento gerado pelo músculo). A força resistente está relacionada à massa do segmento e à carga externa. Componentes secundários Braços de alavanca A denominação de braço de alavanca é utilizada para a distância perpendicular do ponto de aplicação da força ao eixo de rotação. Para facilitar o entendimento, o braço de potência (bp) é a distância perpendicular relacionada à força potente, e o braço de resistência (b R ) consiste na distância perpendicular relacionada à força resistente. Classificação As alavancas são classificadas em: 1 Alavancas de primeira classe ou interfixas F P F R
5 análise de movimento 15 2 Alavancas de segunda classe ou inter-resistentes F P F R 3 Alavancas de terceira classe ou interpotentes F P F R A segunda nomenclatura que determina o tipo de alavanca é descrita em função do componente primário que se encontra entre os demais. Por exemplo, na alavanca interfixa, o ponto fixo localiza-se entre as forças potente e resistente. Vantagens mecânicas As alavancas podem apresentar dois tipos de vantagem, de acordo com o comprimento dos braços de alavanca: 1 Vantagem de força O braço de potência é maior que o braço de resistência. b P >b R 2 Vantagem de velocidade O braço de potência é menor que o braço de resistência. b P <b R
6 16 capítulo 1 Obs.: Analisando a figura, percebe-se que, quanto mais distante está a força resistente do eixo de rotação, maior é a distância percorrida. Como o tempo para percorrer as diferentes distâncias é o mesmo, a velocidade na d 2 será maior. Torque Para estabelecer o movimento rotacional resultante da aplicação das forças, é necessário efetuar o cálculo do torque gerado por elas. Torque nada mais é que o efeito rotatório gerado pela aplicação de uma força. Algebricamente, torque é o produto da força pela distância perpendicular do ponto de aplicação da força ao eixo de rotação. T= F d (perpendicular) F = força (newtons) d = distância (metros) No corpo humano, assim como nos equipamentos de musculação, à medida que se desenvolve o movimento, o ângulo do ponto de aplicação da força com relação à haste rígida alterase. Isso significa que a distância perpendicular se modifica ao longo do movimento. Essa modificação ocorre tanto em relação à força potente como em relação à força resistente; na musculação, é necessário identificar os efeitos dessas mudanças na produção de força muscular. Alavancas do corpo humano Para compreender as alavancas do corpo humano, é necessário identificar os componentes corporais que representam cada um dos componentes das alavancas. Componentes das alavancas Haste rígida Ponto fixo ou eixo de rotação Força potente Força resistente Componentes corporais Segmento corporal envolvido no movimento Articulação Força muscular (representada no local de inserção do músculo) Peso dos segmentos corporais envolvidos no movimento (representado no centro de gravidade dos segmentos) + carga adicional (representada no centro de gravidade do objeto) F P Haste rígida Eixo de rotação F R1 F R2
7 análise de movimento 17 Ângulos diferentes de 90 o Quando a linha de aplicação da força forma um ângulo de 90 o com a haste rígida, é necessário apenas medir sua distância em relação ao eixo de rotação para calcular o torque. No entanto, quando o ângulo formado é diferente de 90 o, relações trigonométricas estabelecem a distância perpendicular da aplicação da força ou o valor do componente da força perpendicular à haste rígida. d (perpendicular) F d (perpendicular) F d (perpendicular) Fy (componente de F, perpendicular à haste rígida) F d (perpendicular) F
8 18 capítulo 1 A análise do funcionamento dos equipamentos de musculação em relação à variação da distância perpendicular ou do componente de força pode ser útil na seleção dos exercícios para o programa de treino do aluno. Como exemplo, considere algumas questões relacionadas ao exercício de extensão do joelho em duas situações: com a caneleira e na mesa extensora. Caneleira Caneleira a 90 d joelho o (joelho) Haste rígida Força caneleira Caneleira a 180 o (joelho) d Força caneleira Ao analisar o exercício realizado com caneleira, identifica-se distância perpendicular maior na posição em que o joelho está estendido. Sendo assim, o torque produzido pela resistência nessa posição é maior do que na posição com o joelho flexionado, o que torna necessário produzir mais força muscular com o joelho estendido. Portanto, à medida que o joelho é gradualmente estendido, é necessária maior produção de força dos extensores do joelho.
9 análise de movimento 19 Mesa extensora Joelho d Haste hígida Força da mesa extensora No caso da mesa extensora, identifica-se distância perpendicular maior na posição em que o joelho está flexionado. Nessa posição, o torque produzido é maior do que na posição com o joelho estendido, sendo necessária maior produção de força muscular com o joelho flexionado. À medida que o joelho é estendido, a necessidade de produção de força muscular vai progressivamente diminuindo. Se o objetivo do treino for fortalecer de forma mais expressiva o músculo vasto medial, a melhor opção é a utilização da caneleira. Com a caneleira, a maior resistência ocorre no final da extensão, e o vasto medial atua de forma mais significativa nos últimos graus de extensão do joelho. Polias excêntricas As polias excêntricas, também chamadas polias de raio variável ou CAMs, foram criadas com o objetivo de minimizar a variação na produção de força muscular durante toda a amplitude de movimento, ocorrida em função das alterações na mecânica musculoarticular. O formato da polia altera a distância perpendicular de aplicação da força ao longo do movimento, o que modifica o torque de resistência transmitido pela polia do equipamento. Essas alterações têm por objetivo compensar as alterações constantes da mecânica musculoarticular ao longo do movimento. Isso quer dizer que a resistência diminui proporcionalmente à desvantagem mecânica musculoarticular, o que possibilita aos músculos produzir uma tensão mais uniforme ao longo do movimento (Baechle e Earle, 2001; Zechin e cols., 1999).
10 20 capítulo 1 Polias excêntricas ou de raio variável (CAMs) Posição inicial (menor torque de resistência) Posição final (maior torque de resistência) Polias concêntricas ou de raio invariável
11 análise de movimento 21 Considerações sobre os próximos capítulos A ação muscular é resultado da interação dos fatores fisiológicos e biomecânicos. Já o resultado final da ativação do músculo depende da predominância de um desses fatores. Essa consideração é fundamental no momento da análise e da seleção dos exercícios. Tal prevalência não é simples e merece avaliação mais criteriosa, o que não constitui o propósito deste livro. Os exercícios serão sempre analisados na seguinte ordem: foto ilustrativa; principais articulações envolvidas; análise cinesiológica; variações e considerações. Além disso, serão apresentados os sinais EMGs para fins descritivos e para reforçar a análise proposta. Foto ilustrativa: serão apresentadas as fotos das posições mais utilizadas para a execução dos exercícios. Principais articulações envolvidas: serão analisadas as articulações efetivamente movimentadas na execução dos exercícios. Análise cinesiológica: serão descritos os músculos responsáveis pelos movimentos, divididos em primários e secundários, seguindo os padrões apresentados por Rasch e Burke (1977). Os músculos primários estarão representados pela cor verde escura; os músculos considerados secundários, pela cor verde clara. A nomenclatura muscular baseou-se na Terminologia Anatômica da Sociedade Brasileira de Anatomia (2001). Obs.: É importante ressaltar que as técnicas para estabelecer a função primária ou secundária dos músculos não estão claras na literatura, sendo que a sobrecarga imposta ao movimento dificulta ainda mais essa divisão. Tem-se apenas como consenso que os exercícios realizados com sobrecarga potencializam a participação de músculos tidos como secundários. Variações: serão apresentadas as principais variações na execução dos exercícios, identificando as alterações que produzem no padrão de ativação muscular. Considerações: será apresentada a discussão de algumas dúvidas freqüentemente observadas na prática, seguindo pressupostos teóricos do meio acadêmico. Serão acrescentados, ao longo do texto, aspectos importantes relacionados ao ponto de vista dos autores. Sinais EMGs: serão apresentados os sinais eletromiográficos com o objetivo de ilustrar as mudanças na ativação muscular sob diferentes exercícios. Nas situações em que se procurou comparar a ativação muscular entre as variações do mesmo exercício, a aquisição dos sinais foi realizada com a carga máxima (1 RM) desses exercícios e com o mesmo tempo de execução, padronizado em seis segundos (divididos igualmente entre as fases concêntrica e excêntrica). A quantificação do sinal EMG foi realizada por meio do procedimento root mean square (RMS), que mede a área do sinal elétrico em um tempo específico, que, nesse caso, foi de seis segundos. Serão mencionadas no texto as situações em que a determinação do sinal não seguiu esse padrão. Os sinais EMGs nos exercícios específicos não foram normalizados e são apresentados apenas com finalidade descritiva. Portanto, a comparação entre músculos diferentes não deve ser feita, podendo apenas ser possível a comparação entre os resultados do mesmo músculo em diferentes exercícios.
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