INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA
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- Alfredo Álvaro Franco
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1 INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA Tradução da 4 ạ edição norte-americana DONALD L. PAVIA GARY M. LAMPMAN GEORGE S. KRIZ JAMES R. VYVYAN Departamento de Química Universidade Western Washington Bellingham, Washington Revisão técnica: Paulo Sergio Santos Professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo
2 Sumário Capítulo 1 FÓRMULAS MOLECULARES E O QUE SE PODE APRENDER DELAS Análise Elementar e Cálculos Determinação da Massa Molecular Fórmulas Moleculares Índice de Deficiência de idrogênio A Regra do Treze Uma Breve Antecipação de Usos Simples de Espectros de Massa...11 Problemas...13 Referências...14 Capítulo 2 ESPECTROSCOPIA NO INFRAVERMELO O Processo de Absorção no Infravermelho Usos do Espectro no Infravermelho Modos de Estiramento e Dobramento Propriedades de Ligação e Seus Reflexos na Absorção Espectrômetro de Infravermelho...23 A. Espectrômetros de Infravermelho Dispersivos...23 B. Espectrômetros de Transformada de Fourier Preparação de Amostras para Espectroscopia no Infravermelho O que Buscar no Exame de um Espectro Infravermelho Gráficos e Tabelas de Correlação Como Conduzir a Análise de um Espectro (ou O que se Pode Dizer só de Olhar) idrocarbonetos: Alcanos, Alcenos e Alcinos...32 A. Alcanos...32 B. Alcenos...33 C. Alcinos Anéis Aromáticos Alcoóis e Fenóis Éteres...49
3 X INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA 2.14 Compostos Carbonílicos...51 A. Fatores que Influenciam a Vibração de Estiramento C O...53 B. Aldeídos...55 C. Cetonas...57 D. Ácidos Carboxílicos...61 E. Ésteres...62 F. Amidas...67 G. Cloretos de Ácidos Anidridos Aminas Nitrilas, Isocianatos, Isotiocianatos e Iminas Nitrocompostos Carboxilatos, Sais de Amônia e Aminoácidos Compostos Sulfurados Compostos de Fósforo aletos de Alquila e de Arila Espectro de Fundo...82 Problemas...84 Referências...98 Capítulo 3 ESPECTROSCOPIA DE RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NUCLEAR Parte 1: Componentes básicos Estados de Spin Momentos Magnéticos Nucleares Absorção de Energia Mecanismo de Absorção (Ressonância) Densidades Populacionais dos Estados de Spin Nuclear Deslocamento Químico e Blindagem Espectrômetro de Ressonância Magnética Nuclear A. Instrumento de Onda Contínua (CW) B. Instrumento de Transformada de Fourier (FT) Pulsado Equivalência Química: Um Breve Resumo Integrais e Integração Ambiente Químico e Deslocamento Químico Blindagem Diamagnética Local A. Efeitos de Eletronegatividade B. Efeitos de ibridização C. Prótons Ácidos e Intercambiáveis; Ligações de idrogênio Anisotropia Magnética Regra da Separação Spin-Spin (n + 1) A Origem da Separação Spin-Spin Grupo Etila (C 3 ) Triângulo de Pascal Constante de Acoplamento Uma Comparação de Espectros de RMN em Campos de Intensidades Baixa e Alta Análise das Absorções de RMN de 1 Típicas por Tipo de Composto...136
4 Sumário XI A. Alcanos B. Alcenos C. Compostos Aromáticos D. Alcinos E. aletos de Alquila F. Alcoóis G. Éteres Aminas I. Nitrilas J. Aldeídos K. Cetonas L. Ésteres M. Ácidos Carboxílicos N. Amidas O. Nitroalcanos Problemas Referências Capítulo 4 ESPECTROSCOPIA DE RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NUCLEAR Parte 2: Espectros de carbono-13 e acoplamento heteronuclear com outros núcleos Núcleo de Carbono Deslocamentos Químicos de Carbono A. Gráficos de Correlação B. Cálculo de Deslocamentos Químicos de 13 C Espectros de 13 C Acoplados por Prótons Separação Spin-Spin de Sinais de Carbono Espectros de 13 C Desacoplados ao Próton Intensificação Nuclear Overhauser (NOE) Polarização Cruzada: Origem do Efeito Nuclear Overhauser Problemas com a Integração em Espectros de 13 C Processos de Relaxação Molecular Desacoplamento Fora de Ressonância Uma Rápida Olhada no DEPT Alguns Exemplos de Espectros Carbonos Equivalentes Compostos com Anéis Aromáticos Solventes para a RMN de Carbono-13 Acoplamento eteronuclear de Carbono e Deutério Acoplamento eteronuclear do Carbono-13 com Flúor Acoplamento eteronuclear de Carbono-13 com Fósforo RMN de Prótons e Carbono: Como Resolver Um Problema de Estrutura Problemas Referências...217
5 XII INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA Capítulo 5 ESPECTROSCOPIA DE RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NUCLEAR Parte 3: Acoplamento spin-spin Constantes de Acoplamento: Símbolos Constantes de Acoplamento: O Mecanismo de Acoplamento A. Acoplamentos Via Uma Ligação ( 1 J) B. Acoplamentos Via Duas Ligações ( 2 J) C. Acoplamentos Via Três Ligações ( 3 J) D. Acoplamentos de Longo Alcance ( 4 J n J) Equivalência Magnética Espectros de Sistemas Diastereotópicos A. Grupos Metila Diastereotópicos: 4-Metil-2-Pentanol B. idrogênios Diastereotópicos: 4-Metil-2-Pentanol Não Equivalência dentro de Um Grupo O Uso de Diagramas de Árvore Quando a Regra do n + 1 Não Funciona Medindo Constantes de Acoplamento a partir de Espectros de Primeira Ordem A. Multipletos Simples Um Valor de J (Um Acoplamento) B. A Regra do n + 1 É Realmente Obedecida em Algum Momento? C. Multipletos Mais Complexos Mais de Um Valor de J Espectros de Segunda Ordem Acoplamento Forte A. Espectros de Primeira e Segunda Ordens B. Notação de Sistema de Spin C. Sistemas de Spin A 2, AB e AX D. Sistemas de Spin AB 2... AX 2 e A 2 B 2... A 2 X E. Simulação de Espectros F. Ausência de Efeitos de Segunda Ordem em Campos Mais Altos G. Espectros Enganosamente Simples Alcenos Medindo Constantes de Acoplamento Análise de Um Sistema Alílico Compostos Aromáticos Anéis Benzênicos Substituídos A. Anéis Monossubstituídos B. Anéis Para-dissubstituídos C. Outra Substituição Acoplamentos em Sistemas eteroaromáticos Problemas Referências Capítulo 6 ESPECTROSCOPIA DE RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NUCLEAR Parte 4: Outros tópicos em RMN unidimensional Prótons em Oxigênios: Alcoóis Trocas em Água e D 2 O A. Misturas de Ácido/Água e Álcool/Água B. Troca por Deutério C. Alargamento de Pico Devido a Trocas Outros Tipos de Troca: Tautomeria...321
6 Sumário XIII 6.4 Prótons no Nitrogênio: Aminas Prótons no Nitrogênio: Alargamento Quadrupolar e Desacoplamento Amidas O Efeito do Solvente sobre o Deslocamento Químico Reagentes de Deslocamento Químico Agentes de Resolução Quiral Como Determinar Configurações Relativas e Absolutas por meio de RMN A. Determinação de Configurações Absolutas B. Determinação de Configurações Relativas Espectros Diferenciais de Efeito Nuclear Overhauser Problemas Referências Capítulo 7 ESPECTROSCOPIA NO ULTRAVIOLETA A Natureza das Excitações Eletrônicas A Origem da Estrutura da Banda UV Princípios da Espectroscopia de Absorção Instrumentação Apresentação dos Espectros Solventes O Que É Um Cromóforo? Efeito da Conjugação Efeito da Conjugação em Alcenos Regras de Woodward-Fieser para Dienos Compostos Carbonílicos; Enonas Regras de Woodward para Enonas Aldeídos, Ácidos e Ésteres α,β-insaturados Compostos Aromáticos A. Substituintes com Elétrons Não Ligantes B. Substituintes Capazes de Conjugação π C. Efeitos de Doação de Elétrons e de Retirada de Elétrons D. Derivados de Benzeno Dissubstituído E. idrocarbonetos Aromáticos Polinucleares e Compostos eterocíclicos Estudos de Compostos-Modelo Espectros Visíveis: Cores em Compostos O Que Se Deve Procurar em Um Espectro Ultravioleta: Um Guia Prático Problemas Referências Capítulo 8 ESPECTROMETRIA DE MASSA Espectrômetro de Massa: Uma Visão Geral Injeção da Amostra Métodos de Ionização...401
7 XIV INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA A. Ionização por Elétrons (EI) B. Ionização Química (CI) C. Técnicas de Ionização por Dessorção (SIMS, FAB e MALDI) D. Ionização por Eletrospray (ESI) Análise de Massa A. Analisador de Massa de Setor Magnético B. Analisador de Massa de Foco Duplo C. Analisador de Massa Quadrupolar D. Analisadores de Massa por Tempo de Voo Detecção e Quantificação: O Espectro de Massas Determinação do Peso Molecular Determinação de Fórmulas Moleculares A. Determinação Precisa de Massa B. Dados de Razões de Isotópicas Análise Estrutural e Padrões de Fragmentação A. Regra de Stevenson B. Evento Inicial de Ionização C. Segmentação Iniciada no Sítio Radical: Segmentação α D. Segmentação Iniciada em Sítio Carregado: Segmentação Indutiva E. Segmentação de Duas Ligações F. Segmentação Retro Diels-Alder G. Rearranjos de McLafferty Outros Tipos de Segmentação I. Alcanos J. Cicloalcanos K. Alcenos L. Alcinos M. idrocarbonetos Aromáticos N. Alcoóis e Fenóis O. Éteres P. Aldeídos Q. Cetonas R. Ésteres S. Ácidos Carboxílicos T. Aminas U. Compostos Selecionados de Nitrogênio e Enxofre V. Cloretos de Alquila e Brometos de Alquila Abordagem Estratégica para Analisar Espectros de Massa e Resolver Problemas Comparação Computadorizada de Espectros com Bibliotecas Espectrais Problemas Referências Capítulo 9 PROBLEMAS DE ESTRUTURA COMBINADOS Exemplo Exemplo Exemplo
8 Sumário XV Exemplo Problemas Referências Capítulo 10 ESPECTROSCOPIA DE RESSONÂNCIA MAGNÉTICA NUCLEAR Parte 5: técnicas avançadas de RMN Sequências de Pulso Larguras de Pulso, Spins e Vetores de Magnetização Pulsos de Gradientes de Campo Experimento DEPT Determinação do Número de idrogênios Ligados A. Carbonos Metina (C) B. Carbonos Metileno ( ) C. Carbonos Metila (C 3 ) D. Carbonos Quaternários (C) E. Resultado Final Introdução a Métodos Espectroscópicos Bidimensionais Técnica COSY A. Panorama do Experimento COSY B. Como Ler Espectros COSY Técnica ETCOR A. Panorama do Experimento ETCOR B. Como Interpretar Espectros ETCOR Métodos de Detecção Inversa Experimento NOESY Imagens por Ressonância Magnética Resolução de Um Problema Estrutural por Meio de Técnicas 1-D e 2-D Combinadas A. Índice de Deficiência de idrogênio e Espectro Infravermelho B. Espectro de RMN de Carbono C. Espectro DEPT D. Espectro de RMN de Prótons E. Espectro RMN COSY F. Espectro RMN ETCOR (SQC) Problemas Referências Apêndices 1 Frequências de Absorção no Infravermelho de Grupos Funcionais Faixas Aproximadas de Deslocamento Químico de 1 (ppm) para Alguns Tipos de Próton Alguns Valores de Deslocamento Químico de 1 Representativos de Vários Tipos de Próton Deslocamentos Químicos de 1 de Alguns Compostos Aromáticos eterocíclicos e Policíclicos Constantes de Acoplamento Típicas de Prótons...637
9 XVI INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA 6 Cálculo de Deslocamento Químico de Prótons ( 1 ) Valores Aproximados de Deslocamento Químico de 13 C (ppm) para Alguns Tipos de Carbono Cálculo de Deslocamentos Químicos de 13 C Constantes de Acoplamento de 13 C Deslocamentos Químicos de 1 e de 13 C para Solventes Comuns de RMN Tabelas de Massas Precisas e Razões de Abundância Isotópica para Íons Moleculares com Massa abaixo de 100 que Contenham Carbono, idrogênio, Nitrogênio e Oxigênio Íons Fragmentos Comuns com Massa abaixo de Um Guia Muito Útil sobre Padrões de Fragmentação Espectral de Massa Índice de espectros Índice Remissivo Respostas para os problemas selecionados...687
10 1 Fórmulas moleculares e o que se pode aprender delas Antes de tentar deduzir a estrutura de um composto orgânico desconhecido com base em um exame de seu espectro, podemos, de certa forma, simplificar o problema examinando a fórmula molecular da substância. O objetivo deste capítulo é descrever como a fórmula molecular de um composto é determinada e como se pode obter a informação estrutural dela. O capítulo revisa os métodos quantitativos, tanto o clássico quanto o moderno, para determinar a fórmula molecular. Apesar de o uso do espectrômetro de massa (Seção 1.6 e Capítulo 8) poder superar muitos desses métodos analítico-quantitativos, ele continua sendo usado. Muitas revistas científicas ainda requerem uma análise quantitativa elementar satisfatória (Seção 1.1) antes da publicação dos resultados da pesquisa. 1.1 ANÁLISE ELEMENTAR E CÁLCULOS O procedimento clássico para determinar a fórmula molecular de uma substância tem três passos: 1. Análise elementar qualitativa: descobrir que tipos de átomos estão presentes... C,, N, O, S, Cl, entre outros. 2. Análise elementar quantitativa (ou microanálise): para descobrir os números relativos (porcentagens) de cada tipo diferente de átomo presente na molécula. 3. Determinação da massa molecular (ou peso molecular). Os dois primeiros passos estabelecem uma fórmula empírica do composto. Quando os resultados do terceiro procedimento são conhecidos, encontra-se uma fórmula molecular. Virtualmente, todos os compostos orgânicos contêm carbono e hidrogênio. Na maioria dos casos, não é necessário determinar se esses elementos estão presentes em uma amostra; a presença deles é presumida. Entretanto, se for necessário demonstrar que o carbono ou hidrogênio estão presentes em um composto, tal substância pode ser queimada na presença de excesso de oxigênio. Se a combustão produz dióxido de carbono, o carbono deve estar presente; se a combustão produz água, átomos de hidrogênio devem estar presentes. oje, o dióxido de carbono e a água podem ser detectados por métodos de cromatografia gasosa. Átomos de enxofre são convertidos em dióxido de enxofre; átomos de hidrogênio são, com frequência, reduzidos quimicamente a gás nitrogênio, logo após sua combustão em óxidos de nitrogênio. O oxigênio pode ser detectado pela ignição do composto em uma atmosfera de gás hidrogênio; o resultado é produção de água. Atualmente, tais análises são realizadas por cromatografia gasosa, um método que também pode determinar as quantidades relativas de cada um desses gases. Se a quantidade da amostra original for conhecida, ela pode ser lançada em um software, e o computador calcula a composição percentual da amostra.
11 2 INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA A não ser que se trabalhe em grandes empresas ou universidades, é bastante raro encontrar um laboratório de pesquisas que realize análises elementares in loco, pois é necessário muito tempo para preparar os instrumentos e mantê-los operando dentro dos limites de precisão e exatidão adequados. Em geral, as amostras são enviadas para um laboratório comercial de microanálise, que realiza esse trabalho rotineiramente e que pode garantir a precisão dos resultados. Antes do advento dos instrumentos modernos, a combustão de amostras pesadas com precisão era realizada em um tubo cilíndrico de vidro inserido em um forno. Passava-se um jato de oxigênio através do tubo aquecido no caminho para outros dois tubos sequenciais, não aquecidos, que continham substâncias químicas que absorveriam, primeiro, a água (MgClO 4 ) e, então, o dióxido de carbono (NaO/ sílica). Esses tubos de absorção, previamente pesados, eram destacáveis, podendo ser removidos e repesados para se determinar a quantidade de água e dióxido de carbono formados. As porcentagens de carbono e hidrogênio na amostra original eram calculadas por estequiometria. A Tabela 1.1 apresenta um exemplo de cálculo. Tabela 1.1 Cálculo de composição percentual a partir dos dados da combustão C x y O z + excesso de O 2 x CO 2 + y/2 2 O 9,83 mg 23,26 mg 9,52 mg milimol CO 2 = 23,26 mg CO 2 = 0,5285 mmoles CO 2 44,01 mg/mmol mmoles CO 2 = mmoles C na amostra original (0,5285 mmoles C)(12,01 mg/mmol C) = 6,35 mg C na amostra original milimoles 2 O = 9,52 mg 2 O = 0,528 mmoles 2 O 18,02 mg/mmole = 1,056 mmoles na amostra original 1 mmole 2 O (1,056 mmoles )(1,008 mg/mmole ) = 1,06 mg na amostra original (0,528 mmoles 2 O) ( 2 mmoles ) % C = 6,35 mg C x 100 = 64,6% 9,83 mg amostra % = 1,06 mg x 100 = 10,8% 9,83 mg amostra %O = 100 (64,6 + 10,8) = 24,6% Note nesse cálculo que a quantidade de oxigênio foi determinada por diferença, uma prática comum. Em uma amostra contendo apenas C, e O, é necessário determinar somente as porcentagens de C e ; presume-se que o oxigênio corresponda à porcentagem não medida. Pode-se também aplicar essa prática em situações que envolvam elementos diferentes do oxigênio; se apenas um dos elementos não for determinado, este pode ser determinado por diferença. oje, a maioria dos cálculos é realizada automaticamente por instrumentos computadorizados. Todavia, é bastante útil para um químico entender os princípios fundamentais dos cálculos. A Tabela 1.2 mostra como determinar a fórmula empírica de um composto a partir das composições percentuais determinadas em uma análise. Lembre-se de que uma fórmula empírica expressa a razão numérica mais simples dos elementos, a qual pode ser multiplicada por um número inteiro para obter a verdadeira fórmula molecular. A fim de determinar o valor do multiplicador, deve-se ter uma massa molecular. Na próxima seção, abordaremos como se determina a massa molecular.
12 Fórmulas moleculares e o que se pode aprender delas 3 Tabela 1.2 Cálculo da fórmula empírica Usando uma amostra de 100 g: 64,6% de C = 64,6 g 10,8% de = 10,8 g 24,6% de O = 24,6 g 100,0 g moles C = 64,6 g = 5,38 moles C 12,01 g/mol moles = 10,8 g = 10,7 moles 1,008 g/mol moles O = 24,6 g = 1,54 moles O 16,0 g/mol obtemos o seguinte resultado: C 5,38 10,7 O 1,54 Convertendo-se na razão mais simples, obtemos: C 5,38 10,7 O 1,54 = C 3,49 6,95 O 1,00 1,54 1,54 1,54 que é semelhante a C 3,50 7,00 O 1,00 ou C 7 14 O 2 Para um composto totalmente desconhecido (de fonte química ou de histórico desconhecido), será necessário usar esse tipo de cálculo para obter a fórmula empírica suposta. Contudo, se o composto tiver sido preparado a partir de um precursor conhecido, por uma reação bem conhecida, ter-se-á uma ideia da estrutura do composto. Nesse caso, terá sido previamente calculada a composição percentual esperada da amostra (a partir de sua estrutura presumida), e a análise será usada para verificar sua hipótese. Ao realizar tais cálculos, certifique-se de usar os pesos moleculares totais, como indicados na tabela periódica e não arredonde até que o cálculo tenha sido finalizado. O resultado valerá para duas casas decimais; quatro dígitos significativos se a porcentagem estiver entre 10 e 100; três dígitos se estiver entre 0 e 10. Se os resultados da análise não corresponderem ao cálculo, a amostra pode ser impura ou será necessário calcular uma nova fórmula empírica para descobrir a identidade da estrutura inesperada. Para um artigo ser aceito para publicação, a maioria das revistas científicas exige que se encontrem porcentagens com diferenças menores do que 0,4% do valor calculado. Quase todos os laboratórios de microanálise podem facilmente obter precisões bem abaixo desse limite, desde que a amostra seja pura. Na Figura 1.1, vê-se uma típica situação de uso de análise em pesquisa. O professor Amyl Carbono, ou um de seus alunos, preparou um composto que acreditava ser epóxido-nitrilo, com a estrutura apresentada na parte inferior do primeiro formulário. Uma amostra desse composto líquido (25 μl) foi colocada em um pequeno frasco, o qual foi, então, etiquetado corretamente com o nome de quem o submeteu e um código de identificação (em geral, correspondente a uma entrada no caderno de pesquisa). É necessária apenas uma pequena quantidade de amostra, normalmente alguns miligramas de um sólido ou alguns microlitros de um líquido. Um formulário de Solicitação de Análise deve ser preenchido e encaminhado com a amostra. O modelo de formulário à esquerda da figura indica o tipo de informação que deve ser apresentada. Nesse caso, o professor calculou os resultados esperados para C, e N, a fórmula esperada e o peso molecular. Note que o composto também contém oxigênio, mas não se solicitou análise do oxigênio. Duas outras amostras também foram enviadas. Rapidamente em geral, uma semana
13 4 INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA depois, os resultados foram informados ao professor Carbono, por (ver a solicitação no formulário). Mais tarde, é endereçada uma carta formal (mostrada ao fundo, no lado direito) para verificar e autenticar os resultados. Compare os valores no relatório com os calculados pelo professor Carbono. Estão dentro de uma margem aceitável? Se não, a análise deverá ser repetida com uma amostra purificada recentemente, ou será necessário considerar uma nova possível estrutura. Tenha em mente que, em uma situação real de laboratório, quando se está tentando determinar a fórmula molecular de um composto totalmente novo ou previamente desconhecido, deve-se permitir alguma variação na análise quantitativa elementar. Outros dados podem ajudar nessa situação, já que dados de infravermelho (Capítulo 2) e de ressonância magnética (Capítulo 3) também sugerirão uma possível estrutura ou, pelo menos, algumas de suas características proeminentes. Muitas vezes, esses outros dados serão menos sensíveis a pequenas quantidades de impurezas do que a microanálise. Microanalytical Company, Inc. SOLICITAÇÃO DE FORMULÁRIO DE ANÁLISE Data: 30 de outubro de 2006 Relatório para: Professor Amyl Carbono Departamento de Química Universidade Western Washington Bellingham, WA Amostra n : PAC599A C.P. n : PO 2349 Informar por: Correio Telefone (circule um) pac@ Elementos a Analisar: C,, N Outros Elementos Presentes: O X Análise Única Análise Duplicada Duplicar apenas se os resultados não estiverem na margem M.P. B.P. 69 2,3 mmg Sensível a: Pesar sob Nitrogênio? S N Secar a amostra? SN Detalhes: igroscópico Volátil Explosivo PORCENTAGENS TEÓRICAS %C 67,17 Quantidade enviada: L % 8,86 Estrutura: O %N 11,19 CN %O Comentário: C 7 11 NO %Outros Peso molecular 125, 17 Microanalytical Company, Inc. 25 de novembro de 2006 Professor Amyl Carbono Departamento de Química Universidade Western Washington Bellingham, WA RESULTADOS DA ANÁLISE ID da amostra Carbono (%) idrogênio Nitrogênio (%) (%) PAC599A 67,39 9,22 11,25 PAC589B 64,98 9,86 8,03 PAC603 73,77 8,20 Dr. B. Grant Poohbah, Ph.D. Diretor de Serviços Analíticos Microanalytical Company, Inc PAC599A PAC589B PAC603 FIGURA 1.1 Formulários de microanálise de amostra. À esquerda, um típico formulário de solicitação, que é encaminhado com as amostras. (As três indicadas aqui são frascos etiquetados enviados ao mesmo tempo.) Cada amostra precisa de um formulário próprio. No fundo, à direita, é a carta formal com os resultados. Os resultados obtidos para a amostra PAC599A foram satisfatórios?
14 Fórmulas moleculares e o que se pode aprender delas DETERMINAÇÃO DA MASSA MOLECULAR O próximo passo para determinar a fórmula molecular de uma substância é determinar o peso de um mol dessa substância, o que pode ser realizado de várias maneiras. Sem conhecer a massa molecular da substância desconhecida, não há como determinar se a fórmula empírica que é determinada diretamente pela análise elementar é verdadeira ou se ela deve ser multiplicada por algum fator inteiro para obter a fórmula molecular. No exemplo citado na Seção 1.1, sem conhecer a massa molecular da substância desconhecida, é impossível dizer se a fórmula molecular é C 7 14 O 2 ou C O 4. Em um laboratório moderno, a massa molecular é determinada por espectrometria de massa. Os detalhes desse método e os meios de determinar a massa molecular podem ser encontrados na Seção 1.6 e no Capítulo 8, Seção 8.6. Esta seção revisa alguns métodos clássicos para obter a mesma informação. Um procedimento antigo, raramente usado, é o método de densidade do vapor, no qual um volume conhecido de gás é pesado em uma temperatura conhecida. Após a conversão do volume do gás em temperatura e pressão padrões, pode-se determinar qual fração de um mol esse volume representa. A partir dessa fração, podemos facilmente calcular a massa molecular da substância. Outra forma de determinar a massa molecular de uma substância é medir a depressão crioscópica de um solvente produzida quando se adiciona uma quantidade conhecida de uma substância de teste, o que é chamado de método crioscópico. Outro método, raramente usado, é a osmometria de pressão de vapor, em que o peso molecular de uma substância é determinado por um exame da mudança na pressão de vapor de um solvente quando uma substância de teste é dissolvida nele. Se a substância desconhecida for um ácido carboxílico, ela pode ser titulada com uma solução padronizada de hidróxido de sódio. Por meio desse procedimento, pode-se determinar um equivalente de neutralização que é idêntico ao peso equivalente do ácido. Se o ácido tiver apenas um grupo carboxílico, o equivalente de neutralização e a massa molecular serão idênticos. Se o ácido tiver mais de um grupo carboxílico, o equivalente de neutralização será igual à massa molecular do ácido dividida pelo número de grupos carboxílicos. Muitos fenóis, sobretudo os substituídos por grupos que puxam elétrons, são suficientemente ácidos para ser titulados por esse mesmo método, assim como os ácidos sulfônicos. 1.3 FÓRMULAS MOLECULARES Depois que se descobrem a massa molecular e a fórmula empírica, pode-se seguir diretamente para a fórmula molecular. Com frequência, o peso da fórmula empírica e a massa molecular são iguais. Em tais casos, a fórmula empírica é também a fórmula molecular. Contudo, em muitas situações, o peso da fórmula empírica é menor do que a massa molecular, tornando-se necessário determinar quantas vezes o peso da fórmula empírica pode ser dividido pela massa molecular. O fator determinado por essa conta é aquele pelo qual a fórmula empírica deve ser multiplicada para se obter a fórmula molecular. O etano é um exemplo simples. Após uma análise quantitativa elementar, descobre-se que a fórmula empírica do etano é C 3. Determina-se uma massa molecular de 30. O peso da fórmula empírica do etano, 15, é metade da massa molecular, 30. Portanto, a fórmula molecular do etano deve ser 2(C 3 ) ou C 2 6. Descobriu-se que a fórmula empírica da amostra desconhecida utilizada anteriormente neste capítulo é C 7 14 O 2. O peso da fórmula é 130. Supondo-se que se tenha determinado que a massa molecular dessa substância é 130, pode-se concluir que as fórmulas empírica e molecular são idênticas e que a fórmula molecular deve ser C 7 14 O 2.
15 6 INTRODUÇÃO À ESPECTROSCOPIA 1.4 ÍNDICE DE DEFICIÊNCIA DE IDROGÊNIO Com frequência, é possível descobrir muitas coisas de uma substância desconhecida apenas sabendo sua fórmula molecular. Essa informação pode ser obtida das seguintes fórmulas moleculares gerais: alcano cicloalcano ou alceno alcino C n 2n+2 } Diferença de 2 hidrogênios C n 2n C n 2n 2 } Diferença de 2 hidrogênios Perceba que toda vez que um anel ou uma ligação de π é introduzido em uma molécula, o número de hidrogênios na fórmula molecular é reduzido de dois. Para cada ligação tripla (duas ligações de π), a fórmula molecular é reduzida de quatro hidrogênios. A Figura 1.2 ilustra esse processo. Quando a fórmula molecular de um composto contém elementos além de carbono ou hidrogênio, a razão entre estes pode mudar. A seguir, apresentamos três regras simples que podem ser usadas para prever como essa razão irá mudar: 1. Para converter a fórmula de um hidrocarboneto saturado de cadeia aberta em uma fórmula que contenha elementos do Grupo V (N, P, As, Sb, Bi), deve-se adicionar 1 átomo de hidrogênio à fórmula molecular para cada elemento do Grupo V presente. Nos exemplos a seguir, todas as fórmulas estão corretas para um composto acíclico e saturado de dois carbonos: C 2 6, C 2 7 N, C 2 8 N 2, C 2 9 N 3 2. Para converter a fórmula de um hidrocarboneto saturado de cadeia aberta em uma fórmula que contenha elementos do Grupo VI (O, S, Se, Te), não é necessário fazer nenhuma alteração no número de hidrogênios. Nos exemplos a seguir, todas as fórmulas estão corretas para um composto acíclico e saturado de dois carbonos: C 2 6, C 2 6 O, C 2 6 O 2, C 2 6 O 3 C C 2 C C (compare também CO para C O) C C 4 C C 2 C 2 C 2 2 C 2 C FIGURA 1.2 Formação de anéis e de ligações duplas. Toda formação de anel ou de ligação dupla causa perda de 2.
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