Cenários possíveis: experiências e desafios do mestrado profissional na saúde coletiva

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1 Cenários possíveis: experiências e desafios do mestrado profissional na saúde coletiva Maria do Carmo Leal Carlos Machado de Freitas (Orgs.) SciELO Books / SciELO Livros / SciELO Libros LEAL, MC., and FREITAS, CM., orgs. Cenários possíveis: experiências e desafios do mestrado profissional na saúde coletiva [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, p. ISBN Available from SciELO Books <http://books.scielo.org>. All the contents of this chapter, except where otherwise noted, is licensed under a Creative Commons Attribution-Non Commercial-ShareAlike 3.0 Unported. Todo o conteúdo deste capítulo, exceto quando houver ressalva, é publicado sob a licença Creative Commons Atribuição - Uso Não Comercial - Partilha nos Mesmos Termos 3.0 Não adaptada. Todo el contenido de este capítulo, excepto donde se indique lo contrario, está bajo licencia de la licencia Creative Commons Reconocimento-NoComercial-CompartirIgual 3.0 Unported.

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4 CENÁRIOS POSSÍVEIS EXPERIÊNCIAS E DESAFIOS DO MESTRADO PROFISSIONAL NA SAÚDE COLETIVA 3

5 FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ Presidente Paulo Marchiori Buss Vice-Presidente de Ensino, Informação e Comunicação Maria do Carmo Leal EDITORA FIOCRUZ Diretora Maria do Carmo Leal Editor Executivo João Carlos Canossa Pereira Mendes Editores Científicos Nísia Trindade Lima e Ricardo Ventura Santos Conselho Editorial Carlos E. A. Coimbra Jr. Gerson Oliveira Penna Gilberto Hochman Lígia Vieira da Silva Maria Cecília de Souza Minayo Maria Elizabeth Lopes Moreira Pedro Lagerblad de Oliveira Ricardo Lourenço de Oliveira 4

6 Maria do Carmo Leal Carlos Machado de Freitas organizadores CENÁRIOS POSSÍVEIS EXPERIÊNCIAS E DESAFIOS DO MESTRADO PROFISSIONAL NA SAÚDE COLETIVA 5

7 Copyright 2006 dos autores Todos os direitos desta edição reservados à Fundação Oswaldo Cruz/Editora ISBN Capa, projeto gráfico e editoração eletrônica Adriana Carvalho e Carlos Fernando Reis Revisão Irene Ernest Dias Catalogação na fonte Centro de Informação Científica e Tecnológica Biblioteca da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca L435c Leal, Maria do Carmo (org.) Cenários possíveis: experiências e desafios do mestrado profissional na saúde coletiva. / Organizado por Maria do Carmo Leal e Carlos Machado de Freitas. Rio de Janeiro : Editora FIOCRUZ, p., tab., graf. 1.Educação de pós-graduação. 2.Saúde pública-educação. I.Título. CDD - 20.ed EDITORA FIOCRUZ Av. Brasil, o andar sala 112 Manguinhos Rio de Janeiro RJ Tel.: (21) e Telefax: (21)

8 AUTORES Carlos Augusto Grabois Gadelha Graduado em ciências econômicas, mestre em economia e doutor em economia da indústria e da tecnologia. Professor e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública/ Fiocruz, sendo coordenador do Mestrado Profissional em Gestão de Ciência e Tecnologia. Atualmente é secretário de Programas Regionais do Ministério da Integração Nacional. Carlos Machado de Freitas (organizador) Graduado em história, mestre em engenharia de produção, doutor em saúde pública. Pesquisador titular do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Coordenador de curso no Mestrado Profissional em Vigilância em Saúde. Atualmente é coordenador da Pós-Graduação na Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. 5

9 Carmen Fontes de Souza Teixeira Médica, mestre em saúde comunitária, doutora em saúde pública. Professora adjunta do Departamento de Saúde Coletiva do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Coordenadora do Mestrado Profissional em Saúde Coletiva. Pesquisadora do Diretório de Planejamento & Gestão em Saúde do ISC-UFBA. Consultora da Secretaria Municipal de Saúde de Salvador. Célia Regina Pierantoni Médica, mestre em endocrinologia, doutora em saúde coletiva. Professora adjunta do Departamento de Planejamento e Administração em Saúde, Centro Biomédico e Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/ Uerj). Coordenadora do Mestrado Profissional. Consultora da rede Acompanhamento de Sinais de Mercado de Trabalho do Setor Saúde com Foco em Enfermagem (Samets/ Profae/MS), representante da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco) na Comissão Intersetorial de Recursos Humanos do Conselho Nacional de Saúde e coordenadora do Grupo de Trabalho Recursos Humanos e Profissões. Atualmente é diretora do Departamento de Gestão da Educação na Saúde da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde do Ministério da Saúde. Cristiane Machado Quental Economista, mestre e doutora em administração. Analista em C&T da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, coordenadora adjunta do Mestrado Profissional em Gestão de Ciência e Tecnologia em Saúde Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Elizabeth Artmann Assistente social, mestre em saúde pública, doutora em saúde coletiva. Pesquisadora adjunta do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública. 6

10 Estela Maria Motta Lima Leão de Aquino Médica, mestre em medicina social, doutora em saúde coletiva. Professora adjunta do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Coordenadora do Musa Programa Integrado de Pesquisa e Cooperação Técnica em Gênero e Saúde. Coordenadora para as regiões Norte-Nordeste do Programa Interinstitucional de Treinamento em Metodologia de Pesquisa em Gênero, Sexualidade e Saúde Reprodutiva. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (UFBA) de 2001 a Integrante do Colegiado de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (UFBA) desde Vice-coordenadora do GT Gênero e Saúde da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco). Francisco Javier Uribe Rivera Médico, mestre em saúde coletiva, doutor em saúde pública. Pesquisador titular do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública. Consultor de planejamento em saúde da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Ilara Hämmerli Sozzi de Moraes Assistente social, mestre e doutora em saúde pública. Pesquisadora titular do Departamento de Ciências Sociais da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Diretora geral do Centro de Informações em Saúde da Secretaria de Estado de Saúde/RJ e coordenadora da Rede de Centrais de Regulação em Saúde do Estado do Rio de Janeiro. Coordenadora Nacional da Câmara Técnica de Informação e Informática em Saúde do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e membro da Comissão Intersetorial de Comunicação e Informação em Saúde do Conselho Nacional de Saúde. Coordenadora do Mestrado Profissional de Gestão da Informação e Comunicação em Saúde da Ensp/Fiocruz. 7

11 Inês Dourado Médica, mestre em saúde pública, doutora em epidemiologia. Professora adjunta do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Atual coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Membro de Comitê Assessor do Programa Nacional de DST/Aids e do Programa Nacional de Imunizações do Ministério da Saúde. Membro de Comitê Assessor para pesquisas em sarampo e rubéola da Organização Mundial da Saúde desde Inês Echenique Mattos Médica, mestre em saúde pública, doutora em medicina preventiva. Pesquisadora adjunta do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Representante da Escola Nacional de Saúde Pública no Grupo Assessor de Capacitação de Recursos Humanos da SVS em Epidemiologia e Vigilância à Saúde do Ministério da Saúde. Jairnilson Silva Paim Médico, mestre em medicina, doutor honoris causa pela Universidade Estadual de Feira de Santana. Professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Lígia Maria Vieira-da-Silva Médica, mestre em saúde comunitária, doutora em medicina preventiva. Professora adjunta do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Maria do Carmo Leal (organizadora) Médica, mestre e doutora em saúde pública. Pesquisadora titular do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública/ Fiocruz. Atualmente é vice-presidente de Ensino, Informação e Comunicação/Fiocruz. 8

12 Miguel Murat Vasconcellos Médico, mestre em medicina social, doutor em engenharia biomédica. Pesquisador titular do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Coordenador do curso Educação a Distância Processos de Gestão e Tecnologias de Informação em Saúde, coordenador do curso de Especialização em Informações e Informática em Saúde e do curso de Mestrado Profissional em Gestão da Informação e Comunicação em Saúde. Moisés Goldbaum Médico, mestre e doutor em medicina preventiva. Professor da Universidade de São Paulo, Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Preventiva. Foi presidente da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco) e atualmente é secretário de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos, Ministério da Saúde. Naomar Monteiro de Almeida Filho Médico, mestre em saúde coletiva, doutor em epidemiologia - antropologia médica. Professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia. Reitor da Universidade Federal da Bahia. Presidente do Conselho Universitário, presidente do Conselho de Ensino, presidente do Conselho Deliberativo da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Extensão (Fapex). Consultor de programas de saúde mental. Doctor of science honoris causa pela Mcgill University, Canadá. Paulo Chagas Telles Sabroza Médico, mestre em saúde pública. Pesquisador titular do Departamento de Endemias Samuel Pessoa da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, coordenador do Centro de Vigilância e Monitoramento de Endemias. 9

13 Ricardo Ventura Santos Graduado em ciências biológicas, mestre e doutor em antropologia. Pesquisador titular e chefe do Departamento de Endemias, Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Professor adjunto IV, 20 horas, do Departamento de Antropologia, Museu Nacional/ UFRJ. Editor científico da Editora Fiocruz. Rita de Cássia Barradas Barata Médica, mestre e doutora em medicina. Professora adjunta do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Foi presidente da Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (Abrasco) e atualmente é coordenadora do Mestrado Profissional em Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Silvana Granado Nogueira da Gama Graduada em enfermagem, mestre e doutora em saúde pública. Pesquisadora adjunta do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Integrante do Comitê de Prevenção à Mortalidade Infantil e Fetal do Rio de Janeiro. Coordenadora de curso no Mestrado Profissional em Vigilância em Saúde. Tânia Celeste Matos Nunes Graduada em nutrição, mestre em saúde comunitária, doutora em saúde pública. Tecnologista sênior, aposentada. Foi vice-presidente de Ensino e Recursos Humanos da Fiocruz de janeiro de 2001 a março de Atualmente é coordenadora da Escola de Governo em Saúde, Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. 10

14 Virginia Alonso Hortale Médica, mestre em saúde pública, doutora em saúde pública. Pesquisadora titular do Departamento de Administração e Planejamento em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz. Atualmente é coordenadora geral da Pós-Graduação da Fiocruz. Zulmira Maria de Araújo Hartz Médica, licenciada em educação, mestre e doutora em saúde comunitária. Pesquisadora titular, aposentada, do Departamento de Epidemiologia e Métodos Quantitativos em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública/Fiocruz, onde também exerceu as funções de coordenadora geral de Ensino e vice-diretora. Coordenadora geral de Pós-Graduação da Fundação Oswaldo Cruz de janeiro de 2002 a fevereiro de Atualmente, é pesquisadora e professora convidada do Departamento de Medicina Social e Preventiva da Universidade de Montreal. 11

15 SUMÁRIO Prefácio Apresentação 1 Mestrado Profissionalizante em Saúde Coletiva Moisés Goldbaum 2 Significado Estratégico do Mestrado Profissionalizante na Consolidação do Campo da Saúde Coletiva Carmen Teixeira 3 Formação e Capacitação de Recursos Humanos no Brasil: situação atual, desafios e perspectivas da pós-graduação em saúde coletiva Zulmira Maria de Araújo Hartz Tânia Celeste Matos Nunes 4 Mestrado Profissionalizante em Saúde Pública: um olhar para as experiências internacionais Virginia Alonso Hortale

16 5 A Experiência do Mestrado Profissional do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA, Inês Dourado Carmen Teixeira Estela Aquino Lígia Maria Vieira-da-Silva Jairnilson Silva Paim Naomar de Almeida Filho 6 Formação de Gestores para o Sistema de Saúde: a experiência do Mestrado Profissional do Instituto de Medicina Social da Uerj Célia Regina Pierantoni 7 Mestrado Profissional em Gestão de Ciência e Tecnologia em Saúde: a experiência da Fiocruz Carlos Augusto Grabois Gadelha Cristiane Quental 8 Desafios na Formação de Recursos Humanos para o SUS: a experiência do Mestrado Profissionalizante da Ensp com a SAS-MS Elizabeth Artmann 9 Gestão da Informação e Comunicação em Saúde: desenho e implementação de uma proposta de ensino-aprendizagem Ilara Hämmerli Sozzi de Moraes Miguel Murat Vasconcellos 10 O Mestrado Profissionalizante em Vigilância em Saúde da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca Paulo Sabroza Maria do Carmo Leal Silvana Granado Nogueira da Gama Inês Matos

17 11 Cenários Futuros do Mestrado Profissional da Escola Nacional de Saúde Pública Carlos Machado de Freitas Francisco Javier Uribe Rivera Elizabeth Artmann Ricardo Ventura Santos 12 Avanços e Desafios do Mestrado Profissionalizante Rita Barradas Barata

18 PREFÁCIO Fico muito feliz com a oportunidade de prefaciar este livro que discute a experiência da Fiocruz com o Mestrado Profissional (MP), pois hoje oferecemos nada menos do que cinco programas nesta modalidade de pós-graduação. Tenho a satisfação de ter aberto esta discussão como diretor da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp), alguns anos atrás, em acalorados debates que antecederam a implantação do primeiro programa na Instituição. O Mestrado Profissional é uma inovação educacional lançada em outubro de 1995, por meio da Portaria n. 47 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que vem se firmando no contexto da pós-graduação brasileira, particularmente nos últimos anos. Mesmo assim, segundo a Capes, os mestrados profissionais não passam de 169 (ou 8%) dos cerca de cursos de mestrado recomendados pela instituição em 2005 e têm cerca de alunos matriculados. As estimativas da Capes são de que, em cinco anos, o MP represente cerca de 25% do total de cursos de mestrado reconhecidos. As áreas com maior número de programas são: multidisciplinar, administração, odontologia e saúde coletiva; a maioria dos MP em saúde coletiva do país encontra-se na Fiocruz. Além desses, oferecemos MPs em tecnologia de medicamentos e gestão de ciência e tecnologia em saúde, ambos profundamente relacionados com práticas profissionais próprias da instituição. 17

19 Os profissionais da saúde que desejavam aperfeiçoar-se para o exercício profissional e não para a prática acadêmica tinham, na última metade da década passada, apenas as residências como opção de especialização profissional pós-graduada. As residências foram implantadas no Brasil na década de 1940 e tiveram imenso prestígio por sua qualidade e expansão principalmente na década de 1970, quando foi criada, no Ministério da Educação e Cultura (MEC), a Comissão Nacional de Residência Médica. Minha própria experiência profissional começou em com a residência em pediatria do Hospital dos Servidores do Estado, no Rio de Janeiro, serviço do Prof. Luis Torres Barbosa, um pioneiro, aliás, na introdução da residência médica no Brasil e, justamente, numa instituição que de forma também pioneira albergou esta modalidade de formação de médicos. Em 1979 implantei e fui o primeiro coordenador da Residência em Saúde Pública da Ensp na sua nova fase (pós- TAS Treinamento Avançado em Serviço). O modelo Residência Médica, entretanto, demonstrou seu esgotamento ao longo das décadas de 80 e 90. O que era um projeto de formação muito respeitado e qualificado foi se deformando, passando a ser, em muitos casos, apenas um primeiro emprego mal remunerado, sem qualidades que justificassem investimentos de tempo e dedicação dos médicos recém-formados. A modalidade Residência estendeu-se, no seu período mais tardio, também às demais profissões da saúde. São decorridos trinta anos desde que o Parecer n do Conselho Federal de Educação definiu e fixou as características dos cursos de mestrado e doutorado no Brasil. Para o doutorado o objetivo é proporcionar formação científica ou cultural ampla e aprofundada, desenvolvendo a capacidade de pesquisa e o poder criador nos diferentes ramos do saber, exigindo a defesa de tese que represente trabalho de pesquisa importando em real contribuição para o conhecimento do tema. Já o mestrado foi caracterizado ou como etapa preliminar na obtenção do grau de doutor, ou como grau terminal, devendo a dissertação de mestrado revelar domínio do tema escolhido e capacidade de sistematização. O caráter de terminalidade foi considerado relevante para aqueles que, desejando aprofundar a formação científica ou profissional recebida nos cursos de graduação, não almejassem ou não pudessem dedicar-se à carreira científica. Destacou o parecer a importância de um programa eficiente de estudos pós-graduados para: 1) formar profissionais criadores, capazes de desenvolver novas técnicas e processos tendo em vista a expansão da indústria brasileira e as necessidades do desenvolvimento nacional em todos os setores; 2) transformar a universidade em centro criador e 3) formar professores qualificados para a expansão quantitativa do ensino superior. 18

20 Naquele ato regularizador foi feita também uma clara distinção entre cursos de especialização (destinados a treinamento, formação de atitudes e habilidades, sem abranger o campo total do saber em que se insere a especialidade) e cursos de mestrado, que podem também implicar especialização e operar no setor técnico-profissional, mas sempre no contexto de uma área completa de conhecimento, ou dando ampla fundamentação à aplicação de uma técnica ou ao exercício de uma profissão. Pode-se, portanto, identificar, na norma regularizadora, dois tipos de mestrado, diferenciados pelos seus objetivos centrais. Um deles tem como objetivo a realização de estudos avançados em uma disciplina específica, sem preocupação com suas aplicações. Corresponderia, na nomenclatura norte-americana, aos graus de Master of Arts (MA) e Master of Sciences (MS), sem designação específica da disciplina correspondente. Outro tipo visa à aplicação e extensão de conhecimentos a finalidades profissionais ou vocacionais. Diz respeito a graus como Master of Business Administration, Master of Arts in Education, Master of Engineering e Master of Arts in Teaching, nos Estados Unidos. O desenvolvimento da pós-graduação no Brasil nos últimos trinta anos deu origem a cursos de mestrado que, com raras exceções, caracterizam-se predominantemente como o primeiro degrau para a qualificação acadêmico-científica necessária à carreira universitária. À época, a justificativa para essa ênfase acadêmica, com a exclusão da vertente profissional, era de que ela seria suficiente para assegurar também a formação de pessoal de alta qualificação para atuar nas áreas profissionais, nos institutos tecnológicos e nos laboratórios industriais. Tal situação, dominante até os anos 80, não conseguiu se sustentar diante da intensidade, urgência e variedade das demandas que a sociedade brasileira passa a fazer, desde então, ao sistema universitário. A rápida evolução do conhecimento passou a exigir, dos graduados, formação avançada e atualizada; em paralelo, as organizações governamentais e não-governamentais passaram a exigir constante elevação da qualidade e produtividade dos seus serviços. Em complemento, a abertura de mercado passa a demandar das empresas um nível de competitividade que as leva a buscar profissionais com formação pós-graduada, de preferência mestrado. A evolução do conhecimento, a melhoria do padrão de desempenho e a abertura do mercado induzem, então, à busca de recursos humanos que permitam uma transferência mais rápida dos conhecimentos gerados na universidade e nos institutos de pesquisa para a sociedade. Buscam-se em todo o mundo formas mais diretas de vinculação do aparelho formador com empresas, agências não-governamentais e governo. Para atender a essas novas exigências e, de certa forma, complementar o espectro previsto para a pós-graduação no decreto supramencionado, a Capes lança, em 1995, as bases para a 19

21 regulamentação do mestrado profissional. Segundo a portaria da Capes, esse modelo de mestrado estará voltado para a formação profissional, a fim de melhorar a qualificação de técnicos do governo e de empresas públicas e privadas. Além das atividades de ensino, ele prevê a aplicação das pesquisas e o repasse de tecnologia à sociedade. Com duração mínima de um ano, o MP incentiva a criação de projetos em parceria com os setores produtivo e governamental, assim como a oferta de atividades de extensão. Ao final do curso, o aluno deverá apresentar um trabalho, que pode não ser na forma da tradicional dissertação. No lugar dela, a avaliação pode ser feita, por exemplo, por meio de projetos, análises de casos e desenvolvimento de equipamentos e protótipos. O que diferencia os dois tipos de mestrado são o perfil dos candidatos e o foco de atuação. Enquanto o acadêmico forma pesquisadores e docentes, o profissional qualifica para o mercado de trabalho. Os cursos de MP destinam-se a graduados em cursos superiores, com o objetivo de prepará-los para elaborar novas técnicas e processos ligados à sua atuação profissional, e devem comprovar contribuição inovadora para o desenvolvimento de atividades profissionais. Recentemente a Capes lançou proposta estimulando a criação de MPs em áreas específicas, como: arquitetura e urbanismo, ciência da computação, ciência política, ciências agrárias, ciências biológicas, ciências sociais aplicadas, ecologia e meio ambiente, economia, enfermagem, engenharias, ensino de ciências e matemática, farmácia, fisioterapia/educação física, matemática/probabilidade e estatística, medicina, multidisciplinar, odontologia, planejamento urbano/demografia, saúde coletiva e zootecnia/recursos pesqueiros. Comprometida com o avanço contínuo do Sistema Único de Saúde (SUS), a Fiocruz vislumbrou a oportunidade de contribuir para melhorar a governance deste sistema, por meio de pesquisas direcionadas para este fim, e criar os mestrados profissionais para atender às necessidades da gestão pública. Com isso, surgiram na Fiocruz, nos últimos seis a sete anos, correspondendo ao início do século XXI, os mestrados profissionais, que são objeto da análise e reflexão de muitos coordenadores de programas e professores dos nossos cursos. Da mesma forma, a Presidência da Fiocruz passou a fomentar a investigação aplicada em saúde pública, através do Programa de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde Pública, que visa a desenvolver conhecimentos, instrumentos e mecanismos para o incremento da qualidade do sistema de saúde brasileiro nos seus vários campos de atuação: gestão de sistemas, serviços e organizações; epidemiologia; promoção e educação em saúde; saúde do trabalhador e tantas outras áreas que hoje compõem o sofisticado e abrangente campo de conhecimento e ação da saúde pública brasileira contemporânea. 20

22 Deixo-os com a leitura da nossa experiência, estimando que, ao fazê-lo, todos os leitores sintam-se estimulados a também participar deste enorme esforço nacional em prol da melhoria do nosso sistema de saúde e, por conseqüência, da saúde da nossa população. Paulo Marchiori Buss Presidente da Fundação Oswaldo Cruz 21

23 APRESENTAÇÃO O Mestrado Profissional (MP), como modalidade nova de pós-graduação stricto sensu proposta pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), vem, nos últimos anos, recebendo grande acolhida na área da saúde coletiva. Instituições como o Instituto de Saúde Coletiva (ISC-UFBA), o Instituto de Medicina Social (IMS-Uerj), a Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp-Fiocruz) e, mais recentemente, a Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo identificaram nessa nova modalidade a oportunidade para a formação qualificada dos quadros estratégicos e gestores para o Sistema Único de Saúde (SUS). Este volume resulta desse esforço conjunto, procurando demonstrar, por meio de reflexões e experiências de vários autores, inseridos nas instituições que vêm desenvolvendo essa iniciativa, os desafios encontrados e as perspectivas do mestrado profissional na saúde coletiva. No capítulo de abertura, de Moisés Goldbaum, que serviu de referência inicial para vários autores, encontramos um dos primeiros textos que procuraram sistematizar uma reflexão sobre o significado do mestrado profissional na área da saúde coletiva. Goldbaum, que na época em que escreveu o capítulo era representante da área de saúde coletiva na Capes, apresenta os pressupostos dessa agência para a criação dos cursos de mestrado profissional e chama a atenção para a importância de tal modalidade no provimento de recursos humanos 23

24 atualizados em novos conhecimentos. Recursos humanos estratégicos, capazes tanto de acompanhar e incorporar os processos de inovação e produção de saber quanto de formular respostas para os problemas em suas áreas de atuação, incorporando a avaliação do impacto das intervenções aplicadas. Carmen Teixeira, analisando o significado estratégico do mestrado profissional para a consolidação do campo da saúde coletiva, faz uma revisão do conceito, da demarcação e da política de formação de pessoal na área, identificando na experiência recente da criação dos MP um aspecto importante das relações entre a tendência da situação de saúde da população, a gestão e organização dos sistemas e serviços de saúde e a resposta das instituições de ensino da área da saúde coletiva, em nível de pós-graduação. Zulmira Hartz e Tânia Celeste situam o mestrado profissional como um elemento importante na formação de recursos humanos em saúde coletiva. Estabelecem uma ponte entre o capítulo de Moisés Goldbaum e o de Carmen Teixeira. Sua grande contribuição é situar a emergência do mestrado profissional dentro do contexto das necessárias mudanças na pós-graduação stricto sensu. Como demonstra Virginia Hortale, por meio de um olhar para as experiências internacionais, a idéia do MPl como fundamental para a formação qualificada dos quadros estratégicos e gestores para os sistemas de saúde não é nova e nem circunscrita ao Brasil. A análise da experiência de países da América do Norte, Europa e América Latina demonstra que esses cursos possuem em comum a ampliação da interface com setores não acadêmicos e, com métodos pedagógicos bastante variados, procuram responder às necessidades socialmente definidas de formação de profissionais multidisciplinares com capacidade de resolver problemas na área da saúde pública. Nos capítulos em que são relatadas e discutidas as experiências do ISC, do IMS e da Ensp encontramos a diversidade de interfaces estabelecidas com instituições que integram, direta e indiretamente, o campo da saúde coletiva, no tocante a públicos-alvo, organização dos cursos, estrutura curricular e dinâmica pedagógica. Inês Dourado, Carmen Teixeira, Estela Aquino, Lígia Vieira, Jairnilson Paim e Naomar de Almeida Filho descrevem a experiência do ISC com seus cinco cursos (um em Docência de Saúde da Família, três em Gestão de Sistemas de Saúde e um em Epidemiologia em Serviços de Saúde), situando o mestrado profissional no âmbito da vocação do programa institucional e apresentando-o como uma experiência inovadora que contribui para o aperfeiçoamento das práticas sanitárias, agregando conhecimentos ao campo da saúde coletiva. Os autores enfatizam os desafios relacionados ao tempo de duração, à oferta de conteúdos teóricos de modo condensado e intensivo, à orientação semipresencial e às características particulares dos produtos finais de conclusão. 24

25 Célia Pierantoni apresenta o curso de Mestrado Profissional em Administração de Saúde do IMS como uma formação de gestores para o SUS e identifica a sua origem na experiência acumulada pela instituição com o Curso de Especialização em Administração Hospitalar oferecido desde a segunda metade da década de 70 do século passado. Um curso que inicialmente tinha como público-alvo os médicos e depois passou a incorporar outras formações profissionais, adquirindo um perfil multidisciplinar. Para a autora, o MP responde aos processos de mudança que vêm ocorrendo tanto no mundo do trabalho como no próprio SUS. Em relação à Ensp, sua experiência é apresentada em cinco capítulos, quatro deles referentes aos quatro diferentes cursos de mestrado profissional em andamento, ou já concluídos, e um capítulo que projeta o mestrado profissional nos cenários futuros de reorganização da instituição. O MP em Gestão de Ciência & Tecnologia (C&T), que se destina à formação de gestores em ciência e tecnologia em saúde, é apresentado por seus coordenadores, Carlos Gadelha e Cristiane Quental. Os autores revelam os limites dos cursos tradicionais de pósgraduação nas áreas de administração e gestão no tratamento da interface entre C&T e saúde. Para eles, o setor exige um tipo de formação específica que seja capaz de combinar os universos da C&T, da saúde e da administração pública, provocando uma mudança cultural na instituição em que foram formados os alunos. Na segunda experiência da Ensp, Elizabeth Artmann, além de relatar o caso do MP em Gestão de Sistemas e Serviços de Saúde, apresenta o olhar dos alunos sobre o curso. A percepção dos alunos captada em entrevistas semi-estruturadas aprofunda temas como o alcance dos objetivos do curso, possíveis impactos/resultados atingidos, aspectos relacionados à seleção, avaliação, articulação e adequação dos conteúdos, bem como aos prazos e ao processo pedagógico. A partir do discurso coletivo dos alunos, a autora oferece sugestões para o aperfeiçoamento dos cursos de mestrado profissionalizante. O MP em Gestão da Informação e Comunicação em Saúde, coordenado por Ilara de Moraes e Miguel Murat, trata do desafio de também articular três campos de saberes, a saúde, a informação e a comunicação. A partir desse desafio, os autores demonstram como procuraram superá-los criando uma estrutura curricular e de gestão do curso que permitisse ultrapassar a lógica fragmentadora dominante. Na quarta experiência, Paulo Sabroza, Maria do Carmo Leal, Silvana Granado e Inês Matos descrevem o caso do MP em Vigilância em Saúde. Situam historicamente a vigilância e seus conceitos, de modo a contextualizar o curso e apresentá-lo como parte da necessidade de construção e consolidação de um novo projeto de saúde pública, em que devem se formar técnicas e políticas em saúde, e a contribuir para ampliar a base de inteligência do setor Saúde. 25

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