PUBLICIDADE DE BEBIDAS ALCOÓLICAS NAS RÁDIOS DO RECIFE RELATÓRIO FINAL

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO UFPE PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM COMUNICAÇÃO - PPGCOM PUBLICIDADE DE BEBIDAS ALCOÓLICAS NAS RÁDIOS DO RECIFE RELATÓRIO FINAL Pesquisa realizada pelo Observatório da Mídia Regional: direitos humanos, políticas e sistemas sob a coordenação do Prof. Dr. Edgard Rebouças RECIFE JUNHO DE 2008

2 EQUIPE DE OBSERVAÇÃO Desirée Machado Diogo Stanley Edgard Rebouças Ericka Galindo Janayde Gonçalves Leandro Santoianni Patrícia Cunha 1

3 O grupo de pesquisa Observatório da mídia regional: direitos humanos, políticas e sistemas está registrado no CNPq desde 2007 e faz parte da linha de pesquisa Comunicação e Processos Sociais do Programa de Pós-graduação em Comunicação da UFPE. Este Grupo tem como objetivo geral realizar um acompanhamento sistemático da produção midiática na região Nordeste do Brasil, com foco no respeito, promoção e proteção dos direitos humanos, civis, políticos, econômicos, sociais e culturais. Objetivos: Criar e fortalecer um novo espaço de diálogo e difusão de conhecimento sobre os sistemas, as políticas de comunicações e a produção midiática e os direitos humanos entre a UFPE, a sociedade civil organizada (ONGs, movimentos sociais, conselhos de direitos humanos, associações de profissionais e de empresas do setor da radiodifusão), bem como com o setor público, para um efetivo debate transformador da realidade social em termos de comunicações. Fomentar ações de leitura crítica dos meios. Produzir acervo com material para pesquisas empíricas e críticas não só na área da Comunicação, mas também de Educação, Direito, Ciências Políticas, Sociologia, Serviço Social, Psicologia e Saúde. Linhas de pesquisa e ação: Mídia e direitos humanos Objetivos Formar uma comunidade científica e política voltada para a pesquisa e ações de controle social dos meios de comunicação, com foco no respeito, promoção e proteção dos direitos humanos. Acompanhar a produção midiática da região no que se refere à valorização e não violação dos direitos humanos. Fomentar a pesquisa acadêmica e a produção de conhecimento sobre a comunicação e os direitos humanos, focando na construção de uma cultura de direitos humanos nos espaços de educação, pesquisa e extensão. Politicas e estratégias de comunicações Objetivos Levantar o questionamento sobre o papel dos principais atores sociais ligados aos grupos regionais de mídia, analisando suas estratégias e políticas no mercado de comunicações e de cultura na região e no país. 2

4 Compreender o estabelecimento (ou não) de políticas públicas para os diversos setores das industrias culturais, de informação e de comunicação. Grupos de mídia Objetivos Traçar um panorama o mais detalhado possível dos sistemas de comunicações na região Nordeste, fazendo um levantamento dos veículos da região que tenham como suporte jornal, revista, rádio, televisão, mídia externa e online. Elaborar um perfil das relações políticas, sociais, econômicas e culturais dos grupos de mídia da região. Confrontar a estrutura dos veículos de comunicação com os fenômenos conjunturais que ocorreram paralelamente na história da região, estabelecendo uma contextualização do desenvolvimento dos meios com a evolução da sociedade à qual fazem parte. RESUMO DA CONCLUSÃO DESTA OBSERVAÇÃO Diante da quantidade de medidas e ações da sociedade e dos governos para a redução dos problemas causados pela ingestão de bebidas alcoólicas, no Recife, emissoras de rádio, agências de publicidade e fabricantes de bebidas alcoólicas desrespeitam aberta e sistematicamente a Lei Federal 9.294/96. A incidência de irregularidades varia de 45 segundos a 135 minutos semanais de anúncios em forma de spot, jingle e testemunhal das bebidas com teor alcoólico superior a 13º Gay Lussac entre 6 horas e 21 horas. Esta é a conclusão deste Observatório da Mídia Regional: direitos humanos, políticas e sistemas após seis meses de acompanhamento e análise de programas e programações de emissoras de rádio na capital pernambucana. O relatório a seguir detalha a observação. 3

5 1. MOTIVAÇÕES Esta pesquisa surgiu no âmbito dos debates em sala de aula das disciplinas Legislação e Ética na Publicidade e Legislação e Ética no Rádio e na Televisão, ambas ministradas pelo Prof. Dr. Edgard Rebouças, no curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco no primeiro e segundo semestres de O questionamento sobre a legalidade da veiculação de publicidades de bebidas alcoólicas na mídia pernambucana foi colocado por alguns estudantes, já que observavam de forma empírica como consumidores e estagiários em empresas de publicidade e de mídia que emissoras de rádio e televisão, jornais e outdoors expunham ostensivamente anúncios de várias marcas de cervejas, vinhos, conhaques, cachaças, runs e vodkas. 1.1 TRANSGRESSÃO DA LEI Nº 9.294/1996 Em um primeiro momento foi feita uma análise mais detalhada da legislação em vigor Leis nº 9.294/1996 e /2000 e Medida Provisória /2001, que posteriormente foi confrontada com as observações empíricas dos estudantes. Na leitura da Lei nº 9.294, de 15 de julho de 1996, que Dispõe sobre as restrições ao uso e à propaganda de produtos fumígeros, bebidas alcoólicas, medicamentos, terapias e defensivos agrícolas, nos termos do 4 do art. 220 da Constituição Federal, são destacáveis os seguintes pontos (em negrito): Art. 1º O uso e a propaganda de produtos fumígeros, derivados ou não do tabaco, de bebidas alcoólicas, de medicamentos e terapias e de defensivos agrícolas estão sujeitos às restrições e condições estabelecidas por esta Lei, nos termos do 4 do art. 220 da Constituição Federal. Parágrafo único. Consideram-se bebidas alcoólicas, para efeitos desta Lei, as bebidas potáveis com teor alcoólico superior a treze graus Gay Lussac. Sobre este artigo, em especial o conteúdo do parágrafo único foi questionado por não haver justificativa científica ou legal para o estabelecimento dos 4

6 13º Gay-Lussac como teor alcoólico para os efeitos desta lei em especial. A resposta pode ser encontrada em outra legislação, a Lei Federal nº 7.678, de 8 de novembro de 1988, que originou a também conhecida como Lei do Vinho, que estabelece: Art. 9º - Vinho de mesa é o de graduação alcoólica de 10º a 13º GL (dez a treze graus Gay Lussac). [...] Art. 11 Champanha (Champagne) é o vinho espumante, cujo anidrido carbônico seja resultante, unicamente, de uma segunda fermentação alcoólica do vinho, em garrafa ou em grande recipiente, com graduação alcoólica de 10º a 13º GL (dez a treze graus Gay Lussac), com pressão mínima de 3 (três) atmosferas. [...] Art. 13 Vinho gaseificado é o resultante da introdução de anidrido carbônico puro, por qualquer processo, devendo apresentar com graduação alcoólica de 10º a 13º GL (dez a treze graus Gay Lussac), e pressão mínima de 2 (duas) e máxima de 3 (três) atmosferas. Dessa forma, fica clara a intenção do legislador em proteger o mercado de vinho, que, segundo levantamentos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, no ano da promulgação da Lei do Vinho, a produção nacional fora de litros da bebida, sendo 93% concentrada no Rio grande do Sul; e no ano da publicação da regulamentação da publicidade, em 1996, ocorrera uma queda na produção nacional para litros, tendo a participação do Rio Grande do Sul passado para 95,5% (EMBRAPA, 2008) 1. Em 12 de novembro de 2004 foi promulgada a Lei nº , que altera alguns dispositivos da Lei n 7.678/88, sendo que uma das principais modificações foi a elevação do limite de 13º GL para 14º GL no teor alcoólico dos vinhos de mesa e espumantes. Seguindo a lógica do espírito legal estabelecido no parágrafo único do Art. 1º da Lei nº 9.294/96, de atendimento aos interesses dos produtores de vinho em detrimento das questões de saúde pública, caso fosse feita uma alteração na atual legislação que regulamenta a publicidade de bebidas, esta deveria ser mudando o limite do teor alcoólico de 13º GL para 14º GL, e não baixando para 0,5º GL. 5

7 Para efeitos de outras regulamentações, como a que proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas estradas, o teor alcoólico é outro, como demonstra a Lei , de 19 de junho de 2008: Art. 6º - Consideram-se bebidas alcoólicas, para efeitos desta Lei, as bebidas potáveis que contenham álcool em sua composição, com grau de concentração igual ou superior a meio grau Gay-Lussac. Para efeito da proibição de venda de bebidas alcoólicas para menores, conforme estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente, bebida alcoólica também são aquelas com teor igual ou superior a 0,5 grau Gay-Lussac. Se o teor alcoólico da Lei nº 9.294/1996 fosse igual ao adotado pelas demais leis, esta pesquisa deveria considerar também as cervejas, os ices e as misturas que são objeto de um grande número de publicidade nas rádios. Outro trecho da Lei que chamou a atenção dos estudantes foi o conteúdo do seguinte artigo: Art. 4 Somente será permitida a propaganda comercial de bebidas alcoólicas nas emissoras de rádio e televisão entre as vinte e uma e as seis horas. 1 A propaganda de que trata este artigo não poderá associar o produto ao esporte olímpico ou de competição, ao desempenho saudável de qualquer atividade, à condução de veículos e a imagens ou idéias de maior êxito ou sexualidade das pessoas. Quanto a este ponto, foi indicado em sala de aula que em programas e programações de rádios captadas na cidade do Recife havia uma grande quantidade de publicidades de bebidas como cachaça, conhaque, vodka e rum todos com mais de 13º GL. Segundo as informações não sistematizadas, tais publicidades eram veiculadas ao longo de todo o dia, não respeitando o horário legal das 21h às 6h para sua veiculação. Outro questionamento dos estudantes foi quanto ao conteúdo do parágrafo primeiro, pois, segundo eles, a maioria dos programas patrocinados por tais anunciantes eram do gênero esportivo principalmente sobre 1 Seria recomendável um futuro estudo mais aprofundado sobre a pressão exercida pela bancada gaúcha para que a Lei nº 9.294/96 fosse aprovada com a indicação da graduação alcoólica em 13º 6

8 futebol, mas também sobre outros esportes olímpicos, já que há em Pernambuco muitos atletas das seleções nacionais para os Jogos de Pequin 2. Um terceiro aspecto discrepante na legislação na visão dos estudantes foi o texto do artigo 5º, tanto em seu caput como no parágrafo primeiro. Art. 5 As chamadas e caracterizações de patrocínio dos produtos indicados nos arts. 2 e 4, para eventos alheios à programação normal ou rotineira das emissoras de rádio e televisão, poderão ser feitas em qualquer horário, desde que identificadas apenas com a marca ou "slogan" do produto, sem recomendação do seu consumo. Neste ponto, foi relatado que havia muitos eventos culturais e esportivos na cidade que contavam com o patrocínio e/ou apoio de fabricantes de bebidas alcoólicas com mais de 13º GL em especial eventos ligados ao Carnaval, aos festejos de São João e ao futebol. Foi lembrado que muitos dos espetáculos e competições são realizados em parceria com emissoras de rádio e/ou TV, que aproveitam a ocasião para venderem espaço publicitário para os mesmos patrocinadores dos eventos. E que em muitos casos o anúncio não se limita a divulgação da marca ou do slogan. 1.2 FRAGILIDADE E DESRESPEITO DO/AO CÓDIGO DO CONAR Dando prosseguimento às motivações desta pesquisa a partir da reflexão realizada com os estudantes de Publicidade e de Rádio e TV no interior da disciplina de Legislação e Ética, tem início uma análise sobre a publicidade de bebidas alcoólicas sob a ótica do estatuto deontológico que ordena a prática da publicidade e da propaganda de algumas empresas do setor: o Código Brasileiro de Auto- Regulamentação Publicitária. Objeto de constantes modificações, ele foi instituído em 5 de maio de 1980 pela Associação Brasileira das Agências de Propaganda (Abap), Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), Associação Nacional de GL e não com 0,5º como recomenda o Ministério da Saúde. 2 Nos Jogos Pan-americanos do Rio os atletas do estado participaram de modalidades de atletismo, natação, futebol, basquete, vôlei, handbol e tiro, todos com ampla cobertura pela imprensa local, inclusive nos programas esportivos radiofônicos. 7

9 Jornais (ANJ), Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner) e pela Central de Outdoor. Diante do quadro de signatários, constata-se que as centenas de agências de publicidade não filiadas à Abap, as milhares de empresas não filiadas à ABA, as dezenas de jornais não filiados à ANJ, as dezenas de revistas não filiadas à Aner, as dezenas de empresas de mídia externa não ligadas à Central de Outdoor e, ainda, as dezenas de emissoras de rádio e televisão entre elas a Bandeirantes e a Rede TV! não filiadas à Abert não são obrigadas a seguir o Código. Vale lembrar que há ainda todo o contingente de publicitários, empregados ou não em agências e veículos, que também não têm nenhuma obrigação legal ou ética de seguir o que está ali estipulado, pois não se trata de um estatuto deontológico de uma categoria profissional, mas de um conjunto de normas acordadas por um grupo de empresas. Na versão do Código consultada em 5 de maio de 2008 para a redação final deste Relatório já que a versão utilizada em sala de aula no segundo semestre de 2007 estava defasada, foram destacados pontos semelhantes aos utilizados com os estudantes, sendo que há aqui o acréscimo de algumas novas recomendações das resoluções nº 01/08, nº 02/08 e nº 03/08 do Conselho Nacional de Autoregulamentação Publicitária (Conar), que complementou em 18 de fevereiro de 2008 o Anexo A, que trata da publicidade de bebidas alcoólicas; o Anexo P, de cervejas e vinhos; e o Anexo T, relativo a ices e bebidas assemelhadas. São eles: Artigo 1º - Todo anúncio deve ser respeitador e conformar-se às leis do país; deve, ainda, ser honesto e verdadeiro. Como visto em relação à publicidade estática nos estádios de futebol do Recife, este artigo 1º do Código de Auto-regulamentação Publicitária é completamente ignorado pelos responsáveis pela fabricação do produto, criação do anúncio e veiculação das placas. E, como será exposto mais adiante, em relação à publicidade em rádio, além de não seguirem as recomendações do Código empresarial, também desrespeitam a legislação federal. O capítulo III desse estatuto deontológico trata das categorias especiais de anúncios, e em seu artigo 44 lista 20 anexos com regras específicas para alguns tipos de produtos e serviços, entre os quais as bebidas de baixo e elevado teor 8

10 alcoólico, ao lado de educação, varejo, alimentos, turismo, armas de fogo e vários outros. Para este Relatório o interesse maior é sobre as recomendações contidas no Anexo A Bebidas alcoólicas. Os pontos destacáveis, alguns em consonância outros em dissonância com a legislação, são: A publicidade submetida a este Anexo: 1. Regra geral: por tratar-se de bebida alcoólica produto de consumo restrito e impróprio para determinados públicos e situações deverá ser estruturada de maneira socialmente responsável, sem se afastar da finalidade precípua de difundir marca e características, vedados, por texto ou imagem, direta ou indiretamente, inclusive slogan, o apelo imperativo de consumo e a oferta exagerada de unidades do produto em qualquer peça de comunicação. Segundo os estudantes, pelo que observavam nas publicidades de bebidas alcoólicas veiculadas nas rádios do Recife, havia um descumprimento desta regra do Conar, já que os textos eram construídos no imperativo. Tal confirmação poderá ser comprovada mais adiante quando da exposição da análise sistemática de tais anúncios. 2. Princípio da proteção a crianças e adolescentes: não terá crianças e adolescentes como público-alvo. Diante deste princípio, os Anunciantes e suas Agências adotarão cuidados especiais na elaboração de suas estratégias mercadológicas e na estruturação de suas mensagens publicitárias. Assim: [...] b. as mensagens serão exclusivamente destinadas a público adulto, não sendo justificável qualquer transigência em relação a este princípio. [...] Sobre este ponto, foi lembrado pelos estudantes que uma marca de vodka que havia sido lançada no mercado local no início de 2007 tinha como público alvo os jovens, pois isso havia sido dito na festa de lançamento e ao usar como mote para a campanha a mistura do produto com frutas, estava se valendo de uma prática comum entre adolescentes em festas. Outro apelo aos jovens é o preço médio do litro dessa marca de vodka: R$ 6,00. O que, segundo os estudantes, é um valor ideal para ser cotizado entre um pequeno grupo de amigos. Em relação ao horário de veiculação da publicidade de bebidas alcoólicas, o Código amplia em meia hora o disposto no artigo 4º da Lei 9.294/96: 4. Horários de veiculação: os horários de veiculação em Rádio e TV, inclusive por assinatura, submetem-se à seguinte disciplinação: a. quanto à programação regular ou de linha: comerciais, spots, inserts de 9

11 vídeo, textos-foguete, caracterizações de patrocínio, vinhetas de passagem e mensagens de outra natureza, inclusive o merchandising ou publicidade indireta, publicidade virtual e as chamadas para os respectivos programas só serão veiculados no período compreendido entre 21h30 (vinte e uma horas e trinta minutos) e 6h (seis horas) (horário local); No entanto, se por um lado o Código é mais rígido que a legislação, em outro é completamente flexível, chegando ao ponto de recomendar um desrespeito à Lei. Como já exposto anteriormente, esta pesquisa não se ateve à publicidade estática, mas tal ponto foi questionado por estudantes ao verem que há uma discrepância entre o texto legal e o deontológico. Para relembrar, a Lei 9.294/96 diz que: Art. 5 As chamadas e caracterizações de patrocínio dos produtos indicados nos arts. 2 e 4, para eventos alheios à programação normal ou rotineira das emissoras de rádio e televisão, poderão ser feitas em qualquer horário, desde que identificadas apenas com a marca ou "slogan" do produto, sem recomendação do seu consumo. 1 As restrições deste artigo aplicam-se à propaganda estática existente em estádios, veículos de competição e locais similares. 1.3 CONJUNTURA DA REGULAMENTAÇÃO DA PUBLICIDADE DE BEBIDAS ALCOÓLICAS No momento em que as disciplinas de Legislação e Ética Publicitária e Legislação e Ética no Rádio e na Televisão estavam sendo ministradas na Universidade Federal de Pernambuco estava ocorrendo uma retomada do debate nacional a respeito da regulamentação da publicidade de bebidas alcoólicas. Dessa forma, semanalmente os estudantes traziam para as aulas recortes de jornais ou trechos de notícias veiculadas na internet sobre os estudos e as propostas do Ministério da Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para modificar a Lei nº 9.294/96, principalmente o parágrafo único do artigo 1º, baixando o teor alcoólico de referência de 13º GL para 0,5º GL. Era também objeto de comentários a postura de algumas agências de publicidade e de alguns veículos de comunicação e fabricantes de bebidas na alegação de que qualquer tentativa de modificar a regulamentação em vigor era sinal de autoritarismo. O momento foi muito rico para se trabalhar em sala de aula os conceitos de grupos de pressão, lobby, interesse público e interesse privado. 10

12 Ao longo do processo desta pesquisa, outros pontos ampliaram o debate nacional sobre a questão das bebidas alcoólicas, entre elas as leis de maior fiscalização no trânsito sobre motoristas embriagados e a de proibição da venda de bebidas nas estradas, além do acordo da Confederação Brasileira de Futebol com o Conselho Nacional dos Procuradores-gerais do Ministério Público dos estados e da União para a interdição da venda de bebidas alcoólicas nos estádios. 2. FUNDAMENTAÇÃO Para uma melhor compreensão da problemática envolvida no estudo objeto deste Relatório, o grupo de pesquisa Observatório do Mídia Regional: direitos humanos, políticas e sistemas buscou uma fundamentação sobre as questões envolvidas em três campos: 1) Saúde, 2) Comunicação e 3) Direito. Para tanto foi realizado um levantamento bibliográfico sobre pesquisas nas áreas dos efeitos da ingestão de bebidas alcoólicas, da publicidade radiofônica e da regulamentação sobre bebidas alcoólicas e publicidade. Além disso, a presente pesquisa integra uma série de discussões nacionais envolvendo bebidas alcoólicas, dentre as quais: a proibição da venda de bebidas nas estradas, o impedimento de ingestão de bebidas alcoólicas antes de dirigir e o fim da publicidade dessas bebidas. Todo esse material fortalece a justificativa do estudo desenvolvido e as ações dele decorrentes. Dentre os estudos e experiências catalogados e debatidos pelos membros do Observatório para a realização desta pesquisa estão: 1) Saúde 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool da População Brasileira, elaborado pela Senad - Secretaria Nacional Antidrogas em parceria com a Unifesp Universidade Federal do estado de São Paulo; e Estudos do Centro Médico da Universidade de Pittsburg, EUA realizados pelo pesquisador Duncan Clark. 11

13 2) Comunicação Descrição e análise das categorias, gêneros e formatos de programas e programações radiofônicos com base em bibliografia de Emílio Prado (1985), Gisela Ortriwano (1985) e André Barbosa (2003); Compreensão de mecanismos e técnicas de redação publicitária, segundo as perspectivas de João Anzanello Carrascoza (2003) e Marco Aurélio Cidade (2006); e As análises sobre os efeitos da publicidade sobre crianças, sob a ótica de Inês Vitorino Sampaio (2000) e Susan Linn (2006). 3) Direito Análise da legislação relativa à publicidade direcionada a jovens a partir das pesquisas de Isabella Henriques (2006) e Noemi Frieske Moemberger (2002); e Debate sobre os textos legais que contemplam a área de comunicação, segundo as compilações feitas por Marcos Bitelli (2004) e Antônio Costella (2002). 3. METODOLOGIA Este Observatório da Mídia Regional foi criado tendo como um dos objetivos fazer o acompanhamento sistemático da produção midiática por meio da gravação de programas e programações de rádio e TV e da clippagem de jornais e revistas. No entanto, quando do início das atividades de observação que deram origem a este relatório, não estavam disponíveis ainda os equipamentos necessários para as gravações de rádio, o que atenderia a cobertura de todo o universo a ser observado a fim de contemplar a proposição de pesquisa de que o Art. 4 da Lei 9.294/94 estaria sendo desrespeitado. Recapitulando o texto legal: Art. 4 Somente será permitida a propaganda comercial de bebidas alcoólicas nas emissoras de rádio e televisão entre as vinte e uma e as seis horas. 12

14 Diante de tal impedimento operacional devido à falta de tecnologia, a equipe de pesquisadores optou por fazer um acompanhamento direto da programação ao longo de uma semana. Primeiramente foi feita uma listagem das emissoras de rádio AM e FM captadas em média 3 da cidade do Recife (28 em FM e 11 em AM): FM 88,7 Antena 1 90,3 JC CBN 90,7 Guarabira 91,3 Gospel (Rede Aleluia) 91,9 Rede Aleluia 92,7 Transamérica 93,1 Pernambuco FM 93,9 Litoral FM 94,3 Nova Brasil 95,1 Tropical FM 95,9 Jovem Pan (Rede Aleluia) 96,7 Folha FM 97,1 Oi 97,5 Recife 99,1 Clube FM 99,9 Universitária 100,1 Cabo FM 100,7 Evangélica FM 101,7 Pop Brasil 102,1 102 FM (Estação SAT) 102,5 Porto Seguro 103,1 103 FM 103,9 Maranata 104,9 Nordeste FM 105,7 105 FM 106,9 Nossa Rádio 107,3 Mídia FM 107,9 Tribuna FM AM 580 Rádio Boas Novas 660 Rádio Jornal 720 Rádio Clube de Pernambuco 780 Rádio Jornal 820 Universitária 890 Rádio Tamandaré 950 Planalto Olinda Rádio Relógio Musical Rádio Capibaribe do Recife Continental Ao longo das duas últimas semanas do mês de outubro de 2007 foi feita a identificação das categorias e gêneros de programas e programações de todas as rádios listadas. Ao final da classificação, foram descartadas as emissoras universitárias, comunitárias e as de programação com 100% de conteúdo religioso. Nesses casos, apesar de haver anúncios na forma de apoio cultural ou comercial, a 3 Esta média foi necessária devido ao fato de em partes dos 218 Km 2 da capital pernambucana haver captação de emissoras de outros municípios. A equipe estabeleceu um critério de uma a três estrelas para a qualidade do sinal de cada emissora, e foram considerados para este estudo apenas aquelas que apresentaram o número máximo de estrelas em ao menos quatro pontos quase cardinais da cidade Centro, Boa Viagem, Cidade Universitária e Tamarineira. 13

15 equipe ponderou ser muito pequena a probabilidade de veiculação de publicidade de bebidas alcoólicas com mais de 13º GL ao longo de suas programações. O terceiro momento desta observação e análise foi a realização da escuta de todas as emissoras restantes tendo como amostra uma semana típica (18 a 24 de novembro de 2007). Este acompanhamento contou a participação de pesquisadores voluntários e serviu como um pré-teste indicativo de quais emissoras efetivamente veiculam publicidade de bebidas alcoólicas. Esta etapa reduziu o número de emissoras a serem observadas/gravadas para seis em FM e três em AM 4 : FM 90,3 JC CBN 720 Rádio Clube de Pernambuco 92,7 Transamérica 780 Rádio Jornal 97,5 Recife Olinda 99,1 Clube FM 102,1 102 FM (Estação SAT) 103,1 103 FM AM Tais emissoras em FM, somadas, têm uma audiência média por minuto de ouvintes na Grande Recife, o que representa 62,39% dos habitantes da região com rádios ligados 5. Já entre as em AM, o número médio de ouvintes por minuto é de , representando 56,16% da audiência. Após a delimitação das emissoras de rádio a serem efetivamente observadas, a equipe optou por não dar continuidade imediata à pesquisa devido a dois fatores temporais: 1) os festejos de fim de ano, onde a maioria das emissoras reestruturam programas e programações para atender a anunciantes eventuais, o que desviaria a amostra de uma outra semana típica; e 2) o término do Campeonato Brasileiro de Futebol, o que também desviaria os resultados colhidos no pré-teste, que mostraram maior incidência de publicidades de bebidas alcoólicas com mais de 13º GL exatamente nos programas esportivos ligados a tal evento. 4 Tal delineamento não isenta as demais emissoras do objeto desta observação e análise; ele indica apenas que na semana típica utilizada como amostra não foi constatada nenhuma publicidade de bebida alcoólica com mais de 13º GL em suas programações de 6 horas às 21 horas. 5 Dados do Ibope EasyMedia para março, abril e maio de

16 A escolha para a retomada das observações de forma sistemática foi para os meses de março e abril, quando poderiam ser retomadas as opções de semanas típicas, pois já haveria terminado os programas e programações especiais de verão e carnaval, e estaria em curso o Campeonato Pernambucano de Futebol. O quarto momento desta pesquisa teve início com a composição de um quadro de amostragem referente ao universo a ser observado a programação semanal das 6 horas às 21 horas das emissoras de rádio captadas no Recife. Isso representa um total de 105 horas de conteúdo em cada uma das nove emissoras. Como os equipamentos de gravação de áudio solicitados às agências de fomento ainda não estavam à disposição deste Observatório da Mídia Regional, a opção metodológica da equipe foi a de construção de uma amostragem randomizada de um dia composto em uma semana típica. As nove emissoras foram numeradas de acordo com suas posições no dial e destinada uma hora de gravação diária em cada dia da semana, de forma que cada uma tivesse sete horas de programação gravada ao longo da semana 6. O quadro de gravação ficou assim disposto: Emissoras Domingo Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Sábado FM-1 16h-17h 18h-19h 20h-21h 6h-7h 8h-9h 10h-11h 12h-13h FM-2 17h-18h 20h-21h 7h-8h 9h-10h 11h-12h 13h-14h 15h-16h FM-3 16h-17h 18h-19h 20h-21h 6h-7h 8h-9h 10h-11h 12h-13h FM-4 17h-18h 20h-21h 7h-8h 9h-10h 11h-12h 13h-14h 15h-16h FM-5 16h-17h 18h-19h 20h-21h 6h-7h 8h-9h 10h-11h 12h-13h FM-6 17h-18h 20h-21h 7h-8h 9h-10h 11h-12h 13h-14h 15h-16h AM-1 17h-18h 20h-21h 7h-8h 9h-10h 11h-12h 13h-14h 15h-16h AM-2 16h-17h 18h-19h 20h-21h 6h-7h 8h-9h 10h-11h 12h-13h AM-3 17h-18h 20h-21h 7h-8h 9h-10h 11h-12h 13h-14h 15h-16h 6 Não entrou na distribuição o horário de 19h às 20h, destinado à Voz do Brasil. 15

17 CONCLUSÕES Após a compilação, minutagem, degravação e cruzamento dos conteúdos gravados foi possível elaborar um relatório referente às amostras de cada uma das programações observadas. Os dados que serão expostos a seguir representam informações já processadas. A apresentação das emissoras se dá pela posição que se encontram no dial. Na seqüência são apresentadas as agências de publicidade responsáveis pelas campanhas e as informações sobre os anunciantes. Emissoras responsáveis pela veiculação dos anúncios: Rádio JC CBN 90,3 FM A amostra coletada constatou a grande incidência de publicidade de bebidas com mais de 13º GL ao longo da programação semanal das 6 horas às 21 horas da Rádio JC CBN. Transpondo a amostragem para números absolutos, a emissora teria veiculado 40 minutos de anúncios em forma de spot, jingle e testemunhal da bebida da marca Pitú (cachaça com 40º GL) 7 ao longo da semana típica escolhida. Foi observado que a veiculação de publicidades desse gênero ocorrem durante os programas produzidos localmente pela CBN Recife (Sistema Jornal do Commercio), principalmente no Bate bola esportivo (11h às 12h) e no Futebol da CBN (transmissão de jogos dos campeonatos pernambucano, brasileiro e Copa do Brasil, com seqüência de comentários, debates e entrevistas por média de uma hora após o jogo. 7 A amostragem gravada nesta segunda observação registrou apenas a incidência da marca de cachaça Pitú, no entanto, no pré-teste e em outros momentos não contemplados na amostra randômica foi observada também veiculação de publicidades da vodka Bolvana (38º GL), do rum Montilla (40º GL), do conhaque Dreher (40º GL) e da cachaça Carvalheira (38º GL a 40º GL); esta última chegou a manter por alguns meses na rádio CBN uma série de programetes educativos de 1 40 com o título Momento da cachaça, veiculados diariamente às 14 horas. 16

18 Rádio Transamérica Recife 92,7 FM A amostra coletada constatou a maior incidência de publicidade de bebidas com mais de 13º GL ao longo da programação semanal das 6 horas às 21 horas da Rádio Transamérica. Transpondo a amostragem para números absolutos, a emissora teria veiculado 60 minutos e 30 segundos de anúncios em forma de spot, jingle e testemunhal das bebidas da marca Bolvana (vodka com 38º GL), Orloff (vodka com 38º GL) e Montilla (rum com 40º GL) ao longo da semana típica escolhida. Foi observado que a veiculação de publicidades desse gênero ocorrem durante os programas produzidos localmente pela Transamérica Recife, sobretudo nos programas Transamérica Futebol Clube (6h40 às 07h05), Debate bola (7h05 às 7h50), Comentário de Luiz Cavalcanti (7h50 às 8h), Jogo rápido Transamérica (11h30 às 11h50), Comentário de Léo Medrado (11h50 às 12h), Tá na Rede Transamérica (18h às 19h), Naftalina Transamérica (6h às 6h40) e Transa 3 (10h às 11h). Rádio Recife FM 97,5 FM A amostra coletada constatou uma baixa incidência de publicidade de bebidas com mais de 13º GL ao longo da programação semanal das 6 horas às 21 horas da Rádio Recife FM. Transpondo a amostragem para números absolutos, a emissora teria veiculado 1 minuto e 15 segundos de anúncios em forma de chamadas para o evento de 10 anos da rádio, com o patrocínio da Cachaça 51 (39º GL) ao longo da semana típica escolhida. Foi observado que a veiculação de publicidades desse gênero ocorreram ao longo da programação, sem a definição de um programa específico. 17

19 Rádio Clube FM 99,1 FM A amostra coletada constatou uma grande incidência de publicidade de bebidas com mais de 13º GL ao longo da programação semanal das 6 horas às 21 horas da Rádio Clube FM. Transpondo a amostragem para números absolutos, a emissora teria veiculado 60 minutos de anúncios em forma de spot, jingle e testemunhal das bebidas da marca Pitú (cachaça com 40º GL) ao longo da semana típica escolhida. Foi observado que a veiculação de publicidades desse gênero ocorrem durante os programas Deixa Rolar (10h às 11h), Forró bom demais (15h às 16h) e Qual é a sua (14h às 15h). Rádio 102 FM A amostra coletada constatou uma grande incidência de publicidade de bebidas com mais de 13º GL ao longo da programação semanal das 6 horas às 21 horas da Rádio 102 FM. Transpondo a amostragem para números absolutos, a emissora teria veiculado 28 minutos e 20 segundos de anúncios em forma de testemunhal e jingle da Pitú (cachaça com 40º GL) ao longo da semana típica escolhida. Foi observado que a veiculação de publicidades desse gênero ocorreram ao longo da programação e como patrocínio do Boletim de Turismo. Rádio 103 FM 103,1 FM A amostra coletada constatou uma quase nula incidência de publicidade de bebidas com mais de 13º GL ao longo da programação semanal das 6 horas às 21 horas da Rádio 103 FM. Transpondo a amostragem para números absolutos, a emissora teria veiculado 45 segundos de anúncios em forma apoio do rum Montilla (40º GL) ao longo da semana típica escolhida. No entanto, a publicidade é feita de forma indireta, pois um dos patrocinadores do programa As mais mais (13h às 14h) 18

20 é o serviço Disk entrega Pileque, este sim com apoio do rum Montilla e da cerveja Skol. Rádio Clube AM 720 AM A amostra coletada constatou uma grande incidência de publicidade de bebidas com mais de 13º GL ao longo da programação semanal das 6 horas às 21 horas da Rádio Clube AM. Transpondo a amostragem para números absolutos, a emissora teria veiculado 25 minutos de anúncios em forma de spot, jingle e testemunhal das bebidas da marca Cachaça 51 (40º GL) ao longo da semana típica escolhida. Foi observado que a veiculação de publicidades desse gênero ocorrem durante os programas Futebol da Rádio Clube (nos horários dos jogos dos campeonatos pernambucano, brasileiro e Copa do Brasil), A hora dos esportes (18h às 19h), De olho na cidade (6h às 7h) e Resenha esportiva Bola ao Centro e Bate Bola (13h às 14h). Rádio Jornal 780 AM A amostra coletada constatou uma grande incidência de publicidade de bebidas com mais de 13º GL ao longo da programação semanal das 6 horas às 21 horas da Rádio Jornal AM. Transpondo a amostragem para números absolutos, a emissora teria veiculado 59 minutos e 15 segundos de anúncios em forma de spot, jingle e testemunhal das bebidas das marcas Pitú (40º GL) e Bebidas D Ouro [linhas de quatro cachaças Aguardente de Cana Caninha D Ouro, Caninha D Ouro, Canhinha D Ouro 475 ml e Aguardente de Cana Aroma Limão D Ouro 485 ml com variação de 30º GL a 39º GL, Aperitivo de Raízes Amargas D Ouro (20º GL), Licor Fino de Menta D Ouro (23,8º GL), Vodka D Ouro (39º GL), Conhaque de Gengibre D Ouro (39º GL), Conhaque de Alcatrão D Ouro (38,5º GL) e Rum Cubbano D Ouro (38º GL)] ao longo da semana típica escolhida. 19

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