UM CONTADOR DE HISTÓRIAS NA SALA DE AULA: Repertório e Performance

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGÜÍSTICA UM CONTADOR DE HISTÓRIAS NA SALA DE AULA: Repertório e Performance BIANCA FARIAS DA SILVEIRA JOÃO PESSOA 2008

2 1 BIANCA FARIAS DA SILVEIRA UM CONTADOR DE HISTÓRIAS NA SALA DE AULA: Repertório e Performance Dissertação apresentada à Universidade Federal da Paraíba como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Lingüística. Orientadora: Profª. Drª Maria Claurênia Abreu de Andrade Silveira JOÃO PESSOA 2008

3 2 S587u Silveira, Bianca Farias da. Um contador de histórias na sala de aula: repertório e performance / Bianca Farias da Silveira. João Pessoa, p. Orientadora: Maria Claurênia Abreu de Andrade Silveira Dissertação (mestrado) UFPB/CCHLA 1. Narrativa oral. 2. Contador de Histórias. UFPB/BC CDU: 851.3(043)

4 BIANCA FARIAS DA SILVEIRA UM CONTADOR DE HISTÓRIAS NA SALA DE AULA: Repertório e Performance Dissertação aprovada em: / / Conceito/ Nota: BANCA EXAMINADORA Profª. Drª. Maria Claurênia Abreu de Andrade Silveira (Orientadora) Profª. Drª. Beliza Áurea de Arruda Mello Profª. Drª. Maria Lúcia da Silva Nunes Profª. Drª. Rosalina Maria Sales Chianca

5 3 DEDICATÓRIA A meus pais, que tem me incentivado, torcido pelo meu progresso pessoal e profissional. Com poucas palavras, onde a minha história começou. A Reginaldo, com quem tenho compartilhado momentos significativos e que tem colaborado em viabilizar projetos em minha história de vida. A meu sobrinho Gabriel, que nasceu para alegrar a nossa família e comprovar que existe um jeito novo de contar ou recontar uma história.

6 4 AGRADECIMENTOS À Profª. Drª. Maria Claurênia Abreu de Andrade Silveira, minha orientadora, por ter confiado em mim para realizar essa pesquisa e por suas orientações preciosas que permitiram que a mesma se concretizasse. À Profª. Drª. Beliza Áurea de Arruda Mello, por seu embasamento teórico e contribuições nos eventos promovidos pelo PROLING. À Profª. Drª. Rosalina Chianca, por sua amizade e contribuições para a minha formação acadêmica por meio da disciplina ministrada Sociolingüística Interacional. Ao Prof. Dr. Dermeval da Hora, coordenador do curso de Pós-Graduação em Lingüística e a secretária Veralúcia Lima, pelo apoio dado. À Maria Sonaly Lima, amiga de confissões que conquistei durante essa caminhada. A todos que fazem o Colégio Zepires, em especial os alunos do 5 ano do ensino fundamental, do ano letivo Sala de aula onde coletei o material que aqui apresento e analiso. A José Pereira da Silva, Seu Zé, pela amizade, paciência e esforço em dar o melhor de si para o sucesso desse estudo. Não posso deixar de dizer que a sua habilidade com as palavras supera a possibilidade de registrar integralmente a sua arte.

7 5 A sociedade precisa da voz de seus contadores independentemente das situações concretas que vive. Mais ainda: no incessante discurso que faz de si mesma, a sociedade precisa de todas as vozes portadoras de mensagens arrancadas à erosão do utilitário: do canto, tanto quanto da narrativa. Zumthor

8 6 RESUMO Essa pesquisa teve como objetivo geral demonstrar a viabilidade de inserir um contador tradicional de histórias, na sala de aula do 5 ano do ensino fundamental, do Colégio Zepires, em Bayeux-PB. Foram envolvidos diretamente no desenvolvimento da pesquisa, os alunos, que antes não apresentavam motivação para ler os textos trazidos nos livros e pareciam não conhecer os aspectos relevantes de sua cultura; a professora polivalente da sala, que não sabia mais como motivar o gosto dos alunos para a leitura e para a produção de textos; e um contador de histórias tradicional, morador da cidade de Bayeux, que teve um enorme prazer em apresentar parte do seu repertório e as suas performances na sala de aula, com o intuito de ensinar e divertir os alunos com as suas narrativas orais. Foram realizadas oito sessões de contação de histórias na sala de aula. O repertório de contos e as performances do contador durante as sessões constituíram o corpus do estudo realizado. Os textos orais apresentados foram classificados de acordo com o contador de histórias, Seu Zé, e com a proposta de Câmara Cascudo (1984) para o estudo do conto popular. Do repertório de contos apresentado pelo contador, cinco compuseram o corpus para análise fundamentada na Morfologia do conto proposta por Vladimir Propp (1983). As performances do contador também foram objeto de estudo, com base em Paul Zumthor (1993, 1997, 2000 e 2005) e Maria de Lourdes Patrini (2005). Buscou-se mostrar que inserir práticas de contação de histórias na sala de aula por meio de um contador da comunidade a qual pertencem os alunos é um caminho para motiválos ao hábito da leitura e da produção de textos, assim como, conhecer e valorizar a sua própria cultura. Palavras-chave: contador de histórias repertório performances sala de aula

9 7 RESUMEN Esta investigación tuvo como objetivo general demostrar la posibilidad de insertar un contador tradicional de cuentos, en una clase del 5 año del enseñanza básica, del Colégio Zepires, en Bayeux-PB. Fueron envolvidos directamente en el desarrollo de la investigación, los alumnos, que antes no presentaban motivación para leer los textos contenidos en los libros y parecían no conocer los aspectos relevantes de su cultura; la profesora polivalente de la clase, que no sabía más como motivar a los alumnos a leer y producir textos; y un contador de cuentos tradicionales, residente en la ciudad de Bayeux, que tuvo un enorme placer en presentar parte de su repertorio y su desempeño en la clase, con la intensión de enseñar y divertir a los alumnos con sus narrativas orales. Fueron realizadas ocho sesiones de narración de cuentos en la clase. El repertorio de cuentos y el desempeño del contador durante las sesiones constituyeron el corpus del estudio realizado. Los textos orales presentados fueron clasificados de acuerdo con el contador de cuentos, Seu Zé, y con la propuesta de Câmara Cascudo (1984) para el estudio del cuento popular. Del repertorio de cuentos presentado por el contador, cinco compusieron el corpus para análisis fundamentado en la Morfología del cuento propuesta por Vladimir Propp (1983). El desempeño del contador también fue objeto de estudio, con apoyo en Paul Zumthor (1993, 1997, 2000 e 2005) y Maria de Lourdes Patrini (2005). Se busca mostrar que insertar prácticas de narración de cuentos en la clase por medio de un contador de la comunidad a la cual pertenecen los alumnos es un camino para motivarlos al hábito de la lectura y de la producción de los textos, así como, conocer y valorar su propia cultura. Palabras-claves: contador de cuentos repertorio desempeño clase

10 8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...10 CAPÍTULO I O CONTADOR DE HISTÓRIAS E SUAS PERFORMANCES NA SALA DE AULA O ESPAÇO DE EFETIVAÇÃO DA PESQUISA: A CIDADE DE BAYEUX PB Contadores de histórias em Bayeux A possibilidade de um trabalho sistemático na sala de aula com a presença de um contador tradicional A CONCESSÃO DA ESCOLA PARA A REALIZAÇÃO DO PROJETO Breve histórico da escola contemplada com a pesquisa: Colégio Zepires A escolha da sala de aula O CONTADOR DE HISTÓRIAS: SEU ZÉ Atuação do contador como atividade lúdico-pedagógica na sala de aula As performances do contador na sala de aula NARRATIVAS ORAIS DO CONTADOR: MOTIVAÇÃO PARA A REALIZAÇÃO DE DIVERSAS ATIVIDADES NA SALA DE AULA Textos coletados pelos alunos na comunidade onde moram...45 CAPÍTULO II A CLASSIFICAÇÃO DOS CONTOS E O REPERTÓRIO DO CONTADOR NA SALA DE AULA CONTO POPULAR: UM TESTEMUNHO DE VÁRIAS VOZES CLASSIFICAÇÃO DOS CONTOS SEGUNDO CASCUDO CLASSIFICAÇÃO DOS CONTOS SEGUNDO O CONTADOR DE HISTÓRIAS QUADRO COMPARATIVO DA CLASSIFICAÇÃO DOS CONTOS O REPERTÓRIO DO CONTADOR NA SALA DE AULA Coletânea de Contos: um recorte do repertório de seu Zé...83 CAPÍTULO III ANÁLISE DOS CONTOS APRESENTADOS A ESTRUTURA DAS NARRATIVAS: CONTRIBUIÇÃO DE PROPP PARA O ESTUDO DO CONTO POPULAR...102

11 9 3.2 O CABRA TRABALHADOR A história Situação inicial da história Funções das personagens O contador e a história A MULHER QUE ENGANOU SATANÁS A história Situação inicial da história As funções das personagens O contador e a história O FÍGADO DE SATANÁS A história Situação inicial da história Funções das personagens O contador e a história A NEGRA FEITICEIRA A história Situação inicial da história Funções das personagens O contador e a história ANTÔNIO SILVINO E CAZUZINHA A história Situação inicial da história Funções das personagens O contador e a história CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS ANEXOS A Mapa: Localização da cidade de Bayeux na Paraíba B Hino de Bayeux C Ficha identificando os contadores de histórias da cidade D Convite aos contadores de histórias E Fotos: Alguns momentos vivenciados na aplicação do projeto

12 10 INTRODUÇÃO Dois fatores foram motivadores para o desenvolvimento da pesquisa sistematizada neste trabalho sobre o repertório e as performances de um contador de histórias na sala de aula do 5 ano do ensino fundamental: O primeiro foi ter ciência da falta de interesse da maioria dos alunos pelos textos contidos nos livros didáticos que, em boa parte, se distanciam da realidade deles e isso tem como conseqüência o não gostar de ler. E o segundo foi a não valorização da cultura local, por não terem sido trabalhados os seus valores cotidianamente na família e na escola. A pesquisa foi norteada pelos seguintes objetivos: Geral Demonstrar a viabilidade de inserir um contador tradicional de histórias na sala de aula do 5 o ano do ensino fundamental, do Colégio Zepires, em Bayeux PB. Específicos Identificar um contador de histórias na comunidade e criar um espaço, na sala de aula, para as suas performances. Registrar o repertório do contador, principalmente em situação de performance. Transcrever os textos orais do contador. Analisar as performances do contador enquanto conta. Estimular o desenvolvimento da oralidade das crianças e o surgimento de novos contadores a partir das apresentações em sala de aula. Nessa perspectiva, ao trazer para a sala de aula um contador de histórias, possibilitei aos alunos a familiarização com as narrativas orais que circulam na cidade onde moram; o respeito pela diversidade cultural e pela variação lingüística, ao utilizar os textos de um contador tradicional que compõe seu repertório de narrativas que hoje reconta, como faziam a maioria dos contadores de gerações passadas. Tomei como referência teórica estudos que contemplam discussões sobre a valorização da cultura oral e encontra nela um caminho de inserção na cultura letrada. Parti,

13 11 portanto, de situações em que fosse possível alternar um estilo monitorado e um estilo mais espontâneo da língua, reconhecendo que ambos têm o seu valor e que não existe uma forma certa ou errada de falar, mas, formas adequadas às mais diversas situações. Somei a isso, o respeito pelas diferenças regionais ou dialetais com as quais convivemos. No processo de desenvolvimento dessa pesquisa, a confiança da equipe técnica e pedagógica da escola, o envolvimento e a interação dos alunos e pais foram imprescindíveis. A mola propulsora que possibilitou o desenvolvimento desse estudo foi a colaboração de um contador de histórias, morador da cidade de Bayeux PB. O trabalho está dividido em três capítulos: O primeiro apresenta o espaço de efetivação da pesquisa, os caminhos percorridos para encontrar um contador de histórias que pudesse ir até a sala de aula realizar as suas apresentações, a concessão da escola para a realização do projeto, as características e as performances do contador de histórias encontrado e como os textos orais apresentados por ele foram explorados na sala de aula pela professora polivalente. No segundo capítulo encontra-se uma abordagem sobre o conto popular como um testemunho de várias vozes, seguida da classificação dos contos apresentados pelo contador, segundo Câmara Cascudo (1984) e o próprio contador de histórias. Enfoca-se também, parte do repertório de textos orais apresentados na sala de aula, pois não inclui as emboladas de coco, os forrós e as rezas que também fazem parte do repertório do contador. Apresenta-se uma coletânea de dezenove contos expostos em oito sessões de contações de histórias na sala de aula. O terceiro capítulo expõe a análise de cinco contos do repertório do contador de histórias na sala de aula, com base no estudo realizado por Propp (1983) sobre contos populares. Na análise de cada conto são apresentadas informações particulares referentes ao dia em que a história foi contada, à situação inicial presente nas histórias, às funções das personagens, às seqüências narrativas do conto e à relação do contador com a história contada. Os contos não foram escolhidos aleatoriamente, considerei a preferência do contador por essas histórias durante as performances. Estou certa de que este instrumento aqui apresentado será útil no apoio às discussões pertinentes ao incentivo à leitura nas instituições escolares e nas práticas de sala de aula, no que se refere a uma busca constante de novas fontes de conhecimento no processo ensinoaprendizagem.

14 12 Enfim, está exposto de forma objetiva, esclarecimentos acerca das vantagens de ter um contador de histórias na sala de aula, apresentando o seu repertório e encantando os presentes com as suas performances.

15 13 CAPÍTULO I O CONTADOR DE HISTÓRIAS E SUAS PERFORMANCES NA SALA DE AULA

16 O ESPAÇO DE EFETIVAÇÃO DA PESQUISA: A CIDADE DE BAYEUX PB Conforme os estudos realizados por Oliveira e Gomes (2006), o município de Bayeux era conhecido como Vila Barreiras em homenagem ao antigo engenho Barreiros, existente no bairro do Rio do Meio. No ano de 1944 foi denominado Bayeux em homenagem a uma cidade francesa que, invadida pelos alemães na segunda guerra mundial, foi a primeira cidade francesa libertada pelos aliados (países contrários à guerra). A Bayeux do Brasil foi denominada através da Lei n 454/44 e, para comemorar esse acontecimento histórico foi realizada uma grande festa na praça 06 de Junho, no dia 14 de Julho de Portanto, mesmo sendo a Lei assinada no dia 20 de Julho, comemora-se a denominação de Bayeux no dia 14 de Julho quando foi divulgado o fato. Oliveira e Gomes (2006, p.15) destacam: Nessa praça foi erguido um obelisco, encravado no alto de uma placa com a frase: Viva a França e na base foram colocados cinco quilos de areia trazida da França, tornando-se o marco símbolo de união entre a Bayeux brasileira e a Bayeux francesa. Quem indicou o nome de Bayeux para a antiga Vila Barreiras foi o jornalista Assis Chateaubriand. Em seguida o projeto foi aprovado e assinado pelo interventor da Paraíba, Rui Carneiro. Com a denominação de Bayeux, no ano de 1944, o povo começou a sonhar com a independência, ou seja, com a sua emancipação política, pois Bayeux ainda era distrito de Santa Rita. Mas isso só aconteceu após quinze anos, através do Decreto Lei n 2.148/59, vigorando a partir do dia 15 de Dezembro de Esta é a data oficial da emancipação política de Bayeux, portanto, a fundação da cidade, pois como já mencionamos antes era distrito. No que se refere aos limites de Bayeux posso dizer que eles fazem fronteira com João Pessoa (6 km) e Santa Rita (7 km). Ao norte limita-se com o rio Paraíba, por essa razão, as ilhas existentes depois do rio Paroeira pertencem a Bayeux. Ao sul limita-se com o rio Sanhauá que segue até o rio do Meio. Portanto, os limites do município de Bayeux são: ao norte e à oeste Santa Rita, ao sul e a leste, João Pessoa. Os bairros da cidade também possuem os seus limites, estes não são oficiais, são estabelecidos de acordo com a opinião dos moradores, que demarcam o espaço do bairro. Os historiadores da cidade, Oliveira e Gomes (2006, p. 19) confirmam: Os bairros de Bayeux também tem seus limites, não oficialmente, mas de acordo com as opiniões dos próprios moradores, passando de geração a geração, tornando-se conhecidos e aceitos.

17 15 Os treze bairros estão relacionados na seguinte ordem de ocupação: Baralho, São Bento, Centro, Rio do Meio, Brasília, Sesi, Imaculada, Conjunto Tambay, Alto da Boa Vista, Jardim Aeroporto, Jardim São Severino, Conjunto Mário Andreaza/ Mutirão e Jardim São Vicente. Em Bayeux, o clima predominante é o quente e úmido. A temperatura média fica entre 24 e 27 graus. As precipitações são muito elevadas, ficam em torno de 1800 mm anuais, em virtude da forte influência dos alísios do sudeste. Os ventos atingem uma velocidade média de 3,19 m/s durante o dia tornando esse lugar muito bem ventilado. No relevo da cidade predomina baixas altitudes. Há uma mistura dos baixos tabuleiros costeiros e planície flúvio-marinha. A maior área corresponde aos baixos platôs. Nesse município temos rios perenes, como por exemplo, rio Sanhauá, rio Paroeira, rio Paraíba, rio Correnteza, rio Buraco, rio Barreirinha, rio Tambay, rio Marés e rio do Meio. Sobre o rio Sanhauá, Oliveira e Gomes (2006, p.21) esclarecem: O rio Sanhauá é o único que possui duas nascentes em Bayeux, cujas nascentes ocorrem no açude do Xém-Xém e no açude Marés. É um rio extremamente urbano e também o mais poluído. Com relação ao trabalho na cidade, posso dizer que muitas pessoas trabalham nas indústrias, que estão concentradas na Avenida Liberdade e BR.101/230. Outras pessoas trabalham no comércio, que se concentra principalmente na Avenida Liberdade e rua Eng de Carvalho. A pesca também é muito importante e foi muito praticada em Bayeux, principalmente quando ainda era denominada Barreiras, vindo a diminuir com a poluição dos rios. Boa parte da população da cidade também trabalha nos órgãos públicos. Porém, a maioria da população ativa da cidade trabalha em João Pessoa, exercendo diversos tipos de atividades. De acordo com os historiadores Oliveira e Gomes (2006), o povo de Bayeux expressa-se em suas manifestações folclóricas, com a representação de vários folguedos populares. Tome-se como exemplo: cavalo-marinho, boi de Reis 1, nau 2 catarineta, 1 A título de esclarecimento achei viável definir alguns verbetes segundo Cascudo (1972): Boi-de-Reis. Bumba meu boi. Boi Calemba, Bumba (Recife), Boi-de-Reis, Boi Bumba (Maranhão, Pará e Amazonas), Três - pedaços, (Porto da Rua, Porto de Pedras) em Alagoas, Folguedo-do-Boi, [...] (p. 192). 2 Nau Catarineta. Xácara portuguesa de assunto marítimo, narrando uma travessia no Atlântico em circunstâncias trágicas. A identificação do barco e época do sinistro tem apaixonado pesquisadores e pertence ao aparato erudito. O motivo reaparece na literatura oral dos povos navegadores, França, Inglaterra, Espanha, nos episódios inevitáveis de calmaria, fome e desespero na solidão oceânica [...] (p. 609).

18 16 babau 3, lapinha 4, coco de roda, tribo indígena e quadrilha junina. A cultura também pode ser promovida por meio dos eventos cívicos, religiosos e populares. Exemplo de eventos cívicos: a festa da denominação de Bayeux, que acontece no dia quatorze de Julho; a festa da emancipação política, em quinze de Dezembro e o desfile cívico de sete de Setembro. Exemplos de eventos religiosos: a festa do padroeiro da cidade, que é São Sebastião, realizada no mês de Janeiro; a procissão de Nossa Senhora dos navegantes que acontece no dia dois de fevereiro, etc. Exemplos de eventos populares: caranga-fest, uma festa que acontece durante três dias do mês de Agosto, realizada no parque do caranguejo, situado por trás do prédio da prefeitura municipal da cidade; festival do fusca, que também acontece no mês de Agosto, com o desfile dos fuscas mais velhos, mais bonitos, mais enfeitados, mais originais, entre outros. O patrimônio histórico de Bayeux é representado por monumentos. Entre eles posso citar a ponte Sanhauá, com mais de um século de existência. Ela foi reedificada várias vezes, porque com o tempo, a madeira apodrecia e estragada não dava condições de tráfego. Foi uma das primeiras pontes do Brasil a cobrar pedágio sobre tudo que sobre ela passava, entre os anos de 1831 a Oliveira e Gomes (2006, p.11) dá outras informações sobre essa ponte: Construída de cimento armado em 1865, seis anos após a visita do Imperador D. Pedro II à Paraíba. Obra do Barão do Livramento da Província de Pernambuco e foi paga a quantia de cento e trinta contos de réis. O casarão, que serviu como ponto de compra e venda de escravos e a Colônia Getúlio Vargas, uma cidade edificada fora da sociedade para abrigar os portadores de hanseníase. Essa colônia que ficou conhecida como leprosário, foi fundada no dia 12 de Julho de 1941, pelo interventor da Paraíba Ruy Carneiro, com o apoio do Presidente da República Getúlio Vargas. Nessa época o Governo Federal objetivou edificar uma cidade fora da comunidade com um hospital para atender os portadores de hanseníase, doença que era considerada com um alto grau de proliferação, gerando preconceito na sociedade. Hoje em dia a Colônia funciona com poucos internos, variando entre vinte e vinte e cinco pessoas. A Secretaria da Educação e Cultura fica na Avenida Liberdade, Preocupa-se com o ensino, a disponibilização e viabilização do funcionamento das escolas, a formação e a capacitação de professores, além de incentivar e divulgar a cultura. 3 Babau. Nome popular do mamulengo, fantoche, na zona da mata em Pernambuco [...] (p. 122). Atualmente, o babau também é conhecido com teatro de bonecos. 4 Lapinha. Denominação popular do pastoril, com a diferença que era representada a série de pequeninos autos, diante do presépio, sem intercorrência de cenas alheias ao devocionário [...] (p. 505).

19 Contadores de histórias em Bayeux Não é difícil enumerar as situações do dia-a-dia onde vemos um contador em ação, pois ainda é comum vermos pessoas que nos surpreendem em rodas de conversas, na rua, na calçada com os vizinhos, na pausa do trabalho para o almoço ou cafezinho com histórias interessantes e que dizem ter acontecido com elas. Não dá para saber se aconteceu de verdade, mas é notório a emoção e a satisfação com que essas pessoas contam tais histórias. Normalmente os contadores costumam repetir as narrativas em situações distintas, às vezes, com palavras diferentes, porém com o mesmo sentido, a mesma satisfação e emoção de outrora. Eles são os famosos contadores de histórias. O tempo passa, as situações mudam, porém, as histórias parecem ser imortais. No entanto, guardadas na memória e repetidas - com algumas alterações durante séculos, por pessoas muito especiais, os contadores, como os equivalentes a trovadores medievais, e as contadoras, como mulheres do nordeste brasileiro, dedicadas a essa prática, tais textos são percebidos pelos sujeitos enunciatários - ouvintes simultaneamente como fábulas e como veredictórios, portadores de verdades gerais e universais. Têm também, também, esses textos um efeito de sentido de permanência, dizem da natureza humana e podem, por isso, ser considerados como representantes de formas de humanismo (PAIS, 2004, p.178). Os contadores de história têm uma real importância no processo de reconhecimento da formação cultural de um povo. A partir dos contos é possível perceber aspectos relacionados aos costumes, crenças, valores etc. Silveira (2004, p. 447) esclarece: [...] O contar de um povo revela os seus usos e costumes, o seu falar e o seu dizer, o cotidiano e a esperança de um devir, o que percebe como real e como produto da imaginação. A vida expõe-se no ato de contar. O conto é atualizado de acordo com os ouvintes que, como o narrador, participam da história contada no que ela tem de atual, no que ela expõe como inerente ao saber coletivo e do contador em particular. O contador de histórias sustenta a sua narrativa com os aspectos coletados no seu dia-a-dia, como por exemplo, um susto, uma viagem, uma reportagem, uma poesia lida, uma história que alguém lhe contou, tudo pode favorecer a uma boa história. O contador mostra uma capacidade de fazer de sua vida e das experiências do seu povo, instrumento para compor as suas histórias. Benjamim (1994, p.201), explica: O narrador retira da experiência o que ele conta; sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes.

20 18 A falta de oportunidade para expor esses textos pode levar ao esquecimento o acervo de histórias dos contadores, tornando inexeqüível a ação de contar. As mudanças nas preferências das pessoas no que se refere aos tipos de entretenimento contribuem para essa situação já que antigamente existia, em maior proporção, grupos fiéis de ouvintes, apreciadores dos contadores de histórias. Ao referir-se aos contadores envolvidos em sua pesquisa sobre o conto popular no âmbito de uma comunidade narrativa, Lima (1984, p. 71) disse que os informantes queixaram-se da impossibilidade de recordar todas as histórias que foram do seu domínio, por já não as contarem assiduamente, ao mesmo tempo que empreenderam um esforço de buscá-las de novo na memória [...] Com isso, entende-se que a falta de oportunidade para contar as histórias e o desgaste da memória dos contadores também corroboram para a perda do acervo de textos orais. [...] Revela-se a preocupação pelo rareamento das oportunidades de contar, pela diminuição do número de pessoas que detêm a capacidade de manejar com maestria um repertório crescente de textos orais, pelo desgaste da memória dos contadores tendo como conseqüência a perda do acervo oral (SILVEIRA, 2004, p. 447). As narrativas orais produzidas na cidade de Bayeux podem ser mais uma fonte de pesquisa para aperfeiçoar a leitura, a escrita e conhecer a cultura local. Ao levar um contador de histórias para a sala de aula, possibilita-se a valorização da nossa cultura e o estimulo ao aparecimento de novos contadores de histórias. Porém, as escolas insistem num currículo onde o saber popular não está contemplado. Os contos populares oferecem alternativas variadas de trabalho, com possibilidades de ampliar ou criar um repertório de narrativas orais, aumentando a percepção dos alunos para os textos orais que terão contato dentro ou fora da escola. Pensando em enriquecer as aulas da sala onde atuei como professora 5 até o final do primeiro bimestre, com a presença dos contadores de histórias da cidade, fiz um levantamento, juntamente com os alunos, para encontrar os contadores. Esse levantamento aconteceu por meio de um questionário escrito, que continha questões referentes ao conto e se 5 Atuei como professora da sala de aula envolvida na pesquisa até o final do primeiro bimestre, do ano letivo Dessa forma, acompanhei diretamente como ocorreu a investigação da existência dos contadores na cidade e os primeiros encontros com eles na sala de aula. Depois que o bimestre terminou eu sai dessa escola particular (Colégio Zepires), porém, a nova professora, Shirley, deu prosseguimento aos trabalhos com os contadores. Eu passei a acompanhar o desenvolvimento do projeto, na mesma sala de aula, apenas como pesquisadora, com um certo distanciamento, como exige uma pesquisa cientifica. A título de esclarecimento, todas as vezes que eu citar nesse trabalho expressões do tipo a professora ou a professora polivalente da sala, estarei referindo-me a educadora que me substituiu na sala de aula onde a pesquisa foi realizada.

21 19 eles conheciam alguém que gostava de contar histórias. Quando trouxeram essa pesquisa, pude observar quem conhecia as pessoas que contavam histórias. A grande maioria conhecia gente que contava histórias, porém elas diziam não ter disponibilidade para realizar a contação na escola, alegando falta de tempo, vergonha e timidez. Apoiada nas pesquisas feitas pelos alunos, fiz um convite para eles, mesmo que alguns não pudessem vir por algum motivo. Dos alunos que levaram os convites pouquíssimos trouxeram uma resposta satisfatória, ou seja, dizendo que poderiam ir a escola, marcando o dia e a hora. Dos 29 alunos existentes na sala, apenas 3 trouxeram os convites com as respostas almejadas, marcando dia e hora da vinda do contador para a escola. Mesmo assim insisti com eles todos os dias para que convencessem os contadores a vir até a escola. Percebi nos olhos e nas ações das crianças a vontade que tinham de trazer um contador para a sala de aula, mas isso fugia do seu alcance. Os alunos já compreendiam como seria bom a presença de um contador de histórias na sala de aula. As crianças conseguiram trazer para a escola três contadores: 1. Fernanda, que tinha dezessete anos, estudava o segundo ano do ensino médio na escola onde a pesquisa foi realizada, participava ativamente da catequese e do grupo de canto de uma igreja católica da cidade. Ela foi contar histórias na sala de aula apenas uma vez, das quinze e trinta às dezessete horas, de uma sextafeira, marcada com antecedência. Assim que ela chegou na sala, se apresentou para os alunos da seguinte forma: Não é que eu seja uma contadora de histórias, mas eu trabalho com crianças e o meu papel muitas vezes é ensinar a eles contando historiazinhas, que no final tem um sentido, uma lição de moral. Fernanda tinha um livro em mãos e leu três histórias para os alunos. A história do rei mandão, pegadas na areia e uma aventura de Pinochio. Durante a leitura, ela dava pequenas pausas para fazer algumas explicações da história, perguntava aos alunos coisas acontecidas nas narrativas e motivava-os a repetirem expressões marcantes ditas pelos personagens, como por exemplo, viva a Deus e mais ninguém. Ela concluiu a sua apresentação pedindo aos alunos que ficassem de pé e cantassem o hino, conhecido por eles, eu canto como o rei Davi. Os alunos a receberam com muito entusiasmo, prestaram atenção nas histórias e interagiram com ela na medida do possível, já que era uma novidade para eles.

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