MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL PROCURADORIA DA REPÚBLICA NO ESTADO DE SÃO PAULO

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1 EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ FEDERAL DA VARA DA SUBSEÇÃO JUDICIÁRIA DE SÃO PAULO O MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, pela Procuradora da República infra-assinada, com fundamento no art. 129, inc. II e inc. III da Constituição Federal e nos dispositivos pertinentes da Lei n.º 7.437/85 e Lei Complementar nº 75/93, vem ajuizar a presente AÇÃO CIVIL PÚBLICA em face da: ANATEL Agência Nacional de Telecomunicações, com sede na SAUS Quadra 6 Bloco H, Edifício Ministro Sérgio Motta, Brasília -DF. Pelos seguintes fundamentos de fato e de direito: 1

2 I DO OBJETO DA AÇÃO Pela presente ação, pretende o Ministério Público Federal que a ANATEL- Agência Nacional de Telecomunicações regule, no prazo de 60 (sessenta) dias, a utilização do serviço de mensagens curtas SMS, da plataforma celular, para comunicação de emergência à polícia militar (190) e ao corpo de bombeiros (193), beneficiando, desta forma, não somente as pessoas surdas ou com deficiência auditiva, mas toda a sociedade brasileira. II- DOS FATOS No curso do procedimento procedimento administrativo nº /2010, instaurado a partir da autuação do Anexo VI do procedimento nº / , verificou-se que os serviços de atendimentos emergenciais 190 (Polícia Militar - emergência policial ) e 193 (Corpo de Bombeiros Militar) da Polícia Militar em São Paulo não dispunham de equipamentos aptos a receber mensagens das pessoas surdas ou com deficiência auditiva e por conseguinte, elas tinham o seu direito à comunicação e à segurança violados, uma vez que não lhes era possível comunicar-se diretamente com os serviços de atendimento emergencial 190 e 193 (docs. 01, 02 e 03). Em face disso, vários ofícios foram expedidos e várias reuniões foram realizadas pelo Órgão Ministerial desde o ano de 2003, com o objetivo de garantir que as pessoas surdas ou com deficiência auditiva pudessem comunicar-se diretamente com os serviços de emergência 190 e

3 A Polícia Militar, em reunião realizada na Procuradoria da República em São Paulo, aos 29 de novembro de 2006, informou que tinha interesse em possibilitar o acesso das pessoas surdas ou com deficiência auditiva aos serviços emergenciais da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros Militar, por meio da criação de um projeto chamado de Contact Center, que previa várias formas de acesso, inclusive a possibilidade da pessoa digitar uma mensagem de texto por celular que seria recebida diretamente pelo atendente do centro de operações da Polícia (doc. 04). Posteriormente, a Polícia Militar afirmou que estava sendo implantado o Contact Center para atendimento a população em geral, inclusive à comunidade surda. No entanto, no tocante ao acesso direto por meio do Serviço de Mensagens Curtas, aos serviços de emergência 190 (polícia Militar) e ao 193 (Corpo de Bombeiros Militar), afirmou que havia dificuldade, já que a Anatel não regulamentou a questão, embora a Polícia Militar tivesse feito solicitação neste sentido, por diversas vezes, desde abril de 2008, conforme comprovam os documentos anexos (doc. 05 a 14) O Ministério Público Federal realizou reunião Procuradoria da República em São Paulo com o Gerente Regional da Anatel, Sr. Everaldo Gomes Ferreira, em 25 de março de 2010, que reafirmou as informações constantes em ofício enviado pela Anatel em maio de 2009, no sentido de que não há impedimentos de natureza técnica na utilização do Serviço de Mensagens Curtas SMS para comunicação de emergências a polícia militar e ao corpo de bombeiros, dependendo somente de decisão administrativa da Anatel: 3

4 Não vê óbice algum na implantação imediata da utilização do Serviço de Mensagens Curtas SMS para comunicação de emergência à polícia militar (190) e ao Corpo de Bombeiros (193). Que não há impedimento de natureza técnica (...). Que esse serviço poderia ser implantado imediatamente no Estado de São Paulo. (...)Que a caracterização do serviço como de utilidade pública depende somente de ato administrativo do Conselho da Anatel (...)Que não sabe precisar as razões da demora da regulamentação desse serviço, reconhecido como de extrema necessidade, não só para pessoas com deficiência auditiva, mas para a população em geral (doc. 15) (grifos nossos) Deste modo, necessário que a Anatel regule o acesso aos serviços emergenciais 190 e 193, por meio de SMS. Afinal, a comunicação para as autoridades públicas, por meio de SMS, de casos de emergência, com risco à integridade física e à vida do cidadão, não pode ficar a mercê da boa vontade da Anatel em regular esse serviço. III- DO DIREITO A Constituição Federal trata da dignidade da pessoa humana e da cidadania como fundamentos da República Federativa do Brasil (art. 1º, incisos II e III), e insere, como objetivos fundamentais desta República, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a promoção do bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (art. 2º, incisos I e IV). 4

5 Como desdobramento de seus objetivos e fundamentos e sensível ao fato de que as pessoas com deficiência necessitam de ações positivas da sociedade e do Estado para o pleno exercício dos direitos fundamentais, a Constituição Federal de 1988 apresenta diversos dispositivos relativos à inclusão social das pessoas com deficiência. A assinatura, pelo Brasil, em 30 de março de 2007, da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e de seu Protocolo Facultativo, corrobora para o vetor constitucional de promoção de ações visando a inclusão social das pessoas com deficiência. A convenção, que foi aprovada pelo Congresso Nacional, por meio do Decreto Legislativo nº 186, de 09 de julho de 2008, com força de emenda constitucional, segundo o disposto no art. 5º, 3º da Constituição Federal, estabelece, em seu art. 9º: Artigo 9 Acessibilidade 1. A fim de possibilitar às pessoas com deficiência viver de forma independente e participar plenamente de todos os aspectos da vida, os Estados Partes tomarão as medidas apropriadas para assegurar às pessoas com deficiência o acesso, em igualdade de oportunidades com as demais pessoas, ao meio físico, ao transporte, à informação e comunicação, inclusive aos sistemas e tecnologias da informação e comunicação, bem como a outros serviços e instalações abertos ao público ou de 5

6 uso público, tanto na zona urbana como rural. Essas medidas, que incluirão a identificação e a eliminação de obstáculos e barreiras à acessibilidade, serão aplicadas, entre outros a: ( ) b) Informações, comunicações e outros serviços, inclusive serviços eletrônicos e serviços de emergência; ( ) g) Promover o acesso de pessoas com deficiência a novos sistemas e tenologias da informação e comunicação, inclusive à Internet ( ) (grifos nossos) O art. 11 da referida Convenção estabelece que os Estados tomarão todas as medidas necessárias para assegurar a proteção e a segurança das pessoas com deficiência que se encontrarem em situações de risco: Situações de risco e emergências humanitárias. Em conformidade com suas obrigações decorrentes do direito internacional, inclusive do direito humanitário internacional e do direito internacional dos direitos humanos, os Estados Partes tomarão todas as medidas necessárias para assegurar a proteção e a segurança das pessoas com deficiência que se encontrarem em situações de risco, inclusive situações de conflito 6

7 armado, emergências humanitárias e ocorrências de desastres naturais. (grifos nossos) Além das normas constitucionais, existem diversas normas infra-constitucionais que foram editadas buscando a inclusão da pessoa com deficiência. Dentre tais normas, podemos citar a Lei nº 7.853/1989, que dispõe sobre o apoio às pessoas com deficiência, sua integração social e institui a tutela jurisdicional dessas pessoas; a Lei nº /2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas portadoras de deficiência, a Lei nº /2000; que estabelece normais gerais e critérios básicos para a promoção de acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida. A Lei nº 7.853/1989 estabelece, em seu artigo 2º que ao Poder Público e seus órgãos cabe assegurar às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, inclusive dos direitos à educação, à saúde, ao trabalho, ao lazer, à previdência social, ao amparo à infância e à maternidade, e de outros que, decorrentes da Constituição e das leis, propiciem seu bem-estar pessoal, social e econômico. E mais adiante, em seu art. 9º, estabelece que: A Administração Público Federal conferirá aos assuntos relativos às pessoas portadoras de deficiência tratamento prioritário e apropriado, para que lhes seja efetivamente ensejado o pleno exercício de seus direitos individuais e sociais, bem como sua completa integração social. A Lei nº /2000, também estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência, mediante a supressão de barreiras e de obstáculos, inclusive nos meios de comunicação. As barreiras nas comunicações são qualquer entrave ou obstáculo 7

8 que dificulte ou impossibilite a expressão ou recebimento de mensagens por intermédio dos meios ou sistemas de comunicação, sejam ou não de massa. A Anatel, agência reguladora integrante da Administração Pública Federal indireta, submetida a regime autárquico especial, nos termos da Lei nº 9.472, de 16 de julho de 1997, tem obrigação de expedição de normas quanto à outorga, prestação e fruição dos serviços de telecomunicações (art. 18, IV da Lei nº 9.472). Para que a Polícia Militar possa implantar o serviço no Estado de São Paulo, necessário que a Anatel discipline a utilização do serviço de mensagens curtas - SMS, tal como disciplina o acesso gratuito aos serviços de emergência por meio de discagem aos serviços de emergência, constantes no Regulamento do Serviço móvel Pessoal SMP, aprovado pela Resolução nº 477, de 07 de agosto de 2007, em seus artigos 19 e 116: Art. 19. A prestadora deve assegurar o acesso gratuito de todos os seus Usuários aos serviços públicos de emergência fixados em regulamentação editada pela Anatel. 1º A prestadora, em conjunto com as demais envolvidas na chamada, deve encaminhar as chamadas de emergência aos serviços públicos de emergência situados no local mais próximo da Estação rádio Base de origem da chamada. 2º A gratuidade se estende aos valores associados à condição de Usuário Visitante. 8

9 3º Não será devido qualquer tipo de remuneração às prestadoras envolvidas nas chamadas destinadas aos serviços públicos de emergência Art Até a emissão de regulamentação específica as prestadoras do SMP devem oferecer aos Usuários, na forma prevista no art. 19 deste Regulamento, acesso destinado aos seguintes serviços públicos de emergência: I- polícia militar e civil; II- corpo de bombeiros; ( ) Deste modo, impõe-se a condenação da ANATEL em regular, no prazo de 60 (sessenta) dias, a utilização do serviço de mensagens curtas SMS da plataforma celular para comunicação de emergência à polícia militar (190) e ao corpo de bombeiros (193). IV DOS PEDIDOS 1. DA TUTELA ANTECIPADA Estão presentes os requisitos necessários ao deferimento da tutela antecipada, nos termos do art. 273 do Código de Processo Civil. A prova inequívoca da verossimilhança do direito alegado é evidente no caso em tela, tendo em vista todos os argumentos de fato e de direito expostos ao longo da peça vestibular demonstram que a omissão na regulamentação 9

10 da utilização do Serviço de Mensagens Curtas SMS da plataforma celular aos serviços emergenciais 190 e 193, traz prejuízo não somente aos direitos das pessoas surdas ou com deficiência auditiva, mas a toda a sociedade. O dano irreparável ou de difícil reparação, por sua vez, se evidencia diante do fato de que a cada dia inúmeros cidadãos não podem comunicar situações de emergência, por meio do envio do serviço de mensagens curtas SMS aos serviços emergenciais 190 e 193, com risco inclusive à sua vida e à sua integridade física, Dessa forma, requer o Ministério Público Federal seja concedida a antecipação dos efeitos pretendidos no pedido principal, com o objetivo de determinar à ANATEL que regule, no prazo de 60 (sessenta) dias, a utilização do serviço de mensagens curtas da plataforma celular para comunicação de emergência à polícia militar (190) e ao corpo de bombeiros (193). Requer, outrossim, concedida a tutela antecipada, seja estipulada multa diária em caso de descumprimento da ordem judicial, no valor de R$ ,00 (vinte mil reais), a ser revertida ao Fundo Nacional de Direitos Difusos. E, para que dê cumprimento, pede seja intimado do teor da decisão, por fax e por precatória, o Ilustríssimo Senhor Presidente da Anatel, sob pena de responsabilização penal e por improbidade administrativa. 2- DO PEDIDO FINAL Excelência: Ante o exposto, requer o Ministério Público Federal a Vossa 10

11 1) A citação da ré para apresentar contestação; 2) a confirmação da tutela antecipada, condenando a ANATEL em obrigação de fazer, consistente em regular, no prazo de 60 (sessenta) dias, a utilização do Serviço de Mensagens Curtas SMS da plataforma celular, para comunicação aos serviços emergenciais 190 (emergência policial) e 193 (corpo de bombeiros). Embora já tenha apresentado prova pré-constituída do alegado, protesta o Ministério Público Federal pela produção de outros meios de prova admitidos em direito. Dá-se à causa, conforme disposto no art. 258 do C.P.C., o valor de R$ ,00. São Paulo, 03 de maio de Adriana da Silva Fernandes PROCURADORA DA REPÚBLICA 11

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