UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS CONTÁBEIS EDUARDO RODRIGUES DOS SANTOS

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS CONTÁBEIS EDUARDO RODRIGUES DOS SANTOS BALANÇO SOCIAL: UMA ANÁLISE DA EMPREGABILIDADE DE AFRODESCENDENTES NAS ENTIDADES DO SETOR FINANCEIRO NO PERÍODO DE 2001 À 2006 VITÓRIA 2008

2 EDUARDO RODRIGUES DOS SANTOS BALANÇO SOCIAL: UMA ANÁLISE DA EMPREGABILIDADE DE AFRODESCENDENTES NAS ENTIDADES DO SETOR FINANCEIRO NO PERÍODO DE 2001 À 2006 Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Ciências Contábeis do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do Grau de Bacharel em Ciências Contábeis. Orientador: Prof. MSc Fernando J. Arrigoni VITÓRIA 2008

3 EDUARDO RODRIGUES DOS SANTOS BALANÇO SOCIAL: UMA ANÁLISE DA EMPREGABILIDADE DE AFRODESCENDENTES NAS ENTIDADES DO SETOR FINANCEIRO NO PERÍODO DE 2001 À 2006 Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Ciências Contábeis do Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas da Universidade Federal do Espírito Santo, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Ciências Contábeis. Aprovado em 20/11/2008. COMISSÃO EXAMINADORA Prof. MSc Fernando J. Arrigoni Universidade Federal do Espírito Santo Orientador Prof. Claudio S. Salim Universidade Federal do Espírito Santo Prof. MSc Fernando N. Zatta Universidade Federal do Espírito Santo

4 É simplesmente inimaginável. Pela primeira vez um negro colocado numa posição de poder real e por um longo tempo. Joaquim Barbosa, Ministro do Supremo Tribunal Federal, negro, que foi ao EUA acompanhar a eleição de Barack Obama para presidente.

5 RESUMO Balanço Social: uma análise da empregabilidade de afrodescendentes nas entidades do setor financeiro tem como objetivo verificar a participação das pessoas negras no mercado de trabalho, em especial nas instituições financeiras sediadas no Brasil. É cada vez mais corrente a discussão sobre o papel das entidades como agentes sociais no processo de desenvolvimento, onde a responsabilidade social tem levado as empresas a buscarem formas de trabalhar, objetivando evidenciar informações que demonstrem seu comprometimento com a sociedade. Porém, ainda não existe uma padronização para que elas possam evidenciar essas informações e nem mesmo uma legislação que as obriguem a publicá-las. A contabilidade, sendo uma ciência social, apresenta uma ferramenta que as empresas tem utilizado para evidenciar essas informações, que são os Balanços Sociais, criados para tornar público a responsabilidade social e ambiental das organizações e seu grau de comprometimento com a sociedade, por meio deles, busca-se evidenciar informações sócio-ambientais sobre as atitudes das empresas. A presente pesquisa, através da análise dos Balanços Socias dos bancos - Banco do Brasil, Banrisul, Bradesco, Itaú, Santander e Unibanco, no período de 2001 a analisou a empregabilidade de afrodescendentes nas entidades do setor financeiro, bem como os cargos de chefia ocupados pelos mesmos, utilizando-se das informações disponibilizadas no Balanço Social - modelo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e nos sítios eletrônicos das próprias empresas, para tanto utilizou-se da pesquisa bibliográfica, descritiva e documental. Palavras-chave: Bancos. Balanço Social. Negros. Responsabilidade Social.

6 LISTA DE TABELAS Tabela 1 Base de Cálculo Tabela 2 Indicadores Sociais Internos Tabela 3 Indicadores Sociais Externos Tabela 4 Indicadores Ambientais Tabela 5 Indicadores do Corpo Funcional Tabela 6 Receita Líquida (em mil R$) apurada de 2001 a Tabela 7 Número de empregados no período de 2001 a

7 AGRIMER Banco Agrícola Mercantil LISTA DE SIGLAS BADESUL Banco de Desenvolvimento do Rio Grande do Sul BANRISUL Banco do Estado do Rio Grande do Sul BOVESPA Bolsa de Valores de São Paulo BS - Balanço Social CEF Caixa Econômica Federal DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos FEBRABAN Federação Brasileira de Bancos FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Serviço GRI - Global Reporting Initiative GTI População Negra - Grupo de Trabalho Interministerial de Valorização da População Negra IBASE - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INSS Instituto Nacional do Seguro Social IPEA - Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicada MEC Ministério da Educação e Cultura MinC Ministério da Cultura MJ Ministério da Justiça MRE Ministério das Relações Exteriores MTE - Ministério do Trabalho e Emprego NYSE Bolsa de Valores de Nova York OIT - Organização Internacional de Trabalho PNAD - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNDH - Programa Nacional de Direitos Humanos UBB União dos Bancos Brasileiros S.A UNIBANCO União de Bancos Brasileiros S.A

8 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 1 - Balanços Sociais por ano de publicação Gráfico 2 - Total de pessoas empregadas por ano de publicação Gráfico 3 - Empresas que divulgaram o número de negros(as) em (%) Gráfico 4 - Empresas que divulgaram o % de cargos chefiados por negros(as) Gráfico 5 - Empresas que divulgam o número de pessoas com deficiência (em %) Gráfico 6 - Empresas que divulgaram o número de pessoas acima de 45 anos (em %) Gráfico 7 - Total de agências no Brasil Gráfico 8 - Total de Empregados X n de negros empregados Banco do Brasil.. 48 Gráfico 9 - Total de Empregados X n de negros empregados Banrisul Gráfico 10 - Total de Empregados X n de negros empregados Bradesco Gráfico 11 - Total de Empregados X n de negros empregados Itaú Gráfico 12 - Total de Empregados X n de negros empregados Santander Gráfico 13 - Total de Empregados X n de negros empregados Unibanco Gráfico 14 - Relação de Cargos de chefia ocupados por negros... 53

9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO CONTEXTUALIZAÇÃO PROBLEMA OBJETIVOS Geral Específico JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA DO TEMA METODOLOGIA LIMITAÇÕES DA PESQUISA 18 2 REVISÃO DA LITERATURA RESPONSABILIDADE SOCIAL BALANÇO SOCIAL Conceito Modelos de Balanço Social O BALANÇO SOCIAL DO IBASE Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas Modelo de Balanço Social/Ibase CONTEXTUALIZAÇÃO DA HISTÓRIA DOS NEGROS NO BRASIL Histórico das Desigualdades Raciais Situação do Negro no Brasil Racismo, Preconceito e Discriminação Racial Ação Afirmativa Ações Públicas Realizadas no Âmbito Federal O Negro no Mercado de Trabalho Negros em destaque no mercado de trabalho 41 3 ANÁLISE DAS INSTITUIÇÕES BANCÁRIAS BREVE HISTÓRICO DOS BANCOS Banco do Brasil Banrisul Bradesco 45

10 3.1.4 Itaú Santander Unibanco A EMPREGABILIDADE DOS NEGROS NO SETOR BANCÁRIO RESULTADOS DA PESQUISA 54 4 CONCLUSÃO 57 5 REFERÊNCIAS 59 ANEXOS 62 ANEXO A Modelo de Balanço Social / Ibase 62 APÊNDICE 63 APÊNDICE A Dados extraídos dos Balanços Sociais dos bancos pesquisados 63

11 11 1 INTRODUÇÃO 1.1 CONTEXTUALIZAÇÃO A Contabilidade, segundo Iudícibus e Marion (apud Beuren, 2006, p. 28) é uma Ciência Social, ainda que ela utilize métodos quantitativos como sua principal ferramenta, e como tal, busca apresentar para a sociedade, além das informações econômico-financeiras solicitadas pelos seus diversos usuários, as transformações que nela ocorrem ao longo dos anos. Logo, observa-se que a história da Contabilidade vem sendo escrita por estudiosos na medida em que se desenvolve a civilização humana. Para Sá a contabilidade nasceu com a civilização e jamais deixará de existir em decorrência dela; talvez, por isso, seus progressos quase sempre tenham coincidido com aqueles que caracterizaram os da própria evolução do ser humano (SÁ, 1997, p. 15). Essa ciência, por ser social, acompanha a evolução da humanidade, buscando suprir as necessidades informacionais dos usuários cada vez mais exigentes, que buscam informações das empresas que possuem compromissos sociais. Os modelos utilizados para uma adequada administração, não são os mesmos que de uma à duas décadas passadas, período onde teve início um movimento de valorização da responsabilidade social das entidades. Referindo-se a responsabilidade social D Ambrosio e Mello (2006, p. 15) a define como uma decisão da entidade em [...] participar mais diretamente das ações comunitárias na região em que se pretende e minorar possíveis danos ambientais decorrente do tipo de atividade que exerce. Nesse contexto, o Balanço Social (BS) apresenta-se como um instrumento valioso para medir o desempenho do exercício da responsabilidade social em seus empreendimentos, reunindo informações sobre as atividades desenvolvidas, em promoção humana e social, dirigidas a seus empregados e à comunidade onde a empresa está inserida (SILVA e FREIRE, 2001, p. 124).

12 12 O Balanço Social beneficia os grupos que interagem com a empresa (stakeholders), e acerca de alguns desses beneficiários, Silva e Freire (2001, p. 126) afirmam que beneficia os seguintes grupos: Dirigentes: a esses usuários o Balanço Social fornece informações úteis à tomada de decisão, com relação aos programas sociais que a empresa esteja ou venha a desenvolver; Trabalhadores: para eles, o Balanço Social dá a possibilidade de que seus anseios sejam percebidos pela empresa de maneira sistematizada e quantificada. Os autores afirmam que indicadores do Balanço Social estimulam a participação voluntária do empregado na escolha dos programas sociais da empresa, o que acarreta um grau mais elevado de integração nas relações entre dirigentes e empregados; Fornecedores/Investidores: Informa como a empresa trata suas responsabilidades com relação aos seus recursos humanos, indicando de forma adequada como a empresa é administrada; Consumidores: Fornece uma ideia da mentalidade dos dirigentes da companhia, o que pode ser associado à qualidade do produto ou serviço oferecido; e Estado: o Balanço Social apresenta subsídios para a elaboração de normas legais que auxiliem na regulamentação da atividade da organização com vista ao bem-estar individual e da comunidade. Dentre os benefícios criados pela implantação do Balanço Social, Tenório (2004, p. 39) destaca: a identificação do grau de comprometimento social da empresa com a sociedade, os empregados e o meio ambiente; a evidenciação, por meio de indicadores, das contribuições à qualidade de vida da sociedade; e a avaliação da administração diante dos resultados sociais e não somente financeiros. Deste modo, utilizando-se principalmente desta ferramenta da Contabilidade que é o Balanço Social, este estudo apresenta uma análise da empregabilidade de afrodescendentes, também definidos como negros - população autodeclarada de cor preta ou parda, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de

13 13 Domicílios (PNAD) de 2007, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - nas entidades do setor financeiro por meio da verificação dos indicadores laborais apresentados pelos Balanços Sociais das respectivas entidades, publicadas pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), com a finalidade de oferecer informações relevantes para investidores e para a sociedade em geral quanto à proteção e ao estímulo do trabalho dos afrodescendentes (negros). Esta pesquisa está fundamentada em informações do banco de dados do Ibase, literatura nacional, informações constantes do Balanço Social das empresas, em uma abordagem descritiva e comparativa. Os resultados permitirão avaliar qual a evolução da empregabilidade dos negros nas empresas do setor financeiro, em especial nas instituições bancárias, que são o foco deste trabalho. Tentará evidenciar se as empresas possuem equilíbrio de cor/raça na ocupação de determinados cargos e qual a relação dessa mão-de-obra com os negros em cargos de chefia. 1.2 PROBLEMA O Brasil possui uma população de aproximadamente 187 milhões de pessoas, sendo 49,70% de cor/raça branca, 49,50% de cor/raça negra (preta ou parda) e 0,8% de cor/raça amarela ou indígena (IBGE, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAD, 2007). Contudo, apesar de se verificar quase a mesma proporcionalidade em números de habitantes entre brancos e negros, percebe-se que a quantidade destes em relação àqueles no mercado de trabalho, em alguns setores, é muito baixa. Verifica-se que há uma dificuldade de inserção do negro no mercado de trabalho e sua ascensão em áreas de maior remuneração. Segundo Jaccoud (2002) várias são as atitudes que acabam dificultando a inserção do negro em setores que exigem uma qualificação maior, como a exigência de boa aparência, a ocupação de cargos inferiores, a remuneração diferenciada do branco com relação ao negro em uma mesma função, a dificuldade de acesso à educação. Diante da realidade que é apresentada pelo mercado, o presente trabalho propõe o seguinte problema de pesquisa: qual tem sido o

14 14 percentual de participação dos negros em relação ao total da força de trabalho nas instituições bancárias ao longo dos anos de 2001 a 2006? A porcentagem de cargos chefiados por negros tem aumentado ou diminuído nas empresas pesquisadas? O quantitativo de negros que ocupam cargos de chefia acompanha a evolução da quantidade de negros empregados no período de 2001 a 2006? 1.3 OBJETIVOS Geral A implementação de dispositivos regulatórios e de políticas específicas para os negros significa, até certo ponto, uma intervenção na desigualdade de acesso ao trabalho. O conceito de desigualdade está associado às questões de classe, de gênero e de raça. Denota as posições dos indivíduos de uma sociedade com relação aos meios de produção, o valor diferente dado a esses indivíduos de acordo com seu sexo e características físicas diferentes ou a cor de sua pele (REVISTA PROPOSTA, 1998, p. 65). O objetivo desta pesquisa é identificar como a especificidade de raça se reflete no mercado de trabalho, no período de 2001 a 2006, com foco nas entidades bancárias, a partir de dados dos balanços sociais disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e nos sítios eletrônicos das próprias empresas, visando apresentar o percentual de participação dos negros em relação ao total da força de trabalho nas instituições bancárias, no período de 2001 a 2006, demonstrando ainda se ao longo desse período constata-se diferenças entre a participação do negro no total de mão-de-obra com os cargos de chefia ofertados pelos bancos Específico Os objetivos específicos que serão percorridos para alcançar o objetivo geral serão os seguintes:

15 15 o Contextualização da história do negro no Brasil; o Inserção do negro no mercado de trabalho; o Conceituação de Balanço Social; o Detalhamento do modelo Ibase de Balanço Social; o Confecção de planilha com os dados extraídos dos referidos balanços sociais; o Comparação dos dados anuais sobre o corpo funcional das entidades e verificar a evolução destes dados. 1.4 JUSTIFICATIVA E RELEVÂNCIA DO TEMA As desigualdades sociais apresentadas em todos os indicadores analisados pelo IBGE, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios PNAD, no ano de 2007, referente aos dados coletados em 2006, demonstram a exclusão à qual homens e mulheres, identificados como negros ou pardos, são submetidos ao longo do percurso de suas vidas. Ressalta-se que dois indicadores sociais apresentam maior relevância quando se compara a exclusão dessas pessoas: a educação e a participação econômica (PNAD, 2007). Ibase afirma que Em recente publicação contemplando os 10 anos do Balanço Social, o apesar de todo o discurso pela igualdade de direitos e oportunidades, os dados apresentados nos mostram a discriminação que ainda persiste na sociedade brasileira e que se reflete, de múltiplas maneiras, em veladas práticas discriminatórias no mundo do trabalho (IBASE, 2008, p. 50). Como comportamento associado a estas desigualdades, os rendimentos médios percebidos por negros se apresentam menores que os dos brancos. Os procedimentos de elaboração, análise e divulgação do Balanço Social vêm sendo cada vez mais adotados pelas entidades interessadas em demonstrar para seus usuários, que além das suas metas de lucratividade e rentabilidade, elas se preocupam com a responsabilidade social e com os impactos da sua atuação na sociedade que as acolhe (SILVA e FREIRE, 2001, p ).

16 16 Segundo o comentário de um analista de mercado (IBASE, 2008, p. 50), atualmente todas as pessoas ao analisarem ou indicarem uma empresa, avaliam o seu Balanço Social e ele destaca ainda que o modelo Ibase facilita bastante essa análise. Observa-se que muitas empresas já concluíram aquilo que parece óbvio, que o seu desenvolvimento e crescimento a longo prazo estão diretamente relacionados ao desenvolvimento e crescimento dos seus empregados, dos seus clientes, dos seus fornecedores e da melhoria da qualidade de vida da sociedade em geral. Ao elaborar o Balanço Social, a organização demonstra para seus usuários e colaboradores, qualitativa e quantitativamente, a sua forma de atuação social, seja na comunidade em geral (indicadores externos), nas relações com o meio ambiente ou em seu corpo funcional (indicadores internos). Destarte, este trabalho pretende utilizar esta ferramenta como instrumento na obtenção de dados nesse campo de pesquisa contábil, mostrando que além de prestar informações econômicas, financeiras e gerenciais, a contabilidade por ser uma ciência social, também trabalha em temas envolvendo a socidade como um todo. Tendo como base principalmente dados estatísticos e os balanços sociais das entidades bancárias, capta-se informações de suma importância para o levantamento de questões que ajudarão na compreensão do processo que exclui o negro de determinadas áreas em que pessoas de raça branca predominam. Em uma sociedade capitalista, em que as desigualdades sociais se destacam, a reprodução da discriminação impede a ascensão social do negro, pois ele recebe salários inferiores aos recebidos pelo branco, realizando trabalhos menos qualificados. Devido ao preconceito, a mão-de-obra negra é direcionada para trabalhos domésticos e pesados. A sua cor é fator determinante, sobrepondo-se à qualificação profissional, indicando, com isso, que no mercado de trabalho brasileiro, independente de qualquer outra qualidade, ser branco representa, por si só, uma vantagem na disputa por um espaço (Fundação Cultural Palmares, 2005, p. 18).

17 17 Este trabalho se justifica pela relevância do tema do negro e sua inclusão no mercado de trabalho, delimitando como área a ser pesquisa às instituições do setor financeiro. 1.5 METODOLOGIA A metodologia utilizada para a realização do presente trabalho é a pesquisa bibliográfica, documental e descritiva. Para Cervo e Bervian (1983, p. 55) a pesquisa bibliográfica explica um problema a partir de referenciais teóricos publicados em documentos. Pode ser realizada independentemente ou como parte da pesquisa descritiva ou experimental. Ambos os casos buscam conhecer e analisar as contribuições culturais ou científicas do passado existentes sobre um determinado assunto, tema ou problema. A pesquisa documental, devido as suas características, pode chegar a ser confundida com a bibliográfica (BEUREN, 2006, p. 89). Gil (1999) explica que a principal diferença entre esses tipos de pesquisa é a natureza das fontes de ambas. Enquanto a pesquisa bibliográfica é desenvolvida mediante material já elaborado, principalmente livros e artigos científicos, a documental baseia-se em materiais que ainda não receberam um tratamento analítico ou que podem ser reelaborados de acordo com os objetivos que se quer alcançar. Parte das informações coletadas no portal do Ibase, bem como documentos divulgados pelas empresas entre 2001 e 2006 será a base de estudos. Essa opção está fundamentada na perspectiva de Severino o que pesquisar na internet? Como se trata de uma enorme rede, com um excessivo volume de informações, sobre todos os domínios e assuntos, é preciso saber garimpar, sobretudo dirigindo-se a endereços certos (SEVERINO, 2001, p. 138). Dessa forma o estudo elege o Ibase, premissa inicial, como fonte de informações corretas e completas das empresas do mercado financeiro brasileiro. Já a pesquisa descritiva, na concepção de Gil (1999), tem como principal objetivo mostrar as características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relacionamento entre as variáveis. Ainda sobre este tipo de

18 18 pesquisa, destaca-se que ela se interessa em observar fatos, registrá-los, analisálos, classificá-los e interpretá-los, sem a interferência do pesquisador. Isto posto, o trabalho se utilizará da metodologia bibliográfica para embasar a revisão de literatura, visando explicitar o conceito de Responsabilidade Social, apresentar o Balanço Social com seus conceitos e modelos, destacando o modelo do Ibase. Apresentar uma contextualização da história dos negros no Brasil, bem como uma análise das instituições bancárias. As metodologias documental e descritiva serão utilizadas para apresentar as características das entidades bancárias e a empregabilidade dos negros nestas instituições (descritiva). A documental constituir-se-a de selecionar os Balanços Sociais destas entidades, por meio do portal eletrônico do Ibase ou dos bancos, planilhar os dados relevantes para a presente pesquisa, confeccionar os gráficos destes dados e analisá-los, visando satisfazer a problemática deste trabalho. 1.6 LIMITAÇÕES DA PESQUISA A presente pesquisa restringiu seu campo de investigação a uma amostra aleatória simples de empresas do setor financeiro. Isto posto, se faz necessária a utilização de maior quantidade de empresas e maior horizonte temporal para ensejar um quadro mais generalizável da participação das pessoas negras no setor bancário e na economia brasileira. Quadro este que não foi possível alcançar, devido a falta de publicação do Balanço Social pela maioria dos bancos, logo, os resultados apresentados são válidos somente para a amostra pesquisada. 2 REVISÃO DA LITERATURA Esta seção apresenta visões sobre a responsabilidade social, o Balanço Social e a situação dos negros no Brasil, fundamentais para a caracterização do problema dos afrodescendentes no mercado de trabalho.

19 RESPONSABILIDADE SOCIAL A ideia da responsabilidade social tem contagiado as empresas nos últimos anos, porque tem se observado uma ascensão no número de organizações que estão apresentando o Balanço Social por livre iniciativa. Uma das razões é a necessidade do setor privado de se aproximar dos clientes e consequentemente da comunidade local e, um dos caminhos para isso é apontar o que cada um pode fazer pelo social. Esse é um assunto que tem ganhado cada vez mais espaço, e tem no Balanço Social o principal instrumento de transparência e prestação de contas das práticas dos gestores na governança dos negócios. Diante disso, tem-se então que a Responsabilidade Social Corporativa não está situada apenas no âmbito da caridade ou da filantropia, tradicionalmente praticada pela iniciativa privada. Seu conceito está muito mais próximo das estratégias de sustentabilidade de longo prazo das empresas que, em sua lógica de performance e lucros, passam a incluir a necessária preocupação com os efeitos das atividades desenvolvidas e o objetivo de proporcionar bem estar para a sociedade. [...] Na visão de governança corporativa exclusivamente direcionada para a performance financeira, o exercício da responsabilidade social pode ser entendido, à primeira vista, como um custo adicional para as empresas, seus sócios e acionistas, pois são recursos que de outra maneira estariam sendo reinvestidos ou distribuídos sob forma de lucros e dividendos [...] (COSTA, 2000, p. 6). Logo, compreende-se a responsabilidade social como um compromisso da empresa para com a sociedade na busca da melhoria da qualidade de vida, agindo de modo a respeitar os interesses da população, preservando, inclusive, o meio ambiente e satisfazendo às exigências legais. 2.2 BALANÇO SOCIAL Conceito A Contabilidade, enquanto ciência que estuda a situação patrimonial e o desempenho econômico-financeiro das entidades, também possui os instrumentos

20 20 necessários para contribuir para a identificação do nível de responsabilidade social dos agentes econômicos. Estes instrumentos se traduzem no Balanço Social. Torres (2007, p. 21) conceitua Balanço Social como sendo: [...] um demonstrativo publicado anualmente pela empresa reunindo um conjunto de informações sobre os projetos, benefícios e ações sociais dirigidas aos empregados, investidores, analistas de mercado, acionistas e à comunidade. É também um instrumento estratégico para avaliar e multiplicar o exercício da responsabilidade social corporativa. Já Kroetz (2000, p. 36) afirma que o Balanço Social representa a demonstração dos gastos e das influências (favoráveis e desfavoráveis) recebidas e transmitidas pelas entidades na promoção humana, social e ecológica, sendo que os efeitos dessa interação se dirigem aos gestores, aos empregados e à comunidade, no espaço temporal passado/presente/futuro, tornando-se parte integrante da Contabilidade Social, configurando-se uma demonstração para a sociedade, e não da sociedade. Isto posto, verifica-se que diferentemente do balanço patrimonial e outros relatórios que evidenciam a posição financeira e patrimonial da entidade em um dado momento, a Contabilidade tem no Balanço Social uma ferramenta que presta as informações econômicas, sociais e ambientais, demonstrando o que a instituição produz de riqueza para terceiros. O Balanço Social é um instrumento fundamental para o disclosure e análise da responsabilidade social das empresas. Carvalho (1990, p. 62) afirma que o Balanço Social como uma ferramenta de gestão [...] constitui um instrumento de controle de tomada de decisões, de grande utilidade para a direção da empresa, permitindo melhorar o ambiente interno e clarificar alguns objetivos a médio prazo [...]. Vale destacar, o pronunciamento do sociólogo Hebert de Souza, o Betinho, um dos grandes precursores do Balanço Social no Brasil, o qual afirma que cabe às empresas oferecer dados sobre as atividades no campo social a entidades autônomas e independentes da sociedade civil. São imprescindíveis o acompanhamento, a análise e a participação nesse esforço conjunto. O Balanço Social não pode ser uma peça de marketing, mas uma demonstração responsável de investimentos sociais realizados pelas empresas (SOUZA, 2008).

21 Modelos de Balanço Social Será apresentado, brevemente, alguns modelos observados como forma de Balanço Social. Porém, como o objetivo deste trabalho não é evidenciar estes modelos, este trabalho se limitará apenas apresentá-los sucintamente. 1. Modelo GRI (Global Reporting Initiative) - conta com mais de mil membros em sua rede e propõe um padrão internacional de relatório de sustentabilidade. É uma ferramenta de comunicação do desempenho social, ambiental e econômico das organizações. O modelo de relatório da Global Reporting Initiative (GRI) é atualmente o mais completo e mundialmente difundido. Seu processo de elaboração contribui para o engajamento das partes interessadas da organização, a reflexão dos principais impactos, a definição dos indicadores e a comunicação com o público interessado (ETHOS, 2008). 2. Modelo do Instituto Ethos - Baseado num relato detalhado dos princípios e das ações da organização, este guia incorpora os Indicadores Ethos de Responsabilidade Social Empresarial e a planilha proposta pelo Ibase, sugerindo um detalhamento maior do contexto das tomadas de decisão em relação aos problemas encontrados e aos resultados obtidos (ETHOS, 2008). 3. Modelo do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas Ibase - é um modelo reduzido e simplificado que prima pela divulgação dos resultados a todos os públicos interessados, principalmente os colaboradores da empresa. Lançado em 1997, o Balanço Social modelo Ibase inspira-se no formato dos balanços financeiros. De forma detalhada, expõe os números associados à responsabilidade social da organização através de informações sobre a folha de pagamentos e os gastos com encargos sociais de funcionários. Além disso, detalha as despesas com controle ambiental e os investimentos sociais externos nas diversas áreas educação, cultura, saúde etc. (ETHOS, 2008)

22 22 O modelo Ibase surgiu com o objetivo de servir à avaliação dos desempenhos das empresas na área social ao longo dos anos, podendo também ser utilizado como parâmetro de comparação nela mesma e entre outras empresas em períodos diferentes. Observando a necessidade de padronização das informações, achou-se necessário um modelo único, simples e objetivo, tal qual o modelo proposto pelo Ibase (IBASE, 2008). Neste sentido, utilizar-se-á este modelo, como fonte de informações que irá compor o desenvolvimento deste trabalho e que permitirá alcançar os objetivos propostos. 2.3 O BALANÇO SOCIAL DO IBASE Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) O Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas - Ibase foi criado em É uma instituição de Utilidade Pública Federal, sem fins lucrativos, sem vinculação religiosa ou político-partidária, que também busca a transparência na prestação de contas das empresas. A missão do Ibase é a construção da democracia, combatendo desigualdades e estimulando a participação cidadã. E possui como objetivos: Dar visibilidade às demandas e propostas de setores em situação de pobreza e exclusão social particularmente mulheres e afrodescendentes no debate e na agenda política e consolidar sujeitos coletivos e a esfera pública. Desenvolver ações que permitam incidir em políticas públicas para priorizar a igualdade e o desenvolvimento humano democrático e sustentável. Lutar pela erradicação da pobreza e combater desigualdades no acesso a bens e recursos. Defender, valorizar e fortalecer a participação cidadã de grupos sociais e comunidades em situação de pobreza e excluídos dos processos decisórios. Exigir transparência de representantes eleitos, gestores e gestoras quanto ao uso de recursos públicos. Cobrar ética, responsabilidade social e cidadã de todas as organizações da sociedade. Estabelecer alianças estratégicas na promoção da democracia, no fortalecimento da sociedade civil e da cidadania planetária, vinculando o global e o local (IBASE, 2008). O Ibase é uma instituição relevante para esse estudo porque recomenda a adoção de alguns indicadores laborais para que as empresas e outras instituições

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