UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA PODER LOCAL EM TOCANTINS: DOMÍNIO E LEGITIMIDADE EM ARRAIAS

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1 UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA PODER LOCAL EM TOCANTINS: DOMÍNIO E LEGITIMIDADE EM ARRAIAS Magda Suely Pereira Costa Brasília, 2008

2 UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA PODER LOCAL EM TOCANTINS: DOMÍNIO E LEGITIMIDADE EM ARRAIAS Magda Suely Pereira Costa Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Departamento de Sociologia, Universidade de Brasília, como parte dos prérequisitos para obtenção do título de doutor. Brasília, julho de 2008 II

3 UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS DEPARTAMENTO DE SOCIOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA TESE DE DOUTORADO PODER LOCAL EM TOCANTINS: DOMÍNIO E LEGITIMIDADE EM ARRAIAS Magda Suely Pereira Costa Orientadora: Professora Doutora Mariza Veloso Motta Santos Banca Examinadora: Professora Doutora Mariza Veloso Motta Presidente (UnB) Membro Profª Doutora - Mireya Suárez (UnB) Membro Profª Doutora Mª Francisca Pinheiro Coelho (UnB) Membro Profª Doutor - Pedro Célio Borges (UFG) Membro Profª Doutora Fernanda Antônia da Fonseca Sobral (UnB) III

4 Dedico Aos meus alunos e ex-alunos, na esperança de que este estudo lhes permita práticas políticas e gestos democráticos, Aos arraianos (de todo município), uma leitura, uma reflexão, uma compreensão da realidade social, Aos meus pais Honorato Pereira Silva e Alice Costa Pereira, meus filhos Eduardo e Thaísa e esposo João Luiz D Agostino. Aos meus irmãos Marly e Wanderley e todos os meus familiares A família São Bernardina - São Paulo. Afinal, só vocês sabem da minha luta para que hoje pudéssemos ler estas páginas. Não, não tenho caminho novo, O que eu tenho de novo é o jeito de caminhar. Thiago de Melo IV

5 AGRADECIMENTOS A Deus, minha força maior, que permitiu persistir e concluir este trabalho. À Professora Drª Mireya Suárez, agradeço-a primeiro, pela sua paciência, generosidade, dedicação, acolhidas e amizade. Mireya soube ser dura e suave no momento certo, conduzindo-me nesse duro processo de travessia do nativo ao intérprete. Agradeço-a também por, pioneira, ter sido a dedicar seu tempo de pesquisadora à comunidade Arraiana um interesse acadêmico que ninguém havia se dado ao trabalho de demonstrar. A ela, minha eterna gratidão, admiração e respeito. À Professora Drª Mariza Veloso Motta por ter me aceito como orientanda, num momento confuso da minha vida acadêmica. Pelas cobranças para sair do umbigo e passar a ver a realidade social como a necessária distinção de uma pesquisadora. À Professora Drª Mª Francisca P. Coelho, orientadora original na entrada do meu doutoramento. Seu apoio inicial foi fundamental para a minha migração da temática a participação da Família na Escola para a temática do Poder local. A Professora Drª Fernanda Sobral, pela avaliação na minha qualificação, carinho, leitura e pelas importantes contribuições para minha tese. Aos demais professores do Departamento de Sociologia e aos funcionários, Evaldo Amorim, Abílio Maia, Samuel Dias e Edilva Tavares apoio administrativo sempre carinhoso e imprescindível. Ao meu amigo-irmão André Afavacho, que, para me apoiar tornou o caminho de Arraias a Belo-Horizonte o menor caminho do território. O nosso abraço-árvore valerá para sempre em nossas vidas. Ao amigo Márcio Ricardo Ferreira Machado pela dedicação, carinho, discernimento e crítica rigorosa. Trago-lhe no pensamento e no coração. À prima Odiva Xavier e Samuel pelo desprendimento, dedicação e leituras minuciosas, apoio constante em Brasília. Anita, Ricardo e Alexandre, suportes e carinho de primos-irmãos, meu beijo agradecido. Aos leitores, Rosolindo Neto, MªDivina Cardoso, Dilsilene Aires, Sandra Faleiros, Marilene Andrade, Valdirene Gomes, Isamara Martins, Lauro, Sônia Neiva pela discussão de muitas idéias. Aos colegas do Doutorado: Gabriel, Giana, Raísa, João Pedro, Eloísa Barroso, Rubens, Eugênio, Hélvia, Suylan, Magda Lúcio, Erlando, Agnaldo José e tantos outros. Professores e administrativos na Universidade Estadual de Goiás (UEG) e da Universidade Federal do Tocantins (UFT), pela colaboração em momentos que me pouparam de desviar o sentido da pesquisa e escrita da tese. V

6 Aos arraianos, do sertão, das caatingas ou da cidade. Seus depoimentos foram fundamentais na reconstrução dos fatos e cenários. Ao Sr.Luiz de Moura, Messias S. Balduíno, Josefa de Deraldo, Sr. Doca Cordeiro, Sr. Joaquim Cordeiro que em seus mais de noventa anos trouxeram suas lembranças à esta pesquisa. D. Belquiz, Neuza Flores, Walter Magalhães, Socorro Bueno, Divina Gomes, Joana Luiz, Mª do Socorro Bueno, Dr.Palmeron de Sena e Silva, Ariosvaldo Marques, Maria Guilhermina, Maria Narcisa Cordeiro, Alice e Honorato, e tantos outros, pelos dados importantíssimos. A Sonia Maciel, pelo acolhimento e ajuda na coleta dos dados no IBGE, ao Rafael Noleto e Elias Rosa de Moura, pela atenção carinhosa, pelos dados da Adapec e na construção dos gráficos e figuras. Adriana Stephani, companhia constante, amizade, paciência e humor na árdua tarefa de correção deste trabalho. Adriana Sacramento, Andrey S. Soares pelas correções e sugestões tornando esta tese mais compreensível. Rubinho Soares, competente assistência técnica. À Meire Helena, amiga de infância, que não se deixou de vir dar o seu olhar e apreciação nos meus escritos. Institucionalmente, agradeço ao Departamento de Ciências Sociais e ao Programa de Financiamento do Conselho Nacional de Pesquisa e da Comissão de Aperfeiçoamento de Professores do Ensino Superior, por ter investido na minha formação de pesquisador com bolsa de estudo. À Secretaria de Educação do Estado do Tocantins e posteriormente a Universidade Estadual do Tocantins (UNITINS), pelo licenciamento remunerado que me permitiu custear a manutenção e estadia em Brasília. Ao Olimpo Ordoñez, pelas acolhidas quando cursei disciplinas do Doutorado. Léo Vailton e Bhernar, companheiros de apto na 410. Obrigada, pelo respeito, solidariedade e amizade.ao Sr Nonato, Dª Maria e Verônica, parte da minha vida vivido na Colina. Aos amigos Walter Pereira, as Anas Claudias Paulistas, Yamile e Hernan, da Colômbia. Obrigada pela amizade comprometida. Obrigada. aos amigos e colaboradores, que por lapso de momento, posso não estar mencionando, mas que contribuíram de alguma forma para que meu caminho não fosse interrompido por qualquer percalço. João Luiz, Eduardo, Thaísa, Karla, Marly e Wanderley pelo amor e tolerância diante das angústias durante o curso, onde alternar trabalho e estudo, período de receios de não conseguir concluir o curso o processo da escrita, as viagens e ausência de casa pareciam intermináveis. Somente o amor de vocês me ajudou a atingir esse objetivo. VI

7 SUMÁRIO RESUMO...VIII ABSTRACT...XIX RESUMÈ...X LISTA DE SIGLAS...XI LISTA DE FOTOS, TABELAS E GRÁFICOS...XII INTRODUÇÃO...13 Capítulo I 1. O poder: concepções e abrangências...22 O poder...22 O domínio tradicional...25 O domínio racional-legal...26 As ordens de legitimação do domínio tradicional...28 As ordens de legitimação do domínio racional-legal...35 A esfera religiosa e o poder A legitimação da ordem religiosa em Goiás A legitimação da ordem religiosa no Estado do Tocantins...56 Capítulo II 2Arraias e suas raízes: histórica, geográfica e cultural O sentimento de exclusão da Arraias tocantinense O sentimento de pertença da Arraias tocantinense Arraias na Modernidade...99 Capítulo III 3 Constituição e Consolidação do Poder Local em Arraias Povoamento e Origens do Poder Local Da constituição do Município O Distrito da Canabrava O Povoado Mimoso Da história religiosa do município Controle dos Bens Econômicos e Estratificação Social O Governo Municipal e as Linhagens Familiares Controle do Legislativo Novo Cenário de Arraias Capítulo IV 4. Festas, catolicismo oficial e rústico rituais e trocas como meios de legitimação do poder local Festas Oficiais Festas Religiosas CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS ANEXOS VII

8 RESUMO Esta tese examina o poder local em Arraias, Tocantins, e descreve a dinâmica política e social vigente no município. Conforme argumento, trata-se de um município que, mesmo ao viver mudanças seculares, evidencia formas análogas ao que Max Weber descreve como os domínios tradicional e racional-legal e legitimadas pelo recurso de diferentes ordens sociais, a saber: a religiosa, a patriarcal, a da reciprocidade, a político-partidária e a governamental. A base de dados é constituída por informações históricas, etnográficas e estatísticas e por um trabalho de campo que abrange a sede do município tocantinense de Arraias, como também o distrito da Canabrava e o povoado do Mimoso. A partir da análise deste conjunto de dados, concluo que em Arraias o poder local é exercido pelos fazendeiros, normalmente políticos, oriundos de linhagens tradicionais que utilizam as diferentes ordens sociais para legitimar o seu domínio sobre a sociedade local. Também enfatizo como, a despeito de tal continuidade política, a Arraias de hoje exibe uma paradoxal dinâmica de transição na qual a mesma sociedade que convive com a cultura da tradicionalidade busca adequar-se à normatização imposta pelo domínio racional-legal moderno. O resultado, argumento, é um movimento reflexivo e marcado por uma consciência crescente da responsabilidade individual e coletiva em promover a autonomia, a liberdade e a democracia. Para compreender estas relações de domínio, retorno à teoria de dominação e poder de Max Weber. Para descrever e evidenciar a instrumentalização do espaço sagrado, as diferentes trocas materiais e simbólicas e as formas pelas quais eleições e ações do Legislativo, Executivo e Judiciário se legitimam no cotidiano do município, também recorro a outros conceitos referentes à dádiva, ao patriarcalismo, ao catolicismo romanizado e rústico, ao sistema eleitoral e ao sistema governamental. Finalizo examinando as festas, em especial as oficiais e religiosas nas quais diferentes trocas geram uma sacralização do político e concomitante profanação do religioso. Nessa relação, argumento, políticos, religiosos, fazendeiros e linhagens utilizam meios modernizados de negociação e reciprocidade para perpetuar uma tradição de exercício do poder sobre a sociedade arraiana. Entretanto, foram verificadas mudanças que têm se afirmado e fortalecido nas últimas décadas. Dentre elas, a atuação mais vigorosa das esferas legislativa e judiciária, a utilização constante das normas constitucionais em prol da cidadania e a maior conscientização da sociedade civil. Palavras chaves: poder, dominação legitimidade e mudanças. VIII

9 ABSTRACT This thesis examines the local power in Arraias, a municipality in the Brazilian state of Tocantins, with the objective of identifying its social and political dynamics. In it, I argue that the municipality, even as it undergoes secular changes, it evidences analogous forms what Max Weber describes as the traditional and the rational-legal dominations - are legitimized through the instrumentation of various social orders, namely: the religious, the patriarchal, the reciprocal, the politico-partisan and the gubernatorial. The database consists of historical, ethnographic and statistical information and of fieldwork which covers not only the municipal seat of Arraias, Tocantins, but also the district of Canabrava and the town of Mimoso. By analyzing this data, I conclude that power is exercised in Arraias by local farmers, usually politicians and members of traditional lineages who use the different social orders to legitimize their domination of the local society. I also emphasize how, despite this political continuity, Arraias today displays a paradoxical and transitional cultural dynamic where the same society which lives with traditionalist culture seeks to adapt itself to the normalization imposed by the modern rational and legal field. The result, I argue, is a reflexive movement marked by a growing consciousness of the individual and collective responsibility to promote independence, freedom and democracy. To understand these relationships of domination, I resort to Max Weber s theories of domination and power. To evidence and describe the instrumentation of sacred space, the various material and symbolic exchanges used to legitimize both elections and different types of Executive, Legislative and Judicial action, I resort to concepts related to the gift, patriarchy, rustic Roman Catholicism and electoral and governance systems. I conclude examining the festivities especially religious and official festivities in which different exchanges lead to a sacredization of the political along with a simultaneous desecration of religious. In this regard, I argue, politicians and clergy, farmers and their lineages, all use modernized means of negotiation and reciprocity to perpetuate their traditional exercise of power over the society of Arraias. However, changes have been established and strengthened itself in recent decades, including the performance of more vigorous legislative and judicial spheres, the constant use of constitutional rules in favor of citizenship and the greatest civil society awareness. Key words: power, domination, legitimacy and changes. IX

10 RÉSUMÈ Cette thèse examine le pouvoir local à Arraias, Tocantins, et décrit la dynamique politique et sociale qui a cours dans la municipalité. Ainsi que nous le décrivons, il s'agit d'une municipalité qui, même après siècles de changements, montre des formes analogues à ce que Max Weber décrit comme dominance traditionnels et rationnel-légaux et légitimes à travers differents ordres sociaux, à savoir: le religieux, le patriarcal, celui de reciprocité, les partis politiques et le gouvernemental. La base de données est constituée d'informations historiques, ethnographiques et statistiques et par un travail de terrain qui prend en compte le lieu même de la ville tocantinense de Arraias, ainsi que le district de Canabrava et le village de Mimoso. A partir de l'analyse de cet ensemble de données, nous arrivons à la conclusion que le pouvoir local à Arraias est exercé par les fermiers, normalement des politiciens provenance de lignée traditionnelle qui utilisent les différents ordres sociaux pour légitimer leur domination sur la société locale. Nous mettons également en évidence comment, en dépit de cette continuité politique, le Arraias d'aujourd'hui montre une dynamique de transition paradoxale dynamique dans laquelle la même sicoété qui cohabite avec la culture de traditionalité cherche à se mettre en adéquation avec la normatisation imposée par la domination rationelle-légale moderne. Nous attestons ainsi que le résultat en est un mouvement de réflexe marqué par une conscience croissante de la responsabilité individuelle et collective de la promotion de l'autonomie, la liberté et la démocratie. Pour comprendre ces relations de domination, nous nous référons de nouveau à la théorie de la domination de Max Weber. Pour décrire les preuves de l'instrumentalisation de l'espace sacré, les differents échanges matériels et symboliques et les formes par lesquelles les élections et les actions du Legislatif, de l'executif et du Judiciaire se rendent légitimes dans le quotidien de la ville, nous avons aussi recours à d'autres concepts se référant à offre, au patriarcalisme, au catholicisme romanisé et rustique, au système électoral et au système gouvernemental. Nous terminons en examinant les fêtes, en particulier les officielles et les religieuses, dans lesquelles divers échanges génèrent une sacralisation du politique et en même temps, une profanation du religieux. Dans cette relation, nous mettons en évidence que les politiques et les religieux, les fermiers et leurs lignées utilisent des moyens modernisés de négociation et de réciprocité pour perpétuer une tradition d'exercice du pouvoir sur la société arraiane. Toutefois, les changements qui ont été établies et se renforcer au cours des dernières décennies, y compris le fonctionnement de plus vigoureuse législatif et judiciaire domaines, l'utilisation constante des règles constitutionnelles en faveur de la citoyenneté et une plus grande sensibilisation de la société civile. Mots clés: puissance, domination, légitimité et changements X

11 LISTA DE SIGLAS AABB Associação Atlética do Banco do Brasil ADAPEC Agência de Defesa Agropecuária AFA Associação dos filhos e Amigos de Arraias ARENA Aliança Renovadora Nacional CAD Cargo Administrativo CEBS Comunidades Eclesiais de Base CENOG Casa do Estudante do Norte Goiano CIPM Companhia Independente da Polícia Militar CLT Consolidação das Leis trabalhistas CONORTE Comissão de Estudos dos Problemas do Norte DEPASA Destilaria de Álcool e Açúcar DETRAN Departamento de Trânsito EDUCON Educação Continuada EJA Educação de Jovens e Adultos IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INCRA Instituto Nacional de Reforma Agrária INSS Instituto Nacional de Serviço Social IPOL Instituto de Ciência Política LDB Leis de Diretrizes e Bases MDB Movimento Democrático Brasileiro ONU Organização das Nações Unidas ONG Organização não governamental PSD Partido Social Democrático PTB Partido Trabalhista Brasileiro PMDB Partido Democrático Brasileiro PSD Partido Social Democrático PDS Partido Democrático Social PNUD - Plano das Nações Unidas para o Desenvolvimento PT Partido dos Trabalhadores PC do B Partido Comunista do Brasil PP Partido Popular PRN Partido da Reconstrução Nacional PFL Partido da Frente Liberal PPR Partido Republicano Progressista PSDB Partido Social da Democracia Brasileira PL Partido Liberal PV Partido Verde SANEATINS Departamento de Saneamento do Estado do Tocantins TSE Tribunal Superior Eleitoral UDN União Democrática nacional UFT Universidade Federal do Tocantins UNB Universidade de Brasília UNITINS Universidade Estadual do Estado do Tocantins XI

12 LISTA DE FOTOS, TABELAS, GRÁFICOS E FIGURAS Foto 1 As cercas de pedras que contornam a cidade Foto 2 Adesivo de carro para a campanha eleitoral Foto 3 Camiseta usada pelos correligionários na carreata e na missa Foto 4 Os símbolos do criador apresentados na missa Foto 5 Ator religioso na campanha política (no altar e no aeroporto) Foto 6 Simbiose entre o altar e palanque Foto 7 O ator político no altar (Festejos do Senhor do Bonfim) Foto 8 Propagandas políticas nas camisetas das festividades Foto 9 O carro com a imagem religiosa e os girassóis Foto 10 Festa de São Sebastião (Arraias -Tocantins) Tabela 1 Pessoas residentes por faixa etária e orientação política Tabela 2 Rendimento Mensal das Pessoas de 10 anos e mais Tabela 3 Escolaridade dos arraianos de 10 anos e mais Tabela 4 Ocupação e Posição na Ocupação dos arraianos de 10 Anos e Mais Tabela 5 Evolução da população de Arraias Tabela 6 Sítios de Lavouras e Fazendas de Gado em Goiás Gráfico 1 Evolução do gado bovino no Tocantins Gráfico 2 Evolução do rebanho de 1999 a Gráfico 3 Rebanho por Região no Município de Arraias Gráfico 4 Produtores de Bovinos em Arraias Gráfico 5 Pequenos produtores de Bovino no Município de Arraias Gráfico 6-Famílias de Médios produtores de Bovino município de Arraias Gráfico 7 Origens dos maiores produtores de bovino no município de Arraias Figura 1 - Chefe do executivo Local de 1835 a Figura 2 - Relação de Prefeitos e Vereadores de 1947 a XII

13 INTRODUÇÃO Os municípios rurais brasileiros apresentam realidades peculiares e relevantes para os estudos sociológicos. À primeira vista, parecem lugares tranqüilos, harmoniosos e simples. A observação aprofundada, entretanto, revela sob esta aparente transparência as efervescências, divergências e complexidades de uma sociedade em que alguns poucos regulam toda a coletividade. Na medida em que pessoas e grupos sociais dirigem a vida coletiva dos que nela habitam, são inúmeras as possibilidades de relações, formas de interações e práticas sócio-políticas. Os escritos de Victor Nunes Leal (1976) e Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976) mostram particularidades dessas relações sociais em algumas sociedades locais, onde suspendem as relações de participação democrática, suscitam incredibilidade sobre as ordens político-partidária e governamental e geram desigualdade e exclusão social muitas vezes desencadeando a revolta e o conflito de classe e gênero. São vários os tipos de convivência, conivência, conflito, troca e acordo que revelam de forma explícita ou velada a força latente que marca e reproduz a vida dos moradores desses municípios. Depois de obter os créditos exigidos para a obtenção do Doutorado, realizei entre julho de 2005 e setembro de 2007 uma observação sistemática de um município com elevado ruralismo Arraias, no Estado de Tocantins a fim de entender seu poder local e o modo como este se legitima. Quando afirmo que realizei uma observação sistemática quero dizer que, por ter nascido em Arraias e ali residir, fui obrigada a fazer um grande esforço para distanciar-me do que me é demasiadamente familiar e por isso tanto apreciado quanto detestado. Minhas reflexões iniciais levaram-me a indagar qual era a natureza dessa força latente e freqüentemente invisível que se expressa na estreita relação entre as esferas política e religiosa. Na medida em que o olhar sociológico substituiu minha intuição nativa, entretanto, a própria idéia de uma força latente foi substituída pela de um poder situado em quase todas as relações sociais. Onde buscava uma força latente, acabei por encontrar um poder situado na malha social. 13

14 A percepção da íntima relação que existe entre as esferas política e religiosa levou-me a pensar que o poder se situava nessa relação, de modo que tanto fazendeiros quanto religiosos neste caso, o clero católico seriam os detentores do poder 1. Com efeito, tal relação é significativa não apenas em Arraias, mas em todo o Brasil, embora seu nível de importância varie segundo as especificidades e o nível de desenvolvimento urbano industrial de cada localidade. Em municípios onde esse desenvolvimento é elevado e que contam com cidades de grande porte, essa relação tem lugar de forma descontínua. Manifesta-se em espaços e períodos delimitados. É o caso, por exemplo, dos períodos eleitorais, quando agentes políticos entram em acordos e trocam favores com lideranças dos diferentes credos religiosos, sejam espíritas, evangélicas ou católicas. Já em municípios predominantemente rurais, como Arraias, cujas sedes são pequenas, o íntimo relacionamento entre a esfera política e as lideranças católicas estrutura os acontecimentos. Ou seja, os acordos e as trocas de favores entre elas constituem eventos do cotidiano local, permeiam todas as relações sociais e são percebidos como fatos naturais do convívio das pessoas. Minhas reflexões posteriores, entretanto, indicaram que por mais marcante que seja a relação entre fazendeiros e religiosos, não é somente na religiosidade que o poder se assenta, mas também em outras ordens como o domínio cultural e o domínio racional-legal. Arraias é um município de longa tradição coronelista, e por essa razão o mandonismo, o clientelismo e o assistencialismo ainda se fazem presentes, mesmo quando modificados, em praticamente todas suas relações sociais. Estas realidades locais tornam-se intrigantes para aqueles que, estimulados pelas políticas federais de integração nacional, vieram a residir no município nos últimos vinte anos. É quase anedótico como os recém-chegados que moram na sede municipal são inicialmente fascinados pela tranqüilidade e simplicidade do lugar, mas passam com o tempo a viver uma inquietante dúvida diante da dificuldade de compreender as múltiplas dimensões e abrangência das relações sociais que ali encontram. O mesmo não ocorre, naturalmente, com os nativos. Pelo mesmo fato de conhecerem desde sempre esta 1 Grupo que corresponde, como se verá adiante, aos médios e grandes criadores de gado. É este segmento que controla os recursos econômicos, lidera linhagens tradicionais e exerce o poder local. 14

15 realidade, têm dificuldade de perceber sua especificidade e, portanto, de fazer uma crítica distanciada das relações sociais que prevalecem no município. O conceito de poder tem lugar central neste trabalho e, por motivos que serão examinados em seção oportuna, adotamos a definição weberiana do mesmo, que significa apenas a capacidade de influenciar ou de sobrepor a própria vontade sobre os demais. O poder, nessa linha de análise por certo clássica no pensamento sociológico, é definido como... toda probabilidade de impor a própria vontade numa relação social, mesmo contra resistências, seja qual for o fundamento dessa probabilidade (WEBER, 1991:219). Ou seja, o conceito exprime a possibilidade que um ator tem de realizar a sua vontade no âmbito de uma relação social embora os outros envolvidos na relação possam resistir. Por escolher como registro a capacidade de influenciar ao outro, tal definição evidentemente, deve contemplar os domínios e as esferas em que o poder se assenta. O objeto de estudo desta tese é a dinâmica do poder local em Arraias, entendido como as relações de dominação geradas e reproduzidas localmente, tanto pela via da tradição, quanto pela apropriação dos sistemas de dominação estadual, regional ou federal. Como será demonstrado, por essas duas vias - cada qual à sua forma se estabelecem relações de paternalismo, mandonismo e clientelismo presentes em Arraias, como em tantos outros municípios brasileiros desde o período colonial. A respeito desse poder local, e seguindo a conceitualização weberiana, me faço duas perguntas iniciais. A primeira é: como os fazendeiros impõem seus interesses e vontades aos diferentes segmentos do município ou, para ser mais específica, em quais domínios sociais assentam seu poder? A segunda, por sua vez, é: quais são os mecanismos desses domínios que contribuem efetivamente para viabilizar e legitimar seu poder? Essas indagações orientam o desenvolvimento desta tese, que se propõe a mostrar que o poder local em Arraias se situa nos domínios racional-legal e tradicional e que é legitimado por cinco ordens: o sistema eleitoral, o sistema governamental, o catolicismo, o patriarcalismo e os mecanismos próprios do sistema da dádiva. O dinamismo do poder local se observa na modernização das ordens acima mencionadas, como na crescente prevalência do poder estatal sobre o poder local; na entrada em cena de novos sujeitos políticos; na dessacralização do ritual católico por meio 15

16 da comercialização e politização dos seus significados; na afirmação crescente da importância do indivíduo, que passa a ter seu valor não mais baseado na pertença a uma linhagem familiar, mas nas suas competências cognitivas e profissionais. Atualmente ocorre também a emergência de novos objetos trocados na relação de favor, tais como a obtenção de um emprego, ou encaminhamento de processos, apoio intelectual a campanhas eleitorais etc. Para responder a estas questões é necessário descrever a metodologia utilizada, não apenas para explicitar as ordens implícitas nos discursos e rituais praticados nas diferentes esferas sociais, como também para desvelar as propriedades destas relações a partir da análise do sentido que é dado a elas. Afinal, são os significados produzidos dentro de uma cultura que fundamentam e possibilitam a compreensão da mesma. Pela natureza do problema, esta pesquisa se caracteriza como etnográfica, embora apresente também dados estatísticos, provenientes de Censos (IBGE, 2000), Enciclopédia dos Municípios (IBGE, 1958) e Adapec (2007). Os estudos etnográficos, segundo Hymes (1974), pressupõem uma participação ativa do pesquisador na comunidade investigada, e registros cuidadosos são feitos sobre o que acontece em seu interior. Assim, a descrição etnográfica direciona e desvela a pesquisa, e pretendi por meio dela apreender as relações demonstradas no cotidiano do município o que, nos dizeres de Abreu (1999), pode ser uma alternativa para revelar realidades que, de tão familiar, ficam escondidas. Para isso, foi necessário recorrer à observação, registros, entrevistas, gravações em áudio e fotografias, entre outros recursos de coleta de dados úteis na elucidação dos significados imediatos das ações sociais locais. Entendo, portanto, que esta tese é predominantemente um estudo de caso, por examinar uma realidade com suas especificidades recorrentes e repetitivas. Arraias é um entre muitos casos de municípios brasileiros que, em processo de modernização, apresentam uma mescla de elementos tradicionais e modernos. Segundo Bogdan & Biklen (1994), a observação se configura no estudo de caso de forma semelhante a um funil. Começa abrangente. Na medida em que a pesquisa avança, entretanto, objetivos e análises vão se afunilando em direção ao que é mais específico ao 16

17 objeto. Assim, além da minha experiência de vida, a base informativa deste trabalho está constituída de dados decorrentes de uma observação que examina sistematicamente o contexto cotidiano social em que vivem os seguintes tipos de atores: a) políticos (como cabos eleitorais, eleitores, articuladores, agentes públicos e chefes políticos); b) religiosos (como padres, beatos, festeiros, foliões, ministros da eucaristia, associações dos vicentinos e do apostolado da oração) e c) fazendeiros e famílias tradicionais. Muitos desses atores se dispuseram a falar sobre suas lembranças, sobre histórias que faltam nos livros. Afinal, as redes de relações formam o contexto social e exigem, por isto, um mapeamento que inclua descrições minuciosas de lugares, pessoas e situações observadas. Enriquecendo a observação sistemática desses atores políticos, religiosos e linhagens tradicionais, foram realizadas entrevistas em dois momentos. No primeiro, foram escolhidas oito pessoas idosas entre 80 e 93 anos de idade, das quais obtive dados sobre as origens de diferentes linhagens e de muitas práticas políticas e religiosas origens que, resgatadas pelas lembranças e narrativas, ampliaram a base de dados. Já no segundo momento foram realizadas entrevistas com pessoas mais jovens das comunidades rurais e da sede urbana. Da cidade, foram escolhidos 10 moradores entre 50 e 70 anos, os quais relembraram com prazer histórias e casos mais recentes sobre a organização e administração do município. Das comunidades rurais foram entrevistados oito moradores, sendo quatro do sertão e quatro da caatinga. Para garantir uma aproximação maior com os entrevistados e facilitar o processo de entrevista, foi elaborado um roteiro semi-estruturado, numa linguagem acessível e em estilo informal. Ao longo das conversas, todos os participantes demonstraram reter na memória histórias que ilustravam cenários e relações do município arraiano. Demonstraram ainda grande satisfação em saber e poder colaborar, revivendo o passado. Alguns deles riam, outros se emocionavam diante das lembranças. Em algumas situações, até solicitavam a volta da pesquisadora para complementar algumas de suas falas. Em grande parte das entrevistas, não foi possível o uso do gravador, uma vez que o entrevistado se dispôs a colaborar com o que sabia, mas sem gravação. Nesses casos os 17

18 registros das suas falas foram feitos simultaneamente pela pesquisadora, que buscou ser o mais fiel possível ao discurso proferido. Pela idade avançada de alguns entrevistados, foi realizado um cruzamento de informações acerca de cada fato histórico, a fim de garantir a fidedignidade da pesquisa e compensar eventuais falhas de memória por algum deles. Assim foi utilizada, nas análises, a maior freqüência de respostas. Na análise do discurso, o texto é entendido como um processo significativo cujo(s) sentido(s) depende(m) da interação verbal entre interlocutores, consideradas as condições sociais de sua produção. A interpretação, segundo Orlandi (1999:77), não pode se constituir apenas do conteúdo das palavras num determinado texto, pois onde está a interpretação está a relação da língua com a história para significar. Por isso, acredito ter chegado pela análise desses discursos a uma compreensão de como se articulam os diferentes mecanismos de poder local em Arraias. A pesquisa documental foi outra fonte de dados utilizada com o propósito de ajudar a desvelar essa intricada rede de relações que caracteriza o poder local no município. Dados documentais dos séculos XVIII e XIX foram incluídos com o propósito de possibilitar um entendimento mais amplo da história das esferas política, religiosa e familiar e assim demonstrar como estas relações sociais estabeleceram as bases da dinâmica do poder local que hoje predomina no município. Ao analisar a dinâmica do poder, fez-se necessário, com o avançar do trabalho de campo, recorrer a arquivos documentais, em um exame histórico que exigiu grandes esforços e apresentou diversos desafios. Em primeiro lugar, havia a falta de organização e sistematização dos dados históricos recolhidos. Havia também uma escassez bibliográfica sobre as origens da dinâmica de poder local em Arraias escassez que, apesar das dificuldades que impôs ao trabalho, também eleva a pertinência deste estudo. Finalmente, foi necessária grande persistência para ler e compreender o mosaico de reduzidos fragmentos de documentos dos séculos XVIII e XIX encontrados em arquivos da Paróquia Nossa Senhora dos Remédios, do Cartório do 1º Ofício e da Câmara Municipal. Apesar da dificuldade de manusear documentos em plena deterioração, foi possível encontrar relatórios, cartas e atas que ofereceram um lampejo ainda que 18

19 fragmentário das práticas dos atores que administraram o município, bem como dados sobre as origens das linhagens tradicionais que permitiram tecer uma genealogia. Enfim, foram encontrados dados relativos à organização da Igreja e o funcionamento da paróquia nos fins dos séculos XIX e início do século XX, dados que ajudaram a elucidar suas relações com a ordem político partidária, com as linhagens familiares e com a ordem governamental incluindo o Legislativo, o Judiciário e o Executivo. Vale ressaltar que outros fatores também dificultaram a coleta destes dados muitos deles, preservados por manuscritos em tinta borrão, enodoados pelo tempo e escritos em letra pouco legível. Outros dados, estes dos séculos XX e XXI, também ajudaram a identificar cinco festas do calendário da cidade que, por seu caráter tradicional, mereciam ser descritas com mais detalhes. São eventos fundamentais por evidenciar e explicitar as relações entre as práticas do catolicismo, as trocas materiais e simbólicas entre atores, as particularidades da ordem político-partidário e governamental e as estratégias de exercício de poder adotadas pelas linhagens. Outras festas são descritas apenas como simples evento, momento de encontro dos diferentes grupos sociais. Além das fontes já descritas, foram utilizados dados estatísticos coletados dos Censos do IBGE (2000) e dados da ADAPEC 2 (2006/2007). A partir deles foram construídos gráficos e tabelas que apresentam os indicadores sociais e econômicos mais significativos sobre o município e seus habitantes. Dessa forma, a tese se divide em quatro capítulos. Considerando que o poder está patente em todas as estruturas sociais humanas, o primeiro capítulo trata da sua concepção elaborada por alguns autores, e em especial na formulação teórica em Max Weber. Além das elaborações de Weber, outras noções conceituais foram trabalhadas para melhor levar em conta o fato de que o poder é um exercício que não emerge per si, mas das relações entre os homens. Para que o alcance de determinadas metas e vontades de quem está no exercício do poder se concretize, muitos mecanismos são utilizados, dentre eles a dádiva, que implica a troca, ou seja, o dar para receber, e o uso de ordens religiosas, político-partidárias e governamentais nesse processo. 2 Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Tocantins. 19

20 O segundo capítulo descreve Arraias dentro do contexto histórico dos estados de Goiás e Tocantins. Enfatiza-se a fundação do município e sua emergência como cidade de Goiás emergência marcada tanto pela dificuldade de inserção do estado no cenário político nacional quanto pelos entraves econômicos e políticos ao desenvolvimento dos municípios do Norte e Nordeste goiano. Este capítulo traz também a história da criação do estado de Tocantins, que decorre não apenas de necessidades políticas e interesses da comunidade tocantinense, como também e especialmente dos interesses de políticos estaduais e municipais em garantir espaço e manter seu poder de mando na região. Este tópico discute ainda a postura dos arraianos diante do novo contexto político e da assimilação da nova identidade tocantinense. O capítulo três aborda algumas das relações dos domínios tradicional e racional-legal que fundamentam o exercício do poder local, bem como, as esferas que o legitimam. Aqui, dados históricos, sociológicos, econômicos, culturais e religiosos são usados para delinear as formas pelas quais o poder se constituiu e se consolidou ao longo da história do município. Para melhor situar o leitor no contexto do município, são explicitadas e descritas as relações econômicas, os rituais políticos e religiosos, as formas de administração e a organização familiar, especialmente a da linhagem tradicional que é sinônimo, neste trabalho, de família tradicional cuja composição familiar é extensa e se comporta como clãs, ou seja, estão sob o comando de um ancestral comum, e no qual todos se consideram como parentes, mesmo que o grau de parentesco seja longínquo. O quarto capítulo examina as festas comunitárias, particularmente aquelas que fazem parte do calendário católico e são vividas pelas comunidades de Arraias, tanto nas áreas urbanas como nas rurais. Estas festas oficiais e religiosas são usadas para analisar como as trocas materiais e simbólicas se materializam. Assim como a ordem patriarcal, festas e trocas são formas de domínio tradicional e, portanto, se constituem em importantes esferas de legitimação do poder local. Destaca-se o catolicismo oficial e o rústico como uma forma de religiosidade existente desde sempre nas comunidades rurais, e que é transformado também em instrumento de apoio para os políticos locais. O capítulo sugere ainda que a forma como esta imbricação acontece, gera uma sacralização do poder político e das linhagens pelo 20

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