1º Colóquio Anual da Lusofonia SLP -NORTE P.1

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2 P.2 1º Colóquio Anual da Lusofonia SLP -NORTE Local Fundação Eng.º António de Almeida R. Tenente Valadim, 231/325, Porto Tel Fax PROGRAMA 18 E 19 OUTUBRO 2002 Repensar a Lusofonia como instrumento de promoção e aproximação de culturas. Áreas/Temas de abordagem Língua, Multimédia e Comunicação Social Desenvolvimento curricular Cidadania e Participação Politica Tradução e Cultura (inter e transcultural), Estudos Interculturais Diversidades Culturais Moderadores: Dr. José Manuel Matias, Chrys Chrystello (Mestre), Professor Doutor Embaixador José Augusto Seabra representado por Dr. António José Queirós e Dra. Helena Chrystello Sexta e Sábado Registo Presenças Sexta Apresentação/Cerimónia de Abertura* José Manuel Matias, Vice-Presidente da SLP, Instituto Camões Chrys Chrystello*, University of Technology Sydney, UTS Australia Sábado Apresentação/Cerimónia de Abertura* Leitura da Nota de Encerramento Dra. Elsa Rodrigues dos Santos, Presidente da SLP Chrys Chrystello*, University of Technology Sydney, UTS, Australia Fado Português Amador e Porto de Honra

3 P.3 DISCURSO DE ABERTURA* Antes de mais queria agradecer a todos os que se dignaram honrar-nos com a vossa presença e participação nesta Jornada que visa contribuir para debater a problemática da língua portuguesa no mundo não somente em termos das suas formulações históricas e teóricas mas e sobretudo, de analisá-las nas suas modalidades práticas com as necessárias correspondências em articulação com outras comunidades culturais, históricas e linguísticas lusófonas como agentes fundamentais de mudança. Pretende-se repensar a Lusofonia, como instrumento de promoção e aproximação de povos e culturas. O Porto foi a cidade escolhida porque foi perdida a oportunidade, como Capital Europeia da Cultura, de fazer ouvir a sua voz nos média nacionais e internacionais como terra congregadora de esforços e iniciativas em prol da língua de todos nós da Galiza a Cabinda e Timor, passando pelos países de expressão portuguesa e por todos os outros países onde não sendo língua oficial existem Lusofalantes. Por este motivo, foi escolhida a seguinte temática para o 1º Colóquio da Sociedade de Língua Portuguesa no Porto: - Repensar a Lusofonia como instrumento de promoção e aproximação de culturas: através de cinco áreas temáticas 1. Língua, Multimédia e Comunicação Social; 2. Desenvolvimento curricular; 3. Cidadania e Participação Politica 4. Tradução e Cultura (inter e transcultural), Estudos Interculturais; e 5. Diversidades Culturais Pretendíamos receber propostas de temas abarcando uma vasta área, quer geográfica quer tematicamente, a fim de permitir uma visão globalizante e abrangente do tópico do colóquio e os candidatos corresponderam totalmente a essa nossa intenção, pelo que serão premiados com a publicação dos seus trabalhos na Revista da Língua, da Sociedade de Língua Portuguesa. Convém aqui fazer uma curta resenha do historial atribulado mas nem por isso, menos glorioso desta instituição que teve a visão e a coragem de organizar este evento sem subsídios nem apoios.

4 P.4 Breve Historial da SLP Fundada em 14 de Novembro de 1949, a Sociedade da Língua Portuguesa (SLP), nasce vocacionada para a investigação, difusão e defesa da Língua Portuguesa. Foi uma ideia do Prof. Vasco Botelho do Amaral tornada pública aos microfones do Rádio Clube Português, em 26 de Março de Em 1979, passa a Instituição de Utilidade Pública e, em 1982 a Membro-Honorário da Ordem do Infante Dom Henrique. Em 1989, passa a designar-se Sociedade da Língua Portuguesa, Instituto de Cultura. A SLP afirma-se pelo modo continuado qualitativo como desenvolve o seu trabalho. As suas actividades são diárias e abarcam não só a área específica da língua portuguesa como outras da cultura. Desde 1981, a SLP insiste na criação do Dia Internacional da Língua Portuguesa. Esta ideia, levada ao conhecimento do presidente da Assembleia da República, foi apresentada ao seu Plenário e saudada por aclamação e de pé por todos os Deputados, como vem no Diário das Sessões de , p Funcionou ainda na SLP o Tribunal da Língua Portuguesa, tribunal de pressão junto da opinião pública, onde, por um lado são apreciadas queixas e julgadas agressões públicas à Língua Portuguesa e, por outro, questões relativas ao seu ensino. Em sua substituição, foi criada em 1996 a Provedoria da Língua Portuguesa, com o intuito de alertar a opinião pública e o poder instituído para a situação caótica em que se encontra o nosso idioma. A sua acção traduz-se por um alerta constante às instituições que violam as actuais normas ortográficas. Neste âmbito, procurará sensibilizar o Registo Nacional de Pessoas Colectivas no sentido de assegurar a correcta grafia das novas designações. Tem sido sua missão denunciar casos como os de docentes estrangeiros que impõem, nas aulas e nas reuniões, o Inglês como língua! Desenvolve, também, acções concretas relativas ao uso de estrangeirismos (especialmente anglicismos) quando existem termos equivalentes na Língua Portuguesa. No âmbito da sua actividade, a Provedoria da Língua procura denunciar a falta de apoio às comunidades portuguesas dispersas pelo Mundo, sobretudo no que diz respeito ao ensino da língua aos lusodescendentes. Só através de uma política efectiva de língua se poderá defender e promover o ensinamento salutar do espaço cultural lusófono, contribuindo decisivamente para a sedimentação do Português como um dos principais veículos de expressão. O seu propósito maior é mobilizar todos no sentido de conseguir que nenhum se demita da responsabilidade que efectivamente tem na defesa do idioma pátrio. A SLP ainda toma como função o alertar para os atentados ao Património Cultural. No estrangeiro, os destinatários do Boletim trimestral «Língua Portuguesa» distribuem-se por 40 países. Recebem-no sócios da SLP, Associações de Emigrantes Portugueses, espalhados por 27 países e, ainda, todas as Universidades e Bibliotecas Públicas de Angola, Cabo Verde, Brasil, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Três prémios internacionais são atribuídos pela SLP: Grande Prémio Internacional de Linguística, Prémio Internacional de Tradução e Troféu de Estudos Portugueses e ainda Certificado de Capacidade de Conversação, que é entregue a todo o estrangeiro nacional de países de língua não-portuguesa que

5 P.5 visite a SLP e fale correntemente o Português. Recentemente foi criado o Prémio Fernando Sylvan que se destina a galardoar a melhor obra literária ou linguística de temática timorense. Uma importante biblioteca, e cerca de títulos, pertence aos associados e consente leitura domiciliária. O seu livro mais antigo, «Las Obras dei Exceil'ète Poêta Garcilasso de Ia Vega», é do «Afio 1570». A SLP detém os direitos de propriedade de várias obras: Charlas Linguísticas, de Raul Machado e o Grande Dicionário de Língua Portuguesa de José Pedro Machado, de que já incentivou 4 grandes edições. A SLP é frequentemente chamada para comparticipar em comissões. Fez parte da Comissão Executiva das Comemorações do Cinquentenário de Fernando Pessoa (l988). Foi ouvida na organização do Centro Português de Terminologia da Academia das Ciências de Lisboa e é membro permanente da Comissão Nacional da Língua Portuguesa (CNALP). A SLP tem feito parte de júris literários, quer por convite directo, quer por indicação da Associação Portuguesa de Escritores (APE). Hoje como ontem, a nossa língua é vítima de banalização e do laxismo, pois os portugueses, infelizmente, estão pouco conscientes da força e do valor do seu património linguístico. Falta-lhes o gosto por falar e escrever bem, e demitem-se da responsabilidade que lhes cabe na defesa da língua que falam, factor de identidade nacional. Há outros aspectos de que, por serem tão correntes, já mal nos apercebemos: o mau uso das preposições, a falta de coordenação sintáctica, a violação das regras de concordância, estão a atingir a capacidade de raciocínio e, logicamente, afectam a estrutura do pensamento e a expressão. Além dos tratos de polé que a língua falada sofre nos meios de comunicação social, uma nova frente se está a abrir com o ciberespaço e com as novas redes de comunicação. Urge pois apoiar os órgãos de comunicação social, promover uma verdadeira formação dos professores desta área, zelar pela dignificação da língua portuguesa nos organismos internacionais, dotando-os com um corpo de tradutores e intérpretes eficazes. A crise actual portuguesa reflecte uma nação em crise, a crise de valores, a crise actual de identidades. É certo que jamais podemos esquecer que a língua portuguesa mudou através dos tempos, e vai continuar a mudar. A língua não é um fóssil. A mudança dá-se por certas estruturas, produtivas em fases anteriores, estarem já ultrapassadas. Hoje, a mudança está a fazer. A SLP, criada essencialmente para defender a norma, não pode nem deve afastar-se dos seus objectivos estatutários, porque se o fizesse estaria a trair a sua história. Foram mais de 50 anos de desinteressado trabalho de muitos dirigentes, sócios e simpatizantes, animados exclusivamente pelo gosto e pelo amor à língua portuguesa

6 P.6 que vemos florescer "altiva" por todos os cantos do mundo, e de uma forma muito especial, pelo espaço da Lusofonia aqui representada hoje. Recentemente o emérito linguista anglófono Professor David Crystal escrevia dizendo O Português parece-me que tem um futuro forte, positivo e promissor, garantido à partida pela sua população-base de mais de 200 milhões, e pela vasta variedade que abrange desde a formalidade parlamentar até às origens de base do samba. Ao mesmo tempo, os falantes de português têm de reconhecer que a sua língua está sujeita a mudanças, tal como todas as outras, e não se devem opor impensadamente a este processo. Quando estive no Brasil, no ano passado, por exemplo, ouvi falar dum movimento que pretendia extirpar todos os anglicismos. Para banir palavras de empréstimo doutras línguas pode ser prejudicial para o desenvolvimento da língua, dado que a isola de movimentações e tendências internacionais. O inglês, por exemplo, tem empréstimos de 350 línguas, incluindo Português, e o resultado foi ter-se tornado numa língua imensamente rica e de sucesso. A língua portuguesa tem a capacidade e força para assimilar palavras de inglês e de outras línguas mantendo a sua identidade distinta. Espero também que o desenvolvimento da língua portuguesa seja parte dum atributo multilingue para os países onde é falada, para que as línguas indígenas sejam também faladas e respeitadas, o que é grave no Brasil dado o nível perigoso e crítico de muitas das línguas nativas. 1 Posteriormente contactei aquele distinto linguista preocupado com a extinção de tantas línguas e a evolução de outras, manifestando-me preocupado pelo desaparecimento de tantas línguas aborígenes no meu país e espantado pelo desenvolvimento de outras. Mostrava-me preocupado sobretudo pelos ismos que encontrara em Portugal após 30 anos de diáspora. Mesmo admitindo que as línguas só podem ter capacidade de sobrevivência se evoluírem eu alertava para o facto de recentemente terem sido acrescentadas ao léxico 600 palavras pela Academia Brasileira em 1999 das quais a maioria já tinha equivalente em português. 1 Carta de David Crystal 16/02/2001 a Pedro Kaul do governo brasileiro, citada no fórum Ajudar Timor em 16/03/2001

7 P.7 Sabendo como o inglês destronou línguas em pleno solo do Reino Unido, tal como Crystal afirma no caso dos idiomas Cúmbrico, Norn e Manx, perguntava ao distinto professor qual o destino da língua portuguesa, sabendo que o nível de ensino e o seu registo eram cada vez mais baixos, estando a ser dizimados por falantes ignorantes, escribas, jornalistas e políticos sem que houvesse uma verdadeira política da língua em Portugal e alguns esforços para criar uma no Brasil. A sua resposta 2 em Março último pode-nos apontar um de muitos caminhos, que espero ver tratados neste fórum aqui hoje. Diz Crystal: As palavras de empréstimo mudam, de facto, o carácter duma língua, mas como tal não são a causa da sua deterioração. A melhor evidência disto, é sem dúvida a própria língua inglesa que pediu de empréstimo mais palavras do que qualquer outra, e veja-se o que aconteceu ao Inglês. de facto, cerca de 80% do vocabulário inglês não tem origem Anglo-Saxónica, mas sim das línguas Românticas e Clássicas incluindo o Português. É até irónico que algumas dos anglicismos que os Franceses tentam banir actualmente derivem de latim e de Francês na sua origem. Temos de ver o que se passa quando uma palavra nova penetra numa língua. No caso do Inglês, existem triunviratos interessantes como kingly(anglo-saxão), royal (Francês), e regal (Latim) mas a realidade é que linguisticamente estamos muito mais ricos tendo três palavras que permitem todas as variedades de estilo que não seriam possíveis doutro modo. Assim, as palavras de empréstimo enriquecem a expressão. Até hoje nenhuma tentativa de impedir a penetração de palavras de empréstimo teve resultados positivos. As línguas não podem ser controladas. Nenhuma Academia impediu a mudança das línguas. Isto é diferente da situação das línguas em vias de extinção como por exemplo debati no meu livro Language Death. Se as línguas adoptam palavras de empréstimo isto demonstra que elas estão vivas para uma mudança social e a tentar manter o ritmo. Trata-se dum sinal saudável desde que as palavras de empréstimo suplementem e não substituam as palavras locais equivalentes. O que é deveras preocupante é

8 P.8 quando uma língua dominante começa a ocupar as funções duma língua menos dominante, por exemplo, quando o Inglês substitui o Português como língua de ensino nas instituições de ensino terciário. É aqui que a legislação pode ajudar e introduzir medidas de protecção, tais como obrigação de transmissões radiofónicas na língua minoritária, etc. existe de facto uma necessidade de haver uma política da língua, em especial num mundo como o nosso em mudança constante e tão rápida, e essa política tem de lidar com os assuntos base, que têm muito a ver com as funções do multilinguismo. Recordo ainda que não é só o inglês a substituir outras línguas. No Brasil, centenas de línguas foram deslocadas pelo Português, e todas as principais línguas: Espanhol, Chinês, Russo, Árabe afectaram as línguas minoritárias de igual modo. Por partilhar a opinião do professor David Crystal espero que no final deste encontro possam os presentes voltar para os seus locais de residência com soluções e propostas viáveis de Repensar a Lusofonia como instrumento de promoção e aproximação de culturas sem exclusão das línguas minoritárias que com a nossa podem coabitar. 2 Carta de David Crystal ao autor (Chrys Chrystello) em 25 Março passado.

9 P.9 TEMAS APRESENTADOS NO 1º COLÓQUIO ANUAL DE LUSOFONIA SLP PORTO AFONSO, CARLOS Carlos Alberto Conceição Afonso, Licenciado em Filologia Germânica pela Universidade de Coimbra, Mestre em Educação Educação e Desenvolvimento, pela Universidade Nova de Lisboa, Doutorado (Ph.D.) em Educação pelo King s College, Universidade de Londres. Actualmente, é Professor-Adjunto na Escola Superior de Educação de Portalegre, no Departamento de Línguas e Literaturas Estrangeiras. Nesta Escola exerce as seguintes funções: Vice- Presidente do Conselho Directivo, Coordenador do Curso de Jornalismo e Comunicação, Coordenador do Centro de Recursos e Animação Pedagógica, Coordenador do Gabinete de Relações Internacionais. É, ainda, membro do Gabinete de Relações Públicas e Cooperação do Instituto Politécnico de Portalegre, responsável pelas Relações Internacionais. É autor do livro Professores e Computadores, Porto: Edições ASA, 1993, e co-autor do livro Dinâmicas de Integração, Organização e Funcionamento numa Escola Básica Integrada - Estudo de Caso, Ministério da Educação, GEF, 1998, e, ainda, autor de diversos artigos no âmbito da educação em publicações nacionais e estrangeiras. CARLOS ALBERTO C. AFONSO, ESCOLA SUPERIOR DE EDUCAÇÃO DE PORTALEGRE SINOPSE : HISTÓRIAS QUE AS PALAVRAS CONTAM Todas as palavras têm uma História. Nascem, vivem, evoluem. Algumas morrem. Muitas são adoptadas de outras línguas. Nesse processo de adopção e de integração no nosso léxico, perde-se, em grande parte dessas palavras, a raiz etimológica, não sendo raros os casos em que o significado que hoje lhes atribuímos se afasta dessa raiz. É evidente que esse afastamento se justifica com as características de um organismo vivo, como é a nossa língua. Mas até que ponto é aceitável perder-se uma ligação etimológica que enquadra a própria evolução linguística e ajuda a compreender o significado de cada palavra? A partir de um conjunto de palavras de origem estrangeira utilizadas em Português, sobretudo oriundas da Língua Inglesa, pretende-se discutir a sua raiz etimológica e evolução, tendo em vista, sobretudo o modo como a nossa língua as adoptou. Discutem-se, também, de um ponto de vista não especializado, alguns casos polémicos na relação significado-significante e grafia-pronúncia. HISTÓRIAS QUE AS PALAVRAS CONTAM Todas as palavras têm uma História. Nascem, vivem, evoluem. Algumas morrem. Muitas são adoptadas de outras línguas. Nesse processo de adopção e de integração no nosso léxico, perde-se, em grande parte dessas palavras, a raiz etimológica, não sendo raros os casos em que o significado que hoje lhes atribuímos se afasta dessa raiz. É evidente que esse afastamento se justifica com as características de um organismo vivo, como é a nossa língua. Mas até que ponto é aceitável perder-se uma ligação etimológica que enquadra a própria evolução linguística e ajuda a compreender o significado de cada palavra? A partir de um conjunto de palavras de origem estrangeira utilizadas em Português, sobretudo oriundas da Língua Inglesa, pretende-se discutir a sua raiz etimológica e evolução, tendo em vista, sobretudo o modo como a nossa língua as adoptou. Discutem-se, também, de um ponto de vista não especializado, alguns casos polémicos na relação significado-significante e grafia-pronúncia.

10 P.10 O que une a comunidade lusófona, e que constitui, mesmo, a razão de ser para a sua existência, é, sem dúvida, o facto de todos falarmos a mesma língua. Mas será que, de facto, falamos todos a mesma língua? Será, talvez, mais apropriado dizer, não que falamos a mesma língua, mas que cada um dos povos da comunidade fala uma língua com uma origem comum a todos os outros, mas diferente de cada uma delas. É verdade que em Português nos entendemos, mas cada um de nós fala um Português diferente a não ser assim, não haveria necessidade, como me dizem que acontece, que, por exemplo, uma audiência constituída maioritariamente por brasileiros tenha que usar tradução simultânea quando um português usa da palavra... Haverá, então, uma matriz, um padrão que contenha em si os traços identificativos daquilo que é comum a todos nós? E será legítimo considerar que só essa matriz é que é Português? Duas perguntas para duas respostas diferentes: afirmativa para a primeira, isto é, existe, de facto, uma matriz que identifica todos os nossos Portugueses como Português; negativa para a segunda, ou seja, que não é legítimo, longe disso, considerar que só essa matriz é que é Português. Deixo para os especialistas a tarefa de apelarem à diversidade dos fenómenos que explicam o nascimento e a evolução de uma língua, de cada um dos Portugueses que falamos. Eles são, parece-me, científicos, isto é,sobretudo linguísticos, históricos, isto é sobretudo os que explicam como o contacto entre os povos se iniciou e como evoluiu, e culturais, isto é sobretudo os que derivam da riqueza dos contributos locais e autóctones, mas também do contacto com outras culturas e outras línguas. Mas também podem ser políticos, económicos, sociais... Como vêem, é uma tarefa demasiado complicada para ser devidamente abordada aqui e agora sobretudo por mim, que não sou especialista em nenhuma das áreas. Parafraseando Mia Couto, legítimo representante de um dos registos da nossa língua comum, venho aqui brincar no Português, a língua. Essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique (Couto, 2001) ou, permito-me alterar, que nos faz a nós, comunidade lusófona, ficarmos mais comunidade...

11 P.11 Limito-me, pois, neste gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o voo (id.)- as palavras continuam a ser de Mia Couto -, a fazer a constatação de que, falando todos Português, falamos um Português diferente. E falamos todos Português porque temos a tal matriz comum que, depois, é enriquecida pela ocorrência dos tais fenómenos de que falava há pouco e que, por conseguinte, a modificam. E qual é, então, a nossa matriz comum? É um código linguístico que deriva do Indo-Europeu, do ramo Românico, constituído como corpus neste minúsculo rectângulo à beira-mar, de onde derivou para outras partes do mundo. Como língua românica, o Português sofre, por definição, uma forte influência do Latim. Mas, seja na variante europeia ou africana, ou americana, foi incorporando outros contributos, de outras culturas, que fizeram dele a língua que cada um de nós hoje fala. E é, precisamente, o contributo da cultura anglo-saxónica no Português actual que me leva a partilhar convosco as reflexões que apresento de seguida. Cientificamente chamados de estrangeirismos, os vocábulos que entram no corpus de uma língua vindos de uma outra língua, transformam-se, mais ou menos rapidamente, em vocábulos que perfilhamos e de cuja origem, não raro, perdemos a noção. Vou apresentar-vos três exemplos, que correspondem à influência de outros tantos fenómenos, de três vocábulos ou expressões que todos os Portugueses adoptaram e incorporaram no seu dia-a-dia. 1. FUTEBOL UMA PALAVRA COXA Quem, hoje, tem consciência de que a palavra futebol é um estrangeirismo? Em todos os cantos onde se fala Português, se usa o vocábulo. Teremos, no entanto, a noção de que, paradoxal e nada apropriadamente, se trata de um vocábulo coxo? Como se sabe, futebol designa um jogo, em que duas equipas de onze jogadores disputam uma bola, usando os pés, com o objectivo de a introduzir na baliza adversária. Trata-se de uma deturpação do Inglês football, em que foot significa pé e ball significa bola. Quase todas as línguas adoptaram a designação proveniente da origem britânica da palavra, embora algumas a tenham adaptado ao seu idioma. Em castelhano, por exemplo, o jogo designa-se, muitas vezes, por balonpié, e em alemão Fussball (de Fuss, pé, e Ball, bola).

12 P.12 Já em italiano, o jogo designa-se por calcio, ou seja pontapé, criando-se, assim, uma palavra nova, que tem pouco que ver com a palavra original inglesa, a não ser à alusão implícita a pé, mas que tem o mérito de transmitir a mesma ideia através de uma palavra totalmente original. Em português, optou-se por deturpar a palavra inglesa, adaptando apenas a grafia, perdendo-se, neste processo, a raiz original. Ou seja, nem se utiliza uma palavra portuguesa que transponha para a nossa língua a ideia original, como fazem espanhóis e alemães, nem se usa o original. Aliás, o mesmo se passa com outros desportos, como andebol (de hand, mão, e ball, bola), ou basquetebol (de basket, cesto e ball). O problema resolve-se no uso da língua, já que o jogo é, muitas vezes, designado, em linguagem popular por bola, como na expressão, Vamos à bola! Curioso é o caso do inglês americano, em que football designa um jogo que constitui uma mistura, porventura mais musculada, como, geralmente, acontece na transposição de alguns desportos para os Estados Unidos, entre futebol e râguebi. Por isso, se distingue entre football e soccer. Este último, deriva da expressão Football Association, constituindo, assim, uma abreviatura sincopada de association. Já agora, Football Association foi uma associação criada na Inglaterra, no final do século XIX, com o objectivo de definir as regras do futebol que, até então, e desde o seu nascimento como jogo, vivia uma fase de grande confusão e falta de regras bem definidas - qualquer jogador podia, por exemplo, jogar a bola com a mão (como faziam em Rugby). Muitas das regras então impostas por aquela Associação são as que se mantêm ainda hoje. Aliás, a entidade que regulamenta o futebol na Inglaterra continua a ser a Football Association. Para distinguir o jogo que obedece às regras definidas por esta associação, passou-se a chamar-se-lhe soccer. E aqui está um fenómeno linguístico em operação: a metonímia. Esse mesmo fenómeno está presente na própria designação original do jogo, em Inglês, uma vez que football designa a bola que se joga com o pé e passou a designar o jogo que se joga com tal objecto. Ou seja, neste caso concreto e, igualmente, no caso de outros vocábulos e expressões ligados a este desporto como golo, penálti, chutar... deu-se um aportuguesamento dos vocábulos, não tendo eles vida própria fora do respectivo

13 P.13 contexto. Parece-me que, no caso de futebol, todos escrevemos do mesmo modo, embora o possamos pronunciar de modo distinto. 2. UM BIFE DE SOJA?! A história das designações utilizadas na língua inglesa para referir as diversas carnes de consumo humano é das mais curiosas e interessantes. E conta-se em poucas palavras. Acontece que a Inglaterra foi invadida no século onze pelos Normandos, povo vindo do Norte de França, e cujo chefe, Guilherme da Normandia, foi, após a conquista da ilha, entronado como chefe também da então Inglaterra, ou terra dos Anglos. Como sempre sucede nestes casos, os conquistadores passaram, naturalmente, à categoria de senhores, enquanto a maioria dos conquistados era remetida a um papel de servidão. Ora, os senhores, de origem francesa, recordemo-lo, quando entendiam que era chegada a hora de tomarem a sua refeição, ordenavam aos servos, Ingleses, tenhamos em conta, que lhes preparassem o banquete. E então os servos escolhiam o animal que haveriam de preparar e cozinhar para levar à mesa dos seus amos. Para eles, servos e Ingleses, aquele animal de cauda pequena e retorcida e narinas avantajadas, que gostava de chafurdar na porcaria, era um pig. O problema é que para os senhores, Franceses, o mesmo animal, já preparada e pronto a comer que chegava à sua mesa era, nem mais nem menos, do que um porc, designação que lhes chegara do Latim porcus. Sucedia, portanto, esta coisa curiosa de a mesma criatura ter duas designações: uma para o animal vivo (pig), como era conhecida pelos Ingleses, e outra para o animal morto (porc), ou seja a respectiva carne, como era usada pelos Franceses... Esta distinção subsistiu e existe ainda hoje no Inglês. Não se espere, pois, que um Inglês diga, olhando para um porco na pocilga, What a fine pork! (Que belo porco!); ele dirá, isso sim, What a fine pig! Já num restaurante em Inglaterra, ninguém espere encontrar no menu, roasted pig ( porco assado ), porque o que encontrará é, sim roasted pork... E o que sucedeu ao pobre suíno foi a sorte de outros animais usados no consumo humano. Para os Ingleses veal (vitela), para os Franceses veau; para os Ingleses sheep (carneiro), para os Franceses mutton, e por aí adiante. Do Francês transferiram-se, ainda, para o Inglês, nesta área vocabular, loin (de loigne), lombo, sausage (de saussiche), salsicha ou chouriço e outras. Nem todos os animais de

14 P.14 consumo humano, no entanto, sofrem deste problema de dupla identidade, desconhecendo-se a razão. O caso mais curioso, no entanto, até pelas implicações que tem na nossa língua é o da palavra inglesa beef. Esta tem origem no Francês boeuf e designa carne de animal vacuum. É um caso de dupla identidade: aquilo que para Ingleses era cow (vaca) ou ox (boi), para os Franceses, era boeuf. Assim sendo, beef não designa um pedaço de carne de determinada parte do corpo do animal apropriado para grelhar ou fritar inteiro, mas quer dizer, simplesmente, carne de vaca. Foi esta confusão que deu origem ao nosso bife. Para nós um bife é, de facto, um pedaço de carne grelhado ou frito, indistintamente do animal de onde sai apesar de o Dicionário da Academia das Ciências registar a palavra como designando uma fatia de carne de bovino, que se serve grelhada ou frita..., referindo-se à sua origem etimológica como derivando do ingl. carne de vaca. O que é certo é que utilizamos bife no sentido mais lato, acima descrito. Temos, assim, bifes de vaca, o que constitui um pleonasmo, mas temos também, o que constitui uma grande asneira, bifes de peru, bifes de porco e, até, bifes de atum. Mas a maior incongruência, neste particular, até pelo desrespeito pelos princípios seguidos pelos vegetarianos, é a existência, calcule-se, de bifes de soja! Acontece, ainda, uma outra curiosidade à volta do bife e que demonstra bem as voltas que, por vezes, as palavras levam. É que os Ingleses usam o vocábulo steak para designar aquilo a que nós chamamos, impropriamente, bife. Temos, assim, um porksteak, ou bife de porco ou beefsteak, bife de vaca. Ora, os Franceses utilizam hoje bifteck com o mesmo significado de beefsteak trata-se, aliás, de uma evidente deturpação da expressão original. Em França se utiliza, também, rosbif, que deriva do Inglês roastbeef e que nós em Português designamos de rosbife. Ou seja, tendo sido os Franceses, mais propriamente os Normandos, a ensinar aos Ingleses a palavra boeuf, que estes últimos adaptaram para beef, foram, depois, os Ingleses a introduzir no léxico francês o vocábulo bifteck, o qual tem, na sua raiz, a mesma palavra que os Franceses levaram para Inglaterra OS MASS MEDIA OU UM CASO DE DUPLA IDENTIDADE Ora aqui está uma expressão que anda, literalmente, nas bocas do mundo, sendo, muitas vezes, usada abreviadamente como [os] media. A expressão, propriamente dita, foi vulgarizada na Língua Inglesa, a qual a foi buscar, sem dúvida, ao Latim.

15 P.15 Esta circunstância levanta uma série de questões, nem sempre pacíficas. Uma delas diz respeito à etimologia da própria expressão. O Dicionário da Academia das Ciências atribui a etimologia da expressão à língua Inglesa: na entrada respectiva a referência etimológica é descrita como derivando (...) (Do ingl. <mass> media meios de comunicação de massas, do lat. media meios ). Ora, se não há dúvidas de que mass, deriva do Latim massa/ae, que significa conjunto, já a origem de media não é tão clara. Na verdade, em Latim existem os vocábulos medium/ii, como substantivo, significando meio, centro, lugar central, lugar público, bem comum de interesse geral, ou medius/a/um, como adjectivo, aqui tomando o significado de o que está no centro, central, ou intermediário. Nos dicionários consultados, não se encontra nenhuma referência à existência, em Latim, de media com o significado de meios, isto é, instrumentos, recursos. Porém, o Dicionário da Academia regista, assim o vocábulo meio: Meio (...) s.m. (Do lat. medium) (...) 9. Recursos empregues para alcançar um objectivo. ~_ Expediente, método (...) 11. Aquilo que exerce uma função intermediária na realização de alguma coisa. ~_ Via (...) meios de comunicação (...) meios de comunicação social, veículos de difusão de informação à opinião pública Nesta acepção, independentemente do significado final, medium é sempre entendido como constituindo a origem etimológica de meios. Deve registar-se, no entanto, que qualquer recurso que se utilize para alcançar um objectivo (definição 9. acima) é, nem mais nem menos, do que um intermediário, isto é, exerce uma função intermediária (definição 11. acima) entre o que se pretende fazer e o que se faz se eu quero transmitir aquilo que escrevi utilizo a minha voz, ou um acetato, como meios para o fazer. No mesmo sentido, o Larousse (1988) regista media como n. m. (amér. mass media, intermediaires de masses) (...). Ou seja, a expressão mass media, significará, à letra, aquilo que serve de intermediário entre a mensagem e o público, constituindo, assim, o canal de comunicação que transporta a mensagem entre o emissor e o receptor (o público, ou as massas) cf. definições do Dicionário da Academia e do Larousse. Sendo assim, a origem etimológica de media deverá, parece-me, situar-se na forma neutra de medius, isto é, medium, e não em medium/ii (cf. acima). Não será, pois, legítimo

16 P.16 considerar que a expressão significa algo como (conjunto de) meios de (comunicação de) massas. A outra questão a esclarecer diz respeito ao modo como deve ser pronunciada a expressão. Uma vez que ela chega ao nosso vocabulário através do Inglês como reconhecem quer o Dicionário da Academia, quer o Larousse, quer o próprio Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (Machado, 1977) - devemos utilizar a pronúncia inglesa, isto é [mæss/mass mídia]? Ou, apesar disso, o que conta para nós é que a expressão se forma a partir de dois vocábulos latinos e, portanto, não é legítimo utilizar a pronúncia inglesa, antes se devendo usar a portuguesa, como reflexo directo da influência latina? Para responder a esta dúvida, analisemos, com um pouco mais de detalhe a composição da expressão. Na língua Inglesa existem os dois vocábulos, mass e medium. O primeiro designa, entre outros, um conjunto grande de objectos ou de pessoas, dele derivando o adjectivo massive, como significado de impressionante, invulgarmente grande; não há dúvidas, também, que o vocábulo deriva do Latim, como se explicita acima apesar de, ao que parece, o Latim o ter ido buscar ao Grego maza. Por sua vez, a palavra medium, em Inglês significa, entre outras coisas, pessoa que comunica com os espíritos, isto é, intermediário entre o mundo dos vivos e o dos mortos, bem como outras formas de intermediação, ou, no plural media [mídia], meios usados para comunicar alguma coisa; igualmente, não há dúvidas de que o vocábulo deriva do Latim. Por seu lado, em Português também se usa o vocábulo massa ou massas, para significar um conjunto grande de pessoas como na expressão grande massa de gente, ou falar às massas. Existe, também, meio, para, entre outros significados, designar instrumento ou forma de, ou através de como nas expressões enganar alguém por meio de um estratagema, ou o computador é um meio de comunicação. Assim, de forma a designar em Português o conjunto de meios utilizados para alcançar um grande número de pessoas (ou massa(s)), deveríamos dizer, para manter a construção e estruturas frásicas da nossa Língua, media massa e não mass media. É que esta última estrutura é tipicamente inglesa ou anglo-saxónica, com a inversão da ordem que nós consideramos natural: em expressões compostas, como é o caso, a Língua Inglesa coloca em segundo lugar aquilo que nós, em Português, dizemos em primeiro lugar e vice-versa atente-se, a título de comparação e de

17 P.17 exemplo, nas expressões goal keeper, que significa guarda (keeper)-redes (goal), ou passenger train, isto é comboio (train) de passageiros (passenger). Em suma, se é verdade que cada um dos componentes da expressão mass media, deriva de vocábulos latinos, e, por essa circunstância, se deveria utilizar a pronúncia portuguesa, também não deixa de ser verdade que a expressão, no seu conjunto, é de origem inglesa. Ela surge no vocabulário de variadíssimas línguas mundiais, incluindo o Português, por empréstimo da Língua Inglesa, tratando-se, por conseguinte, de um estrangeirismo, na maioria dessas línguas. Ora, se nas línguas românicas, com origem directa no Latim, se deverá usar a pronúncia latina, nas outras línguas, admite-se que a pronúncia utilizada seja a inglesa. No nosso caso específico, deverá, pois, pronunciar-se como se escreve mass media apesar de tal constituir, por assim, dizer, um aportuguesamento da expressão sublinha-se, da expressão como um todo, e não de cada um dos seus componentes. Se se utilizar, apenas, um dos componentes da expressão, como muitas vezes se faz, dizendo-se os media, para designar os meios (de comunicação social), então, aí, não deve haver dúvidas em dizer como se escreve, e não como se diz em Inglês, isto é [midia]. Reconheço que não é pacífica a forma como acabei de apresentar a questão. É que há dois fundamentalismos aqui, que eu procurei evitar: o dos puristas que defendem que sendo a expressão constituída por dois vocábulos de origem latina, se deverá dizer sempre mass media. A isto respondem os mais cosmopolitas, digamos assim, com o argumento de que foram os Ingleses que inventaram a expressão e que, portanto, se deverá dizer [mass midia]. Marques (2001), por exemplo, é peremptório na defesa da pronúncia latina, acusando os que defendem a pronúncia inglesa de ignorantes ou snobes... (Marques, 2001: 34-35). Acabei de apresentar três exemplos de vocábulos ou expressões que foram incorporados na língua Portuguesa, vindos do Inglês. Foram, como vimos, sujeitos a um processo de aportuguesamento, com diferentes efeitos. No caso de futebol, perdeu-se qualquer ligação etimológica ao vocábulo original. Em bife, aconteceu uma completa adulteração da origem etimológica e da justificação histórica para o surgimento da palavra. Em mass media, o aportuguesamento também aconteceu, mas, vá lá, manteve-se a grafia e a origem etimológica.

18 P.18 Como explicar, então, que no Brasil não só se diga mas se escreva midia? Neste caso, tal como no caso em que se opta pela pronúncia Inglesa, estamos em presença da emergência de um dos outros fenómenos de que falava no início: são as influências culturais, fruto do contacto com a cultura inglesa e americana, que o exigem... O que se faz no Português do Brasil com media é, assim, o que se faz no Português europeu e nas outras variantes, além de outras línguas, em relação a futebol: utilizase um vocábulo cuja grafia e pronúncia foram adaptados, nesse processo se perdendo a respectiva raiz etimológica. Pode a Língua Portuguesa, que todos falamos, alguma vez combater a força da cultura anglo-saxónica e proteger-se da intrusão de vocábulos ou expressões como os que apresentei? A questão será tanto mais pertinente num momento em que parece que caminhamos para uma globalização acelerada e, tantas vezes, cega e em que, neste como noutros domínios, não conseguimos resistir à força das manifestações culturais da cultura anglo-saxónica - no cinema, na música, etc. A dimensão da nossa comunidade, no entanto, talvez justificasse um esforço mais consistente na defesa do património linguístico, de cuja manutenção e enriquecimento, todos somos responsáveis. Termino, recorrendo, uma vez mais a Mia Couto, que, interrogando-se sobre quantas são as dimensões da vida: Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da vida. E quantas são? Se a vida tem é idimensões (...) (id.), afirma: a língua que quero é essa que perde função e se torna carícia. Assim, embarco nesse gozo de ver como escrita e o mundo mutuamente se desobedecem... (id.) 4. BIBLIOGRAFIA Couto, Mia (2001), in Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa: Editorial Verbo Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea Academia das Ciências de Lisboa, Lisboa: Editorial Verbo Ferreira. A. G. (s/d), Dicionário de Latim-Português. Porto: Porto Editora Langenscheidts Taschenwörterbuch Zweiter Teil Deutsch-Portugiesisch, Langenscheidt. Larousse Dictionnaire de la Langue Française Lexis, Paris : Larousse. Longman Dictionary of Contemporary English, Pearson Education Machado, J. P. (1977), Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa. Lisboa: Livros Horizonte. Marques, A. (2001), Tento na Língua!... gralhas que por aí grasnam... erros que por aí grassam, Lisboa: Plátano. Petit Larousse Illustré, Paris : Larousse Sykes, J. B. (Ed.) (1976), The Concise Oxford Dictionary. Oxford: Oxford University Press Webster s Encyclopedic Unabridged Dictionary of the English Language, New York: Gramery Books.

19 P LAURA BRANCO, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E LÚCIA VIDAL SOARES, ESCOLA SUPERIOR DE EDUCAÇÃO DE LISBOA 2.1 BRANCO, LAURA Laura Fernandes Cravo Branco, professora requisitada no Departamento de Educação Básica, no Núcleo de Ensino Português no Estrangeiro - Sector Pedagógico, natural de Angola, 49 anos de idade, realizou a sua formação inicial na Escola do Magistério Primário - Luís Gomes Sambo de Benguela, Angola, iniciando a sua vida profissional como professora do 1º ciclo em Setembro 1974, em Angola, e posteriormente em Portugal, até Junho de No início desse ano lectivo ingressou nos Serviços de Ensino Básico e Secundário de Português no Estrangeiro, onde tem desenvolvido a sua actividade, no sector de Apoio Pedagógico, quer na área de materiais pedagógico-didácticos, quer na gestão pedagógica dos dossiers de diversos países onde se leccionam cursos de Língua e Cultura Portuguesas, junto das diversas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, coordenando diversos projectos, quer em Portugal, quer no estrangeiro. Ao longo dos anos tem participado em fora no âmbito das temáticas ligadas à língua portuguesa no mundo, sua promoção e divulgação, quer num registo de língua materna, quer num registo de língua não-materna. Nos anos lectivos de 1992/93 e 1993/94 leccionou cursos de Língua e Cultura Portuguesas nos EUA, na Costa Leste, no estado de Rhode Island. Em 1997 realizou um CESE na área de Ciências da Educação, nomeadamente em Supervisão e Gestão Pedagógica da Formação, com 17 valores. Em 1998/99 realizou a área curricular do mestrado de Relações Interculturais estando, neste momento, para defesa a Dissertação subordinada ao tema Percursos da Língua Portuguesa em Timor SOARES, LÚCIA Lúcia Maria Vidal Soares, professora adjunta da Escola Superior de Educação de Lisboa, mestre em Relações Interculturais pela Universidade Aberta e licenciada em Linguística - Românicas pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Professora de português e francês, em diferentes níveis de ensino, com Estágio Pedagógico do Ensino Preparatório ( 2º grupo). Desde 1979 tem estado directamente ligada à formação contínua de professores e, a partir de 1988 até ao momento, tem sido responsável também pela sua formação inicial. Participou em vários Programas Europeus e nacionais, no âmbito dos quais produziu alguns documentos. Na sequência da investigação realizada para a obtenção do grau de mestre em relações interculturais, na área da sociolinguística, e no âmbito específico do ensino de línguas, tem continuado a apostar num trabalho de investigação direccionado para a relação língua, cultura e sociedade, envolvendo abordagens não só interculturais, mas também interdisciplinares, sobretudo ligado a práticas de sala de aula. O ensino do português como língua não materna tem sido um outro objectivo da sua vida profissional. LAURA BRANCO, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E LÚCIA VIDAL SOARES, Escola Superior de Educação de LISBOA SINOPSE: A LÍNGUA PORTUGUESA COMO TRAÇO DE UNIÃO ENTRE CULTURAS: O CASO DO MANUAL ESCOLAR Quem elabora manuais escolares não pode contentar-se em levar em linha de conta unicamente os eixos pedagógicos (como?) e científicos (o quê?). O seu trabalho inscreve-se num quadro mais vasto que tem que responder ao "porquê?". No caso do manual de língua, ele reflecte uma sociedade. E que representação da sociedade subentende o manual? Como representa outras sociedades? Estas preocupações não visam apenas o autor de manual, mas dependem igualmente de todo o contexto cultural no qual este se insere. Encontram-se, normalmente, expressas na denominada política educativa. Mas uma política educativa não nasce do nada.

20 P.20 Fundamenta-se em: opções de base que levam em conta as prioridades individuais e sociais; valores; na concepção do conhecimento e da cultura, etc.... Uma metodologia construída à volta da relação Língua/Civilização retém o princípio de uma ligação unívoca e indissociável entre a língua e a cultura ensinada e também sobre uma coerência intracultural. Hoje, apregoa-se o ensino comunicativo da língua, mas comunicar não é apenas um meio através do qual se enviam mensagens, mas é sobretudo um meio de interagir com o Outro; comunicar com alguém requer igualmente o estabelecimento de uma relação humana. Mas é ao aprendente de língua estrangeira que compete estabelecer a ligação entre as duas culturas (a sua cultura de origem e a cultura da língua que está a adquirir), este tem que adquirir não só uma certa forma de comunicação intercultural, isto é, capacidade de comunicar (no sentido de estabelecer uma relação humana e ainda no sentido de apreender os significados específicos da cultura corporizados nessa língua). (trabalho final não recebido) 3. CHRYSTELLO, CHRYS J. Chrys Chrystello prestou serviço no exército colonial português sendo destacado para o CTIT (Comando Territorial Independente de Timor) onde chegou em Setembro 1973, regressando a Portugal dois anos mais tarde. Começou então a escrever o seu livro Timor Leste , O Dossier Secreto antes de rumar a Macau em 1976 e posteriormente à Austrália onde se fixou e naturalizou. Ao longo de mais de três décadas de jornalismo político, trabalhou em rádio, televisão e imprensa escrita, tendo sido correspondente estrangeiro durante vários anos da agência noticiosa portuguesa ANOP/LUSA, da RDP/Rádio Comercial, TDM (Macau), J. N., Europeu, PÚBLICO, tendo sido publicado em inúmeros jornais e revistas em todo o mundo, para além de ter escrito guiões de filmes e documentários australianos sobre Timor. Entre 1976 e 1994, data em que se reformou do jornalismo activo, esforçou-se por divulgar a saga do povo timorense que o mundo (incluindo a Austrália e Portugal) teimava em não querer ver. Tendo-se interessado pela linguística ao ser confrontado com mais de 30 dialectos em Timor, descobriu na Austrália provas da chegada ali dos Portugueses ( ) mais de 250 anos antes do capitão Cook, e da existência de tribos aborígenes falando Crioulo Português (herdado quatro séculos antes). Membro Fundador do AUSIT (Australian Institute for Translators and Interpreters) e Examinador da NAATI (National Authority for the Accreditation of Translators and Interpreters) desde os anos 80, e pertencendo a vários órgãos internacionais congéneres, Chrys dedicou as últimas décadas à sociolinguística e tradução, tendo apresentado trabalhos em dezenas de conferências internacionais (da Austrália a Portugal, Espanha, Brasil, EUA e Canadá) onde os temas da língua e cultura portuguesas estão presentes. Tendo concluído em 1999 o seu Master of Arts (mestrado com Major in Applied Social and Communication Studies.) publicou nesse ano, o ensaio político (versão portuguesa) Dossier Timor Leste cuja primeira edição esgotou ao fim de 3 dias. Mais tarde publicou a monografia Crónicas Austrais Actualmente continua a ser Assessor de Literatura (Portuguesa) no Australia Council, UTS (Universidade de Tecnologia de Sydney) e lecciona numa instituição universitária. E CHRYSTELLO, HELENA Desde cedo ligada aos estudos franceses, Helena continua a ensinar e a traduzir com o mesmo vigor, energia e dedicação com que iniciou a sua carreira. Nos últimos anos, tem estado activa em conferências internacionais e em estudos de tradução, tendo organizado seminários internacionais de tradução para académicos e profissionais. Na Austrália impressionou-a o elevado número de turistas que afinal eram habitantes dessa multicultural nação. Depois de estudar o percurso do AUSIT (Australian Institute for Translators and Interpreters) e da NAATI (National Accreditation Authority of Australia) para se estabelecerem na vanguarda do profissionalismo na Tradução, foi ao Canadá estudar a situação naquele país onde a Tradução e o Ensino andam de mão em mão. Depois, regressou a Portugal para terminar uma licenciatura na área da Educação e está a fazer um mestrado em Relações Interculturais aplicadas ao Ensino de Línguas Estrangeiras. É Membro da CATS/ACT (Association Canadienne de Traductologie).

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