PLANO DECENAL DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO DO ESTADO DE RONDÔNIA (VERSÃO PRELIMINAR)

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1 PLANO DECENAL DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO DO ESTADO DE RONDÔNIA () 2014

2 CONFUCIO AIRES MOURA Governador MARCIO ANTONIO FÉLIX RIBEIRO Secretário de Estado de Assistência Social - SEAS PAULO CESAR DE FIGUEIREDO Secretário de Estado de Justiça - SEJUS MASSIMO ARAÚJO DE MESQUITA Coordenação de Assistência Social, Direitos Humanos e Cidadania (CODIR/SEAS) CLAUDEMIR PEREIRA DOS SANTOS Coordenadoria de Atendimento ao Adolescente em conflito com a Lei (CAA/SEJUS)

3 GRUPO DE TRABALHO DO PLANO DECENAL DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO SECRETARIA DE ESTADO DE ASSISTENCIA SOCIAL- SEAS SECRETARIA DE ESTADO DE JUSTIÇA SEJUS SECRETARIA DE ESTADO DE SAÚDE SESAU SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO- SEDUC SECRETARIA DE ESTADO DE SEGURANÇA E CIDADANIA SESDEC SECRETARIA DE ESTADO DE FINANÇAS- SEFIN SECRETARIA DE ESTADO DE PLANEJAMENTO - SEPOG TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE RONDÔNIA CORREGEDORIA GERAL E COORDENAÇÃO DA INFÂNCIA E JUVENTUDE DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA. MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE RONDÔNIA CENTRO DE APOIO OPERACIONAL DA INFANCIA (CAO-INF). UNIVERSIDADE FEDERAL DE RONDÔNIA (UNIR) DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS. CONSELHO ESTADUAL DE DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE (CONEDCA) CENTRO DE DEFESA DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE MARIA DOS ANJOS (CDCA/RO).

4 Missão: Executar as medidas socioeducativas com eficiência e eficácia, valorizando a individualidade do socioeducando, pautada no respeito e no direito, fortalecendo os vínculos familiares e comunitários. Visão: Garantir a humanização na execução dos programas/serviços de atendimento socioeducativo, visando a personalização, controle, validação das ações de forma a atender os desejos e as necessidades dos adolescentes e seus familiares, bem como dos servidores atuantes no Sistema Socioeducativo. Valores: Qualificar o atendimento socioeducativo, compreendendo a fase peculiar em que envolve a adolescencia, pautados nos direitos humanos. Valorizar os trabalhadores que atuam no Sistema Socioeducativos com condiçoes necessárias ao exercicio do seu trabalho, e ações que fomentem a ação socioeducativa ao invés da punitiva.

5 Deve-se aprender fazendo a coisa; pelo pensamento você acha que sabe. Você tem certeza, até que você tente (Sófocles, a.c).

6 APRESENTAÇÃO O Grupo de Trabalho para a Construção do Plano Decenal de Atendimento Socioeducativo de Rondônia No período entre 30 de junho a 01 julho houve o Encontro Estadual de Atendimento Socioeducativo, realizado no auditório da EMATER, na cidade de Porto Velho/RO, para tratar da elaboração do Plano Decenal de Atendimento Socioeducativo do Estado de Rondônia. O evento foi realizado pela SEAS e SEJUS. Compareceram técnicos de CRAS (Centro de Referência da Assistência Social) e CREAS (Centro de Referência Especializado em Assistêcia Social) de vários municípios do Estado. Neste primeiro momento, o Encontro Estadual, contou com a presença do Sr. Fernando Silva, consultor do PNUD/SDH-PR, que apresentou subsídios/questionários a serem preenchidos para elaboração dos Planos Estaduais de Atendimento Socioeducativo. A Srª Eliete Cabral, assistente Social do 1º Juizado da Infância e Juventude de Porto Velho, apresentou o Plano Estadual de Medidas Socioeducativas de Posteriormente, tivemos palestras do Sr. Claudemir Pereira dos Santos (Coordenadoria de Atendimento ao Adolescente em Conflito com a Lei - CAA/SEJUS), do professor Francisco Marto, pelo Centro de Defesa da Criança e do Adolescente Maria dos Anjos CDCA/RO, Socioeducador Antônio Cardoso da SEJUS apresentou um breve histórico das ações do programa de Liberdade Assistida e Prestação de Serviço à Comunidade - PLA/PSC e a Coordenadora do CREAS/MSEMA/PVH, a psicóloga Kellen Renata. No Encontro Estadual, foi formado um Grupo de Trabalho (GT) com o objetivo de articular, mobilizar e planejar ações, em conjunto com os atores envolvidos no Sistema Socioeducativo. O GT é coordenado pela Secretaria de Estado de Assistência Social (SEAS) e a Secretaria de Estado de Justiça (SEJUS), articuladores do Colegiado Gestor Estadual de Medidas, instituído através do Decreto N.º , publicado no Diário Oficial do Estado de Rondônia sob o n.º 2211.

7 O GT estabeleceu como meta de trabalho encaminhar, através da SEAS, aos municípios, questionários referente ao atendimento dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio-aberto. O Grupo de Trabalho realizou a primeira reunião no dia 17 de julho de 2014 e nela estavam presentes: SEAS, SEJUS, SEFIN, SEPOG, TJ, CONEDCA, UNIR e CDCA. Porém, foram convidados todos os atores envolvidos que contribuem para a garantia dos direitos voltados para a socioeducação dos adolescentes em cumprimento de medidas. O GT realizou mais de 20 reuniões. No primeiro momento os encontros aconteciam às quintas-feiras na sala de reunião da SEAS. Porém, devido à urgência da audiência pública, algumas reuniões ocorreram na terça-feira. A audiência pública sobre o Plano Decenal das Medidas Socioeducativas foi realizada no dia 16 de setembro de 2014, no auditório do Ministério Público Estadual. Participaram mais de cem (100) pessoas de diversos órgãos entre a Sociedade Civil, o Judiciário, o Executivo e o Ministério Público. Nos dias 02, 03 e 04 de setembro o Grupo de Trabalho realizou visitas nas unidades socioeducativas com a finalidade de aplicar questionários e conhecer a realidade do sistema socioeducativo na capital. E no dia 04 aplicou-se questionário aos gestores das Medidas Socioeducativas do meio-aberto no CREAS/MSEMAS. No dia 05, os membros do GT que fizeram as visitas às unidades do meio aberto e fechado realizaram reunião para socializar e sistematizar as informações, as quais seguiram ocorrendo semanalmente até a sistematização completa. Nos dias 13 e 14 de novembro, o GT esteve reunido com o sr. Fernando Silva, consultor do PNUD/SDH-PR, para apresentar as metas e os objetivos do plano Decenal e adequar o plano segundo as orientações da Secretaria de Direitos Humanos. Nesse período, de 17 a 21 de novembro, de construção do Plano Decenal houve o 2º Congresso de Socioeducação realizado pelo Tribunal de Justiça, através do primeiro juízado da Infância e Juventude. No Congresso, o Juízado de Infâcia e Juventude apresentou o Plano Decenal do TJ. Houve uma discussão sobre a regionalização do Judiciário e, neste momento, houve uma tentativa de integrar as

8 propostas de regionalização do executivo, quanto do judiciário em relação às Medidas Socioeducativas. Depois de todas as reuniões e discussões, o Grupo de sistematização começou a elaborar a versão preliminar do Plano para aprovação ao CONEDCA. Tal grupo foi composto por: Barby de Bittencourt Martins (docente do Departamento de Ciências Sociais/UNIR), Ana Karla da Silva Feitosa (Gerência da Criança, Adolescente e Juventude/SEAS), Inaê Nogueira Level (Socióloga/CDCA Maria dos Anjos) e Daniela Bentes (MP/RO). 1. Introdução A discussão gerada em torno do tema criança não é algo novo. Ela nos remete a pelo menos dois milênios. O escritor do livro de Provérbios (22:6) já se manifestara ao declarar: Ensina a criança no caminho em que andar, e, ainda quando for velha, não se desviará dele. Essa frase já demonstrava que há dois mil anos os conflitos em famílias existiam. Basta lembrar que o primeiro assassinato, que a história registra, aconteceu (ABEL e CAIM) no seio familiar. Outro caso acontecido em família foi a venda de José para ser escravizado no Egito, pelos irmãos mais velhos. A história registra que a venda (comercialização, escravização) de pessoas foi a base do desenvolvimento das grandes economias agrárias, industrial e comercial. Posteriormente o cuidado com as crianças remonta milênios. O pensador francês Jean Jaques Rousseau diz que a criança precisa de liberdade para se expressar com segurança, sem medo de errar. A autonomia é importante para o desenvolvimento global da criança, pois ela necessita de liberdade e conquistas para que ela possa se conhecer. E essa liberdade de movimento deve ser preservada mesmo quando a criança cresce, uma vez que seus efeitos serão benéficos para o desenvolvimento do seu corpo. Uma criança sem liberdade de expressão vive em um mundo de escravidão; em relação às suas necessidades, não consegue desenvolver e nem aprender.

9 Em o "Homem e seus Símbolos", Carl Gustav Jung, apud Führer, 2005, diz que a vida é vista como uma guerra: A triste verdade é que a vida do homem consiste de um complexo de fatores antagônicos inexoráveis: o dia e a noite, o nascimento e a morte, a felicidade e o sofrimento, o bem e o mal.. Não nos resta nem a certeza de que um dia um destes fatores vai prevalecer sobre o outro, que o bem vai se transformar em mal, ou que a alegria há de derrotar a dor. A vida é uma batalha. Sempre foi e sempre será. E se tal não acontecesse ela chegaria ao fim (Führer, 2005, p.18). A legislação brasileira reconhece e preconiza a família, enquanto estrutura vital, lugar essencial à humanização e à socialização da criança e do adolescente, espaço ideal e privilegiado para desenvolvimento dos indivíduos. Contudo, a história social das crianças, dos adolescentes e das famílias revela que estas encontraram e ainda encontram inúmeras dificuldades para proteger e educar seus filhos. Tais dificuldades fora traduzidas pelo Estado em um discurso sobre uma pretensa incapacidade da família de orientar os seus filhos. Ao longo de muitas décadas, este foi o argumento ideológico que possibilitou ao Poder Público, o desenvolvimento de políticas paternalistas voltadas para o controle e a contenção social, principalmente para a população mais pobre, com total descaso pela preservação de seus vínculos familiares. Essa desqualificação das famílias em situação de pobreza, tratadas como incapazes, deu sustentação ideológica à prática recorrente da suspensão provisória do poder familiar e, consequência disso, muitos pais passaram a descumprir os seus deveres em relação aos filhos. A engenharia construída com o sistema de proteção e assistência, sobretudo, durante o século passado, permitiu que qualquer criança ou adolescente, por sua condição de pobreza, estivesse sujeita a enquadrar-se no raio da ação da Justiça e da assistência, que sob o argumento de prender para proteger confinavam-nas em grandes instituições totais (Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Criança, 2006, p.19). Entretanto, a Constituição Federal estabelece que a família é a base da sociedade (Art. 226) e que, portanto, compete a ela, juntamente com o Estado, a

10 sociedade em geral e as comunidades, assegurar à criança e ao adolescente o exercício de seus direitos fundamentais (Art. 227). Em face desse papel de mecanismo de promoção e proteção dos direitos humanos, no tocante às relações familiares, a Constituição Federal rompe com o paradigma anterior. Visando garantir e respeitar os Direitos Humanos, o Brasil ratifica em caráter especial os marcos normativos, tais como as Declarações sobre Direitos da criança (1924/1959), a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), a Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (1948), o Pacto de São José da Costa Rica (1969), o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, sociais e Culturais (1966, ratificado em 1992) e o Protocolo Adicional à Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional Relativo à Prevenção Repressão e Punição do Tráfico de Pessoas, em especial Mulheres e Crianças (ratificado pelo Brasil em 2004). Assim, crianças e adolescentes percebidas enquanto sujeitos de direitos passam a ter garantidos em lei os direitos à liberdade, à dignidade à integridade física, psíquica e moral, à educação, à saúde, à proteção no trabalho, à assistência social, à cultura, ao lazer, ao desporto, à habitação, a um meio ambiente de qualidade e outros direitos individuais indisponíveis, sociais, difusos e coletivos (Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa do Direito de Criança e Adolescente à Convivência Familiar e Comunitária, 2006, p.24). Os direitos de humanos e especialmente os relacionados à infância são assegurados através dos seguintes instrumentos: declaração de Genebra (1924) Adotada pela Liga das Nações Reconhece o dever da humanidade em relação à infância a quem cabe protegê-la acima de qualquer consideração de raça, nacionalidade ou crença (SOUZA, 2008, p.22). Declaração Universal dos Direitos do Homem. Adotada e proclamada pela Resolução nº 217-a (III) da Assembleia Geral das nações Unidas (ONU), em 10/12/1948. Fixou alguns princípios de proteção à família e seus membros declarando, expressamente, em seu art. 25 item 2, que a maternidade e a infância têm

11 direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas dentro ou fora do matrimonio gozarão da mesma proteção social (SOUZA,2008, P. 22). Outros instrumentos tais como: Declaração Universal dos Direitos da Criança- Aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10/11/1959, da qual o Brasil é um signatário; Convenção Interamericana de Direitos Humanos (OEA 1969), ratificada pelo Brasil em 06/11/1992 pelo Decreto nº 678; Convenção sobre os Direitos da Criança (CDC) da ONU- Resolução 44/25 da ONU, de 20/11/1989, ratificada pelo Brasil pelo Decreto nº , de 21/09/1990 (SOUZA, 2008, P. 23). Ainda, as Diretrizes de Ryad para prevenção de delinquência juvenil - ONU (1990). Resolução nº 45/112, de 14/12/1990. Determina que a prevenção de delinquência juvenil é fundamental para prevenir o crime na sociedade e que os jovens podem e devem desenvolver atividade não criminais. Determinam também que devem ser estabelecidos serviços e programas de caráter comunitário que respondam às necessidades dos jovens e ofereçam a eles e às suas famílias, assessoria e orientação adequada. Estabelecem finalmente que, somente em ultimo caso, deverão os jovens ser internados em instituições e pelo menor tempo necessário. Concentram-se na prevenção da delinquência juvenil mediante a participação de todas as camadas da sociedade e a adoção de uma abordagem voltada à criança. No sentido de fomentar ações de prevenção da delinquência o instrumento define o papel da família, da educação, da comunidade e da mídia para as massas, e ainda estabelece o papel e a responsabilidade da política social, da legislação, da administração e coordenação de política. As diretrizes exortam os Estados e a elaborar e programar planos abrangentes, em todos os níveis de Governo, para a prevenção da delinquência juvenil. Deve haver pessoal especializado em todos níveis (SOUZA, 2008,p. 25). Regra Mínima das nações Unidas para a proteção de jovens privados de liberdade ONU (1990), de acordo com a resolução nº 45/113, de 14/12/1990. Essas regras têm como objetivo estabelecer as normas mínimas para proteção dos privados de liberdade em todo o mundo, devendo ser garantido o direito de desfrutar de atividades e programas úteis que sirvam para fomentar o desenvolvimento saudável e com dignidade, promovendo seu sentido de responsabilidade. É um instrumento elaborado para assegurar que as crianças e adolescentes privados de sua liberdade sejam mantidos em instituições somente quando houver uma necessidade absoluta de fazê-lo. As crianças e adolescentes detidos devem ser tratados humanamente, com consideração por sua condição e com respeito total a seus direitos humanos, pois, ao serem privados de sua liberdade são altamente vulneráveis a abusos,

12 vitimização e violações de seus direitos, sendo esta mais uma razão para que sua detenção permaneça uma medida a ser tomada em último caso (SOUZA, 2008, p. 25). Porém a realidade brasileira e, mais especificamente, a rondoniense difere do que a ONU propõe como regra, sendo as unidades socioeducativas, em sua grande maioria, estão incapacitadas de cumprir o que a lei preconiza, pois não há programas estatais para fomentar o desenvolvimemento saudável dos adolescentes em cumprimento de medidas socieducativas. 2. Histórico do Sistema Socioeducativo em Rondônia A partir da lei n 8.069/1990 o Estado de Rondônia definiu através do Decreto n. 5548, de 08 de maio de 1992, que o acompanhamento dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa seria responsabilidade da Fundação de Amparo ao Carente e Ação Social de Rondônia, através do Centro profissionalizante do Menor Masculino, no Bairro Costa e Silva, na Capital Porto Velho. O atendimento no Centro foi realizado até novembro de 1993, devido o episódio da destruição e depredação do prédio decorrente de conflitos existentes entre a clientela atendida no Centro e a comunidade próxima ao local. Em junho de 1994, através do Decreto n. 6400, o Governador do Estado revoga o Decreto n 5548/92 e passa para o âmbito da Secretaria de Justiça e Cidadania SEJUCI, a responsabilidade da execução das Medidas de Internação e Semi-Liberdade, que passaram a ser desenvolvidas nas dependências da Delegacia da Criança e do Adolescente, em caráter emergencial e provisório. O Governo do Estado de Rondônia no ano de 2000, através da Lei Complementar Estadual n. 224, de 04 de janeiro de 2000, definiu um comando único para as ações de assistência social e garantia de direitos, no Estado, atribuindo tal missão Institucional a Fundação de Assistência Social FASER. Com a estruturação da Fundação ficou a Gerência de Atendimento a Criança e ao Adolescente GCA, com a

13 competência de coordenar e executar as ações destinadas as Medidas Socioeducativas no Estado. O Decreto nº 8970 de 31 de janeiro de 2000, dispõe sobre a estrutura básica e estabelece as competências da Fundação de Assistência Social FASER. Durante o período em que a FASER coordenou o atendimetno dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação, houve muitas rebeliões, conflitos nas unidades socioeducativas, ocasionando o primeiro assassinato em 2002 de um interno na unidade Rio de Janeiro, Porto Velho, sendo veiculado a notícia na mídia e acompanhado pelos organismos da socioedade civil organizada. (p. 7, Ata da Audiência pública sobre o Sistema Socioeducativo, realizada pelo Fórum DCA/RO). Nesse Cenário, o Estado vigente, através do Decreto n , de 30 de agosto de 2002, criou a Comissão Estadual para Reestruturar os Programas de Medidas Sócios Educativas, que dentre suas atribuições ficaram responsavel de Proceder ao levantamento da situação do sistema de atendimento ao adolescente autor de ato infracional em todo o Estado, gerenciar e executar as ações e os programas já existentes e sistematizar o Programa de Execução das Medidas Sócio Educativas de Internação e Semi-Liberdade do Estado de Rondônia. Na epóca foi proposto um projeto para criação de uma Fundação especifica para atender as Medidas Sócio Educativa no Estado, aprovada pela Resolução n. 073 do CONEDCA/RO. Em 2007, houve novamente por parte do Governo, outra mudança com relação a Gestão do Sistema Socioeducativo, desta vez, vinculando o sistema de atendimento socioeducativo à responsabilidade da SEJUS-Secretaria de Justiça, através da Lei Complementar 412 de De 2007 a 2013 a SEJUS, via Coordenadoria de atendimento a Criança e o Adolescente em Conflito com a Lei (CAA) executou as Medidas Socioeducativas em Regime de Meio Aberto - Liberdade Assistida (LA) e Prestação de Serviço a Comunidade (PSC). Em 2009 foi criado o Núcleo dos Programas de LA e PSC, com equipe composta por pedagogos cedidos pela Secretaria de Estado da Educação SEDUC via termo de cooperação técnica de nº 001/2009.

14 A execução de tais medidas pelo Poder Executivo Estadual se deu enquanto os Municípios e especificamente Porto Velho, constituísse seu programa de atendimento em local específico, bem como adquirisse os recursos técnicos e humanos. Na época, o Municipio atendia parte dos atendimentos dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa em meio-aberto, através do Projeto Fenix e a CAA a maioria dos adolescentes, sendo realizada um termo, onde o repasse da CAA para o município seria de forma gradativa. A partir de 2008, em ambito Estadual, com a realização do concurso para socioeducadores no Ambito da o atendimento ganhou uma nova roupagem, na tentativa de oferecer atendimento humanizado e voltado para a socioeducação. Em 2011, Porto Velho assume as medidas socioeducativas em meio-aberto, através do Centro Especializado da Assistencia Social (CREAS), tendo um quadro de funcionários concursados efetivos, visando uma melhoria no atendimento socioeducativo em meio-aberto. Atualmente, as medidas socioeduativas no Estado, não possui um orgão gestor estadual responsavel pelo Sistema Socioeducativo de Rondonia, sendo as Medidas Socioeducativas de Internação, executadas e acompanhadas pela SEJUS e as medidas socioeducativas em meio-aberto, monitoradas e acompanhadas pela SEAS, criada a partir do Decreto nº 14770, de 3 de Dezembro de 2009, a Secretaria Estadual de Assistência Social (SEAS), através da Gerencia de Políticas Estratégicas para a criança, adolescente e Juventude. 3. Diagnóstico do Sistema Socioeducativo em Rondônia Para a elaboração do marco situacional do sistema de medidas socioeducativas em Rondonia foram realizadas visitas do GT às Unidades de Atendimento na capital Porto Velho RO e, devido à urgência, foram enviados questionários a serem preenchidos pelas Secretarias Municipais, responsáveis pela MSE do Meio Aberto no interior do Estado, bem como à gestão das Unidades do Meio fechado. Através de

15 sucessivas reuniões e encontros, o GT coletou dados junto ao Ministério Público de Rondônia, 1º Juizado da Infância e Juventude de Porto Velho, CONEDCA, entre outras instituições que pudessem proporcionar acesso a informações acerca da socioeducação em Rondônia. Todavia, a alternativa mais eficiente para que se conheça de fato a realidade de determinado objeto é o contato com o mesmo de forma sistemática. Assim, sugere-se que ao longo da próxima década possa ser realizado um acompanhamento in loco por parte do GT, ou comissão a ser constituída, para manter uma averiguação da situação do Sistema de Medida Socioeducativa de forma contínua. O Ministério Público de Rondônia disponibilizou o Relatório Anual de 2013, cujos dados referem-se ao interstício de março de 2013 a março de Além disso, disponibilizou o Relatório da Resolução n.º 67/2011 intitulado Um olhar atento às unidades de internação e semiliberdade para Adolescentes, elaborado pelo Conselho Nacional do Ministério Público. Através do 1.º Juizado da Infância e Juventude de Porto Velho/RO foi possível ter acesso ao Relatório do Núcleo Psicossocial, material bastante significativo para compreender a realidade dos adolescentes em conflito com a lei na cidade de Porto Velho. Apesar dos dados se referirem apenas à capital do Estado, é razoável a utilização dos mesmos para contribuir nesse diagnóstico, tendo em vista que Porto Velho concentra 41,7% dos adolescentes em cumprimento de medida em Meio Fechado e 47% dos adolescentes em Meio Aberto. Deve-se fazer abrir um parêntese a essa altura para que se esclareça a seguinte situação: a precária manutenção de informações sobre os adolescentes em conflito com a lei, assim como dos adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa por parte dos órgãos gestores e o desencontro metodológico e temporal dos dados que foram possíveis obter ao longo do trabalho do GT resultam em uma análise de recortes. Sendo assim, um paralelo comparativo e um desenho evolutivo da situação encontrados no Estado não foram viáveis. Entretanto, o presente diagnóstico esboça um cenário a partir das informações captadas junto às fontes que disponibilizaram o acesso às mesmas. Para a elaboração deste marco situacional, foram utilizados dados de diversas fontes e destaca-se que as mesmas não se comunicam entre si no quesito metodológico. As

16 informações obtidas junto ao Ministério Público de Rondônia referem-se ao período de 2013 a 2014, e as informações obtidas junto ao Judiciário referem-se aos anos de 2012 e 2013 e concentram-se na ótica da capital Porto Velho. Ainda acerca dos questionários aplicados aos municípios e às unidades de internação, o retorno dessas informações foi obtido em outubro de Além disso, segundo a SEJUS não há armazenamento de informações por recorte temporal do sistema socioeducativo, e o acompanhamento das informações do quantitativo de internos das unidades é realizado semanal e mensalmente Dessa forma, os dados coletados pelo GT se referem às últimas informações recebidas da SEJUS e que datam da segunda semana de novembro do ano de Quanto à realidade da socioeducação em meio aberto, os dados foram obtidos através dos Relatórios de Monitoramento de 2011 e 2012, realizados pela SEAS com informações fornecidas pelos Municípios. Em se tratando de Brasil, Rondônia acompanha o quadro geral, no qual prepondera a representatividade do sexo masculino em relação às adolescentes do sexo feminino (p. 48, CNMP). Quanto à faixa etária dos adolescentes em conflito com a lei, percebe-se a concentração do número de adolescentes na faixa dos 16 a 18 anos de idade, como indica o Relatório do Núcleo Psicossocial do 1º Juizado da Infância e Juventude de Porto Velho. Essa é outra tendência nacional que pode ser encontrada na realidade de Rondônia. De acordo com o retorno dos questionários e a tabulação dos dados enviados pelos municípios, em outubro de 2014, havia um total de 961 adolescentes em cumprimento de medidas em meio aberto. Deste total, 571 adolescentes estavam cumprindo Prestação de Serviços à Comunidade (PSC) e 390 adolescentes estavam em Liberdade Assistida (LA). A partir desses dados, é possível afirmar que a capital Porto Velho congrega 47% do quantitativo de adolescentes em cumprimento dessas medidas. No Meio Aberto, as adolescentes representam 20% do quantitativo identificado, evidenciando um percentual significativo frente ao panorama brasileiro.

17 No que tange ao perfil dos atos infracionais, o cenário da Capital demonstra que o roubo figura como o ato mais cometido entre os adolescentes (65%), seguido pelo homicídio (15%). Nota-se, novamente, uma tendência que acompanha os dados nacionais apontadados pelo Relatório do CNMP, onde o roubo também configura enquanto o ato infracional mais praticado entre os adolescentes. Quanto à situação do sistema socioeducativo, é razoável traçar algumas linhas gerais que configuram caráter geral no Estado. Nesse sentido, urge especial atenção por parte do Estado direcionar o foco das preocupações para o quadro de recursos humanos. Ao longo do diagnóstico, e através das mais diversas fontes, foi possível perceber que há um déficit no que tange ao número de técnicos necessários para o atendimento com qualidade e, também, nota-se uma ausência de formação continuada para os trabalhadores da socioeducação. A excelência do atendimento não pode prescindir da qualificação dos socioeducadores e dos técnicos que cotidianamente se deparam com situações novas, as quais requerem preparo do trabalhador em socioeducação. Salienta-se a importância de contínua discussão sobre a socioeducação, direitos humanos, educação, questões sociais, entre outros temas que são pertinentes e qque precisam ser debatidos constantemente pelos trabalhadores do sistema socioeducativo, inclusive para que a política de socioeducação seja compreendida enquanto tal e não como uma política penitenciária. Nesse sentido, a qualificação de tais trabalhadores foi um ponto frágil encontrado e que, portanto, precisa ser revista ao longo dos próximos dez anos. Além disso, outra questão que emerge nesse panorama é o número de técnicos muito aquém do adequado para se cumprir um plano de trabalho de qualidade e que culmine nos objetivos da socioeducação. O sucesso dessa política socioeducacional depende da presença de uma equipe técnica mínima que permita a elaboração dos Planos Individuais de Atendimento dos adolescentes tanto em meio aberto quanto meio fechado. O PIA, enquanto instrumento de previsão das atividades a serem desenvolvidas, possui um papel fundamental para o sucesso da política de atendimento

18 e, por isso, deve ser construído por uma equipe interdisciplinar mínima e capaz de atender a toda demanda do sistema socioeducativo, sistema esse que deve respeitar o número máximo de adolescentes por equipe para que haja um atendimento de qualidade. Entretanto, a realidade de Rondônia apresenta uma deficiência nesse quesito. Muitos profissionais cumprem jornadas em mais de uma unidade, e isso quando não estão se dividindo entre o sistema socioeducativo e o penitenciário. Não há um acompanhamento integrado por parte dos técnicos em relação à evolução do processo socioeducativo, tendo em vista a dificuldade de trabalho multidisciplinar com equipes incompletas. Quanto à realidade do Meio Aberto, a quantidade de adolescentes é alta e somada a isso, existe a dificuldade em captar orientadores sociais suficientes para o acompanhamento dos jovens. Duas constatações permitem inferir o quanto se torna importante investir nos recursos humanos do sistema socioeducativo. A primeira delas refere-se à ociosidade dos adolescentes em cumprimento de medida, a ausência quase que completa de atividades de cunho profissionalizante, de cultura ou de lazer nas unidades de Rondônia. E a segunda, a reincidência. O percentual de reincidência de internação é de 28% em Porto Velho, o que evidencia a falta de estrutura da política de atendimento que contribui de maneira destacada para o fortalecimento da reicidência e da passagem desses jovens egressos desse sistema para o sistema prisional (Relatório de 2013, p. 53) sistematização Outra questão importante a se destacar é o evidente gargalo existente na de informações sobre o sistema socioeducativo, o que prejudica a avaliação da política de atendimento. Toda política pública necessita de constante monitoramento e avaliação, e esses processos dependem da manutenção de informações. A partir do retorno dos questionários enviados ao interior, a constatação primeira pautou-se na ausência da sistematização periódica dos dados referentes à política de atendimento, bem como os que se referem aos adolescentes atendidos pelo

19 sistema. No entanto, essa situação prejudica o ciclo de monitoramento da política e consequentemente a sua avaliação, resultando em significativa falha na gestão da política pública. De acordo com a leitura da Ata de Reunião por Videoconferência do MP de Rondônia, datada em 06 de outubro de 2014, sobre o Plano Estadual de Atendimento Socioeducativo, é possível pontuar outras questões acerca do atual cenário. No que tange à capacidade quantitativa de vagas para internação, Rondônia obteve um aumento de 5% dessa capacidade entre 2013 e 2014, bem como uma baixa no número de ocupações das vagas existentes. Todavia, o espaço físico das unidades de meio fechado demonstram não terem estrutura para garantir determinados direitos aos adolescentes, como a visita íntima, a manutenção dos filhos próximos às adolescentes lactantes, bem como espaços para a prática de esportes, cultura e lazer. Além disso, um fator de destaque é a ausência de programas de atendimento aos egressos. Nesse ponto, cabe destacar que o déficit do número de técnicos incide nesse resultado de forma preponderante, assim como a inexistência da medida de semiliberdade. Sobre a semiliberdade, destaca-se que as informações sistematizadas pelo GT apontam para uma dubiedade no que se refere a essa medida. O MP-RO verifica a ausência de tal medida, entretanto os dados cedidos pela SEJUS apontam a existência de semiliberdade em dois municípios, Cacoal e Alvorada do Oeste. Cabe destacar que esses dados devem ter servido de subsídio para o Relatório do CNMP, pois há evidências no mesmo de que existe semiliberdade em Rondônia. Entretanto, em audiência pública realizada este ano fora constatada a inexistência da semiliberdade e a inclusão da medida como meta do Plano Decenal, o que não fora contestado pela Secretaria de Justiça naquele momento. Sendo assim, é razoável admitir que partindo da inexistência de tal medida no estado de Rondônia, se faz necessária a instituição da medida como meio de efetivar o direito dos adolescentes em cumprirem um regime de transição para o meio aberto, bem como evitar a superlotação das unidade do meio fechado.

20 O Meio Fechado no Estado de Rondônia possui 16 (dezesseis) unidades de internação socioeducativa, distribuídas em 13 (treze) Municípios, no eixo da BR 364: Ariquemes, Jaru, Ji-paraná, Cacoal, Pimenta Bueno e Vilhena. Na Região da zona da mata: Rolim de Moura, Nova Brasilandia, Alta Floresta e Alvorada do Oeste. Na fronteira Brasil-Bolívia, há uma unidade em Guajará Mirim. Na Região do Cone Sul, além de Vilhena há uma no Município de Cerejeiras. Apenas o Município de Porto Velho possui 4 (quatro) unidades de internação e dentre estas, há uma unidade específica para a medida de internação provisória e uma unidade feminina. Os municípios no interior do Estado não possuem unidades específicas para adolescentes em cumprimento de medida em regime provisório, além de unidades femininas. Cabe salientar que as estruturas físicas das unidades para cumprimento de medidas socioeducativas devem ser pedagógicas adequadas ao desenvolvimento da ação socioeducativa. Contudo, através da aplicação dos questionários às unidades de internação, foi possível verificar que as deficiências mais salientes resultam das péssimas condições da infra-estrutura física das unidades. A falta de espaço físico e a insalubridade das unidades, percebidas em visitas feitas pelo GT e corroboradas pelos dados do Relatório do CNMP de 2013, apenas apontam a necessidade de investimentos na melhoria dos espaços físicos das unidades de internação. O adolescente em cumprimento de medida de privação de liberdade já está sendo afastado do convívio familiar e social, entretanto, os atores envolvidos no processo da socioeducação devem assegurar o acesso aos demais direitos do adolescente. Quanto aos Programas de Atendimento Socioedutaivo, é importante salientar que atualmente, 9 (nove) unidades não possuem seus programas registrados nos respectivos conselhos municipais de direitos da criança e do adolescente, restando apenas 7 unidades que possuem o referido registro. Além disso, apenas 5 (cinco) unidades possuem o Alvará de Funcionamento, num total de 16 unidades no Estado de Rondônia.

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