UNIVERSIDADE VALE DO RIO DOCE UNIVALE FACULDADE DE DIREITO, CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS E ECONÔMICAS FADE

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1 UNIVERSIDADE VALE DO RIO DOCE UNIVALE FACULDADE DE DIREITO, CIÊNCIAS ADMINISTRATIVAS E ECONÔMICAS FADE DIEGO TORRES MAFRA GILBERTO DE OLIVEIRA RAFAEL MOURA DUARTE A PARTICIPAÇÃO NO SUICÍDIO SEGUNDO O CÓDIGO PENAL BRASILEIRO GOVERNADOR VALADARES MG 2008

2 2 DIEGO TORRES MAFRA GILBERTO DE OLIVEIRA RAFAEL MOURA DUARTE A PARTICIPAÇÃO NO SUICÍDIO SEGUNDO O CÓDIGO PENAL BRASILEIRO Monografia apresentada ao curso de Direito da Universidade Vale do Rio Doce UNIVALE, como requisito indispensável à obtenção do título de Bacharel em Direito. Orientador: Fabrinny Neves Guimarães GOVERNADOR VALADARES MG 2008

3 3 DIEGO TORRES MAFRA GILBERTO DE OLIVEIRA RAFAEL MOURA DUARTE A PARTICIPAÇÃO NO SUICÍDIO SEGUNDO O CÓDIGO PENAL BRASILEIRO Monografia apresentada ao curso de Direito da Universidade Vale do Rio Doce UNIVALE, como requisito indispensável à obtenção do título de Bacharel em Direito. Aprovados ( ) Aprovados com louvor ( ) Aprovados com restrições ( ) Reprovados ( ) Professor: Professor (a): Orientador: Fabrinny Neves Guimarães Professor (a): GOVERNADOR VALADARES MG 2008

4 Dedicamos esta monografia às nossas famílias, pela luta, amor e dedicação a nós oferecidos. 4

5 Nossos profundos agradecimentos a Deus, aos nossos pais e avós pela educação e atenção dedicada; Agradecemos ao nosso amigo Lélio Braga Calhau pela amizade e oportunidades de estudos, que só vieram a enriquecer e abrilhantar nossos conhecimentos jurídicos. 5

6 A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência. Ghandi. 6

7 7 RESUMO DUARTE, Rafael Moura, MAFRA, Diego Torres, OLIVEIRA, Gilberto de. A participação no suicídio segundo o Código Penal Brasileiro, Monografia (Graduação em Direito). Faculdade de Direito, Ciências Administrativas e Econômicas da Universidade Vale do Rio Doce UNIVALE, Governador Valadares, MG. O presente estudo justifica se pela complexidade do ato de tirar a própria vida, pelas limitações e impasses que envolvem o suicida e os participantes do suicídio, particularidades estas, pouco evidentes e de grande importância para o conhecimento da sociedade. Fazer com que referidas ações tenham por escopo ser ponte para a aplicação de medidas preventivas, educativas, e didáticas, tanto para os profissionais do âmbito jurídico, como para os profissionais da saúde pública, é uma questão que deve imperar. Nesse sentido, embora o suicídio no Brasil seja taxativamente o menor a nível mundial, uma das grandes preocupações nos dias atuais, e requisito do trabalho, é objetivar vertentes sociológicas, filosófica e jurídica no que tange ligação direta ao suicídio, visando não somente conceitos valiosos, mas também a valia aos costumes e ao bem estar, benefício estes, importantes no tratamento e auxílio dos indivíduos, muitas vezes encontrados em estados caóticos ou depressivos, ou, àqueles que vivenciam um dia a dia sob alto nível de stress ou problemas inteiramente ligados ao suicídio e suas diferentes vertentes. Leva nos a diferentes mundos ou classes, demonstrando mais uma vez, que os fatos geradores do suicídio e sua origem sob a ótica penal podem e devem alcançar patamares valorosos e enriquecidos de matéria e instrumentação, com a resultante na incessante busca à finalidade primordial para se fazer valer um dos princípios constitucionais tão bem expressos e tão escasso no nosso ordenamento jurídico, principalmente nas classes mais baixas, a dignidade humana. Palavras chave: Suicídio, suicida, vida, sociedade, participantes.

8 8 ABSTRACT DUARTE, Rafael Moura, MAFRA, Diego Torres, OLIVEIRA, Gilberto de. The participation in the suicide according to Brazilian Criminal Code, Monograph (Right Graduation). Administrative and Economic Law School, Sciences of the University Vale do Rio Doce UNIVALE, Governador Valadares/MG, Brazil. The present study it is justified for complexity of the act to take off the proper life, for the limitations and impasses that they involve the suicidal and the participants of the suicide, particularitities these, little evident and of great importance for the knowledge of the society, being that such actions have for purpose, to be bridge for the application of writs of prevention, educative, and didactics, as much for the professionals of the legal scope, as much for the professionals of the medicine. In this direction, even so the suicide in Brazil is taxing the minor the world wide level, the great concern in the current days, and one of the requirements of the present work, it is to bring sociological and legal knowledge in what it refers to direct bonding to the suicide, aiming at not only related concepts valuable, but as the delivery to the depressive individuals or to that they live under high level of stress and litigations, exposing to these classrooms the different on aspects to the criminal type in screen, so that thus, they reach the basic and safe knowledge, having as primordial purpose, a necessity that today reveals very scarce, fullness, human dignity. Key words: Suicide, suicidal, life, society, participants.

9 9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO BREVES APONTAMENTOS ACERCA DO SUICÍDIO ANÁLISE HISTÓRICA O SUICÍDIO E A SOCIEDADE A SOCIOLOGIA E FILOSOFIA NO SUICÍDIO O suicídio sob o ponto de vista de Émile Durkheim O suicídio sob o ponto de vista de Cesare Beccaria O suicídio sob o ponto de vista de Albert Camus SUICIDOLOGIA PRINCIPAIS CAUSAS DO SUICÍDIO INDICADORES DE RISCO INDUZIMENTO E INSTIGAÇÃO AO SUICÍDIO ELEMENTOS NORMATIVOS DO TIPO O induzimento como forma de participação moral A instigação como forma de participação moral SUJEITO ATIVO SUJEITO PASSIVO PRESTAÇÃO DE AUXÍLIO POR OMISSÃO IMPOSSIBILIDADE NA 36 VISÃO MINORITÁRIA PRESTAÇÃO DE AUXÍLIO POR OMISSÃO POSSIBILIDADE NA 38 VISÃO MAJORITÁRIA CONDIÇÕES DE PUNIBILIDADE FORMAS QUALIFICADAS DO DELITO Motivo egoístico Vítima menor de idade Capacidade de resistência da vítima diminuída por qualquer 44 causa: art. 122, parágrafo único, inciso II PACTO DE MORTE TESTEMUNHAS DE JEOVÁ GREVE DE FOME ROLETA RUSSA CONCLUSÃO... 49

10 REFERÊNCIAS

11 11 1 INTRODUÇÃO A presente pesquisa busca o espelhamento de um assunto escasso e pouco discutido no Brasil; tal seja o suicídio. Faremos menção ao fenômeno, explanando conceitos, abordando o quadrante histórico, sociológico e filosófico, diferenciando paralelamente as visões de grandes pensadores como Émile Durkheim, Cesare Beccaria e Albert Camus. Por seu turno, será externada a questão das causas e indicadores de risco, evidentes e relevantes acerca do suicídio. Além disso, serão expostas as condutas malogradas no delito tipificado no artigo 122, do Código Penal Brasileiro, que dispõe de três tipos, duas de caráter moral e outro material, reflexos da participação no suicídio; são elas: induzir, instigar e prestar auxílio. No que tange ao suicídio, sabemos que é um enigma que se dá por diversos fatores, sejam eles sociais, econômicos, psicológicos, ou até mesmo em virtude de doenças graves, reações estas que serão explicadas mais adiante. O enfoque principal do trabalho será a figura dos divergentes entendimentos doutrinários; tais sejam aqueles que prevêem a possibilidade de participação por omissão, como também, o entendimento minoritário e contrário, que entende a não possibilidade de auxílio por omissão, questões que de fato são controvertidas e motivo de discussões em Tribunais e doutrinas, e também serão enfocados com veemência no estudo proposto. Sendo assim, pela natureza do crime, o trabalho se atentará a aspectos fundamentais, sem os quais não poderia ser possível aludido crime, onde não poderemos também deixar de olvidar a essência e importância característica do sujeito ativo e passivo referente ao artigo legal em comento, configurando e complementando a estrutura do elemento objetivo e subjetivo do crime. Por fim, ao concurso de pessoas e a tentativa culposa, serão detalhadamente expostos, de maneira hábil e consistente, demonstrando o papel de cada um dentro do campo do suicídio. Além disso, apresentaremos as formas agravadas dentro da participação do suicídio, buscando o teor de cada uma, e por sua vez, a figura do suicídio assistido, tema de enorme relevância, para a posterior e definitiva conclusão do combatente estudo.

12 12 2 BREVES APONTAMENTOS ACERCA DO SUICÍDIO Aparentemente, parece fácil distinguir o verdadeiro conceito para o suicídio, porém, essa não é a realidade. No Brasil, muitos pensadores e estudiosos da área possuem opiniões conceituais diversas. Não obstante, o suicídio é um ato verdadeiramente complexo e pouco debatido no Brasil e nessa linha chega se a uma conclusão que o tema suicídio se revela altamente escasso, seja em livros, ou quaisquer meios da mídia no nosso país. Assim, temos que além das dificuldades de levar o conteúdo para a pertinente interação à sociedade e a outros fatos sociais considerados mais pertinentes, é extremamente reunir elementos hábeis para formular uma cadeia de estudos e propostas positivas sobre o suicídio, mas em que pese essa atual situação, cremos que num futuro próximo o tema estará desmistificado e sob o altere de todos os cidadãos no país. O suicídio (do latim sui caedere), termo criado por Desfontaines, matar se, é um ato que consiste em tirar intencionalmente à própria vida. Tal termo foi descoberto em 1737, sob a análise de que a pessoa, pelo próprio desejo de escapar de uma situação negativa, decide tirar a própria vida. No país, a figura do suicida com a preemente idéia de por fim à própria vida, nos tem revelado vários aspectos enigmáticos, que não poderiam deixar de serem postos em análise. Sendo assim, atentar se á primeiramente à natureza do lugar, forma como foi encontrada a vítima, vestigíos na cena do crime, para chegarmos a duas possíveis conclusões atinentes ao caso, ou seja, se houve suicídio ou se houve participação no suicídio. A perícia e testemunhas nesse tipo de situação é fundamental para se chegar à conclusão referente à possibilidade de ter havido ou não indícios de autoria ou materialidade por parte do participante. p. 167) o suicídio é: Para Bromberg, Kovács, e Carvalhos, (1996, p. 80 apud KOVÁCS, 1992, Um ato muito complexo, portanto não pode ser considerado em todos os casos como psicose ou como decorrente de desordem social. Também não pode ser ligado de forma simplista a um determinado acontecimento, como rompimento amoroso ou perda de emprego. Trata se de um processo que pode ter tido o seu início na infância, embora os motivos alegados sejam tão somente os fatores desencadeantes.

13 13 Nessa mesma esteira, para Nucci, (2007 p. 561): É a morte voluntária, que, segundo Durkheim, resulta, direta ou indiretamente, de um ato positivo ou negativo, realizado pela própria vítima, a qual sabia dever produzir este resultado, chamando se, ainda, autocídio e autoquiria. (Odon Ramos Maranhão, Curso básico de medicina legal, p. 222). Em virtude disso, o suicídio é o ato complexo decorrente de um fator social negativo ou positivo que leva o indivíduo a ser induzido, instigado ou auxiliado de modo material ou omissivo a tirar intencionalmente sua própria vida. A conceituação popular, frequentemente afirma que o suicídio é ato único de ceifar a própria vida. Segundo Costa Júnior, (1999 p. 261) o suicídio é a destruição intencional da própria vida. Entende se, por suicídio, supressão voluntária e consciente da própria vida. Constitui estranho fenômeno de patologia social, que em vários de seus aspectos tem desafiado os observadores. Muitos autores adotam este pensamento, mas o que também não podemos deixar de observar, são as causas, se no caso concreto é evidente algum transtorno social, ou qualquer outra informação que possa influenciar o suicida, ou até mesmo o induzidor, instigador e aquele que tem a vontade de participar materialmente no crime, que muitas vezes levam o indivíduo a transformar facilmente a vida em morte. No entendimento conceitual de Grecco, (2005 p. 223): O suicídio, também denominado pela medicina de autocídio e autoquiria, é um dos enigmas que envolvem a humanidade. A falta de esperança, a ausência completa de qualquer resposta aos seus problemas, o desconhecimento da pessoa de Deus podem levar alguém a eliminar a própria vida. O suicida, em virtude do desespero de que é acometido, pratica o ato extremo de matar se, entendendoo como única e última resposta a tudo que enfrenta. E ainda mais afundo percebemos que um dos principais tabus da sociedade é o suicídio, pois este demonstra a necessidade de aprofundamentos no que diz respeito ao crime do art. 122 do CP, o estudo jurídico e psicológico na figura do crime e do criminoso, pois o Direito enxerga na figura do suicídio uma afronta aos costumes, à religiosidade, à vida em conjunto, justamente por ser um fato de resultados drásticos, que causa abalo na sociedade em geral.

14 14 Para Cassorla (1992, p. 20): O indivíduo suicida, ou se mata, ou (geralmente com ajuda profissional) se permite pensar e controlar seus impulsos, e assim se humaniza. A humanidade também, ou pensa e se humaniza, ou se exterminará. Nesse enfoque, é bem verdade, e não podemos deixar de polemizar a importância do suicídio, principalmente no que se refere à saúde pública, basta direcionarmos nossa atenção e compreendermos os índices de mortes por suicídio, seus paradigmas, as tentativas infrutíferas na prática a si mesmo a autoquiria (termo usado para o suicídio). Far se á necessária a apuração das causas que levam o indivíduo a participar do suicídio, e mesmo que a participação seja mínima, deve haver um controle mais rígido, para se saber a origem ou se houver, as causas. Será que podemos afirmar se essas causas são diretamente causadas pelo que a mídia nos propõe? Que embora muitas vezes, influenciam sim, a sociedade de maneira estrondosa em determinados assuntos, com ideologias vis e publicidades enganosas? Ou se são outras as causas, buscando se trabalhar efetivamente estas, incentivando a busca pela prevenção, e não à repressão, ou o preconceito, visando apurar a realidade social de determinadas regiões, onde o nível de suicídios e questões ligadas esteja acontecendo crescentemente, para assim, alcançar com tranqüilidade e efetivo controle o campo da prevenção e definição razoável dos fatores numéricos ligado ao índice de suicídios. 2.1 ANÁLISE HISTÓRICA O processo histórico do suicídio inaugurou se na antiguidade, naquela época o suicídio era considerado crime. Em outros países como a Inglaterra, este ato se estendia aos membros da família do suicida, e, por conseqüência, tinham punições indiretas como, a exposição do cadáver nas ruas, ridicularizações com o corpo em público, etc.

15 15 Na história do Egito, temos o suicídio de Cleópatra. Em Cartago eram também freqüentes os suicídios. Amílcar matou se humilhado por uma derrota e Aníbal suicidou se para não cair nas mãos dos seus inimigos. Código, rei de Atenas, se matou para livrar o seu país dos horrores da guerra. Na idade média, surgiam com mais vigores as "punições" aos cadáveres dos suicidas, como a negativa de sepultamento em solo consagrado, as mutilações, e rituais especiais, derivados de várias superstições, como o vampirismo. Outra conseqüência era que naquela forma de Estado, a punição recaía sobre os cadáveres dos autoquiristas (pessoas voltadas para o suicídio), já que cortavam seus membros, e em determinadas ocasiões, cabeças eram erguidas a público, ou, partes do corpo humano, como: braços e pernas eram enterrados em longínquos e diferentes locais, para que a família do infrator não pudesse oferecer orações ou adorações. Contudo, em algumas regiões e épocas diversas o suicídio era tolerado, inclusive sendo considerado um ato corajoso e nobre nas batalhas, ou ainda, considerado forma de negativa de rendição ou traição de seu povo. Referentemente ao islamismo, religião fundada pelo profeta Maomé, o suicídio é fortemente repudiado, mais do que em qualquer outra religião, sendo penalizada até a família do suicida, que passa a ser desonrada e marginalizada pelas ações do autoquirista. No ocidente, o renascimento, com seu apelo à razão, e o Iluminismo, por seu igual apelo à razão, a tolerância e o liberalismo tenderam a diminuir a repressão ao suicídio, considerando equivocadas as censuras religiosas a esse fenômeno. As regras acerca do suicídio na Antiga Roma, durante o seu período republicano, eram semelhantes às dos gregos, e o suicídio era consideravelmente reprovado e tratado como forma de enfraquecimento do grupo social, devendo os interessados em tirar a própria vida apresentar as razões do suicídio, para que o senado viesse a analisar o caso. Tem se, que o cristianismo influenciou diretamente na questão do suicídio, pois compreendia o mandamento Não matarás (Êxodo 20.13), era considerado como um crime gravíssimo, equiparado ao homicídio. Em determinadas regiões, as punições chegavam ao extremo, com o arrastamento de cadáveres pelas ruas, de modo cruel e torturoso. Não podemos deixar de mencionar, que o suicídio vai contra o 5º mandamento na Lei de Deus.

16 16 merecem ser vistas: Nesse diapasão, Capez, (2003, p. 84) nos tece algumas lições que O Direito Canônico equiparou o homicídio ao suicídio a ponto de, sob as Ordenações de São Luís, ser instaurado processo contra o cadáver do suicida, sendo seus bens confiscados. Em algumas cidades, o cadáver do suicida, segundo os estatutos, devia ser suspenso pelos pés e arrastado pelas ruas, com o rosto voltado para o chão. Com relação às Escrituras divinas, temos os registros dos suicídios de Abimileque, de Saúl, de Aquitofel, de Zambri e alguns outros. Prosseguindo no exame do processo histórico, durante a Revolução Francesa, a mesma desencadeou a primeira "desincriminação" do suicídio pela Europa Moderna. Tanto que não há qualquer referência dessa conduta no Código Penal Francês de 1791 ou no Código Napoleônico de Oportuno salientar, que os questionamentos de ordem econômica e política deslegitimavam o suicídio. Os escravos eram proibidos de suicidar se pelo prejuízo (eram comprados ou dados em garantias de dívida) que causavam aos seus donos senhores. Sob a concepção de um Estado "cidade estado" de caráter racional, o indivíduo não tinha mais decisão pessoal sobre a vida dele, não podendo se suicidar sem a prévia autorização da comunidade. O suicídio era inautorizado e considerado uma transgressão. No Oriente, as tradições e as culturas são peculiares e demonstram diferenças claras em relação a outras regiões do mundo. O suicídio é comum no Japão Moderno, sendo adotado o método haraquiri (ritual de suicídio usado pela espada nos momentos de traição, indignidade e deslealdade para com o próximo). No Japão Antigo havia a tradição do seppuku (espécie de suicídio praticado para defender a dignidade e a honra dos samurais nas batalhas). Na África, quando os filhos nasciam mortos, as mães se suicidavam, em razão da dor e do impacto infeliz pela perda de um filho. No passado, não muito distante, precisamente nos momentos de guerras e confrontos, havia a figura dos camicases (membros do corpo de voluntários da aeronáutica japonesa), que no final da 2.ª Guerra Mundial foram treinados para o combate aéreo e oferecer pelo país, a qualquer custo, as suas vidas contra os inimigos de guerra, que eram, na sua maioria os navios.

17 17 Nesse mesmo aparato, podemos citar o filme A Conquista da Honra (2007, Clint Eastwood), que nos conta a guerra entre americanos e japoneses na Ilha de Iwo Jima, na 2ª Guerra Mundial, revelando nos uma situação que por certo, causou choque à população mundial que assistiu ao filme, pelo impacto que a guerra causou e até hoje causa, direta e indiretamente. No aspecto decisivo das guerras, os soldados não poderiam se suicidar, pois enfraqueceria o batalhão. Curiosamente, nesse último caso, o suicídio equivalia à deserção, e o soldado que não lograsse êxito ao se matar, ele próprio era morto pelo pelotão de fuzilamento, essa era a pena para o desertor. Nesse contexto, um dos primeiros projetos do Código Penal a inserir o delito de auxílio ao suicídio ocorreu em 1822 e teve grande influência sobre o Código Criminal Brasileiro de Em seu artigo 196 punia se o auxílio ao suicídio com a pena de prisão de 2 (dois) a 6 (seis) anos. Assim era a definição: "Ajudará alguém a suicidar se ou fornecer lhe meios para este fim como conhecimento de causa". Nosso Código Penal do Império não previa a incriminação do suicídio ou da tentativa do suicídio. O Código Penal de 1890 já incluía na definição do delito a forma de induzir: "Induzir ou ajudar alguém a suicidar se, ou para esse fim fornecer lhe meios com conhecimento de causa" (art. 299). A pena era a prisão celular, por dois a quatro anos. Não havia o crime sem a superveniência do resultado da morte. Na configuração do delito, o legislador brasileiro inspirou se no Código Penal italiano de 1930 (art. 580), adotando, porém técnica superior. Desprezou o modelo do Código Penal suíço (art. 115), segundo o qual o auxílio ou induzimento ao suicídio só é punível se a ação for praticada por motivo egoístico. Nossa lei fez de tal fim de agir apenas uma agravante. O Código Penal de 1969 mantendo basicamente as disposições da lei anterior introduziu como crime menos grave a "provocação indireta ao suicídio", que se configura quando o agente, desumana, e reiteradamente inflige maus tratos a alguém sob sua autoridade ou dependência, levando a, em razão disso, à prática do suicídio (art. 123, 2º). Na idade contemporânea, o fenômeno do suicídio mereceu as mais variadas formas de pesquisa e interpretação psiquiátrica, sociológica e filosófica. No que compete à religiosidade, a postura da Igreja Católica também se modifica: o

18 18 suicídio passa a ser encarado como uma decorrência de problemas psicológicos, retirando a "responsabilidade moral" do suicida. Os códigos penais das nações deixam de considerar o suicídio como a figura delitiva, tendo como último país ocidental a abolir a criminalização da conduta a Inglaterra, em Ressalte se, que o que foi abolido foi o suicídio propriamente dito, convindo dizer que o agente responde criminalmente, acaso cometa o crime de assistência, sendo normalmente punível. Assim, o contexto histórico sobre o tema em estudo, tem evoluído de maneira gradativa, pois cada país possui seus sistemas de político criminal e sanções diversificados. Cumpre salientar, que as mudanças têm sido positivas, apesar dos progressos e aceleração incontrolada que o mundo de hoje nos traz, ou impõe, sob todos os reflexos dele originados. 2.2 O SUICÍDIO E A SOCIEDADE Dentro do contexto atual do suicido, presenciamos nas sociedades, grande tolerância, e embora não seja considerado, o ato em si, crime; ainda é muito repreendido nas religiões católica e judaica. Os tempos modernos revelam especificamente no Brasil, que o suicídio tem crescido gradativamente, principalmente na classe mais jovem. Vários fatores estão ligados a essa crescente, em primeiro lugar está à depressão, causa esta ligada desde o momento da criação do ato cogitação ao suicídio, até a intenção de fato. Porém, deve se deixar claro que existem outras propostas ligadas à suicidologia, campo que estuda a concepção e projetos ligados ao domínio e investigação do suicídio e as condutas suicidas. No tocante ao aspecto atual religioso do suicídio, vale citarmos Bromberg, Kovács, e Carvalhos, (1996, p. 88): No Brasil, atualmente, o suicídio não é ilegal, mas dar assistência a ele é crime. O Código Penal Brasileiro, no Art. 122, propõe como ações criminosas o induzir, o instigar e o auxiliar o suicídio. Mas o suicida não é considerado um criminoso e sim um doente. Do ponto de vista religioso, no entanto, ainda existem condenações, como, por

19 19 exemplo, nas religiões católica e judaica, as quais dão um tratamento diferencial ao suicida nos funerais. No Brasil, em que pese grande parte da população entender que a depressão afeta somente a classe adulta; entendem erroneamente, pois o mal desta doença, requisito indicador de risco ao suicídio, afeta consideravelmente aos jovens. A depressão, em muitos casos inicia se desde a fase da adolescência, e agrava se na fase adulta, acarretando isolamentos, e até desencadeamento de outras doenças. Sob esse enfoque, várias são as doenças mentais que estão conectadas na vítima, inclusive o participante de suicídio, pois o último é munido dessas motivações negativas para influenciar ou interferir na vida de uma pessoa, a saber: transtorno de conduta, problemas sentimentais, reações na família, fracasso escolar, timidez, religião, drogas e fatores de ordem sexual. No tocante ao suicida ou a vítima, por diversas causas entende haver para si a desnecessidade em viver, e o participante, por sua vez, em também não estar vivendo o melhor dos momentos, deseja o infortúnio alheio. Significativo esclarecer, no que toca à questão técnico jurídica, o crime de participação no suicídio é acessório, ele depende da ação da vítima, que é a figura principal, se esta se permanecer inerte diante das ações do partícipe, o caso é atípico e não haverá crime. A participação no crime descrito no art. 122 do CP, pelo fenômeno que é, tem características diversas, é um crime comum, que pode ser praticado por qualquer pessoa, instantâneo de efeito permanente, e no nosso entendimento, de certa forma, é cogitado, preparado, e executado até mesmo mais de uma vez, caso a tentativa seja perfeita ou inacabada, tendo duas possíveis resultantes, a consumação com a morte ou a tentativa infrutífera. Não obstante, dependendo da complexidade do caso, o suicídio é elaborado em detalhes e procedimentos a serem seguidos à risca pelo suicida, como um ritual. Como se sabe, os sintomas mais presentes nos dias de hoje, principalmente nos adolescentes é racionado de maneira infeliz ou angustiante, muitos pensam que a vida não tem mais sentido, ou que não há razão para viver. Há também há questões ligadas à família, como o sentimento de culpa por algum fato, ou de estar sendo um fardo ou empecilho para os pais.

20 20 De acordo com estes fatores, depuramos que são indicadores de risco de extrema gravidade, que deveriam chamar a atenção dos órgãos públicos de saúde, a atentar e estudar mais zelosamente estes casos. Os suicidas, em sua grande maioria, não se matam simplesmente por nada, por plena vontade, e o que tem acontecido em muitas regiões pelo Brasil é que na maioria dos casos registrados, os suicidas se encontram em desespero, e procuram não enfrentar com razoabilidade os problemas que a sociedade e a vida lhes impõem. Segundo o autor italiano Cesare Pavese ( ), o suicídio pode ser compreendido como uma solução falida e mal adaptada de uma crise provocada pelo estresse real em uma pessoa psiquiatricamente predisposta. Esta descrição é retirada da própria biografia de Pavese, o qual cometeu suicídio no pico de sua carreira, mas, segundo seu diário, vinha refletindo sobre isso por muitos anos antes (Scherbaum, 1997). É relevante considerar, demonstrando a atual situação do suicídio no Brasil, temos que 4,9 de pessoas a cada 100 mil morrem por suicídio. Inegável dizer que felizmente é uma das menores médias do mundo, o que deveria atrair mais a atenção das pessoas, com relevado foco e alcance, já que estamos literalmente com um índice razoável para o país em que vivemos. A título de índices, no estado do Rio Grande do Sul, o qual se revela o maior em mortes por suicídios, o número é expressivo (11 para cada 100 mil habitantes), sendo Porto Alegre a capital com maior taxa de suicídios (11,9 para cada 100 mil habitantes). Já a cidade brasileira com elevado índice de suicidas é o Município de Venâncio Aires RS, com mais de 40 casos a cada 100 mil habitantes. Ao estudarmos o suicídio no Brasil depreendemos um fator revelador, qual seja a não punição da pessoa do suicida por razões político criminais, pois como se pode punir uma coisa que já está morta? Ou uma pessoa que já não tolera mais as inconstâncias e paradigmas da vida? É bem sabido que a conduta de penalizar um cadáver, ou mesmo uma pessoa em patente angústia e desespero não existe há séculos. Outro motivo, nessa mesma linha de raciocínio, seria não reprimir criminalmente o suicida, por caráter meramente solidário e social, para que o mesmo não se sinta ameaçado por uma possível ação penal, ou seja, caso tente se

21 21 matar, seria invocar um conflito moral, senão contra a dignidade humana, princípio tão combatido em nosso ordenamento jurídico. A pena não pode passar da pessoa do delinqüente (art. 5º, XLV, da CF), é o que dispõe a CF. Mais que isso, se houvesse a penalização do ato de dispor da própria vida, sem dúvidas a situação iria se agravar a partir do momento que alguém estivesse em total desespero, imbuído de uma dor inexorável, conduzido a ceifar a própria vida. Cremos que a referida criminalização só iria aumentar a vontade do indivíduo no gesto de autodestruição. O suicídio na verdade tem um propósito, tirar a própria vida. Mas por quê? Qual a razão? A resposta é simples, o ato de tirar a própria vida pode decorrer como fator de última instância, de caráter secundário, e um dos aspectos ligados a esse ato pode decorrer de um quadro grave, como a carência de estabilidade econômicofinanceira, afetividade, família, saúde, motivação, requisitos importantes para qualquer pessoa. É preciso mudar, trabalhar políticas criminais, prevenir e atuar em conjunto com o campo da saúde pública, especificamente o autocídio (suicídio), bem como prevenir e reprimir o partícipe, para que não continue crescendo o número de soldados da morte. A verdade é que os indivíduos, ao cogitarem o cometimento de suicídio, são levados por situações, que por si só, chegaram aos seus limites, ou seja, as chances de se reerguerem na sociedade estão se esgotando, de modo que já não consegue se ter uma solução mínima. É assunto bastante controverso a questão da participação do suicídio, mas a solução, consoante dito está em deixar de lado os fatores negativos e focarmos em ações positivas e solidárias, dedicando nos a uma única força objetiva, tais sejam trazer a restauração de vidas. Outra questão a ser considerada, em relação ao suicídio, é que há variações consideráveis de um país para outro, que parecem depender da índole e cultura de cada povo, onde algumas correlações e aspectos gerais têm sido fixados pelos estudiosos, como exemplo, a estatística referente aos países altamente industrializados e prósperos tendentes a apresentar taxas de suicídio mais elevadas. Destaca se, que a taxa de suicídio se torna bastante regredida nas classes inferiores, conforme relato em algumas pesquisas. As vítimas do suicídio encontram se principalmente entre os membros das profissões liberais, os militares

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