UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSO PROJETO VEZ DO MESTRE

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1 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATU SENSO PROJETO VEZ DO MESTRE CONTRATO DE SEGURO E O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR Aluno: Marcos Antonio Mata de Lacerda Orientador Prof. Dr. Sérgio Ribeiro da Silva Rio de Janeiro 2005

2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU PROJETO A VEZ DO MESTRE CONTRATO DE SEGURO E O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR Apresentação de monografia à Universidade Candido Mendes como condição prévia para a conclusão do Curso de Pós- Graduação Lato Sensu em Direito do Consumidor São os objetivos da monografia perante o curso e não os objetivos do aluno

3 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus, a minha mãe que foi a minha primeira e a eterna educadora, a minha futura esposa, meus amigos, parentes e, a todos que direta e indiretamente, contribuíram para a confecção desse trabalho acadêmico e sua constante atualização.

4 DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho a todos os meus professores pelos quais me incentivaram nesta caminhada, e a todos que tanto colaboraram para a confecção e aperfeiçoamento desse trabalho. Também a meu irmão Paulo, que sempre me incentivou ao estudo. Marcos Antonio M. Lacerda.

5 RESUMO O presente trabalho de natureza monográfica tem por objetivo fazer um estudo do Contrato de Seguro sob a ótica do Código de Proteção do Consumidor. Diante o exposto, verifica-se a aplicação do citado Código nos contratos de seguro, devendo, portanto, suas contratações e cláusulas estarem submetidas aos preceitos estabelecidos no Código de Proteção do Consumidor. Ocorre que, diante da própria natureza jurídica e social dos contratos de seguros, e das características demonstradas, estes possuem cláusulas que limitam o direito do segurado, delimitando os riscos que estão cobertos, com exclusão de alguns. Visando a preservação das relações de consumo entre o segurador e segurado, garantindo-lhe uma convivência justa e harmoniosa, é imperativo que o Código de Defesa do Consumidor se destaque na manutenção dos direitos e garantias, principalmente da parte contratante considerada hipossuficiente (consumidor). Deste modo, as cláusulas limitativas do contrato de seguro destacam-se apenas para limitar o risco do segurador, não podendo de nenhuma forma extrapolar outros direitos ou garantindo vantagem indevida, sobrepondo-se sobre a outra parte contratante, sob pena das mesmas serem consideradas abusivas, e portanto, nulas de pleno direito. Evidentemente que sendo o contrato de seguro uma modalidade de adesão, é imprescindível que o contratado seja tratado numa relação de equivalência, ou seja, tais relações de consumo devem ser claras suficientemente, para que as cláusulas limitativas sejam destacadas no contrato, de maneira que não possa ultrajar e colocar o consumidor em desvantagem.

6 Portanto, as cláusulas limitativas nos contratos de seguro por exemplo, não são proibidas, mas devem estar de acordo com o disposto no Código de Defesa e Proteção do Consumidor, pois, caso contrário, serão consideradas abusivas. METODOLOGIA Os métodos que levaram ao estudo desse trabalho encontram-se nas leituras de livros, jornais, revistas, pesquisa bibliográfica, pesquisa de campo, Súmulas, publicações e acessos aos institutos jurídicos da Internet, sendo uma coleta de dados realizada pela pesquisa bibliográfica e de campo.

7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 08 CAPÍTULO I- 09 O contrato de seguro GENERALIDADES DO CONTRATO DE SEGURO A DIFERENÇA ENTRE "SEGURO" E "PLANO" DE SAÚDE E A RELAÇÃO DE CONSUMO, ENTRE ESTAS EMPRESAS E O DESTINATÁRIO FINAL, ATRAVÉS DOS CONTRATOS DE SAÚDE. 12 CAPÍTULO II - O CÓDIGO DE DEFESA DO CONSUMIDOR 14 - O CDC E AS RELAÇÕES SECURITÁRIAS A BOA FÉ NAS RELAÇÕES DE CONSUMO E A REGRA DA INTERPRETAÇÃO MAIS FAVORÁVEL AO CONSUMIDOR, PRINCIPALMENTE NOS CONTRATOS DE ADESÃO ABUSIVIDADE NOS CONTRATOS DE SEGURO A AUTONOMIA DA VONTADE E "CRISE" DO CONTRATO 20

8 2.4 A FUNÇÃO SOCIAL DO CONTRATO AS CLÁUSULAS LIMITATIVAS DO CONTRATO DE SEGURO INTERPRETAÇÃO DAS CLÁUSULAS LIMITATIVAS DO CONTRATO DE SEGURO EM FACE DO CDC. 25 CAPÍTULO III QUESTÕES POLÊMICAS 27 - OS PACTOS SECURITÁRIOS A MOLÉSTIA PREEXISTENTE O SUICÍDIO INÍCIO DA COBERTURA DO SEGURO ABUSO DE DIREITO - EXIGÊNCIA DA CONCLUSÃO DO INQUÉRITO POLICIAL 31 CAPÍTULO IV - 34 CONCLUSÃO 35 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 36 FOLHA DE AVALIAÇÃO 37

9 INTRODUÇÃO O contrato de seguro teve sua origem no direito medieval, com o avanço da navegação, sendo o seguro marítimo a primeira espécie a ser conhecida. Em nosso ordenamento jurídico, encontra-se disciplinado no Código Civil no artigo 757 e seguintes. Devido a importância de tal modalidade contratual, o Código de Defesa do Consumidor enquadrou a atividade securitária no âmbito de sua incidência. O contrato de seguro tem por objetivo garantir aos consumidores tranqüilidade e segurança, eis que, o prejuízo pelo sinistro será suportado pelo segurador. Daí a razão pela qual o CDC destacou a atividade securitária como sendo relação de consumo, pois, a carga relativa à segurança de bens humanas importantes, como a vida e o patrimônio, merece ser protegido, fazendo com que consumidor e empresa de seguro contratem em igualdade. Apesar de amplamente regulado, os contratos de seguro são objeto de diversas demandas, e o Poder Judiciário para elidir as questões, deve sempre levar em consideração o CDC, principalmente no que tange as cláusulas abusivas. O presente trabalho tem por finalidade analisar alguns pontos relativos ao contrato de seguro sempre considerando as disposições da Lei nº 8078/90.

10 CÁPITULO I O CONTRATO

11 O CONTRATO DE SEGURO Esta modalidade de contrato é classificada como de adesão, pois o segurado não participa da elaboração de suas condições gerais, que foram pré-dispostas pelo segurador. Em todo contrato de adesão existem as chamadas cláusulas gerais ou condições gerais, existindo. Portanto. A possibilidade de incluir regras especiais, que podem se apresentadas posteriormente, não alterando natureza da relação securitária, que continua sendo de adesão. É no momento da adesão que o documento pré-elaborado unilateralmente passa a ter força contratual, antes disso é um simples formulário. O contrato de seguro pode ser classificado em: bilateral, oneroso, aleatório, consensual, de execução sucessiva, de adesão e de boa-fé. È importante ressaltar que, não altera a natureza jurídica bilateral do contrato o fato de não ocorrer o sinistro,pois, caso ocorresse, o segurador teria que pagar a quantia estipulada no contrato. É um contrato oneroso, pois, existe o intuito especulativo e vantagens para ambos os contraentes. Uma característica marcante do contrato de seguro é a aleatoriedade, tendo em vista que, o ganho ou a perda dos contratantes está diretamente relacionado com fato futuro e incerto previsto no contrato, que constitui o risco.

12 Trata-se de contrato de execução sucessiva, pois a sua consumação se perdura ao longo do tempo. A boa-fé é exigida para ambas as partes do pacto securitário, prevendo a lei sanções para que contratar de má-fé, conforme dispõe os art.º 765, 766 e 773 do Código Civil. O segurado, ao contratar, deve fazer declarações verdadeiras, a fim de que os riscos cobertos possam ser devidamente cumpridos pelo segurador, pois o valor do prêmio será definido de acordo com o risco a ser suportado pelo segurador. Também em relação ao segurador se exige boa-fé, principalmente no tocante a entrega ao segurado das condições do seguro, para que tenha conhecimento das cláusulas, especialmente as limitativas, que devem estar dispostas de maneira clara, bem redigida e consisas. Conforme aludido anteriormente, na cobertura do risco, o contrato de seguro se apóia em alguns fundamentos, que são a mutabilidade, o cálculo da probabilidades, e a homogeneidade para se definir o valor da indenização, do prêmio e a delimitação dos riscos que estarão cobertos Generalidades do contrato de seguro O contrato de seguro possui elementos que o determinam, sendo de suma importância sua definição, para que o instituto possa ser compreendido e analisado, especialmente sob a ótica do Código de Proteção do Consumidor aplicado as suas cláusulas limitativas. Seus elementos são: o segurador, o segurado, o risco, o prêmio, e a apólice. O segurador é uma das partes contratantes que, se obriga, mediante o recebimento do prêmio, a assumir o risco, obrigando-se a indenizar o segurado, na hipótese de ocorrência de sinistro. O segurador é necessariamente pessoa jurídica, e somente poderá ser sociedade anônima, mútua e cooperativa, mediante prévia autorização do Governo Federal, conforme o artigo 1º do Decreto-lei nº 2.063/40, que regulamenta as operações de seguros privados e sua fiscalização, em razão da segurança social necessária à contratação de seguros.

13 O segurado é o outro contratante, aquele que, através do pagamento do prêmio, transfere o risco para o segurador, que o indenizará na hipótese de sinistro. O segurado poderá ser pessoa física ou jurídica. O risco é o acontecimento futuro e incerto quanto a sua realização, ou quanto ao momento que ocorrerá, previsto no contrato de seguro, e suscetível de causar um dano à pessoa do segurado, ao seu patrimônio ou a outrem que tenha que repará-lo. Quando o fato futuro e incerto, que se receia ocorrer, dá-se a denominação de sinistro. O prêmio é a contribuição pecuniária que se obriga o segurado a pagar ao segurador, a fim de que este suporte o risco previsto contratualmente. O instrumento do contrato de seguro é a apólice. Neste instrumento deverá constar os riscos assumidos, o valor do objeto do seguro, o prêmio devido ou pago pelo segurado, e outras estipulações A Diferença entre "seguro" e "plano" de saúde e a relação de consumo, entre estas empresas e o destinatário final, através dos contratos de saúde. Com verdadeiro brilhantismo e clareza, o Procurador de Justiça e Coordenador da Defesa do Consumidor do Ministério Público de Pernambuco, Dr. Nelson Santiago Reis, em seu artigo O Consumidor e os Seguros ou Planos de Saúde, difere ambos serviços ao classificar os "seguros de saúde" como sendo os serviços fiscalizados pela SUSEP Superintendência de Seguros Privados, no qual os segurados têm livre escolha sobre os médicos, hospitais e laboratórios pelos quais e nos quais desejam ser atendidos. Já os "planos de saúde" não são fiscalizados pelo Órgão acima mencionado, ficando o associado restrito aos profissionais e estabelecimentos credenciados pela Empresa.

14 Em quaisquer dos serviços contratados, constata-se uma relação de consumo onde a empresa propõe cobertura ao tratamento das enfermidades diagnosticadas e, em contraprestação, compromete-se ao pagamento mensal de parcelas que variam quanto a quantia cobrada. É indiscutível esta relação jurídica de consumo onde os "seguros" e os "planos" de saúde são fornecedores de serviços (incluídos, assim, no art. 3, 2º do CDC) e os "segurados" e os "associados" são consumidores finais destes serviços, conforme o art. 2º do mesmo diploma legal.

15 CAPÍTULO II O Código de Defesa do Consumidor

16 O CDC E AS RELAÇÕES SUCURITÁRIAS O Código de Defesa do Consumidor gerou diversas mudanças nas relações contratuais, pois fez com que os fornecedores ficassem mas atentos às exigências da lei, tornando as relações negociais mais equônimes. O CDC, na procura do equilíbrio, limita a autonomia da vontade, protegendo então os interesses sociais, valorizando a confiança, as expectativas e a boa-fé dos contratantes. No que tange aos aspectos contratuais da proteção do consumidor, o CDC limitou a aplicabilidade do princípio do Pacta Sunt Servanda, dispondo expressamente no art.º 6º, V, a possibilidade da modificação das cláusulas contratuais que estabelecem prestações desproporcionais ou a sua revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosos. É fácil perceber que a intenção do Código foi garantir o equilíbrio contratual e não a vontade declarada no contrato. A Lei 8078/90, trouxe também a primazia da boa-fé contratual, dando a este princípio caráter basilar das relações de consumo. Além disso, o CDC com objetivo de dar maior transparência ao consumidor impôs ao fornecedor a obrigação de veicular a publicidade, gerando maior responsabilidade ao renunciar o produto ou o serviço. Estas inovações vieram para atender aos anseios das relações contratuais atuais, principalmente no que tange aos contratos de adesão que são capazes de gerar abusividades impostas pela parte mais forte da relação contratual. Com o advento do CDC a interpretação dos contratos de seguro se volta em favor dos segurados nos casos em que há flagrante ambigüidade de interesses. E isso se justifica, pois o contrato de seguro tem um cunho social, comprometido com a equidade e menos influenciado pelo dogma da autonomia da vontade.

17 Sem dúvida, os contratos de seguro estão submetidos a CDC ( Art.º 3º 2º), devendo suas cláusulas estarem de acordo com tal diploma legal, respeitando as formas de interpretação sendo obrigatório dar conhecimento prévio ao consumidor do conteúdo do contrato em razão da hipossuficiência do segurado/consumidor em relação ao segurador/fornecedor. É importante ressaltar que o Código de Defesa do Consumidor não veio destruir nem alterar as disposições previamente existentes. Os dispositivos legais inseridos nas regras do Código Civil e demais legislações não podem ser ignorados em uma eventual analisa do contrato de seguro. A lei 8078/90 contribuiu sim para que evitasse abusos, igualando consumidores e fornecedores, e não sobrepondo aqueles a estes. 2.1 A Boa Fé nas relações de consumo e a regra da interpretação mais favorável ao consumidor, principalmente nos contratos de adesão. Nas relações de consumo, além dos típicos contratos de "dar" previstos pelo Código Civil, existem os contratos de "fazer" onde as empresas fornecedoras de serviços vendem segurança, como no caso dos seguros ( e mais especificamente em se tratando dos seguros de saúde), onde a contraprestação da empresa contratada pode dar-se de imediato ou a longo prazo. A escolha, pelo consumidor, da empresa contratada, investindo financeiramente mês a mês na credibilidade de seus serviços, é frustrada quando o conveniado não obtém as vantagens que aparentemente acreditava possuir, não recebendo o tratamento desejado, seja porque o contrato, na maioria das vezes de adesão, vem redigido com cláusulas que dificultam seu entendimento (o que é expressamente proibido pelo art. 46 do CDC), seja porque a redação do contrato guarda interpretações dúbias, sem o esclarecimento necessário (situação igualmente vedada pelo art. 54, 3º do CDC).

18 Tais normas vêm proteger os consumidores, ávidos por segurança, conforto, rapidez, que aceitam um contrato sem discutir seu conteúdo por não possuir conhecimento técnico ou jurídico para analisar suas cláusulas. Às vezes nem o conhecimento jurídico é suficiente para o entendimento dos contratos de seguro ou plano de saúde, fato verificado quando nós, Profissionais do Direito, nos colocamos na posição de consumidores, haja vista as incompreensíveis nomenclaturas técnicas constantes nas principais cláusulas dos contratos. Neste prisma podemos analisar a verdadeira situação de "hipossuficiência" da maioria dos consumidores cujo percentual de analfabetismo é alarmante. Neste sentido, Sônia Maria Vieira de Mello in O Direito do Consumidor na Era da Globalização: a Descoberta da Cidadania. Renovar: Rio de Janeiro, 1998, p. 112: De modo geral, o consumidor necessita de determinado bem ou serviço e por isso "adere" a alguma oferta existente no mercado, anúncio televisivo, jornal, cartazes, etc. Ao tentar discutir as condições contratuais, se depara com a padronização das cláusulas contratuais, escritas com linguagem de difícil entendimento, o consumidor, muitas vezes não compreende muito bem o que está contratando, nem como está contratando; exatamente sendo justamente esta a questão mais delicada quanto aos contratos de adesão: o conhecimento do conteúdo e extensão do contrato por parte do cliente, o consumidor. Na prática, esta abusividade contratual que mesmo combatida a cada dia pelo CDC, representa um desequilíbrio na relação de consumo, com a transposição de riscos profissionais, inerentes ao fornecedor, para o consumidor. O Código de Defesa do Consumidor, através de seu artigo 47, busca resgatar o equilíbrio nas relações jurídicas ao normatizar que as cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor, reconhecendo a vulnerabilidade do mesmo, a transparência e manutenção da boa fé nas relações de consumo e, finalmente, coibindo os abusos embutidos nas cláusulas previamente e unilateralmente redigidas.

19 Não só o código civil em seu artigo 765 tornou evidente a boa-fé como elemento expresso e essencial do contrato de seguro, como o CDC, erigindo a boa-fé a princípio norteador dos pactos securitários. O art.º 4º, III, da lei 8078/90, define boa-fé não como mera intenção, mas como imperativo objetivo de conduta, exigência de respeito, lealdade, cuidado com a integridade física, moral e patrimonial e que deve prevalecer desde a formação inicial da relação de consumo, persistindo também durante toda a sua execução e liquidação. Além do art.º 4º,III, que menciona expressamente a boa-fé, o CDC em seu art. 51, levando em consideração a boa-fé, apresentou um rol de cláusulas nulas de pleno direito, e no inciso IV se refere às cláusulas que colocam o em desvantagem exagerada, ou sejam incompatíveis com a boa-fé ou a equidade. Portanto a boa-fé objetiva significa, uma atuação "refletiva", uma atuação refletindo, pensando no outro, no parceiro contratual, respeitando-o, respeitando seus interesses legítimos, suas expectativas razoáveis, seus direitos, agindo com lealdade, sem abuso, sem obstrução, sem causar lesão ou desvantagem excessiva, cooperando para atingir o bom fim das obrigações: o cumprimento do objetivo contratual e a realização dos interesses das partes. O princípio da boa-fé objetiva reflete uma verdadeira socialização da teoria contratual, decorrente das mudanças sociais ocorridas, concretizando os deveres de igualdade e dignidade constitucionalmente tutelados. Com efeito, o princípio da boa-fé representa, no modelo atual de contrato, o valor da ética: lealdade, correção e veracidade compõe o seu substrato, o que explica a sua irradiação difusa, o seu sentido e alcance alargados, conformando todo o sistema contratual e, assim, repercutindo sobre os demais princípios, na medida em que a todos eles assoma o repúdio ao abuso da liberdade contratual e que tem dado lugar à ênfase excessiva no individualismo e no voluntarismo jurídicos.

20 2.2 A abusividade nos contratos de seguro Na atualidade devido as relações negociais serem massificadas e despersonalizadas, os fornecedores se aproveitando da ânsia dos consumidores em contratar, na maioria das vezes, impõe aos consumidores, parte hipossuficiente da relação contratual, uma série de obrigações e deveres que passam desapercebidos pelos olhos dos consumidores. Como isso, o contrato apesar de firmado, não foi entendido em seu conteúdo intrísico, e portanto também não foi lido nem conhecido, fazendo com que o fornecedor se beneficie, quando na verdade, deveria dar conhecimento prévio ao consumidor de todas as bases do contrato. Nestes casos, desaparece a boa-fé determinada pelo CDC, passando a abusividade integrar o negócio jurídico. Tais contratos apresentam-se desequilibrados, sendo necessário, retirar a abusividade causadora do desequilíbrio. Com esse objetivo é que o CDC, nos contratos de consumo declarou ser menos importante a manifestação da vontade das partes, limitando o poder contratual de ditar e de predispor as bases do negócio jurídico. O CDC não analisa o aspecto subjetivo, e sim a perspectiva objetiva da relação contratual para admitir ou não as cláusulas contratuais. A título de exemplo, os contratos de seguro saúde envolvem um bem jurídico indispensável que é a assistência à saúde, não sendo permitido as partes transacionar livremente com a mesma liberdade com que fariam se o objeto fosse um produto comercial qualquer. É obvio que as partes devem cumprir o contrato, mas hão de se subordinar à vontade da lei que é expressão da vontade social. Se a relação de consumo carregar algo em desacordo com a vontade da lei, prevalece a determinação legal e não o disposto no contrato. É importante destacar que o CDC, ao dispor sobre proteção contratual se dirige ao consumidor, pois não há que se falar em proteger a liberdade contratual daquele que já tem a liberdade de impor condições e de redigir previamente o conteúdo do contrato, que é fornecedor.

21 No caso de contrato de seguro, o consumidor vulnerável tem que ser protegido para que possa exercer a sua adesão ao contrato de forma livre e consciente, assegurando-lhe o resultado que buscava com a adesão. Nas relações securitárias, a vulnerabilidade do consumidor se aflora ainda mais, pois os contratos, tem por objetivo proporcionar a cobertura de tratamento de doenças e de prejuízos materiais, que na maioria das vezes possuem cláusulas gerais idênticas o que estreita a margem de opção do consumidor. O CDC confere às contratações feitas na forma de adesão um maior rigor, no entanto o art. 54 deste código admite plenamente estes contratos pela sua importância no mundo globalizado e dinâmico que vivemos. Por esse motivo ao mesmo tempo que no CDC se proíbem as cláusulas abusivas, são admitidas as cláusulas limitativas de direitos, com a ressalva de estarem bem redigidas e destacadas do texto principal. Evidentemente que um contrato elaborado unilateralmente pelo lado mais forte da relação é capaz de gerar abusividade, só que com o advento do CDC, o ordenamento jurídico pátrio obteve meios para solucionar estes conflitos A Autonomia da vontade e "crise" do contrato O surgimento do contrato se confunde com o surgimento da própria sociedade humana, desde os grupos sociais mais primitivos. Tão velho como a sociedade humana e, tão necessário como a própria lei, o contrato se confunde com as origens do Direito. Hoje pode-se dizer que nenhum cidadão consegue sobreviver no meio social sem praticar diariamente uma série de contratos. Cláudia Lima MARQUES, em sua obra Contratos no Código de Defesa do Consumidor, quando analisa as mudanças ocorridas na teoria do direito contratual, conclui que as principais origens da doutrina da autonomia da vontade encontram-se no Direito Canônico, ao defender a validade e a força obrigatória da promessa por si própria; na teoria do Direito Natural, que fornece a base filosófica da ética da liberdade e do dever de Kant;

22 Afirma-se que, no voluntarismo jurídico contratual, o princípio basilar, "foi o pacta sunt servanda, elevado às suas conseqüências máximas, nada obstante, pode significar, em alguns casos, descompasso entre o conteúdo do contrato e a realidade fática e circunstancial que envolve a relação jurídica entre os contratantes". A sociedade de massa, a tempos, multiplicou a imputação de efeitos negociais a um sem número de condutas, independentemente da manifestação de vontade dos obrigados. O contrato é, pois, fenômeno onipresente na vida de cada um. Até mesmo quando se está dormindo, consome-se bens ou serviços fornecidos em massa. O resultado de tudo isso encontra-se na massificação da sociedade, ou seja, nas cidades transformadas em gigantescas colméias; nas fábricas, com produção em série; no ramos das comunicações, rádio, televisão; nas relações de trabalho, com o advento das Convenções Coletivas, enfim, nas relações de consumo, com contratos padronizados e de adesão. Com efeito, o princípio da autonomia da vontade parte do pressuposto de que os contratantes se encontram em pé de igualdade, e que, portanto, são livres de aceitar ou rejeitar os termos do contrato. Mas, isso, nem sempre é verdadeiro. Pois a igualdade que reina no contrato é puramente teórica e, via de regra, enquanto o contratante mais fraco no mais das vezes não pode fugir à necessidade de contratar, o contratante mais forte leva uma sensível vantagem no negócio, pois é ele quem dita as condições do ajuste. Conseqüentemente, os contratos que antes eram realizados apenas por determinadas pessoas, estipulando cada uma delas as cláusulas que desejassem, passam a ser realizados em grandes quantidades, devido à crescente demanda, como, por exemplo, dos contratos de locação, compra e venda à prazo etc. Diante desta massificação dos contratos há a necessidade de agilização dos negócios jurídicos. Surge, então, uma técnica de realização desses contratos denominada por

23 Sailleles de contratos de adesão, cujas cláusulas são preestabelecidas unilateralmente pelo contratante mais forte, cabendo a parte mais fraca a opção de aceitar ou não. Cabe salientar que o Estado Social não excluiu o princípio da autonomia da vontade. Em verdade, o que houve foi a redução de sua importância, já que o mesmo era considerado um dogma inafastável na teoria contratual clássica e que tal visão não se coaduna mais com o momento histórico atual. Indiscutivelmente, o contrato é um dos principais instrumentos de circulação de riquezas. Todavia, ao regular os interesses das partes, não pode ser considerado um elemento de outra dimensão, desvinculado do contexto social do qual é constituído. Afinal, o contrato é relação jurídica que, por excelência, mais contribui para a distribuição de bens suscetíveis de valoração econômica. O Código Civil de 2002 atento, a essa tendência de amenização do rigor do princípio da autonomia da vontade incorporou em seu texto a cláusula rebus sic standibus aos contratos de execução continuada e diferida (art.478 a 480), bem como os institutos da lesão (art.157) e do estado de perigo (art.156), que possibilitam a intervenção do Estado, seja para resolver, seja para revisar as cláusulas contratuais as quais se vincularam as partes contratantes. Desta forma, o Estado Social, que tem na dignidade da pessoa humana o seu maior fundamento, colocando ao lado da autonomia da vontade e da liberdade princípios como os da boa-fé objetiva e da tutela do hipossuficiente, em busca da justiça substancial, com o deslocamento da relação contratual da tutela subjetiva da vontade à tutela objetiva da confiança, visando sempre o interesse social. Conclui-se, que o contrato de hoje necessita ser visto e compreendido sob um novo enfoque, direta ou indiretamente tutelar dos interesses difusos e coletivos, e não como um negócio jurídico unicamente dirigido à satisfação dos interesses privados dos contratantes".

24 Portanto, o negócio jurídico pode ser fixado em seu conteúdo, segundo a vontade das partes. Contudo, esta vontade apresenta-se auto-regrada em razão e nos limites da função social, princípio determinante e fundamental que, tendo origem na valoração da dignidade humana (art.1 da CF), deve prescrever a ordem econômica e jurídica" A função social do contrato Após o período de guerras mundiais e a elaboração de normas internacionais que culminaram com a Declaração da Organização das Nações Unidas ONU, de 1948, o pensamento jurídico se perfilou no sentido de se conceder uma maior relevância à pessoa na relação jurídica. As liberdades públicas foram ampliadas, obtendo-se instrumentos mais eficientes de tutela da pessoa e de seus interesses extrapatrimoniais. As normas jurídicas de ordem pública proliferaram porque as relações intersubjetivas ficaram cada vez mais heterogêneas, ante o crescimento quantitativo das contratações, inclusive dos chamados negócios jurídicos inominados. O contrato, em decorrência destas transformações sociais, altera-se para se adequar às exigências desta nova realidade, passando de espaço reservado e protegido pelo direito para a livre e soberana manifestação das vontades das partes, para ser um instrumento jurídico mais social, controlado e submetido a uma série de imposições, mais eqüitativas. O egoísmo e os interesses individuais têm de ser colocados a serviço da coletividade, pois o egoísmo que conhece somente a si mesmo, que só busca o próprio bem, não construirá o mundo, porque toda realização pessoal, como o é o contrato, tem uma missão a cumprir que é a concretização segundo o espírito da instituição que governa a sociedade. Em uma sociedade organizada, o exercício de direitos subjetivos não deve sair da função a que correspondem; do contrário, seu titular os desvia de seu destino, cometendo um abuso de direito. No Estado Social, passou a existir uma preocupação maior com o aspecto coletivo, com o interesse da sociedade, atribuindo-se menor relevância a concepção de contrato

25 como um mero instrumento de realização individual. Nesta medida que se pode afirmar que o contrato passou a exercer uma função realmente social. O que se deve ter em mente é o equilíbrio que se busca entre os princípios da liberdade (autonomia da vontade) e da igualdade (material), ou melhor, o reconhecimento de que tais princípios encontram-se em igualdade hierárquica dentro do ordenamento jurídico vigente. Nosso regime há de primar pelo equilíbrio evocado pelo conteúdo social positivado no Estado Democrático de Direito moldado na Constituição Brasileira. Liberdade e igualdade concorrem, relativizando-se tópica e axiologicamente, em prol do princípio da dignidade da pessoa humana. Os excessos admissíveis pelos extremos não encontram respaldo em nosso sistema constitucional. A função social do contrato surge para proporcionar maior equilíbrio nas relações contratuais, tornando-as mais próximas do ideal de justiça, através da concretização do princípio da dignidade da pessoa humana. Somente os contratos que cumprem a sua função social são dignos da tutela do Direito. 2.5 Cláusulas limitativas do contrato de seguro O CDC em seu art.º 54, 4º, admite expressamente as cláusulas limitativas. Cláusula limitativa é aquela que implica em limitação do direito do consumidor. Tal cláusula limita e impõe algumas situações contratadas pelo consumidor. É importante ressaltar, que esta cláusula apenas limita e impõe desvantagem, não sendo abusiva e perfeitamente admitida pelo CDC. Toda disposição contratual que implicar ou cercear qualquer limitação do direito do consumidor, bem como conferir desvantagem ao aderente, deverá estar obrigatoriamente exposta, de forma clara, no contrato de adesão.

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