4.3 Famílias em Movimento o projeto de fazer a América. Olhar as mesmas coisas, repetidas vezes, até que elas comecem a falar por si mesmas 17

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1 4.3 Famílias em Movimento o projeto de fazer a América Olhar as mesmas coisas, repetidas vezes, até que elas comecem a falar por si mesmas 17 É uma vida, como o pessoal do campo que vai para cidade. Aqui nós nunca passamos dificuldade. Fomos para lá e tivemos que enfrentar dificuldades (José Ramella Pai de Lorena emigrante retornado). Quando começava a pensar nas trajetórias dos migrantes brasileiros lembrei-me do relato de Velho (1999) sobre seu encontro com uma descendente de imigrantes portugueses, mais exatamente, uma açoriana de 15 anos, chamada Catarina, que trabalhava numa das lanchonetes da Harvard Square. O relato de Velho é referente ao início dos anos 70 e demonstra que o projeto migratório, o fazer a América, é um sonho acalentado cujos significados são compartilhados por grupos imigrantes de diversas origens nacionais. A família, cuja história o autor relata através da jovem Catarina, tinha o projeto de melhorar de vida na América. Segundo o relato de Gilberto Velho, Catarina era uma jovem que vivia em Açores, mas quando desembarcou nos Estados Unidos não desconhecia de todo a vida na América, pela experiência em seu país de origem através do contato 18 com outros migrantes, militares americanos, viajantes e turistas. Os pais, quando migraram, vieram em busca de uma vida melhor: o pai já havia trabalhado em outros serviços e tinha um emprego white collar, enquanto a mãe cuidava da casa e tinha precários conhecimentos de inglês. Segundo Velho, a migração constituía-se num projeto que havia sido acalentado pelos quatro membros da família nuclear, dentro de uma rede de relações em que a idéia era disseminada tinham amigos, parentes e vizinhos que os haviam precedido. Nunca sofreram privações, mas o apoio de parentes de amigos foi 17 Freud, S. A história do movimento psicanalítico. Ed Standard brasileira. V. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1976, p

2 essencial. Enquanto os pais tinham pouco conhecimento da língua e vivenciaram de modo restrito a sociedade americana, Catarina e seu irmão freqüentaram a escola americana, aprenderam inglês rapidamente e envolveram-se num novo estilo de vida, outras experiências de descoberta, em formas de sociabilidade imprevistas, como o contato com o universo das drogas e outras aventuras compartilhadas com seus colegas de escola. Os pais não conseguiram manter a mesma relação de autoridade, pois tiveram dificuldade de lidar com padrões novos e desconhecidos. A partir dessa trajetória, Velho mostra as ambigüidades e os conflitos vivenciados por Catarina. Embora a jovem compartilhasse com sua família o projeto de fazer a América, os pais preocuparam-se com o bem estar material e os filhos queriam usufruir a sociedade e os valores americanos. Assim, o projeto migratório, vai revelando, a partir das trajetórias dos sujeitos que pode ser vivenciado de maneira diferenciada pelos indivíduos que a compartilham, ou seja, embora o projeto seja coletivo, ele não era vivido de modo totalmente homogêneo por todos. Para o autor as diferenças de interpretação ocorrem devido a particularidades de status, trajetória, e, no caso de uma família, de gênero e de geração. As trajetórias dos indivíduos ganham consistência a partir de delineamentos mais ou menos elaborados de projetos com objetivos específicos. A viabilidade de suas realizações vai depender do jogo e da interação com outros grupos individuais ou coletivos, da natureza e da dinâmica do campo de possibilidades. (Velho; 1999, p.47) Quando iniciei a pesquisa com imigrantes brasileiros em 1993, identifiquei, no caso dos migrantes valadarenses, a migração como um projeto econômico, familiar e afetivo (Assis, 1995). Ao retornar ao campo em 1999, dessa vez em Criciúma, pude observar que o projeto migratório continua muito semelhante ao das famílias açorianas analisadas por Velho ou dos valadarenses que estudei; todavia, também pude constatar vivências diferenciadas de um projeto aparentemente homogêneo de fazer a América. São essas vivências que procurarei revelar através das trajetórias de vida dos migrantes. 205

3 Voltando aos Estados Unidos, é final de dezembro, num frio inverno de Quando cheguei, juntamente com meu companheiro, estranhamos muito o frio e compreendi porque os migrantes sempre se referiam a essa época como sendo o pior período na América, pois nos sentimos tomados por uma saudade imensa do calor Brasil calor humano das relações com amigos e parentes e também dos dias quentes que anunciam o verão. Lembrei-me dos migrantes que sempre dizem que vão voltar no Natal para o Brasil e daqueles que efetivamente partem nessa época, quando acham passagem, carregados de presentes e saudades. Durante o trabalho de campo na região de Boston, embora tenha circulado por várias cidades, permaneci mais tempo em Cambridge onde fiquei na casa de amigos. Cambridge. A região em torno da universidade de Harvard, mesmo no inverno, permanece efervescente. Embora o frio não estimule muita gente a caminhar pelas ruas, mas a Harvard Square permanece colorida, charmosa e, quando começa o ano letivo, vêse gente em todos os lugares: no metrô, nas bibliotecas, nos cafés e nas ruas. Quando chegamos às lanchonetes, encontramos uma sonoridade conhecida, um burburinho que soa familiar; algumas palavras em português (do Brasil), pronunciadas entre um atendimento e outro no balcão da lanchonete, revelam que os novos imigrantes que ocupam os serviços, anteriormente realizados por açorianos, são brasileiros e outros imigrantes latinos. As trajetórias das famílias de imigrantes brasileiros assemelham-se a outras trajetórias de imigrantes que chegaram à região de Boston em busca do sonho americano. Os brasileiros constituem parte da nova onda de imigrantes, que nas últimas décadas do século XX, chegaram à Nova Inglaterra e estabeleceram-se na área de Boston. Os imigrantes brasileiros são, juntamente com outros grupos migrantes, os mais novos integrantes dessa história e, em geral, residem próximos a antigas regiões de imigração portuguesa 19. Segundo Bloeemraad (2002), a região Somerville/Cambridge conta com 19 Segundo Feldman-Bianco (1995, p ), a imigração portuguesa para o sudeste de Massachusetts iniciou-se no século XIX, durante a era das expedições das baleeiras que utilizavam a mão-de-obra masculina proveniente de Açores e Cabo Verde. A imigração em massa de famílias portuguesas (predominantemente de Açores, mas também de Madeira e Portugal continental) data do final desse século. Entre 1880 e 1930 famílias portuguesas, juntamente com outros grupos imigrantes (como ingleses, irlandeses, franco-canadense, italianos e outros), radicaram-se na região para suprir a necessidade de mãode-obra na indústria têxtil. Na década de 1920, os portugueses já eram o grupo étnico dominante no sudeste de Massachusetts. Posteriormente, entre 1960 e 1980, novas políticas migratórias do governo americano, 206

4 comércios que servem à comunidade portuguesa principalmente a região da Inman Square até uma pequena extensão da Union Square. A autora observa que recentemente essa região tem sido ocupada por comércios de brasileiros. Portanto, não é por acaso que encontramos brasileiros nessa região. As cidades de Somerville, Cambridge, Everett e Lowell, onde se concentram os imigrantes brasileiros e a maioria dos imigrantes de Criciúma, são regiões que receberam levas de imigrantes portugueses até o início dos anos 80 e construíram uma rede de pequenos comércios, igrejas e organizações de apoio aos imigrantes. Atualmente, todas as teias dessa rede (organizações de apoio, igrejas e comércios) são compartilhadas/utilizadas pelos imigrantes brasileiros e cabo-verdianos que, juntamente com dominicanos e outros latinos e asiáticos, compõem os novos imigrantes para a região. Num primeiro momento, procurei compreender como um projeto aparentemente individual ir fazer a América vincula-se a projetos familiares. Abreu-Filho (1981) realizou um estudo com famílias de camadas médias no interior mineiro e demonstrou que, embora tivessem trajetórias sociais diferentes, apresentavam homogeneidade no que se refere à questão do parentesco. O autor realizou uma análise do parentesco e criticou os estudos das sociedades modernas que reduzem o parentesco à família nuclear, propondo, ao final, que se entenda o parentesco como um domínio específico que articula um sistema de representações com um sistema de práticas. A observação de Abreu-Filho é sugestiva para pensarmos os projetos dos migrantes criciumenses, pois conforme iremos observar os projetos, mesmo individuais articulam-se a projetos familiares e quando modificam-se geram conflitos e re-arranjos nessas relações. Os relatos a seguir revelam como os migrantes criciumenses foram construindo projetos coletivos de fazer a América e a importância das redes sociais, particularmente as redes de parentesco e amizade, na realização desses projetos. Evidenciam também que homens e mulheres situam-se muitas vezes distintivamente em relação ao projeto migratório, bem como no interior da família, destacando as diferenças entre a primeira e a privilegiando a migração em cadeia, estimularam novos e sucessivos contingentes migratórios que reconstruíram os enclaves portugueses na região através da cultura da saudade. Embora esses migrantes fossem econômica e educacionalmente mais estratificados que os contingentes anteriores, a maioria começou sua vida como operários nas fábricas baseadas no trabalho intensivo (como de confecções e mecânicas) que se instalaram na região no período, caracterizado pela reestruturação da desindustrialização americana. Sobre a imigração portuguesa ver também Bloeemraad (2002). 207

5 segunda geração de migrantes. Um outro dado que emerge das trajetórias são as múltiplas ligações com o Brasil familiares, afetivas, econômicas, mais especificamente em Criciúma, revelando a constituição de um campo transnacional onde os imigrantes, que mesmo indocumentados em sua maioria, circulam entre os Estados Unidos e o Brasil. Além das viagens ao Brasil que fazem para casamentos, festas de família, festas de final de ano e férias de verão, também mandam presentes, recebem visitas, fazem investimentos envolvendo aqueles que ficaram no Brasil. Esse ir e vir ajuda a tecer essa rede de relações que procuro demonstrar através dessas trajetórias, evidenciando como se articulam, como atuam e também como se modificam. A Família Venturini A família Venturini é composta por descendentes de imigrantes italianos e espanhóis que chegaram à região de Criciúma no final do século XIX e que hoje vivencia a emigração de seus descendentes para a Europa e os Estados Unidos. A história dos ascendentes, principalmente dos italianos, é muito valorizada, e os netos ainda se lembram das histórias contadas pelos nonos e pelas nonas. A família de Lorena é uma família de classe média; o pai é um pequeno empresário e a mãe é professora aposentada. Quando iniciaram a trajetória de migração, os filhos mais velhos estavam ingressando na faculdade. Ao longo desses anos, a família espalhou-se nas cidades da região de Boston, em Massachusetts nos Estados Unidos, na Inglaterra e outros retornaram à cidade natal, que é próxima à cidade de Criciúma 20. Para reconstruir a trajetória da família Venturini, conversei com o casal José e Martina, as filhas Lorena, Patrícia, e as tias Manuela e Carmem. Embora não tenha falado com todos os integrantes da família, as entrevistas forneceram um quadro do movimento da família entre os Estados Unidos e o Brasil. 20 As cidades de Cocal, Nova Veneza, Içara, Forquilhinha, Orleans, Urussanga, Siderópolis e outras da região têm-se tornado também ponto de partida de emigrantes. 208

6 Brasileiro/a emigrante retornado Brasileiro/a emigrante nos Estados Unidos Brasileiro/a emigrante na Inglaterra Americano Brasileira/o sem experiência migratória Filho/a de emigrante nascido nos Estados Unidos Lorena A genealogia da Família Venturini revela como a família espalhou-se entre os Estados Unidos, a Inglaterra e o Brasil. Assim, podemos notar que apenas os pais e um dos filhos, depois de passarem pela experiência de migrar, retornaram para o Brasil. Os/As outros/as filhos/as construíram suas vidas e novas famílias nos Estados Unidos e na Inglaterra. A genealogia também apresenta uma primeira geração de filhos de brasileiros/as nascidos nos Estados Unidos. O irmão mais velho teve uma filha com a primeira mulher, brasileira, e a irmã casou-se com um americano e teve um filho. Os outros irmãos tiveram filhos no Brasil. Lorena é a única que, depois de ir e voltar várias vezes para os Estados Unidos, encontra-se agora na Inglaterra e logo saberemos por quê. Em 2001, quando iniciei as entrevistas com a família, dos cinco irmãos três estavam nos Estados Unidos, na região de Boston, onde se concentram os imigrantes brasileiros, os pais e um de seus irmãos estavam no Brasil como migrantes retornados e Lorena estava de malas prontas, aguardando apenas a resolução do processo de cidadania italiana do namorado para ir à Inglaterra. O destino dela modificou-se porque, em sua 209

7 última ida para os Estados Unidos, em janeiro de 2000, havia sido barrada pelo Serviço de Imigração e deportada para o Brasil. Lorena (22 anos) retornava pela quinta vez para os Estados Unidos e viajava junto com sua tia Carmem (37 anos), irmã de sua mãe, que estava indo pela primeira vez para tentar fazer a América. Ambas partiram para entrar com o passaporte italiano. Quando chegaram em New York, no aeroporto Kennedy, no momento em que passaram pelo guichê da imigração, a tia não teve problemas, passou e ficou esperando pela sobrinha. Lorena, no entanto, despertou a desconfiança do agente e foi levada para a entrevista temor de todos os que chegam ao aeroporto e passam na Imigração. Na entrevista, os agentes da imigração verificaram o passaporte italiano e, ao perceberam que ela era brasileira, pediram o seu passaporte e checaram seus dados no computador. Quando perceberam que Lorena, mesmo tendo passaporte brasileiro com visto de entrada de 10 anos, havia apresentado o passaporte italiano, colocaram o seu nome no computador e constataram que ela movimentava conta corrente e cartão de crédito nos Estados Unidos e, além disso, que tinha também outras entradas no país. Diante desses dados, confirmaram a suspeita de que ela estava utilizando o passaporte italiano para entrar no país não como turista, mas como imigrante, e ela foi deportada no mesmo dia para o Brasil. Assim, o que era aparentemente uma vantagem, a cidadania italiana, no caso de Lorena custou-lhe a deportação e a impossibilidade de voltar aos Estados Unidos. Carmem, que fazia sua primeira viagem, foi alertada por uma das comissárias que sua sobrinha havia ficado para trás e orientada a pegar suas malas e não esperar por sua sobrinha, pois ela tinha ficado presa. Lorena relata o que disseram para sua tia: tu segue a tua rota, que a galeguinha vai ser deportada, vai pro Brasil hoje. Antes da viagem, haviam combinado que, se acontecesse algum problema, era para ligar para irmã de Lorena, Patrícia, em Boston. Diante da situação, com medo de ser deportada e com pouco domínio do idioma, Carmem ligou para a sobrinha, que comprou a passagem para Boston e a orientou sobre como pegar o vôo. A irmã também avisou ao consulado brasileiro e aos pais no Brasil, mas não conseguiram falar com Lorena, só puderam esperar. Enquanto isso, Lorena passava por uma situação que a deixou indignada e humilhada. Ficou presa durante todo o dia num local fora do aeroporto e sem comunicarse com sua irmã ou com seus pais no Brasil. Além disso, saiu e voltou para o aeroporto 210

8 algemada. Segundo Lorena, a única coisa errada que fez foi tentar entrar no país para trabalhar. Os dois passaportes eram legais, então por que tanta humilhação!? Exclamou Lorena indignada com a deportação e com a impossibilidade de retornar ao país. Embora a irmã estivesse esperando para acolhê-la no seu retorno, e tivesse contratado um advogado para resolver a situação, o que ocorreu é que foi barrada no aeroporto. Lorena não conseguiu driblar a imigração e, por isso, voltou para o Brasil. Depois que retornou para o Brasil, Lorena ainda tentou tirar um visto de estudante, porém, quando chegou ao Consulado Americano, em São Paulo, e viram que havia sido deportada, os funcionários do consulado nem perguntaram por que e negaram o visto. Quando conheci Lorena, ela estava morando na casa dos pais, numa cidade próxima a Criciúma. Em seu quarto havia um mural com fotos de vários momentos de sua vida com a família e, nos últimos anos, muitas fotos nos Estados Unidos. Foi através dela que conheci as histórias de migração da família e estabeleci o contato com os pais e os outros irmãos. A trajetória de emigração da família começou com o irmão mais velho, Marcos, que emigrou em 1989 para a área de Boston e foi recebido por um parente materno. Três anos depois emigrou o restante da família. As cidades dessa região, que têm sua história marcada por levas de imigrantes que chegaram aos Estados Unidos no início do século XX até meados dos anos 1950, vivenciaram no final do século uma nova onda de imigrantes, entre os quais se inserem os imigrantes brasileiros 21. A família Venturini morou em Allston, um bairro de Boston, onde já contavam com uma pequena rede de amigos e parentes que os ajudaram nos primeiros momentos. Mais tarde, os filhos que permaneceram mudaram-se para Malden. Essas cidades, assim como Somerville, Everett, Cambridge, Framingham (Sales 1999a) e, mais recentemente, Lowell, concentram migrantes brasileiros e têm uma rede de comércio étnico, lojinhas de produtos brasileiros, agências de viagem, restaurantes e outros serviços que atendem aos imigrantes brasileiros. O período que toda a família permaneceu nos Estados Unidos foi de dois anos. Lorena tinha 14 anos na época e o irmão tinha 15 anos; nessa primeira experiência migratória, apenas estudaram. Os pais e os irmãos mais velhos trabalhavam em limpeza e 21 Bicalho (1989), Sales (1995, 1999), Assis (1995, 1999), Martes (1999), Warner Jr. (2001). 211

9 pizzaria. Ficaram por dois anos, mas o irmão do meio não se adaptou nem com o trabalho nem com a vida nos Estados Unidos e, em 1994, acabaram voltando para o Brasil. Após esse período, retornaram os pais e os três filhos mais novos e permaneceram os dois filhos mais velhos, Marcos e Patrícia, que estavam melhor estabelecidos. Marcos estava morando com Betina, sua primeira mulher, e Patrícia havia começado o namoro com um americano que, pouco mais tarde, tornou-se seu marido. O irmão mais velho, Marcos (33 anos), migrou em 1989, com apenas 19 anos, abandonando o curso de Agronomia para tentar a vida nos Estados Unidos. Assim que chegou lá, encontrou Betina, sua primeira mulher, também vinda da mesma cidade e com quem morou durante sua primeira permanência nos Estados Unidos, de 1990 a Na ocasião, Betina já estava grávida de um relacionamento anterior e Marcos assumiu a filha. A família, quando chegou aos Estados Unidos surpreendeu-se com o fato de viver com uma mulher oito anos mais velha do que ele e que já tinha uma filha; esse fato gerava conflitos entre a sua família de origem e a sua nova família constituída no contexto da migração. Quando Marcos e Betina estavam juntos, tiveram uma filha. Em 1996, o casal retornou para Criciúma para tentar ficar definitivamente, mas ele e a mulher não conseguiram acertar-se no retorno, tinham um apartamento e algum dinheiro que tinham juntado com o trabalho de ambos. Quando retornaram não conseguiram entrar em acordo com o que fazer com o dinheiro, nem em relação ao local de moradia. Marcos acabou aplicando parte do dinheiro num negócio do pai e acabaram se separando. Depois de passar um tempo no Brasil, sem definir muito o que fazer, chegou a trabalhar numa firma de cerâmica, mas não se acertou e decidiu voltar. Marcos retornou em 1999, novamente para a região de Boston, numa arriscada viagem pelo Canadá entrando ilegalmente nos Estados Unidos e deixou a ex-mulher no Brasil. Ao chegar em Boston, conheceu Mariana, que também é da região de Criciúma e estava nos Estados Unidos com a família. Começaram a namorar e casaram-se em Trabalha numa firma de construção civil como pintor e está passando pelo processo de legalização. Patrícia (30 anos), a mais velha das mulheres, emigrou em 1992 para se encontrar com a família. Na época estava com 22 anos e, assim como o irmão mais velho, abandonou o curso de Engenharia que fazia no Brasil. Quando a família resolveu retornar para o Brasil, em 1994, ela, que tinha relutado em emigrar por que não gostava do estilo Comentário: Substituir por melhor 212

10 de vida americano, decidiu ficar em Boston. Além de estar trabalhando num restaurante e ter autonomia financeira para ficar, Patrícia queria permanecer porque estava namorado um americano. O irmão Marcos também permaneceu, pois estava casado na época. Dois anos depois, Patrícia casou-se com John, um americano que era também descendente de imigrantes italianos e, através do casamento, conseguiu obter o green card. Tem um filho chamado Michael, de apenas um ano e meio, já o trouxe ao Brasil para que ele não perca o contato com a sua família de origem e o país de onde vieram sua mãe, seus tios e seus avós maternos. Foi Patrícia quem recebeu Lorena e a cunhada em todos os seus retornos aos Estados Unidos e uma tia materna que ficou lá durante um ano. Ela continua ajudando o pai e a mãe no Brasil e ainda alimenta o projeto de retornar, em algum momento, para ao país de origem. Maurício (26 anos) retornou ao Brasil em 1994 com os pais, casou-se quatro anos depois com uma namorada que arranjou assim que chegou e tem um filho de quatro anos. Segundo os pais, foi o que mais sofreu nos Estados Unidos, pois chegou com 16 anos e já começou a trabalhar pesado. Por isso, não gostou de lá e é o único dos filhos que não retornou ao país. Hoje, mora com a mulher e o filho em uma casa construída nos fundos da casa dos pais. Matheus (25 anos), o mais novo, experimentou várias idas e vindas, assim como Lorena. Fez a primeira viagem junto com a mãe quando tinha apenas 13 anos. Assim que chegou, ingressou na escola e aprendeu inglês. Em sua primeira permanência nos Estados Unidos, não trabalhou, apenas fez uns bicos. Retornou ao Brasil em 1994, junto com os pais, concluiu o ensino médio aqui, mas não quis prosseguir os estudos. Aos 16 anos, engravidou uma namorada e, após decidirem não se casar, migrou novamente para os Estados Unidos com o irmão Marcos, que também estava retornando. Trabalha com pintura, no mesmo serviço que o irmão, e atualmente mora com a irmã Patrícia, mas está querendo montar seu próprio apartamento. José (54 anos) e Martina (54 anos), os pais, emigraram em 1992, ambos com 43 anos, e retornaram em 1994 para o Brasil. O projeto de migrar começou a ser alimentado pelo filho que estava lá desde A família estava com saudades e queria juntar-se a ele. Além disso, era início dos anos 90, a crise econômica atingia a região conforme já foi destacado no histórico da cidade de Criciúma e o comércio de José estava dando prejuízo 213

11 e a situação estava difícil, conforme ele mesmo relatou. Martina emigrou primeiro, porque já era aposentada como professora e tinha mais facilidade para ir. O marido emigrou depois que conseguiu vender a loja e deixar tudo organizado no Brasil. José aguardou a mulher instalar-se com os dois filhos, alugou a casa e vendeu o carro que tinham e levou a filha caçula que havia ficado. Patrícia, a mais velha das mulheres, não queria ir e permaneceu morando com a avó e administrando as contas da casa. O casal ficou com os filhos durante dois anos nos Estados Unidos. Quando chegaram, foram recebidos pelo filho Marcos, que morava numa casa de duas famílias. Casa de duas famílias é um tipo de residência que era destinada às famílias trabalhadoras nessa região e que agora é ocupada por imigrantes. Constitui-se de uma casa de dois pavimentos e às vezes um basement (porão) que também é alugado. Assim, ele morava em cima, com a esposa e a filha e sua família morava na casa de baixo. Martina trabalhou na faxina, com uma prima da mesma cidade, que era dona do negócio, e José trabalhou na construção civil com o filho Marcos. É interessante notar que cada um tem sentimentos diferentes em relação à experiência vivida. Martina adorou a vida nos Estados Unidos e gostaria de viver lá, tendo retornado várias vezes para visitar os filhos e para acompanhar o resguardo da nora e da filha. Considera a vida lá muito mais fácil, gosta dos shoppings, dos produtos no supermercado e da autonomia que possuía. Já para José a experiência foi mais traumática: disse que a América é boa para ganhar dinheiro, mas não é um bom lugar para viver. Sentiu que lá perdeu o controle sobre a família. Os filhos tornaram-se muito independentes, aprenderam inglês mais rápido do que os pais, passaram a ganhar seu próprio dinheiro e, convivendo na sociedade americana, através da escola, já não aceitavam da mesma maneira a autoridade paterna. Os filhos menores, que estudavam em escolas americanas, aprenderam na escola que os pais não podiam bater nos filhos, quais eram seus direitos e questionavam quando o pai dizia que iria bater neles quando estavam brigando por algum motivo. Desse modo, o pai viu reduzida sua autoridade sobre os filhos. Além disso já não conseguia ter o mesmo controle e também, convívio com a família, pois trabalhava muitas horas por dia e quase não se encontrava com os filhos. Nessas horas, José relata que entrava no banho e chorava. 214

12 O retorno ao Brasil, no entanto, não significou um distanciamento em relação aos filhos, uma vez que os contatos se alimentam nas constantes vindas dos filhos, do genro, das noras e dos netos ao Brasil e nos investimentos que eles fazem para os filhos, sobretudo para as filhas que, segundo os pais, são mais organizadas para juntar dinheiro, e no cuidado das netas, que passam períodos no Brasil com os avós. Em 2001, fizeram uma grande reforma na casa para poder receber os filhos. No primeiro semestre de 2002, eles estavam envolvidos com os preparativos do casamento religioso da filha Lorena, que já se encontrava na Inglaterra, realizado em outubro do mesmo ano no Brasil. Organizaram a festa com as instruções enviadas pela filha por meio de ou telefone. O pai ficou particularmente feliz, porque Lorena casou-se no civil para levar o namorado para a Inglaterra, mas voltou ao Brasil para se casar na Igreja, com a presença da família. O casamento foi marcado para outubro de 2002 e a irmã veio dos Estados Unidos com o marido e o filho para a festa de casamento. O relato de Lorena coloca-nos questões muito interessantes sobre as redes familiares e de gênero nas migrações. O seu relato apresenta como homens e mulheres inserem-se diferentemente no processo. A trajetória dos filhos, a maneira como cada um ajuda a família e mesmo como as mulheres, tanto as filhas quanto a mãe e o pai vivenciam o processo evidenciam essas diferenças. A história da família Venturini coloca questões muito interessantes sobre as redes familiares e de gênero nas migrações, pois apresenta como homens e mulheres se inserem diferentemente no processo. Enquanto o filho mais velho, Marcos, foi o primeiro a migrar, para depois levar a família, a filha mais velha das mulheres foi a última a migrar, porque era ela quem cuidava das finanças no Brasil. Já nos Estados Unidos, foi Patrícia quem assumiu o projeto com a família de juntar dinheiro para retornar ao Brasil, pois quando chegaram perceberam que Marcos já havia formado sua família nos Estados Unidos e que não poderiam contar com ele para realizar o projeto familiar. Esse fato gerou decepção e conflito com os pais e irmãos, já que não aprovaram muito o casamento; desde que Marcos começou a namorar Betina, que era oito anos mais velha do que ele, frisou a mãe no seu depoimento, ele assumiu a mulher e a filha, que era de outro relacionamento. Por isso, embora tenha sido o primeiro a migrar e abrir caminho para o restante da família, no cotidiano em Allston, quem articulou a família em torno do projeto dos pais foi Patrícia. 215

13 Ela quem recebeu a irmã, a ex-cunhada e a tia quando decidiram migrar ou retornar aos Estados Unidos. Marcos, o irmão mais velho, retornou para os Estados Unidos, mas, mesmo assim, é por meio de Patrícia que os contatos são mantidos. Os pais, que migraram, mais velhos, tiveram experiências diferentes em relação aos filhos, principalmente o pai que sentiu que estava perdendo autoridade sobre eles. A mãe se adaptou mais à vida nos Estados Unidos, por isso gostou mais. Porém, quando o marido e o filho desejaram retornar voltou com o marido para o Brasil. O relato da família Venturini demonstra que, assim como os migrantes salvadorenhos analisados por Menjívar (2000), as mulheres criciumenses prestam diferentes tipos de ajuda em redes informais estabelecidas entre parentes e amigos. Essas redes envolvem desde emprestar dinheiro, cuidar dos/as netos/as quando os/as filhos/as saem para o trabalho, vir do Brasil para ajudar no resguardo das filhas, ajudar a encontrar trabalho, ou prestar informação sobre serviços de assistência de saúde, etc. É importante destacar que esse apoio é também emocional e afetivo. É o caso de Patrícia, por exemplo, que, quando o irmão não correspondeu às expectativas da família, assumiu o projeto migratório familiar. No caso das redes construídas pelos homens, da mesma forma que Menjívar (2000) observou com relação aos migrantes salvadorenhos, estas redes parecem mais estruturadas em torno do trabalho e da ajuda financeira, já que poucos falam de apoio emocional. É importante destacar ainda que essas redes modificam-se ao longo do processo migratório. Ao longo desses anos, a família Venturini foi estruturando-se entre os dois lugares, estabelecendo uma rede de relações onde pais e filhos redefiniram suas posições no decorrer do processo. O pai sentiu-se com menor autoridade sobre os filhos, ao mesmo tempo em que os filhos e as filhas sentiram-se com maior autonomia para decidir onde viver, mas todos sempre retornando à casa dos pais. Os mais jovens, como Lorena e Matheus, circularam mais entre os Estados Unidos e o Brasil e agora a Inglaterra, no caso de Lorena. Segundo o relato dos pais, os filhos continuaram ajudando a família, mesmo depois de estabelecidos no exterior. Em contrapartida, são os pais que administram os investimentos e também cuidam das netas quando estas vêm ao Brasil. 216

14 Quando fui à casa de Martina e José para entrevistá-los, estavam organizando-se para receber as netas para passar uma temporada no Brasil e assim dar uma ajuda para a ex-nora, que continuava morando sozinha e não tinha com quem deixar as filhas quando entram em férias. O relato da família Venturini será complementado por relatos de outras famílias migrantes e por migrantes solteiros da região de Criciúma. São homens e mulheres que migraram em diferentes momentos entre o final da década 80 e início da década de 90. Através de seus relatos, pretendo demonstrar como foram sendo construídas as redes de migração e como estas se modificam ao longo do tempo. Nos Estados Unidos, os imigrantes foram localizados a partir dos endereços coletados com parentes e amigos em Criciúma. A Família Cruz l Brasileiro/a emigrante nos Estados Unidos Brasileiro sem experiência migratória Filha de emigrante nascida nos Estados Unidos Letícia 217

15 A família Cruz, assim como a família Ramella, espalhou-se por algumas cidades da região de Boston. O primeiro a migrar foi o irmão mais velho, que partiu para fazer a América, em 1986, dirigindo-se a Allston/Brighton, em Boston. A irmã Letícia migrou em 1995 e os outros irmãos e a mãe vieram nos anos seguintes. Depois de residir com o irmão, foram morar em Somerville, Cambridge e Everett. Apenas o pai, que permaneceu em Criciúma, nunca passou pela experiência migratória. Durante o trabalho de campo em Boston, consegui falar com Letícia e seu filho, Fábio, sua mãe, Laura, e a irmã Alessandra, e o irmão mais novo Carlos e a esposa. Não conversei com os dois irmãos mais velhos, porque um morava numa cidade distante de Boston e Cláudio, o primeiro a migrar, não consegui contatar. Cláudio, o irmão mais velho, migrou solteiro com o objetivo de fazer a vida, ligava sempre para a família e convidava a irmã e o irmão para migrarem, mas Letícia não tinha coragem de fazê-lo porque era casada e o marido não queria, e os outros irmãos não sentiam necessidade/vontade de partir. Conheci Letícia numa reunião do Grupo Mulher Brasileira. Na ocasião, estavam ocorrendo várias reuniões abertas à comunidade brasileira para discutir a situação dos imigrantes pós-atentados de 11 de setembro. Participavam da reunião: integrantes do Consulado Brasileiro e de outras associações de brasileiros, bem como advogados e autoridades americanas. Estavam todos assustados com as batidas da imigração em estabelecimentos de brasileiros. Logo que cheguei a campo, as primeiras pessoas com que conversei diziam-me que não era um bom momento para iniciar esta pesquisa, estavam todas muito assustadas com as mudanças em relação aos que tentavam ir para os Estados Unidos, com a maior dificuldade para a concessão de vistos para aqueles que pretendiam viajar, e aqueles que já estavam lá sentiram uma sensação de insegurança que nunca haviam sentido antes. Os indocumentados sentiam-se mais vulneráveis às batidas da imigração nos postos de trabalho, ao maior rigor na passagem na imigração quando da chegada nos aeroportos, uma maior dificuldade para conseguir renovar a carteira de motorista, matricular os filhos na escola, situações pelas quais nunca haviam passado, mesmo sendo ilegais. Foi nesse contexto que nos conhecemos. No entanto, em vez de demonstrar desconfiança, Letícia foi muito receptiva. Conversamos durante as reuniões e combinamos de conversar mais detalhadamente numa entrevista. 218

16 A migração familiar começou apenas quando Letícia resolveu ir ao encontro do irmão na região de Boston. Letícia mora em Somerville, e foi lá que me recebeu juntamente com o filho numa manhã fria de segunda-feira, seu dia off. Ela mora com o companheiro, numa casa que fica próxima a uma grande avenida da cidade, o que tornou mais fácil a minha localização. Peguei as indicações de ônibus e consegui descer bem próximo a sua casa. A casa, no andar térreo, era pequena, porém aconchegante; entrei pela cozinha, e Letícia logo me serviu um café com donuts e uns pães. Da cozinha seguimos para a sala, depois que tomei um café, e sentamos para conversar. O filho, que estava em casa naquele final de semana, também participou da nossa conversa. Desde que ingressou no College, mudou-se para uma cidade próxima, passa a semana numa moradia estudantil e retorna aos finais de semana para casa. Letícia migrou para os Estados Unidos em 1995, estava com 30 anos quando partiu para se encontrar com o irmão e seu filho, Fábio, tinha 10 anos. Decidiu emigrar porque havia perdido o marido numa experiência dolorosa havia se separado há apenas quatro meses, quando o marido suicidou-se. Essa experiência traumática para mãe e filho contribuiu para a decisão de migrar, pois queria esquecer aquele momento de sua vida. No Brasil, trabalhava como secretária, não tinha casa própria, ganhava pouco e pagava escola particular para o filho. A falta de perspectiva de vida em Criciúma fez com que Letícia considerasse a possibilidade de uma mudança radical de vida e, por isso, teve coragem de migrar. Assim relata: queria superar os traumas, queria mudar de vida e dar estudo para meu filho e consegui, queria fazer algo que me desse assim orgulho de mim, entende?. O irmão, Cláudio, a esperava em Boston, mais precisamente em Allston/Brigthon. Letícia contou com o apoio do pai para migrar. Quando se preparava para viajar, o pai preencheu a documentação necessária, fazendo como se estivesse dando o suporte financeiro para a viagem de turismo da filha e do neto. Com essa ajuda, o visto de turista saiu sem problemas no Consulado Americano. Mãe e filho partiram para os Estados Unidos utilizando como estratégia uma viagem num pacote turístico para Disneylândia. O passeio de nove dias foi o ritual de passagem para o status de migrante. Viagem triste, sofrida, pois Letícia estava com medo, preocupada com o futuro, enquanto o filho, aproveitava os brinquedos. Não era a primeira viagem internacional de Letícia, mas essa 219

17 era uma viagem sem volta para o Brasil, para as lembranças tristes, para a vida que deixou para trás... No relato de mãe e filho, a passagem pela Disney é o momento de entrada numa nova vida, os sentimentos em relação ao ritual de chegada através da Disney são ambíguos, pois é marcado pela tristeza das lembranças deixadas no Brasil e pela esperança de uma nova vida. No relato, ambos disseram que desejariam voltar à Disney para curtir melhor. Quando chegaram em Boston, foi um choque : a casa era uma república de jovens solteiros, onde moravam o irmão, a namorada e mais dois rapazes. Não tinha estrutura nenhuma, cama, lençóis, não parecia uma casa. Na primeira noite que passaram na casa de Brigthon, como a chamavam, dormiram no sofá da sala. Segundo Letícia, o irmão sempre foi meio largado e não ligava para a casa. No dia seguinte, saíram para comprar colchão, travesseiro, e encheram a casa de utensílios de família e não apenas de solteiros, como copos, talheres, roupas de cama, colchão, enfim, montaram uma casa. Quando partiu do Brasil, Letícia levou todas as suas economias e não tinha projeto de retorno. Nesse sentido, o seu projeto difere do de uma parcela significativa dos migrantes que, pelo menos nos primeiros tempos, pensa a migração como temporária. Letícia desejava mudar de vida, deixar para trás as lembranças, começar de novo, por isso não pensava em voltar. Chegou na América com cerca de US$ 3000,00 dólares, tendo vendido tudo o que tinha no Brasil para migrar. Foi com esse dinheiro que se manteve nos primeiros tempos e comprou o social security. Este foi conseguido através de um esquema que ela descobriu depois, o qual consistia em casar a pessoa com alguém já falecido. O número do social é verdadeiro, mas agora que ela está no processo de legalização, tem medo do que possam descobrir sobre isso, pois significa que mentiu para o governo americano. Na época, não pensava propriamente em se legalizar. Com esse documento tirou a carteira de motorista, que é fundamental nos Estados Unidos, já que é utilizada como um documento de identificação no dia-a-dia. Letícia, que praticamente não dirigia no Brasil, entrou na auto-escola, teve algumas aulas e tirou carteira em Massachusetts. Dirigir possibilitou a Letícia uma maior autonomia e também montar seu schedule de faxina. 220

18 Letícia experimentou com esses documentos, mesmos falsos, o que Sales (1999a) chamou de legitimidade da condição clandestina, pois com o social security e a carteira de motorista os imigrantes podem inserir-se no mercado de trabalho, já que os locais de trabalho não verificavam os números, ou faziam vistas grossas para os documentos ilegais. Além disso, com esses documentos, colocavam os filhos na escola, tinham acesso ao atendimento médico, sentiam-se cidadãos. Tudo isso acontecia antes dos atentados de 11 de setembro. O fato de conseguirem trabalhar com esse social security falso e ter acesso a outros serviços levava os migrantes, e nesse caso Letícia, a não se preocupar muito com a legalização, o que ocorre particularmente com quem trabalha na faxina, que tem poucas condições de se legalizar através desse trabalho. Limpando as casas americanas, um serviço no qual se concentram as brasileiras imigrantes, as mulheres conseguem um certo prestígio e bons rendimentos para o negócio, mas têm dificuldades em legalizar o status migratório. Essa observação também foi feita por Hagan (1998) e Hondagneu-Sotelo (1994) com relação a outras migrantes latinas que, por se inserirem no emprego doméstico, encontram mais dificuldade para a legalização. Hagan, analisando as redes segmentadas por gênero evidencia que as mulheres provenientes da comunidade Maya (Guatemala), que trabalham como empregadas domésticas e baby-sitters na região de Houston (Estados Unidos), têm desvantagens em relação aos homens no processo de legalização. Essas mulheres migrantes, que utilizaram as redes sociais para conseguir empregos live-in (morando no emprego), com o passar do tempo, perdem os contatos com a comunidade mais extensa e têm mais dificuldade de obter informações sobre os processos de legalização, bem como reunir a documentação que possibilite a elas aplicar 22 para o processo. Segundo a autora, os homens, sendo bem integrados dentro de sua comunidade migrante, baseada em redes, conseguem com maior facilidade não apenas as informações quanto ao processo de legalização, como também reunir a documentação necessária: recibos de aluguel, contas de telefone e energia, comprovante de que trabalharam junto aos empregadores, o que se constitui numa vantagem quando iniciam o processo de legalização. As mulheres que se legalizaram trabalhavam como diaristas (housecleaners) 22 Os imigrantes brasileiros usam o termo aplicar numa tradução literal para o português da palavra application para se referir ao processo de se submeter a qualquer seleção seja para um trabalho, seja para a legalização. 221

19 e conseguiram com algum de seus patrões que assinassem os papéis e outras casaramse beneficiando-se dos recursos provenientes de seus maridos. No caso de Letícia e de outras mulheres imigrantes latinas, como as mexicanas analisadas por Hondagneu-Sotelo (1994), que também se inserem no serviço doméstico, o problema não é que ficam isoladas da comunidade mais ampla, pois não moram live-in e sim trabalham como diaristas em várias casas por dia, o que para as brasileiras constituise num lucrativo negócio. A questão é que torna-se um tipo de serviço de difícil comprovação, pois recebem em geral em cash 23 e não têm nenhum tipo de contrato de trabalho. Além disso, as últimas leis de imigração privilegiavam as pessoas que trabalhavam em restaurantes ou padarias, o que facilitou a legalização dos homens. Letícia, como outras migrantes brasileiras, está conseguindo legalizar-se através do casamento. Ela conheceu Mário, carioca que tentava pela segunda vez a vida nos Estados Unidos, quando ainda morava na casa de Brigthon com o irmão. Mário foi procurar um quarto para alugar e acabaram juntos. Quando chegou aos Estados Unidos, Letícia estava muito traumatizada com a morte do ex-marido e permaneceu dois anos sozinha, apenas trabalhava e cuidava do filho. Em 1997, ela e Mário começaram a namorar e logo saíram da casa de Brighton para morar juntos em Somerville. Quando o processo de legalização de Mário começou a correr, através da firma de construção civil na qual trabalha, resolveram casar, pois assim poderia também incluir o filho no processo. Tudo teve que ser feito rapidamente, antes que o filho completasse 18 anos. Na época em que migrou, não fez um social security para o filho, pois ficaria muito caro e ele não precisava do documento para se matricular nas escolas públicas. Mais tarde, tentou legalizá-lo através do irmão. O irmão, que já era legalizado, iria adotar o sobrinho, mas perdeu de entrar com o processo por causa da idade completou 14 anos antes de entrar com o processo. Agora, quando o filho terminou a High School e desejava ingressar no College, o status de residência legal tornou-se uma barreira efetiva para prosseguir os estudos. Por causa da falta de documentos, Fábio não pôde concorrer à bolsa de estudos, e Letícia está custeando esses gastos. O problema de Fábio é enfrentado por vários jovens brasileiros sem residência legal, que tentam seguir seus estudos. Dessa forma, através da legalização de Letícia, Fábio garante a sua permanência no College e 23 Pagamento à vista, em dinheiro. 222

20 poderá concorrer a uma bolsa de estudos. O filho não tem projeto de retornar ao Brasil, a não ser para passear, fala inglês fluentemente e tem uma namorada americana, o que não é muito comum entre os adolescentes brasileiros. A questão enfrentada por Fábio tem se tornado um problema relevante para a comunidade brasileira, pois seus filhos, que não são legalizados ou não nasceram no país, e portanto não tem a cidadania americana, quando tentam ingressar no College não conseguem entrar nos programas de bolsa de estudos 24. Assim, o crescimento da comunidade e a constituição de uma segunda geração, bem como a ampliação do tempo de permanência tem colocado de maneira mais significativa a questão da legalização, bem como o maior rigor da polícia e da imigração com relação aos documentos falsos, depois dos atentados de 11 de setembro. Por isso, Letícia, que não pensa em retornar ao Brasil, a não ser para passear e seu filho também, deseja muito legalizar-se para poder viver nos Estados Unidos sem a ameaça/o temor da deportação. Dois anos depois que Letícia havia se estabelecido na casa do irmão mais velho, 1997, emigraram sua mãe, Laura, que tinha 54 anos, em 1997, e Alessandra, que era sua irmã mais nova e estava com dezoito anos quando foi morar na mesma casa em Brigthon. Em 1999, veio o irmão André, que estava com 33 anos, tinha um negócio de seguros e trabalhava também com o pai, era casado e deixou mulher e dois filhos para trazê-los em seguida. Todos moraram na casa do irmão mais velho por um tempo, mas aos poucos a irmã saiu e os outros irmãos também. No entanto, foi em torno de Letícia que se estruturaram, foi Letícia quem colocou todos para trabalhar na faxina, até arranjarem 24 Conforme observa Sales e Loureiro (2003, p.29) em nível federal, dois dispositivos legais do Código Civil dos EUA aprovados em 1996, a saber o 8 U.S.C e o 8 U.S.C. 1621, tornaram mais difícil o acesso do estudante indocumentado à universidade. O primeiro estabelece que um Estado não poderá estender ao não-nacional ilegalmente presente nos Estados Unidos determinados benefícios locais e estaduais, inclusive aqueles relativos à educação pós-secundária, a menos que o mesmo benefício seja estendido aos cidadãos ou nacionais não-residentes naquele Estado (...) Por sua vez, o 8 U.S.C 1621 também estabelece que imigrantes indocumentados não fazem jus a benefícios estaduais ou locais relativos à educação pós-secundária. As autoras ainda observam que, embora não haja uma proibição explícita para que imigrantes indocumentados freqüentem a Universidade ou College, essas instituições dificultam a conquista de um diploma universitário, não apenas pelo valor das anuidades de não-residente, mas também porque, embora não exijam a comprovação de regularidade imigratória no momento da matrícula, em algumas instituições, exigem no momento de conclusão do curso, sem o que o diploma não será emitido. Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, tais medidas tornaram-se mais restritivas e inclusive projetos de lei que tramitavam para possibilitar o acesso de estudantes indocumentados ao ensino superior estão parados, pois não há um sentimento favorável ao imigrante, nesse momento, nos Estados Unidos. 223

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