ENSINO DA LÍNGUA INGLESA EM ESCOLAS DE NÍVEL FUNDAMENTAL E MÉDIO

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1 UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO: A VEZ DO MESTRE ENSINO DA LÍNGUA INGLESA EM ESCOLAS DE NÍVEL FUNDAMENTAL E MÉDIO SILVANA SOUZA FERNANDES ORIENTADOR CELSO SANCHES RIO DE JANEIRO JUNHO/2003

2 UNIVERSIDADE CÂNDIDO MENDES PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO: A VEZ DO MESTRE ENSINO DA LÍNGUA INGLESA EM ESCOLAS DE NÍVEL FUNDAMENTAL E MÉDIO Silvana Souza Fernandes OBJETIVOS: Fazer um relato e uma análise do ensino da Língua Inglesa, não só da minha experiência como professora de Inglês, mas também da experiência de outros professores, além de conhecer e discutir as opiniões de alguns alunos de escolas de nível fundamental e médio. Rio de Janeiro Junho/2003

3 Agradecimentos A Deus - pelo privilégio de fazer esse curso. Aos meus pais que proporcionaram todos os recursos para a minha formação. E em especial, a minha mãe, pelo exemplo de amor e perseverança. Ao meu filho pela compreensão, por não poder dedicar-lhe toda a minha atenção, em função dos estudos. Aos professores que tanto se empenharam na minha formação. Aos meus alunos pelo estímulo a continuar a aprender sempre.

4 Dedico este trabalho de pesquisa ao meu filho Matheus e todos que acreditam na Educação como fator primordial para mudança da nossa realidade.

5 Creio que os humanos são seres superiores neste planeta. Os humanos têm o potencial não só para criar vidas felizes para si mesmos, mas também para ajudar outros seres. Nos dispomos de uma capacidade criativa natural, e é importantíssimo ter consciência desse fato. Dalai-lama

6 RESUMO Atualmente o ensino de Língua Inglesa em escolas de nível fundamental e médio levanta uma série de questionamentos, uma vez que o contexto ensinoaprendizagem se dá em situações formais desfavoráveis ao ensino de uma Língua Estrangeira. As turmas superlotadas, a carga horária mínima oferecida, objetivos mal definidos, a não contextualização do ensino, a ausência de recursos interdisciplinares em função da discriminação existente por parte dos profissionais das demais disciplinas, a lenda de que a Língua Inglesa não reprova, entre outros. As desculpas mais comuns dos alunos são apontadas aqui, como também não podemos deixar de mencionar o fato de que muitos profissionais mal preparados para desempenhar suas funções, deveriam estimular seus alunos, possibilitando-lhes um vôo mais alto, subestimam-lhes a capacidade de dar continuidade e o próprio envolvimento com a língua, limitando-lhes os conteúdos. Em linhas gerais, iremos apontar algumas deficiências na formação dos profissionais de Língua Inglesa, bem com, no nosso sistema educacional. Também apresentaremos uma série de entrevistas individuais com alunos e professores de inglês, e o preenchimento de um questionário por parte dos alunos de inglês. A partir das entrevistas, ficou claro que o inglês que é ensinado nas escolas é fortemente criticado pelos alunos, que, na maioria das vezes mostram um grande desinteresse pela disciplina.

7 Objetivando a desmistificação do ensino de Língua Inglesa, é apresentada sua relevância e importância no processo educacional como um todo, viabilizando uma nova compreensão da linguagem, desenvolvendo maior consciência ao funcionamento da sua própria língua materna, aumentando a percepção da própria cultura, promovendo a tolerância diante das diferenças, contribuindo na construção da cidadania do aluno, bem como na construção de sua visão crítica de mundo.

8 METODOLOGIA A metodologia que foi empregada para a execução deste trabalho consistiu, inicialmente, na realização de uma pesquisa bibliográfica e documental, que tinha por objetivo determinar o que existia na literatura em relação ao ensino da Língua Inglesa em escola de ensino fundamental e médio. Em seguida, foi realizada uma série de entrevistas individuais, com alunos e professores de inglês. Tentei captar a realidade como ela é, segundo a opinião de alunos e professores de inglês, selecionando seus aspectos mais relevantes; ao mesmo tempo, procurei não perder de vista os textos teóricos. Apesar de minha larga experiência neste assunto e de ter minha opinião formada, procurei ser sempre imparcial, não deixando que alunos e professores fossem influenciados pela minha opinião pessoal.

9 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 1 O PROBLEMA 4 UM DESAFIO CONSTANTE 5 MITOS DE PROFESSORES 9 UMA DEFICIÊNCIA DO NOSSO SISTEMA EDUCACIONAL 11 DIFICULDADES NO ENSINO DA LÍNGUA INGLESA 13 A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DA LÍNGUA INGLESA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA 16 O ENSINO DA LÍNGUA INGLESA COM CONSCIÊNCIA CRÍTICA 18 PESQUISA DE CAMPO 21 CONCLUSÃO 23 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 24 REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS 25 ANEXOS 26

10 ÍNDICE INTRODUÇÃO O Problema Um Desafio Constante 2.1 Desculpas dos alunos Não consigo aprender Inglês Não tenho talento para aprender Inglês Não gosto de aprender Inglês Não tenho que aprender Inglês Falar Inglês é coisa para quem quer se exibir Não tenho ouvido musical Mitos de Professores 3.1 Certos alunos não têm mesmo jeito Meu inglês é igual ao de um americano (ou 10 inglês) Estudo inglês há anos e já sei o bastante Uma Deficiência do Nosso Sistema Educacional Dificuldades no Ensino da Língua Inglesa 5.1 Língua Inglesa: elemento descartável do currículo Objetivos mal planejados Ausência de conhecimento de mundo A Importância do Ensino da Língua Inglesa para a Construção da Cidadania... 16

11 7- O Ensino da Língua Inglesa com Consciência Crítica Pesquisa de Campo Entrevistas com Professores e alunos Resultados e Análises Conclusão Referências Bibliográficas Referências Documentais Anexos A- Modelo do questionário submetido a alunos de Inglês B- Amostras das declarações de professores e alunos de Inglês C- Comprovantes de entrada no teatro D- Comprovante de participação no 3º ENCONTRO DE PROFISSIONAIS DE LÍNGUA INGLESA DO RIO DE JANEIRO E- Comprovante da visita à Bienal do Livro Rio.. 32

12 INTRODUÇÃO A questão da democratização do conhecimento tem feito parte dos debates sobre os rumos da Educação Brasileira. O acesso ao conhecimento torna-se, crescentemente, uma das maiores exigências no campo da cidadania. No Brasil, esta necessidade se acirra, devido aos longos períodos de elitização educacional, exclusão e desigualdade social. O acesso à uma língua estrangeira tem importante papel num mundo globalizado. Somos obrigados a conhecer uma língua usada hoje, em todo o mundo, para a comunicação entre pessoas de diferentes culturas: a Língua Inglesa. Esta não é prioridade exclusiva de ingleses ou americanos (em geral sequer pensamos em australianos, neozelandeses, indianos...). A aprendizagem da Língua Inglesa é uma possibilidade de aumentar a auto-percepção do aluno como ser humano e como cidadão, permite ao estudante aproximar-se de várias culturas e, conseqüentemente, propiciam sua integração num mundo globalizado. Por isso, ela deve centrar-se em sua capacidade de se engajar e engajar outros no discurso de modo a poder agir no mundo social e globalizado. Para que isso seja possível, é fundamental que o ensino da Língua Inglesa seja balizado pela função social deste tipo de conhecimento na sociedade brasileira. Tal função está, principalmente, relacionada ao uso que se faz da Língua Inglesa via leitura, embora se possa também considerar outras habilidades comunicativas em função da especificidade da Língua Inglesa nas condições existentes

13 2 no contexto escolar. Além disso, ainda que seja desejável uma política de pluralismo lingüístico, condições pragmáticas apontam a necessidade de considerar três fatores para a orientar a inclusão da Língua Inglesa no currículo: fatores relativos à história, comunidades locais e à tradição. O contato do inglês com a língua materna nas diferentes culturas gera dificuldades específicas de aprendizagem, oriundas das diferenças de estrutura, vocabulário e pronúncia entre as línguas. O ideal é que a Língua Inglesa seja ensinada com a simulação de situações reais em aula, os caminhos para desenvolver o conhecimento de inglês são traçados diversamente pelos alunos, de acordo com as facilidades e dificuldades que a sua língua materna impõe no curso do processo de aprendizagem. De um modo geral, o que o ensino da Língua Inglesa proporciona é o aumento do conhecimento sobre a linguagem que o aluno construiu, inclusive sobre sua própria língua materna; por meio de comparações com a Língua Inglesa em vários níveis; e a possibilidade de o aluno, ao se envolver nos processos de construir significados nesta língua, se constitua em um ser discursivo no uso da Língua Inglesa; sem, contudo, ser abandonado o senso crítico, o fator fundamental em qualquer relação ensinoaprendizagem. No que compete ao ensino de Língua Inglesa especificamente em escolas da rede pública, a discussão tem sido ampla nos meios acadêmicos e educacionais. Antes, a discussão era em torno da garantia da permanência dessa disciplina no currículo. Com a Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, no entanto, que prevê o ensino de uma Língua Estrangeira, como

14 3 disciplina obrigatória no ensino fundamental a partir da 5ª série. (art. 26, 5).

15 4 1- O PROBLEMA A discriminação da disciplina Língua Inglesa em relação às outras disciplinas do currículo do ensino fundamental e médio é fator preponderante. A própria comunidade escolar não privilegia o ensino de Língua Inglesa, bem como os próprios profissionais da área, pois, muitas vezes, mal preparados, descontextualizam e, o que é pior, subestimam a capacidade de seus alunos, limitando-lhes os conteúdos. Freqüentemente, ouvimos expressões tais como Língua Inglesa não reprova, para que vou estudar Inglês se mal falo Português. E quando se trata de uma comunidade carente então... questionamentos do tipo eu nunca terei chance de viajar para os Estados Unidos ou para qualquer outro país cujo idioma falado é o Inglês, por que vou estudá-lo? Além disso, a carga horária destinada ao ensino de uma Língua Estrangeira é reduzida, raramente ultrapassa dois tempos semanais.

16 5 2- UM DESAFIO CONSTANTE Os professores de Língua Estrangeira, bem como aqueles que lecionam as demais disciplinas do currículo das escolas regulares, vivem dia-a-dia um constante desafio. Seguem enumerados abaixo alguns muito comuns que os docentes ouvem ao entrar na sala-de-aula de escolas regulares, em geral no início do ano letivo, que funcionam como verdadeiros desestimulantes num primeiro momento. Seguem, também, possíveis explicações para tais questionamentos, segundo o Profª Cristina Schumacher (Inglês Urgente! Para Brasileiros, 1999). 2.1 Desculpas dos alunos Não consigo aprender inglês Essa é uma desculpa clássica. Aos que usam essa desculpa e tentam, ou, por causa dela, não tentam aprender inglês, ela funciona como uma auto-sugestão extremamente para que o aluno, de fato, não aprenda. E é disso que o professor precisa convencer o aluno Não tenho talento para aprender inglês. Tem gente que nasce com talento para aprender a tocar violão, estudar matemática, e tem gente que tem jeito para inglês. De fato. E ainda bem que é assim. No mundo existem pessoas com as aptidões mais diversificadas, e isso contribui para que tudo fique mais interessante.

17 6 O aluno pode até não ter jeito para inglês, só que dificilmente não terá jeito para comunicar-se. O que pode bem ser o caso do aluno é a resistência a expor-se a ser continuamente corrigido, porque não colocou o s na terceira pessoa, ou, então, porque fez uma pergunta sem usar o do, etc Não gosto de aprender inglês. Odeio inglês Essa desculpa é grave. É grave porque, na linha de auto-sugestão, é ainda mais poderosa do que não consigo. Ao dizer que não consegue aprender inglês, o aluno está trabalhando com a premissa da incapacidade; ao dizer que não gosta, está aplicando sua vontade para ajudar-lhe na auto-sabotagem. Mas existe uma vantagem aí: a vontade é poderosa. O aluno passará a gostar de aprender inglês quando vir nesse processo um resultado claro, constante e diretamente relacionado com suas necessidades comunicativas. Quanto mais conhecimento da língua inglesa revelar ao aluno possibilidades de expandir seus conhecimentos, de crescer profissionalmente e, sobretudo, quanto mais ela servir para que ele se aproxime das coisas de que sempre gostou, maior será seu reconhecimento a utilidade do inglês em sua vida e, por conseqüência, maior será a vontade de o aluno aprender. Normalmente os alunos que usam essa desculpa para não estudar inglês, passaram pela desculpa do não consigo. Aquela, levada às suas previsíveis e discutidas conseqüências, conduz a esta.

18 Eu tenho que aprender inglês Pura tirania. É usada a expressão ter que toda hora, com referência aos mais diversos compromissos. Usando-a, é esquecida completamente como é a relação com dado compromisso. Ou seja, a obrigação rouba o próprio relacionamento com as coisas: não tem opção, é obrigado. Reconheça: cada vez que o aluno diz que tem que aprender inglês, maior fica a distância entre ele que não providencia a aprendizagem e ele que tem que aprender. A fim de anular essa desculpa, deve-se mostrar ao aluno tirano que ele quer aprender inglês porque quer enriquecer a vida, e não porque ele está mandando Falar inglês é coisa para quem quer se exibir Há uma tradição cultural brasileira de que tudo o que é da Europa ou dos Estados Unidos é melhor. Quando a referência é a escola pública então, essa desculpa é muito mais comum. Imagine um aluno de uma comunidade carente falando suas primeira palavras em inglês? A exibição, o equívoco, são traços do comportamento humano e nada têm a ver com a língua inglesa Não tenho ouvido musical Essa é uma desculpa muito relacionada com a dificuldade de pronunciar. Como mais uma desculpa que não serve, basta pensar que uma língua não é uma música. Se o

19 8 aluno tiver sotaque, isso não será uma falha, mas uma forma de identidade.

20 9 3- MITOS DE PROFESSORES 3.1 Certos alunos não têm mesmo jeito Existem alunos que são verdadeiros desafios. Gente com grande dificuldade, que colocou por terra as boas intenções do corpo docente e o fez desistir, ou quase isso. Realmente, há alunos que têm extrema dificuldade. No entanto, o grande problema a esse respeito é a falta de flexibilidade na expectativa que o professor tem quanto ao desempenho dos seus alunos. Algumas pessoas, fatalmente, não conseguirão ir além de um determinado limite e isso não está certo nem errado. São limites com que qualquer ser humano se depara em sua capacidade se posto prova em outras áreas para as quase não tem jeito. É uma crueldade excluir uma pessoa de um processo porque ela não o acompanha de acordo com a expectativa que o professor traz, empacotada debaixo do braço. Algum padrão comunicativo este aluno, com dificuldades, vai conseguir desenvolver, e o sucesso dele depende muito da flexibilidade dos professores. Por razões de aptidão pessoal e de objetivos de aprendizagem, é preciso, por parte dos professores, realismo nas expectativas de resultados do processo de ensino.

21 Meu inglês é igual ao de um americano (ou inglês) Com a dedicação, a intimidade com a língua e a pronúncia poderão ser impecáveis, mas a identidade cultural irá, mais cedo ou mais tarde, trair esse professor. 3.3 Estudo inglês há anos e já sei o bastante É impossível estar pronto com o conhecimento de uma língua. Evidentemente, quanto mais tempo o professor estiver em contato, mais saberá. A grande verdade, para qualquer língua que seja, é que tudo é muito dinâmico, e que nunca ninguém sabe tudo. Ficar pensando que já se sabe o bastante pode fechar as portas à aprendizagem de coisas novas. O docente monta um pedestal de conhecimento que julga alto, e que sempre é, de fato, muito mais baixo do que pensa. Sei que nada sei (Sócrates, s:d). Não será o professor de inglês, que saberá o que sabe.

22 11 4- UMA DEFICIÊNCIA DO NOSSO SISTEMA EDUCACIONAL Embora proficiência em inglês seja hoje uma necessidade básica na formação do indivíduo, nosso ensino fundamental e médio, tanto na rede pública quanto na rede particular, mostra uma alarmante incapacidade de proporcioná-la. Esta incapacidade está evidentemente demonstrada na grande quantidade de cursos existentes. Aprendemos Português, Matemática, História e Geografia na escola e, raramente, precisamos freqüentar cursos paralelamente para suprir defasagens nessas áreas. Entretanto, para suprirmos a necessidade de proficiência em inglês, temos que investir muito tempo e dinheiro em cursinhos de idiomas, sem, ao menos, ter a garantia de alcançarmos o resultado almejado. Todos sabemos que uma grande parcela dos professores não têm a habilidade com a língua que devem ensinar. Muitos professores não possuem um prérequisito fundamental - a fluência na língua. E, se nos reportarmos ao interior, a situação é bem mais crítica, pois o despreparo é ainda maior. O problema está muitas vezes nos cursos de letras das universidades, pois, priorizam o estudo formal do idioma. Este problema revela uma deficiência do nosso ensino. Os ensinos fundamental e médio continuam atolados numa abordagem quase igual à do início do século, presos no método de tradução e gramática, carentes de professores proficientes no idioma. O Ministério da Educação precisaria rever as

23 12 grades curriculares dos cursos de letras existentes no Brasil.

24 13 5- DIFICULDADES NO ENSINO DA LÍNGUA INGLESA 5.1 Língua Inglesa: elemento descartável do currículo A primeira observação a ser feita é que o ensino da Língua Inglesa (ou de qualquer Língua Estrangeira) não é visto como elemento importante na formação do aluno, como um direito que lhe deve ser assegurado. Ao contrário, freqüentemente, a Língua Inglesa não tem lugar privilegiado no currículo, sendo ministrada, em algumas regiões, em apenas uma ou duas séries do ensino fundamental. Em outras, tem o status de simples atividade, sem caráter de promoção/reprovação. Em alguns estados, ainda, a Língua Inglesa é colocada fora da grade curricular, em Centros de Línguas, fora do horário regular e fora da escola. Fora, portanto, do contexto da educação global do aluno. 5.2 Objetivos mal planejados Quanto aos objetivos, vê-se total falta de clareza. A maioria das propostas prioriza o desenvolvimento da habilidade de compreensão escrita, mas esta opção não parece decorrer de uma análise de necessidades dos alunos, nem de uma concepção explícita da natureza da linguagem e do processo de ensino-aprendizagem de línguas, nem ainda de sua função social. Há contradições entre a opção priorizada e os conteúdos e atividades sugeridos. Essas contradições aparecem também no que diz respeito à abordagem escolhida. A maioria das propostas

25 14 situa-se dentro da abordagem comunicativa do ensino de línguas, mas os exercícios propostos, em geral, exploram de forma behaviorista pontos ou estruturas gramaticais não-contextualizados. Todas as propostas apontam para as circunstâncias difíceis em que se dá o ensino-aprendizagem da Língua Inglesa: falta de materiais adequados, classes excessivamente numerosas, número reduzido de aulas por semana e ausência de ações formativas contínuas junto ao corpo docente. 5.3 Ausência de conhecimento de mundo A ausência de conhecimento de mundo pode apresentar grande dificuldade no engajamento discursivo, principalmente se não dominar o conhecimento sistêmico na interação oral ou escrita na qual estiver envolvido. Por exemplo, a dificuldade para entender a fala de alguém sobre um assunto que desconheça pode ser maior se o aluno de Língua Inglesa tiver problemas com o vocabulário usado e/ou com a sintaxe. Por outro lado, esta dificuldade será diminuída se o assunto já for do conhecimento do aluno. No ensino de Língua Inglesa, este problema de conhecimento de mundo referente ao assunto de que se fale ou sobre o qual se leia ou escreva, pode também ser complicado caso seja culturalmente distante do aluno. Por exemplo, considerem-se as dificuldades que um aluno iniciante brasileiro de Língua Inglesa, pouco familiarizado com a cultura inglesa, enfrentaria para ler um texto em inglês que descrevesse o ritual que envolve uma refeição da Família Real Britânica. Ou um aluno que esteja lendo um texto sobre a vida dos aborígenes no

26 15 passado e no presente (considerando-se que inglês não se fala somente na Inglaterra e nos Estados Unidos). Ao mesmo tempo, é este tipo de conhecimento que pode, com o desenvolvimento da aprendizagem em nível sistêmico, colaborar no aprimoramento conceptual do aluno, ao expô-lo a outras visões do mundo, a outros modos de ver a vida social e política, à possibilidade de reconhecer outras experiências diferentes como válidas.

27 16 6- A IMPORTÂNCIA DO ENSINO DA LÍNGUA INGLESA PARA A CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA A aprendizagem da Língua Inglesa em escolas regulares, como contribuição ao processo educacional como um todo, vai muito além da aquisição de um conjunto de habilidades lingüísticas. Leva a uma nova compreensão da linguagem, aumenta a compreensão de como a linguagem funciona e desenvolve maior consciência do funcionamento da própria língua materna. Outro aspecto a ser considerado, do ponto de vista educacional, é a função interdisciplinar que a Língua Inglesa pode desempenhar no currículo. O benefício resultante é mútuo. Os estudo das outras disciplinas, notadamente da História, da Geografia, das Ciências Sociais, da Arte, passa a ter outro significado se em certos momentos forem proporcionadas atividades conjugadas com o ensino da Língua Inglesa. Esta é uma forma de viabilizar na prática de sala de aula a relação entre a Língua Estrangeira e o mundo social, isto é, como fazer uso da linguagem para agir no mundo social. A aprendizagem da Língua Inglesa em escolas regulares não é só um exercício intelectual em aprendizagem de formas e estruturas lingüísticas em um código diferente; é, sim, uma experiência de vida. O papel educacional da Língua Inglesa é importante, desse modo, para o desenvolvimento integral do indivíduo, devendo o ensino ser visto em termos de proporcionar ao aluno essa nova experiência de vida. Experiência que deveria significar uma abertura para o mundo, tanto o

28 17 mundo próximo, fora de si mesmo, quanto o mundo distante, em outras culturas. Assim, contribui-se para a construção e o cultivo, pelo aluno, de uma competência não só no uso de uma Língua Estrangeira, mas também na compreensão de outras culturas.

29 18 7- O ENSINO DA LÍNGUA INGLESA COM CONSCIÊNCIA CRÍTICA O aprendizado de uma segunda língua, aqui em destaque a Língua Inglesa, tem um papel primordial no processo educacional como um todo, conforme anteriormente citado. Ao mesmo tempo, ao desenvolver uma apreciação dos costumes e valores de outras culturas, desenvolvemos a tolerância diante das diferenças de maneira de expressão e de comportamento. Isto significa dizer que respeitamos as outras culturas mas não significa dizer que tenhamos que abandonar nossas raízes para a incorporação de outras idéias, conforme alertam alguns compositores da nossa música popular. "Raspas e restos me interessam..." (Cazuza e Frejat, Menor Abandonado). Cabe aqui recorrer ao conceito de Paulo Freire (...)educação como força libertadora" (Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, 1996) aplicando-o ao ensino da Língua Inglesa. Uma ou mais Línguas Estrangeiras que concorram para o desenvolvimento individual e nacional podem ser também entendidas como força libertadora tanto em termos culturais quanto profissionais. Poder participar da competição profissional e econômica em termos iguais, tanto interna quanto externamente, faz as pessoas aprenderem a escolher. Mas, para isso, é necessário ter olhos esclarecidos para ver. Isto significa despojar-se de qualquer tipo de falso nacionalismo, pois este pode ser um empecilho para o

30 19 desenvolvimento pleno do cidadão no seu espaço social imediato e no mundo. A aprendizagem da Língua Inglesa aguça a percepção e, ao abrir a porta para o mundo, não só propicia acesso à informação, mas também torna os indivíduos e, conseqüentemente, os países mais bem conhecidos pelo mundo. Essa é uma visão de ensino de Língua Inglesa como uma força libertadora de indivíduos e de países. Também se deve considerar o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre a linguagem como parte desta visão lingüística como libertação. A aprendizagem da Língua Inglesa, tendo em vista o seu papel hegemônico nas trocas internacionais, desde que haja consciência crítica deste fato, pode colaborar na formulação de contra-discursos em relação às desigualdades entre países e entre grupos sociais (homens, mulheres, brancos, negros, falantes de línguas hegemônicas e não-hegemônicas, etc.). Assim, os indivíduos passam de meros consumidores passivos de cultura e de conhecimento a criadores ativos: o uso da Língua Inglesa é uma forma de agir no mundo para transformá-lo. A ausência dessa consciência crítica no processo de ensino-aprendizagem de inglês, no entanto, colabora na manutenção do status quo em vez de colaborar em sua transformação. Portanto, a Língua Inglesa nas escolas regulares não tem papel meramente decorativo, no sentido de que possa ser suprimida sem afetar a educação global dos indivíduos. É parte integrante da educação formal, que envolve um complexo processo de reflexão sobre a realidade social, política e econômica, com valor intrínseco importante no processo de capacitação que leva à libertação em face das imposições das forças

31 20 dominantes, ou seja, é parte do processo de construção da cidadania.

32 21 8- PESQUISA DE CAMPO ENTREVISTA COM PROFESSORES E ALUNOS RESULTADOS E ANÁLISES A coleta de dados de campo correspondeu à maior, principal e mais importante etapa deste projeto. A coleta de dados de campo consistiu em entrevistas individuais com professores, conversas informais com alunos e preenchimento de questionários por alunos. No total, foram mais de 10 professores de inglês, e mais de 50 alunos, de escolas públicas e particulares do Rio de Janeiro. Algumas das declarações de alunos e professores estão transcritas em anexo, assim como o modelo do questionário que foi submetido aos alunos. Basicamente, professores e alunos foram indagados a respeito da sua opinião geral sobre as aulas de inglês que ministravam e assistiam, respectivamente. As entrevistas terminaram sempre com as opiniões de professores e alunos sobre o que poderia ser feito para tornar as aulas de inglês mais atrativas para ambos. (Ver declarações e questionário em anexo). A pesquisa comprovou exatamente o que tenho observado ao longo de minha vida no magistério. O ensino da Língua Inglesa não é levado muito a sério. As aulas são voltadas para a compreensão escrita, calcadas numa abordagem quase igual a do início do século, presas ao método de tradução e gramática. Alunos e professores das redes pública e particular foram unânimes quanto aos recursos audiovisuais para o

33 22 ensino de idiomas, pois tornaria as aulas mais interessantes. Também abordaram a questão da prática oral que não é enfatizada. Eles alegaram o grande número de alunos em uma mesma turma, o que reduz a possibilidade de uma participação ativa de todos os alunos e o reduzido número de aulas semanais dedicados ao ensino de inglês, impedindo a realização de uma série de atividades.

34 23 CONCLUSÃO Num mundo globalizado em que vivemos, é incontestável a necessidade do aprendizado de uma língua estrangeira. Diante do poderio dos Estados Unidos, apesar de a Língua Inglesa não ser propriedade dos americanos, ela é a língua atualmente utilizada comercialmente. Para navegar pelo mundo virtual ou físico, saber inglês é preciso. Assim sendo, o professor dessa disciplina, ao contrário de se conformar como sendo um profissional descartado e discriminado, deve encarar os problemas buscando superá-los. Visando alcançar melhores resultados sob o ponto de vista educacional, o corpo docente deve se unir e caminhar rumo à interdisciplinaridade, facilitando o engajamento da disciplina Língua Inglesa com as demais. É indiscutível o papel educacional do ensino da Língua Inglesa em escolas regulares, sobretudo, para o desenvolvimento integral do indivíduo, devendo o ensino ser visto em termos de proporcionar ao aluno essa nova experiência de vida, essa nova visão de mundo; atividades fundamentais no processo de libertação e no processo de formação de verdadeiros cidadãos, levando-os à reflexão sobre a realidade social, política e econômica.

35 24 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Júlia Falivene. A invasão cultural norteamericana. São Paulo:Moderna, DEMO, Pedro. A nova LDB:ranços e avanços. 13ª ed. São Paulo: Papirus, FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, Educação como prática da liberdade. 25ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, GIMENEZ, T. N., Reis. Formação de professores de inglês: uma avaliação. Boletim do Centro de Letras e Ciências Humanas, Londrina, n. 24, pp , PERRENOUD, Philippe. A pedagogia na escola das diferenças. 2ªed. São Paulo: Artmed, Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, SCHUMACHER, Cristina. Inglês urgente! Para brasileiros. Rio de Janeiro:Campus, SILVA, Tomaz Tadeu (org.). Alienígenas na sala de aula. Petrópolis, RJ:Vozes, VASCONCELLOS, C.S. Construção do conhecimento em sala de aula. São Paulo: Libertad, WERNECK, H. Se você finge que ensina, eu finjo que aprendo. Petrópolis:Vozes, 1993.

36 25 REFERÊNCIAS DOCUMENTAIS Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394, de 20 de dezembro de Parâmetros Curriculares Nacionais - Língua Estrangeira. Versão Preliminar para Discussão. Ministério da Educação e do Desporto. Brasília. Outubro/1997.

37 26 ANEXO A- Modelo do questionário submetido a alunos de Inglês A seguir é apresentado o questionário que foi entregue a alunos de inglês de escolas particulares e públicas. 1. O que você acha do ensino de Língua Inglesa que é dado na sua escola? 2. Você gosta da maneira com que o inglês é ensinado na sua escola? Por quê? O que você sugeriria para melhorá-lo? 3. O que você acha que poderia ser mudado para tornar as aulas de inglês mais atrativas e interessantes para os alunos?

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