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1 (2009) Onésimo Teotónio Almeida, De Marx a Darwin. A desconfiança das Ideologias. Lisboa, Gradiva Publicações.* Maria Gabriela Teves de Azevedo e Castro Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade dos Açores. Rua da Mãe de Deus Ponta Delgada. Berta Maria Oliveira Pimentel Miúdo Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade dos Açores. Rua da Mãe de Deus Ponta Delgada. I Apresentar Onésimo Teotónio de Almeida não é tarefa fácil, muito menos na obra que ora se lança De Marx a Darwin, a desconfiança das ideologias. À partida, Marx e Darwin são dois nomes que apontam para perspectivas diferentes, uma tradicionalmente mais ideológica a outra mais científica numa dinâmica evolucionista. Quero, antes de partilhar convosco a minha leitura da obra, agradecer ao Professor Doutor Onésimo Teotónio Almeida, o ter-nos facilitado a nossa tarefa dispondo-se a dialogar connosco, convidando-nos para o efeito à colocação de questões. Seguindo esta disponibilidade entendi ler a sua obra de modo a procurar lançar-lhe algumas questões e solicitar a sua ajuda para a respectiva compreensão. Onésimo Teotónio Almeida é nome sobejamente conhecido e referência não só académica, em diferentes áreas do saber e em descoincidentes lugares. No entanto, senti necessidade de conhecer um pouco mais sobre os seus trabalhos, pois todos nós nos reflectimos no nosso próprio estilo, já o disse Merleau-Ponty, e nas temáticas que escolhemos. Assim, comecei por tentar saber um pouco mais sobre o escritor. A verdade é que me ia perdendo na Internet com tanta entrada, links, referências e respectiva informação. Ainda comecei a tentar, pela * Nota do editor O texto que nesta oportunidade se inclui nesta secção destinada a recensear livros de autores açorianos ou contemplando obras de temática com interesse para o arquipélago, corresponde à apresentação pública da mais recente obra de Onésimo Teotónio Almeida. Pode bem dizer-se que se trata de uma peça tocada a duas mãos, em que duas professoras universitárias de filosofia discorrem filosoficamente, mas com a graciosidade e a informalidade que o apreço tido pelo autor explicará, sobre uma obra cuja densidade complexa, à luz da reflexão das duas autoras, resulta mais simples e, até, estimulante. Por isso, também, o texto a que as duas apresentadoras do livro chamam apenas notas, se mantém inalterado.

2 528 Boletim do Núcleo Cultural da Horta quantidade, perceber o quanto tinha escrito, desisti. Isto é, escreveu muito. Bem, muito é pouco, porque escreveu muitíssimo. Desde livros e prefácios de livros, a artigos em que é autor ou co-autor e à participação em Actas de colóquios ou congressos internacionais lá se encontra de tudo. Por isso, abandonei as novas tecnologias. Estando eu a conversar com alguém, que o Professor Onésimo Almeida conhece bem, a Doutora Fernanda Enes, disse-lhe da minha tarefa ao que me respondeu, para me descansar claro!: Ideologias? Esse é o tema do doutoramento dele. Sobre isso sabe ele falar. Interessante que, já lendo o livro, que hoje apresento, no capítulo Marx morto, Darwin posto? encontrei a seguinte afirmação que corroborava a informação recebida influenciado como estava pelas reflexões durante o processo de escrita da tese de doutoramento sobre o conceito de ideologia, em que o primeiro capítulo tentara desmistificar as pretensões do marxismo ao estatuto de ciência, mostrando como ele era uma ideologia e, mais do que isso, uma visão do mundo como outra qualquer, assente sobretudo na opção pela justiça como valor ético fundamental, pressentia que o paradigma marxista começava a soçobrar (p. 21). Como se pode verificar a informação da minha amiga em nada me facilitava a tarefa e por isso decidi voltar-me, apenas, para o livro que hoje estamos a lançar. De Marx a Darwin a Desconfiança das Ideologias é uma obra composta por uma introdução, Em jeito de explicação ao leitor, seguida de 5 capítulos, uma conclusão e dois apêndices sobre Darwin e os Açores e o Darwinismo nos Açores: Arruda Furtado, Sena Freitas e não só. Daqueles cinco salientarei o 1.º subordinado ao tema interessantíssimo Marx morto, Darwin posto? ; o 2.º intitulado A mundividência marxista: um rápido esboço ; passarei para o 4.º onde a Natureza humana e o determinismo biológico enforma o

3 Revista de Livros 529 conteúdo exposto e finalmente a conclusão. O 3.º e o 5.º capítulo ficaram para a minha colega Berta Pimentel Miúdo. Na introdução intitulada, Em jeito de explicação ao leitor, Onésimo Almeida afirma referindo-se a Darwin e ao facto da força com que a questão religiosa, levantada pela teoria evolucionista, em alguns blogues assumir, em Portugal, um pouco, embora nem de longe com a veemência com que surge em determinadas hostes norte- americanas, justificar a sua necessidade de reflexão [que lhe vem do interior do seu mundo vivido] ( ) e serem assim preocupações se calhar demasiado americanas para a sensibilidade portuguesa, reconhece o autor, mas continua convicto de que o seu trabalho traz a dimensão da partilha do questionamento que une todos aqueles que gostam de pensar. Se a introdução era para ajeitar uma explicação ao leitor, esta passagem, desajeitou-me a explicação pois Ricoeur afirma O sujeito que interroga deve ser considerado como pertencente à realidade sobre a qual interroga, pois só deste modo, isto é, pertencendo previamente a um mundo, é que podemos interrogarmo- nos sobre o seu sentido. O pressuposto heideggeriano de ser-no-mundo ganha toda a sua inteligibilidade como precedente da reflexão, pois na verdade, o intérprete nunca conseguirá aproximar-se do que diz o seu texto, se não estiver já posicionado na sua atmosfera de sentido 1. Valeu-me a referência a Tomas Kuhn e a Rorty para me descansar na minha inquietação de falta de mundo vivido para a interpretação uma vez que, de acordo com Onésimo, esses foram os pensadores que melhor ultrapassaram a fronteira linguística e cultural entre os EUA e a Europa (p. 24), onde me encontro na ultraperiferia. Por toda a obra perpassa a reflexão pessoal sempre fundamentada num profundo conhecimento teórico que vai desde a filosofia clássica à contemporânea, passando pela medieval e moderna, bem como pela ciência, pela epistemologia, e pela sociologia. Os fundamentos da reflexão em que o autor se apoia para ultrapassar Marx e ressuscitar Darwin, leva-nos pelas páginas de uma obra que se lê com enorme gosto, de um fôlego só, como se costuma a dizer na minha, na nossa terra. A exposição encadeada dos princípios, a tessitura ordenada das fontes e a finura da reflexão, perspicaz e arguta, garantem umas horas de repouso-dinâmico de leitura e longas horas posteriores de reflexão. Um dia disse-me o Professor Jean Ladrière Si quelque chose nous donne a penser c est parce que l a 1 Ricoeur, Paul, Philosophie de la volonté: II Finitude et culpabilité: 2. La symbolique du mal, Aubier, 1960, 1988, p. 327 e CI, p. 294.

4 530 Boletim do Núcleo Cultural da Horta il y a de la philosophie. Já Kant o havia afirmado e Ricoeur retomado essa mesma máxima quando a aplica ao símbolo afirmando Le symbole donne à penser. Este texto de Onésimo é um texto de filosofia. Faz-nos pensar. Leva-nos pela mão, adentro do seu pensamento, expondo, baralhando, construindo e descontruindo, dando e retirando conforme a questão que o interpela ou a conclusão a que chega, sempre prenhe de novas hipóteses a explorar. No primeiro capítulo Marx morto, Darwin posto? Onésimo afirma algo extraordinário, que vou pedir me possa ajudar a compreender: como é que o empirismo impõe uma nova metafísica (p. 27)? Continuando a leitura, entendi ser este um dos vértices das ideias que quer fazer passar nesta obra. Por isso, aquela afirmação encontra eco no capítulo 4, Natureza humana e determinismo biológico, onde justifica que nós vivamos cada vez mais dentro de um novo paradigma, o do empirismo racional (p. 73). Porém, acabou por me deixar sem chão, quando na página 121, já na Conclusão, afirma: A ciência não é uma metafísica, recordando Aristóteles. Estes textos, aparentemente vários, contêm a unidade de proporem uma explicação pelos meandros da ciência e suas relações com a filosofia, no entanto, fica-nos um pouco a sensação de apenas termos vislumbrado, como Moisés, a Terra Prometida e não termos lá entrado, mesmo com as referências posteriores a Thomas Huxley, o grande divulgador da obra de Darwin, com o seu ensaio sobre o evolucionismo e a ética procurando salvaguardá-la, que Onésimo reflecte mais profundamente no capítulo intitulado Natureza Humana e Determinismo Biológico, sumariada na afirmação do Duarte, Tudo na civilização é contra a natureza (p. 8). No segundo capítulo senti uma profunda identificação com os seus alunos. Assim como é difícil do exterior de uma sociedade cientificamente avançada entender, por exemplo, Bachelard e os seus obstáculos epistemológicos, assim também deverá ser difícil, do interior de uma sociedade capitalista compreender O Capital de Marx. Exige um trabalho de desconstrução da própria realidade em que nos encontramos, um profundo conhecimento de Hegel para se poder entender, como dizia o nosso Professor José Enes: Marx virou Hegel de cabeça para baixo. Como captar em toda a sua amplitude, do interior de uma vivência numa sociedade capitalista, a ideia que está expressa na seguinte afirmação: o paraíso terreal existiu de facto, e o ser humano era bom, mas o capitalismo foi, infelizmente, o pecado original que lançou a humanidade na senda de uma história de luta de classes (p. 53)?

5 Revista de Livros 531 É muito interessante a paridade lógica que estabelece entre a metafísica marxista e a cristã, a primeira ordem natural, o pecado original e a segunda ordem natural, aplicando a cada uma das doutrinas as respectivas figuras simbólicas que na dialéctica ganham corpo. Hegel esteve no Seminário de Tubinga com Schelling e tinham como divisa O reino de Deus. Marx mantém a mesma dialéctica, porém, invertida. Interessante! A revisitação, presente no capítulo 3 está a cargo da minha colega Berta Pimentel Miúdo em conjunto com o capítulo 5, pelo que não sendo este um diálogo de violinos é um trabalho onde os acordes se expressam por duas violas da terra. A capa da obra, da autoria de Armando Lopes, coloca-nos, no final, a questão: quando o primata espreita e olha em frente, o que justifica o Homem? Da minha parte Senhor Professor foi um prazer ler esta sua obra. No final percebe-se perfeitamente o seu subtítulo muitíssimo bem conseguido de acordo com o conteúdo que o mesmo enforma. Em terminologia muito sua, espero revisitá-lo, com mais tempo. Gabriela Castro II Começo por avisar que esta viola da terra vai desafinar: as cravelhas são de madeira, à antiga, e só tem um coração, mal-amanhado. A minha colega, Doutora Gabriela Castro, pôs a bitola científica em patamares de discussão muito elevados, pelo que a minha intervenção nesta sessão se resume a breves reflexões exploratórias de dois capítulos do livro, concretamente o terceiro, Cultura versus natureza uma revisitação, e o quinto, Do (re)conhecimento da ignorância como saudável atitude fundacional. Um destes dias, caminhando pelas calçadas de Ponta Delgada e tendo, então, conhecimento apenas do título da obra, De Marx a Darwin. A desconfiança das Ideologias, lembrei uma história que ocorreu há alguns anos, no contexto de uma disciplina por mim leccionada, História e Filosofia da Cultura. A reflexão em torno do conceito de cultura (trave-mestra do capítulo terceiro) implicou, necessariamente, uma incursão sobre o conceito de ideologia. Recomendei como leitura o texto de Onésimo Teotónio Almeida, publicado em 1995 na Revista Comunicação e Linguagens. A minha recomendação foi aplaudida com entusiasmo, pois os alunos, cerca de uma vintena e maioritariamente açorianos, conheciam sobejamente o autor (julgava eu!). Chegado o dia de análise e discussão do referido texto, verifiquei que o entusiasmo se metamorfoseara numa mistura de desconforto e confusão. Os trabalhos não avançavam, e por mais solicitações

6 532 Boletim do Núcleo Cultural da Horta que fizesse não conseguia obter um discurso fundamentado, pelo que perguntei abertamente: «Então, o que se passa?» Eis quando alguém se enche de coragem (é preciso coragem para dizer o que eu vou, simplesmente, repetir) e esclarece: «É que este Onésimo não tem graça!» Só então percebi que conheciam o homem, mas desconheciam o pensador. E não foi fácil reconciliar o homem da fala, com graça, no espaço público com o pensador da palavra, sem graça, do texto filosófico. Mas Onésimo Teotónio Almeida tem graça, mesmo! Tem muitas graças! Se quisermos olhar pelo lado religioso (estando aqui connosco o nosso querido Doutor Octávio Medeiros, Vigário Episcopal) não lhe faltam sabedoria, entendimento, fortaleza ou ciência. E uma das graças que Onésimo tem é, sem dúvida, a frontalidade e a seriedade com que discute os temas filosóficos, seja numa perspectiva histórica integrante dos problemas da metafísica clássica, seja numa perspectiva sistemática potencialmente estruturante da compreensão da vida humana na contemporaneidade, como é o caso desta última obra. O livro que agora nos pre-ocupa é, pois, um texto plantado em terrenos do saber, do mais puro amor à sabedoria, logo é aí que tem que dar frutos, entenda-se sementes do seu valor. Sendo um texto filosófico, por excelência, o discurso não deixa porém de reflectir a marca do homem, isto é, a argumentação é amiúde entrecortada por elementos narrativos extraordinários. Leia-se a propósito a citação da definição de anedota de Nöel Carroll, longa, analítica e palavrosa: «X é uma anedota se e só se (1) x é um discurso verbal integralmente estruturado, geralmente em forma de riddles ou narrativa ( ), implica a presunção de pelo menos um desses erros pelo implicado ou pelos ouvintes, (6) mas em que o erro é supostamente reconhecido como erro pelo ouvintes.» Como referi, o excerto citado não é de Onésimo Teotónio Almeida, o que é da sua autoria é a afirmação sucedânea e o enquadramento precedente. Diz Onésimo: «Estou certo de que ficaram finalmente a perceber por que razão rimos de uma anedota». Quanto à contextualização precedente da definição atrás lida, pretende ser o desmascaramento, via «Filosofia do Humor», da «táctica da avestruz» com que muitos pensadores revestem as suas (in)conclusões científicas. Relendo, em voo de reconhecimento, o capítulo terceiro, que recordo se intitula Cultura versus natureza uma revisitação, permitam-me começar precisamente pela segunda parte do título, «uma revisitação». A militância revisitante de Onésimo Teotónio Almeida é notória e única. Que eu tenha conhecimento, ninguém se lhe iguala. Trata-se, sem qualquer pretensão pseudo-analítica, de um aspecto

7 Revista de Livros 533 revelador do homem e do pensador. A atitude de revisitação diz-nos do homem: ser alguém que está bem por onde passa, deixando pistas seguras, qual fio de Ariane, para um voltar sempre. Do pensador, diz-nos que não vive de verdades últimas, pré-fabricadas e feitas de uma vez para sempre. Parafraseando Ortega, diríamos que esta é a atitude autêntica do filósofo, pois o trabalho filosófico não se faz a talho de foice, mas usando a táctica, narrada no texto bíblico, da Tomada de Jericó: circundando repetidamente os problemas, para que da súmula de perspectivas conquistadas possamos chegar a planos superiores de compreensão. Outro elemento que marca e caracteriza o discurso de Onésimo Teotónio Almeida é o envolvimento da sua pessoa na análise dos problemas. Discurso directo, escrito e conjugado na primeira pessoa do singular, que todavia convoca reiterada e persistentemente o leitor para interlocutor, ora porque partilha as suas mais recentes leituras e experiências de pensamento, ora porque, recorrendo aos tais momentos extraordinários da narrativa, nos coloca dentro da sua casa a propósito de uma begónia que, tendo crescido desmesuradamente, teve que ser dividida em dois vasos iguais, embora com destinos diferentes. Leia-se: «Vês? conversa de Onésimo com o filho Duarte Biologicamente iguais e em vasos iguaizinhos, com a mesma terra e alimentos. Ponho a mesma água em ambas as plantas todas as semanas, mas nota lhes a diferença. Uma está num quarto voltado para sul, onde a luz do sol entra todo o dia, de Verão e Inverno; ( ). Repara como está esplendorosa. A outra, na galeria, está voltada para norte. Janela rasgada, muita luz, mas aqui não entra o sol directamente. ( ). Vê como está raquítica». Moral da história (sem repercussões quanto ao desempenho escolar dos filhos): a culpa é sua, Professor Onésimo. Pôs esta parte da planta num sítio onde mirrou. Passando a brincadeira, esta história remete-nos directamente para o plano em que o autor pretende que seja equacionado o debate e a reflexão: «Cultura é o que se opõe à natureza, isto é, tudo o que resulta da intervenção humana sobre a natureza». Profundo conhecedor de toda a problemática e polémicas em torno da definição de cultura, Onésimo Teotónio Almeida apresenta com clareza as duas vertentes (um pouco ou até mesmo muito gastas) do debate contemporâneo: construtivistas versus naturalistas. Os primeiros, defendendo que a cultura por nós herdada resulta de uma construção a desconstruir noutra construção. Os segundos, na linha de um reducionismo naturalista, propalado em vastíssima bibliografia contemporânea, especialmente no campo das ciências cognitivas,

8 534 Boletim do Núcleo Cultural da Horta pretendendo agrilhoar a realidade humana no reduto natural. Discutindo com os mais actuais e ilustres representantes destas duas orientações enviesadas da relação cultura/natureza, especialmente a segunda, seja J. Q. Wilson ou F. Crick, Onésimo Teotónio Almeida conclui pela impossibilidade de mapear a pessoa no seu todo, qual auto-transparência absoluta. Há toda uma dimensão constituinte e constitutiva da vida humana que escapa como água por um cesto de vimes ao determinismo naturalista, especialmente no domínio da racionalidade prática, da acção, ética e política, em que estão envolvidos conceitos fundamentais como liberdade, respeito ou justiça. Leia-se: «Daí que os debates sobre o grau de predomínio entre as forças da natureza ou da cultura permaneçam bem acesos no nosso tempo e não se consiga encontrar argumentos em favor do determinismo biológico, tal como ninguém até aqui conseguiu fazê-lo para outro determinismo qualquer. Apesar dos extraordinários avanços das últimas décadas, continuamos no escuro em relação a peças fundamentais do ser humano e da sua existência». Quanto ao interessantíssimo capítulo quinto, intitulado Do (re)conhecimento da ignorância como saudável atitude fundacional, breves palavras, apesar de ser um tema aliciante. Tratando-se de um vasto território, profusamente habitado por indivíduos que não querem perder o abrigo, as terras da ignorância são abaladas com frequência por irrupções forasteiras desestruturantes, que medeiam entre o reconhecimento e a conquista. A linha de pensamento seguida por Onésimo Teotónio Almeida tem matriz epistemológica, porém extravasando sentidos para outros âmbitos filosóficos. Sem recorrer, pelo menos logo de início, à famosa douta ignorância reclamada por Sócrates, que inaugurou a filosofia como discurso de desvelamento partilhado, e avançando na discussão das questões em torno da possibilidade e unicidade do conhecimento, o autor conclui que uma das marcas fundamentais dos nossos dias é a consciência da nossa ignorância. Qual raposa, na metáfora de Isaiah Berlin (ou João dos Ovos, na versão açoriana), Onésimo Teotónio Almeida, com a sua autenticidade filosófica, sabe as muitas pequenas coisas necessárias para a re-invenção do presente e compreensão do futuro. E por que de um balho furado se tratou, deixamos para si, Professor Onésimo, outros rodopios do pensamento, no caso concreto, vamos deixá-lo às voltas com Darwin. Muito obrigada a todos, especialmente a si Professor Onésimo Teotónio Almeida. Berta Pimentel Miúdo

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