Revista Ícone Revista de Divulgação Científica em Língua Portuguesa, Linguística e Literatura Volume 11 Janeiro de 2013 ISSN

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1 FANTASIA E REASSEGURAMENTO: O PAPEL IDEOLÓGICO DA MADRASTA NOS CONTOS DE FADAS Dagmar Dnalva da Silva Bezerra - FE/UFG 1 Resumo: Esse artigo trata da análise do discurso dos textos dos contos de fadas que tem como personagem vilã a madrasta em contraposição a ausência da mãe dos personagens principais desse gênero textual. Dessa forma buscou-se discutir o papel ideológico da madrasta para os leitores dos contos de fadas, bem como sua função, através da fantasia, de reasseguramento da estabilidade emocional nos momentos de conflitos internos dos jovens leitores. Palavras-chave: Papel Ideológico. Discurso. Madrasta. FANTASY AND REASSURANCE: THE IDEOLOGICAL ROLE OF STEPMOTHER IN FAIRY TALES Abstract: This article analyzes the discourse of the fairy tales in which the bad character is the step-mother in opposition to the main characters mothers absence of this genre of text. Therefore, it aims to discuss the step-mother ideological role to the readers of the fairy tales as well as its function, through the fantasy, of reassurance of the emotional stability in the moments of internal conflicts of the young readers. Key-words: Ideological Role. Discourse. Stepmother. Introdução A pesquisa do papel ideológico da presença, em vários contos de fadas, da madrasta, substituta da mãe, se deu a partir da seleção de quatro contos de fadas recolhidos pelos irmãos Grimm na Alemanha do século XIX, que tem a madrasta como personagem opositora à felicidade das suas enteadas: Branca de Neve, Cinderela, João e Maria e Rapunzel. Após os contos terem sidos selecionados procedeu-se à leitura dos textos recontados por Kátia Canton (2006). A tentativa foi de interpretar o discurso 2 da madrasta, através da linguagem dos contos infantis, em busca de se entender o porquê da presença constante dela em detrimento da ausência da mãe legítima. Entretanto, entendendo aqui que a linguagem não é transparente, e interpretar não é atribuir sentido, mas expor-se à opacidade do texto, ou seja, é explicitar 1 Doutoranda em Educação pela Faculdade de Educação da UFG. 2 Discurso entendido como colocação em funcionamento de recursos expressivos de uma língua com certa finalidade, atividade que sempre se dá numa instância concreta e entre um locutor e um alocutário (POSSENTI, 2001, p. 64).

2 como um objeto simbólico produz sentidos (ORLANDI, 2006, p. 24). Assim, buscou-se analisar o discurso explícito e implícito que pudesse justificar a presença da madrasta como substituta constante da mãe, muitas vezes desempenhando o papel de rival, outras de algoz, mas sempre como destinada a educar pela dor aquela/aquele que ficou sob seus cuidados após casamento com o pai que pode ser descrito como ausente, omisso ou ingênuo, admitindo, porém, que os discursos não são fixos, estão sempre se movendo e sofrem transformações, acompanham as transformações sociais e políticas de toda natureza que integram a vida humana (FERNANDES, 2005, p. 22). A função dos contos de fadas é em certa medida pedagógica, portanto, de acordo com Mikhail Bakhtin (2003), os textos são criados em um determinado gênero de acordo com sua função. Para ele, há uma quantidade enorme de gêneros do discurso. Estes podem ser primário ou secundário. Os discursos primários exercem a função primeira para a qual o texto foi produzido, como são os contos de fadas, e os secundários são um gênero dentro de outro gênero, ou seja, a função do texto é utilizada para dar sentido a outro gênero. Levanta-se aqui a função pedagógica dos contos de fadas porque, de acordo com Bakhtin (2003, p. 268), em cada época de evolução da linguagem literária, o tom é dado por determinados gêneros do discurso, e não só gêneros secundários, mas também primários. E a partir das concepções dos contos de fadas como um gênero discursivo, os dados levantados foram analisados sob o referencial da Análise do Discurso a partir das contribuições de Bakhtin (1988, 2003), Brait (2001), Fernandes (2004, 2005), Foucault (2007), Gregolin (2004), Koch (2003), Orlandi (2001, 2004 e 2006), Pêcheux (2002) e Possenti (2001). 1 O papel da mãe na composição familiar Nos diferentes modelos de família, o papel da mãe é desempenhado com funções socialmente definidas. Ao longo da história da humanidade, a mãe é aquela que gera, mas também é aquela que cuida que se preocupa com a saúde, a segurança e o bem-estar dos que estão sob sua responsabilidade. Por ser gerado pela mulher, o filho tem uma relação de dependência alimentar e de segurança com a mãe, inicialmente, e mais tarde tem uma relação de afeto possibilitada pelos momentos de proximidade que passaram juntos nos primeiros anos de vida. A comunidade familiar é vista como positiva e saudável, salvo em algumas raras ocasiões (PENTEADO, 1997, p. 231). Na sociedade contemporânea, mãe é aquela que se ocupa da responsabilidade de 32

3 cuidar do outro. Assim, temos a mãe biológica, a mãe adotiva, a avó que assume a responsabilidade de criar o neto, a madrinha, a assistente social e diversas outras representantes femininas que se ocupam dos cuidados para com as crianças. Nesse percurso, que empreendemos aqui, vale lembrar que: A análise do discurso, [...], não desvenda a universalidade de um sentido; ela mostra à luz do dia o jogo da rarefação imposta, com um poder fundamental de afirmação. Rarefação e afirmação, rarefação, enfim, da afirmação e não generosidade contínua do sentido, e não monarquia do significante (FOUCAULT, 2007, p. 70). Com essa compreensão da Análise do Discurso é que observamos que ao ler os contos de fadas, o leitor tem uma concepção de mãe que espera ser reproduzida no enredo do conto. Desse modo, ele diferencia a mãe da madrasta. A mãe cuida, é boa, carinhosa, compreensiva e sempre deseja o melhor para seu filho. A madrasta é a representação da maldade, é aquela que usurpou o lugar da mãe, que explora a criança para que desempenhe as tarefas domésticas e também é ciumenta, pois quer se livrar do enteado para ficar só com o pai e com seus bens. De acordo com Bruno Bettelheim (2006), nos contos de fadas há uma divisão típica entre as personagens: a mãe boa, que normalmente já está morta; e, uma madrasta malvada ocupante deste lugar. Mas essa divisão é útil para a criança. De acordo com o autor, a divisão entre mãe boa e madrasta má dos contos infantis possibilita à criança preservar a imagem interna da mãe boa, quando na verdade a mãe real não é totalmente boa, permitindo à criança ter raiva da madrasta malvada, que pode ser uma criação fictícia da criança para não comprometer a bondade da mãe verdadeira, e é, assim, encarada como uma pessoa diferente. As boas qualidades da mãe são tão exageradas no personagem salvador do conto de fadas quanto as maldades na bruxa (BETTELHEIM, 2006, p. 86). Toda essa engenhosidade da criança lhe permite conviver com as mudanças de humor da mãe. Mas na vida real existe a madrasta, esta não é uma criação ficcional da criança. Há pais que ficam viúvos, que se separam e que tentam reconstruir suas vidas com outras mulheres, então estas se configuram como as madrastas. E a ideologia que sobressai é a da madrasta malvada dos contos de fadas, porque as crianças não são seus filhos legítimos, porque a nova esposa quer cuidar dos seus próprios filhos, porque os enteados lembram o primeiro amor do marido. Na produção desse discurso, para Foucault (2007, p. 8), podemos supor que, Em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm 33

4 por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade. O discurso da madrasta malvada presente nos contos de fadas parece repercutir na vida real. São poucos os relatos de madrastas boas, o que aparece na mídia são os casos de madrastas más (como o caso Isabella Nardoni, por exemplo), entendendo como madrasta, aqui, aquela que ocupa o lugar de mãe, de cuidadora de um filho que não foi gerado por ela. Assim, há uma contraposição entre a figura da mãe e a figura da madrasta na vida real e nos contos de fadas, ou seja, uma contradição nos enunciados característicos da madrasta no gênero contos de fadas. De acordo com Foucault (apud. GREGOLIN, 2004, p. 31), a identidade do enunciado está submetida aos limites que lhe são impostos pelo lugar que ocupa entre outros enunciados. Na vida cotidiana há mães boas e más, há madrastas boas e más, mas nos interessa, aqui, a presença constante da madrasta nos contos de fadas. 2 A presença da madrasta nos contos Os contos selecionados para análise: 1) Branca de Neve, 2) Cinderela, 3) João e Maria e 4) Rapunzel, são contos populares, recolhidos pelos irmãos Grimm na Alemanha do século XIX, e têm em comum a personagem madrasta como algoz da mocinha, a personagem feminina principal das narrativas. 2.1 Branca de Neve O conto de fadas Branca de Neve narra que, uma rainha queria ter uma filha branca como a neve, cabelos negros como a noite e lábios vermelhos como sangue. A rainha teve a filha como desejou e deu-lhe o nome de Branca de Neve, mas a senhora logo adoeceu e morreu deixando o rei viúvo e sua filha órfã. O rei casou-se de novo, mas a nova rainha era fútil, vaidosa e má. E quando ela olhava no espelho mágico que tinha, sempre queria saber quem era a mulher mais bonita do reino e o espelho lhe respondia que era ela mesma, a rainha. Branca de Neve cresceu e se tornou uma linda jovem, isto incomodou a rainha, porque o espelho passou a dizer que a mulher mais bonita era Branca de Neve. A rainha enfurecida por não ser mais tão bonita mandou que um guarda matasse a jovem e trouxesse seu fígado e 34

5 sua língua para que comesse no jantar. O guarda ficou com pena da moça, deixou-a fugir e levou para a rainha as partes de um carneiro que comeu como se fosse de Branca de Neve. Esta fugiu pela floresta, encontrou a casa de sete anões e estes cuidaram dela. Mas a rainha, através de seu espelho mágico, descobriu que Branca de Neve continuava viva e tentou matála três vezes: a primeira com uma fita amarrada no seu pescoço; a segunda com um pente envenenado; e, a terceira com uma maçã. Nas duas primeiras vezes os anões a salvaram, mas na terceira vez Branca de Neve caiu envenenada no chão e os anões chegaram tarde para salvá-la. Acreditando que ela estava morta, os anões a colocaram num caixão de vidro e o colocaram no jardim para que pudessem contemplá-la. Um dia um príncipe, que passava por ali, viu a linda jovem no caixão de vidro e se encantou por ela, pediu que os anões lhe vendessem o caixão. Eles não quiseram lhe vender, mas viram que ele era sincero e deu-lhe o caixão com a Branca de Neve de presente. Ao transportar o caixão, o corpo da jovem foi movimentado e o pedaço da maçã que estava preso em sua garganta saltou para fora da sua boca e Branca de Neve acordou imediatamente. O príncipe lhe contou sua história, os dois se abraçaram e se apaixonaram os anões também vieram confraternizar. Eles se casaram e quando a rainha descobriu que Branca de Neve ainda estava viva ficou com muita raiva, mas não fez mais nada porque dois chinelos em chamas saíram da lareira, lhe calçaram os pés e a obrigou a pular até a morte (CANTON, 2006, p ). 2.2 Cinderela O conto de fadas Cinderela narra a história de uma menina que ficou órfã de mãe e seu pai se casou de novo com uma senhora também viúva e mãe de duas filhas. A madrasta e suas filhas exploravam os serviços domésticos de Cinderela, seu pai não tinha voz ativa, por isso não intervinha. O rei daquele país tinha um filho e resolveu casá-lo, para tanto organizou um baile para que encontrasse uma bela esposa. Cinderela foi proibida de ir ao baile, mas ela teve ajuda mágica e conseguiu chegar ao baile. Lá ela conheceu o príncipe. Os dois dançaram a noite inteira, mas ao final Cinderela precisou ir embora, pois a magia acabaria, e ela se tornaria novamente a moça maltrapilha que dormia perto do borralho (cinzas do fogão à lenha). Na pressa, Cinderela perdeu um pé dos seus sapatos. O príncipe havia se apaixonado por Cinderela, então se pôs a procurar a dona do sapatinho que ficara nas escadarias do castelo. Depois de muita procura, o príncipe chegou à 35

6 casa dela, mas sua madrasta havia feito com que ela se escondesse. O príncipe experimentou o sapatinho nas duas filhas da madrasta, porém não serviu em nenhuma delas. O príncipe já estava saindo da casa quando viu Cinderela e, mesmo achando-a maltrapilha e cheia de cinzas, experimentou nela o sapatinho que serviu perfeitamente. Os dois viveram felizes até o fim de seus dias e as duas irmãs invejosas foram punidas por suas maldades, ficando cegas após duas pombas picarem seus olhos. 2.3 João e Maria O conto de fadas João e Maria narra a história de dois irmãos que eram criados pelo pai e pela madrasta. A família deles passava por muitas necessidades, a comida já não era suficiente para os quatro. Então a madrasta teve a ideia de deixar os dois irmãos na floresta para que ela e o marido pudessem sobreviver. João e Maria, perdidos na floresta, encontraram uma casinha feita de doces. Nela morava uma senhora, que mais tarde descobriram ser uma bruxa que comia crianças. Os dois foram aprisionados por ela e enquanto fazia João comer sem parar para engordar, Maria trabalhava sem cessar fazendo os serviços domésticos na casa da bruxa. Para se livrar da morte e da bruxa, Maria foi esperta ao ludibriar a bruxa e fazê-la entrar no forno. Assim, a bruxa morreu queimada e os dois irmãos se libertaram e voltaram para casa com a fortuna acumulada em ouro pela bruxa, e João e Maria viveram bem. 2.4 Rapunzel O conto de fadas Rapunzel traz a história de um casal que estava esperando um filho quando a mulher sentiu desejo de comer rapunzel 3 da horta da vizinha. Ao invés de pedir os rapunzéis à vizinha, o marido resolveu invadir a horta alheia e pegar alguns para que a mulher saciasse seu desejo, mas a dona da horta era uma bruxa, ficou muito brava com os dois e exigiu que quando a criança atingisse quinze anos fosse entregue a ela. A criança nasceu e deram-lhe o nome de Rapunzel, por causa do acordo com a vizinha que teve suas verduras comidas pela mãe da criança. Quando Rapunzel completou quinze anos a bruxa levou-a para ser criada no alto de uma torre, onde a deixou longe de todos. Para entrar na torre, que não tinha porta, só janela, a bruxa deixou os cabelos de Rapunzel crescer e trançava-os para que servissem de corda para que subisse até onde a menina estava. 3 Verdura alemã rara e difícil de se encontrar. 36

7 Um dia, passava por ali um príncipe que ouviu Rapunzel cantar. Ele se aproximou da torre e viu quando a bruxa embaixo da janela da torre gritou para que a menina lhe jogasse as tranças. Depois que a bruxa foi embora, o príncipe fez o mesmo, imitando a voz da velha que cuidava de Rapunzel. Esta jogou-lhe as tranças e o príncipe subiu até onde a prisioneira estava. Quando a viu, o príncipe se apaixonou por ela, quis levá-la, mas não tinha como ela sair sem se machucar. Certo dia Rapunzel deixou escapar que um príncipe havia lhe visitado, a bruxa expulsou Rapunzel, e esta ficou vagando sozinha no mundo. A bruxa, ainda, armou uma cilada para o príncipe: cortou os cabelos de Rapunzel e quando o príncipe chegou, jogou-lhe as tranças como se fosse a menina, quando chegou lá em cima na torre a bruxa empurrou-o fazendo-o cair sobre espinhos que perfuraram-lhe os olhos, deixando-o cego. Os dois, Rapunzel e o príncipe, vagaram separados pelo mundo e só muito tempo depois é que se encontraram. Quando Rapunzel reencontrou o príncipe e viu que ele estava cego, chorou então suas lágrimas caíram sobre os olhos do príncipe e este voltou a enxergar. Assim, os dois viveram felizes com muito amor e verdade. 3 Entendendo o papel ideológico da madrasta nos contos de fadas Social e culturalmente, a madrasta é aquela que ocupa o lugar de mãe desocupado por diferentes motivos: pela morte da mãe, pelo abandono (adoção) ou por um novo casamento do pai (após separação). A partir da popularização dos contos de fadas, a madrasta passou a representar ideologicamente, e muitas vezes na prática, a vilã da criança que por algum motivo foi privada da presença materna. Podemos dizer que aqui houve uma apropriação social do discurso da madrasta, demonstrando o caráter pedagógico desse gênero discursivo. De acordo com Foucault (2007, p. 43). Sabe-se que a educação, embora seja, de direito, o instrumento graças ao qual todo indivíduo, em uma sociedade como a nossa, pode ter acesso a qualquer tipo de discurso, segue, em sua distribuição, no que permite e no que impede, as linhas que estão marcadas pela distância, pelas oposições e lutas sociais. Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem consigo. Nos quatro contos selecionados para análise, o papel da madrasta na construção da identidade infantil se coloca como um rito de passagem para que a criança se fortaleça e restabeleça a confiança em si e nos outros. Mas, de que discursos essas madrastas se valem 37

8 para garantir que suas enteadas sintam medo e, consequentemente, as obedeçam permitindo, assim, que a personagem madrasta detenha o poder? Em Branca de Neve, a madrasta é bonita por fora, mas por dentro é fútil, vaidosa e de coração horrível. Dessa forma ela ordena ao guarda do palácio que leve Branca de Neve para a floresta. Lá você a matará e me trará sua língua e seu fígado, que comerei no jantar (CANTON, 2006, p. 24). Observem que a vida da enteada é irrelevante quando a vaidade da madrasta é maculada, o que sobressai na descrição desta personagem é que sua beleza é apenas estética, pois seu interior é conduzido pela inveja, pela soberba e pela maldade. A vida do outro não importa à medida que a sua morte pode enaltecer a beleza da rainha. O discurso da madrasta também é dissimulado. Ela se transforma em vendedora de fitas para persuadir Branca de Neve a abrir a porta, para em seguida envolvê-la no discurso de boa vendedora até convencê-la a experimentar uma das fitas. A madrasta, disfarçada, amarrou a fita rosa em volta do pescoço da menina, até sufocá-la. Sem conseguir respirar, Branca de Neve caiu no chão (Idem, p. 27). A madrasta se disfarça de velhinha e novamente, através do discurso, convence Branca de Neve a abrir-lhe a porta. Uma terceira vez a madrasta representa uma personagem, agora uma fazendeira, que por meio de uma maçã envenenada pretende destruir a enteada. O discurso da madrasta está carregado da ideologia do domínio e do poder disfarçado das atenções de uma desconhecida para com a criança. As armadilhas preparadas pela madrasta, para fazer Branca de Neve desaparecer, só funcionam porque vêm legitimadas por um discurso que convence o interlocutor que o recebe como verdadeiro. Na análise do discurso, a intenção do falante se estabelece a partir das estratégias interacionais. As estratégias interacionais são estratégias socioculturalmente determinadas que visam a estabelecer, manter e levar a bom termo uma interação verbal (KOCH, 2003, p. 36). Em Branca de Neve, essa interação verbal ocorre entre a madrasta e a enteada indefesa através do diálogo que a vilã disfarçada estabelece com a heroína e da confiança que esta tem no outro. O discurso da madrasta, que pune a enteada, também é encontrado no conto Cinderela. Neste conto, Cinderela é a enteada que passará por situações de opressão impostas pela madrasta por meio dos castigos físicos, mas também através do discurso que intenciona diminuir o valor social da enteada, bem como proporcionar momentos de reflexão no período de transição entre a infância e a adolescência. No conto Cinderela, a análise do discurso pode ser empreendida a partir da morte da mãe da menina e o novo casamento de seu pai. O casamento é o acontecimento que modifica 38

9 a estrutura familiar de Cinderela. Este acontecimento é entendido aqui como o fato que ocorre dentro de uma determinada situação que passa a fazer parte do contexto, uma vez que para que a língua faça sentido é preciso que a história intervenha [...] A interpretação não é mero gesto de decodificação, de apreensão do sentido. O que a garante é a memória institucionalizada e a memória constitutiva (ORLANDI, 2004, p. 67). Assim, o sofrimento de Cinderela só se inicia quando há uma perda insubstituível, mas que seu pai tenta suprir com o casamento. Sua nova esposa era bela, mas muito arrogante e metida (CANTON, 2006, p. 61). O discurso da madrasta coloca Cinderela no lugar de serviçal: Cinderela, passe essa fita de cetim; engraxe esses sapatos; costure essa alcinha do vestido (Idem, p. 62). Sua posição de mãe postiça ainda é confrontada quando todas as moças casadoiras são convidadas para o baile do príncipe e com o discurso da aparência não apresentável de Cinderela, a madrasta impede que a jovem enteada vá ao baile. Mesmo que eu deixasse, você seria proibida de entrar no palácio real com essas roupas. Desista, menina. Esse baile não foi feito para você... (Idem, p. 64). De acordo com Eni Orlandi (2006, p. 15), as condições de produção do discurso incluem, pois os sujeitos e a situação. Assim, a madrasta e Cinderela e a realização do baile contribuem para a produção do discurso de que o baile é sinônimo de glamour e luxo, portanto não comporta a presença de uma personagem maltrapilha, vestida com trapos sujos de cinzas. Nessa perspectiva o discurso serve para demarcar as diferentes posições sociais que as personagens desempenham no enredo. Mais uma vez a madrasta cumpre o objetivo de educar, porém, como está no lugar da mãe, seu papel é redimensionado transformando-a em educadora, julgadora e punidora dos possíveis e prováveis erros que a enteada venha a cometer. No conto João e Maria, a madrasta não se revela vilã até que a miséria recobre a família deixando-a sem qualquer alimento e condenado-a a viver a pão e água. Quando este alimento também acabara, a madrasta assumiu seu papel de algoz proferindo o veredicto: Só há uma saída: deixaremos as crianças no bosque, para que elas se arrumem sozinhas e seremos apenas nós dois para dividir a comida (CANTON, 2006, p. 51). Estas palavras marcam a transição da madrasta boa para a madrasta má. Esse marco divisor impulsiona as crianças para o amadurecimento necessário na transição da infância para a adolescência, momento de crescimento físico e intelectual, que para muitos se revela como doloroso, porém imprescindível na constituição da identidade de cada criança. Podemos 39

10 encontrar nesse discurso certo temor do discurso da madrasta má dos contos de fadas, porque poderia incentivar o descontentamento do(a) enteado(a) a respeito de uma outra mulher ocupando um lugar que é exclusivo da mãe. Para Foucault (2007, p. 51), se quisermos analisar o temor que temos do discurso, em suas condições, seu jogo e seus efeitos, é necessário questionar nossa vontade de verdade; restituir ao discurso seu caráter de acontecimento; suspender, enfim, a soberania do significante. O discurso da madrasta é de que sozinhos, ela e o marido, sobreviveriam com o pouco que tinham, e que, apesar de pequenas, as crianças poderiam sobreviver sozinhas na floresta ou morrerem, mas antes morrerem só dois do que morrerem todos os quatro (pai, madrasta, João e Maria). Esse discurso explicita que, mais uma vez, a madrasta se comporta como a provocadora do crescimento emocional e cognitivo dos enteados. A formação discursiva nos argumentos da madrasta demonstra que há uma ideologia secular na relação entre pais substitutos e os filhos de criação. O ideologicamente fora do padrão, fora do esperado seria a madrasta e os enteados terem uma relação harmoniosa. De acordo com Orlandi (2001, p. 69), Na perspectiva da análise de discurso, há um saber discursivo, uma memória que não se aprende, filiações de sentidos a que, enquanto seres simbólicos, estamos sujeitos e sobre as quais não temos controle, em termos de transmissão de sentidos. No entanto, em termos teóricos e analíticos, temos como entrar no discurso, pela sua textualização, estabelecendo uma relação com o funcionamento discursivo, com os processos de constituição de sentidos ali inscritos e apreender assim os gestos de interpretação que os constituem, podendo aí vislumbrar a possibilidade de outras leituras (grifo no original). Para a análise do discurso, as formações discursivas surgem nas relações sociais e se constituem nas relações ideológicas, as ideologias manifestam-se em atitudes, comportamentos e linguagem e constituem práticas discursivas integrando as formações sociais (FERNANDES, 2004, p. 53). E no conto João e Maria o discurso da madrasta foi socialmente construído. O que impede a família de prosperar são os filhos, João e Maria, então o discurso é de que a ausência deles devolveria a fartura à família. Assim, a madrasta representa o papel que histórica e ideologicamente foi-lhe imposto pela cultura e pelas concepções socialmente construídas. Já no conto Rapunzel, a madrasta não se constitui pelo casamento do pai, mas pela perda da filha, em função do erro cometido pelos pais, para uma mãe adotiva (bruxa) que cria Rapunzel. Já que é um caso de vida ou morte, pode levar. Mas a condição é de que, ao 40

11 completar quinze anos, a criança que ela carrega no ventre seja dada a mim. Eu cuidarei bem dela, pode ficar tranquilo (CANTON, 2006, p. 16). O discurso da madrasta-bruxa é que estava apenas cobrando o prometido pelo pai de Rapunzel. Porém, o papel de madrasta, que de alguma forma pune a criança pelos erros dos adultos, é cumprido quando, após um ano de Rapunzel ter ido morar com a madrasta-bruxa, esta a prende no alto de uma torre onde é possível entrar somente subindo pelos cabelos trançados da menina: Rapunzel, minha menina, joga-me as tranças para eu chegar aí em cima! (Idem, p. 19). Essa ação revela os embates entre o discurso da madrasta-bruxa que nutre algum sentimento pela enteada e o desejo de anular qualquer possibilidade de autonomia da menina. Ah, então ela está me traindo, deixando que alguém mais vá vê-la lá em cima. Ela vai ver só... (Idem, ibidem). Nessa construção ideológica do papel social da madrasta, os contos de fadas contribuem para a constituição da identidade da criança uma vez que a sua leitura provoca a desconstrução do imaginário infantil sobre a mãe, levando-a a refletir sobre os diferentes momentos de humor dos adultos. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia (BAKHTIN, 1988, p. 31, grifos meus). Acredita-se, portanto, que a madrasta dos contos de fadas é o signo representante da ideologia da ruptura na transição da infância para a adolescência, ou seja, o amadurecimento pelo qual a criança passa no entremeio da primeira etapa da vida para a segunda. O discurso da madrasta, nos quatro contos de fadas aqui apresentados, representam a indagação da própria criança na tentativa de entender todas as transformações vivenciadas por ela nessa fase de sua vida. De acordo com Michel Pêcheux (2002), a materialidade específica do discurso se constitui no entremeio, na desconstrução, no contato do histórico com o linguístico. Nos contos de fadas em que a madrasta é a antagonista da heroína feminina, o histórico o papel da madrasta na reestruturação da família entra em contato com o linguístico o discurso da madrasta que educa a enteada por meio da punição, promovendo, assim, a desconstrução, o desconforto da relação entre madrasta e enteada/enteados. Nessa perspectiva, a análise do discurso da madrasta se realizou no entremeio, ou seja, na contradição entre o discurso de substituta da mãe (amorosa, preocupada com seu bem estar, com a harmonia da família) e as ações punitivas que a madrasta impõe à enteada em nome da sua educação. 41

12 À guisa de conclusão A análise aqui empreendida objetivou a compreensão do papel ideológico da madrasta nos contos de fadas. Foi possível perceber que a personagem madrasta é recorrente na literatura infantil com o intuito educativo, pois através dela a criança percebe os contrapontos da existência dos adultos que com ela convivem. O discurso da madrasta, nos contos de fadas, substituiu na formação da identidade da criança a lição de moral presente nas fábulas ou nos diálogos que os adultos insistem em ter com a criança para dotá-las de maturidade, a fim de que possam enfrentar as intempéries da vida cotidiana, mesmo que isto tenha pouca ou nenhuma significação para a criança ou, ainda, para a resolução dos seus conflitos internos. Sendo a criança um sujeito que existe em si e em relação aos outros, ela é um sujeito histórico, isto lhe possibilita se relacionar com os conhecimentos socialmente produzidos e adquirir uma memória discursiva. Esta criança, ao entrar em contato com os textos, se constitui em sujeito-leitor. A partir dessa condição de leitor, a criança busca o sentido e a significação dos textos a que tem acesso, entendendo, porém, que os sentidos dos discursos dependem das condições de produção dos mesmos. O papel ideológico da madrasta nos contos de fadas já faz parte da formação imaginária dos leitores de tais textos. Ser má não é uma escolha da madrasta, já está definido por essa formação imaginária o seu papel ideológico, que é ser malvada, rival e punidora dos seus enteados. Nos contos de fadas, a presença da madrasta estabelece o equilíbrio entre a bondade da mãe e a necessidade de esta ser, muitas vezes, rigorosa, punitiva e impositora de limites à exacerbação do id infantil (desconhecimento de limites por parte do sujeito em crescimento) na formação da criança, possibilitando-lhe a estabilidade emocional e o reasseguramento. Referências BAKHTIN, Mikhail (Volochínov). Marxismo e filosofia da linguagem. 4ª ed. São Paulo: Hucitec, Estética da criação verbal. 4ª Ed. São Paulo: Martins Fontes,

13 BRAIT, Beth. O discurso sob o olhar de Bakhtin. In: GREGOLIN, Maria R.; BARONAS, Roberto. (Orgs.). Análise do discurso: as materialidades do sentido. São Paulo: Editora Claraluz, BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. 20ª ed. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, CANTON, Kátia. Era uma vez Irmãos Grimm. São Paulo: Editora DCL, FERNANDES, Cleudemar A. Linguística e história: formação e funcionamentos discursivos. In: FERNANDES, Cleudemar A.; SANTOS, João B. C. (Orgs.). Análise do discurso: unidade e dispersão. Uberlândia, MG: Editora EntreMeios, Análise do discurso: reflexões introdutórias. Goiânia: Trilhas, FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 15ª ed. São Paulo: Edições Loyola, GREGOLIN, Maria do Rosário V. O enunciado e o arquivo: Foucault (entre)vistas. In: SARGENTINI, V.; NAVARRO-BARBOSA, P. M. (Orgs.). Foucault e os domínios da linguagem: discurso, poder, subjetividade. São Carlos: Claraluz, KOCH, Ingedore G. V. O texto e a construção dos sentidos. 7ª ed. São Paulo: Editora Contexto, ORLANDI, Eni P. Os efeitos de leitura na relação discurso/texto. In: Discurso e texto: formulação e circulação de sentidos. Campinas: Pontes, Autoria e interpretação. In: Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 4ª ed. Campinas: Pontes,

14 . Análise de discurso. ORLANDI, Eni P.; LAGAZZI-RODRIGUES, Suzy. (Orgs.). Introdução às Ciências da Linguagem: discurso e textualidade. Campinas, SP: Pontes Editores, PÊCHEUX, Michel. O discurso: estrutura ou acontecimento. 3ª ed. Campinas, SP: Editora Pontes, PENTEADO, J. Roberto W. Os filhos de Lobato: o imaginário infantil na ideologia do adulto. Rio de Janeiro: Dunya Editora, POSSENTI, Siro. Língua e discurso. São Paulo:

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