DANIEL SIMÕES SANTOS MASSA FERNANDA NASCIMENTO SILVA

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1 DA BRANCA DE NEVE À FEIURINHA: O TRADICIONAL E O CONTEMPORÂNEO NO CONTO DE FADAS DANIEL SIMÕES SANTOS MASSA FERNANDA NASCIMENTO SILVA Os livros falam sempre de outros livros e toda história conta uma história já contada. (Umberto Eco) Acompanhando as mudanças sofridas no mundo, o conto de fadas e as histórias infantis também mudaram. Como as diferentes temáticas e peculiaridades das literaturas de cada época são influenciadas por valores vigentes, este trabalho pretende contrapor conceitos e padrões de pensamento ou de comportamento consolidados no século XIX e os que surgiram a partir daqueles. Para isso, serão analisados o tradicional conto de fadas Branca de Neve, dos Irmãos Grimm, e a obra O fantástico mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira. No primeiro caso, abordam-se as versões traduzidas por Zaida Maldonado e Fausto Wolff (indicadas por 2006a e 2006b, respectivamente). Sendo o principal objetivo do trabalho apresentar as diferenças entre o conto de fadas tradicional e o contemporâneo, será destinada maior atenção à personagem Branca de Neve em detrimento das outras na obra de Pedro Bandeira. Vale ressaltar que, ao contrário do que alguns leitores pensam, o conto Branca de Neve não é da autoria de Jacob e Wilhelm Grimm, popularmente conhecidos como os Irmãos Grimm. Com o objetivo de buscar dados lingüísticos para os estudos filológicos que

2 eles realizavam da língua alemã e resgatar os textos do folclore literário germânico, o trabalho dos irmãos consistiu em reunir antigas narrativas, lendas ou sagas germânicas que eram transmitidas de geração para geração pela tradição oral. Pela temática maravilhosa que apresentavam, os textos da tradição oral, que originalmente eram destinados aos adultos, foram dedicados às crianças pelos Irmãos Grimm, iniciando uma grande Literatura Infantil que se espalharia por todo o mundo. A primeira compilação, composta de cinqüenta e uma narrativas, dentre elas Branca de Neve, data de 1812 e foi intitulada Contos da criança e do lar. O fantástico mistério de Feiurinha, premiada obra de Pedro Bandeira, apresenta uma revisão dos valores presentes nos contos de fadas tradicionais. O livro baseia-se na relativização e no questionamento da ideologia e da estrutura presentes nas clássicas histórias, criando assim um paralelo entre a tradição (resgatada, porém revista) e a contemporaneidade. De acordo com Coelho (2000, p ), o conto de fadas tradicional obedece a valores pré-estabelecidos e consagrados, sendo o individualismo um deles. O valor atribuído ao indivíduo é tão grande que este é apresentado como um modelo a ser seguido, repleto de virtudes e qualidades. Branca de Neve encaixa-se neste perfil, pois, além da beleza, ela é pura e ingênua, características muito apreciadas pela sociedade: Para a tradição cristã, as virtudes do silêncio, obediência e discrição eram especialmente, se não essencialmente, femininas (Warner, 1999, p. 55). 2

3 As protagonistas de conto de fadas, em geral, são filhas de reis e salvas por um príncipe. Contudo, precisam apresentar alguma virtude moral como a pureza da Branca de Neve para serem merecedoras da salvação e, mesmo pertencendo à realeza, as protagonistas são desprovidas de poderes sobrenaturais. Além disso, não possuem nome próprio, sendo nomeadas por características físicas e emocionais. A tonalidade extremamente clara da pele origina o nome da protagonista do conto em estudo: E sua filhinha cresceu: a pele branca como a neve, faces coradas como o sangue e cabelos escuros como o ébano. E chamaram-na Branca de Neve. (Grimm & Grimm, 2006a, p. 118). Esses aspectos facilitam a identificação do leitor com a personagem. Em O fantástico mistério de Feiurinha 1, a narrativa baseia-se no que acontece depois que os contos terminam. Ao criar um universo pós E viveram felizes para sempre..., o autor mostra que a vida das heroínas cai numa mesmice eterna, sem o glamour e o charme que se imagina. As princesas, perfeitas e tão invejadas, passam a sofrer de problemas comuns à realidade. Neste contexto, destaca-se entre todas as heroínas a figura de Branca de Neve, que, além de exercer uma função de liderança dentro do grupo, é o exemplo mais forte da mudança de comportamento e atitude após o final feliz. 1 A citação a este texto, no corpo do trabalho, realizar-se-á através da indicação abreviada da obra FMF, seguida da página em que se encontra o trecho destacado. 3

4 Branca de Neve passa a apresentar comportamentos relacionados a indivíduos normais, porém inimagináveis para uma princesa de conto de fadas. A personagem não é mais aquele ser perfeito, idealizado, mas uma mulher comum. Envelhece e engorda com a idade, tem cabelos brancos, rugas, além de exercer ações e condutas que surpreendem durante toda a história. Ela briga, perde a paciência, provoca e xinga Cinderela, fofoca com Chapeuzinho Vermelho, irrita-se com o escritor e apresenta outras atitudes insólitas que realçam essa figura legitimamente humana. Dona Branca avançou fuzilando de ódio, disposta a dar um pisão no pé descalço de Cinderela. Sua... sua Gata Borralheira! Aquela era a maior ofensa que alguém poderia fazer a Cinderela. (FMF: 26) O sistema social tradicional dá mais importância ao que a personagem tem em lugar do que ela faz ou é, valorizando as classes mais elevadas. Por isso encontram-se personagens da realeza, como o rei, a rainha e, conseqüentemente a filha Branca de Neve, que não exercem um trabalho remunerado por já possuírem fortuna. Este sistema, porém, também valoriza o trabalho de pessoas como os anões, que passam o dia inteiro extraindo ouro e pedras preciosas. Os papéis exercidos por homens e mulheres na sociedade são bem definidos: eles trabalham para sustentar a família, exercendo a autoridade; elas são responsáveis pelos afazeres domésticos e pela criação dos filhos. Para ficar na casa dos anões, Branca de Neve 4

5 precisou se submeter a condições como seguir os conselhos deles e manter a casa limpa e arrumada. Isso pode ser comprovado pela fala de um dos anões à Branca de Neve: Se você cuidar da nossa casa, fizer nossas camas, lavar, costurar e manter tudo arrumadinho poderá viver aqui, que nós iremos protegê-la. Que tal, você aceita? (Grimm & Grimm, 2006b, p. 12). A figura masculina representa a sabedoria e a autori-dade (em Branca de Neve, na figura dos anões), porém, muitas vezes é ausente ou se encontra em segundo plano nos contos de fadas. Geralmente o príncipe encantado surge ao fim da história, somente para consolidar o feliz desenlace. Ao contrário, em O Fantástico mistério de Feiurinha, Branca de Neve não é submissa e toda a hierarquia tradicional dos contos clássicos é desconstruída. Há, agora, uma ausência da autoridade masculina, visto que os príncipes são inúteis. Os príncipes não adianta chamar. Estão todos gordos e passam a vida caçando. Além disso, príncipe de história de fada não serve para nada. A gente tem que se virar sozinha a história inteira, passa por mil perigos, enquanto eles só aparecem no final para o casamento. (FMF: 22) Outro fato que reafirma essa inutilidade masculina é a relação de parentesco a que as heroínas são submetidas. Ao casarem-se, as princesas mudaram seus sobrenomes, adotando o do marido. Em todos os contos o herói é sempre o anônimo príncipe encantado, mas nesta obra contemporânea, Pedro Bandeira transforma este Encantado em uma família real, que possui muitos príncipes e os 5

6 exportou para todas as histórias. Branca de Neve agora é Dona Branca Encantado, Bela Adormecida é Bela Encantado, todas cunhadas entre si. A autoridade é representada pelas próprias mulheres. Branca de Neve passa a tomar decisões e até surge como uma figura de liderança dentro do grupo das heroínas, surpreendendo por suas ações. Para Coelho (Op. cit., p. 23-7), essas são característi-cas do novo conto de fadas. O sistema social está em transformação. Dessa forma, novas ideologias surgem diante de mudanças na sociedade a qual as obras pertencem: Quanto à família, devido ao processo de libertação feminista iniciado no princípio do século e ainda em curso, passa por uma grande desestabilização de suas estruturas básicas [...] no qual os direitos e deveres do homem e da mulher tendem a se igualar (Id. ibid., p. 24-5). A obediência absoluta às autoridades detentoras do Saber e do Poder uma das características do tradicional apontada por Coelho (Ibidem, p. 20) reflete-se no caráter exemplar da narrativa e nos limites entre certo versus errado, bom versus mau. Em Branca de Neve, a protagonista representa o certo, o bem, é um exemplo a ser seguido. Já as atitudes da madrasta são erradas, más, devendo ser repudiadas. A moral dogmática, portanto, também está sempre presente no conto de fadas tradicional, punindo ou premiando as personagens de acordo com a conduta delas ao longo da história. Ao analisar as trajetórias da Branca de Neve e da madrasta, percebe-se que a primeira segue princípios consagrados como certos pela 6

7 sociedade, tornando-se merecedora do casamento com o príncipe. Em oposição, a madrasta é castigada, mudando a punição segundo a tradução utilizada. E ao chegar e ver que não passava de Branca de Neve, quem ela pensava há muito já estar morta, caiu doente e morreu. (Grimm & Grimm, 2006a, p. 126) Neste instante, dois soldados, auxiliados por longas tenazes, trouxeram até a frente daquela mulher má, um par de sapatos de ferro em brasas. Ela foi forçada a calçá-los e a dançar com eles até morrer. (Grimm & Grimm, 2006b, p. 20) Quando Branca de Neve encontra o príncipe, com o qual se casará, e a madrasta é punida por todos os atos maldosos que realizou contra a enteada, tem-se mais uma regra dos contos tradicionais: pessoas boas são premiadas, enquanto as malvadas são castigadas. O comportamento das personagens secundárias diante da protagonista indica quem é boa ou má. Assim, a menina simboliza a bondade e a madrasta, que tenta matá-la a todo custo, a maldade. Há uma ocorrência maior de personagens femininas do que masculinas, sendo aquelas responsáveis tanto pelo bem (Branca de Neve), quanto pelo mal (madrasta). No conto tradicional não há espaço para ambivalências, o que significa que a personagem é totalmente boa ou má. Sendo assim: Quanto mais simples e direto é um bom personagem, tanto mais fácil para a criança identificar-se com ele e rejeitar o outro mau. A criança se identifica com o bom herói não por causa de sua bondade, mas porque a condição do herói lhe traz um profundo apelo positivo. (Bettelheim, 1980, p. 18) 7

8 Quanto à estrutura, o conto Branca de Neve respeita totalmente os moldes tradicionais, apresentando: o tempo e o espaço em que a história acontece; uma situação problemática; a fuga e as peripécias da protagonista; a solução da situação problemática. Percebe-se logo no início do conto, com a apresentação do motivo central da história, que o ritmo dos acontecimentos é muito rápido. A noção de tempo, no entanto, é controversa, pois nos contos de fadas tradicionais o tempo é indeterminado, começando com expressões do tipo Era uma vez... ou Há muito tempo.... Em Branca de Neve, sabe-se apenas que é inverno e que está nevando, possibilitando uma previsão quanto à época do ano em que a ação ocorreu. Além disso, não há referências a um espaço geográfico específico, o que leva o leitor a imaginar que a história se passa em qualquer lugar. No entanto, os principais ambientes por onde a protagonista se desloca a floresta e a casa dos anões aparecem caracterizados como assustador e acolhedor, respectivamente. O espaço, nesse caso, contribui para a existência e a caracterização das personagens e dos fatos. Na obra de Pedro Bandeira, podemos observar a forma como o mesmo interpreta esta questão do tempo no conto de fadas. Para ele, todas as histórias aconteceram simultaneamente, em uma determinada época, o que causa certas coincidências como, por exemplo, o fato de todas as princesas (excluindo-se, claro, a solteirona Chapeuzinho Vermelho) estarem grávidas do sétimo filho e comemorarem bodas de prata. Nota-se também a disposição dos capítulos no 8

9 livro (Capítulo zero, Capítulo três quartos e mais um pouquinho, Capítulo zero, quase caindo no um) e alguns trechos em que o próprio narrador-personagem admite uma certa peculiaridade na passagem do tempo neste tipo de conto. Em histórias de fada, esse negócio de tempo não tem a mínima importância. (FMF: 23). O espaço geográfico, assim como em Branca de Neve, não é mencionado, porém a história se passa em dois cenários definidos por Bandeira: o castelo de Dona Branca e o apartamento do escritor de contos infantis. Já o conto de Feiurinha, inserido no livro sob a forma de encaixe, desenvolve-se basicamente dentro da casa das bruxas. O enredo dos contos tradicionais apresenta protagonistas que precisam se afastar da casa dos pais, passando por diversas privações, superando-as e vivendo felizes para sempre. Com base nos estudos realizados por Propp, Coelho (Op. cit., p. 109) estabeleceu cinco invariantes estruturais dos contos tradicionais, sendo elas: a presença de uma aspiração ou desígnio como motivo central que leva a personagem principal à ação; o afastamento do ambiente familiar; o surgimento de desafios ou obstáculos; a intervenção de um mediador entre o protagonista e o objetivo a ser alcançado; a conquista deste objetivo. A singularidade dos contos fica a cargo das variantes correspondentes a essas invariantes. Tal estrutura pode ser observada em Branca de Neve. No início do conto, a rainha imagina como gostaria que fosse sua filha e morre após o nascimento desta. A menina vive os 9

10 primeiros anos ao lado de uma madrasta que, inconformada com a beleza da pequena, deseja vê-la morta e ordena que um caçador (Grimm & Grimm, 2006b, p. 10) ou criado (Idem, 2006a, p. 119 ) leve-a para a floresta, um lugar desconhecido e perigoso. A partir deste fato, Branca de Neve precisa lutar pela própria sobrevivência, o que pode ser considerado o desígnio da protagonista. Não se percebe nela, porém, uma aspiração específica, visto que as mudanças no enredo são sempre causadas por ações de outros personagens. O deslocamento sofrido pela personagem para um ambiente nãofamiliar possibilita um crescimento, pois esta tende a superar vários obstáculos, simbolicamente representados pelos presentes dados a ela pela madrasta disfarçada, que se interpõem à sua conquista. Para vencer a maldade da madrasta (opositora), os anões funcionam como mediadores, advertindo Branca de Neve quanto ao risco que ela corria nos momentos em que ficava sozinha em casa. A vitória da bela jovem é marcada por uma grande festa de casamento e pela felicidade eterna. Da mesma forma, a criança recebe a proteção da família ao nascer, mas em uma determinada fase do seu crescimento, precisa partir em busca de experiências além das familiares, a fim de conquistar autonomia e independência. Para Bettelheim: Os contos de fadas declaram que uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa apesar da adversidade mas apenas se ela não se intimidar com as lutas do destino, sem as quais nunca se adquire verdadeira identidade. (Bettelheim, op. cit., p. 32). Isso significa que os contos 10

11 garantem às crianças que elas são capazes de superar os problemas reais, tanto quanto as personagens admiradas por elas. Tomando o enredo de O fantástico mistério de Feiurinha, podemos dividi-lo em duas partes. Na primeira, o escritor de textos infantis é procurado por todas as heroínas dos contos de fadas Cinderela, Chapeuzinho Vermelho, Branca de Neve, Rosaflor Della Moura Torta, Rapunzel, Bela Adormecida e Bela-Fera para resolver um mistério: o desaparecimento da princesa Feiurinha. As buscas envolvem a reunião na casa da Branca de Neve e no apartamento do escritor. Na segunda parte, situada no Capítulo zero mais que um, Jerusa, a empregada que representa a tradição oral e as velhas contadoras de histórias, narra o conto de Feiurinha. Pedro Bandeira resgata a importância ideológica da tradição oral na medida em que a obra literária se constrói como uma rede de relações diferenciais firmadas com os textos literários que a antecedem, ou são simultâneos, e mesmo com sistemas nãoliterários (Carvalhal, 2001, p. 47). Ao tentar resolver o mistério do desaparecimento de Feiurinha, o escritor procurou diversos intelectuais do mundo todo, mas não obteve sucesso. Descobriu, por acaso, que Jerusa conhecia o conto da bela princesinha, pois tinha ouvido de sua avó, uma mulher simples, contadora de histórias. Neste mesmo viés, ele elucida também a importância dos livros que publicam tais histórias e a existência de um público leitor, para que elas não caiam no esquecimento e desapareçam de vez, como quase aconteceu com Feiurinha. Em Branca de Neve, não há referências sobre o valor da 11

12 tradição oral no enredo, porém o próprio conto é fruto desta. A obra dos Irmãos Grimm e de outros escritores, como Perrault, foi construída a partir da coleta de famosas histórias populares. Branca de Neve e mais amplamente a própria Literatura Infanto-Juvenil têm origem na oralidade. A apresentação de uma problemática simples é uma forte característica do conto de fadas tradicional, atuando através da repetição de elementos e da simplicidade tanto do discurso quanto da estrutura narrativa, aproximando-se ao máximo da mente popular e infantil. Ao saber o que vai acontecer na história, pela repetição de situações conhecidas, o leitor sente-se mais seguro. A pergunta da madrasta e a resposta do espelho mágico são um exemplo desta repetição. Diga-me espelho, sê verdadeiro! Entre todas no reino, aqui e além, Existe mais bela? Revela-me quem. E o espelho respondia: És, rainha, a mais bela em todo o reino. (2006a, p ) Estas falas são recorrentes na história e aparecem sem alteração, exceto quando o espelho inclui um dado novo na resposta, dizendo ser Branca de Neve a mais bela. A repetição de alguns elementos também ocorre em O fantástico mistério de Feiurinha. Sempre que alguma personagem se refere a um Príncipe dentro da história, Dona Branca repete a mesma pergunta: 12

13 Do Príncipe? Que Príncipe? tinha perguntado Dona Branca Encantado, que já fora De Neve. O Príncipe Encantado, marido da Senhora Princesa Feiurinha Encantado tinha esclarecido Caio, o lacaio. Ah... tinha feito a Princesa da pele cor de neve, demonstrando que compreendera. (FMF, p. 38) Como todos os príncipes eram irmãos e possuíam o mesmo nome, Branca de Neve se confundia e questionava sempre, querendo saber a respeito de qual Príncipe estavam se referindo o que evidencia a semelhança entre eles, a começar pelo nome. A narrativa tradicional é simbólica ou metafórica e as personagens são basicamente tipos (desempenham funções no grupo social a que pertencem [...]) ou caracteres (representam comportamento ético ou padrões espirituais [...]) (Coelho, oip. cit., p. 106). O real e o imaginário misturam-se sem comprometer a narrativa, concedendo-lhe um caráter exemplar. O narrador não exerce a função de inventar, mas de contar a história com a utilização de um discurso direto, do diálogo e de expressões elocutivas. Em alguns trechos, refere-se diretamente ao leitor, como em e muito mais limpo e elegante do que posso-lhes dizer. (Grimm & Grimm, 2006b, p. 11) e Antes de prosseguir devo dizer aos leitores (2006b, p. 18). O Fantástico mistério de Feiurinha é narrado em primeira pessoa através de um narrador-personagem, no caso escritor de textos infantis. O personagem se vê envolto a uma crise de abstinência criativa, onde não consegue escrever nenhuma história, 13

14 apresentando-se no texto uma estrutura metaliterária, onde Pedro Bandeira brinca com o processo de criação de uma obra dentro do próprio enredo. Na Literatura Infanto-Juvenil contemporânea há uma forte tendência à substituição do já citado personagem tipo por outros que refletem aspectos relacionados à personalidade e ao comportamento dos indivíduos. Em O fantástico mistério de Feiurinha, nota-se claramente uma ênfase nas ações das personagens em detrimento das suas funções sociais. Como pôde ser percebido, o conceito de beleza está presente em ambas as narrativas. Em Branca de Neve, dos irmãos Grimm, encontra-se uma exaltação do belo e um forte valor ideológico ligado a isso. A aparência física é a principal característica da princesa e representa sua identidade. Os anões a acolhem e o príncipe a ama por ser bela. É por essa condição também que desperta a inveja e o ódio da rainha, que tenta assassiná-la. Toda a trama gira em torno deste conceito e, sem ele, Branca de Neve seria somente uma princesa submissa vivendo no castelo do seu pai. Segundo Khéde (19886, p. 32), as personagens femininas dos contos de fadas são passivas na medida em que refletem as relações codificadas entre homens e mulheres, e, em outro nível, revelam que essas relações começaram a ser modificadas com a valorização da virtude e da beleza no lugar do dote. Portanto, a protagonista apresenta-se como objeto da própria ação, pois a história é conduzida através da atuação das demais personagens, que agem motivadas pela beleza dela. 14

15 Na história de Pedro Bandeira, ao contrário, a beleza não possui a importância que apresenta no conto de fadas tradicional, deixando de ser um fator imprescindível na vida das princesas. Mesmo possuindo cabelos brancos, rugas e estando mais velhas e gordas, elas continuam felizes. Preocupam-se apenas quando essa felicidade, assim como a história delas, corre o risco de desaparecer. As heroínas atuam juntamente com o escritor para que possam continuar eternas. Com isso, o livro mostra que a capacidade de agir e de construir o próprio destino sobrepõe-se à necessidade de ser bela. Branca de Neve torna-se sujeito de suas ações, sendo responsável pela articulação da história com as outras heroínas. Ao resgatar a tradição através da personagem Feiurinha, Bandeira elucida mais uma questão relacionada à beleza: sua relativização. O conto narra a história de uma linda menina que é criada por três bruxas, Ruim, Malvada e Piorainda, juntamente com a sobrinha delas, Belezinha. Feiurinha cresce isolada do mundo, sem contato com nada além daquela casa e das quatro bruxas que moravam nela. Por isso, de tanto ouvir zombarias e perceber-se diferente das demais, a ingênua menina acaba acreditando que é feia, sofrendo por ser tão diferente e, no caso, não ser bonita como elas. O conceito de beleza, então, torna-se relativo, já que o belo naquela casa era feio, e o feio era belo, questionando e desconstruindo este julgamento unilateral. Ao analisar o tradicional e o contemporâneo, no conto de fadas, não se institui importância distinta às duas vertentes. Entende- 15

16 se que a distância cronológica não significa uma hierarquia entre elas, mas diferenças quanto à apresentação de conceitos e valores relativos a cada época. Observam-se na tradição aspectos que induzem o indivíduo a seguir um estereótipo fundamentado e estabelecido pelos detentores do poder. A Literatura Infanto-Juvenil, neste contexto, insere valores ligados à exemplaridade, à visão maniqueísta que opõe o bem ao mal, o certo ao errado. Ela busca a doutrinação, ou seja, apontar um único caminho visto como certo a ser seguido. A contemporaneidade surge em meio a novos valores, porém não abandona totalmente os antigos. Estes aparecem revistos em uma relação de intertextualidade que remete a Carvalhal, quando afirma que: A repetição (de um texto por outro, de um fragmento em um texto, etc.) nunca é inocente. Nem a colagem nem a alusão e, muito menos, a paródia. Toda repetição está carregada de uma intencionalidade certa: quer dar continuidade ou quer modificar, quer subverter, enfim, quer atuar com relação ao texto antecessor. A verdade é que a repetição, quando acontece, sacode a poeira do texto anterior, atualiza-o, renova-o e (por que não dizê-lo?) o reinventa. Toda apropriação é, em suma, uma prática dissolvente. (Carvalhal, 2001, p. 53-4) Há uma relativização da moral e do mundo em si, excluindo-se a existência de uma verdade absoluta. Inserida neste meio, está a criança que, quase sempre alheia a todo esse conflito ideológico, continua a perceber a principal função da literatura, enunciada através da voz voz de uma de suas mais 16

17 brilhantes escritoras, Cecília Meireles (1979, p. 28): A Literatura não é, como tantos, supõem, um passatempo. É uma nutrição. 17

18 Referências Bibliográficas: BANDEIRA, Pedro. O fantástico mistério de Feiurinha. São Paulo: FTD, BETTELHEIM, Bruno. A psicanálise dos contos de fadas. Trad. Arlene Caetano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, CARVALHAL, Tania Franco. Literatura Comparada. São Paulo : Ática, COELHO, Nelly Novaes. Panorama histórico da literatura infantil/ juvenil. São Paulo: Ática, Literatura infantil. Teoria Análise Didática. São Paulo: Moderna, ECO, Humberto. Pós-escrito a O nome da rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, GRIMM, Jacob e GRIMM, Wilhelm. Contos de Grimm A bela adormecida e outras histórias. V.1 Trad. Zaida Maldonado. Porto Alegre: L&PM, 2006a.. Branca de Neve e outras histórias. v.1 Trad. Fausto Wolff. Rio de Janeiro: Revan, 2006b. KHEDE, Sonia Salomão. Personagens da literatura Infanto-juvenil. São Paulo: Ática, WARNER, Marina. Da Fera à Loira: sobre contos de fadas e seus narradores. São Paulo : Companhia das Letras,

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