As Damas dos Contos de Fadas e seus Príncipes (quase) encantados

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1 Questões de gênero na literatura e na produção cultural para crianças. ST 54 Ângela Márcia Damasceno Teixeira Universidade Estadual de Santa Cruz UESC Palavras-chave: intertextualidade, criatividade, literatura As Damas dos Contos de Fadas e seus Príncipes (quase) encantados Nos textos encantados da literatura infantil, até as palavras são mágicas. Quando o era uma vez aparece todos nós sabemos que uma história começará e nos transportará para um mundo repleto de personagens dos mais variados com suas aventuras. E ao fim das aventuras narradas, esperamos ansiosamente pelo viveram felizes para sempre. Segundo Jorge Araújo: Ler é atribuir sentido às coisas do mundo (...) E ao leitor cabe atribuir sentidos, ele ata a outra ponta do mútuo entendimento da expressão literária (...) Donde ressalta que o texto só sobrevive se contar com a cumplicidade, a parceria do leitor. (Araujo: 2006, 23) E nessa parceria muitas vezes o autor nos surpreende como na obra O fantástico mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira, quando a história começa e termina de uma outra forma. O autor utiliza como recurso criativo a metalinguagem e já no Capítulo zero o leitor pode perceber as dificuldades e anseios de Pedro Bandeira ao escrever aquela história: É difícil explicar direito como é que eu fui me meter nessa história. Naquela época, eu era um autor iniciante, com muitas idéias na cabeça e poucas no papel. Observava as pessoas, os bichos e a mim mesmo, tentando entender tudo e a tudo transformar em histórias que tivessem verdade, que tivessem calor, que tivessem graça. (...) O engraçado é que eu me meti no meio da confusão, mas não no meio de história nenhuma. Eu me meti no fim de todas as histórias. (Bandeira: 1999, 9) Neste livro a história realmente começa com as dúvidas sobre o que acontece depois da frase tão conhecida viveram felizes para sempre. Entretanto para maior surpresa dos leitores o autor e narrador, faz questão de lembrar que a frase supracitada significava que a heroína se casava com o príncipe encantado e pronto. Iam viver felizes para sempre. Observe o trecho no qual o narrador nos expõe a dúvida sobre a possibilidade do casamento representa a felicidade para as damas dos contos de fadas. Mas o que significa viver feliz para sempre? Significa casar, ter filhos, engordar e reunir a família no domingo para comer macarronada? Quer dizer que a felicidade é não viver mais nenhuma aventura? Nada mais de anõezinhos, maças vermelhas envenenadas e sapatinhos de cristal? Como é que alguém pode viver feliz sem aventuras? Ah, não pode ser! Não é possível que heróis e heroínas tão sensacionais tenham passado o resto da vida

2 assistindo ao tempo passar feito novela de televisão. É preciso saber o que acontece depois do fim. (Bandeira: 1999, 10) E nessa busca para saber o que aconteceu depois do fim, o nosso ilustre escritor descobriu que as aventuras continuam e continuarão existindo e mais ainda se envolveu numa delas: o fantástico mistério de Feiurinha. Nesse momento, mais precisamente na passagem do capítulo zero para o capítulo zero e meio o mundo encantado dos contos de fadas e o mundo real serão, por algum tempo, unidos num só. Na casa do escritor Pedro Bandeira algo inusitado aconteceu: as maiores dos contos de fadas o procuraram para que ele ajudasse a descobrir o que aconteceu com Feiurinha que estava desaparecida. Todas jutas, uma senhora de chapéu vermelho, mais cinco princesas grávidas e de meiaidade entraram pela minha sala (...) todas elas! Todas as heroínas da minha infância, em carne e osso! (Bandeira: 1999, 52) Podemos perceber com esse trecho, que a intertextualidade surge com estratégia narrativa transformando a esta obra em ponto de encontro entre personagens famosas de várias histórias como: Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Rapunzel, Bela Adormecida, Branca de Neve e a Bela- Fera. Todas grávidas e preocupadas (exceto Chapeuzinho Vermelho porque na sua história não tinha príncipe e ela não casou, ficou solteirona e encalhada ) em descobrir o paradeiro de sua grande amiga Feiurinha. E além de estabelecer uma relação intertextual também dá continuidade as histórias citadas, criando novos acontecimentos depois dos finais das mesmas. Segundo Domício Proença Filho, a intertextualidade é presença marcante na pós-modernidade. E além de estabelecer uma relação intertextual também dá continuidade as histórias citadas, criando novos acontecimentos depois dos finais das mesmas. Segundo Domício Proença Filho, a intertextualidade é presença marcante na pós-modernidade. Torna-se freqüente também a presença marcante da intertextualidade, ou seja, à luz das teorias de Bakthin do diálogo ou cruzamento de vários textos. Na literatura contemporânea isso se dá sobretudo com a aproveitamento intencional de obras do passado. (Proença Filho: 1988, 39) A princípio as damas tentaram convocar os príncipes encantados para ajudá-las na busca, entretanto uma delas a Senhora Branca Encantado (que conhecíamos como Branca de Neve em seus tempos de solteira, mas depois que se casou com o Príncipe Encantado, Dona Branca passou a usar o sobrenome do marido), fez a seguinte declaração. Os príncipes não adiante chamar. Estão todos gordos e passam a vida caçando. Além disso, príncipe de história de fada não serve para nada. A gente tem de se virar sozinha a

3 história inteira, passa por mil perigos, enquanto eles só aparecem no final para o casamento. (Bandeira: 1999, 22) Vale ressaltar que nesse texto os personagens que tradicionalmente aparecem com perfis de grandes heróis são desnudados através dos comentários das suas respectivas esposas. Eles não servem para nada nas histórias de fada, só aparecem no final para o casamento. Foi a partir dessa constatação que as damas recorreram ao escritor Pedro Bandeira para investigar o desaparecimento de Feiurinha. Segundo Sônia Salomão Khéde Príncipes e princesas são personagens mais predispostos às aventuras. Os primeiros desempenham papéis ativos, heróicos e transgressores, servindo, muitas vezes, como intermediários, num resgate. As princesas são caracterizadas pelos atributos femininos que marcam a passividade e a sua função social como objeto do prazer e da organização familiar. Belas, virtuosas, honestas e piedosas, elas merecera, como prêmio o seu príncipe encantado. (Bandeira: 1990, 22) Interessante notar como dos personagens surgem os estereótipos: a princesa passiva e piedosa e o príncipe ativo, heróico. Entretanto, vale dizer que na história supracitada o que acontece é o contrário: príncipes que não são aventureiros e muito menos heróis e princesas que vão em busca e conseguem desvendar o enigma proposto. Elas se reúnem, discutem sobre o que fazer e às vezes criam uma briga intertextual para decidir qual história vivida por cada uma delas é a mais bonita e encanta mais os leitores. E como não chegam a nenhuma conclusão reiniciam a reunião para tentar ajudar na busca. Chapeuzinho Vermelho retoma em determinado momento, o antigo assunto: a passividade dos príncipes quando exalta a coragem dos caçadores: É... Os únicos decididos são os caçadores. Eu devia ter casado com o caçador que matou o lobo... (Bandeira: 1999, 22) As damas continuam as discrições dos seus respectivos príncipes fazendo aumenta o espanto e a curiosidade dos leitores. Vale lembra que todas estão completando Bodas de Prata, ou seja vinte e cinco anos casada com a mesma pessoa. Cinderela Encantado conta a Dona Branca Encantado que o seu príncipe é míope e por isso precisou experimentar o sapatinha de cristal em várias mulheres do reino e não a reconheceu só pela fisionomia; Dona Rapunzel Encantado arrastava cinco metros de tranças e uma bolsa de gelo que comprimia contra a testa o tempo todo porque estava com uma tremenda dor de cabeça, pois o príncipe, depois do casamento já não é tão magrinho como antigamente e toda a noite ele esquece a

4 chave do castelo e cisma de entrar em casa subindo pelas tranças da coitada da Rapunzel; sem contar a pobre Senhora Princesa Bela-Fera Encantado que não consegue dormir porque seu marido passa a noite toda uivando para lua com saudade do seu tempo de Fera. Outro acontecimento bastante curioso dá-se quando as damas já estavam perdendo as esperanças de achar Feiurinha e começavam a acreditar que elas também desapareceriam. Foi então que o personagem Pedro Bandeira resolveu tentar ajudar: Nada disso Branca de Neve! Você jamais desaparecerá. Você é eterna como o Sol, como a Lua! Sua história foi escrita e reescrita pelos maiores artistas da Humanidade e é lida todos os dias por milhões de crianças no mundo todo, o tempo todo. Você está viva nas risadas das crianças,nas narrativas das vovós, na memória de adultos como eu! (Bandeira: 1999, 58/59) A partir desse comentário eles resolveram recontar a história de Feiurinha para que suas aventuras se eternizassem através dos séculos nas risadas e emoções das crianças. E o leitor também vai descobrir que na verdade a história da nossa protagonista desaparecida não havia sido escrita até aquele momento. E até nesse reconto que foi criado pelo escritor Pedro Bandeira, acontecem coisas muito estranhas com os Príncipes Encantados. A medida que a leitura prossegue, descobre-se que nem todo conto de fadas possui fadas. Na história de Feiurinha é a própria personagem que desfaz o encanto que as bruxas fizeram para aprisionar o Príncipe: ele foi transformado em Bode e só consegue voltar a ser um homem quando vê Feiurinha nua mirando-se nas águas de um rio. Diante do exposto, nota-se o redimencinamento dos contos de fadas, quando comparamos contos tradicionais e contemporâneos. As novas tendências com o uso da metalinguagem, intertextualidade e desmistificação dos estereótipos criados ao longo do tempo. Entretanto, ressaltamos a importância de cada um deles na multiplicação, do encantamento que é necessário a todos, adultos ou crianças. E continuamos concordando com Jorge Araújo quando afirma: Carrego comigo a certeza de que o melhor antídoto contra o desencanto é a Literatura. (Araújo: 2006, 37)

5 Referências ARAÚJO, Jorge de Souza. Letra, leitor, leituras: reflexões. Série É Bom Ler. 2.ed. Itabuna: Via Litterarum, BANDEIRA, Pedro. O fantástico mistério de Feiurinha. 23.ed. São Paulo: FTD, KHÉDE, Sônia Salomão. Personagens da Literatura Infanto-Juvenil. Série Princípios. 2.ed. São Paulo: Editora Ática, PROENÇA FILHO, Domício. Pós-Modernidade e Literatura. Série princípios. São Paulo: Editora Ática, 1988.

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