CONSELHO ECONÓMICO E SOCIAL COLÓQUIO A JUSTIÇA EM PORTUGAL

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1 CONSELHO ECONÓMICO E SOCIAL COLÓQUIO A JUSTIÇA EM PORTUGAL (Organizado pelo Conselho Económico e Social, no Grande Auditório da Caixa Geral de Depósitos a 24 de Maio de 1999) LISBOA,

2 Sessão de Abertura Índice Intervenção do Presidente do Conselho Económico e Social Dr. José da Silva Lopes 5 Esboço de uma Perspectiva da Justiça em Portugal na Óptica de um Conselho Económico e Social Dr. Joaquim Magalhães Mota 7 Intervenção do Senhor Ministro da Justiça Dr. Vera Jardim 16 Algumas Questões com Relevância Económica As Falências e a Administração da Justiça: Algumas Reflexões Dr. Almeida Serra 27 A Crise de Confiança nos Contratos Dr. Miguel Veiga 41 O Crédito mal parado nas Empresas não Financeiras Dr. Luís Faria 55 Aspectos Sociais A Concentração e a Selectividade da Litigância Dr. Armindo Ribeiro Mendes 62 Os Problemas do Consumo e do Ambiente e as Novas Vertentes da Cidadania nos Tribunais Conselheiro Mário José de Araújo Torres 78 A Justiça como Tarefa Comum A Justiça como Tarefa Comum: o Presente e o Futuro Judiciário Dr. João Correia 90 White-Collar Crime e Justiça Penal (Uma Abordagem Criminológica) Professor Doutor Manuel Costa Andrade 97 A intervenção dos advogados prevenindo o litígio Dr.António Pires de Lima 117 O Poder Judicial Hoje A expressão das competências do poder judicial Juiz Conselheiro José Nunes da Cruz 123 A crise (interna ou externa) dos tribunais? Professor Doutor Boaventura Sousa Santos 130 Legitimidade do poder judicial Professor Doutor J.J. Gomes Canotilho 140 2

3 Síntese Conclusiva do Colóquio Dr. José Luís da Cruz Vilaça 148 Anexos 159 Programa 175 3

4 Sessão de Abertura 4

5 Intervenção do Senhor Presidente do Conselho Económico e Social Dr. José da Silva Lopes Como sempre acontece quando o Conselho Económico e Social promove a discussão pública de um assunto, a escolha de A Justiça em Portugal como tema para o presente Colóquio assentou em critérios de relevância para a vida social e económica do País na actualidade. O Conselho Económico e Social tem presente a importância do sistema judicial, enquanto pilar decisivo do Estado de Direito e avalia bem em que medida este é um sector de grande melindre e complexidade. Mas observa que as manifestações públicas de insatisfação pelo funcionamento da justiça têm estado, nos últimos tempos, a ser provavelmente mais generalizadas e mais intensas do que em qualquer outro momento do último meio século, exceptuando os casos de julgamentos políticos do tempo da ditadura. As características da vida social e da actividade económica com que a Justiça tem de lidar têm estado a transformar-se a um ritmo sem precedentes, em consequência do desenvolvimento de novas formas de delinquência e conflitualidade, da liberalização económica, da globalização, e das novas tecnologias. A legislação e o sistema judicial português não se têm transformado com rapidez suficiente para responder a essas modificações. Daí resultam, além de graves problemas na defesa dos direitos dos cidadãos, consequências sérias para as actividades económicas e para a vida social: distorções na concorrência; custos impostos a uma parte dos cidadãos e agentes económicos para compensar os danos provocados por outros; obstáculos ao crescimento dos investimentos; limitações à competitividade internacional das empresas, etc. O desenvolvimento económico e a coesão social não poderão deixar de ser negativamente afectados se as falências fraudulentas continuarem a não ser penalizadas, se persistirem atrasos excessivos na solução de disputas relativas ao cumprimento dos contratos, se não houver sanções efectivas e dissuasoras para as fraudes fiscais, se a legislação sobre a defesa da concorrência continuar na prática a ser inoperante, e se não houver meios para combater as novas formas de criminalidade económica. O Conselho Económico e Social está bem consciente de que a Justiça é um sector onde, frequentemente, valores inquestionáveis, quando isoladamente ponderados, são delimitados por outros igualmente atendíveis. Trata-se, em regra, de equilíbrios difíceis, como são, a título de exemplo, o equilíbrio entre as garantias dos réus e arguidos e a celeridade e tutela dos direitos e interesses dos lesados; o equilíbrio entre o direito ao recurso e a rapidez na conclusão dos processos; ou o equilíbrio entre o princípio da indispensável independência dos juizes e o controlo da actividade judiciária. Não será de esperar, por isso, que as dificuldades do sistema judicial possam vir a ser eliminadas de um momento para o outro. A magnitude e a complexidade dos desafios a enfrentar continuarão, certamente, a alargar-se. As transformações económicas e sociais já atrás assinaladas, o surgimento de novas e mais elaboradas áreas e formas de 5

6 criminalidade, e a generalização do acesso ao direito, entre outros factores, não deixam antever uma diminuição da litigância judicial. Antes pelo contrário, a previsão mais consistente é a de que esta continuará a subir. Daí que seja tão importante discutir, em iniciativas como esta, as respostas possíveis para a actual situação. Não conseguiremos eliminar rapidamente todas as disfunções existentes, porque isso seria certamente utópico, mas pelo menos deveremos empenharnos em reduzir substancialmente os seus efeitos negativos e em evitar os riscos que uma insatisfação generalizada como o Sistema de Justiça não deixariam de trazer para o País. Em face da multidisciplinaridade das questões que nesta área se colocam, o Conselho Económico e Social, no propósito de dar a conhecer diferentes enquadramentos do problema, convidou para participar no presente Colóquio entidades de reconhecido mérito, que, tendo em comum o estudo dos problemas da Justiça, possuem diferentes formações académicas e diversas experiências profissionais. Assim, podemos contar com as comunicações de ilustres magistrados, professores de direito, advogados, sociólogos e economistas. Terei que exprimir ao Senhor Ministro da Justiça o agradecimento por ter aceitado presidir à presente sessão de abertura do Colóquio e apresentar nela uma intervenção que virá a enriquecer substancialmente os nossos trabalhos. O Conselho Económico e Social está também muito grato às diversas personalidades do sistema judicial que nos honraram com a sua presença nesta sessão. O CES está ainda agradecido a todos os que aceitaram o convite para intervir nos trabalhos de hoje, sobretudo os autores das comunicações sobre as quais se vão basear os nossos debates. São as suas contribuições que fundamentalmente determinarão os resultados do presente Colóquio. Um reconhecimento especial é devido ao Sr. Dr. Magalhães Mota que, como membro do Conselho Económico e Social, onde é uma das três personalidades de reconhecido mérito designadas em Plenário, estruturou o programa das diferentes sessões de hoje, sugerindo os temas a discutir e os nomes das personalidades convidadas para a apresentação desses temas. Por último, devo transmitir ao Presidente da Caixa Geral de Depósitos, Senhor Dr. João Salgueiro, que é também Vice-Presidente do Conselho Económico e Social, a nossa gratidão pela sua generosidade em nos ceder gratuitamente a utilização das instalações onde vai decorrer o Colóquio, à semelhança do que já fez em relação a outras iniciativas do mesmo tipo, promovidas nos últimos anos pelo Conselho. 6

7 Esboço duma Perspectiva da Justiça em Portugal na Óptica de um Conselho Económico e Social Dr. Joaquim Magalhães Mota * Falamos, naturalmente, não de JUSTIÇA, mas da administração da Justiça. E ao falar desta, creio valer a pena principiar por recordar o texto constitucional. Diz o n.º 2 do art. 202.º que na administração da justiça incumbe aos tribunais assegurar a defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos dos cidadãos, reprimir a violação da legalidade democrática e dirimir os conflitos de interesses públicos e privados. Naturalmente, a lembrança do texto da Constituição equivale a lembrar, ao mesmo tempo, a definição da função jurisdicional a que são chamados os tribunais na administração da justiça. E corresponde também a evidenciar que, normalmente, é apenas a função de dirimir conflitos a que está no centro das atenções. De facto, e em rigor, é através do conflito decidido que a defesa dos direitos ou a repressão da violação da legalidade se efectiva. É no concreto decidir dos litígios que, verdadeiramente, se define a função jurisdicional. Por isso, e talvez não seja inútil lembrá-lo, é a não decisão ou o atraso na decisão, que perturbam e chocam os cidadãos. Ainda antes me parece dever sublinhar que, sob três perspectivas, como as que resultam do texto constitucional, está em causa a realização da normatividade jurídica. Na defesa dos direitos legalmente protegidos, quando violada a legalidade, e face a um concreto conflito de interesses. Só que, perante o conflito, a função do juiz não é só aplicar a Lei. Mas a de regular o conflito, qualquer que seja o estado do direito escrito, 1 sob pena de denegar justiça. Creio estar aqui uma concreta exigência que vai para além da exigência duma decisão. Mas exigência a uma função jurisdicional entendida, não como mera função de tutela de lei e da sua formal aplicação, mas como pronuncia dum juízo sobre a relação material controvertida, isto é, como a outra face do direito de acesso à justiça que é direito fundamental dos cidadãos. Não tenho a certeza de que o Centro de Estudos Judiciários e as inspecções judiciais, tenham exactamente esta noção da função jurisdicional e do papel dos juizes. Por isso, importa assinalar que a predominância do processo, a sobrevalorização da forma, é muitas vezes, sempre demasiadas vezes, inimiga da pronuncia de juízo que se pretende e legitimamente se exige. * Advogado. Conselheiro do CES. 1 S. BELAID, Essai sur le pouvoir créateur et normatif du juge, pág

8 Acrescentarei que só nesta linha se poderão entender os tribunais como órgãos de soberania que se assumem independentes na função de administrar justiça. Porque a administram em nome do povo. Isto é, concorrendo para a realização da intenção político-jurídica unitária que a comunidade historicamente assume 2, para a vontade dum povo que, tributário dum passado que o formou, não só vive em conjunto como, em conjunto pretende enfrentar a aventura do futuro. Correspondendo à vocação de auto-realização em liberdade de um povo de homens reconhecidos iguais e invioláveis na sua dignidade. Ou seja: na formulação clássica segundo a qual a justiça é atribuir a cada um o que lhe é devido, pressupõe-se saber o que a cada um é devido numa concreta comunidade, no tempo e no espaço situada. É esta decisão, a que aos Tribunais se exige. Não será demasiado repetir que tal impõe que aos valores de raiz formal acresçam valores essenciais, deles se destacando o conceito real da justiça. O que se trata não é dum diálogo formal entre o homem abstracto e a lei, abstracta e geral. Mediado por um técnico quimicamente puro. Trata-se, antes, duma relação, enraizada na vida quotidiana, entre homens concretos, a lei em processo de concretização e um magistrado responsável face a essa situação pela prossecução, de acordo com o direito, da justiça a definir. Em concreto, também. Porquanto definição da lei, dizer o direito, no concreto caso presente no Tribunal, é o que do Tribunal espera o Sr. Silva, ou o Sr. Qualquer Coisa que todos somos. Por isso, a justiça não é a ordem. Mas a promessa e o penhor duma ordem melhor. Todo o alargamento da ideia de direito é, consequentemente, solidário das condições, materiais e morais, do meio social. A antecipação só será reconhecida na medida em que os erros sejam, de imediato, sancionados. Não é o Homem quem, arbitrariamente, estende o domínio do direito porque cada vez exige mais da Sociedade. Pelo contrário, é uma concreta sociedade que, por intermédio do direito, firma a sua vitalidade. Sabemos todos, como esta crescente intervenção, se traduz não apenas num maior número de leis mas, conjugada com as dificuldades próprias dos parlamentos, no fim da noção clássica do poder legislativo com o reconhecimento de competências legislativas aos Governos e o surgir de administrações poderosas e presentes em quase todos os aspectos da vida social. Direi que não se dúvida, hoje, serem insustentáveis quer um conceito de lei, como norma universal, geral e abstracta, quer o seu monopólio parlamentar. Mas o que importa evidenciar é que tal implica, e necessariamente, a automática e fatal expansão das competências próprias dos tribunais como órgãos de controlo da lei (e também da legislação ) 3. 2 CASTANHEIRA NEVES O instituto dos assentos e a função jurídica dos supremos tribunais, Coimbra, No sentido anglo-saxónico de intransitive internal legislation. 8

9 Acrescentarei que um poder político permanentemente pressionado por uma tentação de eficácia e popularidade, se defronta, permanentemente também, com a ineficácia da produção legislativa que produz sem conseguir (nem dar tempo de) implementar e em que, pela ambiguidade, se procura mascarar a ausência de verdadeiros consensos. Com o peso próprio dos interesses económicos e corporativos e dos seus múltiplos e variados lobbings que tornam crescentemente complexa a gestão da coisa pública. É assim como uma forma de compensação, e também de acalmação, que crescentemente o Poder se abre à sindicância judicial. Convergem assim as linhas de força que procurámos evidenciar. Por um lado, destaca-se a importância decisiva da concreta decisão como criação e poder normativo, tornando-se o legislador, apenas, o pólo geral de imputação da criação normativa do direito. 4 Por outro lado, pede-se aos tribunais que intervenham em áreas cada vez mais extensas e diversificadas. Por isso, não há que estranhar que aumente a litigiosidade. Nem é, necessariamente, mau que ela aumente. Afinal, a justiça não é desígnio nem tarefa exclusiva dos tribunais. A administração da justiça em nome do Povo significa isso mesmo. Que ela é tarefa e responsabilidade de todos. Não apenas dos tribunais. Nem dos juizes. Também dos titulares de magistratura do ministério público. Como da Assembleia da República e do Governo. Da administração central e do poder local. Dos cidadãos. Por isso, a justiça não pode ser o lugar de confronto de novos corporativismos. São os cidadãos a sua razão de ser. E é em nome do Povo que a justiça é administrada. É nesta especial perspectiva a da justiça como problema que a todos diz respeito e, por isso, desafia e compromete que o Conselho Económico e Social naturalmente se situa. Um Conselho Económico e Social, estará particularmente atento àquele núcleo que, obviamente, não é restrito de inter-relação com a economia, as relações sociolaborais e a exigência de regras unanimemente aceites de relacionamento negocial. Não se estranhará, por isso, que também o Conselho Económico e Social se faça eco daquilo a que, um tanto ou quanto alarmistica ou sensacionalista, vem sendo designado por crise de justiça e também sobre a justiça procure reflectir. Parece-me importante, perdoe-se-me a imodéstia, começar por dizer que aquilo a que se vem chamando crise da justiça é proclamado em termos de eficácia. Diz-se a justiça em crise porquanto alguns tribunais não conseguem dar resposta atempada às questões que lhe são postas para decidir. 4 CASTANHEIRA NEVES Metodologia Jurídica Problemas Fundamentais, Coimbra Editora, 1993, pág

10 Não negamos uma exigência de prontidão que a não cumprir-se põe em causa a própria justeza das decisões. Não há justiça quando a justiça tarda todos o sabemos, mais ou menos, dolorosamente. Nem se duvida que a acumulação de questões a resolver pelos tribunais, aliada a carências de meios humanos e técnicos, criam, em diversas áreas, uma situação de difícil, e naturalmente morosa, recuperação. Mas, acima de tudo, importará que a crise, consistindo no atraso das decisões, não resvale para uma verdadeira crise da justiça. Quero dizer que não bastará, embora importe, a dotação da instituição judiciária com vista a resolver o que, mais rigorosamente talvez, se deveria chamar por crise de pendência. 5 Vivemos, em Portugal e, de algum modo, a nível global, uma nova realidade. Económica, social, cultural. A ela é necessário afeiçoar o direito substantivo. Direi que, muito em especial, no âmbito do relacionamento entre os cidadãos e a Administração, estabelecendo uma cultura de responsabilidade desta e adoptando modelos normativos diferentes dos do direito administrativo em que ainda nos movemos. É que há uma mal disfarçada relutância do legislador ordinário e dos tribunais na concretização do programa constitucional em que se garante, não apenas o mero recurso contencioso de anulação por ilegalidade de actos administrativos, e tão somente os definitivos e executórios, para a tutela jurisdicional efectiva dos direitos e interesses legalmente protegidos. Direi mesmo que a situação actual, pelo menos neste âmbito, é de manifesto desrespeito pela Lei Fundamental, onde a crise é autêntica e profunda e em que as garantias dos cidadãos são, quotidianamente, cerceadas. Dessa crise, infelizmente, pouco se fala. Quanto à outra, permito-me ainda introduzir na ideia, instalada e generalizada da crise, o relativismo que um mínimo de perspectiva histórica possibilita, recordando outras e profundas crises. Num texto do século XVIII Reflexões sobre a Vaidade escrevia então MATIAS AIRES: 6 Nos contratos tem pouca parte a boa-fé; as obrigações não bastam e as cláusulas por mais que sejam fortes, todas se controvertem e pervertem: as condições, por mais que sejam claras, obscurecem-se; nunca faltam pretextos para duvidar, nem meios para se fazer questão daquilo em que a não pode haver. Da falta da boa-fé nasce a dúvida, da dúvida nasce o argumento, do argumento a desunião, e desta a dissolução no contrário, ou acção para o desfazer. No princípio das nossas convenções ninguém adverte por onde possa nelas entrar a controvérsia; depois de celebradas em cada ponto se acham mil motivos de disputa; uma vírgula de menos, ou de mais, é bastante fundamento para 5 Da qual, por reveladores, entendemos dever mostrar alguns mapas. (Anexos). 6 Col. Clássica de Bolso, Ed. estampa, Lisboa

11 uma larga discussão. Quando se não pode negar o ajuste, nega-se-lhe o sentido; e este quando se não pode mudar, interpreta-se, e vem a ser o mesmo: o que não tem interesse em cumprir o ajuste é o que descobre nele as implicâncias, e defeitos, que os outros lhe não vêem. E o choque das autonomias jurídico-administrativos locais, com magistraturas eleitas, com a inexorável centralização e intervenção régia mediante a nomeação de corregedores e juizes-de-fora até ao século XVIII? Ou os debates sobre a reestruturação dos serviços judiciais e em redor do Supremo Tribunal de Justiça, atravessando muita da história do liberalismo Português do século XIX? Ou, recentemente, a explosão de litigiosidade nos anos de 1974/1978 com um aumento cifrado entre os 100 e os 120 por cento 7, e, na caracterização do Prof. Magalhães Godinho, sem uma ordem jurídica realmente respeitada? Mau grado o relativismo que a perspectiva histórica permite introduzir, há, no entanto, problemas que importa não ocultar. Alguns trabalhos permitem-nos um olhar sereno e refiro-me designadamente aos estudos respectivamente coordenados pelo Prof. BOAVENTURA DE SOUSA SANTOS Os Tribunais nas Sociedades Contemporâneas: o Caso Português e pelo Prof. ANTÓNIO BARRETO A Situação Social em Portugal 1960/1995. Grosso modo mas os números redondos são mais impressivos entre 1974 e 1994 o total de processos pendentes nos tribunais quadruplicou. Triplicou o número de advogados. Multiplicou-se, por cinco o número total de arguidos em processo-crime. O aumento de número de magistrados do ministério público não ficou longe da quadruplicação verificada em relação aos processos. Distante ficou o aumento de magistrados judiciais, que pouco mais do que duplicou. Mas o que mais importante se afigura, ao menos na perspectiva própria dum Conselho Económico e Social, a eficácia do sistema não piorou nem melhorou, ou terá piorado ligeiramente. Manteve-se a relação entre processos iniciados e processos findos. Nem existe uma tendência clara para a redução da morosidade, mau grado os resultados aparentemente bons, com as melhorias da injunção, que poderão ser bem maiores corrigido o problema das dificuldades de citação. Constante se mantém a relação entre as condenações em processo penal e o total dos arguidos. E parecendo contrariar os arautos da acção repressiva e da dureza das penas, somos, no espaço da União Europeia, o país com maior percentagem de detidos, e com mais elevada taxa de presos a aguardar julgamento e com o mais elevado índice de sobre-ocupação das prisões... Uma análise mais fina parece impor-se. 7 São os números indicados pelo então Ministro da Justiça ao semanário O Jornal 9NOV79 ou pelo Cons. Mário Torres (le Monde Diplomatique, Junho de 1981). 11

12 Facilmente se verificará que num País em que a urbanização se acelerou enormemente, o mapa da organização judiciária se desactualizou e está obviamente desajustado. Conhecem-se as dificuldades políticas de acabar com comarcas quando ter um tribunal mesmo sem movimento equivale a ter um brasão (e não direi, dado o estado de algumas instalações, a ter um monumento...) A verdade é que as médias, e toda a análise estatística, são enviesadas por esta distorção. Não apenas por exigência de rigor e transparência mas também da própria acção política, são necessários outros números. Que evidenciem, nomeadamente, as diferenças de desempenho. O estudo do Prof. Boaventura Sousa Santos revelou-nos que as instituições financeiras e as seguradoras são os principais mobilizadores do sistema judicial. Mas são também estes clientes quem obtém decisões mais rápidas... Quando, pelo menos nalguns sectores da sociedade portuguesa, se manifesta preocupação com o nível de endividamento das famílias, restará por saber se existe alguma relação entre a facilidade de acesso aos tribunais e as facilidades de crédito concedidas bem como os custos para o conjunto da economia, duma e outra facilidades. Mas sabe-se que, para o conjunto da economia, é crédito mal parado o correspondente a acções intentadas e ainda não julgadas e que os juros de mora em que o devedor venha a ser finalmente condenado, são penalizadores também para o credor, na ausência de soluções como a possível generalização da sanção pecuniária compulsória. Também o processo de recuperação de empresas, se afigura carecer de profunda revisão, tal como o processo de falências. A rápida realização do activo é essencial e relativamente ao processo de falência a despersonalização parece impor-se quando à falência da empresa, ao prejuízo dos credores e ao desemprego dos trabalhadores, se acrescenta o enriquecimento dos proprietários. Não sabemos que tipo de processos mais se arrasta e qual a fase processual em que a pendência se acentua. Melhor se sabe o lugar que cada tipo de crime ocupa no âmbito da criminalidade judicializada e assim sabemos o lugar modestíssimo ocupado pelos crimes contra a economia, a saúde pública ou o ambiente. A vários títulos importante a Crónica de jurisprudência Administrativa de 1996 que o Conselheiro Mário Torres publicou em Separata do n.º 1 dos Cadernos de Justiça Administrativa revela um pouco da situação de fundo do contencioso administrativo cuja reforma continua a adiar-se. Do total de acórdãos proferidos ao longo de 1996, apenas 1/5 se ocupou de problemas substanciais exteriores à própria máquina administrativa. Desses, os terceiros e quarto lugar por ordem de importância quantitativa, atrás, por exemplo, das questões 12

13 relativas aos objectores de consciência, dizem respeito à responsabilidade civil da administração e ao urbanismo e ordenamento do território. O estrangulamento do Tribunal Central Administrativo é, provavelmente, o exemplo mais chocante. É, neste quadro, que a ideia de crise criou foros de cidadania. Por isso, não vale a pena negá-la ou desdramatizá-la mas enfrentá-la e derrotá-la antes que em crise autêntica degenere. A falta de coragem dum tempo paga-se, e paga-se com juros, tempo depois. Em termos de opinião pública, creio que poderá acrescentar-se ao cenário descrito a falta de andamento de processos conhecidos a Caixa Económica Faialense, Partex, etc., o arquivamento de outros, a prescrição de alguns mais. Como também a recente absolvição, pelo Supremo Tribunal de Justiça, dos envolvidos num caso de facturas falsas. Parece, antes de mais, importante acentuar três aspectos demasiadas vezes esquecidos. Em primeiro lugar, se essencialmente o Tribunal aplica a lei, quem tem competência para as fazer e alterar são a Assembleia da República e o Governo. Depois, os tribunais só podem apreciar os casos que lhe são submetidos e depois de lhe serem submetidos. Os arquivamentos e as prescrições verificaram-se porque, em tempo útil, o Ministério Público não conseguiu colocar os processos em Tribunal e, possivelmente, porquanto a justiça formal prevaleceu sobre a justiça material. Quero tão somente acentuar que a volatilização dos responsáveis, tão portuguesa a culpa ficou solteira, canta o povo... não pode ter lugar pela diluição no sistema. Valerá, no entanto, a pena sublinhar que o arquivamento e a prescrição têm dois gumes; também os inocentes ficam, ou poderão ficar, inibidos de varrer a suspeição que sobre eles algum dia recaiu. Provavelmente outro será o foro para tal análise. Mas a questão da mediatização da justiça não poderá aqui deixar de colocar-se ainda que sumariamente. É talvez de sempre o interesse dos media pela justiça. O aparecimento da televisão introduziu, no entanto, uma importantíssima modificação nos dados do problema. Não foi apenas o modo de transmitir conhecimento que mudou passando dos poucos ouvintes duma comunicação oral para os muitos com acesso à comunicação escrita. Mas aquilo que foi sentido como o dispensar dum intermediário. Antes, dava-se crédito (ou não) ao narrador e esse crédito contava para a apreciação do que era transmitido. Com a televisão, o espectador sente-se a assistir aos acontecimentos. É ele que vê. As coisas passam a ser verdade, porque ele viu. É uma ilusão, sabemo-lo. 13

14 Mas aí se fundou uma cultura que é também do imediatismo. E que obriga a dar a noticia primeiro que os outros, porque aquilo que o espectador vai ver é, por definição, igual em todas. A cultura contemporânea tem matriz televisiva. Escreve-o um discípulo e continuador de MacLuhan Derrick de Kerckhove: 8 A TV prefere a repetição à análise e o mito ao facto, estampa os seus ícones na nossa psique tão bem como nas paredes das nossas cidades. A homogeneidade espalhase como um fogo florestal através da TV, já que ninguém quer ser apanhado fora de moda. Qualquer centro comercial é TV de passagem. Sons, cores e formas de TV que são as expressões sensoriais da nossa sensibilidade colectiva. Mas a arregimentação televisiva da nossa sensibilidade assume outras formas, como os risos e aplausos enlatados ou, num nível mais subtil, as votações electrónicas. A maior parte do que aparece nos noticiários ou documentários é pré-digerido e apresentado num formato estereotipado para uma dentada rápida, como fast food. Não terá a TV criado uma cultura de massas, fazendo desaparecer o espaço da reflexão privada e autonomia de escolha? O sucesso súbito de Trivial Pursuit parece indicar que a maior parte de nós partilha aproximadamente o mesmo corpus de conhecimentos triviais. Em tudo isto, a TV pode muito bem-estar a pensar por nós pelo menos a parte que nos exige sermos rápidos e completos. A rádio e os jornais tentam competir com esta rapidez e totalidade. Por isso também o julgamento dos media é imediato. Ainda não chegou ao Tribunal e já se realizou na opinião pública. Mais ainda: o acusado pelos media é condenado. Há certamente toda uma adequação a fazer, relativamente a esta realidade. E também uma educação. Mas, no entanto, algumas coisas simples parecem impor-se. Em primeiro lugar, a instituição judiciária não deve, colaborar, quanto mais promover, fugas de informação. Contrariamente ao que, recentemente, foi dito não há fugas de informação boas ou virtuosas. Não pode haver justiça quando esta se exercita por algum fim que não seja por ela só escrevia o mesmo Matias Aires que atrás citei. As fugas ofendem, necessariamente, o princípio da igualdade das armas quando não a garantia de presunção de inocência. Depois, é preciso que os tribunais não sejam ingénuos... E saibam por exemplo que o chamado dever de informar quase nunca é imparcial ou neutro mas quase sempre uma arma de arremesso. Nem deixaria de ser interessante verificar se o dever de informar invocado foi cumprido em situações similares. 8 In A pele da cultura pág. 49 da edição portuguesa de Relógio d Água

15 As indemnizações pelos danos morais que correspondem à gravíssima lesão de direitos de personalidade deverão, por isso, reflectir por forma muito mais expressiva a função sancionatória ou punitiva que, embora acessoriamente, também é exercida pela responsabilidade civil. A modéstia de indemnizações fixadas em $00 e menos, não pode nem deve continuar. E isto, muito embora um padrão de modéstia também ele inadmissível, que enquadra muitas decisões. O valor da vida, é fixado pela lei e pelos tribunais, duma forma quase obscena e insultuosa, tal como as indemnizações por incapacidade no caso de acidentes de trabalho que são quase um convite para a negligência criminosa. Que mutila e mata na certeza duma quase impunidade. Ao longo do dia, teremos ocasião de reflectir e avançar propostas. Contrariamente à ideia instalada, em termos de opinião pública, e sem absolver o poder judicial das responsabilidades que lhe são próprias, pensamos que a grande maioria dos instrumentos para as mudanças necessárias não estão nas mãos do poder judicial. Mas, provavelmente, não se contentarão com pequenas reformas que, se para alguma coisa servem, é para que tudo fique na mesma. Talvez a justiça seja, apenas, uma luta, incessante e esgotante, contra as injustiças triunfantes. Na perspectiva dum Conselho Económico e Social, se me é permitido e lícito arvorar-me em intérprete de tal perspectiva, o que importa assinalar é que, quando o encarcelamento aparece como resposta à ansiedade e ao temor pela segurança da sociedade, quando a morosidade processual é uma realidade indesmentível e a justiça é apropriada, por pessoas colectivas públicas e privadas, há uma questão de fundo que a todos estes sintomas subjaz e ultrapassa. 9 A duma justiça alheia aos territórios de conflitualidade que são os factores de mudança, de modernidade e de progresso, de adaptação duma sociedade aos novos problemas e desafios com que se defronta e com que a confronta a aventura do futuro. E que passam, essencialmente, da sensibilização para o exercício dos direitos à responsabilização da Administração pelos efeitos dos seus actos. Teremos nós a imaginação e vontade suficientes para encontrar respostas? Possa o Colóquio que iniciamos ser um contributo. Na amarga ironia do verso dum poeta de Moçambique não pensar nada é que cansa tudo. 9 A síntese é de PEDRO BACELAR DE VASCONCELOS A crise da Justiça em Portugal pág. 16 Cadernos Democráticos n.º 3. 15

16 Intervenção de Sua Excelência o Ministro da Justiça Dr. Vera Jardim Muito Obrigado Senhor Presidente, Senhor Dr. Magalhães Mota meu querido amigo, Foi com muito prazer que aceitei o convite do Conselho Económico e Social para estar aqui. A minha intervenção não foi preparada propositadamente. Não se trata de uma intervenção escrita, mas sim de alguma coisa que pretende ser coloquial e até, se possível, provocatória. Falar da justiça em geral é uma tarefa extremamente difícil, visto que há muitas justiças e cada uma apresenta, entre nós, como na generalidade dos países, os seus problemas específicos, naturalmente com elementos comuns a todas elas mas com diferenças substanciais. Como é do conhecimento geral, os problemas da justiça cível não são os mesmos da justiça penal como também não são os da justiça administrativa, nem os da justiça fiscal ou do trabalho. E, falar em geral sobre a justiça pode deixar na penumbra um conjunto de questões muito importantes que relevam de cada um destes tipos de administração da justiça. O paradigma do cidadão sobre a justiça está cada vez mais longínquo daquilo que na prática se passa. Para mim o paradigma do cidadão é o que apresenta de uma forma directa, simples e fácil o seu problema. O juiz chama a parte contrária e mediante uma peça escrita ou oral dessa parte em sua defesa, julga, e julga rapidamente. É este o paradigma do credor, do ofendido, dos cônjuges desavindos e este paradigma não tem correspondência praticamente nenhuma com o que se passa na realidade. A que é que isto se deve? A um conjunto de razões de desenvolvimento histórico que convém ter em linha de conta. Ao longo dos anos, para não dizer de um ou dois séculos, foi-se desenvolvendo, cada vez mais, um conjunto de elementos de uma justiça procedural, para usar o termo um pouco anglo-saxónico. O que domina a justiça é o processo e são as leis do processo. O direito e a lei são um mundo na administração da justiça onde domina, cada vez mais, a lei de processo. A verdade da justiça é a verdade que resulta do debate judiciário a que são aplicadas as leis do processo. Estas leis do processo foram ganhando, ao longo dos anos, uma crescente importância, sobrepondo-se, em muitos casos, a esse paradigma e transformando-o por completo. É por isso que a verdade do tribunal é a verdade que resulta do processo e é por isso que muitas vezes as partes se rebelam, por vezes com alguma razão não jurídica mas ética, quanto ao que lhes sucedeu no tribunal. Embora tendo razão, foram vencidos pela aplicação, pela manipulação das teias da lei, na feliz expressão de uma série televisiva. As teias da lei dominam o debate judiciário e ganha, muitas vezes, quem melhor manipula as leis do processo. É essa a função que se tem vindo a sobrepor cada vez mais à função de argumentação substantiva podendo, muitas vezes, torpedeá-la. Um prazo que não é aplicado e cumprido. Um pequeno truque processual resolve, muitas 16

17 vezes, uma questão a favor de quem não tem razão e os casos mediáticos portugueses e estrangeiros, aí estão, muitas vezes, para mostrar isto. Esta situação está muito longe do paradigma antigo da justiça, das partes comparecerem perante o juiz, as duas exporem as suas posições e o julgamento ser feito quase de imediato. Mas é evidente que a imposição de leis processuais é uma garantia fundamental de quem se dirige ao tribunal. O que aconteceu, a meu ver, é que ao longo dos anos o processo cresceu e complexizouse demasiado e hoje defrontamo-nos, muitas vezes, com uma antinomia processo verdade substancial, que é um dos problemas porventura mais graves da justiça. O Senhor Presidente do Conselho Económico e Social falou sobre a distorção da concorrência que provoca muitas vezes, a acção tardia da justiça. Permito-me discordar em boa parte porque há uma coisa que tenho afirmado, a qual é do conhecimento público, e que é serem os problemas de atraso da justiça não de um único país, mas sim generalizados. Há dias lia num jornal diário francês que os recursos na Court de Cassation que corresponde ao nosso Supremo Tribunal de Justiça estão a demorar em França em média dois anos a resolver. Isso significa praticamente três vezes o que estão a demorar, apesar de tudo, em Portugal, e os exemplos poder-se-iam multiplicar. Um pouco por toda a parte há um problema da justiça que é o problema central. Isto sem perder de vista que há naturalmente um conjunto de outros problemas também importantes. E o problema central é o problema do atraso da justiça. Isto tem importância não para nos contentarmos e deixarmo-nos estar, mas para que a análise dos fundamentos desta situação deva ser feita num conjunto mais alargado, numa visão mais alargada do problema do que a simples visão portuguesa. Um exemplo típico desta questão era o que se estava a passar nos anos recentes com a Comissão e o Tribunal dos Direitos do Homem de Estrasburgo, onde eram julgados e decididos os problemas de atraso da justiça nos países europeus e que já estava com atrasos muitas vezes superiores aos dos processos que lá eram decididos. O Tribunal Europeu, que julgava os Estados pelos atrasos na justiça, já estava a atingir prazos de resolução dos litígios superiores àqueles processos que lá apareciam com queixas de atrasos da justiça. Isto justifica uma reflexão mais ampla! O que é que sucedeu na generalidade dos países, e falo só da Europa, para justificar uma tal situação? Não vou fazer longuíssimas considerações sobre a crescente conflitualidade e o crescente papel do juiz como instância de mediação de conflitos face às crises de outras instituições mediadoras informais ou formais de conflitos, como a família, a comunidade, enfim, instituições que até há cinquenta anos, e até mais recentemente, assumiam, na prática, esse papel de mediadores informais de conflitos. A verdade é que essa crise das instâncias de mediação assumiu tais proporções que se poderá dizer que, por exemplo, a família é hoje mais geradora de conflitos que vão para tribunais do que ela própria uma instituição mediadora. Os aumentos de processos relativos a problemas familiares, sobretudo nas áreas suburbanas é disso um exemplo muito claro, tanto no que diz respeito à crise no casamento, como no que diz respeito a todos os problemas que daí derivam, com especial incidência nos problemas dos filhos. 17

18 Em Portugal o atraso tem, apesar de tudo, circunstâncias, modos e causas específicas e penso que deve ser essa a preocupação fundamental de quem olha para a crise da justiça praticamente igual a atrasos da justiça. Não quer dizer que não haja outros problemas, que naturalmente há, mas o atraso é fundamentalmente, o prisma sobre o qual, sempre que se fala em crise da justiça, as pessoas prioritariamente se preocupam. O Dr. Magalhães Mota forneceu alguns números mas referiu-se apenas ao longo prazo. Eu diria que esses números são importantíssimos na medida em que mostram um aumento exponencial da litigiosidade em Portugal, mas queria aproximar-me mais num zoom no tempo da situação actual. Ultrapassámos em 98 um número significativo de mais de um milhão de processos pendentes nos tribunais portugueses pela primeira vez. Isto resultou de um aumento de entradas, já não referido ao longo prazo entre 74 e os tempos actuais, mas referido a 5 anos entre 92 e 97. Aumentou, só na justiça cível, mais de 85% o número dos processos em 5 anos, na justiça penal, apesar de tudo, menos, mas na justiça cível, que é aquela que acusa situações porventura mais graves em matéria de atrasos, este foi o aumento das entradas. A pendência aumentou de 252 mil processos em 92, para 730 mil em 98 na justiça cível. Mais do que os números importa ver que processos são estes e de que tipo são. Quando na Europa se fala em aumento da litigiosidade trata-se de litígios que eu chamaria nobres, litígios familiares já referidos litígios de responsabilidade civil não contratual e litígios de propriedade. São esses, digamos, os litígios mais complexos regra geral, mas também mais nobres que dizem respeito aos valores fundamentais das pessoas e aos seus direitos fundamentais (falando na justiça cível, já iremos à justiça penal). Relativamente a Portugal o que se passou e ainda se passa é que a autêntica enxurrada de processos nos tribunais é constituída fundamentalmente por litígios que eu não chamaria, naturalmente por oposição aos outros, não nobres, mas sim litígios que em primeiro lugar são óbvios na maior parte dos casos quanto a quem tem razão. São de fácil resolução na maior parte dos casos. E na sua grande maioria não se trata sequer de litígio porque a parte contrária não tem resposta à acção que lhe é posta. Trata-se, no fundo, desse mundo enormíssimo que está na generalidade dos tribunais a criar situações de ruptura que são as chamadas cobranças de dívidas. Só em Lisboa, 80% dos processos são de cobrança de dívidas. Naturalmente os tribunais de Lisboa são aqueles que mais recebem esse tipo de processos por razões óbvias, que se prendem com a enorme concentração de vida económica sobretudo traduzida no sentido das sedes das grandes sociedades em Lisboa. Há todavia um conjunto muito importante de Comarcas à roda de Lisboa e Porto e nalguns centros como é por exemplo Vale do Ave, Braga, etc., que acusam situações deste tipo. Trata-se de litígios que, em muitos casos, de litígios, só têm o nome. O cliente é a empresa, a pessoa singular é o réu, embora naturalmente este retrato sofra depois adaptações. O cliente é também muitas vezes empresa e o réu é outra empresa, só que normalmente do lado do autor está a grande empresa, do lado do réu está a pequena empresa. 18

19 Este movimento de evolução dos problemas do tal crédito mal parado, direccionado para os tribunais, tem criado situações de autêntica ruptura. A mais evidente de entre elas é a dos chamados tribunais de pequena instância cível de Lisboa e não só, nos tribunais cíveis de Lisboa como grande aparelho da justiça cível, o maior do país. Só nos tribunais de pequena instância cível que julgam as bagatelas civis em Lisboa estão acumulados, neste momento, cerca de 200 mil processos, ou até talvez um pouco mais no momento actual. O mesmo se passa no Porto e noutras comarcas. Este é um dado visível e há que identificar os problemas. Em primeiro lugar fazer o diagnóstico da situação para depois podermos encontrar, ou tentar encontrar, as soluções para o problema. Deste conjunto de processos cíveis, cerca de 40% em todo o país, são processos de execução ou seja processos que em princípio deveriam ser ainda mais simples do que a acção em que se pretende ver reconhecido um crédito não pago. No processo de execução como sabem já se avançou mais na relação jurídica e o que se trata é de executar os bens do devedor com um título executivo (sentença, letra, cheque, etc.). De entre os processos cíveis pendentes, cerca de 40%, são acções executivas e são estas precisamente as acções que mais demoram a resolver em Portugal. Esta é uma situação porventura, ou quase certamente única na Europa em que um processo de execução demora cerca do dobro a resolver do que demora aquele que justificaria ou pressuporia um litígio no processo de execução. Em princípio tudo leva a crer que não há litígio mas que se trata de conseguir a colaboração do tribunal para atingir o património de um devedor que deve manifestamente. Esta é a situação de princípio não significa que não haja casos em que isto não seja assim. De todas estas acções cíveis, sobretudo daquelas que poderão ser consideradas as bagatelas civis, ou seja valores até 500 contos, são contestadas nos tribunais menos de 2% das acções, ou seja mais um argumento para aquilo que eu disse não há propriamente litígio, há uma fuga ao pagamento de uma dívida e há a procura por parte do credor da colaboração do tribunal para conseguir a recuperação desse crédito. A continuarmos assim naturalmente que a situação tenderia a agravar-se, embora, pela primeira vez, em 1998 tenha havido menos entradas na justiça cível em Portugal do que nos anos precedentes. Pela primeira vez, em vários anos, houve uma ligeira descida das entradas de acções em tribunal. Qual a estratégia que seguimos e estamos a seguir para resolver este problema? Há muitos destes processos que devem ser retirados à jurisdição normal à forma normal de resolver processos e muito se tem falado na procura de soluções para esta questão a qual é, a meu ver, uma das questões centrais do sistema judicial português. Muita gente tem falado em formas alternativas de resolução de conflitos, designadamente nas arbitragens. Penso que é uma estratégia totalmente errada. Não se trata de arbitrar coisíssima nenhuma, pois não há litígio. O que há é alguém que foge ao cumprimento das suas obrigações. Prova adicional é que de todas estas pessoas na tentativa de serem citadas/notificadas, mais de 40% fogem à citação/notificação. Não há 19

20 lugar a arbitragem nenhuma, portanto essa é uma ideia que para mim não cola. Arbitragem usa-se quando há um litígio entre duas entidades e esta se mostra naturalmente o processo mais maleável, porventura mais expedito de resolver este litígio. Nestes casos não há litígio nenhum e a prova é que menos de 2% destas acções são contestadas e que cerca de 40% das pessoas fogem a comparecer no tribunal ou melhor fogem à própria notificação. Tendo em conta que estes processos ocupam uma média nacional certamente não inferior a 60%-70%, a pergunta que me tenho feito a mim próprio é se se justifica um aparelho, um sistema judicial que custa ao Estado o que custa em formação, em meios dos mais variados para resolver este tipo de questões. Justifica-se? Esta é uma grande opção que temos e que já tivemos que começar a tomar. Justifica-se que perdamos juízes, funcionários, o esforço de todos, de uma máquina muito pesada para não direi cobrar dívidas, porque muitas vezes elas não se cobram declarar que existe uma dívida porque depois segue-se outra coisa que na prática também colhe um conjunto de impossibilidades a execução. Justifica-se isto? Justifica-se que assassinemos juízes em tribunais de pequena instância cível para despachos de, cite-se, notifique-se, condene-se... Penso que não. Penso que o sistema judicial não pode estar refém destas situações. Então o que é necessário? Em primeiro lugar é necessário continuar a fazer aquilo que temos feito. Falar, discutir e sobretudo mobilizar os grandes clientes deste sistema para uma mudança de atitude. Esta é a primeira grande tarefa. Não vale a pena fazer leis que são leis álibi, ou seja muitas vezes diz-se eu já fiz a lei, a lei está feita só que não funciona. Chama-se a isto a lei álibi. Sabe-se que não funciona mas está feita e o poder político dá a justificação de que a lei está feita mas depois não funciona, atirando com as culpas para outros intervenientes no processo. O que se justifica é outro tipo de actuação e por isso muitas vezes não temos legislado nesta matéria senão o mínimo que é necessário para criar as condições para uma motivação dos grandes clientes dos tribunais. Se eu disser a V.Exas que de um ano para o outro foi há dois anos entraram nos tribunais de Lisboa mais de cerca de 80 mil o Senhor Secretário de Estado Adjunto tem estes números mais presentes que eu acções referentes às chamadas companhias de telemóveis está tudo dito. Estão aí identificados neste momento três grandes clientes. Se eu disser a V.Exas que há milhares de prémios de seguro que não são pagos neste país e que vão para os tribunais, estão aí identificados outros grandes clientes. Se eu disser a V.Exas, que há centenas de milhar de acções em quase todos os tribunais dos chamados cartões de crédito, estão aí identificados outros grandes clientes. Se eu disser a V.Exas que de repente nos surgiu como um grande cliente de um tribunal isto já foi dito, é do conhecimento geral, mas vale a pena repeti-lo uma sapataria e que nos interrogámos sobre o que é que faria uma sapataria no meio dos grandes clientes dos tribunais portugueses, tendo vindo a descobrir rapidamente que tinha emitido um cartão 20

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