UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ FERNANDA LOPES REGINA A PROPAGANDA IDEOLÓGICA DO IPES ( )

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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ FERNANDA LOPES REGINA A PROPAGANDA IDEOLÓGICA DO IPES ( ) CURITIBA 2010

2 FERNANDA LOPES REGINA A PROPAGANDA IDEOLÓGICA DO IPES ( ) Monografia apresentada à disciplina Orientação Monográfica I, como pré-requisito à conclusão do Curso de Ciências Sociais do Departamento de Ciências Sociais, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. Orientador: Profª. Drª. Luciana Fernandes Veiga CURITIBA

3 Há soldados armados Amados ou não Quase todos perdidos De armas na mão Nos quartéis lhes ensinam Uma antiga lição: De morrer pela pátria E viver sem razão... Geraldo Vandré Em memória de meu pai. 2

4 Dedico este trabalho a pequena família da qual faço parte, minha mãe Ana e minhas irmãs Patrícia e Priscila, sem as quais eu não teria forças para caminhar. Aos grandes amigos que surgiram ao longo dessa caminhada vindos de diferentes direções, Alexsandra, Kássia e Érika, que me ajudaram a continuar quando eu achei que não poderia mais e que hoje fazem parte de todas as minhas conquistas. Aos amigos com quem dividi bons momentos durante esse período e dos quais jamais vou esquecer, Lidiane, Édina e Angel. À Professora Luciana por ter desde o início acreditado no projeto. À atenção e prestatividade de Satiro Nunes do Arquivo Nacional. E, sobretudo a Deus pela força de todos os dias. 3

5 RESUMO A principal questão apresentada neste trabalho diz respeito à propaganda política e seus efeitos sociais, políticos e econômicos. Para ilustrar este quadro, a presente análise busca elucidar de forma exemplificada, algumas das principais questões presentes nas teorias da Comunicação, da Sociologia e da Ciência Política. O objetivo central é saber de que forma o discurso pré-64 influenciou a população como um todo, mobilizando os indivíduos através de uma doutrina ideológica respaldada no desenvolvimento e no anticomunismo a fim de se buscar o apoio de diferentes classes para a efetivação do Golpe. PALAVRAS-CHAVES: Propaganda. Regime Militar, Forças Armadas, IPES. 4

6 LISTA DE QUADROS QUADRO 1 Índice do PIB de 1920 a 1980 pg. 47 QUADRO 2 PIB de 1920 a 1980 por setores pg. 48 QUADRO 3 Bancada dos principais partidos na Câmara Federal pg. 62 QUADRO 4 Tipologia dos documentários pg.109 QUADRO 5 Ocorrência das metas do IPES nos documentários pg

7 SUMÁRIO RESUMO 4 LISTA DE QUADROS 5 INTRODUÇÃO 8 Capítulo I PROPAGANDA E POLÍTICA I.1. Propaganda 12 I.2. A Indústria Cultural e os Meios de Comunicação de Massa 14 I.3. A Propaganda Política 22 I.3.1. Estado Poder e Ideologia 22 I A Propaganda Político-Ideológica 30 I.4. A Propaganda Nazista 35 I.5. A Propaganda Varguista 40 Capítulo II BRASIL: II.1. Sociedade, Economia e Política 47 II.2. Os Interesses de Classes 56 II.2.1. Os Trabalhadores 60 II.2.2. Os Militares 66 II.2.3. Os Empresários 79 II. 3. A Difusão Ideológica 85 Capítulo III O IPES III.1. Fundação 89 III.2. Estrutura 93 Grupo de Levantamento da Conjuntura (GLC) 94 Grupo de Assessoria Parlamentar (GAP) 95 Grupo de Opinião Pública (GOP) 96 Grupo de Publicações/Editorial (GPE) 98 Grupo de Estudo e Doutrina (GED) 99 III.3. A Propaganda Golpista 100 6

8 Capítulo IV PROPAGANDA IPESIANA NOS DOCUMENTÁRIOS DE JEAN MANZON IV.1. O Gênero Documentário no Brasil 104 IV. 2 Os Filmes Ipesianos 108 CONCLUSÃO 114 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 115 7

9 INTRODUÇÃO As pesquisas documentais tiveram nas últimas décadas um crescimento significativo na quantidade total de trabalhos realizados. Se analisarmos, por exemplo, o caso da América Latina, veremos que principalmente a partir da década de 80, que para muitos países significou o fim de seus regimes autoritários, houve intensa luta para que os documentos provenientes do período em questão se tornassem públicos, sobretudo por ter-se tratado de um momento político absolutamente complexo, em que todas as atividades governamentais eram sigilosas e confidenciais. No caso brasileiro, os documentos estão sob inteira responsabilidade do Governo Federal, conforme a Lei nº de A consolidação desta política fica a cargo do Conarq - Conselho Nacional de Arquivo órgão colegiado que atua vinculado a Casa Civil da Presidência da República. O órgão central do Sistema de Gestão de Documentos de Arquivos SIGA é o Arquivo Nacional, localizado nos estados do Rio de Janeiro e Brasília. Desde 1990, estão sob a custódia do AN os documentos do período do Regime Militar ( ), provenientes da extinta Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça DSI/MJ ( ). Em 2005 somaram-se a estes, outros também oriundos de órgãos extintos que faziam parte do quadro institucional da época, como o Serviço Nacional de Informação SNI ( ) da Comissão Geral de Investigações CGI ( ) e do Conselho de Segurança Nacional CSN ( ), tendo seu acervo sobre repressão passado de páginas de texto para páginas da mesma natureza. Os documentos disponibilizados pelo Arquivo Nacional do Rio de Janeiro possibilitaram a René Armand Dreifuss, a realização de sua obra-prima 1964: A Conquista do Estado Ação Política, Poder e Golpe de Classe. Através deste livro, Dreifuss trouxe a tona uma questão absolutamente desconhecida pela maior parte da população, qual seja, a existência de um instituto criado em 1961, formado quase que majoritariamente por empresários multinacionais que tinham como objetivo principal a derrubada do governo João Goulart: o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, o IPES, nosso objeto estudo. A presente pesquisa encontra respaldo no trabalho precursor de Dreifuss no que diz respeito à análise do IPES enquanto um órgão disseminador de vasta propaganda política que resultaria em 1964 com o Golpe Militar. 8

10 Fundado oficialmente em 29 de novembro de 1961, o IPES tornou-se o reduto da conspiração civil contra o governo Goulart, agremiando diversos backgrounds ideológicos e forças de ação para que o objetivo pudesse ser alcançado. A questão mais controversa e principal alvo das críticas ao trabalho de Dreifuss está posta em relação a primazia do econômico, ou seja, o alto grau de importância que o autor teria atribuído ao Instituto, enquanto força de ação para a tomada do poder de Estado; para os críticos, esta avaliação economicista do momento em questão, subestimaria a verdadeira essência militar do Golpe. Nosso trabalho, tanto quanto o de Dreifuss, busca analisar esta questão pela única maneira possível: a análise de documentos. Seguramente a máxima de que muitas vezes os fatos dizem mais do que as provas, é absolutamente aplicável, mas as fontes documentais continuam sendo a única maneira concreta de analisarmos períodos nos quais não estivemos presentes. Explicamos ainda que, ao utilizarmos como principal referência o autor em questão, não temos a intenção de diminuir a influência e a participação das Forças Armadas na conspiração golpista, pelo contrário, pretendemos demonstrar ao longo do trabalho que mais do que uma congruência de interesses, houve no período um intercâmbio de posições entre os empresários e os militares, com a diferença que enquanto uns utilizaram-se das armas de fogo, outros apelaram para as armas de efeitos simbólicos. Nosso principal objetivo é trazer à discussão de que forma o IPES disseminou sua ideologia contrária ao populismo, nacionalismo, sindicalismo e comunismo entre os diferentes setores da sociedade, ou seja, de que maneira a propaganda empreendida pela classe economicamente dominante encontrou respaldo e apoio na população como um todo, inclusive no interior das Forças Armadas para que houvesse antes de 1964 no imaginário coletivo a necessidade da interferência dos militares. Para que esta análise seja possível, utilizaremos como base, a teoria marxista clássica que trata da luta de classes nas sociedades capitalistas e alguns de seus desdobramentos mais contemporâneos, aspectos teóricos de comunicação como a propaganda, com ênfase em seu caráter político e a análise de alguns documentos audiovisuais (documentários) que foram produzidos sob o rígido controle do IPES para fins já mencionados. No primeiro capítulo apresentaremos as diferenciações entre publicidade e propaganda tomando a segunda como um meio persuasivo para a obtenção de fins não 9

11 comerciais, mas como proveniente de um processo histórico do avanço do capitalismo que possibilitou um aumento significativo das indústrias o que consequentemente possibilitou a criação de uma Indústria Cultural e a disseminação dos meios de comunicação. Na seqüência, falaremos mais detalhadamente sobre a propaganda, revisitando os textos clássicos da ciência política para explicar a disseminação ideológica a partir dos conceitos de Estado, Poder e Ideologia e para encerrarmos o capítulo, traremos dois exemplos práticos da utilização da propaganda política: o nazismo, na Alemanha e o varguismo, no Brasil. No segundo capítulo faremos uma contextualização do período democrático brasileiro, de 1945 a 1964 no que diz respeito à configuração social, econômica e política do país para na seqüência falarmos sobre os interesses presentes na cena política detalhando as classes atuantes no conflito ideológico, a saber, os trabalhadores, reunidos nos sindicatos, os militares e suas concepções doutrinárias e os empresários que viam no liberalismo a única maneira de garantir a manutenção de seus interesses. É importante notar que apesar da importância no anticomunismo para os debates existentes na época, não dedicamos um item em especial para ele neste segundo capítulo que tem como intenção situar o estado de coisas no Brasil no período em questão. Para que pudéssemos trazer de forma mais condizente e fiel os acontecimentos, acabamos por diluir o tema entre os diferentes pontos apresentados, sem a necessidade de explicalo detalhadamente, pois o trabalho tornar-se-ia repetitivo e desgastante, já que é um ponto em comum ao discurso das três classes. Para encerrarmos o capítulo, faremos uma retrospectiva dos meios de comunicação no Brasil, trazendo os principais veículos de informação que o país possuía, bem como os índices de crescimento alcançados pelos mesmos. No terceiro capítulo, chegaremos ao ponto principal de nosso trabalho, ou seja, o IPES. Iniciaremos com sua fundação e de que forma ele foi aos poucos estabilizando-se e garantindo sua atuação. Veremos também como eram realizadas suas atividades, seus principais membros e seu corpo de diretrizes. Este é o capítulo de introdução do Instituto, que como dito anteriormente, foi apresentado por Dreifuss em nada menos que cerca de 900 páginas. Faremos uma reconstituição dos dados trazidos pelo autor unicamente com as informações pertinentes ao desenvolvimento de nossa pesquisa que analisa o Instituto no tocante à propaganda, ou seria inviável a conclusão do trabalho. 10

12 É importante dizer também, que embora nosso trabalho trate do regime militar, nosso objeto de estudo é o IPES e a propaganda pré-golpe, deste modo o período limite de análise no trabalho é de 1961, ano de sua fundação a Por fim, analisaremos o mais importante dado documental que fez parte do arcabouço de propagandas que o Instituto difundiu ao longo de sua campanha, os documentários produzidos pelo IPES através de um dos maiores fotógrafos e documentaristas que já passaram pelo país, o francês Jean Manzon que adquiriu vasta experiência como diretor de cinema no período em que trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda DIP de Getúlio Vargas e que continuou atuando a serviço do governo após

13 Capítulo I PROPAGANDA E POLÍTICA I.1. Propaganda A propaganda permitiu-nos conservar o poder, a propaganda nos possibilitará a conquista do mundo. Adolf Hitler Os termos Propaganda e Publicidade são utilizados no Brasil indistintamente e usualmente acabam por designar a mesma idéia, de forma que as características que definem cada um deles são colocadas em xeque sem levar em conta que uma confusão terminológica pode comprometer o resultado final de uma pesquisa. Erbolato (1985) define publicidade como: 1. Arte de despertar no público o desejo de compra, levandoo à ação. 2. Conjunto de técnicas de ação coletiva, utilizadas no sentido de promover o lucro de uma atividade comercial, conquistando, aumentando ou mantendo clientes. 1 A publicidade está associada, portanto, à atividade comercial, ou seja, à promoção de produtos ou serviços, visando o estímulo à compra por parte do público consumidor. Acreditamos que esta seja uma classificação primária para o termo, mas é, no entanto, o suficiente para esclarecermos sua finalidade e podermos diferenciá-lo da propaganda, que é o nosso real objeto de trabalho. Ainda segundo Erbolato (1985): [a propaganda é um] conjunto de atividades que visam influenciar o homem, com o objetivo religioso, político ou cívico, mas sem finalidade comercial. 2 A partir desta definição, conseguimos identificar a principal diferença entre os termos através de uma simples relação entre objetos e objetivos: publicidade 1 ERBOLATO, Mario. Dicionário de Propaganda e Jornalismo. Campinas: Papirus, 1985, p Ibdem, p

14 comercial e propaganda ideologia. Embora a segunda, tal qual a definição proposta, tenha se inspirado na outra surgida nos Estados Unidos, ela adquiriu contornos próprios e consequentemente, uma função terminológica própria. A propaganda trata da divulgação de idéias com a finalidade de influenciar opiniões e ações de outros indivíduos ou grupos relativamente a fins predeterminados, ela opera no intuito de despertar e influenciar os sentimentos do público receptor. 3 Por isso, ao longo de sua evolução, ela alcançou uma significativa importância no processo de desenvolvimento das sociedades. Inúmeros estudos partem deste pressuposto e analisam a influência que ela teve na difusão de idéias que guiaram importantes transformações nos campos econômico, político e social. Segundo Pinho (1990), a propaganda pode ser classificada, segundo sua natureza, em nove categorias, a saber: ideológica, política, eleitoral, governamental, institucional, corporativa, legal, religiosa e social. O estudo do conjunto destas categorias, sem dúvida alguma, possibilita uma compreensão mais abrangente do conceito em si, mas esta não é a intenção deste trabalho. Iremos nos ater a duas categorias fundamentais e elucidativas para nossa apresentação: a política e a ideológica. A propaganda política consiste basicamente na transmissão de idéias políticas e de programas ou filosofias partidárias. Ela é comumente utilizada para influenciar a opinião pública através dos meios de comunicação, atuando pelo processo da persuasão, que segundo Garcia (1999) é a sua marca distintiva. O conteúdo de sua mensagem é estabelecido a favor de uma causa, quase sempre associada à classe dominante e esta mensagem traz embutida em si, uma ideologia, entendida aqui como um conjunto de idéias a respeito da realidade. Decorre dela, então, a propaganda ideológica que segundo Pinho (1990) tem a função (...) de formar a maior parte das idéias e convicções dos indivíduos e, com isso, orientar todo o seu comportamento social. As mensagens apresentam uma versão da realidade a partir da qual se propõe a necessidade de manter a sociedade 3 Até mesmo o indivíduo final é diferente, na publicidade é consumidor, na propaganda é público receptor. 13

15 nas condições em que se encontra ou de transformá-la em sua estrutura econômica, regime político ou sistema cultural. 4 Neste trabalho utilizaremos a definição propaganda político-ideológica para designar este processo conjunto de atuação das duas categorias de propaganda, entendida pelo viés sociológico, como um objeto particular constituinte de uma análise mais ampla que busca esclarecer o andamento do processo de dominação social de determinada classe por outra em determinado momento histórico, dada a relevância de seu caráter ideológico. No entanto, faremos uma breve análise histórica do surgimento da propaganda encontrando respaldo na teoria sociológica oriunda da Escola de Frankfurt, que tem em Theodor W. Adorno, seu mais importante representante diante de seus estudos realizados junto a Max Horkheimer sobre a Indústria Cultural. I.2. A Indústria Cultural e os Meios de Comunicação de Massa Foi somente na década de 1830 que a literatura e as artes começaram a ser abertamente obsedadas pela ascensão da sociedade capitalista, por um mundo no qual todos os laços sociais se desintegravam exceto os laços entre o ouro e o papel-moeda (...) 5 Na citação apresentada, Hobsbawn refere-se às profundas transformações que o século XIX assistiu. Neste período houve uma significativa mudança no funcionamento das sociedades contemporâneas, atingindo assim, todos os seus elementos constituintes, tais quais a política, a economia, a cultura, etc. De forma geral, segundo as teorias que analisam este processo, as antigas relações tradicionais foram suplantadas por outras. Os indivíduos passaram a se constituir em uma massa homogênea sem diferenças político-ideológicas, sem vínculos comunitários, desintegrando desta forma, as culturas locais diante da transição econômica que o século XIX apresentou. 4 GARCIA, Nelson Jahr apud PINHO, José Benedito. Propaganda Institucional - Usos e Funções da Propaganda em Relações Públicas. São Paulo: Summus Editora, 1990, p HOBSBAWM, Eric J. p. 22. Disponível em <http://www.scribd.com/doc/ /a-era-das- Revolucoes-Eric-J-Hobsbawm>. Acesso em: 18 de fevereiro

16 Na seqüência de sua exposição, Hobsbawn faz uma citação à La comédie humaine de Honoré de Balzac, considerada uma obra-retrato das mudanças sociais sofridas pela sociedade francesa na primeira metade do século XIX, período de transição do Antigo Regime e a consolidação da sociedade burguesa moderna. 6 Neste retrato cômico que Balzac faz da burguesia francesa, estão contidos os principais elementos presentes no processo de industrialização, pelo qual a Europa, sobretudo a França e Inglaterra, vinham passando, entre outros: o sistema de transporte interurbano (...), o processo da tipografia, o jornalismo nascente, a rotina dos cartórios e dos escritórios de advocacia, os comerciantes e suas listas de clientes e fornecedores, o sistema de descontos de letras, a confecção de perfumes, atas de concordatas, montagem de processos de falências etc. 7 A transição econômica do modelo liberal para o monopolista, teve início na metade do século XIX, e consolidação no século XX com o desmoronamento do liberalismo ocorrido na Revolução Industrial. A principal característica deste momento foi a mecanização e racionalização da produção, separando capital e trabalho, produzindo em função do lucro pela produção e consumo em massa. Este processo de industrialização passou a manifestar tendências monopolistas de controle de mercado e alterou de forma efetiva as sociedades. À grande concentração e centralização de capital convencionou-se chamar de capitalismo, originado com a concentração de unidades fabris e produção industrial apoiadas pelo capital financeiro, separando visivelmente a sociedade em classes, ou seja, a burguesia e o proletariado. Segundo Marx (DATA): A burguesia submeteu o campo à cidade. Criou cidades enormes, aumentou tremendamente a população urbana em relação à rural, arrancando assim contingentes consideráveis da população do embrutecimento da vida rural. Assim como subordinou o campo à cidade, os países bárbaros e 6 Embora a Revolução Industrial tenha tido início na Inglaterra (antiga Grã-Bretanha), logo espalhou-se pelo continente e seu legado pôde ser observado em vários outros países europeus, por isso à alusão de Hobsbawn ao cenário francês. 7 Disponível em < Acesso em: 18 de fevereiro

17 semibárbaros aos civilizados, subordinou os povos camponeses aos povos burgueses, o Oriente ao Ocidente. A burguesia suprime cada vez mais a dispersão da população, dos meios da produção e da propriedade. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A conseqüência necessária disso foi a centralização política. 8 O capitalismo, por sua vez, enfrentou e enfrenta crises que estão relacionadas ao seu próprio funcionamento enquanto modo de organização social, pois como analisa Marx (DATA) Há mais de uma década a história da indústria e do comércio é, simplesmente, a história da revolta das forças produtivas modernas contra as condições modernas de produção, contra as relações de propriedade que condicionam a existência da burguesia e seu domínio. Basta lembrar as crises comerciais que, repetindo-se periodicamente, ameaçam cada vez mais a sociedade burguesa. Nessas crises destrói-se uma grande parte dos produtos existentes e das forças produtivas desenvolvidas. Irrompe uma epidemia que, em épocas precedentes, parecia um absurdo a epidemia da superprodução. Repentinamente, a sociedade vê-se de volta a um estado momentâneo de barbarismo; é como se a fome ou uma guerra universal de devastação houvesse suprimido todos os meios de subsistência; o comércio e a indústria parecem aniquilados. E por quê? Porque há demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio.(nota Manifesto) 9 Uma vez que o crescimento econômico está intimamente ligado à produção, e esta por sua vez, gera uma abundância de produtos, baixa dos preços e consequentemente o corte de despesas que se convertem em demissões, baixa dos 8 O manifesto comunista 9 O Manifesto 16

18 salários, subemprego, falência de empresas, podemos dizer que a deficiência do sistema econômico reflete-se principalmente no campo social: cria-se a miséria e o descontentamento, e o resultado desta união são as revoluções sociais. E, de fato, a revolução social eclodiu na forma de levantes espontâneos dos trabalhadores da indústria e das populações pobres das cidades, produzindo as revoluções de 1848 no continente e os amplos movimentos cartistas na Grã-Bretanha. O descontentamento não estava ligado apenas aos trabalhadores pobres. Os pequenos comerciantes, sem saída, a pequena burguesia, setores especiais da economia eram também vítimas da revolução industrial e de suas ramificações. Os trabalhadores de espírito simples reagiram ao novo sistema destruindo as máquinas que julgavam ser responsáveis pelos problemas. 10 É neste momento que Karl Marx leva a público o Manifesto Comunista, originário da secreta Liga Comunista formada por operários alemães que em 1847 no Congresso de Londres, através de abaixo-assinados, organizaram-se na missão de escrever para fins de publicação um programa detalhado, teórico e prático do partido. 11 A crise capitalista estava deflagrada: para Marx a maior contradição capitalista está em si mesma, na medida em que o capital origina o proletariado, que é quem dá vida ao capitalismo e por sua vez, possui a chave para a destruição do mesmo - a união de esforços contra a burguesia dominante através da luta de classes. Com este processo instaurado, ficou ainda mais difícil impor a hegemonia de forma a agrupar o proletariado tal qual a classificação de sociedade de massas; 12 surge 10 HOBSBAWM, Eric J. p. 28. Disponível em <http://www.scribd.com/doc/ /a-era-das- Revolucoes-Eric-J-Hobsbawm>. Acesso em: 18 de fevereiro O Manifesto 12 A sociedade de massas formou-se durante o processo da industrialização do século XIX, através da especialização em tarefas, a organização industrial em larga escala, a concentração de populações urbanas, a centralização crescente do poder de decisão, o desenvolvimento de um complexo sistema de comunicação internacional e o crescimento dos movimentos políticos das massas. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/cultura_popular>. Acesso em: 20 de fevereiro

19 disso a necessidade de um mecanismo articulador mais poderoso que torne possível à burguesia manter seu controle diante das crises operárias; essa mediação começa de forma mais imperativa a ser realizada pelos meios de comunicação. O primeiro meio massivo, embora já vastamente utilizado, desde a invenção da imprensa por Gutenberg no século XV é o jornal, pois a Revolução Industrial aperfeiçoou os métodos de produção e distribuição de mídia impressa. A impressão de tipo rotativa surgida em 1847 nos Estados Unidos, que substituiu a de tipo plana, acelerou a transformação das editoras de jornais em enormes empresas. 13 Em 1821, surge na Inglaterra o jornal The Guardian, principal jornal britânico publicado até os dias de hoje. Em 1933, é fundado o New York Sun, primeiro jornal popular, vendido a um centavo de dólar. Os jornais e especialmente os tablóides da yellow press que começaram a aparecer em grande número a partir de 1870 alcançaram tiragens incríveis. Nas grandes metrópoles Barcelona, Madrid, Paris, Berlin, Londres e Nova York saíam vários jornais diários, com tiragens espantosas, alguns até com edições da manhã e da tarde. 14 Acompanhando o desenvolvimento dos jornais, há no século XIX uma revolução nas tecnologias de informação, de forma que os meios de comunicação tornam-se instituições privadas com alcance global, não somente no setor jornalístico, mas também na área de entretenimento (cultura e diversão), e é justamente neste cenário que no final da primeira metade do século XIX é cunhado na Alemanha o termo Indústria Cultural. Coelho (1997) nos diz: Seus princípios são os mesmos da produção econômica geral: uso crescente da máquina, submissão do ritmo humano ao ritmo da máquina, divisão do trabalho, alienação do trabalho É importante lembrar, no entanto, que é nessa época que os partidos operários e demais movimentos sociais também passam a utilizar-se da publicação de jornais e folhetos para a disseminação de sua ideologia. 14 Disponível em < Acesso em 20 de fevereiro

20 Este autor brasileiro dedicado ao estudo da cultura afirma que não podemos falar indústria cultural e em cultura de massa antes da Revolução Industrial e de uma economia de mercado baseada no consumo. Foi a industrialização que determinou a industria cultural e a cultura de massa. 16 A sociologia, ao analisar os meios de comunicação, ganhou notoriedade através dos estudos desenvolvidos por Theodor Adorno, Horkheimer e outros intelectuais da chamada Escola de Frankfurt. Os autores voltaram sua atenção ao chamado processo de dominação de classe, imposto pela nova ordem cultural que se desenvolvia amplamente diante da massificação dos meios de comunicação, desde século XIX, dada a emergência de grandes empresas ou organizações, como vimos anteriormente, que passaram a explorar o negócio da comunicação e da cultura, transformando-a em mercadoria. No trabalho intitulado Dialética do Esclarecimento, datado de 1947, Adorno substituiu o termo até então empregado cultura de massa por indústria cultural, partindo do princípio de que a primeira expressão retifica a distorcida imagem de que a cultura em si, emana das massas, quando na verdade, ela é um produto fabricado pela classe dominante. A indústria cultural, grosso modo, pode ser definida como o conjunto dos meios de comunicação, a exemplo do cinema, do rádio, da televisão, dos jornais e revistas, que para o autor, formam um poderoso sistema de manipulação e controle social. O controle dos meios de difusão de idéias e de informações que se verifica ao longo do desenvolvimento da imprensa, como reflexo do desenvolvimento capitalista em que aquele está inserido é uma luta em que aparecem organizações e pessoas da mais diversa situação social, cultural e política, correspondendo a diferenças de interesses e aspirações COELHO, Teixeira. Dicionário Crítico de Política Cultural Cultura e Imaginário. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997, p COELHO, Teixeira. O que é indústria cultural. São Paulo: Brasiliense, SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. 4ª ed. Rio de Janeiro: Mauad Editora, 1999, p

21 Esse controle reitera as relações de produção, ajustando-se, todavia, de acordo com o contexto no qual estão inseridas, pois a indústria cultural representa um fator de extrema importância para a formação da consciência enquanto elemento da mentalidade dominante. Para os autores, ela previamente determina às massas a direção que deve ser tomada, orientando o comportamento do indivíduo através do seu trabalho de adaptação que provém de sua ideologia. Isso acarreta o que o autor chama de satisfação substitutiva, enganando o homem ao propor o modo de organização dado como o ideal a ser buscado; a dominação técnica progressiva, se transforma em engodo das massas, isto é, em meio de tolher a sua consciência. Ela impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e de decidir conscientemente 18 (NOTA) Há uma imposição, por parte daqueles que comandam os veículos de comunicação, de idéias e valores criados pela indústria cultural. Isso se constitui na tentativa de legitimação do conteúdo do material cultural produzido, revestido da ideologia dominante. Segundo o autor: A tecnologia da montagem e do efeito e o realismo exagerado faz com que o cinema ande muito rápido para permitir reflexão do seu expectador, fazendo com que o indivíduo passe a se integrar à multidão, por outro lado, o rádio enquanto comando aberto e de longo alcance passou a ser instrumento que coloca o discurso como verdadeiro e absoluto às massas. O filme sonoro e a televisão podem criar a ilusão de um mundo que não é o que a nossa consciência espontaneamente pode perceber, mas uma realidade cinematográfica que interessa ao sistema econômico e político no qual se insere a indústria cultural

22 Em um estudo sobre a comunicação de massa, Lazarsfeld e Merton (1973), apontam para o fato de que os meios de comunicação de massa, utilizados enquanto instrumento de dominação podem ser tanto utilizados para o bem quanto para o mal, sendo a última proposição mais viável quando a propaganda é desenvolvida de maneira indiscriminada e sem adequado controle. Não se pode concluir, entretanto, que há uma indiscriminada assimilação das informações transmitidas por parte das massas, mas que elas tendem a incorporar as práticas apresentadas, como necessárias à sua necessidade, substituindo o processo de manipulação pelo de influência, como veremos mais adiante. A sujeição social ocorre em diferentes níveis de controle organizado. Segundo Lazarsfeld e Merton: Os meios de massa outorgam prestígio e acentuam a autoridade de indivíduos e grupos legitimando-lhes o status. O reconhecimento pela imprensa, pelo rádio, pelas revistas ou pelos noticiários cinematográficos é a prova de que alguém triunfou, de que alguém é suficientemente importante para destacar-se das vastas massas anônimas, de que o procedimento e as opiniões de alguém são tão significativos que fazem jus à atenção pública 20. Coelho (1997) aponta em seu trabalho para as análises de Norberto Bobbio filósofo político italiano, para o qual a indústria cultural é incompatível com a democracia, pois o uso feito da informação pela indústria cultural produz doutrinação, que tende a reduzir ou eliminar o sentido da responsabilidade individual, considerada fundamento da democracia. 21 Para o autor, não é a cultura em si o que deve ser analisado nos estudos sobre a Indústria Cultural, mas sim a barreira que ela cria para que os indivíduos não alcancem a alcancem, evitando desta forma eventuais críticas aos modos culturais dominantes. 20 LAZARSFELD, Paul F. e MERTON, Robert K. Comunicação de Massa, gosto popular e ação social organizada. In: ROSENBERG Bernard e WHITE, David Manning. Cultura de Massa. São Paulo: Cultrix, 1973, p Disponível em Acesso em: 25 de fevereiro COELHO, Teixeira. Dicionário Crítico de Política Cultural Cultura e Imaginário. São Paulo: Editora Iluminuras, 1997, p

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