Resumo. 1 Docente da Universidade Federal do Tocantins com graduação em Licenciatura Plena

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1 Percepções sobre as línguas portuguesa e inglesa de um grupo imigrante estadunidense An American immigrant group s perceptions of the Portuguese and English languages Aline Gomes da SILVA 1 Resumo Este estudo de natureza qualitativa e interpretativa tem como objetivo geral investigar as percepções sobre as línguas portuguesa e inglesa de um grupo de imigrantes que vivem na Região Centro-Oeste do Brasil. Em termos mais específicos, a pesquisa busca analisar os domínios de uso do inglês e do português no interior da comunidade, com vistas a delinear o perfil sociolinguístico do grupo. Para tanto, recorri aos princípios da etnografia para a coleta de dados, utilizando os seguintes instrumentos: entrevistas, questionários e observações de campo. O referencial teórico deste trabalho apresenta estudos que discorrem sobre a língua e sua influência na sociedade (BAKER, 1993; GROSJEAN, 1982; ROMAINE, 1995). Os resultados mostram que embora o grupo declare que a língua inglesa seja sua L1 (mesmo os jovens nascidos no Brasil) e seu uso seja predominante na maioria dos domínios sociais, tanto o português quanto o inglês desempenham papéis fundamentais na comunidade em diversas situações sociais, caracterizando assim o grupo como bilíngue. Palavras-chaves Imigração; bilinguismo; aquisição de linguagem. 1 Docente da Universidade Federal do Tocantins com graduação em Licenciatura Plena em Letras pela Universidade Estadual de Goiás (2003). Possui mestrado em Letras e Linguística pela Universidade Federal de Goiás (2010) e especializações (Lato sensu) em Gestão Educacional pela Universidade Estadual de Goiás (2005) e em Língua Inglesa pela UniEvangélica (2005). Cep: Porto Nacional TO.

2 Abstract The main goal of this qualitative and interpretative study is to investigate an American immigrant group s perceptions of the Portuguese and English languages in the Central- West region of Brazil. More specifically, this research investigates both languages domains within the community in order to establish a sociolinguistic profile of the group. Ethnographic theory was the basis for data collection and the following instruments were used in an effort to gather language domains: interviews, questionnaires and field observation. The theoretical section includes works on language and its influence on society (BAKER, 1993; GROSJEAN, 1982; ROMAINE, 1995). Results revealed that although the group declares that English is its first language (even the young who were born in Brazil) and the use of this language is predominant in most social domains, both English and Portuguese develop underlying roles within the community, defining the group as bilingual. Keywords Immigration; bilingualism; language aquisition. 1. Introdução O Brasil, por apresentar uma grande dimensão territorial, detém uma vasta diversidade cultural e linguística. Essa diversidade cede lugar ao mito do monolinguismo, isto é, à concepção equivocada de que no Brasil se fala uma única língua: o português. Estima-se que o cenário brasileiro conta com cerca de 210 idiomas, sendo 170 línguas faladas nas comunidades indígenas espalhadas pelo Brasil e aproximadamente 40 línguas faladas por imigrantes e seus descendentes. Considerando esta diversidade, pode-se afirmar que o Brasil é, portanto, um país multicultural e multilíngue (CAVALCANTI, 1999). É com o intuito de dar visibilidade a esse fato que este estudo analisou uma comunidade bilíngue de origem norte-americana residente no Brasil. Segundo Grosjean (1982), o processo migratório é uma dentre as várias razões que contribui para a ocorrência do bilinguismo. Grosso modo, as imigrações são decorrentes do desejo de se aventurar por novas terras, por interesses bélicos, políticos, econômicos, educacionais e religiosos; ou ainda em razão de casamentos inter-raciais ou alguma catástrofe natural que obriga um grupo de indivíduos a buscar outros locais para

3 viver. Em todas essas situações o contato entre línguas é inevitável, o que cria oportunidades para algum tipo de bilinguismo, seja na sociedade ou no indivíduo. De acordo com Seyferth (1990), a imigração acarreta transformações urbanas em qualquer parte do mundo. No Brasil não tem sido diferente. Além de exercer um importante papel na composição étnica da população brasileira, a imigração tem contribuído para mudar o processo de urbanização, tanto nas grandes cidades, como São Paulo, quanto nas comunidades de imigrantes localizadas no interior de Goiás (MELLO, 2003; SILVA, 2007). Essas comunidades, por serem reservadas, muitas vezes tornam-se invisíveis aos olhos da população circunvizinha. Ainda segundo Seyferth (1990), juntamente com os imigrantes vêm as doutrinas religiosas e as línguas. No que diz respeito à religião, destaca a influência do cristianismo representado pela Igreja Católica de origem portuguesa e italiana. Os imigrantes alemães e libaneses deram sua contribuição com o luteranismo e com as igrejas maronita, melquita e ortodoxa, respectivamente; e os japoneses, com o budismo e o xintoísmo. No caso deste estudo, a imigração que teve início com a chegada dos primeiros missionários estadunidenses em 1950 no interior de Goiás foi motivada pela fé cristã e pelo desejo de levar a palavra de Deus para aqueles que ainda não a conhecem. É fato que junto com o imigrante vem sua língua materna e seu uso não fica restrito à comunidade. As interações sociais entre os imigrantes e a população hospedeira são inevitáveis, o que resulta no contato entre as línguas distintas. Sem uma barreira que limite esse fluxo, o bilinguismo integra, cada vez mais, nossa sociedade. A seguir, falaremos sobre o fenômeno bilinguismo na sociedade e no indivíduo. 2. O bilinguismo na sociedade e no indivíduo Neste trabalho, adoto a definição de bilinguismo como o uso regular de duas ou mais línguas (GROSJEAN, 1982, p. 1) por acreditar que bilíngue é todo aquele que usa regularmente duas línguas em suas atividades cotidianas, mesmo não apresentando necessariamente uma competência igual à de um falante nativo. Segundo Grosjean (1982), assim como não existem pessoas nativas capazes de atuar igualmente bem em todos os domínios de sua própria língua, não há razão para se exigir do bilíngue uma competência irretocável em ambas as línguas, em todos os domínios e situações de uso.

4 Sob essa perspectiva, a ênfase recai no uso e na funcionalidade das línguas, não no mito da perfeição oriundo da teoria bloomfieldiana que define bilinguismo como o controle de duas línguas de maneira semelhante à do nativo (BLOOMFIELD, 1979, p. 56), enfatizando a forma da língua. Conforme Grosjean (1982), o bilinguismo é um fenômeno que se faz presente desde os primórdios da história humana e é continuamente associado às atitudes de um grupo ou de um indivíduo e a fatores como o lugar, a situação, os participantes, o tópico e a função da interação. Desse modo, o bilinguismo não constitui um fenômeno per se. Tal fenômeno perpassa dimensões exteriores à língua em si, tais como a comunidade de fala e suas características socioestruturais, as políticas linguísticas e as atitudes individuais e coletivas. Em suma, os estudos sobre bilinguismo podem ser divididos em duas categorias: bilinguismo social e bilinguismo individual. Os estudos que focalizam o bilinguismo na sociedade visam descrever aspectos relacionados ao uso das línguas em uma determinada sociedade ou comunidade. Tais fatores abrangem o status e os papéis que línguas distintas atingem e desempenham no contato social, as atitudes em massa em relação às línguas, os determinantes que reforçam a escolha de uma língua em detrimento de outra nas relações de poder como na escola, na mídia e em assuntos político-administrativos, os usos simbólicos e funcionais das línguas, as correlações entre o uso das línguas e alguns aspectos sociais tais como a etnia, a religião e a classe social em que o falante se insere etc. Segundo Baker (2006, p. 84), a língua é um símbolo de independência que separa as nações e as pessoas. Ou seja, as línguas refletem e refratam valores que representam a visão de mundo dos indivíduos e de seus grupos em relação à própria língua e seus usuários. Quando em contato, tais valores acabam por criar uma relação de poder entre a língua de maior prestígio, que detém o poder político, cultural e econômico da comunidade, e a língua de menor prestígio, reservada para situações marginais. É pensando nessa relação de poder que Fishman (1968) estabelece a noção de domínios sociais: quem fala o que, em que língua, para quem, quando e em que situações. Por domínios sociais Fishman entende as diferentes esferas nas quais as línguas são usadas, tais como família, escola, trabalho, religião e vizinhança. Tais esferas mantêm uma relação de complementaridade, tendo em vista que um indivíduo

5 raramente usa suas duas línguas com os mesmos participantes no mesmo local ou apresenta grau de proficiência equivalente em ambas para tratar de determinado tópico. Nas palavras de Fishman (1968, p. 17), certos tópicos são mais fáceis ou mais apropriados de lidar, de alguma forma, em uma língua do que em outra, em contextos multilíngues particulares. Dessa forma, a escolha de qual língua utilizar nas interações cotidianas nunca é feita de forma aleatória, pois os falantes se apoiam nos fatores sociais que abrangem a comunicação: os participantes (com quem se fala), o local e a situação (onde e quando), e o tópico (o que se fala). Por sua vez, cabe aos estudos sobre bilinguismo individual descrever como um indivíduo ou grupo de indivíduos adquire duas ou mais línguas na infância ou na fase adulta, suas motivações em relação à aquisição e aprendizado de uma segunda língua, como as línguas são representadas nas mentes de cada falante bilíngue, como os falantes bilíngues desempenham as habilidades linguísticas, a saber, a escrita, a leitura, a compreensão auditiva e a fala em cada uma de suas línguas, entre outros. Assim, ao focalizarmos o bilinguismo individual em sua interface com o social, precisamos considerar, além de outros, dois fatores relevantes que integram esse processo: as atitudes das pessoas em relação às línguas e aos seus falantes, e a motivação do indivíduo para a aprendizagem/uso da língua-alvo. No próximo item, apresento uma breve revisão sobre a motivação para a aquisição de uma segunda língua (L2) ou de uma língua estrangeira (LE). 3. Motivação para a aquisição/aprendizagem de L2 ou LE Os estudos sobre motivação e atitudes linguísticas ganharam destaque a partir dos trabalhos de Gardner e Lambert (1972). Para esses autores, o comportamento linguístico do indivíduo bilíngue é afetado não apenas por suas reações, mas principalmente pela repercussão social desse comportamento. Para Gardner et al. (1995), as atitudes possuem componentes cognitivos, afetivos e conativos, sendo constituídas a partir de uma predisposição psicológica subjacente que determina como agir ou avaliar um comportamento. Ademais, estão conectadas aos valores e às crenças dos indivíduos, que estimulam ou reprimem as escolhas feitas em todos os domínios de atividades, formais ou informais. Nessa mesma perspectiva, motivação refere-se à combinação de desejo e esforço com o intuito de alcançar um

6 objetivo. A função exercida pela motivação é, portanto, a de conectar a racionalidade do indivíduo para qualquer atividade como a aprendizagem de uma nova língua aos diversos comportamentos e ao grau de esforço empregado para a consecução de uma tarefa. Podemos dizer, então, que as atitudes referem-se ao modo como o falante se julga ou é julgado por seus pares no tocante ao seu comportamento linguístico. A motivação, por sua vez, indica o desejo ou impulso que move o indivíduo a atingir um objetivo específico. Munidos dessas definições, Gardner e Lambert (1972) identificaram quatro tipos de motivação: intrínseca, extrínseca, integrativa e instrumental. A motivação intrínseca diz respeito às recompensas oriundas da atividade em si, isto é, vincula-se aos fatores internos ou aos aspectos da personalidade do indivíduo. A motivação extrínseca refere-se às recompensas obtidas pelas consequências dessas atividades, associando-se, portanto, aos fatores externos ou às variáveis socioculturais. A motivação integrativa denomina o desejo do indivíduo de aprender uma nova língua para se tornar um membro de outro grupo social e de ser aceito na nova cultura. A motivação instrumental implica que o aprendiz é movido simplesmente pelo desejo ou pela necessidade de aprender e usar uma segunda língua para fins acadêmicos e ocupacionais ou para usufruir de vantagens econômicas. Conforme afirma Lambert (1972), independentemente da motivação que impulsiona um indivíduo a tornar-se bilíngue, quanto mais proficiência tiver na L2, maior será a possibilidade de se afastar de seu próprio grupo linguístico-cultural e de integrar outro. Tal afastamento pode gerar sentimentos contraditórios, pois a imersão na cultura do outro pode acarretar também a perda da própria cultura. 4. Conhecendo a comunidade em foco e os princípios metodológicos que norteiam o estudo Este estudo que tem como objetivo analisar os usos e as funções que o inglês e o português desempenham na vida de um grupo de imigrantes bilíngues, investigou uma comunidade de imigrantes missionários estadunidenses que se estabeleceu no interior de Goiás com o intuito de evangelizar os povos indígenas do Brasil. Localizada a 96 quilômetros de Goiânia, a comunidade funciona como uma espécie de polo preparatório para os missionários, antes de dirigirem-se às tribos. Essa

7 preparação pressupõe, sobretudo, a aprendizagem da língua portuguesa e a apreensão da cultura brasileira de modo a minimizar possíveis conflitos linguísticos e culturais. A comunidade em tela conta com 65 membros, entre adultos, jovens e crianças. Para a realização deste estudo, contei efetivamente com a colaboração de 36 pessoas, com idade entre 15 e 85 anos, que responderam aos questionários, concederam entrevistas e relataram, em conversas informais, suas histórias e experiências. Esta pesquisa se insere no paradigma qualitativo por ser de natureza descritivointerpretativa. De acordo com Lüdke e André (1986), o interesse pelas metodologias qualitativas vem crescendo na área da educação, ao priorizarem o processo da pesquisa em detrimento dos resultados obtidos. Grosso modo, o objetivo de uma pesquisa qualitativa consiste em verificar como um problema manifesta-se nas atividades, nos procedimentos e nas interações cotidianas dos participantes envolvidos. Em outras palavras, busca capturar o significado atribuído pelas pessoas à sua vida e às coisas que as rodeiam. Para que esse objetivo seja alcançado, Lüdke e André (1986, p. 12) sugerem que o pesquisador dê preferência a um ambiente natural como fonte de dados, bem como mantenha contato direto com a situação investigada durante tempo suficiente para observar a recorrência das ações em foco. 5. Os usos e funções da língua inglesa e portuguesa na comunidade Neste momento, serão apresentados os usos e as funções que o inglês e o português desempenham na vida dos missionários imigrantes estadunidenses. Veremos que embora o inglês obtenha status de língua majoritária dentro da comunidade, o português se faz presente, ocupando espaço em diversas situações nas interações diárias do grupo. É notório que mais do que uma ferramenta de evangelização, as línguas são usadas para (re)afirmar sentimentos, crenças e valores. 5.1 Os usos e funções da língua inglesa De acordo com um dos participantes, ao chegar ao Brasil décadas atrás, os missionários mais antigos da comunidade evitavam falar em inglês diante de brasileiros que não compreendiam a língua, pois seus superiores os alertavam para o caráter desrespeitoso dessa atitude. Sendo assim, a língua era usada apenas durante as

8 interações internas da comunidade ou nos espaços reservados unicamente para o grupo missionário. Todavia, essa realidade mudou, conforme ilustra o seguinte depoimento: [Recorte 1] Participante A: Atualmente a língua inglesa está sendo bem mais aceita mundialmente. Antigamente nós nunca falávamos inglês perto de algum brasileiro que não sabia inglês porque era rude. Uma falta de educação e respeito. Agora que meus filhos estão crescendo, a cultura tem mudado um pouco. Os brasileiros querem aprender inglês, querem nos escutar falando em inglês. Gostam de estar conosco. Nossos jovens falam em inglês a vontade! É normal. (Entrevista, 6 nov. 2008). Com base nas falas do participante, falar inglês perto de um brasileiro que não tinha competência na língua era falta de educação, falta de respeito e atitude grotesca. No entanto, como nos dias atuais tornar-se familiar a essa língua é estar apto a participar do mundo globalizado e ter acesso aos bens culturais e ao mercado de trabalho, os jovens imigrantes conquistaram liberdade de usar a língua em outros cenários, fora da comunidade. Sendo assim, os atributos de falar inglês perto de um brasileiro que não tem competência na língua mudaram para normal, livre forma de expressão e um instrumento de aprendizagem passível de oferecer benefícios àqueles que não a dominam. Isto se justifica porque as línguas têm transpassado fronteiras e como resultado a concepção de língua como monopólio de uma só nação não é mais cabível. Por serem além de um mero instrumento de comunicação, elas não podem mais ser concebidas como propriedade exclusiva de um povo. Atualmente, a língua inglesa devido à sua presença em áreas importantes como a comunicação internacional, a ciência, a tecnologia, a linguagem computacional, o turismo e a mídia tem sido considerada um fenômeno linguístico mundial, dissociada de qualquer país específico. O inglês representa uma língua internacional que possibilita a comunicação entre os povos e o acesso a inúmeros benefícios, tais como oportunidades de emprego e educação, maior acesso a informações e contato entre pessoas de todas as partes do mundo (RAJAGOPALAN, 2003). Conforme revelam os dados gerados para este estudo, a presença desse grupo de missionários estadunidenses no Brasil traz benefícios para os brasileiros com os quais se relacionam, na medida em que essa interação pode proporcionar oportunidades de aprendizagem do inglês em contexto natural. É de se supor ainda que essa nova

9 realidade também propicie vantagens aos imigrantes, pois sua aceitação na sociedade que os hospeda contribui significativamente para que atinjam seus propósitos pessoais e profissionais, tendo em vista que se sentem mais confortáveis quando fazem uso de sua língua materna fora da comunidade. Nas palavras de uma das participantes, I always feel comfortable using English (Entrevista, 2 abr. 2009). À medida que o inglês vai se tornando cada vez mais familiar, maior é a sua aceitação e menor o grau de estranhamento nos domínios exteriores à comunidade. Entretanto, há aqueles que não se sentem à vontade ao usar usa língua materna fora da comunidade. A condição de imigrante e o ato de usar sua língua materna em público podem gerar sentimentos negativos, como ilustram as falas abaixo: [Recorte 2] Participante B: [Recorte 3] Participante C: I feel ashamed because people may think I am talking about them. Sometimes, I also feel embarrassed because people may find I am different, funny. (Entrevista, 4 abr. 2009). I don t like speaking English when someone doesn t understand it. I feel uncomfortable. One day I was with my American friend, and we were speaking English, my Brazilian friend was just sitting there not really understanding anything. It was not really good. (Entrevista, 4 abr. 2009). Segundo os relatos dos jovens imigrantes de 18 e 16 anos, respectivamente, eles evitam falar inglês perto de brasileiros que não compreendem a língua porque a falta de compreensão da língua pode gerar confusão e rotulação. Ou seja, o grupo pesquisado acredita que o fato de falar inglês perto de brasileiros que não dominam a língua, pode fazer com que esses pensem que o assunto seja referente a eles. Outra questão apontada é que o grupo se sente incomodado de ser rotulado como diferente e engraçado. As línguas quando estão em contato nem sempre resultam em interações harmoniosas (BAKER, 2006). Falar uma língua que não seja do país hospedeiro pode aflorar sentimentos negativos como sentir-se envergonhado, constrangido, diferente, desconfortável e excluído da sociedade. Mesmo com os problemas decorrentes do uso de língua que para muitos ainda seja estranha, durante a pesquisa foi possível notar que, antes de qualquer outra razão, usar inglês nas interações é uma consequência natural, por ser essa a língua dominante do grupo. Além disso, falar inglês está relacionado a motivações integrativas e intrínsecas, visto que os indivíduos se identificam com ela e procuram manter laços

10 estreitos com a cultura de origem, mesmo inseridos na sociedade brasileira. De acordo com os dados obtidos através das entrevistas, questionários e conversas informais com o grupo, dentre as razões para falar inglês, destacam-se: ser a língua do coração, ser a língua materna, ser mais competente na língua inglesa, ter mais contato com americanos (amigos e familiares) e poder ajudar os brasileiros que almejam ser competentes na língua inglesa. Lembrando que o grupo em foco está no Brasil a trabalho, com exceção dos filhos e alguns dos cônjuges dos missionários, podem-se destacar motivações instrumentais e extrínsecas para o uso do inglês. Sendo assim, foram citadas as seguintes razões para manter o uso da língua materna, mesmo estando fora de seu país de origem: ser uma língua internacional, ser a língua da globalização, gerar oportunidades de emprego tanto no Brasil como nos Estados Unidos e ter interesse de cursar faculdades nos Estados Unidos. De acordo com Baker (2006), o uso de uma língua em detrimento de outra não é meramente uma questão de escolha aleatória. Vários são os fatores que levam um indivíduo a optar por uma língua e não outra, tais como o assunto, o lugar, as pessoas envolvidas na conversação, as relações de poder etc. Nesse sentido, muitas vezes, a opção por uma língua não é necessariamente deliberada, mas sim condicionada. Para ilustrar essa questão, o quadro abaixo organiza alguns domínios culturais que retratam os usos da língua inglesa pelo grupo e as funções que essa desempenha. Tópicos discutidos em inglês Lugares para falar inglês Pessoas com quem se fala inglês Discutir assuntos escolares; Discutir assuntos familiares; Conversar sobre assuntos cotidianos com os amigos da comunidade; Evangelizar; Lecionar na Escola Americana. Em casa; Na comunidade; Na vizinhança; Na Escola Americana; Nos Estados Unidos; No trabalho; Estar em um grupo de americanos; Amigos da escola americana; Amigos americanos; Amigos bilíngues; Colegas de trabalho americanos; Colegas de trabalho bilíngues; Professores da Escola Americana; Falantes de inglês; Membros da família. A partir do quadro acima que representa as categorias culturais dos domínios, pode-se visualizar os cinco domínios de uso da língua propostos por Fishman (1968): casa, trabalho, vizinhança, igreja e atividades formais e informais. Para esse autor, as línguas guardam entre si uma relação de complementaridade, razão pela qual os

11 bilíngues não apresentam necessariamente o mesmo grau de proficiência nas duas línguas geralmente não há necessidade de usar ambas em um mesmo domínio. Ou seja, a língua falada na escola é, em geral, aquela adotada como meio de instrução, ao passo que a língua falada em casa é a língua compartilhada pela família, e assim por diante. A seguir, analisaremos os dados relativos à posição que o português ocupa nas interações sociais do grupo. 5.2 Os usos e funções da língua portuguesa Se, por um lado, os participantes deste estudo fazem uso constante do inglês em suas atividades diárias, por outro, era de se esperar que o português obtivesse status de língua majoritária fora da comunidade. De acordo com os dados, em muitas situações, o uso do português está diretamente relacionado à necessidade e não à escolha dos missionários, haja vista que precisam interagir constantemente com brasileiros, dentre os quais nem todos são proficientes na língua inglesa. No caso de alguns missionários, o português também é utilizado por outras razões, tais como comunicar-se com a esposa brasileira e seus familiares e inserir-se no grupo de colegas de trabalho brasileiros. O quadro abaixo ilustra os domínios culturais onde a língua portuguesa é falada pelo grupo e as funções que essa desempenha na vida dos missionários. Razões para falar português Lugar para falar português Pessoas com quem se fala português. Evangelizar os índios; Fazer compras; Visitar brasileiros; Resolver contratempos do cotidiano (levar alguma coisa ao conserto, negociar e levar os filhos ao médico etc.); Praticar esportes com os amigos brasileiros; Sair da comunidade; Trabalhar com traduções; Trabalhar com brasileiros; Atender telefone; Frequentar as aulas de português; Estar entre brasileiros. Em casa (quando o cônjuge é brasileiro, com o objetivo de aprender mais rápido); Na base da Missão; Na igreja fora da comunidade; Na quadra de esportes quando há brasileiros; Na sala de aula de português; Na vizinhança; Nos Estados Unidos (com o intuito de excluir alguém da conversa); No shopping; No trabalho. Com amigos e demais brasileiros; Com colegas de trabalho brasileiros; Com o cônjuge brasileiro; Com os visitantes da comunidade; Com brasileiros que não conseguem falar inglês; Com os indígenas.

12 Conforme se pode notar, o português é muito utilizado pelos missionários americanos em diversos contextos, porém a língua ainda representa o estranho para alguns dos participantes. O recorte abaixo exemplifica a situação de praticamente todos os 36 missionários entrevistados que afirmam ter vindo morar no Brasil sem conhecer a língua portuguesa, tendo conhecimento apenas de algumas palavras. [Recorte 4] Participante D: When I came to Brazil I knew a few words like hello and goodbye and maybe a couple of other phrases that I learned when I was visiting here from before, but I didn t know any significant amount of Portuguese. (Entrevista, 28 mar. 2009). Com pouca ou nenhuma preparação prévia, muitos missionários expressam insegurança em face da perspectiva de ter que aprender as regras gramaticais do português e empregá-las em suas interações diárias. Em geral, adjetivos como muito importante e maravilhoso são atribuídos ao português, todavia, o grupo julga a língua como difícil de aprender devido às conjugações verbais, os verbos irregulares, os artigos, as variações de gênero e número. Grosso modo, a complexidade gramatical do português e a arbitrariedade que há nas línguas portuguesa e inglesa são consideradas as maiores razões para a dificuldade em se lidar com a língua no cotidiano. Outros fatores que colaboram para que o grupo imigrante tenha dificuldade com a língua estão relacionados à pronúncia dos encontros consonantais lh, tr e nh e a semelhança entre alguns itens lexicais, como chuchu/xixi; espetinho/peitinho; sisos/círios; bombom/bumbum; bujão/beijão que muitas vezes, os colocaram em situações constrangedoras. Alguns dos participantes não se mostram interessados em aprender o idioma local e confessam que sua dificuldade em relação ao aprendizado do português é decorrente da falta de dedicação, não estudar muito a língua e de não ter facilidade para aprender línguas. O estranhamento em relação à língua portuguesa é o que Schumann (1986) denomina choque linguístico. A aquisição de uma segunda língua é influenciada por fatores sociais e psicológicos e o estranhamento ocorre quando um indivíduo se depara com características morfológicas, fonológicas e semânticas diferentes daquelas de sua língua materna. Diante de um desempenho linguístico insuficiente, tal indivíduo

13 naturalmente considera a língua estrangeira difícil de aprender, mesmo tendo certa simpatia por ela. Conforme já mencionado, em muitos casos, em especial no que tange à imigração, aprender uma língua não é uma mera questão de escolha. A situação de imigrante não é fácil, pois deixar sua terra natal implica, de certo modo, desenraizar-se de sua própria cultura e língua e se abrir para novas experiências. Cada imigrante tem sua história de vida e razões particulares para se aventurar em uma terra desconhecida. Os dados gerados deixam claro que falar a língua do país hospedeiro constitui, antes de tudo, uma necessidade, uma questão de sobrevivência. Percebemos isso nas palavras de uma das participantes que declara ter sido forçada a aprender português porque veio para o Brasil com duas crianças (sua terceira filha nasceu aqui), para morar em um lugar onde a vizinhança não sabia sua língua. [Recorte 5] Participante E: What motivated me to learn or study a second language? I was forced. I came to Brazil to live with two children without speaking a word in Portuguese, can you imagine that? Everything around me is Portuguese. My neighbors can t speak my language. If I want to communicate, I have to learn Portuguese. (Entrevista, 19 jun. 2008). Outras razões para aprender português foram apontadas pelo grupo, tais como, querer trabalhar no Brasil, ser importante para o momento atual da vida, querer compreender e participar da cultura brasileira, querer compreender os brasileiros, querer participar das interações sociais, ter necessidade de fazer amigos no país hospedeiro, ter cônjuge brasileiro, ter familiares brasileiros, ter afinidade pela língua, ter nascido no Brasil (no caso dos jovens, filhos dos missionários), ter amigos brasileiros, trabalhar com povos indígenas e ter que evangelizar em português. De acordo com as razões citadas pelo grupo percebe-se, assim, que os participantes inicialmente incorporaram dois tipos de motivação: a integrativa e a instrumental. Movidos por uma motivação integrativa, alguns almejam aprender o português com o intuito de compartilhar a cultura brasileira e de serem reconhecidos e aceitos como membros ativos da sociedade. Como exemplos de motivação integrativa, podemos citar o desejo de compreender a cultura brasileira e seu povo, a necessidade de fazer amigos e de melhor interagir com o cônjuge e seus familiares brasileiros. Outros participantes incorporam uma motivação instrumental, pois desejam aprender o

14 português para se enquadrar em ambientes acadêmicos e profissionais que lhes trarão algum tipo de benefício econômico. Entre os exemplos que ilustram esse tipo de motivação, podemos destacar o desejo de trabalhar nas tribos indígenas e em outros lugares no Brasil, bem como a necessidade de transmitir suas crenças. Independente da motivação que leva o imigrante a aprender a língua local do país hospedeiro, naturalmente, o fato de estarem inseridos em um contexto brasileiro majoritário faz com que os missionários sintam-se compelidos a aprender português para que possam atuar adequadamente nos espaços fora da comunidade. Isso significa que a condição de quase clausura (SCHUMANN, 1986) à qual estão expostos no interior da comunidade não é suficientemente forte para vencer as pressões do contexto circundante. Em outras palavras, a tendência é caminhar rumo à aprendizagem da língua local, visto que ela simboliza o passaporte para a concretização do trabalho missionário no Brasil, principal razão para a imigração do grupo. Em síntese, a língua não se resume apenas a seus aspectos gramaticais. Como instrumento social, pode ser um símbolo de conflito entre grupos étnicos, ou seja, um dos componentes que contribui para a discórdia entre os povos (BAKER, 2006). Caso não seja usada adequadamente, pode gerar desacordo e um sentimento de exclusão. Se por um lado há aqueles que se sentem felizes e empolgados em falar português, outros afirmaram sentir-se envergonhado, desconfortável, frustrado e nervoso em contato com a língua portuguesa. Em muitos casos, imigrar não foi uma questão de escolha. Ser forçado a viver em outro local com cultura e língua diferentes dos da sua terra natal, contribui negativamente para o aprendizado da língua local. Embora todos os participantes deste estudo estejam no Brasil para desenvolver, de algum modo, o trabalho missionário, não podemos afirmar de forma contundente até que ponto as esposas dos missionários e filhos realmente estão envolvidas com a causa ou se aceitaram imigrar para o Brasil para acompanhar seus maridos e pais. Mesmo aqueles que optem pelo enclausuramento e tentem ao máximo afastar-se da cultura e língua do país imigrado, preservando seus costumes e crenças, a neutralização por completo é impossível em se tratando de imigração. Em algum momento de sua vida nas interações corriqueiras, o imigrante terá que ter contato com a cultura local e fazer uso da língua do país hospedeiro. Sendo assim, é comum que cada língua ocupe um lugar determinado pelos falantes quando compartilham o mesmo espaço social e uma delas sempre será considerada como a mais apropriada em certas

15 situações. Ou seja, quando duas línguas estão em contato é de se esperar que uma seja considerada de maior prestígio em detrimento de outra (FERGUSON, 1964). De acordo com os dados gerados e analisados, pode-se concluir que independentemente do grau de proficiência linguística dos participantes, cada língua possui seu espaço em suas vidas e desempenha funções diversas e mesmo em face das dificuldades relativas à aprendizagem da língua portuguesa e ao seu uso, os participantes em geral almejam aprendê-la e concebem o bilinguismo como algo que lhes proporcionará benefícios. Conforme os relatos dos imigrantes em foco, ser bilíngue é um passo para abrir a mente, compreender mais e melhor o mundo, compreender melhor as pessoas, conseguir empregos, fazer amigos, obter mais informações, sentir-se bem, sentir-se mais educado e sábio, ter mais habilidades e ter vantagens em comparação aos monolíngues. 6. Considerações finais Ao longo deste estudo, pode-se afirmar que as línguas, como parte integrante das histórias de vida dos missionários imigrantes estadunidenses, alternam-se em função do contexto, das situações de interação e das pessoas envolvidas em uma relação de complementaridade, que assumem papéis sociais distintos. Em geral, os dados mostram que todos os participantes são bilíngues, em maior ou menor grau de competência, no sentido de que todos fazem uso regular de ambas as línguas em seu cotidiano. No que concerne à concepção do grupo sobre o que significa ser bilíngue, a maioria acredita que a competência em ambas as línguas os capacita a compreender melhor o mundo, as pessoas e a diversidade cultural. Nesse sentido, o bilinguismo é interpretado pelos participantes como um fenômeno que lhes oferece melhores condições de vida, amplia suas visões de mundo e possibilita-lhes enfrentar a diversidade entre as culturas. Em relação ao status das línguas e como elas se distribuem na comunidade onde, quando, com quem e em quais situações são usadas pelos participantes do estudo pode-se observar que ambas as línguas são usadas na comunidade, embora haja predominância do inglês. Essa língua ocupa uma posição majoritária em praticamente todos os domínios sociais: na família, na igreja, na escola, no trabalho e na vizinhança. A língua portuguesa é empregada tanto nas interações com indivíduos monolíngues da

16 comunidade externa que esporadicamente visitam o local. No domínio familiar, a língua portuguesa se faz presente nos casos de casamentos inter-raciais entre americanos e brasileiros. Os missionários que vivenciam essa situação afirmam que adotam o português em casa para praticar e acelerar o processo de aprendizagem linguística. Fora da comunidade, como já era esperado, o inglês é usado nas interações entre os membros do grupo e entre estes e brasileiros que intentam estabelecer contato com falantes nativos em virtude de propósitos instrumentais ou integrativos. Contudo, em razão da condição de imigrantes falantes de outra língua, muitos missionários evitam falar inglês em público porque acreditam que o rótulo de estrangeiros pode causarlhes desconforto e constrangimento. Esse sentimento de não pertencimento, segundo alguns, frequentemente resulta no silêncio uma forma de esconder a identidade cultural norte-americana, geralmente em situações em que a língua portuguesa é a majoritária. O inglês é visto pela maioria como o elo que os une ao país de origem. Como língua herdada, o inglês é também considerado pela maioria como a língua do coração, empregada nas interações afetivas do grupo e em situações íntimas como orar, sonhar, brigar, xingar e elogiar. O português, por sua vez, impõe-se nas interações com a sociedade brasileira em geral. Para alguns, não há como fugir desse idioma, fato que os pressiona a adquiri-la. A falta de proficiência na língua também gera sentimentos de vergonha, desconforto, frustração e estresse. Todavia, nem todos se sentem assim, tendo em vista que a necessidade de se envolver com o trabalho de evangelização, de fazer amigos e de interagir com o povo brasileiro serve de motivação para aprender cada vez mais o português. O português, a princípio um fator de estranhamento, vai tornando-se familiar à medida que os missionários passam a engajar-se em interações com a sociedade circunvizinha; contudo, não representa uma ameaça ao inglês, considerando o fechamento do grupo e o desejo de não apenas manter essa língua, mas de transmiti-la aos descendentes. 7. Referências bibliográficas BAKER, C. Introduction to bilingualism and bilingual education. Clevedon, UK: Multilingual Matters, 1993.

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