METODOLOGIA PARA DESENVOLVIMENTO DE ESTUDOS DE CASOS

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1 METODOLOGIA PARA DESENVOLVIMENTO DE ESTUDOS DE CASOS 1 O Método do Caso e o Ensino em Administração O uso do Método do Caso nas escolas de administração no Brasil é relativamente recente, embora não haja uma data registrada de suas primeiras utilizações. Sua origem remonta à Universidade de Harvard, onde este método começou a ser usado nas faculdades de medicina e direito inicialmente, com o objetivo de aproximar os alunos da realidade prática destas áreas de estudo. Na faculdade de administração, entre 1909 e 1919, executivos passaram a ser convidados às aulas para apresentar questões vivenciadas na realidade empresarial, e aos alunos era pedido que desenvolvessem análises e recomendações para estas questões (Erskine et al, 1998). Essa experiência representou o início do desenvolvimento de estudos de casos. O Método do Caso, baseado no método socrático, constitui-se numa metodologia de ensino participativa, voltada para o envolvimento do aluno. Os casos apresentam situações onde empresas e pessoas reais precisam tomar decisões sobre um determinado dilema. A condução do método envolve um processo de discussão, onde alunos devem se colocar no lugar do tomador de decisão, gerar e avaliar alternativas para o problema, e propor um curso de ação (Mauffette-Lenders et al, 1997). Segundo Corey (1980), o uso do Método do Caso no ensino de administração permite ao aluno ensinar a si mesmo e a seus colegas. Para Cifuentes (1977), a capacidade de gerenciar, foco de aprendizado do administrador, não está retratada numa ciência e nem na soma de algumas ciências, esta compreende um tipo específico de saber que envolve o julgamento e a decisão sobre o melhor curso de ação para cada situação nova e particular. Nesse sentido, o Método do Caso seria o mais apropriado para preparar gerentes para a difícil tarefa de julgar e decidir. Dessa forma, com o uso do Método do Caso, os alunos aprendem através da possibilidade de fazer descobertas, do desenvolvimento de suas habilidades analíticas e, fundamentalmente, através de um elemento Artigo elaborado por Daniela Abrantes, M.Sc, Sandra Regina Holanda Mariano, D.Sc e Verônica Feder Mayer, M.Sc., professoras do IBMEC-RJ e professoras do curso de Capacitação para o Sistema Sebrae.

2 imprescindível para o processo de aprendizagem: a motivação. A participação e o envolvimento dos alunos têm um grande impacto no aprendizado, assim como no nível de responsabilidade de cada um com seu próprio processo de crescimento. Há um maior sentimento de pertencer ao grupo e de ser capaz. Os métodos participativos possuem um impacto muito favorável na atitude dos alunos, mas também na sua relação com a aula, fomentando alguns sentimentos importantes, tais como: gostar e envolver-se com a aula; sentir-se criativo, desafiado e curioso em relação a um tema ou a uma situação. A combinação entre a vivência pessoal, a interação com o grupo e o estudo de autores e diferentes teorias é capaz de promover insights individuais de grande valor para construção deste conhecimento. A diferença entre o Método do Caso e a abordagem de ensino tradicional é descrita da seguinte forma por Erskine et al (1998, p.13): Ao invés de livros-texto, o Método do Caso usa descrições de situações específicas de negócios. Ao invés de palestras, os professores que usam o método lideram uma discussão sobre estas situações de negócios. É esperado, portanto, que o caso proporcione uma oportunidade valiosa de aprendizado para quem for estudá-lo (Roberts, 1999). Conforme ensina Piaget (1967), o conhecimento é a experiência que é adquirida através da interação com o mundo, as pessoas e as coisas. Dessa forma, ensinar é sempre um processo indireto, onde o aluno interpreta o que ouve à luz de sua própria experiência e conhecimento. O Método do Caso, ao estimular o aluno a viver uma situação real, torna esta vivência parte fundamental do processo de construção do aprendizado. 2 O Cenário Brasileiro e o Interesse do Sebrae Embora as características do Método do Caso levem muitos professores brasileiros a interessarem-se por utilizá-lo, uma das grandes dificuldades enfrentadas por estes é encontrar disponíveis casos de empresas brasileiras. Há pelo menos dois motivos pelos quais isso ocorre. O primeiro deles é que o interesse das instituições de ensino brasileiras pelo uso efetivo do método ainda é recente, e não muito difundido. A estrutura apropriada da sala de aula, a exigência de salas de grupo para discussão e, princi-

3 palmente, a formação do corpo docente para o uso do método representam fatores restritivos. Os autores que se dedicam a escrever sobre o método são unânimes em afirmar que o real comprometimento da instituição de ensino constitui-se num aspecto fundamental para a difusão do uso do método (Erskine et al, 1998). A grande maioria das instituições de ensino no Brasil não oferece um incentivo sistemático para produção de casos brasileiros, não concentrando investimentos na qualificação dos pesquisadores para usar e escrever casos. O segundo motivo são as restrições que a comunidade empresarial brasileira tem em permitir que suas estratégias e ações gerenciais sejam utilizadas como objeto de investigação acadêmica. Não há ainda uma cultura estabelecida entre as empresas que incentive uma postura colaborativa junto a instituições de ensino e seus pesquisadores. Há o medo de se expor, associado à falta de conhecimento do que de fato é o Método do Caso. Segundo Erskine et al (1998), no mercado americano, onde o uso do método do caso já existe há muitas décadas, a cultura de colaboração com a Academia para desenvolvimento de casos está bastante difundida. Esses autores citam como motivos principais para uma empresa colaborar com o pesquisador: 1) altruísmo, o puro desejo de ser útil à sociedade; 2) vaidade, a sensação de estar sendo valorizado; 3) a possibilidade de uso dos casos como instrumentos de treinamentos internos; 4) a perspectiva de que, ajudando a formar bons profissionais para o mercado, a empresa possa se beneficiar disso um dia. O Sebrae estabeleceu como uma de suas prioridades nacionais potencializar e disseminar suas experiências em todo o Brasil, isto é, experiências que tiveram ou estão tendo resultados, as quais contribuíram para modificar a realidade de uma região e estimular o empreendedorismo local. Dentro dessa prioridade, e sob a coordenação de Mara Regina Veit, foi criado o projeto Desenvolvendo Casos de Sucesso, objetivando sistematizar e organizar o conhecimento gerado pelas ações empreendidas através do Sistema Sebrae, com vistas a disseminá-las dentro da própria entidade e entre as instituições de ensino médio e superior em todo o Brasil.

4 3 Metodologia para desenvolvimento de estudos de casos A construção da metodologia iniciou-se com uma análise das diversas maneiras de se construir um estudo de caso. De forma simplificada, pode-se resumir os estudos de casos em duas categorias principais: a) estudo de caso como instrumento de pesquisa científica, onde a descrição do caso é precedida de uma discussão teórica sobre os temas que se pretende elucidar ou ilustrar através do relato, confirmando ou não as proposições teóricas sugeridas; b) estudo de caso como instrumento de ensino, construído com o objetivo de permitir ao aluno tomar decisões a partir de situações do mundo real. Define-se um dilema que exigirá uma resposta do aluno, o qual deverá usar as teorias desenvolvidas em sala de aula para tirar as suas próprias conclusões. Esse segundo é o instrumento usado no Método do Caso. A estrutura metodológica para a elaboração dos casos, as exigências do Método do Caso, as limitações de dados de campo existentes e o pouco tempo e pouco conhecimento do assunto pelos participantes, contemplam os objetivos do Sebrae. A metodologia se propõe a construir casos para fins de ensino. O caso de ensino deve apresentar uma boa história, com a qual o leitor possa se identificar e se envolver, e uma boa questão de negócio, ou seja, uma situação onde haja ou tenha havido a necessidade de uma importante decisão. Não se pode perder de vista que o caso é um veículo para ensinar conceitos através da simulação de uma situação real. Nesse sentido, a situação deve ser narrada com a maior neutralidade possível em relação aos fatos acontecidos. Quanto à estrutura do caso, há duas opções que devem ser consideradas: o modelo tradicional desenvolvido pela Universidade de Harvard, que apresenta uma situação ainda sem solução, um dilema para que o aluno solucione em sala de aula, e o modelo mais popular, difundido em muitas escolas de negócio, o qual chamaremos de caso de sucesso, que apresenta uma situação para a qual já se chegou a uma solução bem-sucedida, através de um conjunto de ações. O primeiro desafia os alunos a tomarem uma decisão, o segundo pode ser usado para que os alunos conheçam e avaliem o processo de tomada de decisão de executivos e organizações. Ambos têm ampla aplicação através do Método do Caso. Considerando um dos objetivos do Sebrae é divulgar suas experiências

5 bem-sucedidas, a segunda opção foi a escolhida para os casos a serem produzidos no programa. Para que os participantes pudessem trabalhar com mais uniformidade, foi desenvolvida a estrutura metodológica descrita a seguir. Introdução Em linhas gerais, a introdução do caso deve colocar o leitor numa espécie de máquina do tempo e apresentar a questão a partir da qual se teve que tomar uma decisão e um curso de ação. Na introdução, deve-se identificar o foco de ensino a ser explorado pelo caso, ou seja, a área de conhecimento dentro da administração que a situação envolve. Deve-se também identificar o protagonista do caso, a pessoa ou pessoas que participaram como agentes de mudança, os líderes do projeto, aqueles que tiveram a visão de futuro. É importante também definir para o leitor o período em que se passa a história e dar uma idéia do perfil da comunidade local. Deve-se deixar clara a motivação da situação: o que fez com que o processo se iniciasse? Qual a principal questão enfrentada naquele momento por aquelas pessoas? O que levou os envolvidos na história a implementarem a iniciativa? Qual problema da comunidade, região, associação, etc., eles buscaram resolver? Antecedentes O objetivo deste capítulo é colocar a situação em perspectiva. Aqui deve ser apresentado o pano de fundo até o momento da decisão, uma cronologia com os principais acontecimentos que culminaram na implantação do projeto, sempre mantendo um referencial de tempo. É preciso descrever a situação da região de abrangência antes do início do projeto do Sebrae, bem como mostrar indicadores relevantes, tais como: produtividade do setor, desemprego na região, renda per capita, etc., descrevendo como eram antes do início do projeto. Desenvolvimento O capítulo do desenvolvimento mostra como o dilema foi resolvido, as ações tomadas e seus resultados. Essa é a parte central no caso, onde efetivamente será descrita a história de sucesso. Devem-se descrever aqui os objetivos do projeto e a relação com as políticas de desenvolvimento econômico, e deixar claro o desenho do projeto. É importante que haja um detalhamento das ações e decisões tomadas: práticas e instrumentos utilizados; procedimentos, pessoas, entidades e parceiros envolvidos.

6 Por fim, devem-se apontar os resultados obtidos: por que este caso pode ser considerado um sucesso? Quais foram os avanços ocorridos? Conclusões Na conclusão, o autor deve refletir sobre a importância dos acontecimentos e apresentar os desafios do futuro, fazendo considerações e análises sobre os resultados obtidos a importância do que foi alcançado dentro do contexto daquela comunidade e o processo de superação das dificuldades. Deve-se considerar o estágio de maturidade e sucesso do projeto, sua continuidade e potencialização, os possíveis efeitos multiplicadores, o grau de inovação, a sustentabilidade e o esforço de inclusão que foi empreendido. Além disso, é importante colocar um olhar para o futuro: Quais são os desafios futuros? Quais são as possíveis ameaças? Existem novas ações já programadas? Questões para discussão As questões, colocadas ao final, são úteis para levar o leitor à reflexão sobre o caso e devem ser elaboradas de acordo com o foco de ensino escolhido. Nos casos de sucesso, as questões devem levar o leitor a refletir sobre as soluções adotadas, alternativas existentes e expectativas de ampliação da iniciativa. Não devem ter a abordagem de certo ou errado, mas sim um foco na reflexão: você faria diferente? Que outras alternativas poderiam ser usadas? Como multiplicar tal iniciativa?

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