Linhas Gerais sobre a História da Universidade Conimbricense. Das suas origens à Reforma Universitária Pombalina de 1772.

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1 Linhas Gerais sobre a História da Universidade Conimbricense. Das suas origens à Reforma Universitária Pombalina de Com a colaboração de Jorge Freitas 1ª Parte A Universidade Portuguesa. Da sua fundação e funcionamento durante a Idade Média. Quando em meados de 2007 projectei realizar um trabalho intitulado «Relance sobre o ensino em Portugal no período anterior à fundação da Universidade», e que foi publicado neste Suplemento, em 3, 10, 17, 24 e 31 de Janeiro de 2008, era, minha intenção prosseguir no tema do ensino no nosso País. Porém, agora, e também em relance, esboço ou linhas gerais, como não podia deixar de ser, especifiquei o tema, tentando fazer uma breve abordagem da História da Universidade Portuguesa, desde as suas origens até à sua primeira grande inovação: a Reforma Universitária Pombalina de Assim, tratando-se de um tema demasiado complexo e inesgotável, devo esclarecer, desde já, que este estudo não pretende ser mais do que uma pequena síntese construída sobre elementos já conhecidos, uns mais outros menos, tentando conseguir uma exposição histórica limitada às suas linhas gerais e, mesmo assim, com grandes lacunas o que, também, não podia deixar de ser. Numa Instituição que tem atrás de si mais de sete séculos de história, o que equivale a afirmar que tem muito para contar, não se pode estranhar que sejam passados em claro, ou só tocados pela rama, alguns pontos que mereciam outra atenção, no entanto, vários condicionalismos a isso obrigam, sem esquecer as minhas próprias limitações. Concluindo este breve intróito, direi que a elaboração deste trabalho, tem como principal objectivo torná-lo inteligível, dirigindo-o à generalidade do público e não, obviamente, a especialistas. Por critério que adoptei, as partes constantes deste estudo serão publicadas espaçadamente, porquanto, embora ligadas, poderão ser compartimentadas. 1

2 As Universidades europeias. Uma criação do espírito medieval. A Alta Idade Média não deixou de dar continuidade à tradição escolar do mundo romano, porquanto, sob a égide da Igreja floresceram altos centros de estudo, onde a Teologia, o Direito, a Medicina e outros ramos do saber eram ministrados com vista à preparação dos estudiosos para as respectivas profissões. Ao iniciar-se o séc. XII, havia um pouco por toda a parte escolas dependentes de igrejas, conventos e, também, escolas laicas. Entre estas, salientavam-se as de Roma, Ravena, Bolonha e Pavia. Em Salerno, já na fronteira do mundo árabe, tinha-se desenvolvido uma activa escola de Medicina a partir do séc. X. Como é bem sabido, a maior parte das escolas estava nas mãos da Igreja, sendo célebres as de Laon, Châtillon-sur-Seine, Monte Cassino, as abadias de cónegos regulares de São Victor e de Santa Genoveva em Paris e de São Félix em Bolonha. Era sobretudo na Itália do Norte e na região compreendida entre o Loire e o Sena, com as escolas catedrais de Laon, Reims, Orléans, Tours, Chartres, etc. e, nomeadamente, Paris, que a vida intelectual atingia vigor assinalável, onde pontificavam insignes mestres como, Bernardo e Thierry em Chartres, Anselmo em Laon, Alberico em Reims, Bérenge em Tours e Roscelino em Compiégne e em Loches. A esse notável movimento, vivido no séc. XII, chamou Ch- H. Haskins «Renaissance du XII e siècle». Embora os homens da Idade Antiga e os da Alta Idade Média não tivessem conhecido a Universidade, tal como os homens do séc. XII vieram a conhecê-la, não se pode esquecer que criaram um clima favorável à transformação da vida escolar no Ocidente e ao aparecimento das referidas Instituições. A nível intelectual, os anos de 1150 a 1300 representam na história medieval do Ocidente um período de notável esforço. Durante o seu decurso foi elaborada e desenvolvida uma cultura predominantemente cristã e de caracterização muito específica. Dessa expansão deram testemunho a evolução da autoridade pedagógica das escolas e, sobretudo, o nascimento das Universidades. 2

3 Efectivamente, o séc. XII é, na Europa Ocidental, o século da fundação das Universidades, por conseguinte, trata-se de uma criação do espírito medieval, «daquele novo espírito de que o mundo medievo se revestiu, depois de dobrado o ano mil. Nasceu no mesmo tempo das Cruzadas e das grandes Catedrais românicas e góticas e é obra, em boa parte, do mesmo ambiente histórico que elas». Não é possível garantir para muitas delas o ano exacto em que foram criadas, uma vez que, se desconhece quando começaram a funcionar as primeiras aulas, e também por serem considerados diferentes critérios para a fixação de uma data da criação e que pode ser admitida como a da publicação dos respectivos estatutos, ou a da autorização régia para o seu funcionamento ou, ainda, a da bula papal que o determinava ou aceitava, situações estas, por vezes, distanciadas de alguns anos entre si. Na base do movimento universitário medieval está presente o espírito de classe, como verdadeira estrutura corporativa, entre os profissionais do estudo: mestres e discípulos. Trata-se de uma Instituição que deixou de ter projecção meramente local, para passar a ter projecção ecuménica, adquirindo a categoria de instituição juridicamente autónoma, pela formação do espírito corporativo entre aqueles que nela ensinam e aqueles que nela aprendem. Aliás, universitas é utilizada na época com o exclusivo significado de Corporação. Com efeito, a palavra universidade ( universitas ) significa na Idade Média corporação e tanto se aplica a professores e estudantes, como a mercadores e industriais: Ao lado da universitas magistrorum e da universitas scholarium, fala-se da «universitas mercatorum Italiae nundinas Campaniae ac regni Franciae frequentantium» (corporação dos mercadores da Itália que frequentam as feiras da Campânia e do reino de França). 3

4 A Universidade não é ainda, como virá a ser mais tarde, o conjunto de escolas superiores a universitas facultatum. Porém, a palavra, a pouco e pouco, veio a significar uma instituição educacional que englobava uma escola de artes liberais e uma ou mais faculdades de finalidade profissional (Direito, Medicina ou Teologia). Factores contribuintes para a formação das Universidades. Diferentes tipos quanto à sua origem. O aparecimento, em pleno séc. XII, destas novas escolas de «projecção universal e corporativamente organizadas» é a consequência de uma série de causas, que se torna aqui impossível analisá-las exaustivamente, bem como entrar em pormenores sobre a maior ou menor importância que cada um dos seguintes factores teve na origem das escolas universitárias: Progresso geral do saber; rápido desenvolvimento de algumas disciplinas, (Teologia Científica, Direito Romano e Direito Canónico); uma noção mais rigorosa da hierarquia entre os vários ramos do saber humano; formação de grandes centros urbanos no espaço europeu; o crescimento demográfico fazendo aumentar bastante o número daqueles que procuravam as escolas eclesiásticas dos mosteiros ou bispados; o desejo de melhor conhecer a doutrina cristã e de reforçar a luta contra as heresias provocando uma grande curiosidade intelectual; o desenvolvimento comercial e urbano e o surgimento da burguesia tornavam indispensável a criação de escolas leigas, ligadas aos interesses comerciais; o sentimento de solidariedade profissional que conduziu à formação das grandes corporações de artes e ofícios... «Produto de tão diversos factores, a Universidade medieval tinha que ser, forçosamente, uma instituição rica de cambiantes, cheia de vida e de personalidade, inconfundível com qualquer organização escolar dos tempos anteriores, e inconfundível, até, consigo mesma. Não há então, pode dizer-se, duas universidades iguais, nem na sua origem nem na sua estrutura interna». Quer isto dizer que apenas adoptando um critério relativo, ou aproximado, é possível fazer uma classificação das universidades desta época quanto à sua origem ou quanto à sua organização institucional. Assim, quanto à sua origem, parece ser corrente aceitar-se a classificação entre universidades ex consuetudine, ex secessione e ex privilegio. - 4

5 As primeiras, ex consuetudine, nasceram «via espontânea», isto é, através de um característico processo de crescimento e corporatização de uma escola ou escolas locais, já existentes são universidades de formação consuetudinária (fundado no costume). As duas mais antigas e famosas deste tipo são a de Paris, e de Bolonha, seguindo-se as de Oxford, Montpellier e de Orléans. À fama das lições de um mestre local, como Guillaume de Champeaux, em Paris, Irnério e Graciano, em Bolonha, vinha juntar-se a especialização da escola numa determinada disciplina: a Universidade de Paris, que tinha uma origem eclesiástica, desenvolve principalmente o ensino da Teologia, tornando-se uma escola de especulação teológica e, posteriormente, o grande bastião da ortodoxia católica. A Universidade de Bolonha, oriunda, possivelmente, das escolas romanas de Retórica, tinha uma origem laica, ministrava o Direito Romano e foi por muito tempo o principal foco dos estudos jurídicos na Europa. As segundas, denominadas ex secessione, isto é, surgiram por «migração», em consequência de uma separação ou secessão, constituindo um verdadeiro desmembramento de uma outra já existente. Tratava-se da passagem de doutores e estudantes de uma Universidade-mãe para outras cidades onde fundavam os novos Studia. Este fenómeno acontecia por ausência de condições de toda a ordem e, também, quando «os incidentes de ordem social entre estudantes e burgueses impediam o regular funcionamento dos cursos, a Universidade assentava arraiais e ia instalar-se noutro lugar quase sempre, numa cidade próxima». Estas secessões terminavam, normalmente, pelo regresso da corporação escolar à cidade donde tinha partido, mas nem sempre esse regresso se fez de um modo integral, pois, alguns dos mestres e escolares, que tinham acompanhado a Universidade na sua debandada, «recusavam-se a regressar com ela ao ponto de partida, e ali ficavam, para todo o sempre, vivendo o mesmo espírito corporativo que antes viviam, e arrogando-se as mesmas regalias universitárias que antes possuíam». 5

6 A primeira Universidade formada por este processo foi a de Cambridge, em 1209, nascida de uma secessão da Universidade de Oxford, após graves incidentes que levaram ao assassinato de alguns escolares burgueses de Oxónia. Origem idêntica teve também a Universidade de Pádua, em 1222, por via de uma secessão com a de Bolonha. As Universidades ex secessione oferecem a particularidade de ter a sua origem numa data certa; são Universidades fundadas ex novo, porém surgem sem uma intervenção estranha, são criadas pela iniciativa da corporação escolar. Por último, e na ordem cronológica, aparecem as Universidades ex privilegio, ou seja, todas aquelas que surgiram do nada, formando-se por efeito deliberado de um soberano. Este tipo de Universidades, às quais os seus instituidores atribuíram grandes privilégios, não tinham atrás de si o suporte, o peso e o prestígio de uma tradição, carecendo, por via disso, de uma confirmação pontifícia, sob pena de ficarem reduzidas a uma dimensão estritamente local. Apenas ao Papa era lícito reconhecer validade universal aos graus por elas outorgados, autorizando-as a conferir aos seus licenciados, à semelhança das universidades tradicionais, o indispensável ius ubique docendi o direito de ensinar em qualquer parte. No entanto, registe-se que, neste caso, a intervenção pontifícia tem um carácter diferente daquele que teve a respeito das universidades ex consuetudine. Nas universidades de formação espontânea, a intervenção pontifícia limitou-se a «confirmar juridicamente a natureza universal da escola, que era já uma realidade de facto. Nas universidades ex privilegio, pelo contrário, a projecção universal da escola só há-de passar ao domínio das realidades como consequência dum prévio reconhecimento do ius ubique docendi, feito na bula pontifícia que confirma a respectiva fundação». 6

7 Todas as Universidades Ibéricas pertencem a este último tipo e, conquanto, algumas delas ainda apresentem uma feição mista, pelo facto de terem sido criadas sobre as bases de uma escola eclesiástica local de certa projecção, como Palência e Salamanca, outras há que foram criadas totalmente ex novo onde se inclui a Universidade portuguesa fundada em Lisboa por D. Dinis, em 1 de Março de 1290, que o Papa, Nicolau IV, confirmaria por bula de 9 de Agosto do mesmo ano e que oportunamente terá o merecido desenvolvimento. Embora no nosso País tenha havido, anteriormente, escolas catedrais e monásticas, cujo prestígio era reconhecido além Pirinéus, e ainda que a fundação do Estudo Geral se possa e deva considerar, indubitavelmente, à conjugação de esforços de vários Abades de Mosteiros e Reitores de Igrejas, a Instituição dionisiana foi uma criação inteiramente nova. A autonomia institucional da Universidade. (sécs. XII e XIII) Quer formadas espontaneamente, quer por desmembramento, ou por privilégio real e pontifício, as Universidades do séc. XII e do séc. XIII têm, no entanto, uma notável característica comum gozam de completa autonomia institucional, o que se traduz numa independência absoluta para efeitos jurídicos e administrativos. A Universidade é dotada de personalidade própria, a sua existência estava garantida por estatutos especiais: tem selo privativo, governa-se por si, organiza o ensino como melhor entende, escolhe livremente os seus mestres, para além de estar fora da jurisdição ordinária, já que os seus membros, mestres ou discípulos, têm o privilégio do foro eclesiástico e, chegando mesmo a criar-se para eles um foro especial, o denominado foro académico. Assim, como clérigos e súbditos do Papa, estavam isentos da lei civil e respondiam perante juízes eclesiásticos. A direcção da instituição universitária pode estar predominantemente na mão dos mestres, ( universitas magistrorum ) como é o caso de Paris, ou na tutela dos 7

8 escolares, ( universitas scholarium ) como sucede em Bolonha. De qualquer modo, é um governo autónomo e livre, não estando na sujeição de nenhum poder superior. A interferência do Rei ou do Papa na vida da Universidade resume-se ao facto de lhe dar a existência e para lhe conceder privilégios e regalias. A sua intervenção não vai além disso e, quando muito, poderá, eventualmente, interferir na qualidade de árbitro, nas situações mais melindrosas da vida da Instituição. E mais, a autonomia institucional tem ainda um outro aspecto, não menos importante, a salientar: é que, além de independência administrativa, significa também, e sobretudo, liberdade intelectual. «Sem dúvida que a Universidade tem uma norma de vida: está colocada integralmente ao serviço da comunidade cristã, e, por via dela, ao serviço da Igreja de Roma. Mas essa norma de vida não é o produto duma imposição doutrinal; é o resultado da aceitação livre e unânime dum mesmo ideal e duma mesma crença. A Universidade melhor dizendo tem a orientação doutrinal que livremente abraçou, e não está colocada ao serviço duma política ou duma crença particularista». Dos dois referidos aspectos da autonomia institucional da Universidade, o primeiro a sofrer limitações foi o da independência jurídica e administrativa da corporação, sendo curioso verificar que a responsabilidade desse facto coube em grande parte à própria Universidade. Convém sublinhar que foi ela, através da difusão das ideias romanísticas, (do Direito Romano) uma das principais obreiras do fortalecimento do poder real, fenómeno que percorreu toda a Europa desde o séc. XIII em diante. Efectivamente, sem dar conta do fácil apoio que estava a oferecer ao neo cesarismo, (poder absoluto) além de fragilizar a sua autonomia corporativa, preparava à distância, um mal maior, que seria a consequência lógica daquela: a perda da sua independência doutrinal. Os monarcas reinantes, à medida que o seu poder político vai aumentando durante os sécs. XIV e XV, vão chamando a si, a pouco e pouco, a tutela da corporação universitária e diminuindo as regalias e liberdades que tinham sido inicialmente o seu apanágio. As novas universidades que, então, vão surgindo, vão apresentar ab initio uma dependência em relação ao poder real inexistente nos séculos anteriores. É certo que os governantes não deixam de ser generosos para com a corporação universitária, porém, essa generosidade é traduzida, agora, em novos termos: «em vez de privilégios e liberdades, cumulam-na de rendimentos e de bens materiais; e o preço que 8

9 exigem senão por palavras, pelo menos por actos é uma progressiva renúncia às liberdades de outros tempos: - Arvoram-se o direito de nomear professores; interferem na administração universitária; tolhem aos mestres e escolares o direito de escolherem os reitores, colocando na reitoria uma alta personagem da sua confiança; e vão, por vezes, até o ponto de se enquadrarem, eles próprios, na corporação universitária, investidos no novo cargo de protectores dos Estudos». No entanto, estas primeiras manifestações do declínio da autonomia universitária, (sécs. XIV e XV) não se reflectem na liberdade intelectual da Instituição. De facto, no aspecto doutrinal, a Universidade continua a ser livre e independente, não recebendo directrizes do Estado, porquanto, nesta época, por isto ou por aquilo, não tem ainda a ousadia, ou condições, de se elevar à posição de doutrinador. Porém, a subordinação intelectual da Universidade ao poder político não deixava de estar implícita na sequência lógica dos acontecimentos, sendo inevitável, mais tarde ou mais cedo, como resultado da subordinação jurídica e administrativa, já efectivamente em curso. Sobre este assunto, em relação ao que foi acontecendo nas Universidades em geral, verificou-se literalmente «sem tirar nem pôr» na Universidade portuguesa, desde os fins do séc. XIV e, sobretudo, no decorrer do sec XV, o que a seu tempo darei conta. Organização geral e programa de ensino. Não se sabe qual terá sido a Universidade mais antiga. Poderá, eventualmente, ter sido a de Salerno que já no séc. X era conhecida pelos estudos médicos, embora assumisse apenas no séc. XIII a forma organizacional de uma Universidade. A sua proximidade com a Sicília muçulmana deu-lhe acesso a informações que não se encontravam disponíveis em qualquer outro local do Ocidente cristão. Embora tanto o Cristianismo como o Islamismo proibissem a dissecação de corpos, pensa-se que em Salerno já se praticava essa técnica de estudo. Durante o sé. XIII, Salerno teve primazia sobre a escola médica de Montpellier. As Universidades de Bolonha e de Paris também são muito antigas, tendo a primeira sido instalada por volta de 1150 e a segunda, antes do fim do séc. XII. Vêm depois, em ordem de antiguidade, instituições famosas como as de Oxford, Cambridge, 9

10 Montpellier, Salamanca, Roma e Nápoles. Refira-se que não houve universidades na Alemanha antes do fim do séc. XIV. Praticamente, todas as Universidades da Europa medieval estavam organizadas segundo um modelo então existente, consoante os elementos preponderantes da corporação escolar fossem os mestres ou os estudantes. Na Itália, na Espanha e no sul de França, o padrão geral era o da Universidade de Bolonha, na qual os próprios estudantes formavam uma associação ou corporação. Contratavam professores, pagavam-lhes salários, multavam-nos e destituíam-nos quando descuravam o cumprimento do dever ou ministravam instrução deficiente. Quase todas as Instituições do sul eram de carácter secular e especializadas em Direito e Medicina. As Universidades do norte da Europa modelavam-se pela de Paris, que não era uma corporação de estudantes, mas de professores. quatro Incluía Faculdades: as Artes, Teologia, Direito e Medicina, cada uma delas dirigida por um Deão eleito. Na grande maioria das Universidades do norte os principais ramos de estudo eram as Artes e a Teologia. Não é de estranhar, e facilmente se compreenderá, que estas Universidades duas famosas europeias tenham seguido vias completamente opostas na estruturação da sua orgânica governativa, porquanto, Paris é a Universidade de Teologia, os seus mestres são as autoridades eclesiásticas, e os seus estudantes são todos clérigos ou, pelo menos, na sua grande maioria, candidatos à vida sacerdotal. Bolonha, pelo contrário, é por excelência a Universidade do Direito «e o carácter laico da ciência jurídica tira à corporação escolar todo o aspecto duma instituição eclesiástica, e não tem que moldar-se como a de Paris, na hierarquia e disciplina da Igreja». 10

11 Pode chamar à atenção o facto de que, em Bolonha, para além do Direito Civil (Direito Romano), também se ensina o Direito Canónico, (que é o Direito da Igreja) e sob este pretexto a Igreja chama a si a protecção do Estudo Geral bolonhês, cumulandoo de regalias, mas fá-lo, sobretudo, com o objectivo de o subtrair da esfera de influência, ou da autoridade, da comuna local. Porém, a corporação, apesar de tudo, não é uma corporação eclesiástica. Na Idade Média, ao contrário dos séculos posteriores, a Universidade tinha um cunho mais acentuadamente internacional. Estudantes das mais variadas nações, vindos de toda a Europa, ali se encontravam e conviviam, recebendo a mesma cultura e habituando-se às mesmas atitudes intelectuais. Numa base corporativa da Instituição bolonhesa vamos encontrar o agrupamento dos estudantes em nações, isto é, pequenas corporações formadas por escolares da mesma nacionalidade. Em Paris, essa repartição em nações também chega a formar-se, mas em época tardia, quando a Universidade se encontrava já estruturada como universitas magistrorum, não alcançando, portanto, o significado e a importância que tiveram em Bolonha Numerosas, inicialmente, as várias nações vão-se coligando, até formarem em meados do séc. XIII, dois blocos: o dos cismontanos (italianos) e o dos ultramontanos (estrangeiros, que viviam além dos montes, ou seja, dos Alpes). Cada um destes blocos era rigorosamente uma universitas, ou seja, uma corporação escolar, formada, dirigida e orientada, exclusivamente por estudantes. Cada qual tem o seu reitor escolhido entre os seus próprios membros, sendo estes reitores-estudantes quem governa a Universidade, possuindo um vastíssimo campo de manobra, o qual se estende sobre o próprio corpo docente. Nas Universidades ex privilegio, copiou-se o modelo de Paris ou o modelo de Bolonha, com maior ou menor número de variantes, um pouco ao sabor ou à mercê da vontade do instituidor ou, ainda, por via de outras circunstâncias de ordem local. O Estudo Geral português seguiu o modelo de Bolonha opção que, no momento próprio, será devidamente explicada. A instalação de uma imensa população flutuante, que não raro vinha de longe, constituía difícil problema para as autoridades nas cidades universitárias. 11

12 Muitos dos estudantes nos cursos de Artes eram, provavelmente, sustentados pelos seus pais e, no final do séc. XIII, alguns Governos atribuiam soldos (subsídios) aos estudantes universitários na condição de entrar ao serviço da cidade após a conclusão dos seus estudos. Porém, para os estudantes mais pobres houve que recorrer a outras soluções. Com o objectivo de diminuir as dificuldades de alojamento, muitos estudantes associavam-se em casas comuns e os reis chegavam a tabelar os preços das casas de aluguer. Alguns beneméritos, na intenção de aplicar o seu dinheiro de maneira proveitosa, pensando na salvação da alma, fundaram hospícios, hospitais, ou colégios para albergar estudantes impossibilitados de pagar residência própria; outros benfeitores faziam doações permanentes a estabelecimentos desse género, de modo a possibilitar um sustento base para os estudantes mais necessitados. Os primeiros colégios conhecidos datam dos fins do séc. XII. O primeiro em Paris, o Colégio dos Dezoito, foi fundado por um londrino. Primitivamente, o colégio não passava de um albergue; mas, para comodidade dos estudantes, e também para poupar tempo e dinheiro, alguns professores passaram a viver nos colégios. Nestas circunstâncias os mestres começaram ali a repetir ou a explicar as lições do lente, a orientar o trabalho do aluno, a obrigá-lo a exercícios. À medida que esta prática se tornou comum, os colégios perderam o seu carácter inicial de estabelecimentos para assistência aos pobres, tornando-se instituições educacionais. Exemplo célebre desta transformação é a do hospício fundado, em 1257, por Robert Sorbon para estudantes de Teologia que, sob o nome de Sorbonne, virá mais tarde a substituir-se à Faculdade de Teologia de Paris como foco principal dos estudos teológicos. Nem todas as Universidades tinham o mesmo currículo e muitas delas não apresentavam um quadro completo de estudos. O paradigma de uma Universidade completa correspondia a cinco Faculdades: Artes, Leis (ou Direito Civil), Cânones (Direito Canónico), Medicina e Teologia. As Artes que constituíam como que um curso para as Faculdades superiores, concediam o grau de bacharel aos estudantes que frequentassem durante 4 ou 5 anos o Trivium, caso fossem aprovados nos exames, se bem que não lhes conferisse nenhuma habilitação especial. O grau de licenciado era atribuído a todos aqueles que, 12

13 após o bacharelato, o completassem com as disciplinas do Quadrivium, que se compunha do estudo de Aritmética, Geometria, Astronomia e Música. Sublinhe-se que estas matérias não correspondiam, em absoluto, ao que os seus nomes implicam nos nossos dias. O seu conteúdo era altamente filosófico, como era o caso da Aritmética, que incluía principalmente o estudo da teoria dos números, ao passo que a Música se preocupava, sobretudo, com as propriedades do som. No séc. XIV acrescentou-se às disciplinas tradicionais do Quadrivium o estudo da Física de Aristóteles, cuja leitura, ainda em 1236, era proibida pelos Estudos da Universidade de Paris. Só depois da licenciatura em Artes o estudante tinha acesso às Faculdades de Medicina ou Teologia. Em Paris podia frequentar-se o Direito Canónico sem o prévio bacharelato em Artes. As exigências para o grau de doutor eram, em geral, mais rígidas e incluíam uma formação mais especializada. A Faculdade de Teologia era a cúpula do edifício universitário. O doutoramento nesta Faculdade só se conseguia ao cabo de 12 ou 14 anos de frequência, e este grau de doutor apenas podia ser conferido se o candidato tivesse pelo menos 35 anos. Tanto os graus de mestre como os de doutor eram títulos de docência, pois o próprio título de doutor em Medicina equivalia ao de professor de Medicina e não à prática médica. Pode afirmar-se que, de um modo geral, nas Universidades europeias se estudavam as mesmas matérias e se utilizava idêntico sistema pedagógico e como o idioma universitário era o latim, facilitava notavelmente o intercâmbio de livros, professores e alunos. O curso magistral era a lectio, consistindo no comentário seguido de uma obra em que se continha o saber essencial, no decurso do qual o professor exprimia muitas vezes o seu próprio pensamento e que conduzia logicamente a interrogações às quais cumpria dar resposta. Efectivamente, os programas consistiam fundamentalmente em textos, porquanto, a leitura das obras adoptadas que, em cada disciplina eram as autoridades, constituíam a base do ensino e do saber, acrescentando-se a leitura de comentários. Durante o séc. XIII, as glosas (anotações, comentários à margem) e sumas ou súmulas (resumos) de muitos professores completavam a lista dos livros utilizados nas universidades. 13

14 Quanto à Teologia, a matéria assentava no estudo do texto latino da Bíblia e no Livro das Sentenças de Pedro Lombardo, considerado um tratado de dogmática cristã. Os Padres da Igreja e os comentários de alguns teólogos modernos completavam o estudo da Teologia. Não é de rejeitar que muitos teólogos parisienses recorressem às obras de Aristóteles e aos comentários árabes para melhor compreensão das suas leituras, principalmente entre 1250 e São Tomás de Aquino seria um desses mestres parisienses a ocupar-se do Estagirita (Aristóteles de Estagira, na Macedónia e discípulo de Platão) e seus seguidores. Concluindo este capítulo sobre o movimento universitário europeu, bem pode dizer-se que a Idade Média, injustamente classificada, durante muito tempo, por alguns, como a Idade das Trevas e a Noite de mil anos, (opinião que, julgo, já destruída) assistiu ao nascimento da Universidade, a mais significativa contribuição de todo o período medieval. Precedentes da Universidade portuguesa. Das instituições de ensino da Idade Média, anteriores à fundação da Universidade, foram sem dúvida as escolas agregadas à Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho (Coimbra) e à Ordem de São Bernardo de Claraval (Alcobaça), aquelas que atingiram maior projecção cultural. A par com as escolas catedralícias e episcopais, foram focos de fermentação intelectual, não se podendo explicar sem elas o aparecimento da Universidade portuguesa. Diga-se, desde já, que os portugueses que frequentavam as Universidades estrangeiras nos sécs. XII e XIII eram, na sua grande maioria, membros pertencentes às instituições religiosas. E isto, não só pelo poder económico de que elas dispunham, mas também, e sobretudo, obviamente, com o intuito de melhorarem e actualizarem o mais possível o ensino nas suas escolas. 14

15 As relações entre Portugal e as escolas europeias remontam ao séc. XII, proporcionadas pela influência de Cluny e do papel da Igreja no intercâmbio de pessoas e ideias, e que o aparecimento das Universidades ainda mais estreitou essas ligações. Mantém-se a tradição que Julião Pais, chanceler de D. Afonso Henriques, e outros juristas da segunda metade do séc. XII fizeram a sua formação em Bolonha que, como já é sabido, foi um grande centro do Direito Romano. Da Alma Mater Parisiensis, o mais fecundo viveiro para os estudos de Teologia e Artes, não restam dúvidas que foi frequentada por escolares provenientes de Santa Cruz de Coimbra. Vejamos o que nos diz D. Nicolau de Santa Maria citando a carta de doação de D. Sancho I, de 14 de Setembro de 1192: «... Dou e concedo ao Mosteiro de Santa Cruz quatrocentos morabitinos da minha fazenda, para sustentação dos Cónegos que estudam in partibus Galliae studiorum»... (que estudam nas partes de França). Já se deu conta de que a reputação das Escolas de Paris era imensa e, assim, naturalmente se generalizou a ideia que era indispensável frequentá-las para ser bom mestre. Hauréau, no seu estudo sobre a Philosophia Scholastica, descreve as enormes dificuldades que era necessário vencer para frequentar as referidas Escolas: «Para ter o direito de ensinar os outros era preciso ter alguma permanência nas escolas de Paris; quem não tivesse ido ali ouvir os ilustres regentes da grande Escola, passava por ignorar os princípios elementares da ciência. Quando nos últimos confins da Bretanha insular, nos extremos longínquos da Calábria, da Espanha, da Germânia, da Polónia, um jovem clérigo manifestava alguma inclinação para os altos estudos e parecia aos seus superiores que viria a ser um lógico, era imediatamente enviado para Paris. Partia sozinho, a pé, atravessando os rios, as montanhas, os mares...era uma vida de aventuras e de perigos que o disciplinava de ante-mão para as agitações e rudes provas da escola. Cada noite achava asilo no mais próximo mosteiro; se a noite o surpreendia, longe do povoado, ia bater à porta de qualquer casa isolada; e para alcançar o agasalho o mais cordial bastava-lhe declarar o seu título de escolar; aqui a hospitalidade era-lhe liberalmente concedida; além disso, era-lhe devida, e a lei 15

16 municipal punia como um delito a infracção a este artigo consuetudinário: aos escolares compete por toda a parte a lei do asilo». Apesar das dificuldades de toda a ordem, as relações prosseguiram, continuando a França a atrair os nossos escolares para ouvir as lições de mestres de grande nomeada para a obtenção dos seus graus. De facto, era a licentia docendi que, na generalidade, os levava até Paris, pois as nossas escolas capitulares e monacais não lhes concediam os graus de bacharel, licenciado e doutor ou mestre, nem o diploma em Teologia. A criação ao longo do séc. XIII, das Universidades de Toulouse e Montpellier veio a proporcionar um encurtamento da viagem e novos centros de interesse, principalmente na segunda, herdeira cultural de Salerno e da Medicina judaica com assento em Toledo. Outra Universidade, que veio a ser a mais famosa de Espanha, foi fundada em Salamanca, com o ensino das Leis, Cânones, Medicina e Artes, ficando a Teologia confiada aos Mestres de São Domingos; a sua projecção no Ocidente foi de tal ordem que chegou a ser considerada ao nível de Paris, Bolonha e Oxford. Devido à proximidade a que se encontrava das dioceses da fronteira como Braga, Guarda, Viseu e Lamego, fez com que muitos portugueses ali acorressem e mesmo depois, em certos períodos, quando o nosso Estudo Geral já havia sido fundado. Porém, como quer que fosse, Paris, Bolonha, Montpellier, Salamanca ou qualquer outra, a frequência de universidades estrangeiras apresentava grandes inconvenientes: avultadas despesas, longas e penosas viagens e, ainda, os perigos a que ficavam sujeitos os escolares em terras estranhas, onde teriam de permanecer, por vezes, longos anos. Nestas circunstâncias, grande número de portugueses deparava-se com a impossibilidade de prosseguir os seus estudos em escolas além-fronteiras. Assim, a criação de estudos superiores em Portugal, constituía, indiscutivelmente, uma necessidade premente, um desejo de muitas pessoas e instituições. Só que, durante um longo período, as condições do Reino não o permitiam. Todas as energias e potencialidades nacionais estavam viradas e canalizadas, por completo, para o 16

17 fenómeno vincadamente peninsular da reconquista, defesa e povoamento do território, bem como «contra a cobiça dos vizinho» e, ainda, pelas melindrosas discórdias entre a Nobreza, Alto Clero e a Coroa. Deste modo, não surpreende que a Universidade portuguesa só tivesse sido fundada na última década do séc. XIII. Se bem que a França, Itália, Inglaterra Leão e Castela tivessem aberto os seus Estudos Gerais antes de Portugal, outros Estados da Europa, e dos mais cultos e importantes, só mais tarde a viram aparecer. A primeira Universidade alemã apenas foi fundada no séc. XIV, em 1348, mais de meio século depois da nossa, que é uma das mais antigas da Europa. Desde há muito, e era notório, se fazia sentir a necessidade de um Estudo Geral, porém, só a partir dos meados do séc. XIII, é que a pouco e pouco, se foram conseguindo as condições políticas e culturais indispensáveis ao nascimento de uma Universidade. A título de curiosidade pode informar-se que só sete anos após a sua fundação se definiram os limites continentais do nosso território, o qual até hoje, se conservou, por assim dizer, intacto. O facto de muitos letrados portugueses se terem formado em Universidades além-fronteiras, não terá deixado de constituir um grande incentivo a fim de se criar a primeira instituição cultural do Reino. De facto, conhecendo a sua orgânica por observação directa, era natural que ao regressar ao seu País, verificassem e comparassem, com admiração, a diferença de nível entre a cultura nacional e a dos países donde regressavam. Relatando a sua experiência, e conscientes de terem adquirido um novo e mais amplo saber, provocavam no ânimo dos que ficavam, e não podiam abalançar-se a tão complicada jornada, o desejo e o entusiasmo pela criação de uma Universidade entre nós. Ainda que o profissionalismo fosse muito pouco diversificado, havia duas profissões consideradas de nível superior e que eram constantemente solicitadas por necessárias e indispensáveis: o Direito e a Medicina. Com efeito, jurista e médico, eram elementos de presença constante junto dos reis, e o seu saber constantemente solicitado. Ora, como a formação escolar necessária e suficiente, de uns e outros, não poderia ser adquirida dentro do sistema existente em Portugal, imperiosa se tornava a criação de uma Universidade análoga às do estrangeiro onde aquelas matérias fossem leccionadas. 17

18 Parece ter sido em Santa Maria de Alcobaça que foi dado um dos mais significativos passos para a criação da primeira Universidade portuguesa. Refira-se que o grande reformador e impulsionador dos estudos alcobacenses, o Abade D. Frei Estêvão Martins, determinou que se ensinasse para sempre, Gramática, Lógica e Teologia e medida excepcional: que as aulas fossem públicas. Antes da reforma ensinava-se, apenas, no Mosteiro, a Teologia aos monges, permitindo-se, agora, que as pessoas estranhas à Ordem, pudessem frequentar as aulas. A escola que era privada, ou interior, como a de Santa Cruz de Coimbra, tornou-se pública. Efectivamente, em 1269, considerada a necessidade de tal reforma dos estudos, D. Estêvão Martins, determinava: «Em nome de Deus, Amen. Porque em todas as criaturas está posta uma luz natural de inteligência, pela qual se nos facilita o caminho de podermos vir no conhecimento do Criador, já deposta a escuridade da primeira ignorância: todos os homens (se pudesse ser comodamente) houveram de procurar com diligência o benefício da sabedoria. Por essa razão, Nós, Estêvão Abade, e o nosso Convento de Alcobaça, fazemos saber aos que a presente virem, em como de nosso comum consentimento ordenamos à honra de Deus e da bem-aventurada sempre Virgem sua Mãe e de todos os Santos, e para comum utilidade de nossos Monges e de todos os mais que desejarem adquirir a incomparável riqueza da sabedoria, instituímos em nosso Mosteiro um contínuo e perpétuo Estudo de letras; para conservação do qual, e para sustentação dos Mestres, aplicamos todas as rendas da vila de Alvorninha, com outra fazenda mais no território da vila de Óbidos». A primeira aula pública, após a reforma de D. Estêvão Martins, foi dada em 11 de Janeiro de 1269, no reinado de D. Afonso III. A decisão é notável e representa um passo importante para a criação da futura Universidade portuguesa. António José Saraiva refere uma passagem do historiador Rashdall, num estudo sobre as Universidades da Europa da Idade Média, em que o autor diz «entrever-se na escola de Alcobaça uma tentativa única na história das universidades europeias, para fundar uma universidade eclesiástica». Sublinhe-se que, pelo seu poder e prestígio, o Abade de Alcobaça era uma figura de relevo na vida da Nação. Inerente à sua dignidade abacial ostentava alguns títulos efectivos e reais, quer laicos, quer eclesiásticos, além de outros episódicos, que representavam incumbências e delegações acidentais, intitulando-se Conselheiro do Rei, 18

19 Esmoler-Mor do Rei, Fronteiro-Mor, Donatário da Coroa e Senhor das terras e vilas do Couto. Precisamente, por isso, não causará admiração ter sido um Abade de Alcobaça, Martinho II, em 1288, a encabeçar uma representação colectiva a subscrever o pedido ao Papa para a criação da futura Universidade portuguesa. Fundação da Universidade portuguesa. Petição ao Papa. D. Dinis iniciou o seu reinado em 1279, e entre as dificuldades provocadas pelas ambições de seu irmão, o Infante D. Afonso, e pelas complicações da política castelhana, prolongava-se o conflito, herdado de seu Pai, com o Alto Clero, que durou até A questão debatia-se em Roma, durante os pontificados dos Papas Martinho IV, Honório IV e Nicolau IV. Naturalmente, perante tal situação, e nestas circunstâncias, o Rei não podia fundar o Estudo Geral, porque os Bispos protestavam contra a cedência dos rendimentos das Igrejas de que o monarca era padroeiro. As primeiras negociações para a criação de um instituto superior em Portugal, atestadas documentalmente, reportam-se a 1288, embora, e seja muito provável, já antes daquele ano se tivessem empreendido algumas diligências nesse sentido. Porém, mais o antigo documento conhecido referente ao Estudo Geral de Lisboa é, de facto, a petição ou súplica dirigida ao Papa, em 12 de Novembro de Não é conhecido o original deste documento que existiu no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e daí desapareceu. Conhecem-se cópias, uma das quais inserta num Cartulário do séc. XV, (Cartulário conjunto de todos os documentos, bulas papais, 19

20 cartas régias, alvarás, etc. que respeitam à Universidade portuguesa desde a sua fundação) conhecido por Livro Verde. O documento em questão, a súplica, «escrita em pergaminho e selada com dezassete selos pendentes, de diversos modos e figuras», que deviam ser dos 17 Prelados ou Párocos, presentes, quando se fez a carta, com a data da Era de César equivalente a 12 de Novembro da Era de Cristo, foi expedida de Montemor-o-Novo por uma representação colectiva de vários prelados e dirigida ao Papa Nicolau IV, participando-lhe que resolveram criar um Estudo Geral em Lisboa e pedindo-lhe, para ele, o seu beneplácito. Este documento, dada a sua importância, pare-me justificar a sua transcrição na íntegra: «Ao Santíssimo Padre e Senhor, pela Divina Providência Sumo Pontífice da Sacrossanta Igreja de Roma. Nós, devotos filhos vossos, o Abade de Alcobaça, o Prior de Santa Cruz de Coimbra, o Prior de S. Vicente de Lisboa, o Prior de Santa Maria de Guimarães, secular, e o Prior de Santa Maria de Alcáçova de Santarém, e os Reitores das Igrejas de S. Leonardo de Atouguia, de S. Julião, e de S. Nicolau, e Santa Iria, e Santo Estêvão de Santarém, de S. Clemente de Loulé, de Santa Maria de Faro, de S. Miguel e Santa Maria de Sintra, de Santo Estêvão de Alenquer, de Santa Maria, S. Pedro e S. Miguel de Torres Vedras, de Santa Maria de Gaia, da Lourinhã, de Vila Viçosa, da Azambuja, de Sacavém, de Estremoz, de Beja, de Mafra, e do Mogadouro, beijamos devotadamente vossos pés bem aventurados. Como a Real Alteza importa não só ornada com as armas se não também ornada com as leis, para que a República possa ser bem governada no tempo de guerra e paz, porque o mundo se alumia pela ciência, e a vida dos Santos mais cabalmente se informa para obedecer a Deus e seus Mestres e Ministros, a Fé se fortalece, a Igreja se exalta e defende contra a herética pravidade (maldade) por meio dos varões eclesiásticos, por todos estes respeitos, nós, os acima mencionados, em companhia de pessoas religiosas, prelados, e outros, assim clérigos como seculares dos Reinos de Portugal e Algarve, havida plenária deliberação no caso, intervindo a inspiração divina e movendo-nos a particular e comum utilidade, considerámos ser mui conveniente aos Reinos sobreditos e a seus moradores, ter um estudo geral de ciências, por vermos que à falta dele, muitos desejosos de estudar e entrar no estado clerical, atalhados com a falta de despesas e descómodos dos caminhos largos e ainda dos 20

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